A Relação entre o Saber Astrológico e a Filosofia Estoica

Na obra Astronômica, de Marcus Manilius

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Angélica Ferroni

Mestre pelo PEPG em História da Ciência, PUC-SP
História, imagem e narrativas No 21, outubro/novembro/2015 – ISSN 1808-9895
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Este artigo é baseado no segundo capítulo da dissertação de mestrado de A. Ferroni, Cosmologia e astrologia na obra Astronomica, de Marcus Manilius, desenvolvida no Programa de Estudos Pós-graduados em História da Ciência, PUC-SP, e defendida em 2007.

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Resumo

A proposta desse artigo é analisar a cosmologia e a compreensão astrológica do mundo presentes na obra Astronomica, de Marcus Manilius, através da identificação e discussão da relação entre o saber astrológico e a filosofia estoica ao longo dos versos desse poema romano, escrito no século I d.C.

A opção por identificar especificamente os traços do pensamento estoico presentes na obra se justifica pelo fato de o estoicismo ter sido uma das principais correntes de pensamento que ofereciam uma rede teórica na qual a astrologia pôde se reconfigurar e, por isso, ter contribuído para a formação e disseminação da astrologia ocidental, durante o período helenístico.

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1. Sobre o autor e a obra

Nada se sabe sobre a vida de Manilius. Nem sobre sua origem é possível afirmar nada certo, mas tende-se a considerá-lo de origem itálica.

Sua obra, a Astronomica, é um poema latino composto de cinco livros que versa sobre astrologia, mas parece estar incompleto, já que no Livro II Manilius anuncia que apresentará a natureza e influência dos planetas, mas até o final do Livro V não retoma esse assunto.

Não há consenso entre os estudiosos da Astronomica sobre o período exato em que a obra foi escrita. Se, por um lado, é reconhecido e aceito que Manilius tenha iniciado sua obra em torno do ano 9 d.C., quando Augusto era o imperador, há, por outro, um intenso debate em torno do ano em que ela teria sido terminada – ou, ao menos, em que o Livro V teria sido concluído – se durante o reinado de Augusto, ou já após a morte deste, sob o governo de Tibério. O maior problema que se coloca com essa questão é saber a qual imperador Manilius se refere em diferentes momentos dos Livros I, II e IV.

A tese de Housman, apresentada em 1903 e adotada por outros estudiosos, é que a Astronomica teria sido escrita entre 9 d.C. e 22 d.C., ou seja, que os três primeiros livros teriam sido escritos sob o governo de Augusto e, os dois últimos, sob o de Tibério. Porém, E. Flores publicou um trabalho em 1961 onde defendeu a tese de que a Astronomica foi escrita inteiramente sob o governo de Augusto. Tese que Herrmann, em 1962, também defende. Goold, por sua vez, afirma que os Livros I e II foram escritos enquanto Augusto reinava; o Livro III, por sua vez, não oferece pistas conclusivas a esse respeito. Já o Livro IV, ao exaltar o signo de Libra, e não mais o de Capricórnio, quando se refere ao imperador, indica que esse Livro foi escrito sob o governo de Tibério, dado que era ao signo de Libra que ele se associava. Em nossa análise constatamos que no trecho 770-780 do Livro IV, Manilius realmente exalta as qualidades do signo de Libra, identificando-o como regente de Roma e associando-o ao imperador.

Segundo E. Romano, a obra se estrutura da seguinte maneira: o Livro I expõe os conhecimentos astronômicos básicos, que remetem à síntese feita por Aratus de Soli (ca. 315-240 a.C). Os Livros II, III, IV abordam o poema astrológico propriamente dito. E o Livro V seria um adicional ao plano inicial do poema, dedicado a paranatellonta.

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Paranatellon (plural: paranatellonta) é um termo que em grego antigo significa “nascer juntos”. É usado para caracterizar estrelas ou constelações que surgem simultaneamente com uma determinada estrela ou constelação.
O termo foi inicialmente usado para indicar uma constelação extra-zodiacal que surge junto com uma constelação do zodíaco. O exemplo mais conhecido é a constelação da Águia, que é um paranatellon do Escorpião e que, portanto, parece representá-lo em algumas iconografias, como de acordo com alguns no tetramorfo. Nesse sentido, existem apenas 72 paranatellonta.
A noção de “paranatellon” é aplicada principalmente na astrologia, mas também pode ser aplicada em um sentido traduzido em outros campos. Na astrologia egípcia, um paranatellon está associado a cada um dos 360 ° da eclíptica em que o sol nasce, atribuindo assim um asterismo diferente a quase todos os dias do ano.
A característica de elevação simultânea é modificada pela precessão dos equinócios.

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Costuma-se afirmar que o conteúdo astrológico do poema é rudimentar e, por isso, ele não se mostra adequado para aquilo a que se propõe: a instrução de estudantes no saber astrológico. Segundo Barton, como a audiência de Manilius era a nobreza, o poema foi escrito em versos e, na realidade, não estava destinado à formação de pupilos – o que se confirma pela ausência de exemplos e horóscopos ilustrativos. Assim, alguns autores tendem a não considerar a Astronomica um manual astrológico, pois não seria possível fazer ou interpretar um horóscopo a partir dela. Entretanto, Goold afirma que a produção de um poema didático é uma tarefa complexa e, por isso mesmo, é possível que um texto seja didático, mas não contemple tudo a respeito do saber sobre o qual se dedica. Este seria, para Goold, o caso da Astronomica, que se mostra como um manual astrológico, mas não completo.

O Livro I faz um breve relato das especulações cosmológicas; trata da esfera, das constelações (zodiacais ou não), dos grandes círculos, e termina com uma discussão sobre os cometas. O Livro II trata dos signos do zodíaco e suas características, classificações, relações geométricas e subdivisões; estabelece a relação entre os signos e as partes do corpo humano; apresenta o conceito de dodecatemoria zodiacal ou planetária; fala sobre os pontos cardeais e expõe o sistema de doze ou oito casas. O Livro III apresenta as doze sortes (As sortes, também denominadas “partes”, “lugares” e “trabalho”, são um sistema de previsão astrológica, mas o fato de serem de doze tipos não estabelece relação com o sistema das doze casas); o cálculo do horóscopo, ou o surgimento dos signos no horizonte; explica o conceito de cronocratoria; expõe um método para calcular a duração de uma vida, e descreve os signos trópicos (Áries, Câncer, Libra e Capricórnio). O Livro IV faz uma descrição dos efeitos dos signos zodiacais nos que nascem sob sua influência; apresenta o conceito de decano; identifica os graus malignos de cada signo; trata de astrologia geográfica, apresentando um mapa do mundo com os regentes zodiacais de cada parte, e termina com uma discussão dos efeitos dos eclipses em diferentes signos. O Livro V fala basicamente sobre o tema das paranatellonta, e a influência que a combinação de diferentes constelações exerce no temperamento e na vida das pessoas.

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2. Análise da obra

O objetivo desta análise é identificar qual a concepção de mundo presente na Astronomica, enfatizando especificamente os traços do pensamento estoico na cosmologia e nos pressupostos teóricos que serviram de base ao sistema astrológico proposto por Manilius. Assim, não será analisado o sistema astrológico em si, seus conceitos e técnicas próprias, mas o quanto ele reflete da cosmologia na qual se baseia.

As seções segundo as quais a análise da obra será feita foram definidas a partir da leitura da Astronomica; assim, os conceitos e pressupostos da filosofia estoica serão apresentados em função do material selecionado da obra. Ou seja, não se pretende fazer uma apresentação detalhada dessa escola de pensamento, mas sim relacioná-la com os trechos da Astronomica que foram escolhidos, estabelecendo assim um diálogo que servirá de base para a análise.

Para isso serão usadas basicamente duas das principais fontes primárias do Médio estoicismo: a obra De divinatione, escrita por Cícero, e a obra De mundo, escrita por Posidônio. Cícero (106 – 43 a.C.) não era estoico, mas é considerado como uma das principais fontes de informação sobre o estoicismo, por haver sistematizado, de forma crítica, seus preceitos. Posidônio (c.a.135 – 51 a.C.) foi um dos principais representantes do Médio estoicismo, cujas ideias e contribuições à escola estoica no século I a.C. se mostraram centrais para entender o desenvolvimento do saber astrológico desse período histórico.

As passagens da Astronomica em que Manilius estabelece uma relação entre astrologia e poder não foram destacadas em uma seção própria.

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2.1. A estrutura do universo

O modo como o mundo está formado e disposto no espaço é abordado por Manilius basicamente ao longo do Livro I, onde o autor se ocupou em apresentar algumas noções básicas de astronomia aos seus leitores.

Por se tratar de uma obra escrita em Roma, no século I d.C., é de se esperar que o universo seja compreendido do ponto de vista geocêntrico: a Terra se encontra no centro e se afasta de forma equidistante dos extremos do universo. Ao lidar com a ideia de que há extremos no universo, a concepção de um universo finito é confirmada. Os limites do universo são formados pelas estrelas fixas e, acima delas, não há nada. Em nenhum momento de sua obra Manilius faz referência à concepção estoica da existência do vazio que envolve o universo finito. O autor apenas indica que a esfera das estrelas fixas é a ultima e que ela encerra o universo.

A Terra é estática, o que se move é o céu. O céu é composto pelas estrelas fixas e planetas, porém, enquanto o céu se movimenta em uma direção, fazendo girar as constelações nele dispostas de forma fixa, os planetas circulam na direção contrária a ele, obedecendo, cada qual, sua esfera e órbita determinadas. A ordem em que estão dispostos no espaço, é: Saturno (o mais distante da Terra e mais próximo das estrelas fixas), Júpiter, Marte, Sol, Mercúrio, Vênus e Lua (a mais próxima do centro e da Terra).

A Terra, e tudo que a ela pertence, está sujeito à mudança. As coisas terrestres nascem, crescem e morrem, necessariamente. O céu, por sua vez, permanece imutável, conserva todas as suas partes, e é eterno.

Segundo Manilius, a Terra, o Sol e os planetas são esféricos, já que imitam a forma do universo que, em função de seu movimento circular, adquiriu o formato esférico. O formato do universo, por sua vez, reflete a forma dos deuses (esférica) e sua natureza, não possuindo nem princípio nem fim.

Uma prova da esfericidade da Terra é o fato de não ser possível ver sempre as mesmas constelações de qualquer parte do globo terrestre. Como aquilo que é visto no céu depende do local em que se está na Terra, sua forma é redonda. Outro argumento apresentado por Manilius é que, se ao invés de redonda a Terra fosse plana, o brilho da Lua não a iluminaria gradualmente, primeiro em algumas regiões para, aos poucos, se estender às demais, e sim se daria de uma vez só.

Manilius afirma que o universo está suspenso, e não se apoia em nenhuma base, o que é evidente pelo fato de mover-se, assim como pelo seu movimento circular, observado pelo aparecimento regular das constelações e pelo caminhar previsível do Sol por elas.

A Terra, assim como o universo, também está suspensa no centro e nele permanece estável, graças ao equilíbrio de forças entre os elementos que compõem o universo. É esse equilíbrio que mantém a ordem de todo o universo, assim como o movimento cíclico e regular dos astros.

Ao falar sobre os elementos e sua participação na formação do universo, Manilius diz que: “o fogo alado elevou-se às regiões mais altas e, abraçando os pontos mais altos do céu estrelado, formou uma defesa de chamas para a proteção do universo”. Em seguida, referindo-se ao fogo Manilius diz que “[…] o sopro desceu até a região das brisas sutis”, ou seja, a região ocupada pelo ar. É possível notar, nessa frase, a íntima relação entre a cosmologia apresentada por Manilius e as ideias estoicas, através da ideia de um sopro. Para os estoicos, o sopro pode tanto ser referência ao pneuma – definido como um sopro quente ou espírito que se estende por todo o cosmo – quanto ao fogo artífice, um sopro ígneo e artesão, associado á geração do cosmo. Como Manilius, no texto original em latim, usa o termo spiritus, não temos dúvida de que ele está se referindo ao pneuma.

Ao seguir seu raciocínio, Manilius diz que o ar, encontrando-se abaixo dos astros, é o que alimenta o fogo. O terceiro elemento é a água. Quando a água se evapora, expele a brisa sutil e alimenta o ar. A Terra, por sua vez, foi a última a assentar-se.

Há, na totalidade dessa passagem, uma sequência que alude à cosmologia estoica, segundo a qual existe um primeiro movimento gerador do universo que parte do fogo, passa pelo ar e pela água, e chega na terra. Os elementos são quatro: fogo e ar, os agentes ativos do universo, cuja combinação gera o pneuma, e água e terra, os passivos e mais pesados e, por isso, se encontram no centro do universo.

Manilius, ao discorrer sobre o por quê dos cometas, diz que todo o universo está permeado por fogo, por isso é natural que às vezes apareçam no céu esses rastros de fogo e que o ar resplandeça iluminado por essas chamas brilhantes. O que nos chama a atenção aqui é o pressuposto de que o fogo está presente em toda a natureza, o que é parte fundamental das ideias estoicas. Segundo Manilius:

“[…] o fogo está presente em todas as partes: habita nas nuvens carregadas que dão origem aos raios, penetra na Terra, ameaça o céu com as chamas do Etna, esquenta as águas nas suas próprias fontes e se encontra na dura pedra e na casca verde quando a madeira, ao esfregar-se consigo mesma, se queima; até tal ponto o fogo é abundante em toda natureza […]”.

Segundo a escola estoica, a “natureza é um fogo trabalhando artisticamente, seguindo seu caminho para a criação”. De acordo com Reale, o fogo é o Princípio que tudo transforma e penetra.

Um aspecto da relação entre astrologia e poder é abordado por Manilius na discussão sobre a estrutura e composição do universo. Ao se referir à batalha do Accio, após a qual Augusto se afirma como único governante de Roma, Manilius o designa como “dono do céu” e como “deus na Terra” – associando seu lugar de governante do mundo com o de governante ou regente do universo.

Em outro trecho da Astronomica, ao falar sobre as regiões da Terra de onde é possível observar outras constelações, diferentes das conhecidas pelos romanos, Manilius diz que o céu, assim como a luz do Sol, é igual para todos, mas essas outras regiões somente são superadas por Roma em relação a um astro: “Augusto, que deu sorte a nosso hemisfério: agora o maior legislador na Terra, depois do céu”.

DeNardis afirma que Manilius, ao se referir à figura do imperador como parte do cosmo e, portanto, como expressão natural do poder do universo, confere ao governante poderes divinos e autoriza-o a exercê-lo sobre a Terra.

Vemos que, ao longo de seu poema, Manilius se esforça para reverenciar o imperador, sustentado por conceitos e referências astrológicas. Com isso, alimentava a proximidade entre astrologia e política, característica do final da República e início do Império romano.

Em uma determinada passagem do Livro I, Manilius expõe diversas teorias sobre a origem e formação do universo, com as quais não se compromete. Mas, ao começar a apresentar a concepção de mundo na qual se baseará, afirma: “[…] qualquer que seja sua origem, o aspecto externo do mesmo tem harmonia, e sua estrutura está disposta segundo uma ordem precisa”. Ou seja, Manilius atenta para a harmonia e a ordem constituintes do universo. Esse é o tema que abordaremos na próxima seção.

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2.2.2. O princípio ordenador

Se a proposta é analisar as influências estoicas na obra de Manilius, nada mais adequado do que iniciar a discussão com um trecho extraído do início do Livro II, no qual o autor anuncia sobre o que versará:

“Cantarei, de fato, a deus que com silencioso desígnio governa a natureza, que está no interior do céu, da Terra e do mar, e dirige o imenso universo com leis constantes; cantarei como todo o universo subsiste graças à concórdia de suas partes e é movido pelo impulso da razão, pois um único espírito habita em todas as suas partes e impregna o universo percorrendo-o todo e configurando-o como um ser vivo”.

Adequado, porque esse verso expressa, do início ao fim, que Manilius se baseia na física estoica para compreender o universo e, da maneira como apresenta o tema de sua obra, o autor anuncia claramente seu posicionamento teórico.

Dentre os pressupostos básicos com os quais trabalha, está a ideia de que o universo é um todo ordenado, que respeita leis fixas e constantes em seu funcionamento. Isso se deve pelo governo da mente divina ou deus, que está em tudo de forma indiferenciada, já que impregna todos os elementos que compõem o universo, estendendo-se por tudo e, com isso, garante a coesão do todo pelo relacionamento harmônico de suas partes.

De acordo com o pensamento estoico, deus é um ser imortal, sem forma definida, responsável pela geração e ordenação do cosmo, já que é razão e inteligência. Está em todos os elementos do universo, pois, como um espírito, se espalha por tudo e perpassa toda a matéria, unindo-se a ela e mantendo o universo coeso e unido. Como princípio ativo, é inseparável da matéria, portanto, “deus está em tudo e deus é tudo. Deus coincide com o cosmo”, ou seja, é múltiplo e uno ao mesmo tempo.

Segundo Reale, o conceito de deus é o eixo em torno do qual a física estoica se organiza. Deus é identificado com a physis: “para os estóicos, physis implica matéria, mas implica também o princípio intrínseco agente que é, que dá e que se torna forma de todas as coisas, isto é, o princípio que faz tudo nascer, crescer e ser”. Assim, deus é physis mas é também Logos, ou seja, principio de inteligência e racionalidade, imanente à matéria.

O conceito de pneuma, por sua vez, também é estrutural no pensamento estoico, e se define como uma substância muito rarefeita que a tudo permeia, preenchendo o cosmo como um todo. Sua função básica é a geração e a coesão da matéria, assim como o contato entre todas as partes do cosmo. Sambursky afirma que: “a matéria passiva e sem forma é o primeiro substrato do cosmo e, dessa forma, sem qualquer qualidade. É o pneuma que a tudo perpassa que, totalmente misturado com a matéria, a imbui com todas suas qualidades”. Dessa forma, o pneuma se apresenta como o agente responsável pela unificação da matéria, o que se confirma pelas palavras de Sextus Empiricus, ao dizer que “há um só espírito (pneuma) que se espalha por todo o universo, como uma alma, e nos faz um com ele”.

Manilius está se referindo ao pneuma quando diz que “um único espírito habita em todas as suas partes e impregna o universo percorrendo-o todo”, garantindo, assim, sua harmonia e coesão.

Entretanto, embora os estoicos acreditassem na natureza corpórea do pneuma, eles não consideravam que era semelhante à matéria, mas sim à força. Foi a concepção de um poder interpenetrando a matéria e se espalhando pelo espaço e, com isso, causando os fenômenos físicos, que formou a ideia central de pneuma.

Dessa forma, pneuma se tornou sinônimo de deus, e uma noção se define pela outra, já que pneuma, enquanto força natural capaz de dar forma às coisas e causar mudanças no mundo físico, é expressão da razão divina. E deus, ao ser entendido como algo totalmente misturado com a matéria, foi identificado com o pneuma que a tudo permeia. Assim, a razão divina foi definida como pneuma corporal, e ambos se constituem como o princípio ordenador do universo.

Se o pneuma, através de sua ação, faz da natureza uma unidade coerente de característica dinâmica, é o conceito estoico de simpatia (sympatheia), ao pressupor que todos os elementos do universo subsistem em coexistência numa matéria contínua onde não há vazio, que faz do cosmo um único corpo, com uma estrutura harmônica e unificada.

Manilius faz referência ao conceito de simpatia universal no verso que se segue:

“Esta obra, formada com a matéria do imenso universo, assim como as diversas partes da natureza, constituídas em distinta proporção pelo ar, pelo fogo, pela terra e pela água nivelada, são dirigidas pela força divina de uma alma, para a qual contribui a divindade com seu sagrado movimento, que governa com uma norma secreta, estabelecendo mútuos vínculos entre todas as partes, a fim de que cada uma disponibilize suas forças para as demais e receba o mesmo das outras partes, e faça com que o conjunto permaneça unido através de suas diversas formas”.

Com base nesse verso, podemos dizer que Manilius considera a existência da simpatia universal que, por meio da interdependência entre as partes, garante a coesão e unidade do todo.

Um dado interessante, e que reforça a tese de que Manilius se baseia predominantemente na filosofia estoica, pode ser observado no trecho em que o autor critica aquele que ensinou que “o edifício do universo estava formado por átomos e que neles se desfaria”. Ao se contrapor ao Epicurismo de forma explícita, Manilius posiciona-se de um dos lados da disputa filosófica travada entre as escolas atomista e estoica, comum durante a Antiguidade tardia.

Uma das principais diferenças entre as duas escolas pode ser percebida no posicionamento de cada uma em relação à teoria da matéria. Enquanto o estoicismo propunha a teoria de um continuum dinâmico, composto pela matéria (sem forma) juntamente com a ação do pneuma (conferindo, de maneira sensível e inteligente, forma e coerência a ela), o atomismo trabalhava com os conceitos de átomos e de vazio, onde o universo era composto por átomos, pequenas estruturas completas em si mesmas, e pelo vazio, espaço onde não havia corpos – formados, sem a ação de um Logos ou intenção divina, por átomos. Dessa forma, os atomistas só admitiam a interação por contato direto. Já os estoicos, ao considerarem que não havia vazio no universo, falavam de interação em um continuum dinâmico, e em um poder que tudo envolvia.

Manilius afirma:

“Parece-me que não há nenhum outro argumento tão forte, pelo qual resulte evidente que o universo gira graças a um poder divino, que ele mesmo é deus e que não se formou sob a direção do acaso [..]”.

Ou seja, ele considera que as coisas não se dão por acaso e sim pela ação inteligente de um princípio ordenador. E continua criticando as concepções epicuristas ao questionar que os corpos sejam formados por átomos e sem a intervenção da divindade. A favor da ideia de que há a intervenção divina no cosmo, e contra a ideia de acaso, Manilius afirma:

“Por quê vemos que as constelações saem sucessiva e regularmente, seguem as órbitas que lhes foram designadas, como que por uma lei, e que nenhuma se atrasa porque nenhuma se adianta”?

Manilius conclui seu raciocínio dizendo que se não houvesse a harmonia (ou simpatia) entre todas as partes que compõem o universo, e se essa estrutura como um todo não obedecesse à mente divina, que a governa com inteligência e sabedoria, o universo não existiria, pois não haveria ordem e sim caos.

Há um verso, no Livro III, que apresenta de forma bastante completa e esclarecedora os conceitos com os quais Manilius compreende o universo e seu funcionamento:

“A natureza, causa e salvaguarda das coisas secretas, ao erigir coisas imensas e de grande proporção por entre as muralhas do universo, ao colocar astros esparsos ao redor da Terra, que ficou suspensa no centro, ao unir com leis imutáveis membros diversos em um só corpo, e ao ordenar ao ar, à terra, ao fogo e à água oferecer recíproco alimento alternativamente, a fim de que a concórdia regesse tantos princípios em luta, e o universo, unido por uma lei eterna, mantivesse sua estabilidade, a fim de que nada permanecesse excluído da suprema ordem racional e a fim de que aquilo que era do universo fosse governado pelo universo mesmo, também fez depender o destino e a vida dos homens dos astros, os quais defenderiam o mais elevado dos atos, a honra e a glória, o renome, e girariam sem se cansarem jamais”.

Vamos analisá-lo por partes: quando Manilius diz, “A natureza, causa e salvaguarda das coisas secretas […]”, está pressupondo que ela encerra em si os segredos do universo, sua ordem e os princípios de seu funcionamento. Como demonstraremos no final dessa análise, há, nesse verso, a identificação da natureza com o conceito de deus, Logos e mente divina, própria da escola estoica.

No trecho que diz “[…] ao erigir coisas imensas e de grande proporção por entre as muralhas do universo, ao colocar astros esparsos ao redor da Terra, que ficou suspensa no centro […]”, Manilius está se referindo à estrutura do universo, entendido como finito e delimitado por contornos ou “muralhas”; e, espalhados dentro desse espaço delimitado há astros, que giram ao redor da Terra que, por sua vez, está suspensa no centro do universo.

“[…] ao unir com leis imutáveis membros diversos em um só corpo […]”, vemos, nesse trecho, inclusive em função dos termos empregados (“membros” e “corpo”), que o universo é entendido como um organismo vivo, cuja unidade é ordenada e articulada por leis gerais e imutáveis que se estendem por todas as suas partes.

Ao dizer que “[a natureza] ao ordenar ao ar, à terra, ao fogo e à água oferecer recíproco alimento alternativamente, a fim de que a concórdia regesse tantos princípios em luta […]”, Manilius afirma que todos os elementos que compõe o universo se retroalimentam e se relacionam equilibradamente, mantendo uma coerência entre si.

Essa ideia se relaciona diretamente com o pensamento estoico, que entende que o cosmos é uma entidade orgânica, cujo equilíbrio dinâmico – dentro do vazio que o envolve – se dá pelos pesos iguais na mistura dos quatro elementos. Se fosse mais pesado, se moveria para baixo, se fosse mais leve, para cima.

Tanto no verso acima citado, quanto na cosmologia estoica, há a ideia de que o cosmo tende ao equilíbrio, à harmonia. Ou seja, a natureza, ao ordenar os quatro elementos, buscou, com isso, que a mistura coerente entre eles regesse os princípios conflitantes e o embate que existe entre as coisas, para que, com isso, o universo se mantivesse em equilíbrio. Essa concepção é expressa por Posidônio, que diz que o universo é ordenado por um único poder que se estende através de tudo, o qual, por sua vez:

“[…] criou todo o universo com elementos diferentes e separados (ar, terra, fogo e água), envolvendo tudo com uma superfície esférica e forçando as naturezas contrárias a viver em acordo, o que produz a permanência do todo”.

Seguindo em nossa análise, há o trecho que diz: “[…] e o universo, unido por uma lei eterna, mantivesse sua estabilidade, a fim de que nada permanecesse excluído da suprema ordem racional […]”. Aqui há a ideia de que o universo se mantém unido por uma lei eterna, o que garante sua estabilidade, e faz com que tudo que o componha participe da suprema ordem racional, ou seja, do Logos ou mente divina.

No último trecho do verso, que diz: “[…] e a fim de que aquilo que era do universo fosse governado pelo universo mesmo, também fez depender o destino e a vida dos homens dos astros, os quais defenderiam o mais elevado dos atos, a honra e a glória, o renome, e girariam sem se cansarem jamais”, está presente a ideia de que a natureza (enquanto deus ou mente divina), ao imprimir o princípio de que tudo que compõe o universo participa da “suprema ordem racional”, fez com que o universo se autorregulasse e governasse a si mesmo.

Ao final da análise detalhada do verso acima selecionado, podemos definir o conceito de natureza com o qual Manilius trabalha. A natureza: 1) erigiu o que compõe e se insere no universo, como os astros e a Terra; 2) conferiu as leis imutáveis que geraram e mantém o universo; 3) é responsável pela coerência e união de tudo que compõem o universo; 4) ordenou os quatro elementos de modo que a mistura entre eles conferisse estabilidade ao funcionamento do universo; 5) fez que tudo que compõe o universo fosse governado pelo próprio universo, de modo que nada permanecesse excluído da suprema ordem racional a ele inerente; 6) fez com que o destino e a vida dos homens dependesse dos astros.

Ou seja, a natureza é entendida como sendo inteligente, que age de forma coerente e segundo princípios lógicos, e tem como finalidade manter a ordem e o funcionamento harmônico do universo, criado por ela. Nota-se, portanto, a clara sobreposição dos conceitos de natureza e de deus, própria do pensamento estoico.

A última frase do verso que acabamos de analisar – que os astros giram sem se cansarem jamais – contém em si a referência ao movimento regular, cíclico e repetido dos astros, como expressão da ordem e da eternidade do universo. Em outra passagem da Astronomica, localizada no Livro I, Manilius apresenta essa mesma relação:

“E não há nada mais admirável nesse universo imenso que seu desígnio, e o fato de que tudo obedece a leis fixas. Em nenhuma parte causa perturbação o elevado número de estrelas, e em nenhuma parte nenhuma anda errante nem gira em uma órbita mais ampla ou mais estreita ou segundo uma ordem alterada”.

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2.3. O céu como causa

Por se tratar de uma obra astrológica, não é de se surpreender que a Astronomica estabeleça uma relação causal do céu para com a Terra. Algumas passagens da obra ilustram essa concepção, como a que se segue, onde Manilius fala sobre a constelação do Cão maior, e diz que ele é: “[…] o mais violento dos astros para a Terra quando sai e o mais prejudicial quando se põe. Quando se levanta está rígido pelo frio e, quando deixa o radiante céu, este se encontra aberto ao calor do Sol: dessa forma, move o universo em ambos os sentidos, produzindo efeitos contrários”. Nas primeiras linhas da citação, parece que a ideia apresentada é a de que quando a constelação surgia no céu, estava associada ao frio do inverno, nos princípios de janeiro; e quando desaparecia, no início de maio, anunciava o calor do verão que se aproximava. Se assim o fosse, Manilius não se distanciaria da antiga visão baseada no simbolismo astral, que entendia as constelações como marcadoras de eventos atmosféricos e variações climáticas, de forma semelhante como Virgílio o fez nas Geórgicas. Porém, a concepção segundo a qual Manilius compreende os fenômenos é esclarecida de forma categórica com a última frase: “dessa forma, move o universo em ambos os sentidos, produzindo efeitos contrários.” A constelação, portanto, produz efeitos, e não só os sinaliza.

Essa relação pela qual o céu produz e causa efeitos e eventos na Terra aparece por toda a Astronomica. Outro exemplo é quando a constelação de Touro aparece no céu: “ele [o Touro] causa guerras e volta a trazer a paz, ao regressar de distintas formas, move o mundo segundo sua visão, e o governa com seu olhar”.

Segundo Manilius, os signos trópicos (definidos por ele como sendo Câncer, Capricórnio, Áries e Libra), “fazem mudar todo o universo […] e introduzem novas formas nos trabalhos e na natureza”, já que são eles que produzem a mudança das estações. Ao discorrer sobre os efeitos que o signo de Áries produz, afirma: “Então pela primeira vez o mar fica calmo com ondas suaves, e a terra se atreve a produzir variadas flores; então nas pastagens os rebanhos risonhos e as aves dão-se ao amor e à procriação, todo o bosque ressoa com vozes harmoniosas e se põe verde toda a folhagem; tanto muda a natureza com as forças desse signo”.

Há também versos dedicados a descrever o tipo de influência que o céu exerce no temperamento dos homens, como a longa sequência presente no Livro IV, do verso 122 ao 293, que aborda as características e habilidades que os signos concedem àqueles que nascem sob seu domínio.

É imensa a quantidade de trechos que estabelece uma relação direta e causal entre os signos, constelações e planetas com as mudanças na natureza e interferência na vida humana; essas foram somente algumas amostras. Um dos pontos que se mostra interessante para a análise é comparação dessa relação de causalidade, explicitamente apresentada por Manilius, e a concepção de que as estrelas apenas sinalizam ou acompanham as mudanças meteorológicas, como vimos nas Geórgicas, de Virgílio.

Nesse poema, Virgílio ilustra e faz referência às estrelas e aos signos como marcadores das estações, e de que forma isso interfere na agricultura ou na vida campesina de forma geral. Essa forma de se referir aos céus não diferia de como era feito até então, e apenas confirmava as concepções vigentes a respeito da influência celeste sobre a vida na Terra, baseadas no simbolismo astral.

Em contraposição a essa compreensão de mundo, temos a concepção astrológica, representada por Manilius na Astronomica, onde um dos eixos principais é a relação de causalidade entre o céu e a Terra, que se expressa na ideia de que as tendências e comportamentos humanos estão sujeitos à influência celeste. Ou seja, quando a concepção astrológica do mundo se afirma, as estrelas não são simplesmente marcadoras das estações do ano, e a posição do céu não somente está associada aos fenômenos naturais, mas os produzem e direcionam, assim como o fazem com as tendências e comportamentos humanos.

Seguindo seu raciocínio astrológico, Manilius afirma que graças às constelações zodiacais e aos planetas é possível conhecer todo o plano do destino, o que os justifica como os elementos mais importantes do universo. Isso porque o destino, sequência inevitável de acontecimentos, é derivado do céu.

Mas antes de entrarmos no conceito de destino, vale abordarmos alguns aspectos da teoria da causalidade segundo o pensamento estoico, para tentarmos compreender com base em que pressupostos teóricos Manilius considera o céu como causa.

Segundo Sambursky, a existência de um nexo causal no mundo é uma verdade axiomática da escola estoica. Porém, para que o nexo causal entre tudo que compõe o universo seja possível, a teoria da causalidade deve se sustentar na concepção de que há uma simpatia universal entre todos os elementos do universo, mantendo-o único e coeso.

“A continuidade da natureza, esta presença dos corpos num mundo de espaço ocupado que ignora o vazio, esta assimilação de Deus e do cosmos, permitem-nos dizer que o todo está em simpatia consigo mesmo, que tudo conspira, que existe uma simpatia universal das coisas e dos seres”.

A concepção de um universo que se manifesta como um continuum de matéria está associada ao conceito de pneuma, uma força que perpassa o mundo todo, conferindo coerência e coesão à matéria, ao misturar-se com ela. O conceito de pneuma tornou-se sinônimo de deus, já que encerra em si a ideia de uma força inteligente ou razão divina que a tudo permeia. Dessa forma, Sambursky afirma que o pneuma tem um lugar central na física estoica porque possui um duplo significado: é poder divino que confere à matéria um estado definido, e é o nexo causal que liga os sucessivos estados da matéria. E, nesses dois aspectos, se revela espacialmente e temporalmente como um agente contínuo.

A propagação se dá, portanto, em um único continuum material. Desse modo, o universo assume um aspecto corpóreo, onde não há vazio: “para os estoicos, o ar não é composto de partículas, mas é um contínuo que não possui espaço vazio”. Condição necessária para que a propagação se estenda, se constituindo como um nexo causal.

A simpatia universal, ou seja, o cosmo como um único organismo, com uma estrutura unificada, coesa e ordenada, onde suas partes interagem, é possível graças a ação do pneuma. Segundo Sambursky, uma das provas da existência da simpatia é, para os estoicos, a influência do céu sobre a Terra, onde o exemplo da relação entre a Lua e a maré é um dos mais usados, aparecendo inclusive no tratado De divinatione, de Cícero, que faz referência aos ensinamentos de Posidônio. Afirma Cícero:

“Para que falar também dos braços de mar ou das agitações marinhas? Seus fluxos e refluxos são governados pelo movimento da Lua. Seiscentos exemplos dessa mesma natureza podem ser citados para que se veja a relação natural de coisas distantes”.

A conexão causal que se estende por todas as coisas assim o faz através do tempo e do espaço, cuja influência é transmitida por contato direto ou pela ação do pneuma. Assim, um corpo transmite sua influência a outro, e aquele que a sofreu pode ser a causa de outros efeitos, na medida em que também transmite sua influência. Esse é o nexo causal, uma cadeia de causas que se estende continuamente no tempo e no espaço, formando, em sua totalidade, o curso do universo.

Um exemplo bastante significativo para o tema com o qual estamos tratando é o das estações do ano. Elas representam o ar em determinados estados termais. Ou seja, a natureza e a influência de cada estação do ano está em uma relação de dependência causal com a posição do Sol.

Assim, se o céu é entendido como causa por Manilius e para a astrologia de forma geral, é com o seu movimento que altera os corpos que estão próximos e, como em uma relação causal, estes transmitem sua influência através do espaço, até entrarem em contato com a Terra e gerarem as alterações específicas.

Manilius não apresenta um raciocínio teórico para explicar como se daria a influência do céu sobre a Terra, mas buscamos nos conceitos fundamentais da física estoica e, como se verá a seguir, nas particularidades do pensamento de Posidônio, os argumentos que justificam suas ideias.

Para Posidônio, deus ocupa o primeiro e mais alto lugar no céu, de onde exerce sua influência sobre os corpos celestes, desde o mais próximo a ele até a Terra. Assim, deus “[…] exerce um poder que nunca se desgasta, por meio do qual ele impera mesmo nas coisas que parecem estar distantes dele […]”. A identificação e localização de deus no céu, e não em todas as partes do universo, é uma especificidade do pensamento de Posidônio em relação à escola estoica. Porém, se deus está no céu, ele se estende por todas as coisas através do contato, em um meio contínuo. Assim, o céu é entendido como aquele que, dentre todos os elementos do universo, melhor e mais claramente manifesta a mente divina, já que, segundo Posidônio, as coisas recebem mais ou menos o benefício divino de acordo com sua maior ou menor proximidade a deus. Manilius, ao pressupor que o céu causa os fenômenos na Terra e, através de seu movimento, produz todas as coisas de acordo com a vontade divina, se aproxima dos conceitos desenvolvidos por Posidônio, que diz que:

“[…] a natureza divina, através de um simples movimento, imprime seu poder naquilo que está mais próximo a ela, que o estende para o que está em seguida e, assim sucessivamente, até estendê-la sobre todas as coisas”.

O que está implícito nesse raciocínio sobre a disseminação da influência divina, que se dá em uma relação causal, atravessando as esferas celestes, é o conceito da matéria como um continuum, que pressupõe a não existência de vazio no universo, e do pneuma como força dinâmica que mantém o universo coeso e em inter-relação. Ou seja, conceitos fundamentais da física estoica, apresentados anteriormente.

Deus é entendido como uma causa, a causa primeira que produz todos os fenômenos que envolvem na Terra, interferindo, assim, em seu funcionamento. É ele que governa o universo:

“A partir do sinal dado desde o alto por aquele que pode ser considerado o líder do coro, as estrelas e o céu como um todo sempre se movem, e o Sol, que ilumina todas as coisas e caminha em frente em seu duplo curso, com o qual ele divide o dia e a noite, com seu nascimento e ocaso, também traz as quatro estações do ano […]”.

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2.4. Sobre o destino

Segundo Manilius, “[…] todos os acontecimentos dependem da vontade e do aspecto do céu, já que os astros mudam o destino segundo suas diversas posições”. A imutável ordem do destino é entendida como algo que é desencadeado pelo movimento do céu, como vimos na seção anterior. Porém, quando diz que “[…] os astros, confidentes do destino, que mudam as diversas vicissitudes dos homens, e que são obra de uma razão celestial […]” , Manilius submete os astros e o movimento do céu à deus ou à mente divina enquanto causa primeira, exatamente como o faz Posidônio. Dessa forma, os astros refletiriam o Logos divino, não agindo por si só; essa ideia é evidenciada no verso que se segue, onde Manilius, referindo-se aos planetas, ao Sol, à Lua e às estrelas, diz:

“[…] a natureza lhes concedeu o governo, a cada um lhe atribuiu de forma sagrada sua própria incumbência, e ratificou inviolavelmente o conjunto formado por todas as partes, a fim de que o sistema do destino estivesse, de todas as formas, submetido à unidade”.

A natureza, intencionalmente teria atribuído ao céu, planetas, constelações, Sol e Lua, seus respectivos poderes de influência sobre os acontecimentos e sobre a vida humana, colocando, dessa forma, o destino dos homens sob a ordem imutável dos astros, que, por sua vez, refletem a mente divina. Assim:

“[…] qualquer tipo de coisa, qualquer tipo de trabalho, qualquer atividade e disciplina e qualquer vicissitude que ocorra na vida humana, através de todas as suas circunstâncias, foram englobadas pela natureza sob o destino”.

Segundo o pensamento estoico, os acontecimentos “obedecem às leis do destino que se reduzem a um entrelaçamento de causas providenciais”. O destino (heimarméne) seria, portanto, uma realidade natural, que se inscreve na estrutura do mundo, já que o mundo como um todo exprime uma disposição imutável na ordem das coisas, e essa disposição é inviolável.

Assim, o destino é o nexo causal de um universo pré-determinado, cuja ordem e conexão jamais poderão ser forçadas ou transgredidas. Segundo Reale, o destino é:

“a série irreversível das causas, a ordem natural e necessária de todas as coisas, o indissolúvel nó que liga todos os seres, o Logos segundo o qual as coisas passadas aconteceram, as presentes acontecem e as futuras acontecerão. E dado que tudo depende do Logos imanente, tudo é necessário, mesmo o evento mais insignificante”.

Para os estoicos, o destino é entendido como algo que está submetido à mente divina, na medida em que ele é a expressão da providência, que, por sua vez, “exprime o fato de todas as coisas (mesmo as menores) terem sido feitas pelo Logos, como se deve e como é melhor que sejam. É uma providência […] que coincide com o artífice imanente, com a alma do mundo […]”.

Dessa forma, todos os acontecimentos já estariam determinados previamente, conforme afirma Cícero:

“Todas as coisas existem, mas estão ausentes por aquilo que respeita o tempo. E assim como dentro das sementes está o germe das coisas que dela se produzem, nas causas estão contidas as coisas que vão acontecer […]”.

Os acontecimentos são as causas desdobradas no tempo. E como o tempo está relacionado ao movimento cíclico e ordenado do céu e dos planetas, mapear seu curso e posicionamento, assim como interpretar corretamente o que anunciam, permite aos homens desvendar os caminhos do destino.

Porém, a questão moral fica comprometida em um mundo onde todo acontecimento é previamente determinado, onde inclusive as ações humanas dependem da inalterável e necessária serie de causas, o que leva à ideia de que os homens não podem ser julgados pelos seus atos.

Assim como não podem ser julgados pelo que fazem, o que acontece em suas vidas não está em relação com a forma como a conduzem (com seus valores morais e princípios éticos). Segundo Manilius: “A Fortuna não examina os litígios para favorecer aqueles que o merecem, mas sim caminha errante entre todos os homens sem nenhuma distinção”. Porém, esboça uma solução para o problema moral que se apresenta a partir da noção de destino com a qual trabalha:

“E, entretanto, tal raciocínio não chega a justificar o crime […]. De fato, ninguém odiará menos as ervas venenosas porque não nascem por sua própria vontade, mas sim de uma semente determinada, nem é concedido um reconhecimento menor aos alimentos agradáveis pelo fato de procederem da natureza e não de uma decisão livre […]. Da mesma forma se deveria dar aos méritos dos homens uma glória maior por dever sua excelência ao céu e, por sua vez, odiaremos mais os malvados, por terem sido criados para a culpa e o castigo. E não importa de onde vem o crime: como tal há de ser reconhecido”.

Ou seja, as ações praticadas pelos homens, sejam elas virtuosas ou condenáveis, são decorrentes do céu e das inúmeras combinações que ele pode apresentar. Nas palavras de Manilius: “o destino outorga aos humanos suas habilidades e características, seus defeitos e méritos, suas perdas e ganhos”. Porém, isso não isenta aquele que praticou um crime de responder por ele, dado que tudo que acontece no mundo é decorrente de uma combinação de causas predeterminadas, e essa é a condição natural de tudo que é. “Ninguém pode renunciar àquilo que lhe foi dado nem ter aquilo que lhe foi negado; ninguém pode, com suas preces, apoderar-se da fortuna contra a vontade desta, nem escapar dela quando acossa: cada um tem que suportar sua própria sorte”.

Nesse sentido, no raciocínio de Manilius está implícito o posicionamento adotado pela escola estoica diante dessa questão, que pode ser resumido pelas palavras de Reale:

“A verdadeira liberdade do sábio está em conformar os próprios quereres aos do Destino, em querer com o Destino o que o Destino quer. E esta é liberdade enquanto racional aceitação do Destino, que é racionalidade: de fato, o Destino é o Logos e, por isso, querer os quereres do Destino é querer os quereres do Logos. Liberdade, portanto, é levar a vida em total sintonia com o Logos”.

Vemos, com isso, a tênue fronteira entre a física e a ética estoica: agir de acordo com a lei moral significa agir de acordo com a natureza universal, com a ordem segundo a qual ela opera.

§

2.2.6. Astrologia: um sistema ordenado

Manilius, ao longo de sua obra, desenvolve uma série de conceitos que compõem o sistema astrológico por ele proposto. Não é nosso objetivo apresentar cada um deles, oferecendo um panorama completo da astrologia maniliana, mas sim apenas aqueles que nos pareceram melhor ilustrar os pressupostos da cosmologia estoica.

No Livro II, Manilius expõe uma série de combinações e classificações entre os signos, como, por exemplo, a divisão entre aqueles que seriam masculinos e femininos, e o estabelecimento de relações geométricas entre eles, marcadas por trígonos, quadraturas, sextis e oposições. Essa apresentação é acompanhada pela descrição dos afetos e desafetos que tais relações gerariam entre os diferentes signos. Como essas relações são fixas e inatas ao padrão zodiacal, e se efetivam através do movimento eterno e inalterável do zodíaco, estendem-se também aos homens, já que eles “recebem seu caráter dos signos que deram origem a seu nascimento”. Manilius, falando sobre as afinidades e dissidências entre os signos, afirma que:

“os nascidos sob estes signos mostram sentimentos semelhantes entre si […], se guiam pelo ódio a uns, pelo amor a outros, a uns preparam enganos, e se deixam cativar por outros”.

Após apontar algumas das relações existentes entre os signos, dadas a eles pela natureza, Manilius diz que “[…] em todo o conjunto há uma ordem verdadeira e concorde”. Ou seja, essas relações não se dão por acaso, mas de acordo com uma ordem que há na natureza. E, a partir do trecho abaixo selecionado, podemos afirmar que essa ordem da natureza é expressão de deus, já que: “[…] deus, ao formar todo o universo segundo algumas leis, distribuiu também os afetos entre os variados astros […]”.

Baseando-se na relação causal entre o céu e a Terra, Manilius explica o mal e a discórdia que existem na Terra em função das inimizades entre os signos:

“Na verdade, posto que em muitos signos os homens nascem em discórdia, a paz desapareceu da Terra, os laços de amizade são raros e concedidos a poucos; assim como o céu está em desacordo consigo mesmo, também o está a Terra, e as nações do gênero humano são arrastadas por um destino que as faz inimigas”.

Vemos, nos trechos acima selecionados, a presença de alguns conceitos estoicos, como a existência de uma ordem implícita que se estende a tudo, e o fato dessa ordem ser a manifestação da mente divina, o que faz com que todos os fenômenos que se dão no universo possuam sentido, já que não são obra do acaso, e sim de uma natureza inteligente e intencional.

Enquanto aborda a característica dos signos e suas relações, Manilius diz que “não se deve desviar a atenção nem dos menores detalhes, nada está desprovido de razão nem foi criado em vão”. Desse modo, o autor faz referência a um universo onde não há acaso, e sim uma rede causal lógica, responsável pelo seu funcionamento. Esse pressuposto leva, portanto, a uma astrologia minuciosa, onde cada detalhe possui sentido e função. Esse traço da astrologia proposta na Astronomica pode claramente ser constatada em alguns conceitos abordados por Manilius, que serão apresentados a seguir.

O primeiro deles é o de dodecatemoria, que divide cada um dos doze signos do zodíaco, que possuem trinta graus, em 12 partes iguais de dois graus e meio. Cada dodecatemoria está dedicada a um signo, e a ordem dos signos que ocupam cada dodecatemoria é igual à ordem dos signos zodiacais. Assim, o signo da primeira dodecatemoria em um determinado signo, repete o signo no qual está inserida, e as dodecatemorias seguintes seguem a ordem zodiacal.

Esse esquema que subdivide os signos confere mais elementos ao astrólogo para interpretar a lógica celeste, já que “cada um dos signos varia segundo as partes em que está dividido, e distribui suas próprias influências de acordo com as dodecatemorias”.

Manilius justifica a verdade e a importância das dodecatemorias dizendo que:

“[…] o grande construtor do universo as atribuiu aos signos que brilham em igual número, para que estes estivessem reunidos alternativamente, e para que o universo fosse semelhante a si mesmo e todos os signos estivessem em todos, de forma que com sua mistura a concórdia governasse o sistema e houvesse uma proteção recíproca devido ao interesse comum”.

Podemos observar que essas passagens falam da constante combinação e mistura das partes que compõem o todo, e de como isso reflete o fato de o todo estar em suas partes, e da intenção divina que fez com que as partes se inter-relacionassem de forma harmônica, visando a integridade e a harmonia do todo. Ou seja, a validade dos conceitos astrológicos é justificada, mais uma vez, com base na cosmologia estoica.

Nos versos 738-748 do Livro II, Manilius ainda propõe outro tipo de dodecatemoria, mais uma subdivisão dentro dos dois e graus e meio de cada dodecatemoria. Nela, cada meio grau é destinado a cada um dos cinco planetas.

Assim como a ordem impera no universo, ela também está presente no sistema astrológico, cuja precisão reflete a regularidade do movimento do céu e dos planetas, já que constelações, signos e planetas se combinam e se sobrepõem para compor e ditar o destino e os acontecimentos. Essa ideia é bastante visível na forma como Manilius apresenta o tema das cronocratorias, presente no Livro III.

Através do conceito de cronocratoria, Manilius buscou relacionar todas as estruturas de tempo (hora, dia, mês e ano) com o sistema astrológico (constelações, signos e graus), para assim justificar os acontecimentos. Nenhuma fração do tempo, composto pelos ciclos que se relacionam e se combinam, fica “solta”, assim como nenhum acontecimento se dá ao acaso, por mais variados que sejam. Tudo estaria, portanto, ligado ao que pode ser descrito como uma complexa rede de inter-relações cósmicas, conforme ilustra o verso que segue:

“A natureza quis distribuir dessa forma seus anos, seus meses, seus dias e inclusive as horas através dos signos, a fim de que o tempo em sua totalidade estivesse repartido entre todas as constelações e realizasse suas mudanças de acordo com a alternância das mesmas, segundo se desenvolve o turno do signo que volta ao horizonte. Por essa razão há um contraste tão grande nos acontecimentos segundo o passar do tempo, por isso os bens estão misturados com as desgraças, as lágrimas seguem aos êxitos, e a fortuna não é sempre igual para todos […]”.

Abaixo temos um exemplo de como esses diversos tempos cíclicos sobrepostos, e a combinação de sua influência, geram os acontecimentos e governam a vida humana:

“[…] ainda que todas as divisões nasçam de uma origem comum, suas vicissitudes, entretanto, são distintas, já que uns completam seu círculo mais lentamente e outros com maior rapidez. Qualquer hora chega ao signo duas vezes ao dia, um dia ao mês, um só mês ao ano, e um ano depois de doze revoluções solares. É difícil que todos os períodos coincidam no mesmo tempo, de forma que o mês e o ano sejam do mesmo signo; assim acontecerá que quem tenha um ano de signo favorável tenha um mês de signo bastante difícil; se o mês cai em um signo bastante benigno, o signo do dia poderia ser funesto; se a fortuna favorece o dia, a hora poderia ser bastante adversa”.

Essa combinação das frações e períodos de tempo com o sistema astrológico é bastante minuciosa, e entende que todos os instantes são regidos por uma influência específica, que levaria a uma determinada sorte de experiências e acontecimentos. Segundo Manilius, por mais que tudo pareça incerto e caótico, principalmente por aqueles que desconhecem o Logos divino que tudo permeia e orienta, esse sistema composto por diferentes ciclos é ordenado e lógico.

Tudo é tão ordenado, as causas estão de tal forma encadeadas para gerarem os fatos, que até a duração de uma vida (que também está predeterminada) pode ser descoberta; para isso basta apenas dominar os cálculos e o saber adequado para desvelar esse dado:

“E não é suficiente conhecer os anos exatos dos signos para que não escape o cálculo aos que buscam a duração da vida: também os templos e as partes do céu tem seus dons, e outorgam suas próprias quantidades com uma gradação precisa, quando se estabeleceu bem a ordem dos planetas”.

E, logo em seguida, Manilius acrescenta: “[…] quando esse tema ficar bem conhecido não haverá perturbação pela interpolação de elementos de nenhuma parte”.

Ou seja, desvelar os mistérios da natureza é uma questão de domínio da técnica, técnica essa que possibilita a melhor adaptação a um universo ordenado e predeterminado. Porém, sua ordenação e predeterminação se dão em uma rede dinâmica de complexas inter-relações. Por isso também a necessidade de um sistema que compreenda seu funcionamento.

A partir desse raciocínio podemos perceber que dentro dessa concepção de mundo não há acaso nem probabilidade, ou seja, o universo é entendido como um sistema fechado e articulado previamente, que funciona de forma complexa, porém ordenada, respeitando leis fixas entre seus componentes. Se sua lógica é compreendida, domina-se seu funcionamento e é possível prever seus movimentos e os eventos que nele se inscrevem, através da identificação das causas. Esse pressuposto teórico é claramente estoico, e é nele que Manilius se baseia para versar sobre a astrologia, saber que é apresentado, portanto, como um sistema lógico e ordenado, com traços marcadamente determinísticos, onde suas constantes subdivisões estão a serviço do refinamento da técnica e da identificação da combinação de causas que geram os fenômenos e eventos.

No Livro IV há a apresentação de outro conceito, o de decanos, que complementa a complexa rede de inter-relações cósmicas proposta por Manilius. O decano é a divisão de cada signo de 30º em três partes iguais de 10º cada, fazendo com que cada signo contenha em si outros três signos. Segundo as palavras de Manilius:

“Esse sistema desvela a forças ocultas do universo, dividindo o céu em muitas formas e em nomes repetidos e estabelecendo no círculo melhores associações que as habituais”.

Para resumir as minuciosas divisões e relações do sistema astrológico proposto, temos: em um signo de 30º do círculo zodiacal há a subdivisão em três partes de 10º graus, denominada decano, que é sobreposta por outra subdivisão, onde os mesmos 30º são divididos em 12 partes de dois graus e meio cada, denominada dodecatemoria; cada decano e cada dodecatemoria é ocupada por um signo. E os dois graus e meio de cada dodecatemoria, por sua vez, são distribuídos para cada um dos cinco planetas. É uma constante subdivisão, que faz com que um ciclo se componha com outro, e/ou se insira em um maior. Essa sobreposição de subdivisões se repete em cada signo do zodíaco e, todas juntas, dependendo da combinação que formam – decorrente do movimento do céu e dos planetas – interferem na Terra e influenciam a vida dos homens.

“Um signo há de ser buscado em outro, e deve-se prosseguir nas forças associadas; aquele que nasce no decano de qualquer signo recebe suas características, e nasce também sob esse signo. Esse sistema se efetiva através dos decanos. Provas disso são a diversidade de nascimento sob a mesma constelação, o fato de que entre milhares de seres vivos nascidos sob um mesmo signo haja tal diversidade de características como de indivíduos, os que manifestam qualidades estranhas aos signos em que nascem […]. Evidentemente os signos, constituídos por diversas partes, formam associações e suportam leis distintas sob seu próprio nome”.

E, como se não bastasse, há outro sistema de subdivisão: a definição e caracterização dos graus que compõem os signos entre malignos e benignos. Todos esses dados (no caso, um determinado signo, o signo de um de seus decanos e dodecatemorias e, mais precisamente, o grau) compõem as informações sobre um acontecimento ou traços do temperamento de um Homem.

“[…] os graus dos signos mostram diferenças; da mesma forma que um signo varia em relação a outro, também em um mesmo signo há discrepâncias, negando em um momento suas forças e seus efeitos saudáveis […]”.

Outro aspecto interessante, que vale a pena ser ressaltado, é a referência que Manilius faz aos ramos do saber astrológico, como a astrologia geográfica, astrologia etnográfica ou astrologia mundial, e a astrologia médica. No capítulo 1 argumentamos sobre o alcance e o status da astrologia no século I d.C., que se diversificou em ramos que se ocupavam da produção de distintos saberes, a partir da mesma compreensão astrológica do mundo. A Astronomica, obra desenvolvida nos primeiros anos da Era Cristã, ao se valer de alguns desses ramos astrológicos de produção de conhecimento e compreensão dos fenômenos, indica a validade dos argumentos por nós defendidos.

Sobre astrologia geográfica, astrologia etnográfica ou astrologia mundial, Manilius diz que:

“[…] a divindade dividiu o universo em partes, distribuindo-as entre as constelações e atribuindo a proteção particular de cada uma a cada reino da Terra e seus habitantes, ao que se somou às elevadas cidades, onde os signos manifestariam suas poderosas influências. E, da mesma forma que o corpo humano se encontra repartido entre os signos, e na divisão dos membros cada signo corresponde a uma parte […], assim também cada constelação reivindica para si umas terras”.

O interessante é observar como Manilius apresenta esses conhecimentos sob a perspectiva estoica, através da ideia de intencionalidade divina.

A relação de causalidade do céu para com a Terra, fundamental à compreensão astrológica do mundo, justifica as bases da astrologia geográfica, etnográfica ou mundial, na medida em que “[…] as constelações brilham distribuídas por regiões determinadas e impregnam com sua atmosfera os povos que estão abaixo”, determinando não só as características físicas dos lugares, mas das pessoas que neles vivem. A diversidade de línguas, costumes, frutos, climas e animais, que existe nos diferentes lugares da Terra, é desse modo explicada por Manilius nos versos 711-817 do Livro IV.

“Desta forma se encontra dividida a Terra entre todas as constelações, cujas leis hão de ser aplicadas aos territórios por elas dominados, pois mantêm as mesmas relações existentes nos signos e, assim como entre estes há alianças e inimizades, encontrando-se opostos no céu, ou unidos em um triângulo, ou bem com seus sentimentos dirigidos por qualquer outro princípio, da mesma forma umas regiões da Terra se dão bem com outras, umas cidades com outras, enquanto umas costas são inimigas de outras e uns reinos de outros […]”.

Um exemplo da associação entre astrologia e poder, tão marcado na sociedade romana durante o período helenístico, pode ser observado na passagem abaixo selecionada, que é um desdobramento do tema que Manilius vinha abordando, a astrologia geográfica:

“A Itália é governada por Libra, seu signo próprio, sob ele foi fundada Roma e sua soberania sobre o orbe; com a balança mantém Roma o controle da situação, levantando e oprimindo os povos que se encontram em seus pratos; sob ela nasceu o imperador, que fundou uma Roma melhor e governa o mundo, pendente somente de sua vontade”.

Manilius está referindo-se a Tibério, imperador romano que sucedeu a Augusto, cujo signo era Libra. O que é transmitido nesse verso é que a soberania de Roma coincide com a do Imperador, já que os dois, o império e seu governante, estão associados ao mesmo signo; ou seja, ambas soberanias são justificadas e/ou confirmadas pela astrologia.

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3. Conclusão

Conforme constatamos ao longo desta análise, Manilius se baseia predominantemente no pensamento estoico para entender o cosmo e para justificar o saber astrológico que, segundo tais concepções, estaria de acordo com seu funcionamento. Mas vimos também que, apesar dos conceitos estoicos serem o eixo do raciocínio de Manilius, há outras influências presentes em alguns momentos da obra.

Reconhecemos que o estoicismo forneceu uma base teórica, filosófica e racional, na qual a astrologia pôde se reconfigurar e assumir traços da cultura grega e helenística, contribuindo, dessa forma, que a compreensão astrológica do mundo se afirmasse e se difundisse no período helenístico. Como já afirmado por inúmeros pesquisadores, a cosmologia estoica justificou de forma muito coerente e convincente a verdade do saber astrológico. Através da associação com o estoicismo, a astrologia, além de incorporada à cultura helenística, podia ser explicada teoricamente.

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