Orientação para o Estudo de Astrologia Medieval

Robert Zoller

Tradução
Clelia Romano, DMA

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O que é Astrologia Medieval?

Astrologia medieval é a astrologia praticada desde aproximadamente 750 DC até a Renascença, cerca de 1500 D.C., primeiramente pelos astrólogos Árabes e Persas; depois mais tarde (depois de 1100) por astrólogos da Europa Ocidental e astrólogos do Império Bizantino (no Leste).

A astrologia que vinha sendo praticada no Império Romano do primeiro até o sexto século D.C. era criação de filósofos de língua Grega. Estes “Gregos” basearam suas criações nos presságios folclóricos que vieram desde séculos antes de Cristo e transmitidos a eles através de fontes Egípcias, Babilônicas e Persas.

Por volta do século quarto D.C. a astrologia foi reconhecida como ciência e influenciou muitas religiões no Império Romano.

Depois da queda do Império Romano Ocidental, em torno de 500 D.C. e do aparecimento dos reinados bárbaros da Europa Ocidental (isto é, Itália, regiões da Península Ibérica dos atuais Espanha e Portugal, Gália/França, Alemanha, países baixos da moderna Holanda, Bélgica e Luxemburgo e as Ilhas Britânicas) a tradição astrológica foi interrompida no Ocidente e na Europa Central.

Enquanto isso, no Império Romano Oriental (chamado de Bizantino) que sobreviveu ao Império Ocidental, a astrologia não foi muito melhor sucedida. Ali, pelos dois séculos seguintes, a visão política e religiosa quase suprimiu totalmente a prática da astrologia. O Latim permaneceu como língua falada no Ocidente, mas o grego era a linguagem do Oriente no Império Bizantino.

No sétimo século os Árabes Muçulmanos conquistaram o Oriente Médio e em torno de 711 D.C. eles estenderam seu império da península Ibérica no Ocidente até a Índia no Oriente. O Árabe era a linguagem falada nesse novo regime.

No entanto, no oitavo século, os governantes Árabes do mundo Muçulmano encorajaram seus intelectuais a aprender Grego e a absorver a tradição científica dos Gregos, Persas e Hindus. Dessa forma, a astrologia Grega, junto a outras ciências gregas tornou-se um fato importante para a ciência Árabe-Islâmica.

Nota Importante: quando se discute astrologia Arábica ou Grega ou Latina devemos estar cientes do seu significado. O termo Árabe, Grego e Latino não se referem á etnia ou religião dos autores dos textos astrológicos, mas exclusivamente à linguagem que usavam. Em regiões Muçulmanas a linguagem dominante era o Árabe e assim falamos em astrologia Árabe. Nas regiões de língua Grega do Império Bizantino temos a astrologia Grega e a astrologia Latina do Ocidente.

Este estudo focaliza técnicas advindas de textos Latinos. Alguns deles são traduções em Latim de trabalhos Árabes datados do século oitavo, que eu e alguns outros estudiosos traduzimos para o Inglês. Outros eram trabalhos Middle English1 enquanto que ainda outros que vamos abordar são traduções para o Inglês de textos Gregos datando dos primeiros séculos da era Cristã. Alguns desses trabalhos, particularmente aqueles de Firmicus Maternus2 e o Líber hermetis3 contem material possivelmente datado dos primórdios de 200 AC.

1 Middle English é o Inglês falado por volta de 1400 DC na Grã Bretanha.
2 Mathesis em oito livros. Firmicus, ainda que escrevendo em Latin Africano era Siciliano (provavelmente de Siracusa) e era fluente em Grego. Mas como foi observado é primeiramente chamado de um trabalho Latino porque foi escrito em Latim, e não por causa de etnia do autor de fontes (Gregas) nas quais ele largamente se apoiava.
3 Liber hermetis trimegisti in Abhandlungen der Bayerischen Akademie der Wissenschaften (Neue Folge) 12,1936, ! Neue astrologisches texte des Hermes Trimegistos” von Wihelm Gundel.

Todos estes trabalhos em conjunto deram-nos a visão compreensiva que necessitávamos para sintetizar e inteiramente compreender a astrologia Preditiva. Em conjunto, o material apresentado neste curso representa a tradição astrológica de cerca de 200 AC até 1700 DC. Nós os distinguimos pela linguagem em que foram comunicados, mas agindo de tal forma devemos entender que as fontes sobre as quais se fundamentam estão freqüentemente interligadas.

Por aproximadamente seiscentos anos (500-1100 D.C.) a prática da astrologia era severamente restringida no Ocidente Latino. Havia diversas razões para tal, mas uma das mais importantes era que, seguindo o declínio do imperium Romano Ocidental em 500 D.C. houve uma falta de educação matemática nessas terras Cristãs Ocidentais. Então, por volta de 1100 o Ocidente acordou para a necessidade da ciência, da mesma forma que o Muçulmano Oriente acordara no oitavo século. Estudiosos do Ocidente descobriram que o Oriente muçulmano tinha cultivado a astrologia e ciências relacionadas durante aqueles séculos em que o Ocidente tinha perdido sua ciência e assim começou-se a traduzir para o Latim os textos científicos dos Árabes. O império Bizantino também reviveu seu interesse em astrologia neste momento. O resultado foi um renascer de interesse em astrologia no Ocidente Latino. Este interesse permaneceu forte durante os três séculos seguintes até a Renascença (15º – 16º século) quando reapareceram estudos em língua Grega voltada para uma re-apreciação dos textos e técnicas astrológicas Gregas.

Na Renascença este aumento da atenção devotada ao estudo dos textos astrológicos Gregos de Ptolomeu e outros coincidem com a ameaça política e militar séria por parte do expansionismo dos Turcos Muçulmano e contribuiu para o repúdio de tudo que fosse “oriental”, isto é, Árabe, Turco ou Muçulmano. O expansionismo Turco ameaçou a própria existência da Civilização cristã Ocidental. Por volta de 1500, os Turcos tinham a Europa Central e controlavam os Balcans, Transilvânia, Hungária, Wallachia, Moldavia, Bulgária, e o que é a moderna Macedônia, România e Bessarabia. Eles reinavam virtualmente em qualquer lugar, da mais alta costa do Adriático (exceto a estreita faixa de costa que Veneza reteve) assim como a Síria, Iraque, Egito e Norte da África até o oeste da Algéria e partes da Rússia. A Europa Ocidental estava efetivamente isolada do Oriente, tanto culturalmente como economicamente. O tom pró Grego/anti-oriental da época levou os astrólogos ocidentais a olhar para Ptolomeu e para os recursos astrológicos gregos como ajuda para afastar os pátina Árabe do que eles acreditavam ser uma astrologia superior e imaculada: a Grega.

Esta tentativa de reformar a astrologia através do retorno às suas origens Gregas começou no século 15 com a critica da teoria e pratica astrológica contemporânea (Disputatio contra astrologiam divinatricem4 de Pico della Mirandola). Isto levou, na ultima parte do século quinze e no dezesseis à traduções do original Grego para o Latim do Tetrabiblos de Ptolomeu: Quadripartium Indiciorum opus Claudi Ptolemei Pheludiensis ab Joane Sieurro Paris 1519 e a edição5 de Philip Melancthon em 1553 dessa obra também usando o titulo em Latim Quadripartium. Antes do século 15, o Tetrabiblos de Ptolomeu era conhecido só em traduções do original Grego para o Árabe e daí para o Latim6.

 4 Pico della Mirandola, Opera Basel 1572
5 Para saber mais sobre os interesses de Melancthon veja Thomdike. History of Magic and Experimental Science, Columbia U. Press, NY. 1911, V.pag.378-405
6 A primeira tradução do Tetrabiblos ou Quadripartitum parece ter sido feita por Plato de Tivoli aproximadamente em 1138 e com adicional tradução do comentário de Haly, um século depois.

As traduções árabes eram vistas como corrompidas pela interpolação de material não encontrado no original Grego escrito por Ptolomeu. Pouco a pouco as práticas de astrologia medieval não correlacionadas com antecedentes Gregos passaram a ser vistas com suspeita e foram simplesmente abandonadas como distorções da dita mais pura e de certa forma melhor astrologia Grega.

O século dezessete viu a Revolução Científica na Europa Ocidental, durante a qual os avanços em matemática, físicas e química moderna deram a muitos Intelectuais Ocidentais a impressão de que em um futuro não muito distante todos os mistérios da Natureza seriam desvendados através da razão e da ciência experimental. No campo da Astronomia, a teoria Heliocêntrica de Copérnico (1473-1543) primeiramente publicada em 1543 (De revolutionibus orbium coelestium) ganhou ampla aceitação, e com isso a Cosmologia Geocêntrica Medieval baseada em Ptolomeu foi vista por muitos como inverídica.

Isto trouxe maiores dúvidas a respeito da astrologia Judicial (a leitura de horóscopos de indivíduos e nações com o propósito de predizer seus destinos) que se baseava tradicionalmente sobre o geocêntrico modelo astronômico de Ptolomeu. Agora parecia que sua base astronômica tinha sido descartada. Na Europa ocidental a astrologia Judicial foi decrescendo até cessar entre 1650 e 1700.

Na Inglaterra ela continuou, mas de uma forma simplificada. O razão para tal ressurgimento na Inglaterra não é inteiramente certa, mas o que é claro é que durante o Iluminismo do século 18, quando os filósofos Europeus e Ingleses declararam o advento da Idade da Razão, os astrólogos foram chamados por tais racionalistas a expressarem os princípios de sua Arte em termos científicos. Isto foi uma linha seguida pelas gerações posteriores de astrólogos e vem até os dias de hoje7.

 7 VejaZoller, The Occult Sciences

Tal imposição era impossível para os religiosos. O cristianismo se baseia na expressão da crença e da fé, ao invés da razão. Os religiosos NT (especialmente os protestantes) esforçavam-se para tornar sua fé tão racional quanto possível. E fizeram tal coisa aceitando que as leis naturais descobertas pelos cientistas eram parte da Lei de Deus e pela articulação de princípios filosófico/teológicos construíram algo como a “Religião Natural” e a Filosofia Idealista.

NT Aqui a tradução foi literal, mas envolve alguma confusão, e o que R. Zoller parece querer dizer é que houve um esforço para os Cristãos se adequarem ao racionalismo vigente.

Sob a mesma pressão vinda da emergente crença na razão e na ciência, a maior parte dos astrólogos dividiu-se em dois campos: O Científico e o Hermético. O primeiro despiu a astrologia tanto quanto possível dos aspectos não astronômicos (por exemplo, as partes Árabes e signos) e distinguiram a astrologia Natural (a predição do tempo, terremotos, epidemias, erupções vulcânicas, etc.) da astrologia judicial (a qual foi desclassificada a ponto de ser pouco mais que a “leitura da sorte”)8. No entanto, por mais severa que fosse sua reconstrução na tentativa de tornar a astrologia científica, a astrologia Natural falhou em seu objetivo de ser reconhecida pelos cientistas como ciência. Enquanto isso, os astrólogos Herméticos continuaram a prática de talismãs astrológicos, predição, espiritismo, magia e alquimia. Esta astrologia Hermética foi posteriormente incorporada na Retomada do Oculto no final do século dezenove e largamente contribuiu para a astrologia ser banida como superstição.

8 A astrologia Natural continuou a florescer durante os primeiros trinta anos do século dezenove na Nova Inglaterra.

Infelizmente para os astrólogos Herméticos o mundo estava mudando depressa. O século dezoito viu a revolução Francesa e a Revolução Industrial com seus dramáticos resultados que tanto alteraram a sociedade Européia. Como resultado direto o papel do astrólogo na sociedade mudou.

Nos séculos anteriores muitos astrólogos eram médicos, lingüistas e matemáticos. Possuíam alto nível educacional9, conheciam teologia, filosofia e astronomia visual. Trabalhavam para a igreja e para a aristocracia, ambos a classe governante daquele tempo. Guido Bonatti, cujo trabalho deu estrutura a esse curso, era ele mesmo nobre e fazia predições para padres para saber se acaso se tornariam bispos, cardeais e até Papas. Ele também aconselhou reis e membros da aristocracia, do exercito, a respeito de assuntos da economia e públicos.

9 Na Idade Média, o astrólogo era usualmente clérigo ou pelo menos educado pela igreja. Isto ocorria porque havia poucas oportunidades de instrução fora da Igreja. Sem instrução não se pode ser astrólogo (o que é ainda válido hoje). Em principio instrução era primeiramente ler e escrever e matemática rudimentar. No século doze, a instrução matemática foi incrementada e no século seguinte encontramos o astrólogo e monge franciscano Roger Bacon exortando o Papa a enfatizar a matemática como parte da educação Cristã. Podemos também ter em mente John Dee advogando que um programa similar de matemática fosse ensinado na Inglaterra, em 1500.

Na idade Média a sociedade era baseada numa economia agrária e mercantil. Isso significa que muita gente era empregada rural e vivia no interior. Bonatti refere-se a eles como rustici, populares, vulgus10. Havia também uma crescente classe média naquele tempo, especialmente nas cidades, que viria a dominar o interior agrícola e emergir como centros de maior influência. Membros dessa classe média tornaram-se ricos e poderosos (Bonatti refere-se a eles como magnates, isto é, grandes homens) e requisitavam os serviços de astrólogos.

10 Guidonis Bonatti Liber Astronomiae 1550, especialmente na Parte III, colunas 491-625.

A Reforma Protestante (século dezesseis) quebrou o poder da Igreja Católica Romana no Norte da França e Inglaterra. Isso criou nas áreas Protestantes um clima político favorável à busca da ciência secular.

A futura Revolução francesa (1789-1804) e a era Napoleônica que a seguiu reduziu ainda mais severamente o poder do Papado nos países Católicos, por ter despido as igrejas de bens, severamente reduzido o Estado sacerdotal em tudo, menos erradicado a nobreza. A clientela tradicional do astrólogo, a aristocracia e a hierarquia da Igreja estava desestabilizada e assim o papel e influência do astrólogo foram alterados. Aqueles que continuaram a praticar a astrologia tiveram que se adaptar aos novos tempos trazidos pelo crescimento do Estado Industrial moderno.

Desde 1804, a troca de poder ocorreu mais em favor da burguesia, que se tornou o foco da nova economia e da nova política. Na mesma época aumentou o grau de instrução entre os mais numerosos trabalhadores urbanos, levando ao nascimento da astrologia pop que reflete os interesses de uma estrutura social nova. Foi-se a astrologia Medieval como conselheira militar, teológica, filosófica e científica. Cada vez mais astrólogos eram chamados a voltar-se para os interesses da classe trabalhadora.

A educação nesses novos tempos era humanista, racionalista e dominada pela necessidade de engenheiros, trabalhadores, homens de negócio, mão de obra, gerentes e banqueiros. Os estudos clássicos (incluindo o estudo do Latim, Grego, Hebreu e coisas antigas) e as Artes Liberais ficaram reduzidas ao interesse dos ricos. Formar-se em filosofia não era um caminho para a riqueza nesta nova sociedade. Tudo que se podia esperar era tornar-se um professor de filosofia, adentrar a teologia e pregar ou possivelmente ser publicar uma obra.

A ênfase era na indústria e no dinheiro da economia.

O empurrão educacional do século dezenove incrementou o que havia começado em gerações anteriores. Havia um continuo distanciamento do tipo de estudos que poderiam ter facilitado o acesso aos textos primários tanto de astrologia Grega como da astrologia Medieval Arábico-Latina. Um resultado direto disso foi que, quando houve novamente interesse na astrologia, na ultima metade do século dezenove, havia poucos astrólogos com aptidão lingüística e matemática necessária para ler os textos importantes.

Por volta de 1825 o novo interesse em astrologia e em outras ciências ocultas começou a florescer na França e Alemanha dinamizado pelas crescentes dúvidas sobre a “habilidade da razão” para resolver os problemas do ser humano e de cada mistério da natureza. Kant questiona em sua Critica da Razão Pura (1781) se a razão por si mesma pode apreender o Absoluto (a palavra-código dos Idealistas para Deus). A Intelectualidade Européia dividiu-se em dois campos depois da publicação de tal idéia. Podemos dividir esses dois campos em: os Racionais Materialistas e os Transcendentalistas (não confundir com o movimento Espiritual Americano de mesmo nome). O últimos são exemplificado pelos Poetas Swabian NT da Alemanha (especialmente Uhland. Richter e Kemer). Engels e Marx tipificam os primeiros, junto a alguns apologistas do capitalismo.

NT Swabian é um dialeto de uma região da Alemanha.

Os Materialistas Racionalistas aceitaram as conclusões de Kant e afirmaram que, desde que a razão do Homen não pode descobrir o transcendente11, ele, (o transcendente) deveria simplesmente ser ignorado. O destino humano seria planejar seu futuro através de suas próprias faculdades, isto é a aplicação da razão e da ciência materialista.

11 Transcendente era o termo que Kant usou para denotar aquilo que ultrapassa seus próprios atributos. Não era um objeto passível de experiência.

Os Transcendentalistas não aceitaram a ideia de que o transcendente estava além do conhecimento humano. Aceitavam a existência de uma faculdade supra-racional no ser humano (a intuição), que mostrava seu modo de operar na poesia, na arte, nos sonhos, nas experiências psíquicas e na magia. Em resumo, tudo que foi ignorado pela filosofia do Iluminismo que buscava frutos somente através da razão. Estes Transcendentalistas procuraram investigar os fenômenos mentais, sonhos, experiências místicas, mesmerismo e várias manifestações do “irracional”. O embrionário interesse em psicologia recebeu impulso desses pensadores. No entanto, os limites da habilidade criativa humana e a precisa definição do que significava “psicologia” não era de forma alguma apurada. Deste modo no século dezenove isso se refletiu no crescente interesse dos astrólogos pela “psicologia”, ainda que tal interesse tenha pouco a ver com o que é hoje conhecido como psicologia clínica. Até certo ponto existia uma fronteira permeável entre hipnose, sonhos, misticismo e magia. Mais tarde12 alguns Transcendentalistas tentaram construir a astrologia como uma arte oculta13 matemática NT.

12 A partir de 1840, mais ou menos.
13 Nos Estados Unidos e Inglaterra, esse movimento parece ter sido conectado com a Igreja Swedenborgian; possivelmente entre os não freqüentadores da Igreja ( isto é os que propunham as doutrina Swedenborg mas que não freqüentavam a igreja). Ebeneezer Sibly (1752-99) e seu irmão Manoah eram ambos Swedenborgianos e astrólogos. Veja:
NT Swedenborgianismo: crença no sistema desenvolvido através dos escritos do teólogo sueco Emanuel Swedenborg ( 1688-1772).

Astrólogos na Inglaterra do século dezenove parecem ter feito parte freqüentemente do que hoje chamamos de “cultura alternativa”. Muitos eram praticantes de homeopatia, herbalismo e defensores de várias outras ideologias progressivas, tais como o socialismo, abolicionismo, espiritualismo e teosofia. O mesmo padrão desenvolveu-se em outros estados ocidentais no final do século dezenove. Dessa forma a astrologia se tornou um veículo para a propagação de idéias alternativas sociais e médicas alem de política progressista.

Essa tendência tornou-se tão arraigada que continua não reconhecida na mente de muitos astrólogos e muitos aficionados à astrologia nos dias de hoje. Se eles reconhecerem cada idealismo político milenário NT, utópico ou idealista na astrologia contemporânea como um todo isto é afoitamente desdenhado como “Uraniano” ou “Netuniano” e permanece como um fator inconsciente colorindo seus julgamentos e senso de realidade.

NT Traduzi a palavra “millenariam” por Milenário que é a pessoa que pertence a um grupo social, político ou religioso que acredita que virá uma grande transformação social a partir da qual as coisas serão totalmente modificadas de forma positiva (às vezes negativa ou ambígua). Ex: Al- Qaeda, Testemunhas de Jeová, Nostradamus, Marxismo, Cristianismo etc.

Outros importantes desenvolvimentos do século dezenove foram as publicações de Charles Darwin, A Origem das Espécies (1859) e Descendência do Homem (1871). Esses dois livros geraram uma tempestade de controvérsias na segunda metade do século dezenove.

Propunham eles a teoria que a diversidade de espécies no reino vegetal e animal era o resultado da adaptação às condições do meio ambiente físico por vastos períodos de tempo e que os humanos descendiam dos primatas.

A teoria da Evolução foi proposta por Darwin (1809-1882) para explicar a diferença física entre espécies de plantas e animais. Herbert Spencer (1820-1903) estendeu14 este conceito de evolução para a sociologia e psicologia; daí algumas pessoas15 agora falarem de “evolução das sociedades” e de “evolução da consciência”. A Teoria da Evolução era atrativa para o racionalismo materialista, que procurava um principio de organização para os organismos (outro que não Deus) que poderia explicar o movimento a partir da indefinida homogeneidade até a definida heterogeneidade( por exemplo, desde um organismo unicelular até uma complexa e diferenciada criatura como o homem).

14 Principles of Psychology (1855), 3 volumes, 1876,1882,1896.
15 É uma prática comum entre estudantes de Escola Psicológica de astrologia desculpar a falta de habilidade dos astrólogos modernos em predizer em conseqüência da “evolução da consciência” como expresso por Liz Greene em Astrology and Fate, Londres, 1984. Essa opinião é freqüentemente escutada por seguidores de Marc Edmund Jones, que afirmou que a astrologia não tinha nada a ver com predição, mas com potenciais.

Veja: Astrology, How and Why It Works, pag.248-249, Dane Rudhyar, The Astrology of Personality, originalmente lançado em 1936, Aurora Press 1991, Santa Fe, Mexico, pag.401 e seguintes.

A Teoria de Evolução de Darwin-Spencer era tão atrativa e progressiva para os ocultistas e astrólogos que por volta de 1875 defensores da filosofia oculta e esotérica tais como Madame Blavatsky (1831,Rússia- 1891, Londres) acharam necessário dar ao conceito de evolução um papel central em seus ensinamentos. Em torno de 1880 a “Order of Magi”, baseada em Chicago, ensinava que o socialismo seria inevitável nos Estados Unidos por volta de 1940 em conseqüência das forças combinadas da evolução, astrologia e matemática. Cem anos depois os Estados Unidos é ainda capitalista, mas a idéia de “evolução” é essencial à astrologia e inquestionável por muitos astrólogos americanos16.

No século vinte, a astrologia Ocidental tinha se tornado na melhor das hipóteses uma ferramenta secular humanística nas mãos de Utópicos teóricos e na pior simples divertimento. Divorciada do ponto fundamental de descrever o que existe e forçada a disfarçar predições políticas do que iria acontecer, a astrologia tornou-se um exercício evangelizador do que poderia acontecer.

16 Ver: Marc Edmund Jones, Occult Phlosophy, originalmente 1947, 1977 e por Shambala Publications, Bouler Colorado, pag.264,273,282, 346-7.
Veja: Plutão, A Jornada Evolutiva da Alma, de Jeff Green, Liwellyn, 1994.

O advento a astrologia Psicológica (em particular “Junguiana”) levou muitos astrólogos a se distanciarem da confrontação do que objetivamente é, no reino interior, subjetivo, psicológico adornado de oportunos símbolos e arquétipos de sub-doutrinas sociais, políticas e “espirituais”. Neste labirinto, um símbolo é usado para explicar outro numa infinita involução que raramente é ligada à firme realidade. Neste clima, a astrologia Ocidental (psicológica) perdeu totalmente qualquer capacidade de descrever a realidade objetiva e de predizer o futuro.

No final do século vinte a astrologia Ocidental reconhecida tinha ido tão longe quanto podia no cul de sac NT de excentricidades e psicologia e, dada aos políticos e sociais eventos da idade pós-moderna, não era mais útil à sociedade com veiculo disseminador de visões sociais progressistas. A retomada que a astrologia Medieval e Antiga teve nos últimos vinte e cinco anos do século vinte pavimentou o caminho para uma revisão da questão metafísica de como a realidade objetiva acontece, de onde ela vem e para onde vai. Esta reapreciação envolve uma reconsideração de filosofias como o Neo-Platonismo, Idealismo, Materialismo e Kabbalah, assim como a investigação do testemunho dos místicos e das teorias de Pitágoras. Isto também dirige aqueles com mente inquisitiva para os trabalhos dos mais antigos e proeminentes astrólogos que estudaram essas matérias com freqüência séculos atrás.

NT Palavra usada na Inglaterra quando os aristocratas falavam francês ou catalão: significa ”beco sem saída”.

Essa retomada da astrologia Medieval e Antiga foi em parte facilitada por recentes mudanças dentro do mundo acadêmico Ocidental, particularmente nas disciplinas de História e Filosofia da Ciência18. Uma vez mais estamos descobrindo que a astrologia, a alquimia e a magia são assuntos aceitáveis para instituições acadêmicas e históricas e pesquisadores sociais19. Paralelo a isso tem havido atividades extracurriculares de estudiosos operando fora das maiores instituições acadêmicas. Alguns deles (e eu me incluo aqui) são astrólogos trabalhando regularmente e que buscam bona fide NT técnicas astrológicas que dêem à teoria aplicações práticas. Outro tem sido não convencionais, filósofos quase anarquistas, buscando uma derrubada das regras filosóficas preparando terreno para dar lugar a uma “Virada de Padrões” NT.

O importe de irrelevantes ideologias sociais e políticas para a astrologia, assim como a inserção de teorias psicológicas foi uma coisa perniciosa para ela. O problema não é se tais teorias têm mérito ou não, mas elas não são astrologia, e adulteram o estudo astrológico com seus próprios pré- requisitos que impedem o aprendizado central de como delinear e predizer astrologicamente. Uma pessoa pode ser um ótimo socialista ou capitalista e praticar a astrologia, mas isto tem que ser um papel secundário na aprendizagem da astrologia. Dizendo de outra forma, o menor serve ao maior. Neste caso o maior é a astrologia, que pode ser usada para entender as forças encapsuladas nos sistemas econômicos e ideologias, enquanto que o reverso não é verdadeiro.

18 Cardan de Milão (16th seculo) é um bom exemplo disso.
19 Chegamos até o estágio de encontrar estudantes de astrologia publicando livros através de instituições lideres. Cardano´s Cosmos de Anthony Grafton (professor de história de Henry Putman na Universidade de Princeton) é um bom exemplo disso.
NT Com boa fé.
NT No texto “Paradigm Shift”.

A astrologia é um estudo separado e demanda uma abordagem singular, devendo ser buscada por si mesma. Suas causas repousam no eterno e não no temporal. É sempre subestimado o fato de que assuntos modernos embora importantes e convincentes no momento não são necessariamente de importância eterna. Um exemplo disso é a briga medieval entre os Guelfos e os Guibelinos20, uma amarga rivalidade naquele tempo, mas hoje em dia esquecida, da mesma forma que nossos atuais problemas políticos o serão. No entanto, desde que a astrologia lida com causas eternas e universais ela vai continuar e permanecer.

20 Os Guelfos e os Guibelinos eram facções políticas rivais na época Medieval. Os Guelfos eram a favor do Papado e os Guibelinos, do Santo Império Romano.

A psicologia não é nada além de uma lente mais recente trazida para lidarmos com ela. Como disciplina ela pode ajudar pessoas, mas permanece um objeto separado da astrologia e transplantá-la para a astrologia, fazer disso um ato de fé, fazer com que ambas, astrologia e psicologia, se tornem uma só, é um desserviço para as duas. Porque isso retarda e obstrui o completo entendimento de cada uma delas. Então, não importa a partir de qual posição você começa sua aproximação com o material desse curso, espera-se que você aprenda astrologia em primeiro lugar e afaste-se tanto quanto possível de outras matérias.

Quando consideramos a interface entre astrologia e filosofia ou espiritualidade o assunto é diferente. Mesmo assim, ainda é melhor aprender astrologia primeiro; filosofia/doutrinas espirituais em segundo lugar, ou pelo menos separadamente. Entretanto, por razões que ficarão claras conforme você for praticando a astrologia Medieval, alguma espécie de sistema espiritual parece ser essencial para a pratica apropriada da astrologia. Isto é devido a que, embora a astrologia não tenha uma doutrina espiritual própria, a prática da astrologia nos leva eventualmente a reconhecer a necessidade de uma. Entretanto, historicamente, a astrologia Medieval tem seus fundamentos filosóficos e metafísicos no Hermeticismo, no Neoplatonismo e na Kabbalah. Não penso que seja sábio recomendar ou apoiar uma visão espiritual como melhor que outra.

Cada um de nós tem que decidir por si só que rumo filosófico é certo para si. Por exemplo, aprendendo sobre a relação do Neoplatonismo com a astrologia não implica na aceitação do Neoplatonismo como seu caminho espiritual ou filosófico. O que cada um de nós precisa é de um caminho espiritual determinado, um guia para a verdade universal e eterna e um método que possibilite tomar consciência de Deus e encontrar o entendimento de nosso verdadeiro Eu. É prudente, no entanto, que quem procura conectar a astrologia com uma direção espiritual e filosófica, selecione uma que não rejeite a astrologia caso contrário será criada confusão. Confusão também surgirá quando a formação ou preconceitos da pessoa lhe dizem que a previsão é impossível A duvida se apresenta se você acredita que, apesar de sua carta natal, você pode ser qualquer coisa que você quiser. Neste ultimo aspecto, é óbvia a contradição inerente, já que uma pessoa não pode manter o ponto de vista que a carta natal tem a chave para o “destino” pessoal e de outro lado dar peso ao ponto de vista oposto, isso é, que não importa o que seu horóscopo apontar, você terá o poder de impedi-lo.

Como vimos acima na breve história da astrologia, houve grandes mudanças. Tão grandes que aqueles que muitos entre nós reverenciamos como especialistas em astrologia não reconheceriam como astrologia a que é praticada comumente nos dias de hoje. Então, o estudo de como a astrologia se desenvolveu é muito importante porque ele diz onde estamos. E é só através de saber onde estamos que poderemos decidir aonde vamos e por que. Nosso futuro como astrólogos e inclusive o futuro da própria astrologia Ocidental está na direção do retorno a suas origens e na reaparição da prática de predição.

Aqueles de vocês que são entusiasmados com suas crenças e até vanguardistas NT vão precisar abandonar artificialismos astrológicos espúrios e espiritualidades “alternativas” que criam barreiras que anuviam a mente com banalidades e teorias não comprovadas. Significará abraçar um novo ponto de vista e ter um olhar novo para velhos problemas. Para muitos isso vai necessitar muita coragem, energia e memória (isto é, atenção) porque vai ser esperado que se reconheça muitas vezes na carta natal o que é isto e como é no aqui e agora da carta natal. Só dessa forma você vai chegar a ver o destino trabalhando.

NT no original “avant garde”

Contrário a muitas crenças populares o destino não é algo que deve sempre ficar nos limites da teoria mas é algo que pode ser testado e para isso a prova deve ser buscada. A astrologia, talvez mais além de todas as ciências ocultas, mostra como encontrar tal prova, e sua busca é uma parte essencial do seu ensinamento. Só reconhecendo que estamos sob a lei dos céus seremos capazes de escapar de nossa prisão astral e verdadeiramente começar a se aproximar da Sabedoria.

A Sabedoria tem três requisitos: Temor a Deus, Conhecimento do Eu e Amor ao próximo.

Temor a Deus é o reconhecimento de que estamos atados na prisão de nossa constelação astral.

Conhecimento do Eu é a consciência imediata, duradoura da parte de nós que está acima da constelação astrológica, indeterminados, amantes e livres.

Amor ao próximo chega inevitavelmente, sem esforço e é imediatamente ligado ao conhecimento do Eu como o reconhecimento do Eu em outros.

Sabedoria estabelece relacionamentos corretos, justiça, apoio mútuo, e conhecimento de todas as coisas boas, vida longa e liberdade.

Os ensinamentos Herméticos referem-se ao Homem como um ser duplo. Sua parte material é regida pelo destino. Sua parte divina é livre. Aquele que quiser ficar livre do destino tem que cultivar a última parte. Este é o fulcro da Sabedoria Hermética.

Sabedoria é a chave da masmorra do destino na qual vivemos. Através da Sabedoria, o sábio pode escapar do horóscopo e do governo do destino. Ele tem que confrontar ainda os fatos de sua existência física. O corpo continua sujeito à lei das estrelas. Ele permanece ainda conectado ao que o horóscopo configura. Mas tendo obtido Sabedoria, ele atingirá liberdade também. Ele sabe que ele não é seu corpo e que ele é indeterminado e não é regido pelo destino.

Então retornamos à nossa preocupação central: O que é Astrologia Medieval?

Astrologia Medieval é a astrologia de Masha´allhah (cerca de 740- 815) Abu Mashar21 (787-886 DC) e Guido Bonatti (1223-1295)22, Marcilio Ficino (1433-1499), Nostradamus (1503-66), John Dee (1527-1608), entre outros que você vai conhecer. É a astrologia como elevada ciência, antes de ter sido remendada e corrompida em nome da “reforma”. Trata-se de uma Arte oculta em seu verdadeiro sentido. Oculto é o que permanece escondido. As causas da influência astrológica (o que a faz funcionar) permanecem ocultas de nós.

21 Abu-Mashar Prince of Astrologers
22 Guido Bonatti

Seus fundamentos filosóficos devem ser procurados no Hermetismo e no Neo-Platonismo; especialmente nas tradições Neoplatonicas, Árabes e Judaicas. Mais tarde vamos examinar algo sobre isso no Corpus Hermeticum23, nos trabalhos de Avicena (980-1037)24 e em Fons vitae de Aviceron (1021?-1058?). Além disso, tais fundamentos apóiam-se na Kabbalah25.

23 Veja os artigos de Zoller em Inglês: Hermetic Tradition
24 Veja: Avicenna, Methaphysica sive Prima Philosophia (Veneza 1495).
25 Kabbalah é a tradição secreta entre os Judeus. Sua antiguidade é controversa. Fontes Judaicas dizem que é muito antiga. A Cabala Cristã, na Renascença quando alguns Cristãos, acreditando que os Judeus tinham uma profunda Sabedoria a ensinar, buscaram a mesma e estudaram com professores Judeus. A literatura Kabbalística é rica em tradição mística, teológica, filosófica e pré-científica, encoberta por alegorias e linguagem obscura.

A Astrologia Medieval, sendo anterior à psicologia, não tem psicologia nela (no moderno sentido da palavra). A astrologia Medieval não dá atenção ao caráter do nativo ela identifica a Motivação Primária do nativo. A astrologia Medieval também se desenvolveu antes da teoria Evolucionista, portanto não faz menção a ela.

Essa falta de inclusão daquilo que é visto na era Moderna como uma doutrina central pode soar como errado, tão imiscuída tornou-se nossa consciência à equação de “progresso” e evolução. Para muitos a crença de que as coisas automaticamente “evoluem” é um ponto de fé. Ainda, esse fato não é auto-videnciado. Trinta anos observando clientes, o mundo e eu mesmo, mostraram-me que o caráter individual, o comportamento e pelo menos as linhas gerais de sua vida estão acuradamente descritas na carta natal.

O nativo vive sua própria vida, ou sua história de vida, que está toda ela na carta natal para qualquer um ler (se consegue). Eu não conheço a razão disso, mas na prática tenho que ver que é inegável que nós temos um destino ou um fado, e que eles estão estampados em nossa carta natal. A astrologia Medieval nos dá uma forma de conhecer nossos destinos, isto é, nossas “constelações” pessoais.

Esta “constelação” está de certa forma em nós, trabalhando de dentro para fora. Esta é a rede particular invisível, a teia ou concatenação de aspectos do ser que a disposição ou configuração dos planetas, estrelas, luminares (Sol e Lua) significam nos signos zodiacais ao tempo de seu nascimento. Ao mesmo tempo ela interage com os céus externos de forma que em cada um de nós o interno e o externo estão ligados. Paracelsus (1493? -1541) parece ter reconhecido tal coisas porque ele diz: “o céu dos microcosmos” e o “céu do macrocosmo”26.

26 A respeito da doutrina de Paracelsus veja “The Hermetic and Alchemical Writings of Paracelcus”, ed. A.E.Waite, Univertsity Bools, NY, 1967, vol ll, pag.289

A prática da delineação astrológica Medieval e a difícil aplicação de suas técnicas preditivas erradicam as dúvidas a esse respeito. Deixa claro que os Gnósticos e místicos estavam certos. Nossa constelação é nossa prisão espiritual e a astrologia natal é meramente a planta dessa prisão. Espiritualmente, tudo que alguém pode esperar da planta é o conhecimento de onde estão as saídas, as rotas de escape.

A astrologia por si mesma não tira ninguém da prisão. Esse é um assunto para a religião, filosofia e práticas espirituais, ou se preferir, da Ciência Espiritual. Enquanto verdadeiro que a astrologia nos leva à consciência da existência necessária de uma mais alta Inteligência que a nossa, ela não pode em si mesma levar-nos às portas do paraíso. É importante ser claro a respeito disso, porque se esperarmos que a astrologia nos liberte das adversidades da vida encarnada, vamos desperdiçar nossas vidas procurando alguma coisa que não existe.

O que a astrologia pode fazer é descrever antecipadamente as características de nossa vida encarnada. A acurada delineação da figura natal pinta nossa realidade objetiva. Responde a questões: “Vou me casar?”, “Vou ter filhos?” ou “Que tipo de profissão terei?” “Como estão minhas finanças este ano?” “Vou ser preso? ou “Como está minha saúde?”

 A astrologia natal tem sido usada tradicionalmente de três formas: para descrever antecipadamente o que vai acontecer em nossas vidas, para tentar manipular a realidade na qual vivemos e para explicar as causas espirituais escondidas por detrás dos fenômenos de nossa vida. Esta tentativa de manipulação da realidade é equacionada à magia e como tal é cheia de dificuldades e perigos internos. Muitos astrólogos tropeçaram nessas armadilhas.

Eles seriam mais bem aconselhados se seguissem a astrologia como um caminho filosófico levando ao conhecimento da Unidade Universal do que do às excentricidades do “eu”.

Uma vez que a astrologia pode ser usada para descrever a realidade objetiva, ela foi muito usada em alquimia, que junto à magia, é uma importante Arte irmã da astrologia. Essas três Artes constituem a Trindade do Oculto: usadas em conjunto elas revelam a operação do Divino. Os Místicos-Magos Medievais da Tradição Picatrixiana asseguravam que “Magia é a operação do espírito sobre o espírito. A Astrologia é a operação do espírito sobre o corpo. Alquimia é a operação do corpo sobre o corpo”27

 27 Minha adaptação retirada do Picatrix (cerca de 1200 DC).

Textos Astrológicos Medievais

O estudo da astrologia medieval é baseado em textos. O que é estudado deve ser praticado. Quando examinamos sua tradição é primeiramente para eles que devemos voltar. A lista a seguir não é exaustiva, e uma vez que pesquisas adicionais continuam, está aberta para revisão, mas adequadamente enquadra o campo geral e provê uma Teia de Ariadne através de um labirinto cheiro de erro astrológico28.

28 Note que a lista não pretende dar uma completa resenha de astrologia hermética. A astrologia hermética que é conhecida por nós é muito mais numerosa e, enquanto muito importante sob o ponto de vista da Astrologia Helenística e para traçar o caminho da astrologia, ela não é tão importante para a tradição astrológica Medieval porque nem todos (NT: os textos) passaram pelos editores Cristãos e Muçulmanos.

Estes textos vão desde cerca de 200 AC até 1700 DC:

Nechepso-Petosiris (hoje perdido com apenas fragmentos remanescentes) Editado por Emst Riess em Nechepsonis et Petosiridis fragmenta in Philologus, suplemento 6, 1892, págs 326-388

Líber Hermetis, traduzido por Robert Zoller

Carmen Astrologicum de Dorotheus

Tetrabiblos de Ptolomeu

Mathesos libri Vlll de Julius Firmicus Maternus

Anthology de Vettius Valens

Thesaurus de Antiochus

Compendium Book de Hephaisto de Thebas

On Nativities de Masha´allah

On Stellar Rays, Alkindi, traduzido por Robert Zoller29

29 Al kindi by Zoller

Flores astrologicae e Abbreviation of the Introduction to Astrology de Abu Mashar

The Judgements of Nativities de Abu Ali Al-Khayyat

The Beginning of Wisdom e The Book of Reasons de Ibn Ezra

Liber Astronomiae de Guido Bonatti30

30 Tools & Techniques of the Medieval Astrologer

Veja também 146 Considerações em Anima Astrologica31

 31 Anima Astrologica

Tractatus astrologiae indiciariae de nativitatibus virorum et mulieru de Luca Gaurico

Speculum astrologiae de Junctinus

On the Judgments of Nativities de Schoner

Christian Astrology de Lilly

Astrologia Gallica de Morinus

Primum Mobile de Placidus

Algumas Diferenças Básicas entre as Modernas Variantes de Astrologia e a Astrologia Medieval

 No que diz respeito a esse assunto, por favor, deixe de lado pré-concepções, você vai saber a respeito do que constitui a astrologia. Summa scientiae nihil scire (a grande ciência é o não saber nada). A astrologia Medieval, embora parente da Moderna astrologia, difere dela numa quantidade fundamental de aspectos, mas a significantes diferenças a seguir devem estar em mente desde o começo.

1- Só os sete planetas visíveis, O Nodo Norte e o Nodo Sul da Lua e as estrelas fixas são usadas. Os planetas modernos (Urano, Netuno e Plutão), os planetas hipotéticos, as luas negras, asteróides, Lilith, Vulcano e um cortejo de outras coisas, embora essenciais para os astrólogos modernos, são simplesmente desconsiderados e não são usados.

2- Somente oito aspectos Ptolomaicos são usados (conjunções e oposições, dois sêxtis, duas quadraturas e dois trígonos)

3- As Partes Árabes são usadas.

4- Enquanto a astrologia Moderna usa somente duas dignidades (Regência e Exaltação) a astrologia Medieval usa cinco (Regência, Exaltação, Triplicidade, Termo e Face ou Decanato)

5- Existem regras específicas guiando a delineação.

6- Existem técnicas preditivas que não são usadas na astrologia Moderna.

7- A astrologia Medieval é uma astrologia Preditiva.

A Astrologia Medieval é Fatalista?

 Se a astrologia Medieval é fatalística pressupõe a crença num fado. Se as ações das pessoas são predestinadas, isto é, “fadadas” (a palavra “fado” vem do Latim fatum, aquilo que tem sido fadado) leva à questão: “Fadado por quem?”. Isso também implica em algum tipo de relacionamento entre fado e as circunstâncias e “acidentes” de uma vida. Tais circunstâncias são caracteres não essenciais de um individuo que o/a distingue de outros indivíduos da mesma classe (seres humanos). Os termos usados pela astrologia Medieval para tais circunstâncias é “acidentes” (alguma coisa que acontece para um individuo pela qual ele é conhecido como este ou aquele individuo desta ou daquela classe). Dizer que os eventos de nossa vida (os acidentes do nativo) estão “fadados” geralmente significa que eles foram “pré-ordenados” ou “determinados”. De novo isso pede a questão: Por quem?

Essas questões propriamente falando são questões teológicas, filosóficas e metafísicas. Como tais, estão fora do escopo de nosso estudo, que é a pratica da astrologia preditiva. Argumentos teológicos, filosóficos e metafísicos são freqüentemente elegantes, mas improdutivos, inconclusivos e não convencem; especialmente quanto lhe falta o necessário para resolver a duvida que aparece em debates desse tipo. Tenhamos que essa discussão mostra o quanto intimamente a astrologia é aparentada à teologia, filosofia e metafísica.

Duas coisas são necessárias para se estabelece que haja determinação, predeterminação ou destino em nossa vida: objetivo, observação sem viés dos eventos e do comportamento das pessoas por suficientemente longos períodos de tempo e a técnica da delineação e predição da astrologia Medieval. O primeiro requer atenção prolongada, que nem todos têm, mas que pode ser desenvolvida com a prática. O segundo nos provê de uma estrutura e de uma linguagem que nos permitem falar a respeito de destino. Uma razão pela quais muitas pessoas atualmente tem dificuldade em ver o destino é que tal conceito foi removido do pensamento moderno. Então, retornamos à astrologia Medieval como nosso instrumento para olhar para isso.

Para observar o trabalho do destino, temos primeiro que ver o que a pessoa é. Os acidentes do nativo são o que fazem dele/dela uma pessoa diferente das outras e a carta natal é um diagrama desses acidentes. A carta natal, ou figura, nos mostra a promessa natal, o “O que é..”. As técnicas preditivas da astrologia Medieval nos capacitam a testemunhar a periódica e ocasional manifestação de eventos prometidos na figura natal. A técnica preditiva nos dá “Quando é…”

Uma vez que você tenha visto as coisas sob este prima; uma vez que você tenha visto repetições incessantes semelhantes de padrões na figura natal como eventos nas vidas das pessoas ao seu redor, você não vai mais duvidar se existe destino ou não. Você vai inclusive aprender que o lado predestinado da existência humana não é a historia completa.

Os Ensinamentos Herméticos contidos no primeiro livro de Corpus Hermeticum32, chamado Poimandres ou Pymander33, I.15 nos diz que o homem tem duas dimensões. Ele é sujeito ao destino em sendo mortal, mas ele é elevado acima dos céus, sempre cônscio e imortal por ser o “Homem de Substância Eterna”. A realização desse “Homem de Substância Eterna” em nós é assunto de livros como Corpus Hermeticum e foi um ponto central de interesse por eras. Poucas pessoas sabem que dentro delas habita um ser divino que é imortal, livre, onisciente e sábio. Embora esse ser esteja em nós, poucos se conscientizam isso. Isto é, permanece (se a pessoa está ciente de tudo isso) meramente como uma ideia, uma opinião. Para que isso se torne realidade algumas coisas devem ser feitas, que não fazem parte de nossa rotina diária.

32 The Hermetica as Ancient Science e Hermetic Tradition
33 Library by Zoller

De novo, essas matérias pertencem a metafísica; não à astrologia. Existem disciplinas (como certas formas de Yoga ou práticas espirituais) que levam à realização desse ser dentro de nós. Esses assuntos são muito importantes, mas não são astrologia. A astrologia eminentemente a astrologia Medieval, primariamente trata da existência enquanto corporificada. Ela nos apresenta uma pintura incompleta do ser humano, embora ela possa dar dicas e direções para atingir o que o Picatrix34 refere como a perfeita Natureza; mas ela não o leva lá.

34 Picatrix, a versão em Latim de Ghayat Al-Hakim, editada por David Pingree, Londres, The Warburg Institute, 1986, LivroIII, capitulo 6, pag 108.

E então é a Astrologia Medieval Fatalista?

De um ponto de vista prático tanto quanto ela lida com a existência corpórea a resposta é “Sim”. No entanto, pelas razões dadas, esse fatalismo, enquanto uma atitude necessária para propósitos de predição, não é a palavra final sobre a natureza humana.

Na astrologia medieval esta afirmação não afirma nada que não seja afirmado pelas mais modernas ciências, que são determinísticas no sentido que, desde que lidam com leis, o resultado é determinado.

Por que Estudar Astrologia Medieval?

 Ou seja, a astrologia medieval nos possibilita predizer eventos nos assuntos humanos com bom grau de exatidão. Saber o resultado das coisas, eventos, pessoas, etc. é parte da Sabedoria. Nós a estudamos porque nos provê de um conhecimento astrológico que não pode ser encontrado em outro lugar. Proporciona-nos elos perdidos que necessitamos para restaurar a astrologia. Seu próprio estudo, sua aplicação e maestria dessas técnicas significam que estamos desempenhando um papel muito real e importante nesta restauração.

Sobre Predição

 Para a previsão astrológica ser possível há um numero de pré-requisitos. Mesmo seguindo tais requisitos é ainda um assunto difícil.

Em astrologia Natal, o que se aprende primeiro, é que toda predição deve ser antecedida pela delineação da figura natal. Nessa delineação temos que examinar tão precisamente quanto possível cada planeta, signo, casa, parte Arábica e outro certo numero de coisas. Não existe jeito de cortar caminho e um diligente estudo desde o começo vai trazer muitas compensações mais tarde. Deve-se concentrar desde o começo em como determinar os significadores de vários aspectos ou pessoas indicadas na carta. Uma vez que isso esteja corretamente realizado, e só então, se pode proceder à predição. A predição é só uma questão de quando um evento vai se manifestar. A chave da predição é a delineação.

Do acima citado fica aparente que qualquer coisa que obstruir um julgamento, que impeça de distinguir uma coisa da outra (por exemplo, o nativo como diferente de seu parceiro, ou o nativo como diferente de sua família, etc.) vai efetivamente impedir o julgamento, dificultar a delineação da carta. Sem delineação não há previsão.

Todas as teorias astrológicas que começam com o pressuposto que a carta natal é um diagrama de todo mundo interior do individuo e que cada casa representa as idéias do nativo a respeito das coisas (por exemplo, que a 7º casa = à idéia do nativo a respeito de parceria) obstrui sua visão da realidade do nativo. É necessário certificar-se dos propósitos centrais da realidade do nativo.

Igualmente se os planetas forem interpretados como arquétipos universais sem considerar devidamente sua posição (por signo e casa) então existirá uma falha em distinguir as diferentes ações do mesmo planetas em cartas diferentes. Coisas universais como fama (o Sol) ou amor (Vênus) não são vividas na vida materializada da mesma forma para todas as pessoas. Cada um de nós encontra as naturezas planetárias através de um prisma. Isto especifica a universalidade correspondendo às naturezas planetárias referentes a experiências particulares e eventos únicos da constelação natal do nativo (como explicado acima). A menos que se faça esta distinção desde o início de qualquer estudo, só atingir-se-á uma delineação pouco curada e superficial da carta. Então, novamente, sem delineação não há predição.

O Que Ganhamos com a Predição?

 Ganhamos conhecimento filosófico e espiritual de que a vida não é nem caótica nem ao acaso: existe uma Causa inteligente ordenadora. Ganhamos a habilidade de planejar o futuro. Ganhamos conhecimento e isso nos coloca e a nossos clientes num caminho de autoconhecimento que leva ao crescimento pessoal e espiritual (que se manifesta no plano físico também) e dessa forma nos obtemos realização, ou em uma palavra Sabedoria.

Conclusão

 Tudo que pode ser usado para um fim maior tal como a esta Arte pode ser (e é) desvirtuado, pobremente executado e usado para propósitos fraudulentos. Todos que praticam astrologia devem usar a astrologia somente para o bem da Humanidade. Se encontrarmos alguém, que a usa egoisticamente, estupidamente ou fraudulentamente, devemos distinguir imediatamente a Arte de quem a pratica. Corrija quem a está praticando. Preserve a integridade da Arte.

Se terroristas atiram aeronaves no World Trade Center isso significa que a aviação por si mesma é um erro e deve ser abandonada? Se um médico opera o lado errado do cérebro de um paciente isso significa que a cirurgia em si é um erro? A resposta a essas questões é clara: “Não”. A mesma lógica e sensatez se aplica à astrologia.

Quando defrontado com a decisão se quem está errado é o astrólogo ou a teoria, examine a teoria. A palavra de ordem aqui é “seja prático”. Não tome decisões baseadas na teoria somente, mas equilibre teoria e experiência prática. Observe. Não se guia por minha palavra a respeito, mas teste tudo você mesmo e com isso torne-se experiente.

A prática (especialmente nos primeiros estágios) é muito importante. Uma vez que se tenha aprendido a técnica, guarde-a na memória e então a pratique repetidamente. Aplique as regras que aprendeu a um mínimo de 200 cartas. Dessa forma, as técnicas se tornarão uma segunda natureza e qualquer um começará a ver por si mesmo, melhor do que eu digo, como elas devem ser aplicadas, e o que as instruções significam. Freqüentemente imaginamos que entendemos o que o professor quis dizer, mas às vezes não. Só depois, tendo praticado a Arte, as coisas se tornam claras.

Use tecnologia, como seu computador ou um software astrológico, mas aqui vai uma palavra de cautela. Se você vai usar um software esteja certo que ele é o melhor que você pode obter, Nesse campo há apenas um que vale a pena e é o JanusNT, produzido pela Astrology House. Lembre-se, porém que o programa não é uma desculpa para não ter o trabalho de aprender as técnicas e a matemática subjacente a ela.

NT O programa Janus, na época em que este curso foi escrito (2002), foi elaborado de acordo com os parâmetros da astrologia Medieval. Não estou à par se a nova versão continua fiel à versão antiga.

Aqui termina a Orientação!