Astrologia Telúrica

O Retorno à Sabedoria das Estações

Luís Augusto Weber Salvi

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Gloriosamente, a dança da nossa experiência vai evoluindo através do ciclo da natureza.

Dane Rudhyar

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Apresentação

A Natureza é o fundamento de todas as coisas. E isto não seria nenhum “materialismo” estático, se acreditamos que a Criação seja algo divino, que suas estruturas internas estejam sujeitas a transformações e que uma força misteriosa atue por detrás de toda a evolução.

Nesta obra, se trata basicamente de resgatar a unidade tempo-espaço que subjaz ao verdadeiro saber astrológico, solidamente fundamentada na geografia sagrada como é, e para além da excessiva ênfase espacial dada na astrologia moderna. Isto nos traz inadvertidamente para os valores coletivos, na medida em que habitamos um espaço comum. Aquele que ignora a importância do ambiente na fundação de um horóscopo, perde seguramente a metade da teleologia do Destino. Infelizmente, o espaço ainda é empregado de forma quase incidental, salvo para considerações em torno do polêmico “sistema de casas”. O outro aspecto do tripé astral estaria nos fundamentos espirituais, cuja base é cósmica ou divina. No mais, o estruturalismo subjetivo completa o telurismo objetivo, permitindo ir além do misticismo e do fetichismo das crenças.

Trata-se, pois, de um trabalho epistemológico, na medida em que aprofunda a explicação das ciências tradicionais, permitido daí a superação de dogmas e superstições que comumente infestam estas práticas. Pouca utilidade objetiva tem a astrologia sem as suas conexões telúricas, que também lhe confere de resto as bases humanas e sociais. É preciso universalizar as práticas, como faziam os antigos, e para isto é fundamental conectar com a geografia sagrada, sendo a astrologia telúrica uma síntese e chave capital.

Fomos conduzidos para o telurismo astral através da busca do universalismo e da necessidade de conversão das fórmulas zodiacais para o Hemisfério Sul, através de anos de meditação e pesquisa multidisciplinar, cujos resultados prévios podem ser observados, por exemplo, em nossa obra As Estações Astrológicas, compilação de temas relativos à questão editados na Revista Órion de Ciência Astrológica.

Este enfoque não representa, todavia, nenhuma espécie de fixação pessoal. Na verdade, esta abordagem mais pragmática, naturalista e “exotérica” focalizada das

Estações, sempre esteve equilibrada por uma visão paralela de ordem simbolista e “esotérica”, afastada, portanto, de maiores vínculos fisiológicos; representando isto aquelas duas correntes gerais desta doutrina, a empírica e a simbolista (ver Capítulo “As Duas Correntes”, na presente obra), enfim, caminhos naturais a todo aquele que busca a verdade astrológica –vide Dane Rudhyar, um de nossos guias nesta tarefa.

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E que em nossos trabalhos encontram sem dificuldades vias de convergência, sem dogmas ou preconceitos de nenhuma espécie, depuradas de atavismos e de leituras redutivas dos princípios universais. Existem muitos tipos de astrologias, cada qual baseada num dado conceito, uns mais puros, outros menos. Certamente a perfeição nunca está nos extremos, mas em algo mais próximo ao centro. O equilíbrio é o que nos permite realmente andar para adiante.

Devido a isto, mesmo considerando esta dupla vertente, astrônomos e astrólogos ainda terão possivelmente nas mãos uma “batata quente”. Aqueles que empregam sistemas fechados e acríticos, todavia estranharão a visão da verdade universalista sobre os fatos, convidando a uma integração interdisciplinar. Infelizmente, o equilíbrio é uma arte rara; não vivemos exatamente ainda um tempo de amor.

Assim, debalde tacharão este trabalho (e outros congêneres) de alguma espécie de “etnicismo”, como se houvesse muita escapatória disto em qualquer parte. Curiosamente, os acusadores serão muitas vezes justamente aqueles que praticam a mais particular das vertentes, a “astrologia de consumo” que é o horóscopo pessoal, entre outros desvios dos verdadeiros métodos tradicionais –de resto urgentes em toda a sociedade em construção como a nossa. No fundo lhes perturba qualquer ordem que não envolva o estrito interesse pessoal e imediato, diferente dos contemplados pela astro-filosofia (ou apenas Astrosofia). A própria tradição dirá, contudo, que a organização de uma cultura é trabalho para os séculos. “Fazer história”, significa refazer estruturas. Muito especialmente, em atender aquelas necessidades evolutivas de uma cultura ou sociedade, que apontam no rumo de sua ordem e consolidação.

A astrologia profunda (naturalista, coletiva, mundial e esotérica), apenas não é “pragmática” para quem o “útil” se limita ao estritamente pessoal, ao mensurável e, é claro, ao financeiro; numa sociedade onde o comércio ainda é mais importante do que a cultura interior e o dom coletivo. Esta é uma das chagas da cultura-de-alienação em que vivemos, onde as pessoas esquecem até mesmo que o grupal também comporta uma esfera de certo modo pessoal, e que deixar de atuar em conjunto é abrir mão da própria alma. E onde se ignora igualmente que toda a transformação passa pela tomada de posição em torno das bases culturais.

Na verdade, esta astrologia é um importante passo para a integração com a Natureza e com o social (ver nossa obra O Calendário Astrológico), mas também consigo próprio ou com os caminhos evolutivos, uma vez que o ser humano é um todo natural-social-espiritual. É assim, o enraizamento da cultura, ou o aspecto Saturno da astrologia, planeta que, na sua acepção uraniana, é o clássico regente da Idade de Ouro.

Também será rarefeito o apoio daqueles que vivem numa consolidada situação de coerência cultural, como é toda a sociedade do Hemisfério Norte (pese o perdurável espírito inquisitivo cristão que questiona a Astrologia). A exceção será daqueles que desejam aprofundar seus vínculos naturais através da astrologia, e também dos que entreveem no telurismo mais que simples bases naturalistas, mas toda uma dinâmica evolutiva –ou seja, a sua extensão científico-racional como método cultural.

Todos os outros somente terão a perder com a autonomia cultural do Hemisfério Sul –ao menos é o que tenderão a pensar, o que pode, no entanto, ser muito relativo. Uma luz que se acende pode iluminar muito longe. Porque será que a Idade de Ouro da civilização, se difundiu a tal ponto, há cerca de 5 mil anos atrás? Não se trata apenas de uma questão de “espírito de época”, mas também porque uma grande luz se fez e foi capaz de se difundir e iluminar todas as chamas potenciais, ou apenas algo adormecidas, tal como uma brisa no campo é capaz de fazer.

Conhecemos, pois, o jargão dos conservadores e dos liberais e tudo o que há por detrás: a velha rapina do colonialismo sob suas diversas formas, o que já não aceitamos, sob nenhuma máscara ou argumento, pois mesmo as razões mais profundas (isto é, as espirituais) já caem atualmente por terra com a nova vertente meridional da Tradição Sagrada.

É claro que temos consciência da ameaça de anarquia que isto representa (ou talvez, uma desordem criadora) onde, tendo-se em mãos estas ferramentas, cada qual desejará compor a sua própria “tradição”.

Na verdade, isto importa menos. Que mal pode haver, se cada um realmente tentar ser um sábio e fizer sinceros esforços nesta direção? Acreditamos piamente que a difusão da luz acima invocada, representou justamente um processo nesta direção. Julgamos esta competição sadia e até um fator de segurança e consolidação, sobretudo se for levada a cabo por agentes do Hemisfério Sul, nesta oportunidade; uma vez que os do Norte pouco teriam mesmo a fazer nesta direção, senão também resgatar certas bases científicas para além das superstições vigentes. Trata-se, afinal, de uma urgência inerente às culturas em formação.

É verdade que seria importante preservar a referência a um pólo central e irradiante, como forma de estabelecer um mínimo de ordem nas relações internacionais (porque seria disto que se trata). E neste sentido é que reivindicamos a nossa hora, não só do Hemisfério Sul, mas das Américas também, nesta que será a nossa época e local. A Era de Aquário incide afinal, sobre o território brasileiro.

Apenas para mencionar a questão geográfica, as ciências do tempo e as ciências do espaço sempre formaram uma unidade. A própria palavra “horóscopo” significa hora-local, e em grego horai ainda significa a Estação do ano. As Estações são uma derivação das condições astro-geográficas. Enquanto copos significa “ver”. Assim, o horóscopo representa a rigor observar a Estação do ano.

Esta é uma forma integrada de empregar a astrologia, conformando com a grande tradição dos povos, seus ritos agrícolas e naturais. Entre os celtas, os signos são representados por árvores, certamente aquelas que florescem ou frutificam nas estações do Ano, quando se considera que se tornam assim as mais expressivas possíveis.

Pelo contrário, aprecia-se geralmente na astrologia moderna algo tão vago que chega a ser insípido; e a isto até dão o nome de universal. No entanto, nunca houve tradição e sabedoria sem endereço ou destinatário certo. E são estas raízes que pulsam nesta obra, desejando fazer brotar a sua seiva vital.

Assim, as pessoas realmente sinceras ou de boa-vontade, deveriam fazer um esforço para inverter a ótica, e buscar ver com simpatia as razões profundas que subjazem à tais considerações, ou basicamente que:

1. Existem amplos fundamentos na adaptação dos signos ou do zodíaco nos hemisférios (como de resto já é feito em alguns níveis da astrologia);

2. O Hemisfério Sul seja, realmente, um foco de renovação cultural de âmbito universal ou um novo pólo cultura tradicional, como se procura demonstrar mediante vários recursos neste e em outros trabalhos;

3. E que, especialmente, a região centro-hemisférica, balança climática do planeta, seja também um local predestinado na história da humanidade, por razões telúricas e culturais demonstráveis (como levaria a suspeitar um simples olhar no mapa mundi, buscando as grandes cidades sagradas da Antiguidade). *

 * Não obstante, devemos anotar que o autor se refere na verdade a um fenômeno de época, considerando que cada raça-raiz focaliza uma dada latitude. Ainda assim, o mencionado caráter central confere um especial significado à esta região, associando-a ao mito de Shambala, a “terra das origens” e local de onde surgem os avatares. Ver mais em nossa obra “Geografia Espiritual”, Ed. Agartha, 2008.

Assinalar deste modo tempo e espaço, em nada se acha fora da tradição, muito pelo contrário. É a própria via de enraizamento conhecida como Geografia Sagrada, é o tornar-se universal através das bases unicamente acessível no local.

Convidamos assim o leitor para a grande aventura do conhecimento, para descerrarmos juntos os véus de Ísis. O conhecimento é certamente iluminador, e a astrologia profunda, desprovida de dogmas e mistificações, mas transparente ou translúcida, assim como pragmática e universalista, é certamente a sabedoria das Chaves da criação ou Brahmavidya.

Se o conhecimento é a base de toda a cultura, o saber correto representará certamente o endireitamento dos seus caminhos.

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Parte I

Cânone Tradicional

Capítulo 1

Uma Tradição Universal

O calendário telúrico não é nenhuma novidade na civilização, apesar da desvalorização conceitual trazida pela civilização cristã* e, em termos pragmáticos, também para os povos modernos do Hemisfério Sul, que se valem de um calendário colonial, reflexo daquilo que é ainda o conjunto de sua cultura, mediante uma ordem social que é resquício do passado e ainda em formação, sem classes autônomas realmente voltadas para o universal (que é a alma).

* Trata-se do célebre repúdio judaico-cristão a tudo o que possa cheirar a panteísmo, idolatria ou fetichismo. É a famosa dualidade pisciana, de uma época do mundo quase incapaz de reunir o uno e o diverso. Ainda assim muito foi feito durante a Idade Média.

O conceito de celebração coletiva, compartilhar, amar e comungar, que deveria ser o propósito contínuo da civilização, desencadeada especialmente nas festividades regulares, está por isto nestas regiões mais distante que em qualquer outra parte, uma vez que as suas estruturas culturais desconhecem maior unidade e enraizamento, ou a coordenação do simbólico e do sensível.

As instituições devem se voltar para o conjunto da sociedade e para a integração das dimensões (tempo-espaço, natureza-alma, etc.); mais que apenas para o indivíduo e o imediato. E uma das bases para estabelecer este quadro deve ser o enraizamento dos símbolos culturais, porque deste modo teremos uma planificação e uma teoria daquilo que deve ser alcançado.

Todo o calendário tradicional é de base telúrica, ou seja, enraizado nos eventos sazonais-astronômicos do hemisfério. É verdade que o calendário cristão buscou sempre fugir de tudo isto, para escapar aos vínculos dos cultos “naturalistas”, nascidos na original tradição do telurismo e que formaram a base das nações e das culturas. Ainda assim, os resquícios permanecem e são eloquentes neste calendário, resultando num esquema caótico, utilitário e meramente matemático.

Não obstante, o conflito é tolo e desnecessário. O calendário telúrico traduz uma astrologia vista desde o ângulo científico ou astronômico, sem descurar dos valores subjetivos, tornando, porém, perfeita a correspondência das diferentes dimensões da existência, conforme se acha designado no cerne dos grandes ensinamentos tradicionais de unicidade.

Para os povos da Europa e outras partes do mundo, são bem conhecidas as relações entre os códigos simbólicos de tempo (calendários, astrologia, festas, etc.) e os eventos naturais regulares, especialmente da ordem das Estações do ano.

No Hemisfério Sul, por sua vez, onde a realidade sazonal é distinta e se adotou um calendário exótico mediante o processo colonial, tudo isto não passa de informações isoladas e sem maior significado –quase um mero fator de erudição e uma curiosidade cultural sobre um tempo de “superstições”, sepultado pela “superior” camada cultural cristã, e depois assolada pelo ciclo mais recente do materialismo– e não realidades vívidas que interferem na experiência cotidiana.

E claro que, para isto, vai embutida a proposta de um reacercamento da Natureza, para que estes valores tenham um significado, de resto vital para a saúde social. A mudança da Era demanda este resgate telúrico-existencial.

No Hemisfério Norte, este desprezo “piedoso” aos preceitos astro-geográficos e geo-psíquicos não e tão prejudicial, porque, de resto, todo o edifício cultural é de um modo ou de outro construído sobre correlações telúricas.

Deste modo, tudo o que propomos fazer, e sem nenhum recurso a exotismos (de fato, bem menos que o existente no calendário atual), seria o resgate das correlações tradicionais de tempo e espaço, ou entre geografia e astrologia, que são os dois pilares do calendário tradicional, base para todo o autêntico calendário –mesmo o cristão que, com suas deformações, pertence a uma Fundação cíclica e possui tacitamente um programa de conclusão, velado em última análise pela sua escatologia.

Por tratar dos fundamentos astrológicos vinculados aos fenômenos naturais, a presente abordagem tem uma vocação claramente “revolucionária”, nos termos da reposição dos fundamentos de uma cultura ou, “no caso”, de uma doutrina. A astrologia telúrica é, para o sistema astrológico, mais ou menos o que é o marxismo para a sociologia em geral: a refundamentação de uma praxis determinada.

Todas as ciências estão conectadas e a astrologia também é uma linguagem universal. Através da astrologia telúrica, seria inclusive possível dar uma mostra uma sociedade proletária, “diversificada (nas atribuições)”, mas “sem classes (fixas)”; palavras paradoxais e relativas, portanto. Ou seja, mediante a riqueza das estações e seus conteúdos naturais e psicológicos.

Tradicionalmente, “raízes” significa natureza, trabalho e conhecimento. Neste sentido, a astrologia telúrica permite realmente entrever uma ordem social, dinâmica e universal, onde os elementos são as classes e os ritmos as suas etapas evolutivas. É muito importante poder entrever através de esquemas claros as estruturas vitais e os planos universais de evolução. Esta é, pois, uma das coisas importantes que vamos estudar neste trabalho.

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Capítulo 2

As Duas Grandes Correntes

Como geralmente tem acontecido na História, a astrologia hoje se encontra profundamente dividida entre o simbólico e o empírico. Diante das dificuldades de compatibilizar a prática com uma teoria das origens ou com uma “explicação” original, e esta com a ciência, os adeptos das várias correntes se refugiam cada qual em sua trincheira, como se o verdadeiro problema fosse tentar dirimir a natural complexidade desta doutrina –é bom nunca esquecer– de base universalista.

A Grande Encruzilhada

Diversas visões têm alimentado a prática e a teoria astrológica. Cabe demonstrar, então, que existem duas grandes vertentes de abordagens, que podem ser em princípio classificadas de profana e sagrada, embora com a criação da “psicologia profunda” venham surgindo categorias intermediárias.

Observemos então com atenção o seguinte texto do astrólogo mundial André Barbault em A Astrologia Mundial:

“…na tradição existem duas correntes gerais, uma que, de Pitágoras aos neoplatônicos, se encontra na linha simbólica do astro como valor de signo, e a outra, ‘física’, que passa por Aristóteles, Ptolomeu e Morin, para a qual o astro é uma causa eficiente (para Kepler existia um todo físico, psicológico e metafísico)”.

Assim, temos uma corrente que vê os elementos da astrologia como símbolos, e outra que vê nos astros causas eficazes em si próprias –e alguns sábios ainda buscam conciliar ambas as óticas. Naturalmente, isto pode fornecer visões radicalmente distintas no tocante ao livre-arbítrio humano. Prossigamos sobre isto:

“Para os defensores da segunda via, de espírito tradicionalista, é natural que deva estar-se atento às necessidades do determinismo, pois o tratamento dos movimentos celestes se encontra naturalmente agravado de um necessitarismo de tipo científico. Entretanto, a essência da Astrologia se encontra mais além desta estrita sintaxe astronômica. O mundo do signo é o de um ser matemático cuja figura se encontra investida de uma grande dignidade ontológica. O Mundo é espelho de si mesmo, reproduzindo o interior no exterior por projeção de um e identificação de outro, estabelecendo-se uma relação de similitude entre o agente e o paciente, o signo e a coisa significada, o conteúdo semântico e a figura sintática, a atividade significante e a natureza, sendo esta, numa dupla homologia, a correspondente do microcosmo e do macrocosmo”.

Barbault enfatiza, pois, o caráter simbólico da astrologia e se declara tacitamente um simbolista, concluindo na unidade entre as duas visões, e torcendo por maiores iluminações:

“No estado atual da Astrologia, a circularidade do signo e da causa se fundem na mais tenebrosa incerteza. Todavia, não existe, e nem pode existir, ruptura entre um e outro que permita que cesse o equívoco entre eles e que possa extrair-se a parte suscetível de pertencer a cada um. Sem dúvida será necessário um longo caminho no conhecimento para sairmos deste sistema astrológico”.

Afinal, mesmo enfatizando o símbolo e a analogia, e com isto a liberdade, não se pode descartar a existência de energias cósmicas, que podem ou não influenciar o homem, mas sobretudo de ordem espiritual, diríamos. Pois, ainda que as estrelas distantes possam exercer influência física sobre nós, resta a questão da eventual presença de Hierarquias espirituais nas estrelas, tal como afirma a Astrologia Esotérica. É verdade que coisa semelhante se afirma acerca das esferas de nosso sistema solar, sagradas ou não, e nestas sabemos que nem remotamente a ciência aponta possibilidades de haver vida animada.

Seja como for, o caminho para a liberação do homem comum, é pela via simbólica, porque esta lhe devolve a liberdade. Até que, fortalecido, ele possa conectar-se positivamente com as forças cósmicas, atuando em planos sutis, mediante a invocação livre de suas energias superiores

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Visões Paralelas

A depender da visão, as duas correntes são paralelas e não antagônicas.

Assim é que nossos próprios trabalhos estão de certo modo divididos nestas duas linhas, que não se antagonizam necessariamente. Assim, de um lado fazemos uma afirmação vigorosa do caráter simbólico da astrologia, especialmente para libertá-la de vínculos duvidosos e “explicações” provavelmente fantasiosas. Nisto, o primeiro refúgio se encontra na doutrina platônica que trata das formas “puras” e abstratas, ou na ordem estruturada da evolução das energias, tal como uma semente que, ao se desenvolver, determina as etapas de evolução de uma planta, seguindo aquilo que está delineado em seu “arquétipo” interior ou, como diríamos hoje, no DNA da planta.

Não está distante desta abordagem a visão psicológica ou subjetiva da astrologia, linha representada modernamente de forma magistral por Dane Rudhyar (que na verdade vai além dela, buscando a positiva individualização) e seus seguidores.

Em Para Além das Estrelas, demonstramos a forma como o zodíaco pode ser estruturado de maneira independente das chamadas “energias astrais”, o que é comum em diversos calendários astrológicos –Revista Órion de Ciência Astrológica-, focalizando uma abordagem mais propriamente abstrata ou idealista, no sentido platônico do termo, tratando, pois, de dispor em primeiro plano a questão dos arquétipos matemáticos ou as “formas” puras (em Platão, Ideia e Forma representam o mesmo, cabendo distinguir delas Manifestação e Substância).

Esta visão abstrata não deixa de ter, no entanto, certa dimensão elitista. Pode-se então recorrer ao extremo, do mais puro empirismo, animismo ou vitalismo, e ver a astrologia como uma direta emanação das energias naturais, uma espécie de catálogo ordenado da evolução dos ciclos da natureza ou, em síntese, uma lógica inerente a qualquer processo evolutivo. Esta vertente, que é desenvolvida por nós especialmente através do trabalho com as Estações, tem poucos adeptos nesta linha, sendo mais comum aqueles que buscam o chamado cientificismo, também em várias correntes, como a estatística ou ainda como a sideralista, ao modo oriental, onde se transpõe para o plano individual as ocorrências astronômicas do zodíaco sideral, o que a nosso ver seria um equívoco (mais um abuso reducionista da premissa “assim como é em cima é em baixo”?).

É também a corrente dos “práticos”, que demonstram geralmente pouco preocupação com a teoria, e quando o fazem terminam se refugiando na abstração do tipo causal. Partem da perigosa premissa de que “de qualquer maneira, a astrologia funciona”.

Ora, a constatação “estatística” do funcionamento está muito longe de confirmar as teorias dos astrólogos sobre as causas deste funcionamento. O subjetivismo de uma interpretação pode ser infindável, e segue as premissas que alguém decide tomar. Basta observar que, se é pelas “energias”, todo o horóscopo as possui “todas” e ainda em vários níveis e estruturas paralelas. De fato, conhecemos um sem número de astrólogos que apreciam enveredar pelas mais ínfimas ramas “astrais” em buscas de “explicações” para isto ou para aquilo. Dentro de tal complexidade, seria quase impossível evitar a “funcionalidade” ou, pelo menos, a possibilidade de teorizar “explicações”.

Nisto, convém lembrar a teoria da “causação circular”, pela qual “tudo pode chegar a ser, em dadas circunstâncias, a causa de qualquer coisa, não havendo deste modo causas suficientes de nada”. Ainda que alguns desprezem esta teoria, o fato que os sofistas da Grécia antiga a demonstraram com bastante habilidade, e coisa parecida é feita hoje por advogados muito hábeis. Basta enveredar por uma ou por outra linha de raciocínio (pois talvez haja quem seja capaz de “provar” qualquer coisa que deseje). Por isto, os antigos comparavam a mente a um labirinto. No caso da astrologia, seria até mesmo possível conferir através disto uma “explicação” para a validade dos signos num hemisfério oposto. De resto, todos temos os doze signos, todos os planetas, etc. E os elementos se diversificam em nuances quase infinitas. Não será possível nisto tudo encontrar a visão da coisa em si, misturada à do olhar projetado?

É, enfim, como se o verdadeiro fator de uma conclusão fosse não o objeto observado, mas o princípio que se tem em vista, aquilo para o que os nossos pressupostos internos nos predispõe a perceber, numa subjetividade quase total há muito percebida pelos filósofos –e acaso isto não está próximo do voluntarismo que a moderna ciência vem descobrindo dentro da Física quântica?

Chegado a isto, e após tais digressões (e ainda outras que virão!), o leitor poderia ficar desesperado com qualquer espécie de astrologia e optar por esquecer o assunto. Pedimos, no entanto, um pouco mais de paciência. E nos permita observar que existem visões da astrologia bastante mais simples e originais.* Estamos já num labirinto, através das práticas atuais, e devemos dele sair.

* Neste sentido, a nossa obra O Calendário Astrológico (Compêndio de Astrologia Social) é uma apologia à simplicidade pessoal e à reintegração do horóscopo individual ao calendário coletivo, a partir da premissa que o único que vale realmente a pena no plano individual, são os fatores mais importantes do horóscopo.

As mentes modernas, acostumadas ao caos das recentes teorias da Física, talvez possam julgar aceitável qualquer ideia. De nossa parte estamos unicamente desejosos de “colocar os pé no chão” –e não importa o que digam os físicos sobre a sua realidade: eles mesmos afirmam que o universo pode ter várias portas (ou bases).

Por isto, fugimos sempre das “explicações psicológicas” das coisas, que partem do particular para o geral. E optamos pela visão de conjunto ou de estrutura, isto é, que vai do geral para o particular, que é a opção da Tradição de sabedoria.

Até porque, a vocação da astrologia telúrica é civilizatória e, assim, antes coletivizante do que individualista, resultando na elaboração dos Calendários universais, de especial valor para as relações sociais em todos os níveis; constituindo uma verdadeira astrologia social, portanto -além de “natural”-, ou uma visão intermediária entre a astrologia mundial e a astrologia pessoal.

Por esta razão também, o presente enfoque, embora preserve uma ótica diversificada para a explicação do zodíaco (e dos zodíacos), enfatiza a visão realista, concretista e naturalista, ou o telurismo, servindo especialmente aos calendários coletivos e aos zodíacos individuais. Por isto, num trocadilho com outro livro nosso, esta obra também se poderia denominar por sua vez “para aquém das estrelas”; servindo assim como um complemento para a citada obra, aprofundando as dissertações epistemológicas acerca das origens zodiacais, desta vez sob uma feitura naturalista. Nisto, tem por complemento direto o nosso outro livro As Estações Astrológicas, onde apresenta-se uma análise simbólica e espiritual das Estações do ano, com seus vínculos iniciáticos (para além, portanto, das meras considerações “vitalistas”), ao lado de matérias acerca da estrutura calendárica solar e seus marcos solares.

Assim, é possível que justamente a observação das tão desprezadas bases naturais da astrologia, possa restituir o elo perdido que falta para a reestruturação desta doutrina ou o seu reenraizamento. Tal coisa pode até ser confundida com certo fundamentalismo astrológico, mas é sempre mister erigir um conhecimento original sob o signo de Saturno.

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Capítulo 3

A Astrologia Telúrica

A Astrologia é uma ciência muito antiga e recebeu muitas capas de leituras através dos tempos. A forma atual popularizada é uma das mais grosseiras que existem, mas ainda hoje persistem no Oriente sistemas mais avançados e inclusive científicos.

Por isto tampouco acreditamos na Astrologia na forma como se pratica no Ocidente moderno. E sim numa outra forma que consideramos mais original e verdadeira, que é ter na Astrologia, sobretudo, uma linguagem simbólica -como em Pitágoras, Platão, Paracelso, Rudhyar, etc.-, ou seja, o registro das energias que evoluem em todos os sistemas vivos dotados de consciência, inclusive em nós, e onde cada planeta simboliza os ritmos de nossas dimensões física, emocional, mental, espiritual, etc.

Estes ritmos são os mesmos dos planetas devido à grande unidade que existe no cosmos, e não à influência de um nível sobre outro; de modo que um plano se presta a ser simbolizado pelo outro. Tudo o que existe é um único e grande organismo, onde a estrutura do macrocosmo é igual à do microcosmo, tal como rezam os antigos tratados herméticos que “assim como é em cima é em baixo, para que se revele a unidade dos mundos”.

A astrologia também foi ojerizada pela Igreja em parte porque se usou para reforçar teses pré-determinísticas, além de se pretender através dela substituir a ação da Providência.

Então, podemos concordar quando se contesta a influência dos planetas e das estrelas sobre a terra e especialmente sobre os seres humanos (o que não seria o caso da Lua, com uma evidente influência física, até com certos reflexos psíquicos). Entende-se assim o sentimento das pessoas em relação ao tema. Acontece que existem muitos equívocos em torno da matéria, e não apenas por parte dos leigos, mas sobretudo dos próprios expoentes.

A leitura apressada de princípios herméticos como “assim como é em cima é em baixo…” deram margem a visões equivocadas acerca da correspondência entre os mundos, dando lugar a uma causalidade fictícia e supersticiosa, além de filosoficamente repulsiva.

Porém, não obstante a crítica à tais leituras das origens, os resultados empíricos não sofrem alterações, na medida em que as energias existem (assim como os mecanismos verificados entre elas), surgindo, porém, de fontes outras, tais como do próprio homem, da humanidade e de Deus –a depender da dimensão temporal-zodiacal envolvida.

Existe, portanto, realmente muita superstição e fetichismo na Astrologia. Isto é o que acontece com toda a ciência antiga que se preserva através de símbolos. Mas como restauradores de Verdades eternas, podemos dizer que a Astrologia no seu geral não está baseada nas estrelas, e sim em arquétipos e princípios universais (o mundo das “ideias” de Platão), e que se refletem de forma perfeitamente visível no telurismo, se é que se pode dizer assim, ou seja, está fundamentada fisicamente no ciclo das estações por simples analogia universal, uma vez que leis semelhantes regem todas as esferas do cosmos -especialmente em se tratando de ciclos análogos. Assim, se eu comparar o meu organismo ao de um gafanhoto, posso chegar a fazer um relatório tão inexato que alguém pode chegar a pensar que eu também sou um gafanhoto por igualmente ter pernas, olhos, boca, etc.

A psicologia dos signos reflete justamente a natureza destes ritmos e energias: as energias do fogo, do ar, da água e da terra, simbolizadas pelas quatro Estações, em seus aspectos de impulso, estabilização e término. Ou seja: os Doze signos são, basicamente, símbolos das energias das Estações em suas três fases de início, meio e fim. As quatro Estações formam um cosmos íntegro telúrico, registrado no Zodíaco através dos quatro elementos, cujas divisões tríplices dão origem aos signos (como se sabe, os elementos são simbolizados por triângulos). E são estes elementos que sustentam os Quatro Temperamentos contemplados na Astrologia, os quais têm a sua base natural nas Estações.

Tudo isto está atualmente tão longe da nossa percepção, porque usamos os signos do Hemisfério Norte, trazidos com o processo de colonialismo cultural. Mas se estamos a adquirir e a desenvolver este novo conhecimento, é provavelmente por sermos representantes de uma cultura destinada a se tornar universal e apresentar uma vez mais os códigos da Totalidade do Ser para a humanidade, renovados segundo a necessidade dos tempos.

A Astrologia teve raízes telúricas, mas isto apenas é realmente lembrado quando chega a hora de reencontrar as suas bases. Para reafirmar os códigos astrológicos reais, devemos empreender um estudo profundo da simbologia astrológica de acordo com os ciclos naturais, visando aplicar na prática e localmente a premissa de que “assim como é em cima é em baixo”.

Por esta razão, ainda que em termos gerais se trate de Astrologia Simbólica, designamos também a Astrologia que praticamos aqui como Astrologia Telúrica, visando diferenciá-la das práticas fetichistas geralmente existentes, e então enfatizar as bases simbólicas e científicas desta ciência em seus vínculos locais com as Estações do ano.

Tratemos de aprofundar, no entanto, os preceitos originais desta doutrina.

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O Tempo Cíclico

Com relação à concepção cíclica de tempo, se trata de um conceito universal e comum aos povos antigos. Tampouco é algo exótico, estando presente em todas as culturas ameríndias, mesmo as mais primitivas.

A fim de realmente entender o que isto significa, caberia talvez ao homem moderno compreender corretamente o termo “ciclo”, que é na verdade um meio-termo entre o movimento circular e o movimento linear. O primeiro modelo cíclico é o próprio dia, que se repete sempre em termos de luz e sombra, porém nunca igual um ao outro, antes modificando-se atenuadamente ao longo das Estações. Observando a repetição do padrão até onde é possível –anos, décadas, milênios–, tudo isto é levado às suas últimas consequências, amparado sobre doutrinas “estruturantes” universais, segundo a clássica fórmula de comparar o inferior ao superior (analogia). E nisto, o cíclico longo termina por abranger o aparentemente linear.

Existem linhas de investigação científica que não são exploradas no mundo moderno, mas que eram amplamente contempladas pelos antigos. Da mesma forma, existe à margem da metodologia moderna, um amplo espectro de manifestações culturais apenas acessíveis pela experimentação direta, o que faz da atual cultura uma cultura grosseira e de segunda mão. A única experiência de primeira mão, é aquela que une o experimentador ao experimentado. Estamos falando da observação e da experiência de processos pessoais com energias.

Diremos, pois, que o tempo cíclico nada mais é que a classificação do tempo segundo suas divisões matemáticas, de ordem propriamente cronológica (dias, anos), espacial (graus) e geométrica (formas), atribuindo a cada divisão e ao seu conjunto, um conteúdo ontológico específico, segundo a natureza de cada segmento.

Existem inúmeras estruturas no cosmos; algumas ao nível de arquétipos, como de natureza matemática e geométrica, as quais atuam sobre as substancias determinando, por exemplo, o padrão regular dos cristais, como aqueles de seis lados (quartzo). Na natureza o seis também está presente no arco-íris, e como arquétipo no sólido regular que é o cubo, e ainda no ciclo espacial das esferas, refletido no sistema solar ao nível de planetas visíveis.

Este conjunto de dados físicos ou espaciais, naturalmente pode resultar divisões paralelas no tempo; a equiparação dos diversos sistemas de divisão pode trazer dados em comum.

O resultado completo pode produzir um esquema semelhante ao da “Pedra do Sol” asteca, com suas muitas divisões e subdivisões, considerada daí a mais completa súmula calendárica existente.

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Astrologia Natural e Espiritual

Nos mitos astrais gregos, aparentemente é a Astronomia que é focalizada, mas quando esta se reúne ao Mito temos já uma concepção astrológica. Trata-se, pois, de projeções simbólicas dos ciclos astrais, que podem ser distribuídos pelas sucessivas camadas do cosmos, segundo as várias divisões possíveis do tempo. Se tomamos a “Pedra do Sol” asteca, encontramos ali um calendário “cheio”, da natureza da mandala, com divisões que vão quase desde o centro até a periferia da circunferência, em sucessivas fases ou camadas. Sabemos também como os próprios deuses têm sido associados aos signos astrológicos em diversos níveis.

Quando observamos a importância que a Astronomia apresenta para a Astrologia, sobretudo em Zodíacos como o Ocidental, imaginamos que a relação entre ambos é indissolúvel, e que sua concepção seja o fruto de superstições ou, senão, de uma capacidade ímpar de observação e até de raciocínio.

Talvez esta relação seja assim intensa, mas de uma forma diferente a como se pretende colocar vulgarmente. Na verdade, a estrutura astrológica apenas chega até os dados astronômicos através de fórmulas matemáticas. De modo que as estrelas sejam em princípio, apenas reflexos ou referências dos ciclos abstratos ou matemáticos. E esta é uma das aplicações da filosofia de Platão, onde afirma que as “ideias” estão acima e precedem as coisas manifestadas.

Ao mesmo tempo em que concluiu investigações sobre fenômenos naturais e cíclicos relacionados especialmente ao clima e às estações, o ser humano percebeu que no plano espiritual as energias se apresentam numa ordem semelhante. Os cientistas modernos diriam que as mesmas leis regem todos os mundos; muito embora se possa com isto confundir humanos com gafanhotos.

É claro que a correlação sazonal não “explica” por si só a existência dos signos, embora tenha bem mais elementos para isto do que as distantes constelações sempre tão celebradas. De outra forma, nos povos aculturados por outros hemisférios, não se poderia manter os mesmos padrões. As verdadeiras causas são mais profundas e alcançam a dimensão espiritual.

O tempo, enquanto gestor de energias –psíquicas, se assim se quer– plantadas na terra, seja pela natureza, pela humanidade, por Deus ou pelo próprio indivíduo –e isto confere quatro níveis de energias– o tempo, se desdobra em ciclos de acordo com estruturas matemáticas inerentes ao cosmos.

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O Mito do Eterno Retorno

A ideia do tempo cíclico era corrente entre os Antigos, e mesmo as religiões ocidentais preveem esta concepção ao acatar o fato de que existiu um dia um Paraíso, e que este deverá voltar a existir em algum momento futuro, previsto no Apocalipse.

Por isto seria importante conhecer mais estas questões, investigando tudo aquilo que a Bíblia ensina, mas também conhecendo as ideias e as práticas das antigas civilizações que alimentavam noções semelhantes.

As pessoas no mundo moderno não sabem muito bem compreender e classificar as civilizações antigas. A forma como elas costumam se dirigir a estas construções culturais –que geralmente são magníficas, tal como existiram há partir de cerca de cinco mil anos, gerando a própria estrutura de civilização na qual ainda vivemos –é uma visão sempre deformada e parcial. Muitas vezes se trata de julgar as antigas concepções por aquilo que delas restou em tempos mais recentes, trazendo inevitavelmente, devido ao passar dos milênios, uma condição decadente. Por estes critérios, os conceitos de urbanismo, Estado e calendário deveriam ser colocados também de lado, juntamente com outras manifestações culturais da época como foram a monarquia e a astrologia.

Uma das atribuições correntemente dadas à estas antigas culturas, é que eram, de um modo geral, místicas, ou mesmo muito religiosas, com cultos variados e, portanto, panteístas. Diz-se assim ao se aperceber entre outras coisas que, ali, todas as coisas estão envoltas pela aura do sagrado.

A grande verdade, no entanto, é que os Antigos não faziam distinção entre as várias instituições e as diferentes disciplinas, nem, portanto entre aquilo que hoje distinguimos como sagrado e profano. O homem ocidental, por sua vez, permanece numa situação de sacralizar algumas coisas e profanar outras, gerando uma dualidade interior irremediável e doentia, que tem entre suas consequências a enfermidade individual, coletiva e planetária.

Esta antiga integridade universalista foi o que deu, afinal de contas, a imensa longevidade verificada nestas civilizações. Se devêssemos classificar estes povos de místicos, deveríamos antes esperar vê-los como ascetas errantes e sem estrutura material com dom de perdurar e expandir, como arquitetura e mesmo capacidade militar.

Pois na verdade eles eram antes holísticos -muito embora esta seja uma palavra moderna.

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O Panteísmo e a Verdade Eterna

Pode chegar a ser muito difícil para a mentalidade moderna que tudo tende a compartimentar, entender o universalismo ou o ecletismo do pensamento antigo. Assim, ao ver que tudo é deificado, se pensará que os antigos eram muito místicos e religiosos, quando na verdade para eles tudo era tudo, isto é, material-espiritual a um só tempo, por exemplo.

Os antigos se inspiravam, pois, na ideia de que tudo está essencialmente unificado, e desta forma, todas as coisas se revestiam também de uma auréola sagrada, ou mística, dando a sensação, real ou fictícia, de que eram panteístas, quando na verdade havia uma unidade. O material estava impregnado pelo espiritual, mas também inversamente. Por isto tinham certas dificuldades de conceber o que chamamos de “Deus invisível”.

Com certeza, qualquer Deus que existisse desta forma, em algum momento teria se manifestado na Terra, tal como os cristãos aceitam as palavras de Jesus quando diz que permaneceria com eles apesar de subir aos céus. Assim, talvez estes antigos filósofos até alimentassem concepções religiosas semelhantes à dos cristãos. Mas também é possível que conceitos como onipresença, onisciência e onipotência, apontassem antes a capacidade ilimitada de compreensão que manifestam os sábios de Deus, assim como sua abrangência intelectual e espiritual, ou seu poder sobre as energias em geral. O próprio conceito de “transcendente” significa aqui, não a exclusão, mas todo o contrário, na superação dos opostos pela combinação e geração de um campo novo e superior de consciência, tal como velam muitos mitos originais de criação.

É possível que o panteísmo original tenha se agravado com o tempo, assumindo aspectos realmente idólatras, fetichistas e supersticiosos. Mas no princípio estas manifestações pertenciam a uma hierarquia de deuses que remontavam senão a uma unidade, como entre os egípcios, certamente a uma trindade, como no caso dos hindus.

O fato é que, através disto, estas tradições teriam a capacidade de abranger a totalidade das energias e a circularidade do tempo cósmico. Por esta razão, a forma como denominam a si próprias é “Tradição Perene”, tal como o verdadeiro nome do Hinduísmo é Sanat Dharma, “Lei Eterna”. Vemos uma expressão doutrinal semelhante no Cristianismo através da rica simbologia do Apocalipse de São João, e até uma ideia semelhante, ao nível de profecia, onde diz que o Cristo aparece com um “Evangelho Eterno”, o qual, a nosso ver, pode ser o próprio Livro do Apocalipse, uma vez que este “novíssimo testamento” contempla realmente na sua estrutura, a globalidade das energias cósmicas, confluindo diretamente com as profecias do Oriente.

Era de opinião semelhante, embora no seu modo de pensar, o conceituado abade cisterciense calabrês Joaquim di Fiore, para quem o Apocalipse representa uma revelação nova e definitiva:

“O tema das obras mais importantes de Joaquim de Fiore (Liber Concordiae Novi ac Veteris Testamenti, Expositio in Apocalipsim e Psalterium Decem Chordarum) é a interpretação da visão profética das Sagradas Escrituras no contexto da História e a previsão do futuro da Igreja enquanto comunidade mística. Nessas obras Fiore funda o seu pensamento, depois traduzido na doutrina da Eterna Revelação ou do Evangelho Eterno, conforme à sua leitura do texto do Apocalipse”.

Esta concepção poderia ser aquilo que se pode definir como Verdade, pano-de-fundo para manifestações menores, entre elas as religiões específicas, fundadas sobre energias universais. Por isto os Brahmanes da Índia têm a sua formosa máxima de que “Não existe religião superior à Verdade”. Exemplo deste universalismo está que o Hinduísmo oi capaz de englobar a figura do Buda entre seus Avatares, entendendo a validade do papel reformador de Gautama.

Uma das grandes bases desta doutrina está, pois, na ciência da Astrologia como inventário das energias cósmicas, na evolução dos ciclos dentro de fórmulas matemáticas definidas. A Astronomia é apenas uma construção posterior, destinada a e gerar uma linguagem simbólica e uma ciência de correlações entre o espiritual e o físico; apenas mais tarde, com a perda deste saber, é que se passou a pensar que as estrelas enviavam energias para a Terra, gerando uma superstição que a Ciência moderna combate, com boa dose de razão.

Estes saberes eternos estão edificados sobre princípios imortais, especialmente da matemática, ao qual Pitágoras e Platão (também reduzidos a “místicos” modernamente) davam amplo valor. O mundo moderno já possui evidências sobre a correlação entre a geometria natural e a formação do universo, desde o nível das células e até do sistema solar.

Todas estas ciências estão baseadas em dois fatores: forma e essência, atuando no tempo e no espaço. De um lado, a estrutura, que é matemática e geometria, e de outro lado a substância, que é energia e consciência. Ao se manifestar no universo, a energia percorre ciclos matematicamente definidos.

A Astrologia nada teria a ver, portanto, com influências de planetas e de estrelas, representando antes o inventário das transformações que a energia divina recebe ao se manifestar no mundo. Ao nascermos, recebemos um quantum energético para empregar, e a vida é o desdobrar natural das suas próprias estações em ciclos e subciclos.

De resto, num dado nível, a Astrologia está relacionada às Estações do ano, existindo uma relação direta entre o clima e o caráter, de modo que, num clima variado, o caráter humano também será versátil e flexível, expressando um cosmos humano apto à evolução. Esta é uma das bases do conceito racial na Tradição de Sabedoria. Neste aspecto, tempo e espaço, geografia e astrologia são inseparáveis.

Vários calendários usavam elementos geográficos na sua composição, como é o caso do sistema incaico de seques que dividia os arredores de Cuzco como um zodíaco, de modo que o imperador Inca se relacionava com cada setor num período do ano astrologicamente determinado. Os preceitos de geografia sagrada estavam determinados pelos aspectos calendáricos.

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Capítulo 4

Fundamentos do Telurismo Astral

A Astrologia Telúrica é a doutrina que tradicionalmente restaura os pilares da cultura pela reposição de seus elementos de linguagem. Por esta razão, tal ciência ressurge na ocasião de implantação de uma nova cultura universal, tendo em vista a afirmação de bases culturais próprias e profundas. O telurismo baseia-se na observação dos ciclos da Natureza e nisto fundamenta as suas leis.

Como tudo o mais, a Astrologia Telúrica conta com dois elementos principais: teoria e prática. Nisto, também podem ser acrescentadas doutrinas que facilitam a adoção da nova ciência.

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Teoria: das “Qualidades Primitivas” à Quintessência Zodiacal

O telurismo vincula o Zodíaco primariamente ao Ano Solar e suas Estações, tendo em vista o vínculo original entre signos e Estações. Toda a forma de Zodíaco ou de Calendário distinta, de maior ou menor duração, resulta em analogia desta observação original, científica e psicológica.

Existem muitos ciclos no universo, que não possuem a mesma natureza e evidência do ciclo solar, não obstante manter com ele analogias, sobretudo quando detém a mesma estrutura numérica, tal como o ciclo de 12 anos do calendário chinês (relacionado às revoluções de Júpiter), ou mesmo os ciclos de 12 mil anos das quatro Idades do Mundo (de Ouro, Prata, Bronze e Ferro) que podem ser vistas como as “estações” da humanidade. Através de ciências como a do construtivismo ou estruturalismo, sabe-se hoje que a evolução psíquica também obedece a ciclos. Geralmente todos estes ciclos, mesmo quando sujeitos a variantes, seguem uma lógica temporal simples de começo, meio e fim.

A teoria é dada basicamente, pois, pela observação dos valores e elementos locais tendo em vista o desenvolvimento de uma astrologia tópica, estando assim implícita a afirmação da correlação entre signos e estações. Na prática, isto implica considerar, no nosso caso, um resgate de padrões originais através da inversão de signos, posto que a mencionada correlação serve atualmente apenas para o Hemisfério oposto.

Para isto, valoriza-se basicamente as chamadas “qualidades primitivas” que dizem respeito à questões climáticas e de temperatura –ou seja: “quente” e “frio” de um lado, e “seco” e “úmido” de outro–, localmente observadas. Isto nos confere quatro princípios originais, organizados em pares. Tratemos, pois, de observá-los na Natureza.

Uma Triplicidade original se baseia nas três grandes regiões dos Hemisférios:

1. o clima quente do Equador,
2. o clima temperado dos Trópicos,
3. o clima frio da região Sub-Tropical (ou Polar).

Para a formação dos Quatro Elementos, devemos destacar a dualidade quente-e-frio das “qualidades primitivas”, conforme se apresenta nas regiões extremadas do Equador e dos Pólos. Os Quatro Elementos surgem originalmente através das variações de “seco” e “úmido”, presentes nestas regiões extremadas. Daí, os elementos ficam como que sediados ali de maneira permanente, nesta que seria uma ótica mais extremada, dualista e material, dividindo elementos superiores e inferiores nos seguintes termos:

Elementos Equatoriais
(Quentes ou Positivos)
Quente + Seco = Fogo (desertos)
Quente + Úmido = Ar (florestas)

§

Elementos Polares
(Frios ou Negativos)
Frio + Seco = Terra (estepes)
Frio + Úmido = Água (glaciares)

Estas amplas regiões seriam, pois, o extenso palco da humanidade, que é um reino quaternário.

O espírito tropical reuniria todos de uma forma harmônica e refinada, tendo especial vínculo com os menos extremos, que são os elementos Terra e Ar.

De qualquer forma, com isto temos os elementos formados, representando uma estrutura alquímica de consciência assentada sobre a base cosmológica das “qualidades primitivas” combinadas. Mas ainda não temos o zodíaco ou a verdadeira astrologia.

Não obstante, esta distinção também tende a hierarquizar os extremos formando uma faixa mais central (a menos que se busque distinguir absolutamente os pares –o que não parece conveniente), como se observa nesta análise em forma de cruz ou de mandala:

Além disto, a composição do zodíaco climático requer a participação de uma triplicidade real, envolvendo a terceira faixa climática que é a temperada central. Notadamente, as regiões extremas não apresentam as Quatro Estações bem caracterizadas, mas apenas duas, ora mais quente ou tórrido, ora mais fria ou gélida. Enfim, não constituem verdadeiras estações. Talvez isto explique porque as culturas das zonas do Equador e dos Polos não costumam deter um culto zodiacal mais expressivo, e que a cultura astrológica seja uma realidade mais tropical e também subtropical. Apenas sob os Trópicos ou na região Temperada, temos um quadro sazonal de perfeito equilíbrio. Somente ali as qualidades primitivas se apresentam ritmicamente presentes, através das Quatro Estações:

Primavera = úmido + quente (Elemento Ar)
Inverno = úmido + frio (Elemento Água)
Outono = seco + frio (Elemento Terra)
Verão = seco + quente (Elemento Fogo)

Em tese, somente o signo fixo expressa com fidelidade do elemento da estação, sendo daí a chave do calendário telúrico. Mas a combinação de elementos nos quadrantes sazonais complica o quadro astrológico, a ponto de ser impossível encontrar, nos termos dados acima, uma posição ou ritmo de signos que expressa com fidelidade o elemento da estação, a fim de servir de chave para o calendário telúrico. Não obstante, o efeito correlato é alcançado.*

* A ordem verificada no zodíaco ocidental também tem a sua lógica, embora profunda e misteriosa. Decorre de uma combinação de tendências dentro de uma evolução cíclica onde se misturam os elementos (ou uma dada “alquimia inversa”), compondo de certo modo o caos original ou o círculo do samsara, com seus elementos “desordenados” requerendo uma organização hierárquica para fins de evolução superior.

Embora presentes no seu conjunto, ao contrário das zonas extremas, os elementos ou as estações são mais fugazes nos Trópicos, e até por isto mais fáceis de ser assimiladas nos casos extremos de frio, calor, umidade ou secura; que de resto dificilmente chegam a extremos “alarmantes”. O convívio com a Natureza se torna assim amplo e agradável, com desafios suportados naturalmente, exigindo adaptações antes internas do que propriamente exteriores. Esta é, pois, a base do intenso telurismo do homem desta região: ele convive positivamente com a natureza e ama todo o seu rico ciclo de manifestação, que se incorpora então ao seu próprio ser.

Por tudo isto esta é uma região universal, um palco privilegiado para a cultura verdadeiramente sagrada ou superior, servindo de base para algo mais elevado. Havendo ali perfeito equilíbrio cíclico, não existe por consequência o predomínio de nenhum princípio climático-elementar. Com isto se escapa à especificidade e à rotulação, ocorrendo o surgimento de uma nova dimensão, sobre a super-síntese dos elementos.

Diante disto, talvez devêssemos denominar as energias extremas de proto-elementos. Pois, ao contrário das “qualidades primitivas”, os verdadeiros elementos também apenas podem ser encontrados em perfeito estado de harmonia dentro de um quadro de equilíbrio espacial; de outra forma o que teremos são tendências extremas vinculados ao tempo e às triplicidades climáticas. Embora nestas, a faixa Temperada apresenta maior “nobreza” e se torna palco de uma humanidade superiormente dotada, afinal oferece recursos mais amplos para diversos fins.

Os Quatro Elementos estão constituídos pelas “qualidades primitivas” combinadas. Mas, ainda que tais “qualidades” apresentem analogias com os quatro temperamentos tradicionais (bilioso, colérico, fleumático e sanguíneo), estes costumam antes ser vinculados aos Quatro Elementos, os quais, por sua vez, juntamente aos três ritmos, estruturam os signos zodiacais (exemplo: ÁRIES = Fogo + Cardinal; TOURO = Terra + Fixo), enquanto doze variantes possíveis das correlações de tempo e espaço. A região centro-hemisférica confere, assim, uma síntese de caráter, favorecendo uma transcendência sobre a condição humana média.

Esta região que denominamos “pirâmide climática” ou de “mandala sazonal”, tem por “ápice” ou centro o paralelo 30, localizado no exato centro do hemisfério (segundo a fórmula 1/2 raio = 30°), razão pela qual ali foram inauguradas as grandes tradições piramidais da Mesopotâmia e do Egito.

Deste modo, a Astrologia Telúrica apresenta também a antevisão da Quintessência através de uma síntese climática, quintessência a qual se manifestou espiritualmente através da Hierarquia árya de Adeptos. Tudo isto também confere um centro para o telurismo –geográfico, histórico, humano, espiritual– e que não ao acaso é de onde irradia esta doutrina universalista, já não como função racial, mas segundo as determinações efetivamente universais de Shambala.

Chegamos aqui, portanto, ao “dogma” maior da Astrologia Telúrica, dado pelo vínculo original existente entre Zodíaco e o Ano Solar. Os quadrantes zodiacais correspondem, pois, a Início, Meio e Fim de cada estação, representando os ritmos Cardeal, Fixo e Mutável, que para Rudhyar significam “geração, concentração e distribuição de poder” (em Astrologia da Personalidade), resultando nos seguintes termos:

PRIMAVERA: (Equinócio)
Início = Áries
Meio = Touro
Fim = Gêmeos

VERÃO: (Solstício)
Início = Câncer
Meio = Leão
Fim = Virgem

OUTONO: (Equinócio)
Início = Libra
Meio = Escorpião
Fim = Sagitário

INVERNO: (Solstício)
Início =Capricórnio
Meio = Aquário
Fim = Peixes

Naturalmente, estes subciclos estão sujeitos a ser vinculados aos meses lunares, embora seja sempre algo problemático encaixar com exatidão o mês solar ao mês lunar. Estes, por sua vez, concedem semanas naturais de sete dias vinculadas às fases da Lua, de forte analogia com as Quatro Estações. No Egito Antigo se manteve, porém, a correlação tríplice com doze meses de três semanas de 10 dias, associados aos decanatos: é o calendário solar “puro”.

Assim, o Ano Equinocial, Solar ou Zodiacal inicia na Primavera, símbolo do renascimento da vida. E o Ano Solsticial, Polar ou Planetário inicia no Inverno, tal como na Festa do Sol incaica que representa uma forma de “Natal do Sul”.

Estes são os padrões atuais do Hemisfério Norte, hoje adotados pelo Hemisfério Sul onde chegam totalmente invertidos, mas que a Astrologia Telúrica trata de recuperar visando afirmar uma estrutura de correlações ideal, real e perfeita também para nós os “Antípodas”.

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Assim, para dar alguns exemplos, temos no caráter severo e reservado de Capricórnio –ou, em termos simbólico-estruturais, pragmático (“Terra”) e empreendedor (“Cardinal”)–, e regido pelo “frio” Saturno, uma expressão do início do Inverno (ainda que os Solstícios e Equinócios apenas relativamente possam ser considerados os efetivos “começos de estações”. Já o signo de Leão, generoso e organizado –ou, simbolicamente, dinâmico (“Fogo”) e realizador (“Fixo”)–, e regido pelo “cálido” Sol, é uma forte expressão do meio do Verão.

Em termos simbólico-estruturais, recuperamos os ritmos gerais do zodíaco. Áries representa início e lhe cabe a estação original “primaveril”, trazendo o frescor da juventude. No seu oposto, Libra simboliza equilíbrio e lhe cabe a posição central “outonal”.

Assim, apesar da estrutura dos signos do zodíaco ocidental não estarem agrupados por elementos (não sendo assim no zodíaco chinês, a sua análise individual tende a demonstrar a realidade do vínculo sazonal. Este é um mistério que não pretendemos esgotar aqui, embora certas pistas sejam dadas. Os ritmos sim, são regulares, e necessários para determinar as estruturas ternárias.

Isto basta para exemplificar o vínculo “nato” entre o zodíaco e o Ano Solar. É certo que encontramos paradoxos por toda a parte, a iniciar pelo fato de que os signos setentrionais têm “funcionado” no sul. Mostra de um lado o valor da convenção, e de outro afirma um predomínio cultural, quiçá de extensão colonial.

E a ambivalência parece ir além. Como negar à outonal Libra, regida por Vênus (ou Afrodite), a esfera da beleza e da sensualidade (“venéreo”, “afrodisíaco”), feminina por excelência, um vínculo objetivo com a exuberante e florida Primavera? Inversamente, como tirar do primaveril Áries, regido por Marte, esfera de luta (“marcial”) e sacrifício (“martírio”), masculino por excelência, o vínculo com o Outono, quando a Natureza ensaia todo um recolhimento?

Temos outrossim, invariavelmente, o acompanhamento de esferas opostas dentro dos quadrantes; mesmo os dois “Saturnos” invernais são opostos entre si, representando de um lado o atavismo capricorniano e de outro lado o futurismo aquariano, segundo a imagem de Janus bifronte que representam na passagem do Ano. Deste modo, e para ilustrar os exemplos anteriores, a Primavera comporta também a Vênus de Touro e o Outono inclui o Marte de Escorpião –regências não tão características, se diria talvez, mas ainda assim ocupando o próprio centro das estações, cabendo lembrar aqui a importância dos signos fixos na definição dos elementos.

Surgem aqui dois símbolos duodenários: a pirâmide (12 vértices) e o dodecaedro (12 faces), aludindo o primeiro aos vínculos alquímicos através das faces triangulares que simbolizam os elementos, e o segundo aos vínculos astrológicos mediante as faces pentagonais que representa a quintessência. Acaso não podemos ver nisto os dois níveis da Jerusalém celeste anunciado nas profecias do Apocalipse, com os nomes dos 12 Apóstolos na base como alicerces e das 12 Tribos no alto como portais? Assim como os 24 anciãos que cercam o Cristo no hierofania. No mais, caberia observar a fórmula 30 x 12 = 360, permitindo o tríplice duodenário também anunciado para a cidade cúbica, em termos de altura, largura e comprimento. Obviamente, a simetria das estações forma no paralelo trinta uma cruz, uma mandala ou um quadrado simbólico.

Estas são, pois, algumas das bases da Astrologia Telúrica, científicas e psicológicas, incluindo a análise primária do ciclo anual e a investigação da presença das “qualidade primitivas” na Terra (latitudes e longitudes), aproximando-se nisto da Geomancia e da Geografia Sagrada ou Geosofia.

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Praxis: as “Avenidas da História” e a Alquimia Racial

Em seu aspecto prático, o telurismo emprega todos os recursos tradicionais da Astrologia, tais como o levantamento de horóscopos e o acompanhamento dos trânsitos. Ao mesmo tempo, envereda por análises estruturais estáticas e dinâmicas.

Uma de suas grandes bases radica-se na análise do caráter cíclico dos eventos, denominada de “avenidas da história”, ou seja, a repetição de fatos que ocorrem regularmente segundo padrões semelhantes. Enfatiza nisto os acontecimentos da história sul-americana, com destaque para os eventos cíclicos sucedidos na faixa meso-hemisférica, ou do gauchismo em geral (do Rio Grande do Sul, no caso do Brasil), segundo a cultura comum do Cone-Sul, dada o seu caráter geográfico central (paralelo 30) e também em termos geo-políticos.

Num outro nível, o conhecimento da constituição climática pode participar da organização das esferas sociais, seguindo certos planos de analogias. Vastu-mandala é o tabuleiro geográfico sobre o qual se planifica uma cidade ou mesmo toda uma civilização. Por isto tanto as cidades de Tenochtitlan como o inteiro Império dos incas estavam divididos em quatro setores hierarquizados, relacionados seja às classes sociais como às direções do espaço.

Astrologia Telúrica – O Retorno à Sabedoria das Estações

Todas as cosmologias sociais formuladas em esquemas proféticos da ordem dos templos e das cidades, têm em vista também uma planificação do espaço segundo a natureza dos elementos sociais organizados. Tal discriminação pode ser obtida de forma diversa, cabendo combinar a natureza com a evolução, ou a cosmologia com a alquimia. Pode-se assim valorizar os signos natais como faziam os pré-colombianos de maneira especial, ao conferir por nome dos indivíduos os próprios signos previstos na sua Astrologia, acompanhado do número do dia para efeito de “distinção” (por assim dizer). Ao lado disto, se pode organizar a sociedade em extratos dinâmicos, desatados de vínculos hereditários e definidos segundo as vocações manifestadas, como fizeram os gregos num certo momento. E se pode empreender ainda um treinamento contínuo de capacitação, tendo em vista os índices de qualidade desejáveis, incluindo aqui a possibilidade de transição de uma casta para outra, como faziam os hindus no início. Com este tríplice Programa contemplamos, pois, passado, presente e futuro.

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