Estudos Astrológicos e Transcendentais IV

Bible illustrated by the Master of Evert Zoudenbalch

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A Natureza como Manifestação de Deus na Filosofia Teológica da Idade Média

Prof. Dr. Jan Gerard Joseph ter Reegen

Doutor em Filosofia pela PUCRS; Mestre em Teologia pela PUG de Roma.
Professor e Coordenador de Pós-graduação do ITEP, Professor do Curso de
Mestrado em Filosofia da UECE.
 Kairós – Revista Acadêmica da Prainha Ano V/2, Jul/Dez 2008

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Resumo

A Natureza é como um instrumento na mão de Deus. Esta instrumentalidade não diminui a grandeza e a importância da Natureza: ela leva a um aprofundamento – no contexto medieval – da grande ordenação do cosmos e de sua função no plano divino, com um lugar especial do homem como “microcosmos”. Longe, então, da razão instrumental das épocas posteriores, que é como um passaporte para um tratamento exploratório impiedoso da Natureza.

Omnis mundi criatura
Quase líber et pictura
Nobis est et speculum
Nostrae vitae, nostrae mortis
Nostri status, nostrae sortis
Fidele signaculum.

Alanus ab Insulis (+ 1180)

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Introdução

Embora seja do conhecimento de todos, é sempre útil lembrar e insistir no fato de que a expressão “Idade Média” é um conceito artificial, usado por uns em sentido filológico e literário, por outros forjado a partir de um preconceito ou de preconceitos, por muitos simplesmente ignorado2, mas incontestavelmente indicando um momento da história do pensar humano de grande intensidade e variedade. É um período longo e muito diversificado em que momentos de luz e escuridão se sucedem, até que a luz venha a vencer a escuridão de forma quase que definitiva: à assim chamada época de ferro, em que o mundo ocidental estava imerso num caos político cultural e religioso, segue a esplêndida – e para muitos a verdadeira – Renascença do século XII.3

2 Cf., por exemplo, na sua História da Filosofia Emanuele Severino afirma: as filosofias medieval e renascentista podem ser consideradas como ramificações da filosofia grega. É por isso que estes dois grandes períodos do pensamento filosófico não tiveram lugar num discurso que, como nosso, pretende mostrar a forma originária da ligação que entre si une os grandes momentos da história da filosofia. (Lisboa: Edições 70, 1993).
3 Cf., entre outras, a obra clássica de Haskins, Charles Homer, The Renaissance of the 12th Century. New York: Meridian Books, 1957.

Para efeito de melhor desenvolvimento das reflexões deste estudo, projeta-se uma tríplice divisão – porém, insiste-se em dizer que ela é artificial e só serve como instrumento de trabalho:

A Idade Média Alta, dos tempos de Santo Agostinho e do “Beato” Boécio, até às meadas do séc. XI, quando da entrada da ciência árabe no mundo ocidental com figuras como, por exemplo, Adelardo de Bath e Constantino o Africano. É o tempo da tradição platônica – neoplatônica que se expande, mormente pela divulgação das obras de Santo Agostinho, que não somente se inspira nas obras dos “Acadêmicos”, mas também cita os “Herméticos” como Asclepius, que professa a transcendência e sabedoria divina.

Nesta época encontra-se também a figura de um João Scoto Eriugena, que se inspira nas obras de Dionísio, o Pseudo-Areopagita, cujas obras foram por ele traduzidas, e que de certa forma é uma voz original e discrepante, que no futuro encontrará certas dificuldades por causa de uma suposta (?) tendência politeísta.

Nesta época assinala-se também a grande evolução do pensamento de Anselmo e Abelardo, que se aproximam dos dados da fé com o espírito crítico da “dialética”.

A época das Escolas e o início da época das Universidades, no século XIII, em que se inicia o contato com as ciências árabes: matemática, medicina, astronomia. Como afirma Mario Santiago Carvalho:

O platonismo exibido pelos cosmólogos do século XII já não é mais exclusivamente augustinista mas reflete um alargamento de horizontes práticos que o bispo de Hipona não possui”.

Um caso clássico encontra-se no estudo da medicina da Escola de Salerno, onde além de textos anatômicos, coleções de farmacopéias, traduzidas do árabe, encontra-se uma acentuação da importância do homem.

Um terceiro momento é constituído pelo Apogeu das Universidades no século XIV. A física naturalista e a metafísica de Aristóteles entram, aos trancos e barrancos, – e não saem mais – não obstante o medo, a má vontade e a incompreensão das autoridades eclesiásticas, e é estudada, refletida e avaliada pela filosofia e teologia ocidental. Sem dúvida, ela causa uma nova perspectiva na consideração da Natureza, coexistindo e combatendo com a visão agostinizante, e muitas vezes por esta combatida.

I. O 1º Período

Pode-se dizer que neste tempo o mundo como Natureza é considerado como um todo ordenado: tudo provém de Deus, tanto a existência como o funcionamento, o desenvolvimento e a conservação de tudo que é considerado o grande cosmos. Enquanto a Santo Agostinho, no esplêndido Livro X, capítulos 6, 8-9 das Confissões, as coisas maravilhosas deste mundo, as estrelas, as montanhas, afinal tudo, confessam que não são Deus, mas O indicam e dão lhe a pista: busca-O acima de nós, Boécio pensa na ordem constante do percurso das estrelas e planetas, na mudança do dia e da noite, e vice-versa, no sol e na lua.8

8 Cf., entre outros trechos da Consolação da Filosofia, o Livro III, 18:

Ó tu que governas o universo segundo uma ordem eterna,
Criador da terra e do céu,que num momento da eternidade
Por tua ordem fizeste o tempo marchar pela primeira vez
Foi tua bondade apenas, e não algo exterior
Que te inspirou a ordenar a matéria informe.

Tradução de Willian LI. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p.74-75.

Para Boécio, a “Filosofia”, aquela venerável dama da Consolação da Filosofia, mostra em imagens fornecidas pela natureza como a verdade se torna visível. Ela, a Natureza, é, no sentido platônico, uma imagem ou um espelho, que reflete e aponta para o único mundo verdadeiro.

Pode-se afirmar que reinava, então, antes de tudo um conceito espiritual da realidade. Era possível expressar o que estava em cima e em baixo, e para onde conduziu o caminho: em cima estava o Uno Divino, em baixo o mundo corporal, e o caminho conduziu através da alma espiritual à base espiritual do mundo. A alma, então, é o que possibilita ao homem romper o véu e chegar à fonte de tudo, vivendo intensamente a dimensão verdadeira da realidade terrestre, sua fugacidade e ilusão.

Reconhece-se, aqui, a grande argumentação da tradição platônica:

– a subida aos valores do primeiro Amor (Isis);
– o caminho para a ideia do Bem (República);
– a subida ao Belo (Banquete).

Aliás, é o mesmo caminho que Plotino assume, analisa e, sobretudo, reforça misticamente.

A ideia central e fundamental é sempre a mesma: a realidade verdadeira deve ser permanente, das coisas sensíveis nada fica, e a verdadeira realidade é invisível, somente se tornando vaga, confusa e imperfeitamente visível nas coisas concretas, sensíveis. Por isso, o mundo criado é objeto de uma inteligência e de uma leitura que se deve realizar – aqui a tradição exegética iniciada pelo padre da Igreja Orígenes com seu método de compreensão das páginas sagradas – de acordo com a alegoria espiritual, seguindo o símbolo que constitui a realidade e dele oferece uma interpretação autêntica.

Ao se fazer uma leitura e análise mais profunda e demorada, fica patente que nesta visão sobraram fragmentos das grandes tradições antigas, como, por exemplo, de Macróbio, que nos Comentários al Sueño de Escipión diz o seguinte:

Por outra parte, designa oportunamente el universo com el nombre de “templo del dio” a causa de quienes creen que el dios no es sino el próprio cielo e los corpos celestes que contemplamos. (…) Asi quien siente veneración por estos cuerpos como si fuesen templos debe rendir culto com maior devoción a su creador o todo aquel al que se permite frecuentar este templo sabe que deberá vivir como um sacerdote.10

10 Libro Primeiro, quinta cita del Sueño (14, 1-2) el universo como templo; cf., também, Libro segundo, terceira cita del Sueño (10,1) Los ciclos cósmicos.

Outros fragmentos encontram-se em Chalcidio, no seu famoso comentário, lamentavelmente parcial, do Timeu de Platão:

Omnia enim quae sunt uel dei opera sunt uel naturae uel naturam imitantis hominis artificis. Operum naturalium origo et initium semina sunt, quae facta comprehenduntur uel terrae uisceribus ad frugis arboreae cerealis prouentum, vel genitalium membrorum fecunditate conceptum animalium gérmen adolentium (…) At vero dei operum origo et initium incompreensibile es. Nulla est enim certa nota, nullum indicium temporis, ex quo esse coeperunt (…) Deus autem ante institutionem temporis et per aeuum. (…) Et mundus sensilis opus dei . origo eius causatiua, non temporária. Sic mundus sensilis, licet corporeus, a deo tamen factus atque institutus, aeternus est.12

12 Wrobel, o.c., p 88: Todas as coisas, com efeito, que existem ou são obras de Deus ou da natureza ou do homem artífice que reproduz a natureza. A origem das obras naturais e o seu início são as sementes, que feitas, ou são lançadas nas entranhas da terra para produzir grãos, ou pela fecundidade dos órgãos genitais produzem a concepção dos seres animados. De fato, a origem e o começo das obras divinas é incompreensível. Não há, porém, sinal certo, nem indício algum de tempo, a partir de onde começaram (…) Deus, entretanto, é de antes da criação do temo e por toda a eternidade (…) E o mundo sensível é obra de Deus, sem origem causada, não temporal Assim o mundo sensível, embora corpóreo, é feito e fundado por Deus, é eterno.

Uma das tradições mais antigas, ricas e divulgadas é, sem dúvida, a Tradição Hermética. Uma de suas produções mais divulgada é o famoso Corpus Hermeticum, cujos textos densos e ricos foram editados e traduzidos respectivamente por A.D. Nock e A-J Festugière.13 De inegável beleza e conteúdo é o Tratado V, cuja 2ª parte fala que Deus é necessariamente invisível enquanto eterno, mas que é ele que faz aparecer todos os seres:

Desde já é evidente que o único não-gerado é no mesmo momento não suscetível de se oferecer com uma imagem sensível e inaparente, mas que, visto que está dando a todas as coisas uma imagem sensível, aparece por meio de e em todas as coisas, e ele aparece sobretudo a eles a que ele próprio teve vontade de se mostrar. (…) Se tu, então, queres ver Deus, olha para o sol, dirige teus olhos para o percurso da lua, considera a ordenação das estrelas.

13 Corpus Hermeticum, Tome I, Traités I-XII. Texte établi por A.D. Nock , professeus à l’Université Harvard, et traduit par A.-J. Festugière, directeur d’Études a l’´Cole dês Hautes Études. Paris: Société, d’Édition “Les Belles Lettres”, 1945. Festugière é, também o autor do talvez mais completo estudo sobre o Hermetismo.

Porém, estas tradições afirmam-se mais na segunda fase da Idade Média, sobretudo em alguns pontos específicos como é, entre outros assuntos, o lugar especial do homem no ordenamento geral dos seres criados. Vale a pena enfatizar que esta herança revela de forma acentuada aquela consagrada “às maravilhas” do cosmo, bem como a transfiguração global da física em uma visão religiosa deste mesmo cosmo, cujo objetivo é aprender neste mundo criado um sistema de símbolos, uma linguagem figurada de Deus que recorda aos homens verdades de ordem ética e religiosa. Assim torna-se bem patente o que Agostinho quer dizer nas suas Enarrationes in psalmos, XLV, 7: “que a página divina seja para você o livro que permite falar destas coisas, e que a terra seja para você o livro que permite vê-las”.

Não se pode encerrar esta primeira parte sem comentar o lugar especial que é ocupado por João Escoto Erígena, uma das figuras mais destacadas e originais da teologia-filosofia do século IX, e que antecipa um tema que será ricamente desenvolvido no século XII, a saber, o homem como imagem do divino. Para Scoto Erigena tudo foi criado no homem, tanto o mundo visível como o invisível; no pensar do homem as coisas naturais existem mais verdadeiras do que em si mesmas. O homem relaciona-se diretamente com o divino sem que outra criatura esteja intermediando. É desta maneira que a existência do universo nos remete à existência de Deus – como Pai; a ordem do universo nos remete à Sabedoria – como Logos e Filho; e, finalmente, o movimento do universo nos remete ao uno como vida – o Espírito Santo.

Por isso, toda a obra do Erígena leva à ideia forte da TEOFANIA: Deus torna-se se luz, isto é, revela-se tanto no homem como no cosmo.

A relação imediata entre o conhecimento humano e a manifestação de Deus, denomina-se teofania. Esta relação (…) funda-se na virtude analítica do conhecimento que unifica toda a natureza e vendo a Deus nas criaturas nele mesmo se converte. (…) Fazer-se Deus, isto é theosis, significa a superação da finitude humana. Neste sentido, theophania e deificatio nomeiam uma mesma experiência: a contemplação da verdade.

II. O 2º Período

Um dos acontecimentos marcantes deste momento da Idade Média é incontestavelmente o contato com as ciências da cultura árabe, que as recebeu, por sua vez, da cultura helenística, as assumiu e as levou a grande desenvolvimento. Como, entretanto, este maior e, sobretudo, mais intenso contato se manifestou?

Sem dúvida, neste contexto uma figura emblemática é Hugo de São Víctor que nos seus escritos apresenta um ensino sobre as ciências profanas que impressiona, sobretudo, por seu caráter universal, especificamente por causa de seu esforço de unificar todos os saberes ao interior de sua “filosofia”, que por sua vez está subordinada à doutrina sagrada”. Quanto à natureza a sua tese é que ela constitui um livro escrito pelo dedo de Deus. A este livro aplicam-se os instrumentos apropriados à exegese bíblica, tentando descobrir o seu sentido e o seu significado que se esconde nas e por trás das palavras. Isto é assim, porque a realidade no seu conjunto, como antes já afirmaram um Isidoro de Sevilha e um Rábano Mauro, tem um interesse principal: o ensino moral e místico que dela se pode tirar. A natureza, então, é compreendida como expressão direta da vontade divina e os seres singulares são imagens de um desígnio divino. Não foi para o prazer humano que as coisas singulares foram inventadas, mas ela foram instituídas pela vontade divina para manifestar a universal sabedoria de Deus.19

Começam também as “aplicações” das novas ciências. No início de sua obra “Tractatus de sex dierum operibus” (Tratado sobre a obra de seis dias) Thierry de Chartres adverte:

Explicarei, de acordo com a física e conforme a letra a primeira parte do Gênesis, que trata dos seis dias e das suas obras, tomadas uma por uma.

Começarei por dizer algumas palavras sobre a intenção do autor e a utilidade do livro. Em seguida, chegarei à explicação do sentido histórico literal, deixando de lado por completo as lições tanto alegóricas como morais, porque os doutores sagrados trataram delas abertamente (…).

As causas que dão ao mundo a sua substância são em número de quatro: Deus, causa eficiente; a sabedoria de Deus, causa formal; sua bondade, causa final; os quatro elementos, causa material.

Também em outros documentos da época, não necessariamente tratando de forma direta de comentários de autores cristãos ou comentando assuntos religiosos, encontra-se uma clara presença das reflexões da Física, como, por exemplo, no famoso Picatrix, um tratado de magia medieval, traduzido do árabe para o espanhol ao redor dos anos 125022, em cujo capítulo VII que trata “Do degrau em que cada coisa se encontra no mundo, e os outros segredos, numerosos, profundos, escondidos pelos sábios e que nos propomos a revelar em nosso livro”, leem-se as seguintes palavras:

Tudo neste mundo é organizado de acordo com uma ordem, conforme uma hierarquia. A primeira de todas as coisas deste mundo, a mais nobre, a mais alta e a mais perfeita das coisas descobertas no mundo é o próprio Deus que é o artesão e o criador de todas. Em seguida segue na ordem a inteligência ou o intelecto, depois deste o espírito e depois do espírito a matéria; e estas substâncias são imóveis, inalteráveis e não podem passar de um lugar ao outro. Em seguida há o céu da natureza, chamado primeiro móvel dos movimentos (…) Em seguida o céu das estrelas fixas (…) Depois disto encontra-se a matéria universal – isto é a matéria prima – na qual se organizam todas as coisas deste mundo que existem nesta matéria, mas que não aparecem. Em seguida desta matéria há os elementos (…) seguem as pedras, e depois as plantas, vêm em seguida os animais, e, por último, o ser vivo dotado de inteligência.

22 Picatrix. Um traité de magie medieval. Traduction, introduction et notes par BAKHOUCE, Béatrice e Fauquier, Frédéric e Perez-Jean, Brigitte. Turnhout: Brepols, 2003.

Mas, com especial ênfase aparece neste tempo, de forma bastante explícita, a imagem do homem como microcosmos, enaltecido por várias fontes, de que o texto de Honório de Autun talvez seja um dos mais realistas e contundentes:

O homem é um Micro-cosmos, porque reúne em si todos os elementos. Da terra ele tem a sua carne, da água seu sangue, do ar a sua respiração, do fogo seu calor. Sua cabeça é redonda como as esferas do céu. Também é parecido nisto que na cabeça brilham dois olhos, como o sol e a lua no céu. Como a cabeça parece as esferas do céu, assim seu peito que respira parece o ar. Sua barriga parece o mar, em que todos os rios desembocam. Os pés carregam – como a terra – todo o peso.

Também por outros caminhos é apresentada a ideia do homem como micro-cosmos, como se pode ler em vários loci do famoso Secretum Secretorum (Segredo dos Segredos), sempre com o intuito de assinalar o lugar eminente do homem no universo, porque este, afinal, por sua razão é parecido com Deus, torna-se o repouso movido em razão do Repouso Movente.

Uma das imagens, apresentadas pelo Secretum Secretorum, revela o homem como se nele estivessem presentes todos os animais, segundo a sua principal qualidade, expressando destarte que tudo converge para o homem: todos os animais, toda a natureza viva e morta:

Saibas, portanto, que Deus glorioso não criou nenhuma criatura mais sábia do que o homem, e não reuniu em animal nenhum o que nele reuniu. E não podes encontrar em nenhum dos animais um costume ou uma natureza que não encontras no homem. Porque o homem é audacioso como o leão, tímido como a lebre, abundante como o galo, ávido como o lobo, irascível como o cão, duro e estulto como o corvo, virtuoso como o róis, malicioso como a hiena (…), luxurioso como o porco, malicioso como a coruja, útil como o cavalo, nocivo como o ratinho. E no universo não se encontra nada animal ou vegetal ou original ou mineral, nem céu ou planeta nem constelação, nem qualquer ser em todos os seres possuindo algo que lhe é próprio, sem que esta característica seja encontrada no homem: e por causa ele é chamado micro-cosmos.

III. O apogeu das Universidades

Neste momento, o século XIII, não somente se encerra o grande movimento das traduções das obras de Aristóteles – algumas espúrias como o importante e influente Líber de Causis – mas tem início o seu estudo e elaboram-se os comentários, não sem um acompanhamento medroso e antes de tudo cheio de suspeitas e desconfianças por parte das autoridades eclesiásticas que, aliás, muitas vezes levaram a restrições e proibições – como de costume quase sempre inoperantes. Uma nova visão, deixando de lado o exemplarismo do famoso “exitus-redditus” esquema como também do sentido “misterioso” da natureza, começa a ganhar terreno. As dificuldades e desconfianças estavam presentes já antes deste momento, por exemplo, quando Guilherme de Conches apresentou os seus pensamentos, e Guilherme de Thierry protestou contra o que considerava uma deturpação da ciência e os denunciou, descobrindo neles uma falta de ortodoxia; para se defender, Guilherme de Conches publicou o seu Dragmaticon Philosophiae (Diálogo de Filosofia) em que um físico e um filósofo “filosofam” acerca de Deus e que de certa forma é uma revisão (ou trata-se de uma retração?) de opiniões e teses defendidas na sua obra De Philosophia (Sobre a Filosofia).

Nesta nova perspectiva, baseada na Física e Metafísica de Aristóteles – embora durante muito tempo estas obras estejam sendo lidas numa “chave” neoplatônica – não se considera mais o mundo sensível como uma sombra, um caminho, um indício, um vestígio ou imagem, ou semelhança, enfim como um livro cuja leitura é reservada aos contemplativos e não aos filósofos naturalistas, como brada nas suas Collationes in Hexameron São Boaventura. Para ele, o mundo não pode ser considerado em si, como uma realidade autônoma, com uma evolução que obedece a certas regras e causas, e que tem uma finalidade própria.

Desenvolve-se, agora, a ideia de uma natureza desligada de transposições e interpretações simbólicas, fora da esfera do sagrado, dotada – como diz le Goff – “de uma consistência ontológica própria e de uma habilidade causal ligada mais diretamente à vida cotidiana do homem”. Fundante para a nova visão da natureza, que se apresenta como aristotélico-árabe, é a lei da causalidade dos céus sobre o mundo sublunar. Mas, não obstante esta nova visão, convém salientar que:

No universo cristão, os céus, tornados criaturas de Deus, conservam todo o poder, mesmo após a adoção da física aristotélica e árabe. Retomando as teses defendidas no século XII, mas com um conhecimento maiôs preciso da física e da metafísica de Aristóteles, a cultura do século XII continua a fazer dos céus e das inteligências motoras instrumentos da ação de Deus. Nos céus (isto é no “livro do universo”) Deus escreveu o que foi determinado “segundo a Providência” (…) no livro da eternidade: eis o que afirmas o celebre Speculum astronomiae (atribuído a Alberto Magno) (…) que permitem verificar que “Deus opera através do céu como se o fizesse por instrumentos”.

Na mesma linha Santo Tomás afirma que não há duvida que todos os movimentos naturais dos corpos inferiores sejam causados pelo movimento do corpo celeste. A natureza, consequentemente, é uma ordem, um encadeamento de causas, uma regra do mundo.

O homem, portanto, faz parte de um contexto onde a natureza não mais se define por suas referências simbólicas como linguagem de Deus, mas pelo fato de que foi criada por Deus, segunda uma “lei” que funde e garante a própria natureza dos seres e que cada ser cumpre de forma inviolável. Torna-se tarefa do homem procurar as causas físicas, em que se afirma a presença indispensável da Causa Prima. Esta procura, que São Tomas afirma ser necessária para qualquer sábio, estabelece uma nova dignidade ao homem, e aquele que não se dedica com empenho a este mister, não se importando em conhecer a beleza do mundo, não é digno de morar nele e deveria, se possível fosse, dele ser banido.

Insiste-se, portanto, numa busca das causas segundas, causas físicas antes de procurar explicações sobrenaturais, busca esta realizada por São Tomas, por exemplo, no seu Super Librum de Causis Expositio, em que com ênfase explica que o Primeiro Ser, Deus, é a causa das causas, dando existência a todos os outros seres, criando-os.

Nesta mesma perspectiva deve ser considerada o que se acostuma chamar a Filosofia da Natureza de Rogério Bacon, embora ela não siga os mesmos caminhos de outros pensadores que tomaram no estudo da natureza as teses aristotélicas como ponto de partida. Central no seu pensamento está a doutrina, herdada do seu mestre Roberto Grosseteste e com certeza desenvolvida com a ajuda de filósofos árabes, que toda causalidade natural se realiza por meio de um processo de irradiação – de que a irradiação da luz é uma instância visível e, por isso, o paradigma. Bacon, desta forma, acreditava que uma investigação do comportamento da luz conduziria à compreensão do funcionamento interno da natureza.

Vale lembrar que uma das grandes teses de Bacon era que a ciência deveria ser antes de tudo útil para o melhoramento dos indivíduos e da Cristandade, opondo-se desta forma à grande tese do franciscanismo, embora ele mesmo frade menor, representado por São Boaventura: a versão ascética e contemplativa da ciência, que deve conduzir à teologia.

Conclusão

Terminando esta pesquisa que, embora incompleta, indica algumas pistas sobre o tema proposto: A natureza como manifestação de Deus na Filosofia Teológica da Idade Média, termina-se com um pensamento moderno, do grande poeta gaúcho Mario Quintana, que traduz de maneira muito feliz e apropriada o que foi a proposta deste trabalho: Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, Pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo.

Leonora Carrington - Quería ser pájaro - 1960

Ω

Astrologia & Narrativas do Céu

Ana Cristina Vidal de Castro

Mestranda no Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

Resumo

O presente artigo faz parte de um estudo maior sobre a relação existente entre Comunicação e Astrologia. Neste artigo a Astrologia é apresentada como narrativa, com a ajuda de autores como Gaston Bachelard, Bernadete Brady, Stephen Arroyo e outros. Além disso, é feita uma pequena introdução sobre a presença da Astrologia na mídia, seja como narrativa resumida (horóscopos) ou como conteúdos que ajudam na construção de narrativas presentes no cinema, nos jornais e outros. Alguns autores utilizados são Malena Contrera, Edgar MorinRegina Machado, Vladimir Propp, entre outros.

α

O Saber Astrológico

A sociedade humana sempre buscou inscrever-se no cosmo e inscrever o cosmo em si mesma.

Edgar Morin

Astrologia é um saber complexo, que inclui outros saberes, como Astronomia, Medicina, Filosofia, Psicologia, Matemática, entre outros. Ela é composta de técnicas e teorias complexas, que incluem cálculos e diversas interpretações. São infinitos os elementos pertencentes à Astrologia. Ao contrário da aparente simplicidade e superficialidade percebida na leitura de um horóscopo de jornal, que considera apenas os doze signos astrológicos, em poucos caracteres, para as previsões genéricas de bilhões de pessoas do mundo, interpretar uma pessoa, evento, ciclo ou situação a partir da Astrologia leva em consideração muito mais do que isso. São diversos fatores combinados entre si, em uma dinâmica cíclica que jamais se repete.

A Astrologia contém um alfabeto próprio, composto de diversos símbolos que representam os planetas, signos e outros pontos. A linguagem astrológica precisa ser interpretada por quem conheça seus símbolos e sinais. A Astrologia também é a narrativa dos ciclos da natureza e do homem. Conta a história dos ciclos celestes e sua relação com os acontecimentos terrestres, o que inclui a experiência humana. Olhando para o céu, podemos contar várias histórias através dos ciclos que, apesar de sempre se repetirem, nunca se combinam da mesma forma.

α

A Narrativa Através dos Ciclos

Desde tempos antigos o homem olha para o céu. Ao fazer isso, os antigos viam a relação entre os movimentos celestes e os acontecimentos terrestres. A partir dessa constante observação do céu, nossos antepassados descobriram relações profundas do céu com o que acontece na Terra.

Como conta Edgar Morin: “Desde a Antiguidade, as sociedades humanas elaboraram concepções a respeito de um universo no qual cada uma delas se inscrevia. Essas sociedades modelaram sua organização de acordo com a ordem cósmica: seus calendários foram estabelecidos com base nos ciclos solares e lunares”.

Por sinal, “toda a nossa compreensão mental do mundo depende dos ciclos – se os eventos não se repetissem, não haveria um universo apreensível e estruturado”.

Townley

As civilizações antigas conheciam e interpretavam o céu, traçando paralelos com os acontecimentos terrestres. Edgar Morin conta que mesmo antes do nascimento da Astrologia, “os astros desempenhavam um papel central na maior parte das civilizações”. De acordo com ele, “A organização social estava decalcada sobre a organização cósmica e os ritos religiosos asseguravam a harmonia entre o homem e o mundo”. Morin ainda complementa: “A ordem cósmica era ao mesmo tempo modelo e garantia da ordem social”.

α

A Narrativa do Sol pelo Zodíaco

Venus and the Chromosphere

O zodíaco é “uma faixa aparente, em forma de circunferência, portanto de 360º, que ‘envolve’ o nosso sistema solar de acordo com o referencial de um observador na Terra como centro. Esta circunferência é subdividida igualmente em 12 signos, ocupando 30º cada um”.

O francês André Barbault define o zodíaco como “o antigo relógio do céu”.

Durante um ano, o Sol aparentemente dá uma volta em torno da Terra, percorrendo a eclíptica e o zodíaco, marcando claramente as estações do ano, que mantém uma relação íntima como os doze signos astrológicos. É como uma história cíclica que o Sol nos conta ao longo de um ano, todos os anos. John Townley nos lembra que: “toda a vida sobre a terra depende da repetição anual do ciclo solar, determinado pela revolução da Terra em torno do Sol e pela inclinação do nosso planeta em relação ao seu plano orbital. As mudanças de estação assim criadas determinam as condições meteorológicas, as reservas de alimento e as regiões habitáveis, que tornam possível nossa existência”.

O ciclo do Sol pelo zodíaco tem profunda relação com a vida humana. Para André Barbault (…) todas as funções biológicas evoluem igualmente ao longo do ano, que fevereiro é o campeão da mortalidade (exílio do Sol), que nosso sono é mais profundo no inverno, estação das marmotas e do voltar-se para si mesmo; e que nosso coração bate mais rápido no verão, estação da agitação e do vai-e-vem; enquanto a primavera faz eclodir a atividade sexual (…).

Este ciclo que se repete anualmente está diretamente ligado às estações do ano e aos signos do zodíaco.

Para Ptolomeu, “o zodíaco é o ano e as suas quatro estações”. O astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão lembra que inicialmente a Astrologia visava prever as estações do ano para fins agrícolas.

α

Dos Quatro Elementos aos Doze Signos

mondkreis

A sequência zodiacal também tem relação com os quatro elementos presentes na natureza, fogo, terra, ar e água, que são a essência dos doze signos. Como cada elemento pode se manifestar de três maneiras diferentes, cardinal, fixa e mutável, temos doze signos, ou seja, três manifestações de cada um dos quatro elementos.

α

Os Quatro Elementos

Por que você me pergunta? Perguntas não vão lhe mostrar, que eu sou feito da terra, do fogo da água e do ar.

Raul Seixas

γ

Fogo

O fogo é o elemento da energia e da vida. “O elemento fogo se refere a uma energia universal irradiante, uma energia que é excitável e entusiástica e que, através da sua luz, dá colorido ao mundo”.

Arroyo

Bachelard diz que o fogo “Vive em nosso coração. Vive no céu”. O fogo contém a energia do Sol que, astrologicamente, rege o signo de Leão, signo de fogo, e o coração.

O fogo é o elemento do ser. E o ser vem do coração, do impulso da vida. “Porque, no fundo, o homem é o que é o seu coração. É nele que a humanidade do ser humano reside e se revela. O coração é o sol do microcosmo”.1

1 Meditações sobre os 22 arcanos maiores do tarô. Autor anônimo, 2005, p. 235.

γ

Terra

A terra é o elemento que dá forma às coisas. É o elemento da estrutura, do que pode ser visto com nossos olhos e tocado por nossas mãos. É o mais concreto de todos, do mundo da realidade e daquilo que é uma certeza, pois todos conseguem enxergar e tocar.

Não à toa Gaston Bachelard dividiu seus estudos sobre o elemento terra em dois livros, A Terra e os Devaneios da Vontade e A Terra e os Devaneios do Repouso. A terra é justamente o elemento do trabalho, do esforço, da realização, de tudo aquilo que é de fato concretizado no “mundo real”.

Para o astrólogo Stephen Arroyo “uma afinação com este elemento indica que o indivíduo está em contato com os sentidos físicos e com a realidade do aqui-e-agora do mundo material”.

γ

Ar

O ar é o elemento do pensamento e como disse Descartes “Penso, logo existo”. Existimos como ser humanos porque além de respirar pensamos e esse pensamento – e a nossa inteligência – nos diferencia dos outros animais e formas de vida.

Os signos de ar são considerados os signos dos relacionamentos. É através do ar que, astrologicamente, as pessoas interagem. Por ser o elemento do pensamento, do intelecto e da razão, é justamente o ar o que permite a comunicação entre as pessoas.

Especialmente quando falamos em comunicação social, em vida social, o elemento ar sempre se faz presente. “Bate-papos sobre os mais variados assuntos, conversas interessantes, discussões objetivas e inteligentes, mostrando verdadeira tolerância com relação ao ponto de vista dos outros” são mesmo características do elemento ar.

γ

Água

Aproximadamente setenta por centro do planeta Terra é composto de água. Coincidência ou não, setenta por cento do corpo humano é composto por água.

Astrologicamente, água é o elemento associado às emoções e aos sentimentos. Ou como bem define Amanda Costa, “o elemento água simboliza os sentimentos e os estados inconscientes e anímicos”.

A imaginação é um dos dons mais fortes do elemento água. Para Liz Greene “pessoas de água têm uma imaginação maravilhosa. Elas são também sensíveis, receptivas e profundas”. Mas a água é “um tipo particular de imaginação”. Mais do que isso:

“A água é também um tipo de destino, não mais apenas o vão destino das imagens fugazes, o vão destino de um sonho que não se acaba, mas o destino essencial que metamorfoseia incessantemente a substância do ser”.

Bachelard

α

Os Doze Signos: Expressões dos Elementos

Os signos astrológicos nascem dos quatro elementos da natureza: fogo, terra, ar e água. Como cada um deles pode ser expressado de três diferentes formas, temos doze signos. Os quatro elementos podem se manifestar através de um dos seguintes ritmos:

Ritmo cardeal ou cardinal: tem a ver com iniciativa e ação. É o impulso primeiro, a capacidade de agir e começar.

Ritmo fixo: tem a ver com a manutenção. É o movimento do não movimento. A preservação e a contenção. É aquilo que se mantém, que permanece estável e seguro.

Ritmo mutável: tem a ver com movimento, adaptação, flexibilidade e mudança. É o que conecta uma à outra coisa, um ao outro ritmo. É o que sempre muda.

“A combinação dos quatro elementos com as três modalidades resulta nos doze padrões primários de energia, denominados signos do zodíaco”.

Arroyo

Assim, o fogo pode se expressar das seguintes maneiras. Fogo cardinal, Áries, o fogo em movimento. A chama. O impulso da vontade. Fogo fixo, Leão, o fogo do Sol. O fogo mais quente. O impulso vital. Fogo mutável, Sagitário, o fogo em movimento. O impulso aventureiro.

A terra, por sua vez, pode se manifestar das seguintes formas: Terra fixa, Touro, a manutenção das coisas. A vontade de permanecer. Terra mutável, Virgem, a terra em movimento. A vontade eficiente. Terra cardinal, Capricórnio, a terra realizadora. A vontade de conquistar.

O elemento ar também se expressa das três formas: Ar mutável, Gêmeos, o ar em movimento. O pensamento em mutação. Ar cardinal, Libra, a troca intelectual. O impulso compartilhador. Ar fixo, Aquário, o ar comprimido. O impulso intelectual criativo.

Por fim, o elemento água também pode se manifestar de três formas: Água cardinal, Câncer, a água do rio. A fonte que gera a vida. Emoção em ação. Água fixa, Escorpião, a água do vulcão ou da lagoa. Emoções profundas. Água mutável, Peixes, a água do mar. Emoções infinitas em mutação.

Vale ressaltar que, no zodíaco, cada elemento aparece primeiramente no ritmo, ou forma, mais afinado à sua essência. O universo astrológico é coerente como um conto da natureza, que conta a história da vida e a cosmologia do ser humano.

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A Personalidade Astrológica

Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar, eu sou as coisas da vida…

Raul Seixas

O universo que cerca a Terra também está dentro do homem. Os elementos e ciclos da natureza formam os doze signos que estão também em nós. Estão em nosso corpo e em nossa personalidade. Somos uma combinação de fatores e carregamos o cosmo dentro de nós. Essa combinação está presente no mapa astral de uma pessoa, sempre único e composto de diversos aspectos, que vão muito além do signo solar.

The moon and Venus as seen by the Clementine probe in 1994.

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Astrologia e Narrativa

A Astrologia é uma narrativa que envolve interpretação. Um astrólogo “lê” o céu e traduz os ciclos celestes. Como diz a astróloga Bernardete Brady, “o céu não é uma simples linha, mas também contém mitologias, histórias e narrativas”.

Qualquer astrólogo que analise um mapa astrológico, ou seja, a história celeste de alguém, verá os mesmos sinais e símbolos, os mesmos fatos, qualidades de tempo e acontecimentos. No entanto, cada um irá traduzir de acordo com sua própria história e bagagem pessoal e conforme seu próprio mapa astrológico. Como uma narrativa que vai sendo contada, um mapa astrológico desdobra-se no tempo e conta uma história real, a história da vida de alguém. Essa história pode ser contada do passado para o presente, do presente para o passado e do presente para o futuro.

Pode-se pensar o mapa como um labirinto ou, em outras palavras, como algo que possui essa estrutura labiríntica. Conforme nos apresenta Lúcia Leão “os labirintos são signos de complexidade” e assim como labirintos são complexos, um mapa astrológico também é. Aliás, a própria Lúcia Leão associa os mapas aos labirintos. Ela diz que “no estudo dos labirintos, um tópico bastante importante diz respeito ao conceito de mapa”.

No caso de um mapa astrológico, este mapeia um labirinto cósmico, que ao mesmo tempo registra um labirinto já percorrido e projeta um labirinto a ser percorrido. Isso acontece justamente porque o mapa astrológico contém ao mesmo tempo o passado, o presente e o futuro.

Conforme Vladimir Propp “A narrativa assegura funções antropológicas indispensáveis à sociedade humana: funções cosmogônicas, institucionais e criativas”. E se a Astrologia é uma narrativa, ela também contém essas funções por ele apontadas. Possui especialmente a função cosmogônica que, para ele, está ligada “à maneira como uma civilização concebe a origem do universo e a sua própria localização no espaço e no tempo”. Ora, a Astrologia trabalha justamente com tempo e espaço, localizando o indivíduo de acordo com ambos os fatores e, além disso, analisa a qualidade do tempo, sem para isso deixar de considerar o espaço.

Propp analisa especialmente a narrativa presente nos contos míticos, mas traça uma relação entre a história e a narrativa. Segundo ele, há uma mútua implicação entre ambas. Para ele a narrativa não apenas dá sentido à história como produz historicidade. Por isso, ainda de acordo com o conceito de Propp, a narrativa é predominantemente metonímica, pois seleciona e articula os paradigmas culturais que fazem o cotidiano.

O mapa astral de uma pessoa é seu DNA astrológico. O DNA contém informações e instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos. Da mesma forma, um mapa astrológico contém instruções e informações sobre a vida de determinado ser vivo. Portanto, é algo que conta a história real da vida de alguém. No entanto, à Astrologia pode ser aplicada a linguagem mitológica, apesar desta linguagem não contemplar totalmente esse saber. A mitologia pode, na verdade, ajudar a explicar o funcionamento astrológico e fazer uma espécie de ponte ou interface entre sua linguagem simbólica e o entendimento humano. Assim, dentre as narrativas possíveis a partir de um mapa astrológico, a mitologia com toda sua estrutura é uma das formas possíveis.

Voltando à teoria de Propp, podemos pensar que a narrativa astrológica ajuda a dar sentido à vida humana, pois permite uma explicação sobre eventos, reações e situações individuais e coletivas que conecta o homem à natureza e aponta coerência e significado à existência.

Um mapa astral e os ciclos astrológicos ajudam, portanto, a contar a história de uma pessoa e, além disso, a atribuir significado a esta história e vida humana, dando um sentido ao que acontece e atribuindo qualidade ao tempo vivido.

Cristina Balieiro e Beatriz Del Picchia ainda consideram que “A jornada para o mais profundo e autêntico de si mesmo é expressa na narrativa de uma vida”. Essa é justamente uma das funções do mapa astrológico: narrar a vida. E como elas complementam: “Assim como cada pessoa é única, cada história é única e, de certa forma, mostra como a vida moldou aquela identidade e ao mesmo tempo foi moldada por ela”.

A escritora e astróloga Amanda Costa lembra que “a Astrologia, como um sistema simbólico fundado em estruturas arquetípicas” é uma “nova leitura do real” proposta pelo também astrólogo, escritor e jornalista Caio Fernando Abreu. Tanto que a Astrologia foi fundamental em boa parte do processo de escrita de Caio. Por sinal, encontramos muita Astrologia em toda obra a do escritor.

Também é interessante pensar quando Roland Barthes diz que “a narrativa, ao mesmo tempo, é (tient) e pretende ser (aspire)”. Isso reflete a estrutura de um mapa astrológico que ao mesmo é, porque mostra uma pessoa e sua vida e ao mesmo tempo pretende ser porque também contém tendências, aspectos e possibilidades que nem sempre chegam a ser ou acontecer.

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Mapa Astrológico: História de Uma Vida

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O mapa astral conta a nossa história e nós contamos a história do nosso mapa. Pode ser sentido como “um símbolo vivo do universo inteiro, visto de um determinado lugar, num determinado instante”.

Os ciclos astrológicos falam dos eventos coletivos e através das observações astrológicas podemos fazer um retrospectiva na história e contar o passado, podemos analisar o presente e podemos prever o futuro.

Como conta o astrólogo Maurício Bernis, existem correlações entre as posições dos astros e os eventos humanos, já que todos os mecanismos de funcionamento do universo obedecem a cíclicas naturais. Assim, os ciclos celestes contam a história da vida terrestre.

Cada mapa astrológico é, como o próprio nome diz, um mapa que nos apresenta o caminho de vida. O mapa astrológico é também um roteiro, a partir do qual desenvolvemos nossa vida.

Quando consideramos o mapa natal, cada um tem o seu, porque como existem infinitas combinações possíveis no cosmo, o mesmo céu jamais se repete. Assim, a cada instante, temos uma configuração celeste distinta.

Regina Machado compara as diferentes visões possíveis em um determinado assunto a janelas das quais se vêem diferentes paisagens, de ângulos particulares. A Astrologia é uma dessas janelas, uma forma de olhar o mundo e de contar sua história, uma das muitas maneiras possíveis de contar e compreender a história da humanidade e a história de cada um de nós.

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Astrologia e Mídia

“Vemos, então, vários pontos de encontro – que vão dos temas aos procedimentos usados – entre os Mitos astrológicos e a Mídia”.

Malena Segura Contrera

A Astrologia está cada vez mais presente na mídia. Está nas revistas e jornais, na internet, na televisão e no rádio. Os principais portais, jornais e revistas do Brasil possuem um espaço dedicado à Astrologia. Porém, está na mídia principalmente de forma reducionista, generalista e estereotipada, por meio de narrativas resumidas, que são os horóscopos. Aliás, eles sempre estiveram presentes nos principais jornais, revistas e, mais recentemente, nos grandes portais.

Por trazer sempre uma novidade, um conselho, algo diferente, os horóscopos muitas vezes servem como um atrativo a mais em busca de audiência, já que costuma ser grande o número de pessoas que lê horóscopos diariamente.

No entanto, Astrologia é muito mais que isso e contém inúmeras narrativas possíveis. A Astrologia, aliás, está presente na mídia não apenas de forma tão clara, mas também aparece como “motivos míticos arcaicos” presentes nos “conteúdos comunicativos da Mídia”. Para Malena Contrera, portanto, é forte a “presença de conteúdos arcaicos – míticos astrológicos – nos textos da mídia contemporânea”. Neste sentido, a Astrologia participa na construção de narrativas presentes na televisão, no cinema, em livros, entre outros.

Mesmo assim, existe muito preconceito no que diz respeito à Astrologia, em geral associada a algo místico e superficial e isso também pode ter a ver com a relação existente entre ela e a mídia. Especialmente porque, além dos horóscopos, a maior parte dos textos sobre o tema falam sobre compatibilidade amorosa entre signos, previsões para celebridades ou outros temas igualmente estereotipados e generalistas, que reduzem toda complexidade da Astrologia e de suas narrativas.

Com o surgimento da internet, especialmente com os sites pessoais dos astrólogos e da presença destes nas redes sociais, este conteúdo mais profundo e complexo relacionado à Astrologia está mais presente hoje na mídia. Mas, ainda assim, ainda há muito trabalho a ser feito neste sentido.

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Algumas Considerações

Apresentar as diversas narrativas existentes na complexidade astrológica é apenas o começo da construção de novas formas comunicativas para a Astrologia. Entre estas formas, estão as mídias digitais, especialmente as redes sociais, que têm se mostrado importantes canais de comunicação desta área do conhecimento, capazes de mudar sua imagem e relação com o público.

Está claro que a Astrologia interessa à Comunicação, seja pela sua participação velada na construção das diversas narrativas presentes na mídia, seja pelas possibilidade de atrair leitores por meio dos horóscopos, que nada mais são do que narrativas resumidas. Por outro lado, a Comunicação interessa à Astrologia, pois pode ser o principal catalizador de uma mudança significativa na relação existente entre ela e seu público. Neste casamento, é possível que haja um crescimento mútuo, já que a Astrologia pode oferecer narrativas ainda mais significativas à Comunicação que, por sua vez, pode ser de grande valia na construção de uma nova imagem para a Astrologia, mais verdadeira e profunda.

Magnum Opus Hermetic Sourceworks Series

Referências
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Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô/Por um autor que quis manter-se no anonimato. 5 ed. São Paulo: Paulus, 2005.

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Depiction of Comet Donati (1858), published 1888. Arcturus to be seen at the comet's head - Credit E. Weiss

Vieira e a majestosa linguagem dos cometas

Pedro Bonfim Leal

Doutorando

No principio falava Deus aos homens por si mesmo, como a Adam, Caim, Noé e outros patriarcas. Depois que se introduziram no mundo os reis, falava Deus aos mesmos reis por visões e figuras, ou em sonhos, ou acordados como o Faraó, Nabucodonosor e Balthazar. Mais adiante falava pelos profetas, que duraram alguns séculos; e por meio de seus oráculos mandava anunciar as calamidades impendentes com que os havia de castigar ou de palavra aos reis e reino de Israel, ou por escrito aos de Tiro, Babilônia, Egito e outros. Finalmente, depois que os profetas cessaram, começou Deus a falar pelos cometas, que é a linguagem universal de maior majestade e horror.

Vieira

Teriam existido, segundo o relato de Vieira, diferentes maneiras como Deus comunicou aos homens suas intervenções na história humana – desde sua aparição direta, seguida da comunicação a reis por sonhos ou visões, de sua voz aos profetas em oráculos, para, finalmente, se utilizar de cometas. É interessante – e relevante para o tema aqui proposto – o gradual encobrimento assumido pela figura divina na elocução de sua fala, cuja presença se retira pouco a pouco: a pessoa inteiramente presente se “dilui” numa apresentação vaga por miragens e sonhos, desaparece por completo, mostrando-se num sussurro no ouvido de profetas, para, enfim emudecer, trocando sua voz pelo texto impresso nos céus.

Segundo Vieira, à aparição de fenômenos celestes, a humanidade se veria defrontada com acontecimentos essenciais, redefinidores dos rumos de sua história. No entanto, é importante ressaltar, o sermonista não atribui aos cometas a causa de tais ocorrências, mas o meio pelo qual as decisões divinas são anunciadas.

Esta hermenêutica celeste poderia, a princípio, ser entendida como atribuição arbitrária, ou filiação a uma ciência oculta, tal a astrologia. No entanto, surpreende em Vieira seu erudito domínio da literatura científica e filosófica sobre o tema. Nomes como Galileu, Kepler e Descartes se aliam à sua voz, ao passo que a astrologia aparece constantemente reprovada.

Tal como um exame atento evidencia, a posição de Vieira é derivada de bases científicas e filosóficas, apoiadas no pensamento de Aristóteles. Para este filósofo, os cometas seriam fenômenos meteorológicos, fisicamente explicados pelo modo como seu sistema concebia o céu. Ao aparecimento de cometas corresponderia um fenômeno terrestre, tal como secas, enchentes, etc.

Encontramos assim um minucioso trabalho de correspondência feito por Vieira em que, no decorrer da história, a aparição de cometas predisseram catástrofes naturais. São inúmeros os exemplos apontados pelo padre, os primeiros antes de Cristo, mas também alguns decorrentes de observações pessoais, com dados precisos sobre dia, local, e o fenômeno anunciado pela aparição.

Este pressuposto físico e naturalista dos cometas se reveste ainda de um sentido metafísico e teológico, pois, para Vieira, a natureza não possuiria, espontaneamente, capacidade de ordenar os elementos de modo a condensar uma massa de fogo na esfera celeste. Seria necessário, a intervenção de Deus, operador desta correspondência.

Esta consideração teológica possibilita a expansão do âmbito de significação da linguagem celeste. Vemos, assim, além de catástrofes naturais, os cometas anunciando também importantes acontecimentos políticos. Segundo Vieira, três seriam as possíveis significações dos anúncios de cometas: guerras, mudanças de império e morte de príncipes ou reis.

Nesta configuração, Vieira encontra na alma humana um equivalente invisível àquilo que, na natureza, causaria os cometas:

Não é erro falso, senão terror verdadeiro, que causa este cometa do céu; porque os vapores com que ele arde, e de que o seu fogo se sustenta, são os pecados que lá sobem da terra; e todo o pecado é cometa. O salitre com que no inferno arde o fogo, e no céu se acendem os cometas, são os pecados: no inferno os dos mortos, no céu os dos vivos; e este mineral não se cria nos cerros e desertos inocentes do sertão, mas nasce e cresce até o céu, nos vícios e escândalos das cidades, tanto mais, quanto mais populosas.

Vieira

É aqui que ao trabalho científico-aristotélico presente desde a idade média, se junta a uma teologia tão rigorosa e minuciosa quanto o que seria hoje o trabalho de um físico atômico. Aprendemos com Foucault em As palavras e as Coisas, aliás, como, até o Renascimento, mas ainda persistente na teologia barroca, todo o conhecimento segue uma dupla diretriz, da ciência herdada de Aristóteles e uma interpretação teológica do mundo.

Os hermeneutas cristãos são minuciosos observadores da natureza, sendo o motor desta investigação a busca das marcas de um texto escrito por Deus no mundo, sem haver mesmo distinção entre a linguagem humana e as coisas. Enquanto criaturas de Deus, as coisas do mundo carregariam em si uma sinalização ao criador e, deste modo, seriam signo de um sentido transcendente, tal como as palavras. Como um eco da linguagem primeira, aquela de Adão, em que palavras e coisas se correspondiam perfeitamente, as palavras eram assim entendidas como misturadas às coisas. Isto porque a linguagem não era uma propriedade humana, mas como o restante do mundo, criação divina.

Segundo João Hansen:

Fundamentando metafisicamente a interpretação, (os padres da igreja) operam com a ideia referida dos “dois livros” escritos por Deus. Um é o do universo visível, a Natureza; o outro, quando Ele se dedica às línguas e escreve em hebraico, grego e latim, é o livro das Escrituras. Cada um deles tem um dentro e um fora, havendo um sentido literal manifesto e um sentido espiritual cifrado, tanto nas coisas quanto nas palavras.

Não é à toa, relembrando as palavras de Vieira na abertura deste artigo, que o último momento de comunicação de Deus aos homens seria o de “maior majestade”. A época de Vieira é a da teologia como interpretação do texto do mundo. Não existe, portanto, ressentimento por Deus não se apresentar em pessoa, ou sua voz não ser mais ouvida. Sua linguagem, agora encoberta e dispersa pelo mundo, ainda fala a um leitor capaz de interpretá-la.

Referências
FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses – une archéologie des sciences humaines. Editora Gallimard, Paris, 1966.
HANSEN, João Adolfo, Alegoria. Editora Unicamp, Campinas, 2006.
VIEIRA, Antônio, Obras várias do Padre Antônio Vieira. Editora Seabra, Lisboa, 1896.

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O Que a Genética e a Astrologia têm em Comum?

Ademir Xavier

Jornal de Estudos Espíritas

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Resumo

Fazemos aqui uma comparação entre as consequências e extrapolações não científicas da genética e da antiga astrologia e analisamos as semelhanças segundo a visão espírita, apontando as causas subjacentes. Interessantemente, ainda que estejam distantes no tempo, essas duas doutrinas compartilham a propriedade comum de limitar ou restringir o livre arbítrio, de forma que estão em profundo desacordo com a visão espiritualista para a qual o livre arbítrio é uma propriedade inerente do ser.

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 I – Introdução

É muito comum encontrarmos hoje em dia discussões sobre as questões da consciência, sobre como a mente se estabelece e opera. Esse renovado debate (encontradas em respeitadas revistas de divulgação científica) reflete o grau crescente de interesse de alguns ramos do conhecimento científico com relação às questões do espírito. O ponto de vista subjacente que orienta as discussões ainda é materialista, apoiado principalmente por um grande contingente de biologistas (evolucionistas, fisiologistas, zoólogos, geneticistas etc.). A crença geral desses grupos sustenta que a mente humana – e, como consequência, toda individualidade humana – é o resultado de interações e conexões de entidades moleculares componentes da parte material, visível ou mensurável pelas técnicas de diagnóstico moderno, o cérebro. Não discutiremos aqui as difíceis propostas de modificação dessa concepção materialista, que têm sido levantadas mesmo dentro de círculos acadêmicos. Tomemos apenas a ideia materialista descrita acima e analisemos suas consequências para o homem, dentro do âmbito de algumas especulações a partir de partes da biologia, em particular a que trata dos mecanismos de perpetuação das espécies.

Esse posicionamento adquire grande interesse popular diante das aventadas extrapolações e implicações da genética. Através de seus princípios, a genética teve grande importância no esclarecimento dos mecanismos de aparecimento e desenvolvimento das espécies, fatos que não estavam tão claros na obra revolucionária de Charles Darwin de 1859, “Sobre a origem das espécies por meio da evolução natural”. Na verdade a comunidade científica da época dobrou-se às evidências práticas fornecidas por Darwin a favor da seleção natural que ele conseguiu junto à paleontologia e a biogeografia. Em contrapartida, o desenvolvimento posterior da teoria de Darwin, dinamizada pela genética, deu origem a diversas especulações em torno da natureza do homem (e das espécies humanas), de seu mecanismo de desenvolvimento e até mesmo de suas consequências éticas. Nasceu a ideia de que os genes (entidades no limite entre o muito pequeno e o atômico) seriam responsáveis não só pelos caracteres morfológicos de um ser vivo – que é princípio na genética – mas também de toda sua bagagem comportamental. Aplicada ao homem, essa forma radical de interpretação genética adquiriu enorme força na formada “sociobiologia” ou “darwinismo social”. Foram lançados então os fundamentos para o desenvolvimento de uma doutrina dentro das disciplinas consideradas científicas, que seria capaz de explicar completamente o indivíduo. A base de tal proposta seria a lei de perpetuação de um determinado gene como determinante de uma certa característica – seja morfológica ou comportamental, mas, principalmente, essa última quando trouxesse vantagens claramente desejáveis a toda espécie. A perpetuação do gene favoreceria diretamente a perpetuação da própria espécie. Como corolário desse princípio (que é válido para os caracteres morfológicos), seria possível alterar o comportamento dos indivíduos pela manipulação genética. Em seus fundamentos, a sociobiologia admite explicitamente que os genes contêm todo o código que descreve o indivíduo, mesmo em sua mais íntima psicologia, a saber: sobre como ele se posiciona diante de determinadas circunstâncias, de suas tendências inatas (inteligência, afetividade, relacionamento social), de seus gostos pessoais etc. É bastante óbvio ao leitor que tal doutrina está em franco desacordo com o Espiritismo. Reduzido a sua última expressão, para os sociobiólogos, o homem seria apenas um repositório para a sobrevivência dos genes que carregariam para a eternidade nossos sentimentos e modos de ser.

A sociobiologia está envolvida em uma ampla gama de debates recentes em torno das questões éticas relacionadas à genética. Tomemos também como exemplo, o ápice de algumas extrapolações que estão na raiz da sociobiologia, tal como a doutrina da eugenia fundada por Francis Galton. Segundo ela, seria possível ao Estado gerar uma elite genética pelo controle rigoroso da reprodução humana, favorecendo a perpetuação dos indivíduos desejáveis (na verdade caracteres de comportamento desejáveis) e eliminando os indesejáveis. Sabemos que alguns Estados totalitários do século XX chegaram a flertar com a eugenia como programa de desenvolvimento social com trágicas consequências.

Nosso objetivo aqui é chamar a atenção para os fundamentos que diferenciam a posição espírita das especulações advindas principalmente da genética. O principal fundamento que colide diretamente com essas recentes propostas é a noção de livre-arbítrio, facilmente reconhecida mesmo entre outras doutrinas espiritualistas. Não será difícil ao leitor nesse ponto reconhecer de imediato que as duas disciplinas enunciadas no título deste texto depõem contra essa noção. Além disso, esses fundamentos se somam a observações mais acuradas a partir de pesquisas biológicas recentes que atingem seriamente o darwinismo social como uma ciência. Para conhecimento dessas críticas, o leitor deve consultar “Os herdeiros de Darwin” por Marcel Blanc.

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II – Um Paralelo

Chamamos mais uma vez a atenção ao fato de que não estamos a criticar a genética como ciência bem estabelecida, mas sim muitas interpretações nascidas de extrapolações de estudos genéticos. Assim, a “genética” do título deste texto refere-se propriamente a tais interpretações que, como vimos, tomaram a forma seja da sociobiologia ou da eugenia. Para motivar nosso estudo, vamos construir um paralelo que se apresenta à mente moderna diante das propostas de descrição da personalidade humana pelos estudos genéticos. Tal paralelo é bastante motivador dentro do contexto da história e filosofia da ciência, pois revela aspectos correlatos entre diferentes doutrinas científicas aparentemente distantes entre si no tempo.

O que, de fato, pode haver em comum entre tais propostas e as velhas proposições astrológicas? No passado, o estudo da posição e movimento dos corpos celestes, a seu turno, desempenhou um papel fundamental na predisposição e destino de tudo o que ocorria na Terra. Em seus estudos, os astrólogos descobriram fenômenos celestes de grande importância. Aprenderam como antecipar em anos os eclipses solares a lunares e contribuíram para o desenvolvimento dos calendários, aumentando assim a riqueza de suas sociedades pela introdução de um rigoroso controle de tempo na agricultura. Não se tem dúvida de que a astronomia (considerada uma das mães da filosofia natural e, portanto, de toda ciência moderna) nasceu a partir de antigos estudos de natureza astrológica.

Vejamos agora o caso da genética, que se inicia com os estudos de Mendel no século XIX. Constituindo um dos campos mais avançados de pesquisa na atualidade (no que diz respeito à aplicação de técnicas de pesquisa empírica e a julgar pelas enormes fortunas que os governos têm gasto em seu desenvolvimento), a genética tem sido responsável por uma enorme variedade de contribuições práticas em biologia, medicina, veterinária, agricultura etc. Em seus estudos, os geneticistas têm desvendado o mecanismo oculto dos genes, tornando possível a cura de muitas doenças e a produção de substâncias que melhoram consideravelmente o desempenho fisiológico de muitos seres vivos. Ao mesmo tempo, a genética projeta sistemas biológicos nunca imaginados anteriormente. Digamos que, de uma perspectiva histórica, as modernas descobertas práticas da genética não devem em nada àquelas derivadas da astrologia.

Entretanto, a astrologia não foi praticada apenas de olho em possíveis aplicações práticas. Seu objetivo primordial era a revelação de fatos desconhecidos, o futuro das pessoas. Seu princípio básico era o de que uma pessoa nasce sob o signo de uma determinada “estrela”. Especificamente, o futuro de um indivíduo estaria, de certa forma, ligado à posição dos planetas no zodíaco. Essa ideia assume de uma forma explícita que a individualidade do ser humano (suas tendências, sentimentos etc.) está fixada pelos planetas no momento de seu nascimento. Implicitamente isso representa uma limitação ao livre-arbítrio do homem, já que este não está tão livre no momento da tomada de decisões, ou seja, alguma coisa além de si próprio intervém, tornando possível uma escolha em detrimento de outra. Ainda que se possa dizer, no contexto moderno, que os astros não influenciam diretamente uma determinada decisão particular, eles certamente fazem parte da imagem final do ser humano por terem moldado suas predisposições. Fundamentalmente, isso contrasta abertamente com a tese espiritualista do ser que tem todo seu comportamento resultante de propriedades de sua essência última, o seu Espírito.

Substituamos agora “posição dos planetas” por “arranjos especiais dos genes” e teremos quase que a mesma coisa nas modernas interpretações do papel dos genes no comportamento humano. A predisposição celeste foi apenas substituída pela molecular, possivelmente quanto mecânica em natureza, ainda que por meio de obscuras inter-relações. Assim, tanto de acordo com a velha astrologia como por algumas interpretações da natureza humana nos estudos da moderna genética, no que diz respeito à individualidade humana e quanto ela pode ser fixada em seu destino, fomos inexoravelmente pré-programados desde a hora de nosso nascimento. A comparação se estende até no momento de se evitar este ou aquele comportamento: enquanto a astrologia pode sugerir a programação baseada na hora do nascimento – segundo a posição dos planetas no céu – na impossibilidade de se alterar essa posição, as extrapolações baseadas na genética sugerem a modificação no conteúdo hereditário das células mães em um esforço para alterar o comportamento. Ambas doutrinas também conferem ao ambiente um papel modelador importante, podendo alterar consideravelmente o script pré-programado.

Em um referencial histórico mais amplo, as semelhanças são igualmente compreensíveis. No passado, a astrologia inseria-se no contexto de doutrinas religiosas politeístas. Tendo a ciência tomado o lugar da religião na sociedade moderna, é natural que as perspectivas genéticas modernas do ser humano tomassem o lugar das velhas doutrinas astrológicas que tinham igualmente algo a dizer sobre o destino e a razão de agir dos indivíduos. Não se pode, porém, deixar de atentar para uma diferença: a de que, enquanto a astrologia tinha como objetivo fundamental prever o futuro – tanto no que dizia respeito a acontecimentos terrenos e seus principais atores, os seres humanos, a sociobiologia que discutimos aqui é uma extrapolação de conclusões específicas e restritas de um ramo da biologia, a genética, cujo principal objetivo é compreender melhor os mecanismos temporais de geração, perpetuação e morfologia dos seres vivos. Um quadro geral comparando essas duas visões pode ser visto abaixo.

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III – Visão Espírita

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Não é consolador e belo poder dizer: sou uma inteligência e uma vontade livre; a mim mesmo me fiz, inconscientemente, através das idades; edifiquei lentamente minha individualidade e liberdade, e agora conheço a grandeza e a força que há em mim.

Leon Denis

Algumas ideias expostas acima como parte integrante do Darwinismo social aplicada à natureza humana parecem fortemente limitar uma das mais misteriosas propriedades do ser humano: o livre-arbítrio. Podemos descrever o livre-arbítrio como a capacidade do ser decidir entre duas alternativas ou entre um conjunto de opções por uma introspecção interna. O livre-arbítrio prende-se logicamente a razão de ser da personalidade humana, diz-se que a criatura humana age de acordo com suas pendências pessoais, e toma a decisão segundo seus interesses e inclinações quando o livre-arbítrio tem papel preponderante. Para nós, Espíritos encarnados, estamos absolutamente convencidos de que nada externo a nós influencia tal escolha, não estamos “pré-programados” ou somos controlados “remotamente” para decidir entre isso e aquilo.

Do ponto de vista espírita, assim, as semelhanças entre as extrapolações genéticas e a astrologia também têm sua razão de ser. Elas provêm de uma compreensão parcial da natureza humana. Os Espíritos foram bastante claros quanto à inexistência de scripts pré-programados determinando a personalidade humana. Na Parte 2 do Capítulo 1 de “O Livro dos Espíritos”, Kardec dirige-se aos Espíritos nos termos:

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não os criou maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanto para o mal. Os que são maus, assim se tornam por vontade própria.”

A resposta dada contém em si um princípio. Os Espíritos são dotados de uma capacidade própria (como no caso da inteligência), o de julgarem as coisas livremente. Compreende-se que, se não fosse assim, Deus certamente seria o responsável pela escolha “errada” e, portanto, por todo o mal que parece se originar dessa escolha. Em outras palavras, sem o livre-arbítrio, os Espíritos não passariam de meros autômatas previamente programados. A resposta, como de costume, parece não ter sido suficiente a Kardec. Ele volta ao ponto da escolha entre as duas opções possíveis com a questão 122.

122. Como podem os Espíritos, em sua origem, quando ainda não têm consciência de si mesmos, gozar da liberdade de escolha entre o bem e o mal? Há neles algum princípio, qualquer tendência que os encaminhe para uma senda de preferência a outra?

“O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire a consciência de si mesmo. Já não haveria liberdade, desde que a escolha fosse determinada por uma causa independente da vontade do Espírito. A causa não está nele, está fora dele, nas influências a que cede em virtude de sua livre vontade. É o que contém a grande figura emblemática da queda do homem e do pecado original; uns cederam à tentação, outros resistiram.”

“As influências a que cede em virtude de sua livre vontade” constituem todas as influências externas ao Espírito que atuam durante sua vida espiritual e que lhe são impostas, a fim de que consiga progredir. A decisão de qual caminho tomar diante de tais influências pertence somente ao Espírito, durante sua jornada evolutiva. Por tais fatores externos compreendemos não somente os inumeráveis fatos que o Espírito encontra na encarnação (prazeres fictícios, pessoas as quais ele tem afeto ou não, circunstâncias felizes ou de desgraça), mas também todas as condições especiais criadas pelo corpo físico no período da reencarnação. Assim, o papel da hereditariedade não é definir o comportamento humano (com exclusão do livre-arbítrio que seria função dessa programação), mas sim libertar ou limitar as capacidades já adquiridas pelo Espírito por meio de arranjos especiais ou vínculos físicos no corpo material, entendido como uma ferramenta de trabalho desse Espírito.

Considerações mais específicas ao assunto que aqui tratamos são tecidas nas questões 845 e 846. Destacamos a primeira:

845. Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?

“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de reencarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-lo à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder. (361)”.

No final da resposta, há uma referência direta à questão 361, onde os Espíritos reafirmam que as qualidades morais que caracterizam a índole do ser humano têm origem em seu Espírito. Poder-se-ia argumentar que as predisposições instintivas fossem determinadas geneticamente ou, no caso da astrologia, pela posição dos astros no firmamento. A Doutrina Espírita afirma que as predisposições instintivas são patrimônio do Espírito, a bagagem ou herança espiritual criada e carregada por ele mesmo através dos séculos. Isso porque a lei moral que regula a distribuição equitativa da justiça só é um conceito válido se o Espírito for o único responsável por seu sucesso ou fracasso. Tal é o conteúdo de perfectibilidade da lei, assentado sobre um princípio que se liga diretamente à origem do Espírito e a sua mais íntima natureza. Essa conclusão magistralmente integrada ao conteúdo de princípios da Doutrina Espírita é a única capaz de explicar o ser humano, ou de ao menos trazer a sensação consoladora de que não somos joguetes da sorte. Para os abusos de interpretação oriundos da genética ou da astrologia, o ser humano é uma criatura incompleta, inconsistente em si mesmo porque, para vir a ser, necessita do jogo aleatório, seja das disposições genéticas ou da posição dos astros.

Entretanto, já comentamos sobre a influência da matéria. Esta é naturalmente função do grau de adiantamento do Espírito, tanto intelectual como moral. Essa influência foi inúmeras vezes reafirmada pelos Espíritos, e pode ser encontrada em diversas respostas do “Livro dos Espíritos”. Nos estágios iniciais de evolução, é natural que os Espíritos estejam fortemente sujeitos aos ditames da matéria. A matéria não determina a decisão do Espírito, mas atua vigorosamente como vínculos que o incitam a uma ou outra direção. À medida que o Espírito evolui, os laços materiais tornam-se mais fracos, liberando-o cada vez mais para decisões independentes ou para a manifestação de capacidades em desacordo com os arranjos materiais ou leis naturais. Alguns exemplos práticos dessa liberdade relativa da matéria podem ser encontradas mesmo em nossa sociedade:

I – A liberdade de escolha de seres humanos em ter ou não filhos. Como se sabe, a reprodução é uma lei natural através da qual os genes são transmitidos a futuras gerações de uma certa espécie, por meio de um processo que é o próprio núcleo da evolução natural. Se não há reprodução dentro da espécie, esta inexoravelmente morre, tanto fisicamente como para a Natureza como um todo, já que seu conteúdo hereditário deixa de existir. Os seres humanos, que são Espíritos encarnados, podem surpreendentemente “refutar” essa lei biológica e decidir por não se reproduzir. Se admitirmos que os animais e os humanos guardam origem e natureza comuns (são seres encarnados em diferentes graus da escala evolutiva), tal escolha bizarra só pode ser compreendida dentro da relativa liberdade de decisão adquirida pelo Espírito com essa evolução. Naturalmente, devemos diferenciar aqui a decisão de não se reproduzir tomada como uma opção de vida, onde o sexo ainda é ingrediente, corrente daquela inerente ao próprio Espírito na abstinência sexual a que se dedica, as vezes durante toda a vida, por ter atingido uma relativa independência das necessidades sexuais. No caso desses seres, cujo número nossa sociedade guarda muito poucos, existe uma clara libertação de uma lei que é muito forte para o imenso contingente de encarnados.

II – Os inumeráveis e não ortodoxos comportamentos sexuais humanos. Entendemos que homossexualismo, bissexualismo e transsexualismo são fenômenos que surgem naturalmente, no sentido exposto acima, da liberdade adquirida pelo Espírito dos laços e leis materiais ou da força de seus instintos internos – originados em sua própria natureza espiritual – que refutam a escolha biológica herdada. Muitas teorias têm sido desenvolvidas para explicar tais comportamentos, partindo-se de diferentes hipóteses. Algumas delas tendem a enfatizar a “bagagem hereditária”, enquanto que outras o ambiente. Nenhuma explicação adequada e convergente tem sido encontrada. O ponto crucial parece ser a falta de uma imagem coerente do ser humano, que pode ser plenamente encontrada através da aplicação dos princípios espíritas. De fato, a reencarnação é o ponto de partida para se compreender muitos desses fenômenos, sendo o transsexualismo apenas um dos exemplos notáveis.

As aparentes similaridades entre a astrologia e a genética (tanto quanto podemos inferir do conhecimento comum dessas disciplinas) estão conclusivamente estabelecidas sobre uma visão parcial da natureza humana. Embora sejam consideradas muito diferentemente pela sociedade moderna, tanto uma como a outra limitam, de certa forma, o livre-arbítrio humano, que sofre a interferência de fatores externos no momento do nascimento. Os Espíritos, entretanto, deixaram claro que não existe uma programação de comportamento, antes, o Espírito é livre para tomar as decisões que julgar conveniente. Para isso, o Espírito utiliza os recursos materiais colocados a sua disposição, sendo ele o responsável pela escolha correta ou errada, se caiu sob esse ou aquele arrastamento. À medida que o Espírito progride, torna-se menos vulnerável à influência material, porque já demonstrou em si mesmo que está livre dela.

Há ainda a questão da escolha dos fatores materiais, que são mais ou menos estabelecidos no momento da reencarnação. Para a Doutrina Espírita, mesmo nesse instante, não existe propriamente uma “imposição externa”, mormente se o Espírito já desfruta de um certo nível evolutivo. No início de sua jornada, é razoável admitir que o Plano Maior se responsabilize pelo estabelecimento dos recursos materiais apropriados ao ser ainda em estágio embrionário, nascido “simples e ignorante”. Assim sendo, podemos dizer que a origem de todas as disposições externas durante a existência material do Espírito está fundamentalmente estabelecida nele mesmo.

Acrescentamos além disso que, mesmo se houver espaço para o livre-arbítrio dentro de certas teses (como é o caso da astrologia e do darwinismo social ou sociobiologia) esse sofre injustamente com a ação de fatores externos que não têm nenhuma relação, ainda que indiretamente, com o próprio Espírito. De certa forma, isso responde a possíveis questionamentos da astrologia e da genética aplicada ao comportamento quanto a minhas colocações anteriores sobre o livre-arbítrio nos seres e sua não determinação absoluta (determinismo comportamental fraco) pelos mecanismos externos propostos por essas teses. Em resumo, para o Espiritismo, o Espírito é o artífice do seu destino – através da simbiose entre ação e reação ligadas aos seus atos – enquanto que, para outras teses não espíritas, o destino é alterado por mecanismos alheios à vontade do ser. Para completar, lembramos que, no caso das religiões cristãs mais antigas, – seja o Catolicismo ou Protestantismo – a alma é criada por Deus no instante do nascimento. Como ela não existe anteriormente a esse evento, todas as suas predisposições naturais só podem ter origem naquele que as criou. Assim, Deus é o grande responsável por seu destino. Nesse caso extremado de determinismo comportamental, que valor pode ter o livre-arbítrio?

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Referências
Marcel Blanc. Os herdeiros de Darwin. 1a Ed. pela Editora Página Aberta (1994).
Leon Denis. O problema do ser, do destino e da dor. Editora FEB, 16a Ed., Rio de Janeiro (1991).
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 71a Ed., Rio de Janeiro (1991).

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