A Identidade Profissional dos Astrólogos

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Um Estudo na Cidade de Porto Alegre

Fabíola Petró

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo

Esse trabalho visa abordar questões relacionadas à construção da identidade profissional da ocupação de astrólogo no município de Porto Alegre. Ao considerar quão antiga é essa ocupação, deparamo-nos, no entanto, com a falta de conhecimento sobre a identidade profissional das pessoas que a exercem hoje e sobre seu modus operandi contemporâneo. Almeja-se compreender como uma ocupação que possui aquisição de conhecimento informal e não possui qualquer forma de fiscalização ou regra laboral constrói seu pertencimento e sua identidade. Utiliza-se como referência teórica, sobretudo, o conceito de identidade profissional de Claude Dubar.

A coleta de dados foi realizada na cidade de Porto Alegre no período de setembro e outubro de 2016 por meio do método qualitativo de entrevistas semiestruturadas com utilização do sistema bola de neve. A técnica de investigação de dados ocorreu pela análise do conteúdo das entrevistas transcritas.

Introdução

O tema do presente trabalho é a construção da identidade profissional dos astrólogos na cidade de Porto Alegre. O universo de pesquisa compreende pessoas que tenham a astrologia como ocupação profissional dentro da cidade de Porto Alegre.

O plano de pesquisa é baseado no estudo exploratório, já que é um tema pouco estudado pelo viés da Sociologia do Trabalho e há escassa bibliografia acerca da delimitação do assunto, embora possa ser encontrado material abundante sobre o estudo da astrologia e sobre Sociologia do Trabalho separadamente.

Claude Dubar, principal autor em cujo conceito de identidade profissional se ampara essa análise, possui estudos no campo da socialização profissional e aponta a construção das identidades sociais, profissionais e como se dá a construção de si pela atividade do trabalho. As observações de Goffman acerca do estudo das interações sociais também auxiliam na compreensão do objeto dessa pesquisa, visto que a representação ou estratégia dos atores faz parte do entendimento da identidade profissional.

Uma teoria da socialização profissional, enunciada por Everett Hughes e os sociólogos interacionistas de Chicago, nos anos 1950, já contesta a tese funcionalista que reserva a qualidade de “profissional” a trabalhadores organizados em “profissões”, favorecidos por leis que protegem sua prática e possibilitam às suas corporações deter a exclusividade de sua instrução e certificação como, por exemplo, médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, já que os ofícios não são sempre iguais e não têm obrigatoriamente a mesma continuidade. Assim, “os radiestesistas reconhecidos no século XIX, não são mais atualmente, e os peritos contábeis que não eram reconhecidos, agora são, nos Estados Unidos”. Os sociólogos interacionistas acreditam que o problema da profissionalização é um processo geral, e não restrito a algumas atividades. O trabalho em si transformou-se de “gasto de energia” em “resolução de problemas” e “serviço prestado a outro”.

“No decorrer dos séculos a astrologia teve, em vários períodos, função social importante e aceitação por muitos indivíduos de alta posição e importância intelectual, mas, em contrapartida, sempre foi também questionada”. Independente de existir ou não validade e/ou cientificidade na astrologia e independente dos motivos pelos quais o serviço de um astrólogo é requisitado, essa é uma ocupação que existe há séculos, mas que, na contemporaneidade, a Sociologia do Trabalho pouco conhece sobre o seu modus operandi e sobre como as pessoas que atuam nessa área se reconhecem e são reconhecidas como profissionais.

Uranie,_Muse_de_l'Astronomie_by_Jean_RaouxA Astrologia baseia-se na observação de fatos astronômicos e na respectiva correspondência destes acontecimentos terrestres. O astrólogo é, então, responsável por essa interpretação, “(…) que é um dado objetivo, uma fotografia matemática do universo do instante em que a pessoa nasceu, o mapa astral, e a partir daí desenvolve a cosmologia individual do consulente a partir deste ‘marco zero’, o momento da origem, do nascimento”. Se o astrólogo, então, interpreta os astros a partir de dados objetivos, baseados na observação de fatos astronômicos, como, de fato, ocorre a aquisição dessa capacitação técnica, considerando que essa ocupação, aparentemente, não possui instituições formais de ensino nem conselhos, associações e/ou sindicatos, que possam servir como reguladores do ofício? Carvalho acredita não ser possível desvincular a questão da identidade profissional da formação, relacionada às estruturas curriculares, da história da profissão.

As atividades de trabalho, ofício ou profissão:

(…) dão um sentido à existência individual e organizam a vida de coletivos. Quer sejam chamadas de ‘ofícios’, ‘vocações’ ou ‘profissões’, essas atividades não se reduzem à troca econômica de um gasto de energia por um salário, mas possuem uma dimensão simbólica em termos de realização de si e de reconhecimento social.

Quais são as atividades que possibilitam tal socialização, implicando construção de si e reconhecimento pelos outros? (…) é a natureza da atividade que a torna ‘profissional’ ou é sua organização, sua remuneração, sua ‘construção social’?.

Dubar questiona se esse modelo geral de socialização seria pertinente a qualquer atividade. Citando Hughes diz que precisamos nos livrar de todas as noções que nos impedem de ver que os problemas fundamentais com que os homens se deparam em seu trabalho são os mesmos e de que se trata, antes de tudo, de uma questão de método e de uma perspectiva de pesquisa que leva a comparar diversos tipos de atividade, desde as mais prestigiosas às mais desprezadas. A socialização profissional é um processo geral que conecta situações e percursos, tarefas a realizar e perspectivas a seguir, relações com outros e consigo, sendo um processo construído permanentemente. Nesse “drama social do trabalho”, são estruturados mundos do trabalho e definidos os indivíduos por seu trabalho.

Um estudo de Lycett, realizado na Inglaterra, em 1990, a fim de compreender como os terapeutas ocupacionais descreviam sua profissão, demonstrou que não havia uma abordagem regular na explicação de Terapia Ocupacional. “Mais da metade dos participantes referiram ter dificuldades em explicar o seu trabalho”. Em relação aos astrólogos, têm eles dificuldade em explicar a sua ocupação? Há alguma abordagem comum em suas definições?

A problemática desse projeto de pesquisa é fundamentada nas seguintes indagações:

Existe alguma capacitação técnica para o exercício do trabalho de astrólogo? De que tipo é (formal, informal, etc.)?

Existe algum órgão que regulamente ou fiscalize o trabalho do astrólogo, como associações, sindicatos e/ou conselhos?

As perguntas anteriores levam à pergunta central: se existe capacitação técnica para o exercício do trabalho de astrólogo, mesmo que seja informal, mas, por outro lado, não existe qualquer diretriz, regra ou regulamento para o exercício da prática da astrologia, como ocorre o processo de construção da sua identidade profissional?

A Sociologia do Trabalho é uma área de conhecimento que deve analisar toda e qualquer forma de ocupação, ofício ou trabalho cujas relações se desenrolem na sociedade. Os laços que são construídos internamente nesses agrupamentos e desses com outros grupos e com a comunidade em geral assumem as mais variadas formas de relevância para o indivíduo ator. Nota-se, no entanto, que, embora haja alguma literatura sobre a astrologia como objeto de estudo da antropologia, não ocorre o mesmo no campo da Sociologia das Profissões.

Vilhena alega, inclusive, que a documentação referente a essa área de conhecimento consiste de “uma vasta literatura produzida por astrólogos, uma reduzida bibliografia historiográfica e uma quase inexistente produção de caráter sociológico e antropológico sobre o assunto”.

A astrologia é uma ocupação desenvolvida há milênios e cuja prática, ainda hoje, é frequente. Cada vez mais exposta na mídia e na internet, adquire relevância no cotidiano de nossa sociedade. Todavia, os mecanismos pelos quais ocorre a construção do processo de identidade profissional das pessoas que se ocupam dessa atividade são, até esse momento, pouco conhecidos. Uma ocupação tão antiga, mas que recentemente foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, merece investigação, especialmente, quanto aos fatores responsáveis pelo pertencimento e identidade dos indivíduos dessa ocupação. Sobretudo, quando sequer há informação precisa sobre condições de aquisição de conhecimento, regras laborais ou diretrizes de fiscalização.

Dessa forma, o objetivo geral desse trabalho é a análise do processo pelo qual ocorre a construção da identidade profissional das pessoas que se ocupam da astrologia, analisando sua formação centrada, sobretudo, na concepção por parte do próprio ator.

Também se compreende como objetivo específico investigar se há alguma capacitação técnica para o exercício do trabalho de astrólogo. Caso exista essa capacitação técnica, verificar de que tipo é (formal ou informal) como também verificar se há algum órgão que regulamente ou fiscalize o trabalho do astrólogo ou preze por sua ética, como, por exemplo, associações, sindicatos e/ou conselhos. E, por fim, analisar as trajetórias profissionais dos astrólogos.

Supõe-se que exista alguma forma de capacitação técnica para o exercício da ocupação de astrólogo e que essa capacitação é feita na informalidade e sem qualquer participação de instituições oficiais de certificação e/ou de regularização.

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A astrologia, conforme De Castro é interdisciplinar, pois engloba entendimentos variados entre os quais se citam a Matemática, a Medicina, a Filosofia e a Psicologia, sendo constituída por árduos cálculos e trabalhosas técnicas e teorias. Longe da rudimentar interpretação advinda do exame de um horóscopo de periódico, a análise astrológica agrega fatores muito mais complexos, pois não avalia apenas doze signos para todas as pessoas e eventos. As leituras cíclicas não se repetem, já que há a combinação de variados e complexos componentes. “A Astrologia contém um alfabeto próprio, composto de diversos símbolos que representam os planetas, signos e outros pontos. A linguagem astrológica precisa ser interpretada por quem conheça seus símbolos e sinais”.

No entanto, porque “é no imaginário que as superstições e as fantasias sobre o futuro sobrevivem, e aí está o espaço da crença popular na Astrologia (…)” e já que não há informação exata e clara acerca da identidade profissional do astrólogo e do seu modus operandi, também se crê que essa ocupação seja frequentemente associada à “magia” e a um “dom sobrenatural”. O fato da astrologia raramente ser associada a algum tipo de conhecimento e construção intelectual, fruto da racionalidade, poderia fazer com que os astrólogos, em determinadas circunstâncias, fossem suscetíveis a formas de estigma e constrangimento em relação à sua ocupação.

Observa-se que há preconceito relacionado à Astrologia, especialmente, associando-a ao misticismo e à superficialidade, consequência provável de sua relação com a mídia. Toda a complexidade da narrativa astrológica é reduzida a publicização de previsões para personalidades populares famosas, textos sobre compatibilidade amorosa entre signos, horóscopos e outros assuntos estereotipados e superficiais.

Goffman propõe conceito que se refere ao estigma como sendo um nexo próprio entre atributo e estereótipo, já que, no corpo social, relevantes características incitam ao descrédito. Em relação ao estigma, esse autor relata que, com base em uma “imperfeição original” responsável pelo desprestígio, estamos inclinados a conceder ao estigmatizado qualidades “desejáveis mas não desejados, frequentemente de aspecto sobrenatural, tais como ‘sexto sentido’ ou ‘percepção’”. Cita como exemplo o fato de suporem que um cego possa se valer de vias de conhecimento impedidas a outros.

Presumindo que o estigma possa ser transportado para o campo profissional e considerando que grande parte do público desconhece o simbolismo próprio da astrologia, cabe aqui como suspeita que o desconhecimento do constructo intelectual adquirido da ocupação possa imputar ao astrólogo atributos sobrenaturais tais como vidência e sobrenaturalidade.

Conforme Goffman, tudo aquilo que pode ser aludido acerca da identidade social de uma pessoa em seu cotidiano e por todas as figuras inseridas nelas terão grande relevância para esse indivíduo. No trato individual, os resultados desses relacionamentos serão breves e poderão ser de pouca importância, no entanto, quando considerados agrupados, essas experiências serão de enorme dimensão. Para esse autor, o espaço em que se vive o manuseio de qualquer forma de estigma é, fundamentalmente, a esfera pública, já que, na esfera privada, quando revestidas de intimidade, as pessoas próximas permanecem ligadas ao indivíduo.

A coleta de dados dessa pesquisa ocorreu na cidade de Porto Alegre, no segundo semestre do ano de 2016. Sendo capital, apresenta maior número de população total do que cidades menores e, por conseguinte, apresenta maior oferta de serviços de astrologia. Outra questão de menor importância para a escolha dessa cidade é a redução de custos: estando a Universidade Federal do Rio Grande do Sul localizada nesse município, e, estando esse trabalho vinculado a essa universidade, as despesas em relação ao deslocamento para as entrevistas e permanência nessa cidade foram reduzidas.

Foi empregado o método qualitativo de entrevistas semiestruturadas a astrólogos, utilizando-se o sistema bola de neve. A aplicação da entrevista semiestruturada justificou-se por proporcionar maior liberdade para o entrevistador e o entrevistado, favorecendo a coleta de dados desse estudo exploratório e a obtenção das visões individuais dos entrevistados sobre o tema em questão. A técnica utilizada para a investigação de dados é representada pela análise de conteúdo de cinco entrevistas transcritas.

O presente trabalho apresenta-se dividido em três capítulos. No primeiro capítulo, são abordadas propriedades referentes ao mundo da astrologia e particularidades sobre a ocupação de astrólogo. No segundo capítulo, é apresentada discussão sobre a fundamentação teórica utilizada na pesquisa, representada por conceitos de autores como Dubar e Goffman. Finalmente, no terceiro capítulo, são apresentados e discutidos dados da exploração de campo.

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Capítulo 2. Acerca da Identidade Profissional

Castelo Branco aponta as concepções de Durkheim, Weber e Parsons como contribuições clássicas para os estudos da Sociologia das Profissões. Na Divisão do Trabalho Social, obra escrita por Durkheim em 1893, a profissão é tratada sob uma ótica funcionalista. A especialização do trabalho é analisada como substituto do parentesco e como principal fonte de solidariedade social. A constituição de associações profissionais representaria uma autoridade legítima capaz de pacificar os conflitos de interesse de sociedades industriais, recuperando, assim, a coesão entre os seus membros. Já Weber define a profissão como uma “vocação” não herdada, porém desejada e assumida como função, subordinada a um preparo específico que se exerce no trabalho técnico racional. Por último, Parsons crê que as profissões constituem processos que orientam a organização de determinados grupos específicos, além de estabelecer padrões de sociabilidade. Para Parsons, profissões são regimes de solidariedade cuja identidade se fundamenta na competência técnica de seus integrantes, conquistada nas instituições educacionais e científicas. Mas, em ocupações onde não há instituições educacionais formais e onde sequer há um consenso sobre sua validade e veracidade, como é o caso da Astrologia, de que forma essa identidade baseada na competência técnica de seus membros ocorre?

A identidade profissional é aquilo que os integrantes de uma corporação compartilham e o que os singulariza de outras associações. A convicção que acaba por construir uma interpretação distinta e única compartilhada pelos membros do grupo é decorrente da concepção do seu paradigma. Esse paradigma é responsável pela comunhão da classe, definindo a profissão e, consequentemente, seus ideais e propósitos. Simboliza a significação e o reconhecimento da categoria profissional, representando também a sua cultura. A cultura profissional criada pelo paradigma oferece aos componentes da agremiação compreensão dos seus atos, preocupações e métodos. Assim, o paradigma de uma profissão constrói a sua identidade exclusiva e peculiar.

O conceito principal adotado nessa pesquisa é aquele que se refere à identidade profissional. Dubar acredita que assumimos várias identidades em uma tensão constante entre a identidade representada para o outro e a identidade representada para si próprio. Conforme Oliveira, as formas identitárias, em Dubar, provêm da conciliação entre a forma objetiva e subjetiva, definem a sucessão ou suspensão entre a identidade transmitida e a desejada, no plano subjetivo, bem como o reconhecimento ou não social entre a identidade conferida pelo outro e a identidade absorvida para si, no plano objetivo.

A construção do status da profissão não resulta propriamente da:

acumulação de conhecimentos, e sim de incorporação de uma definição de si e de uma projeção no futuro, envolvendo, antes de tudo, o compartilhamento de uma cultura do trabalho profissional e a exigência do trabalho bem feito. Essa cultura de trabalho se traduz no ingresso em um segmento (…) organizado em torno de atos específicos, codificados, controlados pelos colegas. Embora se possa e se deva falar de saberes profissionais, trata-se de mistos de teorias aplicadas e de práticas reflexivas, indissociáveis de situações de trabalho e de ações experimentadas ao longo de um percurso de formação qualificante.

Também será abordado o conceito de identidade construído por Goffman. A compreensão da análise de Goffman acerca da interação social auxilia no exame do tema em questão, a identidade profissional dos astrólogos, posto que não é só em Goffman que encontramos essa ideia de representação ou de estratégia dos atores. As dimensões propostas por Dubar também se prestam a um nível de representação dos atores, no sentido de adaptação ao mundo social, em que há trocas de posições e incorporação de atitudes do outro.

Analisando Goffman, Carvalho indica que a atuação dos comportamentos sociais relaciona-se com a forma como cada pessoa desenvolve a sua representação e a deseja sustentar. Enfoca os mecanismos de entrosamento social que se realizam entre sujeitos ou coletividades e que são intercedidos por correlações simbólicas. O indivíduo atua conexo a tudo aquilo que o rodeia cotidianamente e cônscio do significado que essas coisas representam para si, atento em demonstrar aos outros sinais pertinentes, e procurando distinguir o propósito das condutas alheias. Goffman assevera que sempre que um indivíduo ingressa em um grupo, acontece modificação nos fundamentos da compreensão acerca desse indivíduo por si e por outros.

Goffman utiliza o termo “identidade pessoal” para referir-se ao arranjo original positivo da biografia do indivíduo como subsídio de suporte a identidade desse sujeito. A identidade pessoal, dessa forma, concerne à suposição de que o indivíduo é capaz de ser distinguido de todos e de que consegue criar uma narrativa singular de fatos sociais que se associam a outros episódios biográficos. Pela sua “unicidade”, a identidade pessoal representa um fator instituído e cotidiano na organização social.

Ainda para apreender a identidade, Goffman ressalta a relevância da ideia de unicidade, responsável pela execução de uma conduta ordenada e corriqueira no planejamento social. O conceito de unicidade gera características que permitem o reconhecimento positivo do indivíduo em relação a outros indivíduos, tornando-o autêntico. Exemplos dessas particularidades podem ser aludidos aos traços biológicos, à caligrafia, à imagem fotográfica ou a elementos inscritos de modo perene como a certidão de nascimento, nome e número da carteira de identidade. Em relação à identidade profissional, é possível cogitar o nome, a definição e o registro profissional, por exemplo, como alguns dos itens que corroboram a afirmação dessa identidade. Mas, quando a definição de uma ocupação é heterogênea e imprecisa, nem há registro profissional ou, ao menos, associações, entidades e/ou qualquer entidade de grupo, como a identidade profissional é constituída, aceita e compartilhada por seus membros na contemporaneidade?

20171111132645_D1073_2Dubar acredita que a identidade pessoal tem valor inestimável na construção de nossa personalidade. Tanto que um dano a ela poderia causar a ruína do indivíduo. O fato é que essa identidade é construída, a partir da própria valoração e também da valoração alheia, desde a infância até a morte, por meio de contínuos processos de socialização. Dentre todas as facetas da personalidade humana, a perspectiva profissional apresenta relevância peculiar, pois, dado que o trabalho é capaz de se trespassar por modificações notáveis, além de formatar a identidade social, também impõe transições dramáticas. O exame prático da identidade é tarefa árdua, visto que há multiplicidade dos grupos de referência. A socialização, dessa forma, consiste em um processo de identificação e de construção de identidade, por consequência, de pertencimento e de relação.

Ao considerar que a identidade nunca é dada, mas sempre construída e reconstruída em uma incerteza maior ou menor e mais ou menos duradoura, confia-se que o exame social possa abarcar o enfoque do sujeito e da psique,

pois a identidade nada mais é que o resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, conjuntamente, constroem os indivíduos e definem as instituições.

Destarte, a identidade estrutura-se fundamentada na tensão entre múltiplos processos heterogêneos. A egressão do sistema escolar e o enfrentamento do mercado de trabalho significam, modernamente, fase elementar da construção da identidade social. Também o ingresso em um domínio científico significa uma prática relevante na composição da identidade, não apenas da identidade no trabalho, mas, acima de tudo, uma “projeção de si no futuro”. Essa projeção é capaz de criar estratégias que mobilizem a própria imagem para aprender a “vender” a si mesmo. No entanto, essa identidade profissional subjetiva preliminar tem progressivas possibilidades de tornar-se efêmera, pois está fadada a adaptações contínuas.

As artes liberais e as artes mecânicas passaram a ser segregadas com a institucionalização das Universidades. Assim, as “profissões”, cuja produção era, sobretudo intelectual, eram ensinadas nessas Universidades em detrimento dos “ofícios”, cuja produção era tida como braçal e mecânica. Todavia, a distinção socialmente legitimada pela representação dos ritos sociais era comum a ambas. O pertencimento a esses tipos de comunidades criava direitos, obrigações e honrarias próprias, definindo a posição do indivíduo no estamento social. Nos dias que correm, a profissão seguidamente assume “uma dimensão comunitária estruturante de todo o sistema social”, já que a superioridade dessa poderia ser justificada pela polarização entre a transferência hereditária do status dos ofícios e a eleição independente da instrução das profissões. Contudo, uma parcela dos sociólogos associa às profissões atuais o simbolismo dos ofícios passados.

Conforme definição clássica do conceito de profissão, essa surge quando uma parcela de indivíduos passa a executar um procedimento preciso justificado em uma cultura específica e que marca o seguimento aos ofícios manuais especializados. Observa-se que a profissionalização do trabalho advém com a especialização dos serviços (o que permite aumentar a satisfação de uma clientela), com a criação de associações profissionais (o que propicia a discriminação entre a corporação e aqueles não qualificados) e, sobretudo, com a implantação de uma formação específica (o que respalda a conquista de uma cultura profissional).

Parsons considera que o estabelecimento dos atores no campo das profissões é originado da harmonia entre a necessidade que o cliente tem do profissional e a necessidade que o profissional tem de ter clientes, típico das profissões liberais. Ainda decorre de uma dinâmica de legitimação, que pode se apoiar nesse ajuste de papéis para definir um corpo de saberes independente dos indivíduos que ocupam a função e suscetível de ser ensinado, testado e controlado com a participação dos próprios profissionais e com o reconhecimento do Estado.

O padrão acima não parece ser compartilhado por todos os estudiosos funcionalistas das “profissões”. No entanto, alguns autores manifestam certa unanimidade referente à “especialização do saber” e, em seguida, de forma frequente mas não unânime, à formação intelectual e ao ideal de serviço. Também há aqueles que julgam que o estereótipo profissional consiste na competência técnica e científica fundamentada e no cumprimento de um código de ética regulador. Verifica-se que, na primeira hipótese, a dimensão do conceito profissão abrange uma maior amplitude de grupos profissionais. Todavia, já na segunda abordagem, restringe-se a “algumas categorias intelectuais que fizeram cursos superiores e que estão organizadas para manter e consolidar seu monopólio sobre um público”.

Embora se note alguma variação no conceito funcionalista de profissão, sua distinção, principalmente em relação à abordagem interacionista simbólica, cabe no fato de os profissionais formarem comunidades coesas em torno dos valores e da ética bem como no fato de o status profissional fundamentar-se no saber científico. A comunidade ética e o saber científico são indissociáveis da “distinção cultural e do isolamento social”, dessa forma, a concepção funcionalista de profissão frustra a profusão de práticos.

geo-mengslibourneEverett Hughes assevera, no entanto, que o dito “profissional” necessita ser na esfera da existência cotidiana e que esse “não é descritivo, mas sim implica um juízo de valor e de prestígio”. Hughes considera a divisão do trabalho para sondar sociologicamente o trabalho humano. Os profissionais são selecionados por meio da “licence” (diploma), que os segrega dos demais, e do “mandate” (mandato), que lhes incumbe uma missão. Esses aspectos acabam por gerar um “guilty knowledge” (saber condenável), que representa informações sigilosas próprias do vínculo entre o profissional e seu cliente. Os profissionais, então, estão aptos a ouvir e a manter em segredo confissões indignas. Isso simboliza a “transferência legítima pela sociedade, de uma parte de suas funções sagradas a um subconjunto reconhecido”. No entanto, Hughes crê que possa ser feita uma extensão desse entendimento a outras ocupações, desde que também

tenham sido definidas como “sagradas” e que o segredo de sua importância possa ser preservado. (…) Assim, a própria natureza do saber do “profissional” está no cerne da “profissão”: trata-se de um segredo social, confiado pela autoridade a um grupo específico, que o autoriza e lhe concede um mandato para trocar signos de transgressão por marcas de reintegração social e de reabilitação moral. A justificação científica, nessa problemática, não passa de uma cortina de fumaça.

O paradigma interacionista expandiu o conceito de profissional para além dos limites aceitos pela sociologia das profissões, pois posicionou a noção de socialização profissional no cerne da questão na medida em que permitiu relacionar expectativas legítimas dos atores com seleção de oportunidades das biografias. O “mundo vivido do trabalho”, segundo Hughes, “(…) mobiliza a personalidade individual e a identidade social do sujeito, cristaliza suas esperanças e sua imagem de Si, engaja sua definição e seu reconhecimento sociais”.

Outrora, o modelo tradicional de emprego refletia a identidade social do indivíduo, já que trabalho representava o prestígio social, portanto a identidade simbolizava uma ferramenta na compreensão do significado da carreira. Modernamente, o trabalho converte-se em apoio para a promoção do “projeto reflexivo do eu”, dessa forma manifestando o estilo pessoal e aprimorando capacidades individuais.

As formas indenitárias, conforme conceito de Dubar, devem ser analisadas pela relação entre a transação objetiva e subjetiva, internamente pela relação entre a identidade herdada e a identidade visada, e externamente pela relação entre a identidade atribuída por outro e a identidade dada por si. Embora essas duas transações seja mais ou menos independentes, são fatalmente articuladas.

A transação subjetiva pode levar a uma continuidade entre identidade herdada e identidade visada ou a uma ruptura, a uma discrepância, entre a definição de si oriunda da trajetória anterior e a projeção de si no futuro. A transação objetiva, articulada com a precedente, pode levar a um reconhecimento social ou a um não-reconhecimento. (…) o reconhecimento é o produto de interações positivas entre o indivíduo que visa sua identidade “real” e o outro significativo que lhe confere sua identidade “virtual”; o não-reconhecimento resulta, ao contrário, de interações conflituosas, de desacordos entre identidades “virtuais” e “reais”.

Também, conforme o autor acima, o espaço social das identidades transcende o círculo do trabalho para além desse, visto que cada forma de identidade acarreta uma correlação com o espaço social e, consequentemente, com os subespaços que o formam. A Sociologia das Profissões insiste acerca da imprescindibilidade de se discernir em relação aos diferentes aspectos da análise do evento das profissões e das carreiras. Bendassolli observa o fenômeno profissional pelo viés social, individual e institucional, assim afirma que:

Do ponto de vista social, as profissões representam formas históricas de divisão e organização do trabalho. Como fenômeno individual, são formas de realização de si e de construção do indivíduo em sua experiência com o trabalho. Por fim, como fenômeno institucional, representam processos pelos quais os atores sociais defendem seus interesses na medida em que forçam o estado a reconhecê-los como detentores de um conhecimento exclusivo e, portanto, autorizados a exercer uma profissão (métier).

As identidades profissionais e sociais são concebidas por variados processos de socialização. Na infância ocorre a socialização inicial com a formação das primeiras identidades por contínuas assimilações a acomodações de valores provenientes do universo familiar e escolar. Pelas referências culturais oferecidas por essa socialização, a pessoa identificará seus grupos de pertencimento e referência e prenunciará suas socializações subsequentes. A socialização contínua é inerente às transformações estruturais que impelem a mudanças constantes das identidades antecipadamente formadas. As identidades sociais e profissionais são elaborações sociais que exigem conexão entre trajetórias biográficas individuais e sistemas de emprego, de trabalho e de formação resultantes de gerações e sociedades distintas.

O exame da identidade presume várias alternativas capazes de serem admitidas, posto que o assunto abarca muitos conceitos e tratamentos. No entanto, a abordagem multidisciplinar da análise da identidade oportuniza uma melhor compreensão psicológica e social do sujeito. Com efeito, Dubar, afirmam os autores, associa mais de uma perspectiva da identidade, visto que, na sua abordagem sociológica das identidades, correlaciona a socialização biográfica, reclamada pelo sujeito e legitimada pelos outros, à socialização relacional, representada pela ação social.

Ainda Bianco, Colbari e Neto citam Strauss, quando esse afirma que:

O conceito de identidade é tão esquivo quanto o é o senso que toda pessoa tem de sua própria identidade pessoal. Mas, seja o que for, a identidade está associada às avaliações decisivas feitas de nós mesmos – por nós mesmos ou pelos outros. Toda pessoa se apresenta aos outros e a si mesma, e se vê nos espelhos dos julgamentos que eles fazem dela.

A identidade no trabalho é uma consequência da identidade social, porquanto sua elaboração acontece pela vinculação a um grupo e pelo desempenho de um ofício. No momento em que o indivíduo é integrado a um grupo social, acaba por aceitar perspectivas particulares acerca da conduta que deve interpretar na comunidade, visto que esse indivíduo necessita encarnar a representação adequada à reputação de sua posição. Segundo esse autor, a identidade social nunca poderá ter um anonimato próximo da plenitude tal ocorre com a identidade pessoal nas ruas de uma grande cidade. Carvalho também confia que a ideia referente à informação social seja sobreposta à rotina da vida laboral tal qual abordada por Goffman.

As identidades social e pessoal são elementos das significações e conceitos de outros em relação à identidade do indivíduo. Todavia a identidade do eu apresenta-se, principalmente, como uma trama “subjetiva e reflexiva” obrigatoriamente vivenciada pelo indivíduo. Embora o indivíduo elabore a sua própria imagem utilizando-se de idêntico substrato usado por outros para a construção da sua identidade pessoal e social, o indivíduo em si compõe a sua identidade, manipulando esse material, com um grau muito maior de liberdade.

Posto que a ocupação de astrólogo é, até o momento, inexpressivamente estudada e muito pouco se sabe acerca dessa, parece adequada a contemplação do conceito de identidade profissional analisado por Dubar, visto que esse considera várias perspectivas da identidade. A articulação entre as relações objetivas e subjetivas, entre as identidades herdadas e visadas, e entre a identidade atribuída pelos outros e por si na pesquisa da construção da identidade dos astrólogos é relevante para uma abordagem integralizante desse estudo. Por fim, o conceito de Goffman complementa esse exame, dado que as informações sobre a interação social e a representação de papéis podem ser sobrepostas ao campo profissional.

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Capítulo 3: Acerca desse Trabalho

As entrevistas semiestruturadas coletadas para esse trabalho de conclusão foram coletadas durante o período de setembro e outubro de 2016 na cidade de Porto Alegre. Foram entrevistados cinco astrólogos, dois homens e duas mulheres, entre 37 e 66 anos de idade, a partir de um roteiro de pesquisa pré-elaborado. Foram realizadas tentativas de entrevistas a um total de onze astrólogos, no entanto apenas cinco dispuseram-se a participar da pesquisa. Segue, em anexo, tabela com perfil dos entrevistados.

Considerando que a astrologia tem seu simbolismo próprio, por meio de cálculos de aspectos planetários, posições de casas astrológicas, planetas e signos, apenas para citar alguns, e, visto que o objeto dessa monografia é o estudo da identidade profissional daqueles que se utilizam dessa forma de linguagem, cabe ressaltar que os astrólogos selecionados para esse estudo não exploravam qualquer outra forma de artes ocultas ou divinatórias como, por exemplo, tarô e búzios, tão frequentemente associados a esse ofício.

Dos cinco entrevistados, quatro praticam o ofício de astrólogo como principal fonte de renda, com exceção da entrevistada 2. O entrevistado 1 também se reconhece como escritor e desenvolve trabalho terapêutico com cristais como outra de suas atividades. Já a entrevistada 4 desempenha atividade de terapeuta floral e homeopata concomitantemente à prática astrológica. Apenas um dos entrevistados, a entrevistada 2, pratica eventualmente esse ofício, devido à incompatibilidade de horários com a profissão de psicóloga. No entanto, essa mesma entrevistada dedica-se, concomitantemente à Psicologia, ao ensino da astrologia por meio de aulas a turmas regulares, tendo, no passado, já se ocupado da astrologia como principal recurso econômico. A atividade de ensino da astrologia, por sinal, demonstrou ser exercida por quatro dentre os cinco astrólogos, com exceção da entrevistada 3. Todavia, a única entrevistada que não se consagra também ao ensino da astrologia, a entrevistada 3, empenhou-se por quase toda a sua vida profissional em instruir sobre os fundamentos e princípios da astrologia, e atribui o desinteresse atual à ausência de vontade de continuar e à superficialidade das informações veiculadas facilmente através da rede de computadores:

… há dois anos atrás eu cansei: Ah, não quero mais. Realmente é uma coisa que eu sinto, sabe, quando tu não tá mais com aquela vontade. E outra coisa que me desmotivou muito foi essa coisa de internet. Os alunos chegam para ti com 1000 informações às avessas. “De onde tu tirou isso?”. “Ah, eu li na internet, porque não sei o quê”. Então é uma coisa que tu acredita, tu estudou, tu pesquisou, tu constatou, porque antes de qualquer coisa é importante tu constatar. (Entrevistada 3)

Embora, atualmente, as ferramentas tecnológicas facilitem o cotidiano daqueles que necessitam efetuar cálculos por meio, por exemplo, de programas de computadores, observa-se que dois dos cinco entrevistados ainda calculam os mapas astrológicos manualmente. Esse modus operandi do ofício mantido durante a integridade da vida profissional dos entrevistados 3 e 5 representa ir além de uma mera exposição objetiva de dados, já que, durante o processo de cálculo à mão, esses astrólogos concebem a interpretação cognitiva da carta natal de seus clientes. Assim, afirma um entrevistado:

Quando eu desenho o mapa, eu desenho ele à mão. Não gosto de computador. E, ao desenhar à mão, tá pronto. … mas daí depois que tá desenhado, eu já sei, já decorei. Se tu levar tudo impresso, daí não sei, não sei de nada, vou ter que estudar, tenho que parar, sentar e olhar. (Entrevistado 5)

Posto que alguns desses astrólogos apreenderam o ofício em um tempo em que a tecnologia não oferecia tal facilidade, o uso contínuo da técnica manual, embora tenham à sua disposição o domínio de softwares de cálculos, pode demonstrar mais uma relação subjetiva com o sistema de elaboração da atividade laboral. Essa ocorrência corrobora a reflexão de Dubar referente à identidade social, cujo fundamento se daria por meio de sucessivas negociações entre as relações objetivas e subjetivas.

A própria observação da motivação desses profissionais dedicarem-se também ao ensino do ofício pode suscitar questões objetivas e subjetivas. O estímulo financeiro e o desejo de contato com os pares, fatores de ordem objetiva, poderiam ser supostos, todavia, o anseio por transmitir o conhecimento agregando responsabilidade e profundidade ao ‘habitus’ do trabalho, fator de ordem subjetiva, poderia ser igualmente cogitado. A dimensão objetiva e a dimensão subjetiva, respectivamente, correlacionadas contribuiriam para a análise da identidade profissional.

Porque não entregam aquilo que prometem. Cursos de astrologia que não dão…, eu nunca vi que ensinem a astrologia em seis meses, seis meses! Daí formam os astrólogos, e tu sabe o que vai acontecer, né? Não tem a profundidade. Quantos anos tu acha que eu levei para ler o que tá aí? Fora o que tem na outra biblioteca! Claro que eu não tô dizendo que só pode ser astrólogo depois dos 60, 70, mas tem que ter uma boa formação. Porque tem uma coisa, além do conhecimento da astrologia, que tu tens que ter, tu também tem que conhecer a alma humana, saber lidar com ela. (Entrevistada 4)

… eu tenho uma apostila que eu usava e, na apostila, tem esse módulo básico com essa ordem do módulo básico, uma bibliografia no final em que eu indico um livro também. É a mesma coisa como qualquer formação: eu indico a bibliografia, tem a apostila para acompanhar na aula e mais um livro-guia da aula, que não é bem guia, é um livro para se aprofundar e ir esclarecendo coisas na medida que o aluno vai fazendo práticas. Tem que ter uma sequência. (Entrevistada 2)

A pesquisa de Venuto referente à astrologia como campo profissional em formação, realizada nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, expõe a existência de três principais grupos dentro da astrologia: o grupo moderno, o grupo de elite e o grupo de práticos.

--lower-monogramsNa primeira forma, o conhecimento astrológico é tido como resultado da união de um conjunto de disciplinas específicas fundamentadas essencialmente na racionalidade científica. Aqui, o discurso é proferido no sentido de ressaltar a complexidade teórico-metodológica e a base racional-científica a partir da qual se estrutura o saber astrológico. (…) Na segunda forma, o saber astrológico é concebido como arte, uma “linguagem simbólica” não passível de tradução para o modelo racional-científico dominante. Para os indivíduos que compartilham essa visão, o conhecimento astrológico é descrito como multidisciplinar, e, por isso, não tem uma localização fixa, podendo transitar entre o campo da religião, da arte, da filosofia e da ciência tradicional. (…) Na terceira forma, que é, de fato, aquela institucionalizada, a astrologia é apontada como um saber religioso que sofre influência das mais variadas “tradições religiosas e esotéricas”. Para os indivíduos desse grupo, o astrólogo assemelha-se a um conselheiro espiritual (…). (…) Os astrólogos práticos, na maioria das vezes, vendem seus serviços em parceria com ocupações ligadas à esoteria. Anunciados em jornais esotéricos ou na mídia não especializada, os anúncios sempre têm, no cabeçalho, algum indicativo que os liga ao esoterismo. Os astrólogos modernos e de elite, ao contrário, dificilmente anunciam em jornais. Em geral eles utilizam o cartão (no modelo das profissões liberais) definindo as áreas específicas de competência (astrologia financeira, astrologia política, mapa astral individual etc.). Nesses dois grupos não há nenhuma vinculação entre o serviço astrológico e o esoterismo.

Venuto supõe que a identidade de grupos tão diversos seja mantida pela carta natal. Se considerarmos que essa união é mantida pelo simbolismo característico da astrologia, visto que os diferentes grupos interpretam os mesmos símbolos astrológicos no mapa analisado, mais uma vez estaremos refletindo sob o prisma objetivo e relacional. Goffman ao abordar a relação dos papéis sociais também corrobora essa análise ao sentenciar que “os participantes, em conjunto, contribuem para uma única definição geral da situação (…). Haverá também um acordo real quanto à convivência de se evitar um conflito aberto de definições da situação”.

O conjunto de astrólogos que colaboraram com esse estudo representa pertencerem ao grupo moderno e ao grupo de elite dado que não estão ligados a questões esotéricas, não anunciam, e acreditam que a astrologia é um ramo de conhecimento multidisciplinar, abarcando saberes de outras áreas como Psicologia, Filosofia e Matemática. Muitos dos entrevistados inclusive frequentaram cursos técnicos e de graduação em outras áreas, chegando a completá-los ou não, e declararam durante as entrevistas que outros campos de cultura contribuem para o bom desempenho da ocupação.

Embora não anunciem, esses astrólogos estabeleceram uma boa clientela, formada durante anos de vida profissional, e constituída principalmente por meio de indicação decorrente do sentimento de um trabalho bem realizado.

Eu não vou em nenhuma costureira se eu não souber quem ela é. Eu não vou, isso faz parte de mim, da minha essência. Tô conversando contigo e tu me manda ir em uma farmácia, mas qual farmácia? Tô confiando em ti, tô confiando na tua indicação. Não vou ao médico, não vou a lugar nenhum. (Entrevistada 4)

Conquanto essa mesma astróloga possua um site no qual discorra sobre alguns assuntos ligados à astrologia, afirma que poucas pessoas a procuram em decorrência dessa mídia:

(…) pode vir por ali, pode olhar, mas é muito raro. É muito raro. Tenho site, tenho página no Facebook. Tem quem venha pelo site. Não deixo de atender se a pessoa vier pelo site. O site é uma coisa muito nova, quando o site entrou na minha vida, eu já tava há quantos anos no mercado? Tudo bem, tá lá no site, as pessoas podem vir, mas tu não vai me ver anunciar em nenhum jornal, em nenhum meio, sabe assim: faça sua revolução solar com a astróloga fulana de tal. Eu não acredito nisso. O site tem toda a informação a respeito. E, no site, muito diferente de um anúncio, tu vai ver o currículo, tem o que a pessoa tá fazendo, tem artigo publicado. Aí tu vai ver e tu vai te identificar ou não. (Entrevistada 4)

O relato da entrevistada 3 converge nesse mesmo sentido:

Eu, por exemplo, em época nenhuma da minha vida, vai encontrar uma propaganda minha, seja de que forma, seja de jornal, seja… nada, absolutamente nada. Porque essa área, digamos, ela se faz muito mais pelo boca a boca mesmo, um passar para outro, para outro e assim vai. E é sempre assim, sempre foi. (Entrevistada 3)

Dubar aponta que o enfrentamento do mercado de trabalho é etapa essencial da estruturação da identidade social e que a “projeção de si no futuro” é capaz de criar estratégias que mobilizem a própria imagem para aprender a vender a si. Essa estratégia de “vender a si” dos astrólogos entrevistados parece ser por meio da competência, já que se posicionam no ramo da astrologia pela indicação de pessoas que já fizeram uso de seus serviços a novos clientes. O mesmo autor salienta que a elaboração do status da profissão envolve, “antes de tudo, o compartilhamento de uma cultura do trabalho profissional e a exigência do trabalho bem feito”, e que a transação objetiva articulada com a transação subjetiva “pode levar a um reconhecimento social ou a um não-reconhecimento”. Os achados dessa exploração de campo parecem concordar com a posição de Dubar, dado que esses profissionais “vendem a si” por intermédio da indicação de outros, ou seja, pelo “reconhecimento social”, e fundamentada, consequentemente, na perícia e eficiência, podendo assim se entender, “na exigência do trabalho bem feito”.

urania schollO fato de o espaço social das identidades sociais transcender o ambiente profissional e o fato de o indivíduo atuar conexamente a tudo aquilo que o rodeia no cotidiano pôde ser observado pelos termos técnicos próprios da astrologia que são estendidos a outras áreas de linguagem. Ao ser questionado sobre quais requisitos seriam essenciais para uma pessoa exercer a ocupação de astrólogo, o entrevistado 5 respondeu ser “terra e ar”, complementando a informação logo em seguida, “ou seja, sentido prático e capacidade de expressar aquilo que tu tá pensando e querendo dizer”. Por sua vez, a entrevistada 4, quando interrogada se seria a favor ou contra o projeto de lei que tramita na Câmara e no Senado e que regulamenta a profissão de astrólogo, respondeu que, dentro da astrologia existem dois grupos distintos de profissionais: as pessoas que são mais “saturninas” e as pessoas que são mais “uranianas”. Acrescentou, após, a fim de explicar, que os “saturninos” representariam pessoas mais tradicionais e os “uranianos”, por sua vez, representariam pessoas mais anticonvencionais: “As mais saturninas querem tudo certinho, tudo como manda o figurino direitinho. As uranianas dão risada e vão embora”. Essa observação vai ao encontro do trabalho de Vilhena, que informa que “a prática da astrologia confere ao indivíduo um vocabulário específico, reflexo mediatizado da estrutura astrológica na sua visão de mundo, que permite conferir a esta prática o estatuto deexperiência sintetizadora”.

O exercício do ofício parece seguir motivações pessoais dos entrevistados, dado que, com exceção da entrevistada 2, não possuem parentes ligados a essa ocupação. E mesmo no casa dessa entrevistada, o parente em questão, uma prima, no passado, havia participado de um grupo de estudo de astrologia, restando dúvida, no entanto, se, por um pequeno período, atuara ou não profissionalmente. Alguns acabaram se interessando pela ocupação após terem suas cartas natais interpretadas por outros profissionais e/ou terem frequentado cursos. Outros, autodidatas, reportaram um interesse natural pelo assunto. A entrevistada 4, por exemplo, que se instruiu do conhecimento astrológico de forma autodidata e atua profissionalmente há 25 anos, já tinha a astrologia como hobby paralelamente a suas ocupações profissionais anteriores (professora e relações públicas), totalizando 50 anos de experiência nessa área. O diferente percurso biográfico do grupo atesta a insuficiência da análise de apenas os aspectos objetivos para a compreensão das identidades profissionais, porquanto a identidade é desenvolvida tanto socialmente como pessoalmente.

Também a assimilação de que a percepção das identidades “só pode emergir na particularidade de uma realidade empírica, historicamente situada e datada” pode ser observada por meio dessas biografias. Assim, a entrevistada 4 relata que o agente causador por passar a atuar profissionalmente como astróloga foi a crise econômica e política dos anos 90:

Profissão? Eu agradeço ao Collor. É, porque, quando deu aquele negócio do Collor, aquela história, daí veio uma crise muito grande dentro das indústrias, empresas… A primeira área que salta é quem? Não é quem tá na ponta lá. Nessa hora, quem menos faz falta é a relações públicas, por melhor que tenha sido o trabalho, por mais prêmios que ela tenha ganho dentro da empresa e mais coisas que ela tenha sido incorporada, não importa, mas o da fábrica tem que ficar, né, aí eu fui demitida pela primeira vez na minha vida. Aí fui demitida e tentei ficar no ramo de relações públicas, só que, assim, foi fechando todas as portas, fechando, fechando, fechando. Aí um amigou olhou para mim e disse: “X1, enquanto tu tá procurando, porque tu não atende esse povo que tá na tua volta?”. Tinha um monte de gente, eu encaminhava as pessoas para fazerem mapa com a Y1, naquela época, enfim, com outras pessoas que inclusive faziam meu mapa, revoluções e essas coisas, trânsitos. Algumas iam, mas voltavam com os mapas: “Ah, me explica isso!”, “Ah, por que tá acontecendo isso aqui? Eu ficava ainda dando suporte, atendendo. E uma amiga falou para mim: “Por que tu não faz isso?”. Ai, mas eu nunca pensei em trabalhar, porque eu sou autodidata. Nunca fiz nenhum curso. Eu nunca… Daí ela olhou para minha cara: “Ah, tá, e o que tu faz com as pessoas , quando elas vêm perguntar? O que tu tá fazendo? Não! Tu tá atendendo só que tu não tá ganhando!”. E aí eu comecei a fazer e nunca mais parei. (Entrevistada 4)

Por sua vez, a entrevistada 3 narra que seu contato inicial com a astrologia se deu mais em razão do contexto cultural dos anos 70 do que propriamente uma curiosidade pessoal:

Na verdade, naquela época, em 1970, a juventude era muito alternativa, muito ligada à ioga, à astrologia, cinema, teatro, essas coisas todas que, dentro de um contexto, de um grupo de amigos, tu acaba trocando e, enfim, te interessando. E nós tínhamos no nosso grupo de amigos, que eram pessoas assim bem diversificadas, estudante de arquitetura, de engenharia, de medicina, de belas artes, era bem misturado, de música… Então tínhamos uma amiga, já formada, que era um pouco mais velha, professora, que estudava astrologia. Gostava e estudava astrologia. Daí, naquele ano, ela convenceu todo mundo: “Vamos lá, vamos lá, a Dona Z1 vai começar a dar aula”. A gente pegou e fez um grupo desses amigos e fomos lá estudar, enfim, curiosidade total, né. Porque, na verdade, a minha busca, digamos assim, não era astrologia propriamente, porque eu nem conhecia o assunto assim, mas eu sempre dizia que eu queria trabalhar com pessoas, queria psicologia, queria coisas assim. E a astrologia veio preencher um espaço que foi muito mais até do que eu pensei, porque depois eu não continuei estudando, fiquei só na astrologia. Larguei o violino que eu estudava, fui largando as outras coisas que eu estudava e ficando só com a astrologia. (Entrevistada 3)

Já o entrevistado 5 respondendo acerca da dificuldade de comprovação de renda do ofício, argumentou: “Não tenho nada. Sou clandestino. Sou dos anos 60. Eu vivo à margem, sempre a margem”.

Cabe lembrar aqui que Dubar também sinaliza que as identidades são indicações referentes a contextos históricos e sociais. Por conseguinte, essas identidades são frutos de concepções sociais perscrutadas por leituras reflexivas que, no entanto, de quando em quando, revelam-se como fundamentos atemporais.

Em relação à valorização financeira, os entrevistados apresentam alguma heterogeneidade entre trabalhadores que participam do cotidiano de uma mesma ocupação. As repostas divergem desde a não valorização (principalmente por ser o Rio Grande do Sul um estado muito conservador em comparação com outros estados como Rio de Janeiro e São Paulo), passando pela inconstância sujeita ao profissional e à situação econômica da sociedade, até a satisfação econômica com a ocupação. A questão da forma de atendimento também variou desde consultas realizadas quase que exclusivamente de forma presencial, consultas realizadas na mesma proporção entre forma presencial e por meio da internet, e grande parte das consultas realizadas por meio da internet.

No entanto, um ponto em comum à rotina desses astrólogos é o grande número de horas de trabalho. Além do tempo de duração das consultas, com média entre uma hora e meia e duas horas, os profissionais necessitam tempo para a preparação e estudo dos mapas astrológicos que interpretarão bem como para a preparação de aulas e de material didático, no caso de também ministrarem cursos. E, excetuando aqueles cujos consultórios se localizam na própria residência ou nos arredores da cidade, alguns astrólogos consomem muitas horas deslocando-se a outras cidades para realização de atendimentos.

Três dos cinco astrólogos consultados adquiriram seu conhecimento técnico da área a partir de cursos ministrados por outros astrólogos, por outro lado, dois entrevistados apreenderam sua instrução de forma autodidata. No entanto, um desses astrólogos autodidatas, durante seu período de formação, exercia a função de calculista de um experiente profissional de astrologia, auxiliando esse especialista em todos os cálculos necessários às técnicas específicas desse domínio, ou seja, à elaboração de mapas natais, trânsitos, progressões e direções. Mesmo que esse entrevistado se reconheça como uma espécie de autodidata, sua proximidade a um versado perito supõe alguma supervisão especializada durante a fase inicial de sua vida profissional.

No entanto, mesmo que esses cursos tenham a docência de experientes profissionais, funcionam similarmente a grupos de estudos. A maioria não fornece certificado, e, quando há essa possibilidade, os atestados não estão submetidos a algum órgão que os validem e legitimem. Todos os entrevistados indicaram que o campo de conhecimento próprio da astrologia é, por essência, multidisciplinar, todavia as aulas são lecionadas por professores de astrologia, possivelmente ficando a cargo dos alunos instruírem-se e aprofundarem-se no ramo de outras ciências. Foi apontado por alguns entrevistados que uma formação realizada por cursos não é necessariamente mais adequada que uma formação autodidata, posto que o curso pode não ter uma qualidade de ensino satisfatória.

Claro que com isso eu não tô dizendo que não precise fazer curso. Hoje existem cursos a serem feitos. Mas o que eu observo, por exemplo, é aquela coisa, eu sou um sol em escorpião, o que eu observo são as pessoas reclamando muito dos cursos. (Entrevistada 4)

Contrariamente a esse ponto de vista, outros julgam que atividades de ensino são necessárias a fim de organizar e sistematizar o conhecimento bem como promover a discussão relevante na área:

O autodidata é assim. Ele dialoga com quem? Com ninguém, porque ele tá bebendo aquilo que ele tá lendo e assumindo aquilo como uma verdade. Então acho que tu pode sim. Acho interessante ler. (…) Já li várias coisas. Alguns autores que eu acho maravilhosos. Outros que eu simplesmente desconsidero no sentido de que não me diz nada. E, assim, a pesquisa em si, a observação em si, isso sim te faz um bom profissional. (Entrevistada 3)

Relatos existem no sentido de que há sindicatos e associações, sobretudo em outros estados, como Rio de Janeiro e São Paulo, responsáveis pela elaboração e aplicação de provas de proficiência. No entanto, a realização dessas provas não é pré-requisito obrigatório para o exercício profissional. Todos acreditam que as associações são positivas para a troca de experiências e conhecimento entre os pares, todavia muitos se mostraram apreensivos em relação a fiscalizações realizadas por sindicatos, entendendo que, no interior dessas aglomerações, também se desenvolvem lutas de poder e jogos políticos próprios.

Todos acreditam que a regulamentação da profissão traria benefícios, contudo, a forma desse benefício parece diferir e, por vezes, torna-se vaga. Os astrólogos mais jovens, que ainda têm grande parte da vida profissional a ser galgada, acreditam nesses benefícios como regras práticas de fiscalização e normas, que podem assistir o trabalhador em exigências burocráticas e fortalecer a sua autoestima. O mais jovem dos astrólogos entrevistados, o entrevistado 1, único a ter registro como microempreendedor individual, possuindo CNPJ como astrólogo, fala:

Eu acho que seria bom, porque teriam duas questões, dois problemas fundamentais de você não ser reconhecido como astrólogo, que são essas: primeiro, o que acontece com qualquer profissão, os picaretas, que não são astrólogos, se dizem astrólogos. Às vezes, por exemplo, nada contra nossa religiosidade e tal…, se você é um pai-de-santo, você lê um livro de astrologia e começa a se intitular astrólogo, e você acaba dizendo coisas que não têm nada a ver com astrologia. Ou você tem alguém, enfim, que quer ganhar dinheiro, se intitula astrólogo, não tem conhecimento, não tem formação, não tem base, não tem… E os erros dele são… Puxa vida! “Ah… Você foi para astrologia? Ah… Claro, isso não funciona! Isso não é reconhecido! O que você vai se meter com isso?”. Então acho que a regulamentação ou algum tipo de legislação nos protegeria dos profissionais que menosprezam a astrologia do ponto de vista social por que não funciona ou por que não é bom ou por que tiram, assim, o valor da astrologia. (Entrevistado 1)

Johann Heinrich Ritter

Já os astrólogos com muitos anos de experiência, veem a regulamentação como um aspecto positivo em um sentido geral, porém não tanto em relação a normas rígidas de organização prática da ocupação, posto que não acreditem que ocorram mudanças significativas. Apresentam dúvidas quanto às formas de regulamentação, pois expressam que mecanismos de controle idênticos a outras profissões liberais possam não surtir o mesmo efeito desejado para essa modalidade de trabalho.

Regulamentação? Não sei. Regulamentar… Astrólogo regulamentado… Isso é uma questão muito complexa, porque a astrologia foi banida das universidades em 1700, então ela foi banida do mundo oficial do conhecimento. Então a regulamentação não é simplesmente dizer: “Agora tu é um dentista. Vai trabalhar”. Não é assim. Foi banida e tem um stress com a sociedade. Eu acho que não contribuiria muito não. Ela ia continuar mais ou menos a mesma. (Entrevistado 5)

Te diria assim, mal comparando, seria como o jornalismo. O jornalismo já foi uma profissão, já exigiu formação técnica. Danou-se. Foi tudo pelo ralo e acabou não funcionando. Então acho que é a mesma coisa com astrologia. Então, claro que tu precisa ter conhecimento, tu precisa saber, tu precisa estudar. (Entrevistada 4)

A diretriz da ocupação demonstra estar fundamentada na prática laboral. Saber interagir com pessoas e ouvi-las é apontado como requisito essencial para exercer o ofício, visto a alegação de que somente se aprende, de fato, ao atendê-las a partir da experiência. Por consequência, o retorno dos clientes atendidos figura ser entendido como um resguardo ao profissional no sentido de ter a satisfação do trabalho bem feito e do dever cumprido. Todos os profissionais entrevistados para essa pesquisa mantêm muitos dos clientes que os consultam desde o início de sua vida profissional

(…) Principalmente quando tu vai lidar com gente, porque, além de dominar a astrologia, além disso, tu tem que ter o conhecimento de como tu vai atender uma pessoa, o que ela tá buscando, como tu vai interagir com ela. São coisas que tu não aprende. Eu tenho alguns livros que falam como atender, mas nenhum deles entra exatamente nisso que falei no início, na vivência. (Entrevistada 4)

Outra particularidade referente à identidade profissional do grupo está ligada à questão do sigilo em relação ao conteúdo das consultas e à reserva da identificação dos clientes. Essa questão pode representar o “saber condenável” de informações sigilosas entre o vínculo profissional-cliente dessa ocupação. Assim, esses trabalhadores estariam aptos a “trocarem signos de transgressão por marcas de reintegração social e de reabilitação moral”. Considerando que a reflexão de Dubar que a justificação científica, nessas circunstâncias, não passaria de uma cortina de fumaça, Tartuce concorda que “a questão da qualificação transforma-se, principalmente, em função de fatores morais e políticos presentes no julgamento que a sociedade faz sobre a qualidade dos trabalhos necessários à sua reprodução”.

Todos os entrevistados também concordaram que, por falta de conhecimento do simbolismo próprio da astrologia, uma parte da população frequentemente associe esse ofício à magia ou dons sobrenaturais. Admitem que o fato manifesta algum preconceito da sociedade para com a ocupação. No entanto, esses trabalhadores não relatam sentimentos de constrangimento ou a experiência de estigmas pessoais.

Mas você vai reconhecer que certas coisas na sociedade que são óbvias. Você é médico e você vai fazer uma conta em banco, se você é engenheiro… Então têm coisas que obviamente… Se você for médico, você vai, na segunda vez, e já vão te chamar de doutor, vai ter cafezinho, então tem coisas…, mas acho que isso é geral, isso é da cultura, da nossa sociedade. Não vejo que tenha um preconceito geral ou qualquer impedimento que vai te tratar menos. Simplesmente é uma coisa que a pessoa não conhece muito bem, mas tem tantas outras profissões que as pessoas não conhecem muito bem, que são novas. Tem tanto curso novo, que as pessoas não conhecem. Acho que é só mais uma dessas categorias novas. (Entrevistado 1)

O que se observou, porém, foram narrativas de experiências com alguns clientes habituais que preferem manter em total discrição a informação de que recorrem à astrologia e de que fazem uso dos serviços de um astrólogo. Aqui cabe pensar, em vez do astrólogo no papel de estigmatizado em relação ao seu ofício, um tipo de cliente dessa ocupação que sente o sofrimento do estigma. Goffman estabelece que a pessoa que representa um dos papéis entre “estigmatizado” e “normal”, pode necessariamente representar o outro, já que ambos possuem a mesma caracterização mental, sendo esta o arquétipo da sociedade.

Assim, expostas essas reflexões, pretendeu-se analisar aspectos pertinentes ao ofício do astrólogo relatados pelo grupo entrevistado. Todas as questões apresentadas colaboram para o entendimento de como é formada a identidade profissional desse trabalhador, ainda tão pouco sondado pela Sociologia. Produções de autores como Dubar e Goffman auxiliam nessa compreensão, posto que denunciam mecanismos importantes na construção da identidade e nos processos de interação social. Não se imagina que o tema esteja esgotado, porquanto muito mais dados existem a serem observados.

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Conclusão

A questão das identidades profissionais está no cerne da Sociologia do Trabalho, dado que as atividades laborais recompensadas pecuniariamente e afirmadas socialmente integram de forma substancial um ponto relevante da vida moderna. As identidades social e pessoal determinam que a subjetividade também deva ser apreciada na investigação da identidade profissional, posto que o trabalho é o cerne de vias pelas quais se fortalecem ferramentas de pertencimento e de reconhecimento de si. À vista disso, a objetividade e a subjetividade necessitam dialogarem a fim de que a reflexão de si mesmo permaneça coesa, não sendo apenas o exame objetivo satisfatório para conceber as identidades do trabalho.

O trabalho tem um valor subjetivo além das apresentações de suas formas objetivas. A assimilação com a identidade profissional não faz parte do sujeito apenas em seu ambiente de trabalho, porquanto se arrasta para outras áreas da vida do indivíduo, visto que o ser humano é composto pela integração de um sem número de fatores na construção de sua personalidade.

O conceito de identidade adotado por Dubar contempla a acepção que o sujeito faz de si e a interpretação que outros agentes fazem desse ator e encontra-se sublinhada pelo dualismo dos transcursos relacional e biográfico. O que pode ser constatado por meio da análise das diferentes biografias dos astrólogos entrevistados e do processo relacional que mantêm entre os pares, sociedades e clientes.

Em relação aos objetivos desse trabalho, constatou-se que, de fato, há uma aquisição de conhecimento para a apreensão do simbolismo intrínseco ao domínio da astrologia. Verificou-se também que o desenvolvimento dessa capacitação é feita de forma empírica e informal, posto que sua assimilação ocorre de maneira autodidata ou por meio de cursos os quais não fornecem certificados ou, caso forneçam, não estão submetidos à fiscalização de uma entidade controladora.

Desse modo, confirmou-se que, além da acumulação informal de conhecimentos, há o compartilhamento de hábitos de trabalho e, sobretudo, de uma “exigência do trabalho bem feito” por parte dos trabalhadores inquiridos. Essa investigação também atestou que os diversos processos de socialização sedimentam a identidade do indivíduo por meio de processos estáveis e provisórios, individuais e coletivos, subjetivos e objetivos e biográficos e estruturais.

Embora a identidade profissional esteja sendo permanentemente construída pelo resultado de sucessivas socializações, algumas características, no interior do grupo analisado, foram percebidas de forma constante entre os entrevistados. A identidade desses trabalhadores, dentro do conjunto em questão, representa ser construída pela prática profissional, entendida como um campo de conhecimento multidisciplinar, trespassada pela noção de sigilo, pela sensibilidade para interagir com pessoas e ouvi-las e pela noção do dever laboral bem feito.

A hipótese de que, em determinadas circunstâncias, os astrólogos sejam suscetíveis a formas de estigma e constrangimento em relação à sua ocupação não se confirmou. Apesar de perceberem que, de fato, a sociedade, no geral, aparentemente por falta de informação e desconhecimento das técnicas próprias do ofício, apresenta alguma forma de preconceito relacionado à astrologia, associando-a ao misticismo e à superficialidade, esses trabalhadores não se sentem rejeitados tampouco relatam episódios de discriminação.

Contudo, foi verificado que uma pequena parcela de pessoas que faze uso dos serviços desses profissionais, supostamente, manifestaria alguma preocupação em admitir que são clientes contumazes. Esse fato, talvez, possa ser examinado a partir da perspectiva do “desviante normal” de Goffman, na qual o papel de “normais” e o papel de “estigmatizados” seriam partes do mesmo complexo. Dessa forma, a manipulação do estigma seria uma característica geral da sociedade, ocorrendo sempre que há normas de identidade.

Assim, não obstante os resultados apresentados por esse estudo, sugere-se a realização de uma exploração de campo a partir do olhar do consulente a fim de que a compreensão da identidade desses profissionais possa ser estabelecida, visto que o processo relacional cliente-astrólogo está igualmente no âmago da construção da identidade do trabalhador.

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