Estudos Astrológicos e Transcendentais I

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The observatory of Alexandria

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O que os Jessênios Ensinam sobre Astrologia?

Ibny Joshai

Observemos o seguinte extrato do livro Aurora Nascente de Jacob Boehme:

Prefácio – item 1: Benevolente leitor, eu comparo toda a Filosofia, a Astrologia, a Teologia, juntamente com a fonte de onde elas derivam, a uma bela árvore que cresce num soberbo jardim de delícias.

Prefácio – item 9: Ora, a natureza tem em si, (e nessa árvore), duas qualidades, e isto até o julgamento de Deus; uma é amável, inteiramente celeste e santa; a outra áspera, infernal e devoradora.

Prefácio – item 10: A qualidade boa opera e trabalha continuamente com grande atividade, para (fazer a árvore) dar bons frutos, nos quais o Espírito Santo domina, e ela dá para isso sua seiva e vida. A qualidade má compele e se empenha também com todo o seu poder para dar sempre maus frutos, e o domínio lhe fornece para isso sua seiva e sua chama infernal.

Prefácio – item 11: Estas duas coisas (ou espécies de qualidades) estão agora na árvore da natureza; e os homens são formados desta árvore, e vivem no meio de uma ou de outra qualidade neste mundo, nesse jardim, em grande perigo, exposto ora ao ardor do sol, ora à chuva, ao vento, à neve.

Prefácio – item 17: Mas, como o homem tem tendência para ambas as qualidades, (ou seja, tende tanto à natureza má quanto boa), ele pode ligar-se à que lhe apraz; porque ele vive entre uma e outra neste mundo; e as duas qualidades, boa e má, estão nele. Naquela em que se move, dela será imediatamente revestido, ou da força santa, ou da força infernal.

Prefácio – item 84: Eu dei a este livro o nome: A Raiz, ou a Mãe da Filosofia, da Astrologia e da Teologia. Para saber do que ele trata, observai o seguinte: 1º) Pela Filosofia, considera-se o poder divino; o que é Deus; como a natureza, as estrelas e os elementos são criados da essência de Deus, de que toda coisa tirou sua origem; como são criados os céus, a terra, e o inferno, assim como os anjos, o homem e o demônio, e tudo o que existe como criatura; além disso considera-se também o que são as duas qualidades, (a boa e a má), da natureza: tudo segundo um fundamento real no conhecimento do espírito, segundo o impulso e o movimento de Deus.

Prefácio – item 85: Pela Astrologia, consideram-se as Virtudes da natureza, das estrelas e dos elementos; como que desta fonte provieram todas as criaturas; como que estas mesmas virtudes (passam das estrelas para o mundo), e estimulam, governam e operam em todas as coisas, fazendo, assim, com que o bem e o mal se achem nesse mundo e nele dominem; e como os reinos do céu e do inferno nele subsistem.

Eis acima, nas palavras de Boehme, o que nós, jessênios, entendemos por Astrologia. Como ele mesmo afirma no item 86 daquele prefácio, “o nosso objetivo não é expor o curso, o lugar e o nome de todos os astros; nem o de fazer com eles horóscopo; nem tampouco mostrar como eles fazem anualmente sua conjunção, sua oposição, ou sua quadratura, e outras coisas semelhantes, que a astrologia comum tem por costume fazer e expor, dizendo como fluem e operam cada ano e em cada lua.” Absolutamente não é esse o objeto da astrologia jessênia, tanto que, para evitarmos confusão com a arte astrológica comum, aquela que propicia os horóscopos de jornais e revistas, e que vaticina sobre o destino dos homens segundo observações físicas através de lunetas e de mapas astrais, demos à nossa ciência o nome de Astrosofia. Esse termo, muito desconhecido do esoterismo geral, presta-se, portanto, para nomear a nossa ciência de observação de como o Poder Divino do Espírito da Luz, sob a forma de qualidade boa, luta no coração dos astros com a qualidade má, para fazer afluir para esse nosso planeta das sombras (esse é o nome que o profeta Isáias lhe dá no seu livro, capítulo, 9) essa natureza boa; e como que a natureza má também age no seio dos planetas e astros, formando o fluxo da natureza infernal ou o Fatum (destino horoscópico), como o denomina Hermes Trismegistos no seu livro Poimandres.

Numa grande e profunda exposição, em seu livro De Signatura Rerum (A Assinatura das Coisas), capítulo XI, Boehme leva seu leitor a uma aproximação sem igual dos segredos da Astrosofia. De tudo quanto lá se encontra escrito, escolhemos a seguinte parte:

De Signatura Rerum – XI, item 65: Também o filósofo pode ter o seu corpo neste vale de lágrimas e libertá-lo da doença, até a constelação mais alta de Saturno.

Boehme está falando da operação alquímica, ou do processo espiritual, pelo qual o discípulo ou filósofo pode, estando debaixo do domínio das estrelas em suas qualidades astrais más, livra o seu corpo material da doença da Queda, ou seja, da enfermidade do erro e da vida calcada nas atitudes ímpias e pela natureza má (Fatum), e colocá-lo naquele estado que ele, no em Aurora Nascente, denomina de árvore de natureza e qualidades boas, fazendo-o dar bons frutos.

Evidentemente que se deve, nesse caso, entender bem que esse corpo material, mesmo após ser limpo das doenças e dos efeitos da Queda, não presta para ser levado para o mundo futuro e espiritual, para o Reino de Deus, pois, ainda que puros, carne e sangue não entram no Reino do Espírito. Boehme quer, nesse item do De Signatura Rerum, dizer apenas que esse corpo pode, por um processo alquímico, ser limpo das influências infernais que borbulham no coração dos astros e estrelas, e, vazio dessas forças, adquirir a condição de livrar-se das doenças e sustentar a alma em sua busca da Verdade e da libertação final. Nessa libertação final, a alma, revestida de outro corpo, luminoso e imperecível, abandona esse de matéria terrestre e mortal, para entrar nos domínios da Luz de Deus.

Esse processo ou operação alquímica, Boehme, inspirado na Cabala, chama de Redenção, e na alquimia, de Transmutação. Referindo-se a essa arte transmutatória ou processo espiritual de Redenção, Boehme profere as seguintes palavras no livro, A Vida Supra-sensívelDiálogos entre um Discípulo e seu Mestre: Cap. II – 16.

Discípulo: Agora entendo que a principal causa da cegueira espiritual, de quem quer que seja, é permitir que a sua vontade entre em algo exterior ou em sua própria obra, de natureza boa ou má, e estabeleça seu coração e seus afetos sobre a obra de suas próprias mãos ou de sua própria mente. Compreendo que, quando o corpo terrestre perece, a alma fica aprisionada nesse afeto a que se permitiu entrar. Então, na morte, quando já não habita na luz deste mundo, se a Luz de Deus não estiver no interior da alma, ela só poderá estar numa prisão escura.

Quanto a isto os jessênios têm ensinado muito que nesta Era de Aquário o maior erro do homem que quer buscar a Verdade será ficar envolvido com grandes obras, quer sejam construções para o bem ou para o mal, e aí deixar se perder o seu coração, e aí se colocar em distração e força, e entregar-se em seu afeto, e com esse afeto desenvolver o apego aos seus projetos pessoais, e às suas grandes realizações.

Sem dúvida, muitos estão obrando maravilhosamente no momento e construindo belas obras na matéria, buscando como causa de todo esse construir e realizar, motivos espirituais, nobres, e razões infinitas para que seus projetos sejam aceitos como conseqüência de um coração que se inspira nos ideais filosóficos elevados; mas, perante a Verdade, seu coração está inteiramente perdido nisto, e sua vontade e intenção voltada para a vaidade pessoal e para a vanglória, o que os arruína inteiramente para o processo espiritual da Redenção.

E por que esse é o maior erro do homem moderno em sua busca da Verdade? Os motivos são Astrosóficos. Aquário irá destruir tudo o que foi construído com o coração em vanglória e envolvido pela vaidade, pela ostentação e luxúria. E obras faustosas serão o principal tropeço daqueles que não quererão buscar na simplicidade e na humildade o caminho espiritual.

O caminho espiritual aquariano, dinamizado pela poderosa força de Urano, tem a marca de ser simples, prático, muito humilde e muito pouco dispendioso. Quanto a isto, a vida, os projetos, e as realizações de Jacob Boehme e sua pobreza social, contrários à sua grande riqueza espiritual e sua vastíssima iluminação profética, são uma marca inequívoca de que esse grande Instrutor da Verdade viveu sob o dinamismo da força de Urano.

Esse espírito uraniano profético que transpira em Boehme e em suas obras faz o legado dele ser um precioso tesouro espiritual para essa Era Aquariana. Eis porque, nós jessênios, nos miramos e nos inspiramos inteiramente no seu legado.

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Astrologia e Personalidade

Paulo Roberto Grangeiro Rodrigues

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

 Esta tese é interessante: deve-se considerar o fato de que o autor não é astólogo e por isso a confusão entre o signo zodiacal e o signo das constelações. Para um entendimento mais exato sugiro este link: La reforma del mapa astrológico.

César Augusto – Astrólogo

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Astrologia e sua Importância na Cultura Ocidental

Onde quer que tenha nascido uma civilização havia uma forma de astrologia, como um conhecimento da ligação entre as coisas do Céu e da Terra. Era uma forma de se compreender e se prever “acontecimentos”, dado que se entendia que tudo que acontecia na Terra era resultado de uma influência do Céu. Para isto, antes mesmo de surgir a escrita, surgiram os primeiros observatórios astronômicos, sendo os mais antigos feitos com marcos de pedra, que eram templos ao mesmo tempo.

Estudos com monumentos megalíticos têm mostrado que sua função religiosa era antes de tudo relacionada com marcar os movimentos do sol, da lua e das estrelas, prevendo então eventos astronômicos importantes, como máximos e mínimos de afastamentos, e eclipses. Um pesquisador da história das idéias, o inglês Peter Marshall, estudou as principais tradições “astrológicas” em diversos centros de civilização do mundo: China, Índia, Mesopotâmia, Egito, Oriente Médio e Europa. Conclui que, por detrás das diferenças das imagens, há a mesma busca da compreensão das relações entre os seres humanos, o tempo e o cosmos.1

1 “At the centre of astrology lies the unfathomable mystery of the correspondence between heaven and earth, of the relationship between ourselses, time and the cosmos” (Marshall, 2004, p.377)

Foi no Oriente Médio que se originou a astrologia que conhecemos hoje no mundo ocidental. Seus primeiros civilizadores construíram observatórios na forma de pirâmides com andares – os zigurates– que permitiam medir e prever os movimentos do sol, da lua e dos planetas, dando-se sempre sobre o mesmo fundo de estrelas, com o que foi possível a criação da faixa circular celeste chamada Zodíaco, por volta de 700 a.C., e dividi-lo em 12 partes – os signos – por volta de 600 a.C.

O Zodíaco atualmente usado no ocidente preserva muito de sua história, suas imagens expressam a necessidade fundamental de determinar as atividades agrícolas e, portanto, as estações do ano, para aqueles povos que ali se fixaram.

Desde 3.000 a.C. havia uma divisão – na Pérsia – do céu em quatro partes, pelas quatro estrelas Reais: Aldebaran, ligada posteriormente à constelação Taurus, Regulus, ligada a Leo, Antares, ligada a Scorpius, e Fomalhaut, ligada ao Piscis Austrinus, logo abaixo de Aquarius. Estas indicavam o início das estações do ano, quando o sol as alcançava.

As primeiras constelações zodiacais, antes da divisão em doze, foram: Taurus, Gemini, Leo, Virgo, Scorpius, Sagittarius e Pisces; estabelecidas pelos caldeus na Mesopotâmia, com seus nomes depois latinizados por Claudius Ptolomeu em 140 d.C.

Gemini representava a germinação das plantas na primavera. Virgo simbolizava a deusa Istar, filha do céu e rainha das estrelas, coincidindo com a época de colheitas ao fim do verão. Sagittarius representava na Babilônia o deus arqueiro da guerra Nergal. No Egito é representado como um centauro alado, pronto a flechar o escorpião. Entre os gregos é considerado Quíron, o imortal.

Taurus iniciava o Zodíaco e o ano, há aproximadamente 4.000 anos, entre os babilônios. Com a “precessão dos equinócios”, resultado do movimento do eixo terrestre, o equinócio da Primavera desloca-se para trás nas constelações e então Ariesou Carneiro passou a ser a constelação inicial – criada pelos babilônios – por volta de 2.500 a.C. Foram criadas então outras imagens nas constelações para os inícios das estações: Cancer, o caranguejo, foi criado para representar o fato de que no Solstício de Junho o Sol anda como aquele animal, de lado – ou seja, de Norte para Sul. Libra, a Balança, foi criada a partir das antigas garras do escorpião, para representar a igualdade do dia e da noite no equinócio do Outono, e também o início da segunda metade do ano que vai equilibrar a primeira. Capricornus, o Capricórnio, criado por caldeus, talvez represente o fato de que as cabras descem as montanhas com a chegada do inverno, e talvez seu rabo de peixe represente esta necessidade de descer para alcançar os vales e rios, ou seja, o Sol que ia cada vez mais longe, com dias cada vez mais curtos no Hemisfério Norte, é representado por um bode que sobe as montanhas, mas seu rabo de peixe é uma “garantia” de que vai voltar ao vale, como o Sol passa a retornar a partir do Solstício de Inverno.

Aquarius, o Aguadeiro, representa as chuvas do mês de Fevereiro, e em antigos monumentos da Babilônia é representado por um homem que entorna água sobre o Peixe Austral.

E as imagens do Zodíaco que conhecemos hoje são um fruto final de uma interpretação do ciclo anual naquelas culturas do Mediterrâneo. Os signos expressam, antes de tudo, uma síntese do ciclo das estações do ano conforme simbolizadas em suas etapas, com contribuições das culturas da Babilônia, do Egito e da Grécia, unificadas sob Roma.

Podemos entender claramente que foram os signos que deram nome às constelações zodiacais e não o contrário, ainda que algumas delas, como Geminie principalmente Scorpius, possam ter sugerido uma imagem.

Porém a atitude religiosa em relação às estrelas fez com que fossem consideradas portadoras do poder de modulação da força ou influência dos planetas que passavam pelas 12 constelações.

A astrologia também passou a ser uma maneira de conhecer as “intenções dos deuses”. Desde os seus primórdios a astrologia era ligada à religião, e segundo o movimento dos astros errantes poderia haver sofrimentos ou benefícios, o que orientava rituais propiciatórios. Com o tempo, as astrologias ao redor do mundo foram sendo levadas de uma aplicação para o uso religioso de uma civilização para a previsão de destinos individuais, e não apenas dos governantes2.

2 “In the majors traditions of astrology – in China, India, Mesopotamia, Egypt, the Middle East and Europe – there was an early move from predicting the fate of nations to divining the course of individual lives.” (Marshall, 2004)

Desde a época das religiões politeístas dominando o Oriente Médio, a astrologia era praticada dentro de uma atividade ritualizada no decorrer do ano. Já no fim do Império Babilônico, os caldeus chamavam os planetas de “intérpretes”, porque manifestavam aos homens os propósitos dos deuses, segundo Franz Cumont, arqueólogo e historiador na área das religiões clássicas.

Cumont investigou a astrologia sob o aspecto religioso. Fez uma série de Conferências em 1912 que foram publicadas com o título de Astrologia e Religião Entre os Gregos e Romanos 3 onde se baseia em textos e monumentos antigos para retirar dali suas aplicações naquelas civilizações, e suas idéias básicas.

3 CUMONT, Franz (1912): Astrology and religion among the greeks and romans (1989).

Afirmou ali que: “depois de haver reinado soberana na Babilônia, a astrologia conseguiu fazer sombra aos cultos da Síria e do Egito, e sob o Império – referindo-se ao ocidente – chegou a transformar inclusive o antigo paganismo da Grécia e de Roma.” “Deste modo, o nome dos planetas que empregamos hoje em dia são uma tradução de uma tradução latina, de uma tradução grega, de uma nomenclatura babilônica”

(Cumont)

Logo de início percebe-se também a busca de uma vinculação da alma humana com os astros:

“Os caldeus admitiam, ao que parece, que o princípio da vida, que dá calor e anima o corpo humano, era da mesma essência que a dos fogos do Céu. Destes, a alma ao nascer recebe suas qualidades, e neste momento as estrelas determinam seu destino na Terra.”

(Cumont)

Na época em que Alexandre Magno conquistou a Mesopotâmia (331-330 a.C.), encontrou lá “sobre um profundo substrato de mitologia, uma teologia esotérica, baseada em pacientes observações astronômicas, que professavam revelar a natureza do mundo – considerado divino, os segredos do futuro e o destino do homem.”

(Cumont)

Da Babilônia a astrologia foi levada à Grécia, por filósofos que lá estudaram, e que acrescentaram sofisticações segundo sua abordagem racional:

“Para muitos dos filósofos gregos, não porém certamente para todos, o movimento regular dos céus não é apenas o padrão e a medida do tempo (quando não é identificado com o próprio tempo); serve, também de argumento provando a boa ordem do cosmos, da qual é uma manifestação.”

“Sempre é verdade que o sentimento do nexo existente entre a ordem temporal e a ordem moral continua sendo um dos principais temas da concepção grega do tempo e do mundo.”

(Lloyd,1982)

Platão e Aristóteles afirmam a divindade das estrelas (estrelas são para eles tanto os planetas quanto as estrelas fixas), sendo que Platão chama explicitamente os planetas de deuses visíveis que estariam abaixo do supremo Ser eterno e perfeito, o qual os anima com sua própria vida. Assim como Pitágoras vê os corpos celestes como “movidos pela alma etérea que anima o universo e que é semelhante à própria alma humana.”

(Cumont)

“Estas doutrinas, que deste modo propagaram-se gradualmente sobre a Grécia clássica, seriam tomadas e transformadas pelos Estóicos. Para os discípulos de Zenon a alma do homem é uma porção do fogo divino em que seu naturalismo panteísta via a força produtiva e a inteligência do mundo. A razão humana, partícula da razão universal, era concebida como alento, como emanação ardente. As estrelas são a mais brilhante manifestação do fogo cósmico. A filosofia do Pórtico favorecia a crença de que a alma era unida com os corpos celestes mediante uma relação especial, e deste modo o Estoicismo conseguiu ser prontamente reconciliado com a astrologia.”

(Cumont)

Tanto os sacerdotes quanto os sábios da época abraçavam as mesmas doutrinas:

“É notável que no séc. II antes da nossa era, esta doutrina foi defendida especialmente por Hiparco, que não era apenas um dos astrônomos mais célebres, mas um adepto convicto das teorias astrológicas. Foi aplaudido calorosamente por Plínio por ter demonstrado melhor que qualquer um que o homem está relacionado com as estrelas e que nossas almas são parte do céu”.

(Cumont)

Daí surge a astrologia individual, chamada de Natal ou Genetlíaca. O Mapa astrológico individual mais antigo que se preservou foi feito em 410 a.C., entre os babilônios, e consiste numa lista da posição no zodíaco da lua e dos cinco planetas para um nascimento. Há indicações de que se dava importância maior ao “signo lunar” do que ao solar, e isto é esperado, dado que é fácil localizar em qual constelação a lua está passando no período do nascimento de uma pessoa, enquanto a posição solar só pode ser inferida, devido ao próprio brilho do sol. A tradição do signo da pessoa ser o lunar foi mantida entre os gregos, ao absorverem o conhecimento astrológico da Babilônia, e foi levada à cultura romana: O Imperador Augustus mandou cunhar moedas de prata com o Capricornus, seu signo lunar conforme o horóscopo que também publicou.

Podemos perceber a astrologia daquela época como relacionada a uma astronomia que ficava a serviço da religião, e ainda que Claudius Ptolomeu no seu Tetrabiblos descrevesse a influência física dos planetas como causa de seus efeitos baseando-se na física aristotélica, havia uma religiosidade que via os planetas como deuses em si, e era esta a cosmovisão popular.

“Assim, pois, todas estas doutrinas, apesar de suas diferenças em detalhes, pregavam que as almas, descendentes da luz das alturas, reascendiam à região das estrelas, onde moravam para sempre com estas divindades radiantes.”

(Cumont)

A astrologia em Roma ganha uma forma final – através dos escritos de Ptolomeu e da religiosidade popular – que se preserva através da Idade Média na Europa, apesar do monoteísmo difundido pela Igreja Católica.

“A imortalidade sideral é provavelmente a doutrina mais elevada concebida pela Antiguidade. Foi nesta fórmula definitiva onde se deteve o paganismo. Esta crença não pereceria para sempre com ele; e inclusive depois de que as estrelas foram despojadas de sua divindade, chegou a sobreviver em certa medida à teologia que a havia originado.”

(Cumont)

Também Ptolomeu conservou os deuses planetários, apenas que ficavam subordinados ao Pai celestial Criador. Isto foi expresso por Marcus Manilius, poeta romano, no século I de nossa era:

“Pode-se conceber uma máquina mais perfeita em suas atividades, mais uniforme em seus efeitos? Em minha opinião, não penso que seja possível demonstrar com maior evidência que o mundo é governado por um poder divino, que ele próprio é Deus”.4

4 in “Os astrológicos”, citado em Vilhena, 1990.

Ptolomeu situava Deus além do Primum Mobile – o primeiro móvel – para que pudesse ter dado o impulso inicial nas Esferas (ocas e cristalinas) das Estrelas Fixas e dos Planetas abaixo desta, centradas no centro imóvel da Terra. Depois, preservou-se naquele lugar externo um Céu, morada do Altíssimo dentro da Teologia cristã. Mas Ptolomeu também coloca o sol como o mais importante dos planetas, o coração do mundo, e talvez tenha sido quem iniciou a tradição de se considerar como o signo da pessoa o solar, ou seja, aquele onde o sol estava em seu nascimento:

“O Sol se transformará no condutor da harmonia cósmica, no mestre dos quatro elementos e das quatro estações. Plínio já o reconhecia como a divindade soberana que governava a natureza. Ele será visto por teólogos pagãos como a razão que controla o mundo, mens mundi et temperatio.”

(Cumont)

Sob a influência de teólogos cristãos, no entanto, a astrologia na Europa foi cada vez mais se tornada um conhecimento herético; conservando-se, porém, como uma atividade secreta, e praticamente solitária, tanto quanto a alquimia. Havia no mundo católico uma tentativa de subjugação dos deuses astrológicos a um grande Deus que estava até mesmo além de Zeus – Júpiter, e que se colocava além da última esfera do mundo. No máximo, tolerava-se a idéia da utilidade da astrologia explicar acontecimentos no mundo físico. Mas então, segundo certas filosofias não referendadas pela doutrina católica, apenas se reconhecia o universo físico observável como efetivo, e se Deus existisse além das Estrelas Fixas era um “deus ocioso”, que deixara a Criação pronta e se retirara. Houve muitas controvérsias entre a religião e a astrologia na Idade Média.

São Tomás de Aquino, no séc. XIII a aceitava somente enquanto aplicada a “fenômenos naturais”, já então considerando a alma como metafísica: os “corpos celestes” podiam influenciar apenas indiretamente a condição do entendimento.

No entanto, não era vivido assim entre os alquimistas e os astrólogos5: havia um propósito espiritual em suas atividades. Se de um lado a astrologia tratava da encarnação do espírito, passando pelas forças dos céus planetários até entrar num corpo, a alquimia tratava da espiritualização da matéria ou do corpo, libertando o espírito, através da relação adequada com os metais planetários.

(Jung)
5 Cujas publicações foram analisadas por Mircea Eliade e Carl Gustav Jung.

Com o Renascimento a astrologia também é retomada como toda cultura dita Clássica. Ela era uma das formações oferecidas nas primeiras Universidades européias e assim permaneceu durante todo o período do Renascimento. Foi uma cadeira universitária, por exemplo, desde 1125 em Bolonha, e desde 1250 em Cambridge.

Com a criação da imprensa, a astrologia passou a ser popularizada através de Almanaques, cujos calendários orientavam quanto às épocas de atividades agrícolas, mas, além disso, recomendavam sobre as épocas mais indicadas para atividades sociais.

Há um renascimento também de seu aspecto religioso, mais além de sua expressão como estudo da astronomia e suas conseqüências na natureza. Filósofos como Marsilio Ficino deram novamente vida à astrologia no séc. XV na Itália, e praticavam com esta um politeísmo da imaginação, como denota esta sua passagem em O Livro da Vida: “Não há Saturno mais insensível do que aquele para os homens que só fingem levar uma vida contemplativa, sem na verdade vivê-la. Pois Saturno não os reconhece como seus (…) Certifique-se de não negligenciar o poder de Saturno.”6

6 “The book of life” , Dallas, Texas: Spring Publications, 1980, pp.165-6 . Citado por SULLIVAN, 1992.

Com o acúmulo do conhecimento científico na Europa, diversas descobertas fizeram a astrologia ser gradualmente considerada não científica e acabar por ser banida das Universidades. O geocentrismo de Copérnico em 1543; o surgimento de uma “nova estrela” em 1572 que motivou Johannes Kepler a escrever um livro sobre ela; a invenção do telescópio em 1610 e seu uso sistemático por Galileu Galilei; a descoberta de novas estrelas e finalmente de um cosmos infinito, ou ao menos não restrito à Esfera das Estrelas Fixas.

(Koyré)

Tycho Brahe e seu sucessor Johannes Kepler foram ao mesmo tempo astrônomos e astrólogos, nesta época de transição, na qual um novo “paradigma científico” ainda convivia com o antigo, Kepler chegou a escrever que a astrologia era: “…filha tola e infame da astronomia, sem a qual a velha e sábia mãe morreria à míngua.”

Münster Cathedral

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Ainda houve tentativas de se fazer uma astrologia científica, e o autor mais conhecido deste período é Jean-Baptiste Morin, astrólogo da corte francesa e autor de uma enorme obra intitulada Astrologia Gallica. Morin tentou fazer da astrologia uma ciência exata, estabelecendo regras para a interpretação dos Mapas Astrológicos individuais através das quais seriam previstos acontecimentos concretos. Parece que estas tentativas propiciaram ainda mais sua rejeição pelos astrônomos.

A partir de 1666, na França, a astrologia passou a ser banida das Universidades. Foi por mão dos cientistas que a astrologia acabou sendo descartada das Universidades, não devido ao politeísmo implícito, mas por adotar o geocentrismo derrubado por Nicolau Copérnico e Johannes Kepler. Quando a Astronomia superou o geocentrismo, houve uma grande oposição à astrologia, pois esta só poderia continuar adotando a Terra como centro para as medidas astronômicas, pois o que é o centro ali é o indivíduo nascente, ou o lugar para onde se quer enfocar as influências astrais.

Somente mais de dois séculos depois ressurgiu valorizada no Ocidente, principalmente por mão dos Teosofistas, que mesclando conceitos religiosos orientais com os ocidentais, buscavam uma unidade da qual a astrologia fazia parte, pois, por exemplo, na Índia nunca fora banida dos centros cultos, como no Ocidente. Resgataram principalmente seus aspectos esotéricos, relacionando suas influências principalmente com o plano astral onde habitaríamos com nosso corpo astral. Assim desde esta época a astrologia está relacionada ao esoterismo e suas diversas correntes no Ocidente. Houve uma certa revivescência da astrologia nos anos 60 e 70 do século XX, muito em função da Contracultura, que fomentou tanto os esoterismos quanto as doutrinas e religiões orientais.

Com o desenvolvimento da Psicologia há no século XX um relacionamento entre astrólogos e psicólogos que denota rejeições e influências mútuas. Temos por exemplo um filósofo e astrólogo franco-americano, Dane Rudhyar, que iniciou sua obra teorizando sobre astrologia dentro da visão teosófica e acaba por relacioná-la com a psicologia da personalidade. Temos André Barbault, astrólogo francês, que relaciona a teoria astrológica do caráter com a Psicanálise. E Carl Gustav Jung, psiquiatra e teórico da psicologia do inconsciente, que vê na astrologia “a somatória do todo o conhecimento psicológico da antiguidade” e em seu simbolismo uma maneira de expressar o que conceituou como o Inconsciente Coletivo. Conforme resumiu:

“Como é sabido, a ciência começou com os astros, nos quais a humanidade descobriu seus dominantes do inconsciente, ou seja, as chamadas divindades, do mesmo modo as singulares qualidades psicológicas do Zodíaco constituem toda uma teoria projetada de caracteres”.

Jung foi um dos pioneiros na pesquisa psicológica da astrologia, avaliando estatisticamente as relações entre os Mapas astrológicos de 483 casais na década de 1950, com resultados favoráveis à astrologia, porém inconclusivos.

A maioria dos astrólogos ocidentais contemporâneos pratica uma astrologia psicológica, iniciada por astrólogos como André Barbault, Dane Rudhyar e Stephen Arroyo, que considera o mapa astrológico do nascimento como um símbolo da psique, com sua divisão entre consciente e inconsciente. Foram influenciados principalmente por Jung. Consideram que há uma “sincronicidade” entre os eventos celestes e os estados psíquicos, assim o simbolismo astrológico pode ser usado para interpretar e ordenar a experiência cotidiana.7

7 “The modern psychological approach to astrology sees the correlations in a birthchart between the planets and personality traits as being mainly symbolic”. “From this perspective, astrology offers a rich symbolic language which can be used to interpret human experience and to order and understand our feelings”. (Marshall)

Temos até hoje no mundo ocidental a astrologia sendo ensinada em cursos livres, em geral ligados a associações astrológicas. Os astrólogos ocupam espaço na mídia e temos uma vasta publicação – livros e softwares – não só divulgando a astrologia como ensinando suas técnicas básicas de cálculo e interpretação de Mapas Astrológicos. Uma pesquisa do Instituto Gallup, feita com adolescentes norte-americanos entre 13 e 18 anos em 1983, mostrou que 55% deles acreditam que a astrologia funciona. Não há razões para crermos que isto tenha mudado muito neste início do terceiro milênio.

Houve também uma intensificação das pesquisas das correlações com Psicologia que vem até nossos dias. Um pesquisador que fez história foi Michel Gauquelin, psicólogo e estatístico francês que desde os anos de 1950 fez amplos levantamentos (dados de mais de 100.000 pessoas) e estudos de correlação.

Vamos nos deter um tanto em suas pesquisas, porque algumas confirmações que obteve deram alento à consideração contemporaneamente dada à astrologia por parte da comunidade científica, e nos incluímos nesta linha de investigação. Suas pesquisas demonstram, na maior parte dos casos, que a astrologia conforme praticada pelos astrólogos contemporâneos não funciona. No entanto Gauquelin ficou conhecido pelo chamado Efeito Marte, ao demonstrar que a eminência nos esportes se relacionava a Marte colocado em posições específicas, ou logo após levantar no leste ou logo após culminar, quando do nascimento dos futuros campeões esportivos. Isto independentemente do Zodíaco, o qual rejeitou como sendo ficção. Do mesmo modo demonstrou estas relações para outros planetas com profissões astrologicamente relacionadas: Marte também com militares (marciais), Júpiter com atores e políticos (pessoas extrovertidas), Saturno com cientistas (pessoas reflexivas), e também da Lua com escritores (imaginativos), numa amostra total de 46.485 casos.

Neste ínterim foi publicado em 1977 o livro Recent advances in natal astrology: a critical review 1900-1976, de Geoffrey Dean e Arthur Mather, com mais 52 colaboradores.

Lá se comentaram, analisaram e replicaram amplamente também esta e outras pesquisas de Gauquelin. Em 1981, Dean e Mather, entre outros cientistas, lançaram a revista Correlation Journal of Research into Astrology, tendo Michel Gauquelin e Hans Eysenck – entre seus colaboradores.

Foi nesta mesma revista que todo o trabalho de Gauquelin foi revisto, com um forte questionamento através de explicações alternativas para seus achados. O “Efeito Marte” passou a ser visto como resultado possível de uma profecia auto-realizadora associada a uma construção social da eminência, já que Gauquelin baseou sua medida de eminência nas citações biográficas.

No entanto há algo demonstrado por Michel e Françoise Gauquelin, sua esposa e colaboradora, que não foi refutado, ainda que não tenha sido totalmente explicado: A chamada “hereditariedade planetária”, que já havia sido apontada por Kepler, ao publicar que “Há um argumento perfeitamente claro além de toda exceção em favor da autenticidade da astrologia. É a conexão horoscópica comum entre pais e filhos.”8

8 “There is one perfectly clear argument beyond all exception in favour of the authenticity of astrology. This is the common horoscopic connection between parents and children.” In EYSENCK, NIAS, 1982, p. 191.

Gauquelin demonstrou com 35.907 pares de pais e filhos que os filhos tendem a nascer naturalmente em horários que permitam repetir dos pais as posições “angulares” dos planetas Lua, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, ou seja, próximos aos eixos horizontal e vertical, mais fortemente logo após ter passado por eles.

Gauquelin conclui pela “diferença de sensibilidade biológica” aos planetas, cada pessoa teria diferentes sensibilidades às influências dos planetas, e isto passaria geneticamente de pais para filhos. Gauquelin reinterpreta então a relação planetaseminência não como uma causalidade planetárias – profissões, mas como uma influência planetária – traços de personalidade relevantes, os quais por sua vez levariam a escolhas profissionais afins com estes. Deste modo fica compreensível a relação com a possível eminência, aí sim um caso de um tipo de profecia auto-realizadora que cresceria num campo fértil de uma predisposição biológica. Porém isto só ocorreria nos partos naturais, demonstrando não haver uma relação direta de causalidade, mas sim uma espécie de sincronia entre ritmos biológicos e movimentos planetários do ponto de vista geocêntrico. Esta assunção é crucial, pois esta correlação poderia ser um resultado evolucionário da espécie em função da forma de funcionamento emocional e das crenças dos antepassados humanos. É claro que estas proposições já não se relacionam com as da astrologia conforme é divulgada e praticada hoje. Ainda hoje no ocidente a astrologia com base em Ptolomeu é amplamente divulgada e consumida dentro da cultura de massa, a despeito de que até agora a avaliação científica de suas proposições tradicionais tenha demonstrado amplamente que não têm validade.

Torna-se então um fenômeno a ser estudado sob a ótica de sua utilidade social e psicológica, ou seja, saber o porquê grande parte das pessoas acredita na astrologia e a utiliza.

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A Metafísica da Luz em Marsilio Ficino

Leila Maria de Jesus da Silva

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Resumo

 O objetivo da presente dissertação constitui analisar como a luz assume o sentido de vínculo universal na cosmovisão de Marsilio Ficino, especialmente a partir de suas obras Quid sit lumen, De Sole, De Amore e De Vita. A influência de Marsilio Ficino (1433-1499) na história do pensamento ocidental é impressionante. Além de ter traduzido para o latim textos importantes da tradição neoplatônica, Ficino presidiu a Academia de Careggi, reunindo importantes humanistas no auge do Renascimento. Os seus tratados sobre amor, beleza, luz, magia e imortalidade da alma influenciaram marcantemente a produção de outros pensadores. O tema da luz é de importância fundamental em sua obra, pois está profundamente relacionado com todos os outros aspectos de sua filosofia. Para ele, a luz é emanação espiritual que a tudo perpassa, sem se macular. Originada da bondade divina, a luz explode em beleza na multiplicidade, incendiando de amor a alma que verdadeiramente a contempla e que com ela se identifica. O ponto de partida dessa relação amorosa entre homem e divindade é, portanto, o mundo físico, que oculta em si a luz metafísica.

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Introdução

A Luz como Indagação Filosófica

Lembro-me que um dia meu pai apontou para o forro branco, decorado com um friso de vultos de dançarinas, e me explicou que Deus estava lá em cima, olhando para mim. Imediatamente, me convenci que as dançarinas eram Deus e, daí por diante, a elas é que dirigia as preces. 1

1 Arthur KOESTLER. Os sonâmbulos: história das concepções do homem sobre o universo. Tradução de Alberto Denis. São Paulo: IBRASA, 1961, p.3.

A explicação do universo pelas antigas civilizações encontrava-se muito próxima da contemplação da Natureza. O pasmo infantil diante do desconhecido estimulava a formulação das mais diversas teorias para a formação dos astros e demais fenômenos naturais.

A humanidade que, em muitos momentos, se imaginava modelada pelos deuses, também invertia essa situação, na medida em que criava, através da imaginação e da tradição em que se inseria, os seres em que acreditava: criador e criatura em correlação inventiva.

Diante da sua grandiosidade, não é difícil imaginar o lugar destacado que o Sol sempre ocupou na apreciação humana. Fonte explícita de luz visível, propiciadora de vida e calor, a luz solar foi facilmente associada à fonte original do Universo. A analogia entre Sol e Deus garante à luz um dualismo que a considera, simultaneamente, física e metafísica.

O conceito de luz aparece em diversos dicionários, sejam eles filosóficos ou não, oscilando sua significação entre: a própria divindade; o elo entre os mundos corpóreo e incorpóreo; a forma geral das coisas corpóreas ou, ainda, o critério que direciona a conduta humana. Subjaz, no entanto, nos variados conceitos uma questão que os mantém unidos e que revela o caráter ontológico da luz: de que maneira o inteligível atua no sensível?

Escolhemos a luz como foco de estudo porque sentimos nela, como nos afirmam também seus estudiosos, o próprio tecido do universo. Interessa-nos analisar, mais propriamente, a dimensão que o tema da luz ocupa na obra de um dos mais importantes filósofos do Renascimento: Marsilio Ficino.

Amor, magia, medicina, música, além de outros temas que surjam na leitura do corpus ficiniano, são apenas ramificações do tronco que os sustenta: a luz, com todas as suas implicações.

Ao abordar tal tema, Ficino consegue imprimir a ele um novo olhar, reunindo os trabalhos que vinham sendo paulatinamente realizados por pensadores que o antecederam.

O método de estudo caleidoscópico de Ficino consegue realizar a varredura entre várias teorias que mantém entre si, ainda que não explicitamente, laços que as unem.

Platonismo, cristianismo e filosofias consideradas pagãs mesclam-se em vários momentos e Marsilio consegue perceber e retratar isso de maneira singular. Marsilio Ficino representa esse olhar plural, significativo, que vê igualdade nas diferenças e riqueza no jogo dos opostos.

E este olhar, simultaneamente abarcante e unificador, une-se a um estilo entusiástico e pleno de alegorias. Dirigindo-se ao leitor do De Sole2, Ficino solicita a indulgência do leitor para o uso que fará da licença poética. Percebemos que a linguagem figurada, de fato, é um recurso muito utilizado por ele, objetivando aproximar a expressão humana daquilo que escapa a qualquer predicação.

2 Marsilio FICINO. De Sole, De raptu Pauli. E. Garin (org.) In: Prosatori latini del Quattrocento VII, Turin: Einaudi, 1977. cap. I. Também disponível em: (O Livro do Sol – De Sole, tradução de Geoffrey Cornelius, Darby Costello, Graeme Tobyn, Angela Voss & Vernon Jorram. Londres) Acesso em: 05/03/2005.

Em vista disso, Ficino declara, então, que avançará do manifesto para o oculto não tanto por argumentos racionais, mas principalmente através das correspondências que lhe for possível estabelecer entre coisas humanas e divinas. As musas, ele justifica no mesmo texto, não argumentam com Apolo, mas simplesmente cantam; e até mesmo Hermes, artesão do argumento, quando se trata de referir-se a Apolo sobre coisas divinas, não argumenta, mas joga.

O mundo é tratado na obra de Ficino a partir da sua visão estética e, assim como em Ovídio, o homem é o animal que possui semblante elevado, capaz de contemplar o céu, para Ficino, é também atribuída a este ser singular a função estética de ornar o mundo.

Selecionamos do corpus ficiniano, para a análise que nos propomos fazer, as obras em que o tema da luz adquire maior relevância: os opúsculos Quid sit lumen3 e De Sole, além do De Amore5 e do De Vita. Primeira versão do De lumine7 (1492), o Quid sit lumen (1476) é o último dos cinco opúsculos teológicos que antecedem a Teologia Platônica9 (1482). Como o próprio título revela, nele Ficino discorre sobre a questão da natureza da luz, trabalhando a relação entre sua origem e sua propagação.

3 Marsilio FICINO. Quid sit lumen (O que é a luz). Tradução de Bertrand Schefer. Paris: Allia, 1998.
5 Id. De Amore: comentario a «El Banquete» de Platón. Madrid : Tecnos, 2001.
7 Id. De Lumine. Tradução de S. Matton. In: Lumière et Cosmos, Paris, Albin Michel, .Cahiers de l.Hermétisme., 1981, pp. 55-75.
9 Id. Théologie platonicienne. R. Marcel (org.). Paris: Belles Lettres, 3 vol., 1964-1970.

Nos onze pequenos capítulos, precedidos por uma dedicatória, abordam-se as seguintes considerações sobre a luz: o papel dos sentidos na recepção da luz, com destaque para a visão; a descrição da luz visível ou racional; a definição da luz inteligível ou divina; a diferença entre luz e calor; o dinamismo dos corpos celestes, como expressão da alegria divina; a luz em Deus, no Anjo, na Razão, no Espírito e no Corpo; a identidade entre luz e Deus e o papel do amor em todo esse processo.

Por sua vez, nos treze capítulos do De Sole (1494), podemos encontrar um trabalho mais exaustivo na similaridade entre a luz do sol e o próprio Deus, incluindo o detalhamento dos tipos de luz e o papel da astrologia e dos anjos na relação especular entre o divino e o humano.

No De Amore (1469) sobressai a relação entre a luz e o amor, num movimento circular platônico do Bem ao Bem. A tríade Beleza-Amor-Prazer corresponde ao processo Criar-Atrair-Aperfeiçoar. O amor, então, despertado pela beleza, busca o prazer e tem como textura de seu movimento a luz.

No De Vita (1489), por fim, a referência à luz transparece à medida que o filósofo recomenda aos seus leitores a aproximação das coisas solares e jupiterianas, espelhando na conquista da alegria terrena o movimento harmônico dos corpos celestes.

O estudo que se segue está organizado em quatro momentos. Inicialmente, situamos Ficino na cultura do Renascimento. A seguir, analisamos a relação entre sombra e luz na estética ficiniana; além dos papéis desempenhados pelo amor e pela imaginação no espelhamento entre a luz original e a luz manifesta.

Bondade e Beleza, Amor e Conhecimento, Homem e Deus, temas que são aqui teoricamente separados apenas para evidenciar o quanto na verdade encontram-se entrelaçados. O ideal platônico, que destina ao homem a condução circular do Bem ao Bem, reflete-se na obra ficiniana com intensa força poética.

Que luz é essa que, ainda quando fechamos os olhos, nos proporciona rememorar as imagens observadas anteriormente, revelando uma espécie de visão interior? Luz que, no entanto, apesar de nos ajudar a perceber o mundo, não se revela a si mesma. Enigmas que, à proporção que representam dificuldades, revelam também a grandeza e a beleza de tal investigação.

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Sandro Botticelli

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A Escola de Chartres e a Tradição do Quadrivium

Jorge Filipe N. S. Teixeira Lopes*

* Doctor Canónico en Filosofía (2012) por la Universidad Pontificia Bolivariana (Medellín, Colombia). Es sacerdote de la Sociedad Clerical de Vida Apostólica Virgo Flos Carmeli y miembro de la Asociación Internacional de Derecho Pontificio Heraldos del Evangelio.

Resumo

A escola de Chartres foi um importante pólo do conhecimento no século XII. O pensamento chartriano ficou conhecido devido ao seu veio científico que procurou estudar as leis da natureza baseando-se nas scientiae rerum, isto é, no quadrivium. Era por intermédio das ciências matemáticas que o homem poderia, fazendo uso da abstração, intelectualizar os fenômenos que via na natureza e interpretar as leis que discernia no universo. Este artigo procura fazer um elenco das principais fontes neoplatônicas desse pensamento por meio de um apanhado histórico e hermenêutico – num périplo que abarca desde os autores latinos neoplatônicos aos mestres do renascimento carolíngeo – no intuito de perceber como, por meio dessas quatro ciências das coisas (scientiae res), Chartres se tornaria um dos mais importantes centros de estudo das artes liberales e uma precursora das modernas ciências da natureza.

Introdução

The Seven Liberal Arts

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Quando a obra Ars Fidei Catholicae foi oferecida ao papa Clemente III, entre 1187 e 1191, por Alain de Lille ou Nicolau de Amiens – os estudiosos modernos não são unânimes1 – o seu autor procurara demonstrar como o ensino da teologia se tornara uma forma elevada da aritmética, com um modus operandi próprio na estruturação do pensamento. Esta oferenda evidenciava o progresso da teologia nesse século que findava. Entre outros subsídios, este progresso tinha passado pela intenção de explicar o mundo de forma racional, através de relações numéricas com as quais se pretendia revelar não só as leis da natureza, mas inclusive a própria essência divina. Nesse contexto, é de se realçar a abstração que o quadrivium permitira, ao longo da Idade Média, no conhecimento das coisas, e a importância que tivera na formação do homem medieval. De fato, essas quatro artes permitiriam ao homem conhecer as realidades celestes, ao mesmo tempo que o afastavam das coisas terrestres, conforme nos é relatado num trecho de um manuscrito anônimo (Per hoc quadrivium scimus caelestium contemplationem, terrestrium abiectionem).

1 Sobre esta problemática, veja-se D’Alverny, 1964, pp. 68-69.

Cerca de meio século antes, por volta de 1141, o chanceler da escola de Chartres, Thierry de Chartres tinha escrito uma obra que ficaria conhecida como a ‘bíblia das artes liberais’, Heptateuchon, onde exprimira a sua concepção do saber e o papel das artes liberales no processo de conhecimento humano. O título da obra, alusivo ao número sete (επτά), fazia uma analogia entre as artes liberales – Trivium (Gramática, Dialéctica, Retórica) e Quadrivium (Astronomia, Música, Geometria, Aritmética) e os sete primeiros livros da Escritura (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio, Josué e Juízes). No prólogo, Thierry afirmava que os dois instrumentos básicos do filosofar eram a reflexão – ou compreensão intelectual – e a expressão adequada. A reflexão intelectual seria proporcionada pelo quadrivium, que deveria iluminar o intelecto; o trivium, por sua vez, seria o meio pelo qual se permitiria a manifestação conveniente do pensamento2. Esta era, sem dúvida, a clássica divisão das ciências que fazia parte substancial do curriculum medieval das sete artes liberales.

2 “Nam, cum sint duo praecipua phylosophandi instrumenta, intellectus eiusque interpretatio, intellectum autem quadruvium illuminet, eis vero interpretationem elegantem, rationabilem, ornatam trivium subministret, manifestum est heptatheucon totius phylosophiae unicum ac singulare esse instrumentum”.

O Quadrivium como forma de abordar a Natureza

The mystery of the Gothic cathedrals

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O desenvolvimento expositivo destes homens do século XII, que ficariam conhecidos como os primeiros ‘intelectuais’ do ocidente, denota um esforço em alinhavar argumentos claros e coerentes, apoiados em dados obtidos a partir da natureza. Para o pensamento chartriano, esta era chamada por ‘universo das coisas’ (rerum universitas), pois englobava todo o universo criado, desde os coros angélicos até ao universo físico. As disciplinas das artes liberales proporcionavam ao intelectual a objetividade necessária, não somente na forma de abordar as ciências experimentais, mas também no processo lógico-argumentativo, a fim de melhor sustentar a clareza expositiva e organizar a sequência dos raciocínios.

O escopo do pensamento chartriano era provar que a ordenação do mundo criado exigiria um Criador. Essa preocupação já S. Agostinho tivera quando procurara dar uma noção filosófica de ordem (ordo) e procurado entender de que modo o nosso universo está sapiencialmente ordenado. Que instrumentos terá Deus utilizado para o conceber? Por vias do neoplatonismo agostiniano, uma tradição promovida pouco mais tarde em Boécio dizia que quatro eram as vias da sabedoria e quatro eram também os meios de estudar o universo: Astronomia, Música, Geometria e Aritmética. Seria, portanto, pelo quadrivium, isto é, pelas quatro disciplinas que proporcionam o estudo intelectual da natureza, que o homem poderia chegar até Deus.

Está claro então que, para a escola de Chartres, o universo das coisas (rerum universitas) é motivo para uma procura racional dos princípios em que a fé cristã acredita. Mas, além desse aspecto, cumpre compreender que estudar o cosmos pelo quadrivium é estudar a ciência do número, isto é, da aritmética combinada com as considerações metafísicas ensinadas pelos antigos e transmitidas ao mundo latino em grande medida por Boécio. Por exemplo, as arithmeticae probationes aplicadas por Thierry de Chartres à teologia no Tractatus de sex dierum operibus, são prova disso, bem como, em certo modo, a especulações teológicas da Dialectica, de Pedro Abelardo. Portanto, para se entender a importância destas scientiae rerum, deve-se proceder a uma análise histórica e, digamos assim, genealógica do quadrivium, em busca das fontes do pensamento chartriano para um estudo racional acerca do mundo.

O quadrivium nas fontes da tradição neoplatónica

Sedes Sapientae

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Foi nas fontes do neoplatonismo latino que o chamado ‘pensamento racional’ ou ‘pensamento científico’ dos homens de Chartres se foi abeberar. E se a escola de Chartres foi um dos maiores bolsões de intelectualidade no século XII, sem embargo, a sua apreensão do cognoscível não deixa de passar pela ‘linguagem sagrada’ dos símbolos. Ela situa-se numa transição entre a visão simbólica e alegórica, patente em toda a alta Idade Média, e o pensamento científico da Alta Escolástica do século XIII. Como indicou o Prof. Gonzalo Soto, o simbolismo é a inquirição in vestigium ire, isto é, a procura das marcas de Deus, e, portanto, o ponto onde se dá o encontro dos dois aspectos chave do conhecimento medieval: primeiro, a busca da semelhança, que lhe serve de configuração mental; depois o símbolo, que é o motor próprio dessa busca. Há, portanto, toda uma variedade e gama de simbolismos que faz parte do misticismo medieval, e é nesse prisma que convém perceber a noção platônica de um universo racional, e, por conseguinte, os meios empreendidos para estudá-lo. Quer dizer, os seus métodos e ferramentas de estudo são repletos de pensamento religioso e mítico, que fazem-no interpretar o mundo de uma forma completamente distinta da do homem moderno.

Voltando ao nosso tema, foi em De musica de S. Agostinho que se evidenciou o caráter científico das artes liberais, o qual teria grande importância nos curricula da formação medieval. Já em De Ordine, o bispo de Hipona Agostinho traçara-lhes uma genealogia racional, solidificando-as numa unidade e denunciado a presença de proporção e harmonia nestas disciplinas, razão pela qual podiam ser concebidas como scientias. As artes do trivium e quadrivium, podiam levar a razão à busca da Verdade, do corpóreo (corporea), a uma ordem superior, acima do meramente sensível (incorporea). Nesse contexto, a música tinha um especial papel, pois dividia a sua função com a gramática através do som (sonus), e podia ser submetida a uma medida e ordem de acordo com proporções e números, dada a sua correspondência direta com as proporções aritméticas.

A razão humana capta a unidade, ordem e simetria, ou, segundo expressão do mestre de Hipona, a modulação (modulatio) proporcionada das coisas que existem. É, portanto, através das matemáticas que a razão pode aceder do sensível ao inteligível e contemplar o esplendor da verdade divina refletida no mundo visível. A ciência das artes liberais prepara, portanto, a alma para a consideração das harmonias e proporções do universo.

No século VI, Boécio insistiu também no quadrivium, como as quatro disciplinas que abarcavam o estudo da natureza e como quádrupla via rumo à sabedoria. Denominando-as artes reais (artes reales) – referentes às coisas da natureza (res) – as ciências matemáticas eram a luz para os olhos da alma, desempenhando uma função propedêutica em relação à teologia. Era por intermédio delas que a alma se podia abrir para uma hierarquia de abstração, por onde podia aceder das percepções sensíveis à pura razão, a um conhecimento em harmonia com a mente divina.

Boécio distinguiu dois tipos de quantidade nestas quatro disciplinas das coisas: quantidade discreta – daquilo que é contável, relativo, portanto, aos números – e quantidade contínua – relativo a linhas no espaço – como segue (Boethius, II 1):3

Aritmética (estuda a quantidade discreta estática)
Música (estuda a quantidade discreta em movimento)
Geometria (estuda as grandezas estacionárias)
Astronomia (estuda as grandezas dinâmicas em movimento)

3 “Sed inmobilis magnitudinis geometria speculationem tenet, mobilis vero scientiam astronomia persequitur, per se vero discretae quantitatis arithmetica auctor est, ad aliquid vero relatae musica probatur obtinere peritiam”.

É de realçar que o pensamento boeciano teve um papel único no século XII, não sendo por acaso que Marie-Dominique Chenu chamou a este tempo de aetas boetiana. Relevante indício da sua larga influência é o fato do místico Hugo de São Victor, da abadia homónima, ao escrever Didascalicon, um livro que é um autêntico compêndio das artes liberales, definir as disciplinas do quadrivium com a mesma terminologia de Boécio:

Um tipo de magnitude é móvel, como as esferas celestiais, outro, imóvel, como a Terra. Ora, a quantidade que permanece em si é examinada pela Aritmética, enquanto aquilo que está em relação a outra quantidade é observada pela Música. A Geometria toma conhecimento da magnitude imóvel, enquanto a Astronomia toma conhecimento daquilo que é móvel. A Matemática, por conseguinte, está dividida em aritmética, música, geometria e astronomia4.

4 “magnitudinis vero alia sunt mobilia, ut sphaera mundi, alia immobilia, ut terra. multitudinem ergo quae per se est arithmetica speculatur, illam autem quae ad aliquid est, musica. immobilis magnitudinis geometria pollicetur notitiam. mobilis vero scientiam astronomicae disciplinae peritia vindicat. mathematica igitur dividitur in arithmeticam, musicam, geometriam, astronomiam”.

Mas, além de Boécio e Agostinho, outros autores há que também merecem ser destacados no âmbito do estudo das artes liberales, genericamente falando, ao longo da Idade Média: numa abordagem cronológica, temos, em primeiro lugar, Vitruvius, que em De Architectura destacou a necessidade de formação em geometria, música e no conhecimento das proporções celestes, facultado pela astronomia; mais tarde S. Isidoro de Sevilha, em Etymologiarum, verdadeira enciclopédia do saber medieval, lembrou o papel das artes liberales, e a importância dos números na demarcação da música, geometria e aritmética. Mais tarde, no século IX, o irlandês John Scott Eurigena, seguindo o pensamento agostiniano, considera as artes liberales como uma via para apreender a verdade da Revelação. Nos seus comentários às Institutiones gramaticae de Prisciliano, ele diz que elas brilham com a luz da sabedoria (sapientiae luce praefulgens).

No entanto, a maior influência nesta área foi a obra De Nuptiis Mercurii et Philologiae, de Martianus Capella, retórico do século V. Nela representam-se alegoricamente as artes liberais, como sete virgens que oferecem seus presentes no casamento entre Filologia e Mercúrio. A obra foi encontrada em muitos mosteiros e catedrais nos séculos XI, XII e XIII, e sabe-se que toda a personificação das artes liberais ao longo da Idade Média é-lhe conforme. Por exemplo, em Anticlaudianus, obra escrita por volta de 1180, Alain de Lille imagina a figura da sabedoria (philosophiae) tendo diante de si as sete artes liberales que, sobre uma carruagem, vão em busca de Deus.

De Nuptiis Mercurii et Philologiae foi indubitavelmente o compêndio de artes liberales mais popular da Idade Média. E é curioso que, apesar de não conhecer Euclides nem Ptolomeu, Capella tenha abordado cientificamente tanto a Geometria tanto como a Astronomia. Para ter sido levado tão a sério pelos medievais, tenha-se em conta o fato da obra ter sido escrita em tom alegórico, o que fazia convidar o espírito a contemplar temas tão difíceis como as ciências dos astros e a aritmética de forma fantasiosa.

Mas outras duas obras são de vivo interesse, pois foram bastante lidas no tempo de Chartres: são elas o Timaeus de Platão, traduzido e comentado por Calcidius no século IV, e o comentário in Somnium Scipionis, de Cícero, por Macrobius, provavelmente no início do século V. No seu comentário Macrobius trata largamente de temas científicos, abordando desde a natureza do número e sua presença no universo, à astronomia e geografia, escrevendo até sobre a vida humana. Repleto de descrições astronômicas, a obra serviu de base para a cosmologia do período carolíngeo até ao século XII.

Estudo completo: Escola de Chartres e a Tradição do Quadrivium

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O quadrivium entre o período carolíngeo e o século XII

A divisão das artes em trivium e quadrivium era já usada no começo do século IX. Vários escolásticos pretenderam ver a sua utilização como fundamento para um perfeito conhecimento de Deus, como Alcuinus de York, na escola palatina de Aix-la-Chapelle, no tempo da corte de Carlos Magno. Em De vera philosophia, que constitui o início da sua Grammatica, Alcuinus apresenta o caminho rumo à sabedoria com sucessivas graduações, fazendo notar que em Provérbios IX, 1, a sabedoria ao construir a sua casa, fê-lo sobre sete pilares que não são senão as sete artes liberais5.

5 “Sapientia aedificavit sibi domum, excidit columnas septem […]. Divina praeveniente etiam et perficiente gratia faciam quod rogastis, vobisque ad videndum ostendam septem philosophiae gradus”.

São de salientar nessa época os diagramas planetários baseados em vários autores latinos, como os já mencionados Martianus Capella e Macrobius, mas também Plínio o Velho (séc. I), Calcidius, na sua tradução e comentários do Timaeus de Platão. Entre eles, destaca-se o trabalho de Calcidius que ofereceu pela primeira vez um universo racional, geométrico e filosoficamente coerente:

As sete artes liberales tinham uma relação com os sete planetas. As relações entre ambos remontam a tempos longínquos e seriam imortalizadas por Dante (1265-1361), no Livro II da Divina Comédia, “il Convivio”, onde se estabelece uma analogia entre as esferas celestes da cosmologia medieval e as ciências. Segundo Dante, envolvendo a Terra esférica, as sete esferas dos planetas, começando pela Lua até Saturno, podem ser comparadas com as sete ciências. Assim, a Gramática correspondia à Lua, Dialética a Mercúrio, Retórica a Vênus, Geometria a Júpiter, Música a Marte, Astronomia a Saturno e a Aritmética ao Sol. A oitava esfera, a do Firmamento, associava-se à Física e à Metafísica. Dante afirma, por exemplo, que o Sol relaciona-se com a aritmética da seguinte maneira: primeiro, ele é fonte de luz para todas as outras estrelas. Segundo, o olho não pode olhar a luz pela sua luminosidade. Por analogia, a aritmética – o estudo das propriedades numéricas – é o fundamento de todas as outras ciências analíticas, pois apesar dos números serem infinitos e imateriais, o intelecto humano pode ver e compreender seus princípios fundamentais.

Pelo fato de trabalhar com números e proporções, o quadrivium seria o melhor meio de compreender a ordem do universo, enquanto obra primorosa concebida pelo divino arquiteto, pois acreditava-se que as distâncias entre os planetas – bem como seus movimentos espaciais – estavam ordenados matematicamente. Portanto, estudar o universo seria tarefa não só da astronomia, mas também da ciência geométrica que estudava as leis imutáveis do espaço dispostas harmonicamente por Deus, segundo as proporções aritméticas e os padrões da harmonia musical.

Entre os séculos X e XI, em Reims, Gerbert d’Aurillac (930-1003), futuro Papa Silvestre II, aprofunda as artes do quadrivium. Desde o norte da França à abadia de Ripoll, da Catalunha à Itália, Gerbert ensina música, astronomia e geometria. Conhecem-se pelo menos duas obras redigidas sob sua inspiração, nomeadamente De Geometrica e De Astrolabio, que fazem transparecer a trajetória dos seus ensinamentos e o objetivo dos seus estudos: o aprofundamento das ciências naturais e práticas. Dando primazia à astronomia, Gerbert considera, contudo, que a geometria não é uma ciência que se reduz somente à resolução de problemas práticos, mas constitui uma forma sapiencial de pensar e apreender o Universo.

Conhecido como o “papa matemático”, Gerbert não estudou somente o quadrivium, mas foi profundamente influenciado pelas ciências árabes, tendo reintroduzido na Europa o ábaco, como o demonstram as Regulae de numerorum abaci rationibus, e a esfera armilar. Dentre os seus alunos encontram-se figuras eminentes como Adalberon de Laon, João de Auxerre e o futuro fundador da escola de Chartres, São Fulberto de Chartres (c.960-1028). Este último chega a Chartres por volta de 990, depois de ter estudado em Reims com Gerbert e tido por tutor Odon de Cluny, o qual fora aluno de Remigius de Auxerre. Mais tarde, torna-se mestre e chanceler, dirigindo as escolas da catedral que ele próprio manda reconstruir, após ser eleito bispo em 1006. Até à sua morte em 1028, Fulberto foi o grande impulsionador do estudo da filosofia, e quase todos os homens cultivados do seu século tiveram-no como mestre. Os ensinamentos dele situam o conhecimento do mundo não na percepção sensorial, mas nas ideias; quer dizer, saber não significa um conhecimento ou mera classificação do universo, mas estudar sobretudo os seus princípios aparentes, isto é, as leis que o compõem.

Entre os estudos de aprofundamento do quadrivium pelos seguidores de Gerbert, salienta-se a troca de oito cartas, cerca de 1025, entre Ragimbold de Colónia e Radolf de Liège – ambos alunos de Fulberto – que versam sobre uma questão de Boécio extraída das Categorias de Aristóteles, acerca de problemas de geometria. Apesar dessa troca de carteio revelar o diminuto e muito fragmentado conhecimento de ambos em Geometria,– além do que não conheciam nem grego nem as matemáticas árabes – é notável, sem dúvida, este vivo interesse por questões científicas e pelas obras antigas, o que viria a ter correspondência, um século mais tarde, na filosofia natural do Timaeus de Platão praticada pela escola de Chartres.

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Estudos Astrológicos e Transcendentais II

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