Astrologia na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra

Apollo receiving the lyre from Mercury

Editores:

Manuel J. Gandra & Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica – Cesdies

α

Filosofia Hermética

Filosofia ou Tradição Hermética, Hermetismo filosófico e Hermetismo são designações consagradas para um corpo de fontes literárias, compendiadas no Corpus Hermeticum, expondo doutrinas (de teor eclético e, por vezes, divergente) oriundas do Egito (Mênfis, Sais, Hermópolis e Tebas), as quais fizeram a sua aparição apenas cerca do ano 237 d.C., numa inscrição votiva encontrada perto de Akhmîm. Tais fontes literárias haviam de ser creditadas a Hermes Trismegisto, ou três vezes grande, pelos neoplatónicos, por as suporem reveladas pelo deus Thoth.

O ensinamento hermético não é, apesar de tudo, exclusivo credor da veneranda religião egípcia, apesar de invariavelmente reportado a Thoth e não obstante alguns escritos versando a astrologia, a magia e a alquimia, remontando ao séc. III a.C., tenham sido aproximados por A. J. Festugière de uma espécie de hermetismo popular (ciências ocultas).

Para os egípcios, Thoth era um deus versátil, primitivamente adorado como deidade lunar, cujas funções eram apresentadas em conformidade. Assim, tal como a lua é iluminada pelo sol, também Thoth derivava a sua autoridade da circunstância de ser escriba do deus solar Rá. Ulteriormente, tornar-se-ia deus do tempo e da mudança sazonal, da ordem cósmica e do ritmo quotidiano. Foi-lhe atribuída a invenção dos hieróglifos e do conhecimento esotérico e, nessa qualidade, apodado de “o misterioso” e “o desconhecido”. Em virtude dos seus poderes mágicos seria apontado como médico e guia das almas (psicopompo) no seu trânsito para o além. Mercê da sua associação à lua, à medicina e ao mundo subterrâneo, os neoplatónicos haviam de assimilá-lo a Hermes, mensageiro dos deuses e intérprete da vontade divina, creditado com os talentos e o engenho de Thoth, investindo-o como Hermes Trismegistus, deus, rei, sacerdote e profeta, alegado contemporâneo de Moisés.

Tal imagem perdurou durante toda a Antiguidade Tardia: Tertuliano (c.160 – c.220) apelida Hermes, respeitosamente, de “magister omnium physicorum”, enquanto Jâmblico (c.275 – c.330) descreve no De Mysteriis Aegyptiorum uma forma de filosofia que denomina “a via de Hermes”, reputando o filósofo egípcio como autor de inúmeros livros, repositório das suas revelações, as quais são expostas em tratados breves, sob a forma de diálogo, protagonizados pelo deus iniciador e por um discípulo que acede à iniciação por via de uma dispensação epifânica.

Em plena Idade Média, Hermes Trismegisto seria apresentado no Testamentum, atribuído a Lúlio, como “Philosophorum et Alchymistarum pater”, pai dos filósofos e dos alquimistas, os quais, por seu turno, se autodenominavam filli Hermetis (filhos de Hermes) e denominavam a disciplina que professavam Magisterium Hermetis.

Em setecentos, o termo hermetismo tornar-se-ia, por contaminação, sinónimo de esoterismo, extensão semântica que, contudo, não convém reduzir ou confundir, como contemporaneamente, amiúde, se usa, com o ocultismo, intrinsecamente distinto, apenas urdido nos cenáculos da Aufklärung (Iluminismo) e só sistematizado nas formas correntes e batizado durante o século XIX.

Hodiernamente, o substantivo esoterismo assume diferentes acepções e sentidos de que se destacam os seguintes:

1. é adoptado para nomear de forma vaga e “impressionista” todo o género de registos relativos ao paranormal ou a distintas tradições de sageza antiga (ocidental ou oriental), bem como aos sincretismos Nova Era (New Age);

2. remete, algumas vezes, para a noção de segredo (“disciplina do arcano”) ou para a distinção entre iniciados e não-iniciados;

3. é empregue para designar uma filosofia peculiar, a da Escola Tradicionalista (perenialista), que se funda na “unidade transcendente” de todas as religiões e tradições, acepção sinónima de gnose (modo de conhecimento mais experiencial que racional).

Em suma, face ao estado atual do conhecimento acerca da difusão, categorias, ideias-chave e práticas do hermetismo é conveniente considerá-lo sob três modalidades particulares e nem sempre consonantes, ou unânimes, a saber:

o hermetismo filosófico;
o hermetismo ocultista;
o hermetismo postmodernista ou New Age.

Hermetismo Filosófico
Gnose e Iniciação

Outros as (letras) atribuem a Moisés, outros a Mercúrio Egípcio (Hermes Trismegisto).

DUARTE NUNES DE LIÃO
(Origem da Língua Portuguesa, Lisboa, 1606)

“[…] Hermes em um livro que chamam logostileos – aliás, o Asclepius, atribuído ao neoplatónico Apuleu de Madaura (séc. III) – diz assim deus fazedor de todos os deuses fez um segundo deus e porque ele fez este deus primeiro e só e verbo foi visto a ele bom comprido de todos bens bemaventurado é e amou-o muito assim como um seu filho gerado de boa vontade o nome do qual não pode ser recontado por boca humanal.”

OVÍDIO DA VELHA
(citado no Livro da Corte Enperial)

É impossível situar claramente as origens geográficas do hermetismo filosófico, no entanto, de Alexandria a Roma, passando pelo Norte de África e Hispânia, as suas doutrinas não conheceram fronteiras.

Hesitando entre as soluções dos estoicos e as concepções acroamáticas da Academia platónica, o hermetismo filosófico confundir-se-ia, em certos momentos, com a história da gnose dualista, em cujos escritos são adoptadas fórmulas apontando à regeneração do homem e da natureza, expostas no Poimandro e noutros tratados do Corpus Hermeticum.

Colocando a ênfase no cultivo da intuição, tal Filosofia foi posta ao serviço de um modo de vida religioso. Com efeito, os tratados herméticos surgiram no seio de “comunidades herméticas”, em resultado de um ensinamento oral, no decurso do qual certas fórmulas didáticas, comentadas à luz de concepções gregas, egípcias e judaicas, resultaram numa cosmovisão sincrética inovadora.

Não se revela fácil caracterizar o Corpus Hermeticum. Os seus tratados tratam das relações entre Deus, o cosmos e o homem, com relevância para os seguintes temas centrais: a origem divina do homem, a sua queda na matéria e o seu eventual regresso ao contato com o Pai, mediante o trânsito pelas esferas (CH I); o conhecimento do cosmos que conduz ao conhecimento de Deus (CH III); o Nous, ou visão intuitiva que desvela a coerência entre as diferentes coisas, enquanto dom e mercê divina (CH IV); Deus, apesar da sua invisibilidade, é susceptível de ser conhecido pelas suas obras (CH V); ignorância como o maior dos males (CH VII); a morte entendida como uma mera transição, ou mudança (metabolé) (CH VIII); a aceitação da unidade que subjaz a tudo como condição para o conhecimento de Deus (CH XI); a necessidade do renascimento (CH XIII); o autoconhecimento e a ascese como via de acesso ao conhecimento de Deus (CH I); a matéria enquanto obstáculo à reintegração na fonte divina (CH I).

Com efeito, não é unívoco o teor dos Tratados Herméticos e do Asclepius, porquanto contêm evidentes elementos gnósticos e hebraicos (discussões sobre a alma, um paralelismo com o Genesis, o Nous correspondendo ao tão característico pneuma dos gnósticos, etc.), além de contributos egípcios, inspirados em hinos religiosos.

Apesar de tudo, o hermetismo distinguir-se-á das doutrinas gnósticas pela sua escatologia optimista e, designadamente, pela recusa de considerar o Demiurgo a origem do Mal. De resto, o próprio hermetismo tentará escapar das posições dualistas, cerrando fileiras com Porfírio, Jâmblico, Heraiskos, Damascius e outros discípulos de Plotino.

Face ao cristianismo, o hermetismo constituirá um dos derradeiros bastiões do paganismo, graças à crença na astrologia e nas simpatias que ligam as coisas entre si e as coisas aos seres, bem como à relativa indiferença quanto à salvação. Todavia, ideias como a de um Deus único, da beleza do mundo e da bondade essencial do homem, da ascese e da oração como meios para a descoberta e união com Deus, aproximá-los-ão, originando conversões como as de Arnóbio e Firmino Materno, por exemplo.

Por uma questão de método e pragmatismo, Antoine Faivre sugere que se chame hermetista ao pensador – seja ou não cristão – que valorize (quer em bloco quer separadamente) a analogia (linguagem simbólica), a teosofia (emanação, androginato e reintegração) e a Igreja interior (liberta de quaisquer constrangimentos confessionais).

Um tal pensador, preocupando-se mais com o quid sit Deus (a essência do Divino) do que com o an sit Deus (a existência de Deus), insere-se num corpo de doutrina que contempla uma cosmogonia, uma cosmologia e uma escatologia, as quais pretende elucidar, ora por via da sua própria reflexão, ora pela da iluminação interior. A busca individual ou iniciação resultante, pressupondo uma inevitável regeneração depende, todavia, mais de uma gnose do que de uma Igreja. Aliás, a busca de uma verdade para além dos dogmas oficiais, que caracteriza o hermetismo, e a sua insistência no tema da destruição próxima da Igreja material, profetizando frequentemente o Reino vindouro da Igreja invisível, tornou-o, compreensivelmente, suspeito de heresia.

Com efeito, as igrejas cristãs dominantes invariavelmente assumiram uma posição de negação da vigência de um esoterismo no seio mesmo do cristianismo primitivo, motivo por que trataram com certa desconfiança os escritos de Padres tão celebrados quanto Orígenes e Clemente dito de Alexandria, justamente o centro onde, na confluência das culturas egípcia, judaica e helenística, se originou e desenvolveu o hermetismo cristão, como bem demonstrou Isaac Casaubon, em pleno séc. XVII. De resto, a descoberta, em 1945, de textos herméticos na Biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, viria corroborá-lo.

De forma geral, considera-se o Pseudo-Zózimo de Panópolis o testemunho mais significativo do hermetismo durante o séc. III, não obstante a sua atitude eclética na origem de uma profunda transformação doutrinal. À medida que se assiste à dissolução do hermetismo filosófico, o cristianismo assimilar-lhe-á a espiritualidade, colocando Hermes entre os seus profetas e precursores, a ombrear com os Magos e as Sibilas, aliás, motivo por que o seu prestígio perdurou.

Entre os Padres da Igreja encontram-se referências a Hermes Trismegisto e ao Asclepius em Lactâncio, Santo Agostinho e Clemente de Alexandria.

Estobeu não terá tido acesso ao Corpus Hermeticum sob a forma como atualmente o conhecemos.8 O primeiro a referir-se-lhe foi Miguel Psellus (1020-1078), platónico bizantino e preceptor do Imperador Miguel Ducas, o qual utilizaria os escritos herméticos e órficos para explicar a Sagrada Escritura.

8 Atualmente, os tratados herméticos são organizados em dois grandes grupos: 1. Os textos práticos ou técnicos sobre Astrologia, Magia e Alquimia, incluindo a Iatromatemática, o Centiloquium, a Tábua de Esmeralda e o Tractatus Aureus; 2. A denominada Hermética Filosófica, cujos textos mais importantes são o Asclepius latino, cuja tradução foi durante muito tempo creditada a Apuleius de Madaura (c.123), o Corpus Hermeticum, fragmentos de textos compilados por Estobeu (c. 500), fragmentos de Lactâncio, Cirilo, etc. e os textos gnósticos de Nag Hammadi, incluindo os fragmentos coptas do Asclepius e as Definições Herméticas.

No entanto, haviam de ser os muçulmanos quem, tendo recolhido o legado do hermetismo (por via de escritos gregos, das respectivas versões siríacas, da tratadística astrológica sânscrita introduzida por Kanasa em Bagdá, no séc. VIII, e dos sabeus de Harrân), impulsionou a efetiva circulação da sua literatura no Ocidente.

O primeiro indício do conhecimento do Corpus Hermeticum aí, mais concretamente na Península Ibérica, remonta ao séc. X. A Tabula Smaragdina, supostamente descoberta no túmulo de Hermes, já então era, e pela primeira vez, usada como cólofon de um livro de alquimia, o Sirr Al-Jaliqa ou Kitāb al-‘Ilal, o qual fizera a sua aparição no Al-Andalus durante o califado do omíada Al-Hakam II († 976). Traduzida para latim pelo bispo hispânico Hugo de Santalla, seria difundida além Pirineus por Alberto Magno, ao incorporá-la no De Rebus Metalicis et Mineralibus.

As escolas de tradutores de Toledo e Sevilha terão tido um papel não negligenciável no processo em apreço. O denominado “Renascimento” do séc. XII andou de mão dada com o interesse pelo hermetismo. O Asclepius garantiu a continuidade da Tradição Hermética antes da descoberta do Corpus Hermeticum. Evidenciam-no autores como Teodorico de Chartres, Alberto Magno, Bernardo Silvestre, Alain de Lille, Vicente de Beauvais, Guilherme d’Auvergne, Tomás Bradwardine, Rogério Bacon, Bernardo de Treviso ou Hugo de São Victor. O mesmo se podendo afirmar da literatura dos ciclos arturiano e do Evangelho Eterno joaquimita.

Foi, sem embargo, vago e fragmentário o conhecimento acerca do Hermetismo na Europa, durante a Idade Média.

Alberto Magno conheceria o Asclepius (Liber XXIV philosophorum Asclepius – sobre a natureza de Deus), bem como alguns fragmentos de escritos herméticos, tal como haviam sido transmitidos por Lactâncio e Cirilo.

No De Voluptate (cap I), redigido em 1457, Marsílio Ficino (1433-1499) dá mostras de se encontrar familiarizado com Hermes Trismegisto, quando cita com admiração, porventura por influência de Lactâncio, o epílogo lírico do Asclepius latino.

Todavia, uma vez traduzido para latim (1463-1464) por Ficino e impresso sob o título de Mercurii Trismegisti Pimander, seu liber de Potestate et Sapientia Dei, no ano de 1471 (Treviso), o manuscrito grego do Corpus Hermeticum descoberto na Macedónia, cerca de 1460, por Leonardo de Pistóia e adquirido por Cosme de Médicis, tornarse-ia decisivo para o renovo do interesse pelo hermetismo e pelas doutrinas mágico-astrológicas correlatas, mesmo no seio da Igreja.

Assim se explica que, no ano 1488, Giovanni di Maestro Stephano haja gravado nas lajes da Catedral de Siena a efígie de Hermes Trismegisto, ladeado por Moisés e as Sibilas.

De resto, do advento do Renascimento até inícios do século XVIII, as correntes esotéricas ocidentais jamais se afirmaram como contracultura ou “contra tradição” face ao poder religioso instituído, integrando ainda a história geral do cristianismo e veiculando valores da cultura cristã. Só ulteriormente esta havia de ser adversada por filósofos e críticos cripto-católicos, responsáveis pela redução das correntes esotéricas modernas a heresias marginais, ou a superstições mais ou menos condenáveis.

É infundada a muito generalizada suposição de que a filosofia hermética não teve cultores em Portugal. De facto, nem a alegada ortodoxia dos nacionais nem a vigilância intensa desenvolvida pelo Santo Ofício, lograram impedi-la de medrar. De resto, se a matéria fosse pacífica nunca teria havido a necessidade de a invectivar, por vezes com uma veemência a denotar, invariavelmente, um ponderado conhecimento do tema suscitador da contradita.

Em Portugal o conhecimento dos Livros Herméticos revela-se nos quatrocentistas Ovídio da Velha, Zurara, Horologium Fidei de Frei André do Prado, Tratado da Virtuosa Benfeitoria (?) do Infante D. Pedro, bem como no Tratado de Confissom (Chaves, 1489), no qual é repetido o elogio do homem como ‘magnum miraculum’, como grande maravilha, retomando as palavras do exórdio da Oratio de Pico della Mirandola que, ambos, o religioso português autor do incunábulo e o humanista itálico, terão bebido numa fonte comum: o Asclepius.

Não colhe, por consequência a assunção de Pina Martins, segundo quem não se dispõe de “elementos para poder documentar a existência em Portugal de textos herméticos, anteriores à citação de Frei António de Beja […]”, em 1525.

Hermes Trismegisto no Convento de Cristo, em Tomar.

Frei Heitor Pinto cita o Trismegisto reiteradamente (cap. III a VI, XII e XIII) no seu Comentário a Daniel (2ª parte, Coimbra, 1572), bem como na Imagem da Vida Cristã (Diálogo dos verdadeiros e falsos bens, cap. 2), cuja dedicatória ao duque de Bragança (que constituíra “a sua Vila Viçosa em universal academia, e fazendo dela outra Atenas”) termina com a referência aos três ‘prisci theologi’ da genealogia neoplatónica ficiana, além de Hermes Trismegisto: Pitágoras, Orfeu e o divino Platão (I, p. XIII-XIV).

O mesmo acontece com Frei Sebastião Toscano na Oração fúnebre de Afonso de Albuquerque (Lisboa, 1566) e na Mistica Theologia (Lisboa, 1568) 20.

Durante toda a sua vida, Francisco de Holanda fará profissão de fé no neoplatonismo e na cultura hermética. Com efeito, Holanda funde a tradição do hermetismo filosófico (Hermes, Platão e Pseudo-Dionísio Areopagita) com os textos bíblicos, à maneira de Ficino, detectando-se nas suas Imagines numerosas analogias com os comentários do humanista itálico. Cita o Asclepius no Da Pintura Antiga (livro I, cap. XII: De alguns preceitos da Antiguidade – e primeiro: da Invenção), apresentando o artista como oficiante e mago, participando do divino e, sobretudo, dotado de dom divino. No Da Ciência do Desegno sustenta o carácter inato do génio do artista, sublinhando o papel paradigmático da Criação do Mundo relativamente à criação artística.

É-lhe, ainda, devida a, tanto quanto foi possível apurar, única iconografia portuguesa explícita disponível de Hermes Trismegisto. Ocorre no De AEtatibus Mundi Imagines, surgindo associada à cena da Deposição de Moisés no túmulo pelos Anjos. Observa-se num medalhão situado em baixo, à esquerda, ladeado por Cadmus e Baco e colocando um dedo sobre os lábios, tal qual o Hermes Mercúrio do emblema LXII das Symbolicarum quaestionum, de universo genere, quas serio ludebat, libri quinque (Bolonha, 1555) de Aquiles Bocchi (1488-1562), bolonhês, amigo dos emblematistas Pierio Valeriano e Lilio Gregorio Giraldi.

D. Francisco Manuel de Melo, por seu turno, citará Mercúrio Trismegisto a partir das leituras de Marsílio Ficino, na carta que remeteu ao Dr. Manuel Temudo da Fonseca, em 1650.

Astrologia

Tot: Exercem igualmente ação sobre nós, meu pai?

Hermes: Muito grande, meu filho. Se atuam sobre as coisas celestes, como deixariam de o fazer sobre nós?… Presta atenção a isto: como estamos sob as sete esferas, das quais eles possuem a direção, é compreensível que a sua energia se estenda até nós, seus filhos, que existimos por causa deles.

(Fragmento dos Livros de Hermes Trismegisto a seu filho Tot)

Constituem os corpos celestes a causa dos atos humanos?

Os neoplatónicos, herdeiros do pitagorismo, retiraram aos astros a sua qualidade de causa eficiente (poietikon) do destino que a astrologia exposta pelos estoicos lhes reconhecia. Plotino, retomando uma ideia de Philon, atribui-lhes tão-só o papel de signos (semeia, semantikon), motivo por que as almas são livres, não obedecendo a qualquer necessidade mecânica, mas somente a uma predestinação (heimarméné) que elas próprias por sua vontade criaram para si.

O programa dos deuses-planeta sentados em seus tronos, dos filhos dos planetas e dos mensários figurados pelas fainas agrícolas, tudo são formas de explicitar as hipóstases herméticas da astrologia:

1. astrologia genetlíaca (investiga o futuro de um indivíduo com base no horóscopo levantado a partir da hora do respectivo nascimento);

2. astrologia de eleição (determina o momento em que os astros ocupam a posição mais favorável para empreender um determinado acto – campanha militar, viagem, sangria, preparação de um talismã, etc.);

3. astrologia mundial, nas suas duas facetas: natural ou física (prognostica catástrofes naturais) e político-religiosa (vaticina o destino de instituições e povos), mediante dois sistemas, a saber:

a) dos horóscopos ânuos do momento do equinócio da primavera ou de grandes figuras políticas;

b) das conjunções planetárias (conjunções ou doriforias magnas), designadamente dos grandes cronocratores, Júpiter e Saturno, doutrina exposta por Kindi e Albumasar. Baseia-se na ideia do retorno cíclico dos astros a determinadas posições e, consequentemente, no regresso a uma sucessão de eventos idênticos a outros pretéritos, em suma a tese platónica do Grande Ano, perfilhada pelos neo-platónicos.

Platão, certamente inspirado no ensinamento pitagórico, recupera tal concepção no Timeu e na República, cabendo, por seu turno aos neoplatónicos, designadamente a Plotino (Eneada), mas também a Porfírio, Proclo, Simplício ou João Philipon, o desenvolvimento das doutrinas de Arquitas de Tarento.

Aristóteles relacionará a ideia geral do Grande Ano com o seu sistema racional na Física e Meteoros, referindo-se a um movimento que se reproduz periodicamente, idêntico a si mesmo, provocando o retorno do Céu ao mesmo estado e precisamente os mesmos efeitos na esfera sublunar. Terá, todavia, o cuidado de atenuar os efeitos das configurações planetárias, recusando seguir a Heraclito e Empédocles na sua crença em cíclicas destruições e renascimentos integrais do mundo.

Uma das grandes teses dos estoicos será a da periodicidade do universo ritmado pelo Grande Ano (Séneca, Da Natureza dos Deuses), com um abrasamento geral inaugurando cada grande Verão e um dilúvio cada grande Inverno (Séneca, Questões Naturais).

Varrão e Virgílio (Bucólicas) introduzirão o conceito em Roma de onde passará aos Padres da Igreja. Minúcio Félix, S. Clemente, Arnóbio e Orígenes (Contra Celso), entre outros, consideravam inspirada na Bíblia a hipótese do dilúvio e do abrasamento expostos pelos estoicos, declarando, apesar de tudo, a doutrina da estrita repetição incompatível com o livre arbítrio humano. Já Santo Agostinho condenará o Grande Ano, que faz do mundo um ser eterno e periódico, consagrando integralmente ao assunto o Livro V da Cidade de Deus.

Não sujeitos a semelhantes constrangimentos, autores muçulmanos recuperarão o tema, o qual deixarão exarado em obras muito difundidas durante a Idade Média. Merecem especial referência os De conjunctionibus planetarum (sobre o papel das conjunções Júpiter-Saturno) e De Revolutionibus Anno Mundi (trad. João de Sevilha, Veneza, 1493) de Messalah (séc. VIII), o De Temporum Mutationibus de Alkindi (séc. VIII-IX), os Introductorium in Astronomiam e De Magnis conjunctionibus Annorum Revolutionibus (Augsburg, 1489 e Veneza, 1515) de Albumasar (776-885).

Será, no entanto, o averroísmo latino, surgido cerca de 1230 com as traduções de Miguel Escoto dos comentários de Averróis (1126-1198) ao De Caelo e De Anima de Aristóteles, o responsável pelo pendor que há-de assumir entre eruditos como Sigério de Brabante (1235-c. 1284), Pedro d’Abano (1250-1316), Guido Bonato, Cecco d’Ascoli (1269-1327) ou Pedro d’Ailly (1350-1420), em cujas Concordantia se mostra persuadido da existência de um paralelismo, regulado pelas conjunções Júpiter-Saturno, entre os factos astronómicos e os históricos. Nicolau de Cusa far-se-á eco de idêntica postura acerca de tal conjunção e do movimento do Apogeu do Sol, partilhada por legião de outros como: Jerónimo Cardano (1501-1576), Guilherme Postel (1505-1581), Giordano Bruno (1548-1600), Giovanni António Magini de Bolonha (1555-1617), Robert Fludd (1574-1637), Pierre Turrel (1498-1547) – no seu O Período, ou o Fim do Mundo, contendo a disposição das coisas terrestres pela virtude e influência das coisas celestes (Lyon, 1591) -, Tycho-Brahe (1546-1601), Johannes Kepler (1571-1630), David Origano (Novae Motum, 1609), o seu contemporâneo Jean-Baptiste Morin de Villefranche (1583-1656), nomeadamente no Sobre as Constituições Universais do Céu, François Allaeus (1593-1687) no Fatum Universi (1654), William Lilly (1602-1681), astrólogo de Carlos I de Inglaterra e, definitivamente, o jesuíta Henry de Boullainvillier (1658-1722), derradeiro grande expositor da astrologia mundial e celebrado autor de uma História do Movimento do Apogeu do Sol.

Portugal não permaneceu imune, porquanto as supra aludidas doutrinas tiveram aqui curso, ora expendidas na Universidade de Lisboa por Tomás Escoto, ora alimentando uma notável obra de apologética do século XV, cujo autor manifesta havê-las conhecido por intermédio do livro intitulado Ovídio da Velha, vulgarizado no Ocidente por Ricardo de Fornival:

“[…] Bem sabedes que um grande poeta mui [en]genhoso e mui subtil entre os outros poetas foi o que houve nome Ovídio Naso e foi gentio. E este fez muitos livros entre os quais antes da sua morte compôs um livro que chamam Ovídio da Velha e este livro foi achado em no seu moimento com os seus ossos em uma causela de marfim. Em o qual livro entre as outras coisas ele diz em esta guisa que se segue. A planeta que chamam júpiter que é uma das sete planetas há propriedade e condição de significar fé e religião. E as outras seis planetas quando júpiter se conjunta com cada uma delas então se levanta uma lei assim que como são seis planetas afora júpiter assim convém que sejam seis espécies de fé e de crenças desvairadas. E destas seis disse ele já são quatro até este tempo presente. Ca em uma conjunção em que o planeta saturno se ajuntou com júpiter levantouse e fé dos judeus. E porque saturno é um tal planeta que é mais grave que todos outros planetas e ele não se ajunta a nenhum dos outros planetas e todalas outras planetas se ajuntam a ele porém em na conjunção que júpiter fez com saturno se levantou a fé dos judeus que é tal que não confessa nemhuma das outras fés e pero todas se inclinam a ela. Outrossim quando o dito planeta júpiter que significa fé e religião como dito hei se ajunta com outro que chamam marte então se levantou a fé dos caldeus que eram pagãos que adoravam o fogo porque este planeta marte há significança de fogo. E quando se ajuntou o dito planeta júpiter ao planeta do sol então se levantou a fé dos do Egipto que adoram a cavalaria do céu que são os planetas e os sinais e as outras estrelas porque o sol é príncipe de todas elas.

E quando se o dito planeta júpiter se ajuntou com outro planeta que chamam vénus então se levantou a nossa fé disse ele que é a dos indús em na qual pode o homem fazer toda coisa de que houver talante. E por que nós vemos disse o Ovídio que estas quatro leis já passaram presumimos que as outras duas são ainda por vir das quais a derradeira delas entendemos por conjunturas que há-de ser a lei da lua quando a planeta júpiter se ajuntar com a planeta que é a lua. E tal lei como esta da lua entendemos que deve ser derradeira porque o círc[ul]o da lua é o mais baixo de todos círc[ul]os do céu. E porque o movimento da lua faz curso em no mundo porém a lei dela significa que todas as outras leis hão-de ser tiradas por ela. E esta fé da lua será suja e feia porque em na fim dos dias um rei ou algum poderoso enduzirá e estabelecerá a esta lei por força e sem color de razão. O qual rei querendo para si tomar honra como de deus matará e apremará todos aqueles que lhe contradisserem em tal guisa que nunca foi antes tanta matança em tanto tempo por tão torpe razão, mas este rei pouco poderá durar porque a lua cuja é a sua lei muito a miúde muda sua figura e seus movimentos e sua luz. E bem assim esta lei que será da lua toste será tirada.

Ante[s d]a lei da lua disse o poeta Ovídio será a lei do planeta mercúrio quando o planeta júpiter que significa fé e religião fazer ajuntamento e conjunção com a planeta mercúrio que está ante[s d]a lua. E porque o planeta mercúrio há muitos revoluimentos por muitas maneiras e muitos tornamentos porém aquela lei será cara de creer sobre todas as leis e haverá muitas gravezas e muito peso e muito trabalho e ensinará muitas coisas contrárias à natureza que tão solamente serão recebidas por fé. E porém muitas dúvidas se levantaram em muitos sobre ela e muitas questões que serão caras de soltar. Mais porque o planeta mercúrio significa escritura e conto e toda lei deve ser estabelecida por escritura e por conto. Outrossim a dita lei principalmente prometerá coisas maravilhosas não desta vida presente mais prometerá maravilhosos proveitos da vida perdurável. E porém esta lei será defendida subtilmente por tantas provas e argumentos que farão fé e certidão das coisas duvidosas em guisa que sempre estará em firme fortaleza até que a tolha a lei da lua de que antes falámos que será a derradeira que tolherá todas as outras leis ou se a não tolher de todo ao menos suspendê-la por tempo e embargá-la porque aquele rei mau sobredito será tirado e quedará a sua má lei ou será então acabamento de todas as coisas ou todos os homens escolherão e tomarão uma lei das outras e porventura tomarão a mais provada e melhor. Ca porque comunalmente todos foram enganados porém todos comunalmente virão para se arrependerem e tornarem-se do mau caminho então falarão juntamente sobre todas as leis sobreditas. E porventura então verão que aquela lei que adora o fogo que foi a primeira e aquela que adora a cavalaria do céu não devem ser tomadas nem cridas porque nem uma criatura não é digna de ser adorada. Outrossim porque a lei dos judeus como quer que ensina que adorem um criador deus pero não promete que porém mereça o homem nem uma coisa perdurável mais promete aquelas coisas que são desta presente vida. Outrossim a lei dos gentios promete a deixa haver as deleitações corporais. E a lei dos judeus promete terra em que haverá rios de mel e de leite. Mais a lei do mercúrio disse o dito poeta parece mais digna que as outras porque prometera os bens da vida perdurável à qual não poderá nenhum vir senão por fé e por religião que são significadas por júpiter que significa os proveitos da vida perdurável. E o bem aventurado é aquele que pudesse saber as coisas daquela lei que há-de vir para conhecer qual [a] maneira de viver devia de ter mais pertencente para merecer os prazeres da vida perdurável porque segundo os astrólogos a fortuna da vida perdurável é dada em sorte ao planeta júpiter.

Diz mais o dito poeta Ovídio que uma grande conjunção de júpiter foi feita em no tempo bemaventurado do imperador César Augusto passados vinte e quatro anos do começo do seu reinado a qual conjunção significou que depois do sexto ano devia nascer um profeta de uma virgem sem juntamento de varão da qual coisa é figura e demonstrança um sinal do céu que a nome virgem em no qual signal a força do planeta mercúrio é acrescentada mais que em outro sinal. E a compleição da dita lei que há-de vir é concordante com aquele profeta porque não há sinal em no céu em que o mercúrio se assenhore tanto como em no sinal da virgem. Ca em no sinal de virgem é aquela casa de mercúrio e a sua exaltação e a sua triplicidade por todo o sinal. E ali é o seu termo em nos primeiros sete graus do sinal de virgem. E assim há havido a figura e demonstrança do sobredito profeta como quer que seja escuramente. E entre as imagens dos sinais do céu que escreveram os indianos e os sabedores dos caldeus e de babilónia é escritura uma virgem com cabelos longos virgem limpa e de grande coração e de grande formosura e de muita honestidade e tem os dedos das mãos dependurados e as suas vestiduras velhas e sé em uma seda estrada e cria um moço e uma gente chama àquele moço Jesus. Estas coisas diz o dito poeta que as escreveu aquele primeiro profeta Noé. E estas coisas ensinou o seu primeiro filho que houve nome Sem. […]”.

Não menos significativos foram os contributos da inventiva hebraica. Salienta-se desta o Rabi toledano Yehuda Al-Harizi (sec. XII), autor do Tahkemoni, onde é possível ler: E devido a que uma parte da tribo de Judá encontrou refúgio em Espanha, como dizem as escrituras […] e a que o território de Sefarad se coloca no centro do Céu, com toda a exatidão e precisão, sob o meridiano reto, enquanto que os filhos de Babilónia se encontram no meridiano de Oriente: por esta razão se propagaram as ciências nestes dois extremos, segundo as suas variedades […] e nestes dois lugares alcançou o mundo sua glória e sua grandeza […]. Mas igualmente da tradição islâmica.

Num manuscrito aljamiado da Biblioteca Nacional de Paris (n. 774), o profeta Maomé assegura que a Espanha muçulmana está geograficamente situada debaixo do ‘Alyaña’ ou Paraíso, o que corresponde a dizer que é uma Nova Jerusalém ou Nova ‘Ka’aba’.

Aos meios joaquimitas nacionais, poderá ser, todavia, assacada a responsabilidade pela pertinaz voga de tão peculiar cosmologia, a qual alimentará almanaques e prognósticos, verdadeira literatura de vulgarização da astrologia mundial e compelirá Frei António de Beja a compor o seu Contra o Juízo dos Astrólogos (1523), correspondendo a solicitação da Rainha D. Leonor, para desfeitear os profetas do dilúvio anunciado para 4 ou 5 de Fevereiro de 1524, em consequência de uma conjunção no signo de Peixes.

Em pleno século XVII, achamos no trinitário Sebastião de Paiva, no padre António Vieira e no astrólogo António Pais Ferraz exímios expositores do tema.

O jesuíta abordou-o em diferentes ocasiões. Serve de exemplo a Palavra do Pregador Defendida:

“E se alguém com razão perguntar de que princípios se pode inferir politicamente, que este império universal, e último se haja de levantar nos últimos fins, ou raias do Ocidente ? Respondo, que da experiência havida pelas histórias, que são aquele espelho inculcado por Salomão, em que olhando para o passado, se antevêem os futuros. E posto que estes dependem dos decretos divinos; pelos efeitos que os olhos vêem dos mesmos decretos, não só conhece o discurso humano quais eles fossem, mas interfere quase com certeza, quais hajam de ser. Assim o notou em outro lugar o mesmo Lípsio, advertindo (e pedindo se considere) que o poder e o domínio do mundo sempre veio caminhando ou descendo do oriente para o ocidente: Nescio quo Providentiae decreto res, et vigor ab oriente (considera, si voles), ad occasum eunt. O primeiro império do mundo, que foi o dos Assírios, e dominou toda a Ásia, também foi o mais oriental. Dali passou aos Persas mais ocidentais que os Assírios: dali aos Gregos mais ocidentais que os Persas: dali aos Romanos mais ocidentais que os Gregos: e como já tem passado pelos Romanos, e vai levando seu curso para o ocidente, havendo de ser, como é de fé, o último império, aonde pode ir parar, senão na gente mais ocidental de todas ? Mas porque o mesmo autor desta advertência confessa ignorar a razão dela, e a da Providência Divina em um tal decreto, Nescio quo Providentiae decreto, não será temeridade, nem consideração supérflua dizer eu a razão que se me oferece: e é, que Deus, enquanto governador do mundo, se conforma consigo mesmo enquanto Criador dele. A sabedoria com que Deus governa o universo, é a mesma com que o criou. Que muito logo, que no modo do governo e da criação se pareça a mesma sabedoria e o mesmo Deus consigo? Deus criou o mundo em sete dias, e vemos que no governo do mesmo mundo, nas idades, nas vidas, nas doenças, nos dias críticos, e nos anos climatéricos, observa sempre os períodos do mesmo septeno. Pois assim como Deus no governo da natureza observa a proporção dos tempos, assim é de crer, que no governo dos impérios observe a proporção dos movimentos. O Sol, os céus, as estrelas, os mares, todos se movem perpetuamente do oriente para o ocidente: e porque a roda que os ignorantes chamam da Fortuna, é própria e verdadeiramente a da Providência Divina, correndo sempre os movimentos naturais do Universo desde o oriente ao ocaso, pede a proporção e harmonia do mesmo Universo, que também corram do oriente para o ocaso os movimentos políticos. Assim que não é totalmente violenta a força que muda e desfaz os impérios antigos, e cria e levanta os novos; mas nessa mesma violência ou força tem muito de natural, pois segue os movimentos e peso de toda a natureza. No oriente nasceu o primeiro império; no ocidente há-de parar o último. O que eu logo pudera confirmar a Portugal com um famoso texto da Escritura; mas porque faço conta de acabar com ele, basta que fique aqui citado. E certamente que não haverá juízo político alheio de paixão, que medindo geometricamente o mundo, e suas partes na suposição, em que imos, de que Deus haja se levantar nele império universal, não reconheça neste cabo ou rosto do ocidente assim lavado do Oceano, o sítio mais proporcionado e capaz que o supremo Arquitecto tenha destinado para a fábrica de tão alto edifício. Como o sangue nos corpos viventes e sensitivos é o humor e instrumento principal, sem o qual se não puderam sustentar nem viver; assim neste vastíssimo corpo do universo, em que a terra, e os penhascos são de carne e os ossos; o mar, os portos, e os rios são o sangue e as veias por onde nas mais remotas distâncias se pode unir o coração com os membros, e por meio dele lhes comunicar a vida, e reparar as forças, com aquela distribuição igual e contínua, sem a qual se não pode conservar e muito menos ser um. As naus grandes e poderosas são as pontes do Oceano: as embarcações menores as dos rios caudalosos e navegáveis: com estas se unem as províncias, com aquelas o mundo se não divide em partes, e até as mesmas ilhas se fazem continente. E que outro lugar há no universo tão acomodado a receber ele como de uma só fonte todos estes benefícios vitais mais breve e facilmente que Portugal: situado quase na boca do Mediterrâneo, não longe das gargantas do Báltico, e para o Atlântico, e o Etiópico, para o Eritreu, e o Índico mais vizinho ? Ali se desagua o Tejo, esperando entre dous promontórios, como com os braços abertos, não os tributos de que o suave jugo daquele império libertará todas as gentes, mas a voluntária obediência de todas que ali se conhecerão juntas, até as da terra hoje incógnita, que então perderá a injúria deste nome. Lava o celebradíssimo Tejo, ou doura com as suas correntes as ribeiras, e faz espelho aos montes e torres de Lisboa aquela antiquíssima cidade, que na prerrogativa dos anos excede a todas as que os contam por séculos. Em seu nascimento foi fundada por Elisa, filho de Javã, e irmão de Tubal, ambos netos de Noé, donde começou a ser conhecida pelo nome de Elísia; e depois tão amplificada por Ulisses, que não duvidou a grega ambição de lhe dar, como obra própria, o nome de Ulissipo. Tanto pelo fundador, como pelo amplificador lhe compete a Lisboa a procedência de todas as metrópoles dos impérios do Mundo; porque enquanto Elísia é duzentos e vinte e dous anos mais antiga que Nínive cabeça do primeiro império, que foi o dos Assírios; e enquanto Ulissipo quatrocentos e vinte e cinco anos mais antiga que Roma, cabeça também do último, enquanto o dominaram os Romanos. Ambas caminhando ao ocidente trouxeram das ruínas de Tróia as pedras fundamentais de sua grandeza […]”.

Porém, até perante o Tribunal do Santo Ofício Vieira abordaria o assunto, conforme a Defesa, que expressamente compôs na circunstância, patenteia. Numa outra obra que, infelizmente, não chegou a redigir, o Livro VI da História do Futuro, o qual deveria tratar da “Terra em que se há-de fundar o dito Império enquanto temporal e qual há-de ser a cabeça dele”, previa a abordagem de três questões que, decerto, aclarariam imenso as anteriormente citadas: 1. Se o Império deveria ser na Europa ou em em qualquer dos outros continentes, concluindo-se que seria na Europa; 2. Qual a província da Europa em que tal Império teria lugar de nascimento e aceita-se como solução que em Espanha; 3. Em que Reino de Espanha será fundado o mesmo Império, diz-se a capital de Portugal.

Ecos das referidas proposições são rastreáveis em inúmeros outros autores. Em regra são alusões veladas por um código conceptual em que se encontram implicados conceitos senão do conhecimento geral, pelo menos muito divulgados.

Não se encontram ainda seguramente averiguadas as crenças astrais da antiguidade hispânica. Diversas concitaram o anátema de sucessivos Concílios, não sendo dispiciendas as expostas pelos priscilianistas, nem mero exercício de retórica o cânone 72 de S. Martinho de Dume: “Não seja lícito a cristãos conservar práticas do gentilismo e regular-se ou governar-se pelos elementos ou pelo curso da Lua ou estrelas, ou fútil significação dos signos nas horas domésticas”.

23 Canones Apostolorum et Consiliorum Saeculorum IV, V, VI, VII cum praefatione, Berolini, 1839. Paulo Osório, no seu Commonitorum, apontava a astrologia como um dos erros praticados pelos priscilianistas, razão por que fora combatido pelo concílio de Braga, de 561: “Se alguém acreditar que as almas, os corpos dos homens estão subordinadas à fatalidade das estrelas, como disseram os pagãos e risciliano, seja anátema”

No final da Idade Média a astrologia grangeara uma aceitação quase generalizada, sendo legião os seus adeptos. Reis, príncipes, e áulicos mantinham astrólogos nas suas cortes, eles próprios aderindo frequentemente à arte.

Portugal não foi exceção. A dinastia de Avis e o seu círculo áulico foram muito permeáveis à astrologia, porquanto se Dom João I, os Infantes Dom Pedro e Dom Henrique, Dom Manuel I lhe eram muito afeiçoados, a Afonso V se atribui um tratado, hoje perdido, sobre a Constelação do Cão Maior, alegadamente regente da nação lusíada por intermédio da estrela Sirius.

As Ordenações do Reino (título III, livro 5), que prescreviam penalidades contra aqueles que se dedicassem a adivinhar futuros, ressalvavam delas os astrólogos: “Porém isto não haverá lugar nas pessoas que, vendo primeiro as nascenças das pessoas, disserem alguma coisa segundo seu juízo e regra da dita Ciência”.

Francisco de Holanda colocaria a astrologia entre as ciências que convêm ao pintor no Da Pintura Antiga.

Por outro lado, as sucessivas edições do Repertório dos Tempos e do Tesouro de Prudentes, bem como o sem número (manuscrito ou impresso) de efemérides, tábuas, prognósticos, lunários, almanaques, sarrabais, juízos sobre eclipses e tratados acerca de cometas, ou até o Memorial de Pedro Roiz Soares, constituem um acervo não negligenciável para aquilatar da extraordinária receptividade de tal, nas palavras de Pedro Nunes, “crendice vã […], que emite juízos sobre a vida e a fortuna […]”.

Os comentários negativos e as censuras podem, do mesmo modo, constituir um valioso auxiliar nessa tarefa. A 9ª Regra do Índice Expurgatório de 1564 é disso o atestado: “E os bispos tenham muita conta que ninguém tenha, nem leia livro ou catálogo ou tratado de astrologia judiciária que tratem do que está por vir e do que há-de acontecer, ou de casos de fortuna ou de todas as obras que dependem da vontade dos homens, ou que afirmam com certeza alguma destas coisas. Poder-se-ão permitir juízos e especulações naturais que para base da navegação ou da agricultura ou da medicina estão escritas”.

Estêvão da Guarda, em duas cantigas de escárnio, e Álvaro Pais, no Colírio da Fé contra as Heresias, denunciaria entre nós os primeiros sintomas desta reação a determinados aspectos da prática astrológica, que a teologia desde São Basílio e Santo Agostinho vinha reprovando, quando, a propósito do averroísmo que o seu contemporâneo Tomás Escoto ensinava na Universidade de Lisboa, escreve: “Outro erro sustenta como dizem os maus astrólogos e também chamados falsos profetas, que as coisas surgem e sucedem necessariamente neste mundo pelas constelações”.

No Leal Conselheiro, D. Duarte, cuja biblioteca possuía obras de astrologia, alinharia com a ortodoxia: “por que principalmente fica tudo em poder de nosso livre alvedrio, não nos constrangendo à predestinação nem por ciência de Nosso Senhor Deus”. Aliás, correspondia tal assunção à exposta pelo canonista da corte, Diogo Afonso Mangancha, o qual, numa carta divulgada por Moreira de Sá, concedera que “não têm pecado” os julgamentos astrológicos sobre coisas naturais, designadamente chuvas, secas, saúde e enfermidades, incorrendo, porém, em grave ilícito quem ousasse emitir juízos sobre as obras dos homens, dotados de livre arbítrio e, por conseguinte, não sujeitos a qualquer determinismo.

As reservas da Igreja dirigiam-se, conforme os ditames do Breve Coeli et Terrae de Sixto V (5 Janeiro 1586) e da Constituição de Urbano VIII, contra a astrologia judiciária, que se aplicava à adivinhação de futuros contingentes, mas igualmente visavam alguns exageros da astrologia mundial, como aqueles de que Frei António de Beja se faz eco no Contra o Juízo dos Astrólogos (Lisboa, 1523), em grande parte inspirado nas Disputationes adversus astrologiam (1496) de Pico della Mirandola.

No mesmo sentido vão as críticas de Gil Vicente na Carta a D. João III sobre o tremor de terra ocorrido a 26 de Janeiro de 1531:

“Se dizem que por estrolomia, que é ciência o sabem, não digo eu os de agora que a não sabem soletrar, mas é em si tão profundíssima que nem os de Grécia, nem Moisés, nem João de Monterégio alcançaram da verdadeira judicatura peso de um oução. E se dizem que por mágica, esta carece de toda a realidade e toda a substância sua consiste em aparências de coisas presentes e do porvir não sabe nenhuma coisa […]”.

Idêntica intenção exprimira já nas seguintes obras:

Pela boca do clérigo nigromante, na Exortação da Guerra (1513):

“E venho mui copioso / mágico e nigromante, / feiticeiro mui galante, / astrólogo bem avondoso: / tantas artes diabris / saber quis, / que o mais forte diabo / darei preso pelo rabo / ao Infante Dom Luís”.

No diagnóstico do físico Torres, no Auto dos Físicos (1524), contra certa medicina que fazia depender os tratamentos da conjunção favorável ou desfavorável dos planetas:

“[…] E também deste ajuntamento / dos planetas desta era… / não sei… não sei… mas por mera / estrolomia… não sei, eu sento… / não sei que é, nem que era; / mas há-de saber quem cura / os passos que dá uma estrela / e há-de sangrar por ela, / e há-de saber julgar / as águas n’uma panela […]”.

Ou na fala inicial de Mercúrio, no Auto da Feira (1527):

“[…] e porque a estronomia / anda agora mui maneira, / mal sabida e lisongeira, / eu à honra deste dia / vos direi a verdadeira. / Muitos presumem saber / as operações dos céus, /e que morte hão-de morrer, / e o que há-de acontecer / aos anjos e a Deus, / e ao mundo e ao diabo. / E que o sabem têm por fé; / e eles todos em cabo / terão um cão pelo rabo, / e não sabem cujo é. / E cada um sabe o que monta / nas estrelas que olhou, / e ao moço que mandou, / não lhe sabe tomar conta / de um vintém que lhe entregou. / Porém querovos pregar, / sem mentiras nem cautelas, / o que por curso de estrelas / se poderá adivinhar, / pois no céu nasci com elas […]”.

Por sua vez, Álvaro Gomes, aderindo à doutrina de Tomás de Aquino de acordo com a qual os astros influem mas não determinam, escrevia no seu Tratado da Perfeição da Alma (1550), contestando Alexandre de Afrodísio:

“[…] que os corpos celestes com seu movimento, com o seu lume e influência, imprimiam nas coisas criadas, cá [em] baixo, suas virtudes, não actualmente como em eles está, mas um poder ou disposição mui propínqua para a ter”

Com a Contra-Reforma, e não obstante os interditos (na origem de amputações impostas a almanaques e repertórios e relativas a prognósticos sobre guerras, morte de monarcas, destruições, sedições, etc.), tanto a astrologia judiciária quanto a mundial continuaram a ser praticadas, contando-se entre os seus mais fervorosos adeptos o príncipe Dom Teodósio, bem assim como muitos religiosos. Estes chegavam, por vezes, como aconteceu com os oratorianos de Lisboa no ano de 1769, a competir com leigos pelo privilégio de imprimir obras sobre a matéria.

O ensino da disciplina fora institucionalizado, em 1513, com a criação da cadeira de Astrologia nos curricula da Universidade de Lisboa, onde leccionaram Mestres Filipe e Tomás de Torres, este professor do futuro D. João III a quem ensinou os rudimentos da arte, conforme o cronista Francisco de Andrade, e estrologo nomeado por carta régia (24 de Março de 1524) para integrar (com Simão Fernandes e Francisco de Melo) a Junta de cosmógrafosmatemáticos incumbidos de analisar a questão da posse das Molucas.

Os jesuítas ensinavam astrologia no Colégio de Santo Antão, cujo corpo docente produziu algumas obras de mérito que chegariam a correr impressas, caso do Planetário Lusitano do padre Eusébio da Veiga, as primeiras Efemérides regulares e metódicas editadas em Portugal.

Um trinitário, Frei António Teixeira, foi autor de outra notável obra, intitulada Epitome das Notícias Astrológicas necessárias para a Medicina (Lisboa, 1670), na qual assegurava a total ineficácia da medicina sem a astrologia, tese clássica (bastará recordar a frequência da coexistência das profissões de médico e astrólogo), igualmente perfilhada por António Xavier de Paula, no Tratado da Influência da Lua nas Febres (Lisboa, 1790).

Merecem ainda menção a Chronographia o Repertorio de los Tiempos de Valentim Fernandes, de Jerónimo de Chaves e de André de Avelar, O Non Plus Ultra do Lunario de Jerónimo Cortez, e o Teatro universal de novidades […] tiradas dos movimentos dos astros do globo esférico pela altura do pólo de ambas as Lisboas (Lisboa, 1736) de Carlos de Vico, cuja dedicatória “às senhoras desta corte” deixa adivinhar o importante papel da mulher na difusão do ideário astrológico, nomeadamente da sua vertente horoscópica.

Na atualidade, a par da curiosidade pela obra astrológica de Fernando Pessoa e de amigos seus, como Augusto Ferreira Gomes e Raúl Leal, assiste-se a uma promissora recuperação do interesse pela faceta tradicional desta disciplina hermética.

Astrologia

Carlos de Vico, Dom

Presbítero do hábito de S. Pedro, professor de divinas e humanas letras ou pseudónimo? Seja como for, sob este nome publicou-se: Theatro universal de novidades, em que se tratam conselhos d’estado publicos e privados, congressos geraes e particulares, etc., tirados dos movimentos dos astros do globo espherico pela altura do polo de ambas Lisboas, Lisboa, Pedro Caresbeeck, 1736 [dedicado às senhoras “desta corte”]; Theatro universal de novidades, em o qual se expressa huma nova pragmatica declarando os estylos Impyrio, Methodico, e Dogmatico: prognostico para todos os Principes Eyropeos, anno bisexto de 1740 (Lisboa, Oficina de J. A. N. D. B. F. G., 1739 [BPNM: 2-25-8-23 (7º)]).

Repertorio dos Tempos

*Chronographia ou Repertorio dos tempos, Lisboa, Manuel de Lira (?), 1594 [BPNM: 2-40-2-27; BA: 50-X-5; BN: Res 4297 P; Res 6344 P; F 6934] e 1602 [BN: Res 2641 P; BPNM: 2-40-2-28 (reproduz servilmente o Reportório dos tempos de Jerónimo de Chaves)]

Cortez, Jerónimo

Astrólogo valenciano, autor de obras traduzidas para português e inúmeras vezes reimpressas, até à atualidade.

*Libro de Physionomia y varios secretos de Natureza, Madrid, 1589; Alcalá, 1607; trad. port. (António da Silva Brito): Fysiognomia e varios Segredos da Naturesa, Lisboa, 1699; Coimbra, José António da Silva, 1706 [BN: R 6988 P]; 1728; Coimbra, 1730; Lisboa, 1753 [BPNM: 2-40-1-6]; 1757; 1764 [BPNM: 2-40-1-5], 1765; 1768; 1779; 1786, 1790; 1791; 1792 [BN: SA 28498 P]; 1805; 1820; 1831 [BPNM: 2-44-1-2]; 1844; 1850, etc. Em comparação com obras similares, este tratado impresso com aprovação eclesiástica, oferece ao leitor um campo de observação assás restrito e teoricamente inócuo, porquanto se limita a apontar as particularidades morais e mentais que, de modo geral, correspondem às diversas características físicas. Propõe ainda um tratado sobre as manchas das unhas e seu significado; a Instrução e Regimento dos revedores que hão-de visitar as livrarias (24.1.1606) inclui esta obra entre aquelas a apreender.

*O non plus ultra do Lunario e Prognostico perpetuo, geral e particular para todos os reinos e provincias, Lisboa, 1703 (trad. port. de António da Silva Brito); Lisboa, Filipe de Sousa Vilela, 1726 [BN: SA 12349 P; P 5978 P]; Coimbra, José Antunes da Silva, 1730 [BN: SA 3096 P]; Lisboa, Domingos Gonçalves, 1757 [BN: SA 38174 P]; Lisboa, 1758; Porto, 1764 [BN: SA 3097 P; BPNM: 2-40-1-5]; Lisboa, Francisco Borges de Sousa, 1768 (ed. emendada, “conforme o Expurgatório da Santa Inquisição”); 1783; Lisboa, 1805; Lisboa, 1820; Lisboa, José Baptista Morando, 1822; Lisboa, 1850; Lisboa, José Baptista Morando, 1861 [BN: SA 38105 P]; 1877; Lisboa, Matias José Marques da Silva, 1858; Lisboa, Viuva Bertrand e Filhos, 1866 [BN: SA 10608 P]; Lisboa, Parceria Antonio Maria Pereira, 1905, 1921 [BN: AS 18792 P; AS 21060 P]; 1927 e 1955 [BN: P 5978 P]; Lisboa, Vega, 1978 [facsimilada: BN: P 8011 P]; Porto, Lello e Irmão, 1910 [BN: SA 31479 P]; 1928 e 1980 [BN: AS 34514 P]. Inclui cap. sobre ilusionismo que será reproduzido em ed. posteriores; a Instrução e Regimento dos revedores que hão-de visitar as livrarias (24.1.1606) inclui esta obra entre aquelas a apreender (*Frei Manuel Cabral); Segredos da Natureza, Lisboa, 1831 [BN: SA 2101 P]; a Instrução e Regimento dos revedores que hão-de visitar as livrarias (24.1.1606) inclui esta obra entre aquelas a apreender; Arte de cada pessoa conhecer a sua sina ou prognostico geral sobre os signos, seus efeitos e qualidades, Lisboa, 1863 [BN: SA 1602 P].

Eschuid, Johannes

Também denominado Joan Estádio, i. e., John Eastwood, professor no Mexton College (Oxford). Autor de Summae Astrologiae Judicialis de accidentibus Mundi quae anglicana vulgo nuncupator (Veneza, 7 de Julho de 1489 [BN: Inc. 784; BPNM: 2-51-13-2, aliás, cofre 11]), obra constante do Index de 1581. Citado no cod. 2261 da BN.

Estancel, Padre Valentim (1621-1705) S. J.

Natural da Boémia, chegou a Portugal entre 1656 e 1657. No prefácio do seu Orbe Afonsino ou Horoscopio Universal (Évora, 1658), confessaria a pressa que tinha em partir para a China. Não tendo seguido viagem, manteve o seu magistério em Évora, tornando-se professor da Aula da Esfera, no Colégio de Santo Antão (Lisboa), cerca de 1660. Ocupou essa cátedra até 1663, ano em que rumaria a S. Salvador (Brasil), onde havia de falecer, em 1715, com idade avançada. As suas observações astronómicas (dos cometas aparecidos em 1664 e 1665, na Baía de Todos os Santos, e do planeta Mercúrio) foram citadas por Newton nos Principia. O Padre Estancel publicara várias obras, antes da sua chegada a Portugal (Cursus philosophicus, Praga; Diopuica geodesica, Praga, 1653; etc.), onde havia de produzir extensa bibliografia.

*Orbe Affonsino ou Horoscopio Universal, Évora, Impressão da Universidade, 1658 [BPNM: 2-40-1-9]

Obra dedicada a Afonso VI, na qual expõe a descrição de um relógio universal, que Luís Serrão Pimentel criticaria: “o livrinho do Orbe Afonsino não é grande coisa, sobre ser um Relógio que traz o padre Mário Betino nos Apiários que o autor tomou e quiz vender por seu; e sobre isto propondo-o como muitos erros crassos, dos quais emendou alguns por advertência minha […]” (cf. Sousa Viterbo, Dicionário de Arquitectos, Engenheiros, Construtores Portugueses, v. 3, p. 403)]; o poeta satírico Gregório de Matos, alcunhado o Boca do Inferno, ridiculariza o jesuíta no soneto A El Rey D. Pedro II com um astrolábio de tomar o Sol, que mandou o Padre Valentim Stancel dedicado ao renascido monarca: “Este, Senhor, que fiz leve instrumento / Para pesar o Sol a qualquer hora, / Dedico a aquele Sol, a cuja aurora / Já destinam dois mundos rendimento. / Desta minha humildade, e desalento, / Que a sua quarta esfera não ignora, / subindo a oitavo céu, pretende agora / A estrela achar no vosso firmamento. / Eu, que outro Sol no seu zénite pondero / Aos do nascido Soberanos Raios, / Pesando-me eu a mim me desespero. / Mas vós, Águia Real, esses ensaios / Entre os vossos levai, pois considero, / Que nunca em tanta sombra houve desmaios”.

Gaurico, Luca (1476-1558)

Astrólogo itálico, professor de matemática em Ferrara. Predisse a eleição de Alexandre Farnese como Paulo III, razão por que este lhe conferiu a dignidade de bispo.

*Omar, de nativitatis et interrogationibus, s. l., s. d. [1524] [BPNM: 2-40-222 (sem rosto)]

*Praedictiones super omnibus futuris luminarium deliquiis, in sinitore Venetiano. Anno humani verbi M.D.XXXIII. examinatae. Figurae coelestes Venetiarum, Bononiae, et Florentiae, Paraphrases, et annotationes in Claudii Ptolomaei Libro II. Apotelesmatum super luminum eclypsibus (Roma, 1539) [BPNM: BibVolante 2-40-4-23].

Jerónimo de Chaves

Astrólogo e cosmógrafo espanhol, de nomeada, no seu tempo. Autor de Chronographia o reportorio de los tiempos, el mas copioso y preciso que hasta ahora ha salido a luz (Sevilha, 1548; idem, 1572; Lisboa, António Ribeiro, 1576 [BPNM: 2-40-2-26]; Sevilha, Fernando Diaz, 1580 [BPNM: 263-5-5; BN: Res 309 V]). Foi traduzido por André do Avelar com o título de Reportorio dos Tempos (Coimbra, 1582; Lisboa, 1585; 1588; etc.).

Lopez de Cañeta, Christoval

*Compendio de notables vaticinios que famosos Autores Mathematicos de Europa han hecho contra el Imperio, y Casa Ottomana, in Compendio de los Prognosticos […], [BPNM : 2-60-6-25]

Marcgravius, Georgius (1610-1644)

Autor do Tractatus Topographicus e Meteorologicus Brasiliae, cum Eclipsi Solari; quibus additi sunt Illius et Aliorum Commentarii de Brasiliensium e Chilensium Indole e Lingua (Amesterdão, Luís e Daniel Elzevirios, 1658 [BPNM: 1-20-12-7]).

Nabob, Valentim

Matemático e e astrónomo, professor na Universidade de Colónia. Autor de Enarratio Elementorum Astrologiae (Colónia, 1560 [BPNM: 2-40-2-12]).

Pietro Apiano

Forma latinizada do nome de Peter Bienewitz (1495-1552). Autor de: Cosmographius liber (Antuérpia, 1533 [BPNM: 2-52-5-21 (Reservado); inclui o Libellus de principiis Astrologiae et Cosmographiae; Inscriptiones Sacrosanctae vetustatis, Ingolstadt, 1534 [BN: HG 5998 V; Res 1702 A]); Introductio Geographica, Ingolstadt, 1533 [BGUC: R-60-331]; Instrumentum Primi Mobilis, Nuremberga, 1534 [BN: Res 2137 A].

Ptolomeus, Claudius (90 ou 100 d. C. – 170 d. C.)

Astrónomo, astrólogo, geógrafo e matemático grego, natural de Pelusa. No sistema de Ptolomeu a Terra é esférica e ocupa o centro do Universo: os planetas, entre os quais se conta o Sol, giram em torno dela. Mas, para explicar os fenómenos que, entretanto, iam sendo observados, o sistema tornara-se por tal forma complexo que, em meados do séc. XVI, se procura simplificá-lo, evocando, para isso, antigas e desprezadas doutrinas pitagóricas. A hipótese dos planetas, que pressupõe um conhecimento dos conceitos e métodos empregados no Almagesto, explica o movimento diário das estrelas, assim como o diurno e o anel do Sol; os fenómenos que produzem o movimento lunar: o mês sinódico, o mês sideral, o mês anómalo e o nodal ou draconítico. Baseando-se no princípio da regularidade e circularidade, explica o difícil deslocamento dos planetas (astros errantes), que não apresentam unicamente um movimento diurno de Leste para Oeste, mas também outro de Oeste para Leste, ao longo da *eclíptica, além de avançarem (movimento direto) e por vezes estacionarem, outras vezes recuarem (movimento retrógrado), consoante a sua trajectória seja directa ou inversa, acima ou abaixo da eclíptica, na latitude Norte ou Sul do hemisfério celeste. Para explicar todos esses movimentos, aparentemente contraditórios, Ptolomeu recorreu a três princípios básicos de sua astronomia: a esfericidade dos céus e da Terra, o geocentrismo e o geoestatismo. Em Portugal, Diogo Gomes, no De primae inventioni Guineae (1485), ao reportar acontecimentos relatados vinte anos antes, menciona Ptolomeu.

*Hermetis centiloquium seu liber aphorismorum [BPNM: 2-51-13-4]

Ranzovius, Henricus

Henrique Rantzau. Autor do Catalogus Imperatorum Regum ac Principum qui Astrologicam artem amarunt, Antuérpia, 1580 [BPNM: 2-39-5-1].

Sequeira, Gaspar Cardoso de (?-c. 1631)

Matemático, natural de Murça. Formado em Artes pela Universidade de Alcalá, foi professor de matemática em Lisboa, Porto, Lamego, Braga, Coimbra, Ciudad Rodrigo e Tui. Barbosa Machado di-lo nascido no último quartel do séc. XVI, presumindo-o vivo ainda em 1643 (cf. Biblioteca Lusitana, v. 2, p. 311-312). Autor do celebrado Thesouro dos Prudentes, obra estruturada em Quatro Livros e Dez Tratados: 1º do Computo eclesiástico, com muitas regras curiosas; 2º de segredos naturais para plantas; 3º De coisas importantes à medicina, e cirurgia, com muitas curiosidades já experimentadas; 4º De Aritmética por números inteiros; 5º Da mesma Arte por números quebrados; 6º De muitas curiosidades tiradas da mesma arte; 7º da Esfera por novo estilo e fácil de entender; 8º da Fábrica dos Relógios diurnos, e nocturnos; 9º Da medição das horas planetárias; 10º Da Astrologia e preparação das duas figuras.

*Thesouro de Prudentes, Coimbra, Nicolau Carvalho, 1612 [BN: Res 405 P; SA 3007 P]; Coimbra, Nicolau Carvalho, 1626 [BN: SA 3008 P]; Coimbra, Tomé de Carvalho, 1651 [BN: SA 3009 P]; Coimbra, viúva de Manuel Carvalho, 1664 [BGUC]; Coimbra, Tomé de Carvalho, 1664 [BPE]; Lisboa, Francisco Vilela, 1673 (ed. referida por Inocêncio, da qual se não conhece qualquer exemplar); Lisboa, João da Costa, 1675 (acrescentado de um Tratado pera se saber de cor as horas da maré, em toda a parte que se achar, com varias curiosidades) [BN: Res 4134 P]; Évora, Impressão da Universidade, 1675 [BN: SA 3010 P; SA 17144 P; SA 13576 P (2 edições diferentes, uma delas acrescida de uma Breve noticia dos eclipses que no sol, e lua hão de acontecer neste nosso orizonte, começando do anno de 1672 até o de 1690)]; Évora, Impressão da Universidade, 1675 [BA; BN]; Lisboa, João Galrão, 1686 [BN: SA 3011 P] acrescido de um Tractado para se saber de cor as horas da maré e várias curiosidades; Évora, Impressão da Universidade, 1700 [BN: SA 15898 P]; Évora, Impressão da Universidade, 1700 [BA]; Évora, Impressão da Universidade, 1701 [BGUC]; Lisboa, Manuel Lopes Ferreira, 1701 [BA]; Évora, Impressão da Universidade, 1702 [BN: SA 3013 V]; Lisboa, Miguel Manescal, 1712 [BN]; Lisboa, Miguel Manescal, 1712 [BPNM; BA] Trata-se do primeiro livro onde são descritos e explicados alguns truques do ilusionismo, designadamente o do Baralho Ordenado, que se julgava ser uma criação do americano Si Stebbins (1867-1950)

Torres Villaroel, Diego (1696-1770)

Astrólogo, assoprador e aventureiro. Estudou humanidades e Filosofia, tendo sido ordenado sacerdote, em 1745. Exerceu a cátedra na Universidade de Salamanca. Autor de diversos almanaques e prognósticos astrológicos que alcançaram grande êxito, tanto em Espanha, como em Portugal. No final da década de 1720, entrou em território nacional por Almeida, tencionando dirigir-se a Braga, onde residia um conterrâneo seu. Porém, deteve-se em Mondim de Basto, depois de ter encontrado um ermitão com quem privou, durante cerca de quatro meses. Abandonando a companhia de D. Juan del Valle, por receio de um castigo em virtude de ter dirigido a uma rapariga umas “licenciosas, indiferentes y equivocas palavras”, dirigiu-se para Coimbra, apresentando-se como químico e mestre de dança. Terá sido invocando aquele mister que se cruzou com o alquimista português, Anselmo Caetano de Abreu Gusmão Castelo Branco, o qual apontaria Villaroel como charlatão. Sentindo-se exposto pelos “zelos indiscretos de um destemperado português”, buscou refúgio no Porto, de onde havia de regressar à sua terra natal, treze meses volvidos, na companhia de uns toureiros de Salamanca. Consulte? Alquimia e Cometologia.

*Correo del otro mundo al gran Piscator de Salamanca, Salamanca, 1725 [BPNM: 2-25-1-6]

*Juicio, y Pronostico del nuevo Cometa, que apareció sobre nuestro Orizonte el dia siete de Enero de este año de 1744, Lisboa, [1744] [BPNM: BVol. 2-567-6 (11º); BN: HG 4566 (26º) A] é sua convicção que os cometas não pressagiam calamidades, nem malefícios para a humanidade, bem pelo contrário.

*Congetura Prudencial, del Phenomeno, que aparecio sobre nuestro Orizonte, en 7 de Enero de este año de 1744 a dictamen de Don Francisco de la Justicia y Cardenas, aficionado à la Astronomia, y no inteligente de ella, ni otras Ciencias, que lo describe en coloquio, por destierro de Ignorancias, consuelo de Tontos y desengaño de aprehensiones, s.l., [1744] [BPNM: BVol. 2-56-7-6 (5º)]

*Nuevo Prognostico, y Panegyris Catholico, en que El Señor Don Gomez, aora nuevo Ingenio, prometió decir verdad, à fee de Cavallero, assegurando, que la Estrella Caudato, ò Philomeno, anunciada à todos um gozo, segun el Santo Evangelio, s.l., s.d. [BPNM: BVol. 2-56-7-6 (7º)]

*Libros en que estan reatados diferentes Quadernos Fysicos, Medicos, Astrologicos, Poeticos, Morales y Mysticos, Salamanca, 1752 [BPNM: 2-2510-3/4]

Veiga, Padre Eusébio da (1718-1798) S. J.

Natural de Reveles (bispado de Coimbra). Ingressou na Companhia de Jesus em 1731. Leccionou Latim em Coimbra e, mais tarde, Matemática na mesma cidade (1747-1749) e em Lisboa, na Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão (1753-1758). No ano de 1758, ou talvez antes, em 1757, e até 1759, trocou a cátedra de Matemática pela de Filosofia. Com a extinção da Companhia de Jesus passou ao estado secular, tendo sido expulso do Reino, transferindo-se para Roma, onde fixou residência, tendo exercido o cargo de reitor da igreja de Santo António dos Portugueses (desde 1773) e dirigido (a partir de 1784), com Atanasio Cavalli, o observatório do duque de Sermoneta, o mais importante observatório astronómico privado existente na Cidade Eterna. Aí publicou nove volumes de Efemérides, de 1785 a 1794. Eleito correspondente da Academia das Ciências de Lisboa (c. 1789). Autor das primeiras efemérides regulares e metódicas publicadas em Portugal.

*Planetario Lusitano para o anno de 1757, dedicado ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Dom João, calculado para o meio dia do tempo verdadeiro no Meridiano de Lisboa, Lisboa, Miguel Manescal da Costa, Impressor do Santo Officio, 1756 [BN: SA 2847 P; BPNM: 2-40-2-16]

Refez os cálculos aqui publicados, em virtude de os que havia preparado terem sido consumidos no incêndio que destruiu o Colégio de Santo Antão quando do terramoto de 1755. Luís Francisco Pimentel, cosmógrafo-mor do Reino considerou este volume “um excelente compêndio de toda a astronomia, no qual se expõe em doutos e instrutivos documentos, quanto há de mais útil e deleitável nas ciências matemáticas; e pela edição desta obra entendo adquirirá seu autor bem merecidos aplausos assim pelo acerto com que a tem composto, como pelo proveito e adiantamento que por ela poderão alcançar os estudiosos desta faculdade”.

*Planetario Lusitano, explicado com Problemas, e exemplos praticos para melhor intelligencia do uso das Efemerides, que para os annos futuros se publicão no Planetario Calculado e com as regras necessarias para se poder usar delle não só em Lisboa, mas em qualquer Meridiano, Dedicado ao lllustrissimo, e Excellentissimo Senhor D. João […]. Para uso da Nautica, e Astronomia em Portugal, e suas Conquistas, Lisboa, Miguel Manescal da Costa, 1758 [BPNM: 2-40-2-17]).

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