Astrologia na Ciência e Filosofia

A Ciência da Astrologia

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A Ciência da Astrologia e as Escolas de Mistérios

Ricardo Lindemann

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O que é Astrologia

Astrologia é uma palavra de origem grega, que significa, literalmente, o “estudo (ou Ciência, dependendo como traduzimos o termo grego logos dos astros” astron, mas originalmente se refere à influência dos astros sobre nós, seres humanos, ou sobre os seres vivos de um modo geral, diferentemente da Astronomia que, como a palavra sugere, nómos em grego quer dizer lei, a Astronomia é, literalmente a lei dos astros, referindo-se à lei de movimento que os astros descrevem no céu.

A palavra astro é um termo comum que abrange todos os corpos celestes naturais, com ou sem luz própria (estrelas, planetas, satélites, asteroides, cometas, etc.) Emma Costet de Mascheville, minha professora, ou Dona Emy, como carinhosamente a chamávamos, costumava comparar a Astronomia como a anatomia do céu, e a Astrologia como a fisiologia do céu. A Astrologia, segundo ela dizia, abrange um sentido da vida que é influenciada através destas energias que os astros irradiam, ou de alguma forma nos influenciam através do seu movimento, enquanto que o mero posicionamento dos astros e suas leis de movimento vêm a ser, originalmente, o estudo da Astronomia.

Posteriormente, porém, definiu-se a Astrologia como o estudo da relação entre os fenômenos terrestres e os celestes, incluindo todos os seres nesta Terra, quer essa relação possa ser por influência direta, por sincronicidade ou de qualquer outro tipo. A Astronomia também ampliou, posteriormente, sua esfera de atuação, tornando-se a Ciência que estuda as posições relativas, os movimentos, a estrutura e a evolução dos astros.

Outra palavra cujo uso se descaracterizou, em alguma medida, é a palavra Horóscopo. A palavra Horóscopo, derivada da grega Horoskopeo, sendo que o verbo grego skopein significa observar, examinar. Portanto, Horóscopo ou horoscópio significa, literalmente, observação da hora, assim como microscópio é a observação do pequeno, telescópio é a observação do distante, periscópio é a observação do que está em torno, e assim por diante.

Horoscópio, portanto, a observação da hora como uma espécie de fotografia do céu, mas devido ao mau uso e desgaste da palavra, hoje nós usamos mais o termo Carta Astral Natal ou simplesmente Mapa Astral, para designar aquela fotografia, por assim dizer, da posição dos astros no céu no horário de nascimento do indivíduo em relação às linhas de latitude e longitude do lugar onde ele nasceu da Terra.

Este contexto é importante porque em torno de 1930, com a queda da bolsa em Nova Iorque, criou-se, a título apenas de diversão, uma coluna de jornal que tradicionalmente passou a se chamar Horóscopo, mas que na verdade não levava em consideração o horário de nascimento das pessoas. Por conseguinte, deveríamos chamá-la de “Mesóscopo”, como sugeria Dona Emy, pois só leva em consideração o mês de nascimento. Outra alternativa seria chamá-la de “Heliologia”, pois só leva em consideração o signo do sol Helios, que é o signo do mês em que a pessoa nasceu; para diferenciá-la da verdadeira Astrologia, que seria o estudo dos diversos astros ou a observação da hora do nascimento do indivíduo, o verdadeiro Horóscopo, o Mapa Astral, a “fotografia” com a posição dos diversos astros naquele momento.

As pessoas às vezes têm uma noção muito errônea de Astrologia porque veem, por exemplo, numa dessas colunas de jornal sobre o signo de Áries: “Hoje o signo de Áries ganhará na loteria”. 1/12 dos brasileiros deveriam ganhar na loteria ao mesmo tempo, portanto o prêmio seria irrisório. Verificamos, assim, que não é possível dividir a humanidade apenas em 12 destinos, isso surge apenas de uma má compreensão da Astrologia gerada por essas colunas populares de jornal.

A Astrologia serve primariamente para interpretar num nível individual o Mapa Astral da pessoa, e coletivamente ela pode dar noções gerais das tendências de um país, ou até da humanidade ao longo de uma Era, que é um período de 2.150 anos, como, por exemplo, na Era de Aquário na qual estaríamos ingressando.

Talvez a forma mais simples de nós nos aproximarmos desse conceito seja exemplificando, como Dona Emy gostava de fazer, a partir de uma grande obra de Astrologia chamada a Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Nós temos aqui um símbolo dos doze signos e no centro a figura do Cristo. Então, cada um dos doze Apóstolos corresponderia a um signo, mas o Cristo não deve ser visto como o décimo terceiro signo, não é este o caso, senão que, um dos pontos importantes para nós é compreender que o Cristo representa o ponto de fuga de todas as linhas de perspectiva do mural, que vão justamente convergir na cabeça do Cristo, simbolizando, portanto, que de alguma maneira ele representa o Centro de todo o Zodíaco, ou seja, o ponto mais sagrado do mural, o ponto em torno do qual tudo o mais gira. Se nós observarmos, assim, a posição do Cristo é totalmente central e nele nós poderíamos pretender caracterizar os três pontos das aberturas iluminadas ao fundo, ou melhor dizendo, talvez três portas, porque nós podemos ver que o mural original está caracterizando aberturas ou portas iluminadas ao fundo em contraposição às janelas opacas laterais. Então, essas três aberturas ou portas ao fundo são aquelas pelas quais passa a luz do Sol.

O Cristo está exatamente no meio, na posição Equinocial. Portanto, ele representa a posição de equilíbrio. Temos aqui as quatro estações simbolizadas, da direita para a esquerda: a primavera, o verão, depois Cristo, no Centro, que representa a posição do Equinócio Outonal e por fim o outono e o inverno.

Então, são quatro grupos de três Apóstolos simbolizando os quatro grupos de três signos que caracterizam o Zodíaco Tropical, as quatro estações do ano, cada uma durando três meses. Esta consideração geral passa a se tornar cada vez mais interessante quando nós observamos as mãos de Jesus Cristo no mural: com a mão esquerda ele dá, com a mão direita ele recolhe. Então, nós vamos verificar que na verdade, das estações do ano, na primavera e no verão o Sol se doa em luz e calor e no outono e no inverno, de alguma forma, proporcionalmente, a luminosidade do Sol se recolhe. Assim temos esse gesto das mãos a simbolizar uma posição de imparcialidade da Divindade perante a Natureza que doa de um lado e recolhe aquilo que ela mesma doou do outro, simbolizando que a Divindade se manifesta de forma equilibrada, imparcial, como se fosse uma contabilidade cósmica, por assim dizer, que precisaria fechar em zero. Portanto, quando a Divindade cria o “mais um”, tem que criar o “menos um”, quando a Divindade cria o “mais dois”, tem que criar igualmente o “menos dois”, e assim por diante. Tal é o caso, usando uma linguagem mais científica e atual, da teoria de conservação da energia, de modo que a integral ou soma final seja zero, sem deixar resíduo.

Tal símbolo, portanto, é muito importante, pois nenhum signo é melhor do que o outro, todos os signos são assim, complementares. Esse é o ponto básico da teoria de Emma Costet de Mascheville, nossa professora, em seu livro Luz e Sombra, cuja leitura nós recomendamos. Neste sentido, foi ela quem descobriu essa correlação da Astrologia com a Última Ceia de Leonardo da Vinci, ou seja, dos doze signos com os doze apóstolos.

Obs: Esta (re) descoberta da relação astrológica com a Última Ceia de Leonardo da Vinci foi feita pelo astrólogo de origem russa chamado Nicola Sementovsky Kurillo.

César Augusto – Astrólogo

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Outro ponto que gostaríamos de salientar é que a sombra não existe por si mesma senão como ausência de luz; diz até a Escritura que na presença da luz as trevas em luz se transformam. Da mesma forma é um princípio importante para nós, numa análise teosófica da Astrologia, sustentar que o mal não existe por si mesmo senão como o bem adormecido que não teve ainda oportunidade de despertar ou de desenvolver-se. Acrescentaríamos ainda o conceito de que o vício não existe por si mesmo senão como uma virtude em evolução, em desenvolvimento, uma virtude que ainda não teve o tempo de desabrochar, que não teve oportunidade de manifestar sua potencialidade evolutiva; todo ódio é assim apenas um amor não resolvido. A ideia de que o vício é uma virtude em formação dá um colorido completamente diferente à ideia de qualidade e defeito, como dizia um amigo meu; “Defeito quem tem é máquina”.

Então nós estamos aqui pretendendo demonstrar a vocês, que de certa maneira os doze signos representam correlações de polaridades opostas, e existe toda uma simbologia astrológica que Carl Gustav Jung valorizava, ao afirmar: “A Astrologia merece o reconhecimento da Psicologia, porque a Astrologia representa a soma de todo o conhecimento psicológico da antiguidade.'” E nesses arquétipos, nesses símbolos que os signos estão a representar nós vamos ter as polaridades da mente humana.

Talvez, quem sabe a melhor forma de nós desenvolvermos o assunto seja dando o exemplo do Eixo primeiro do Zodíaco Tropical que é chamado Áries – Libra. Então veremos que neste mural Simão está representando o signo de Áries, enquanto João representa o signo de Libra. Nesse sentido, pergunto, o que é melhor ao andar de bicicleta: Cair para o lado esquerdo ou cair para o lado direito? Suponho que o melhor seja não cair. Quando nós temos duas polaridades opostas a verdade não está apenas numa delas, as duas são complementares, talvez nós tenhamos a metade da verdade em cada lado.

É um princípio fundamental da filosofia hermética do antigo Egito, oriunda de Hermes Trismegisto, também chamado pelos Egípcios de Toth, o princípio ou grande axioma de “Como em cima; assim embaixo”. Ele foi extraído da Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegisto e é talvez o princípio básico de toda a Astrologia, é chamado genericamente de Lei da Correspondência ou Princípio da Correspondência. E o que ele pretende corresponder? Justamente que há uma relação entre o Homem Celeste e o Homem Terrestre.

Nós podemos ver isso neste diagrama que mostra a correlação dos doze signos do Zodíaco, seguindo a ordem com as doze partes do corpo humano. Então, a cabeça corresponde a Áries; o pescoço corresponde a Touro; os braços e os pulmões correspondem a Gêmeos; o estômago, o esôfago e as glândulas mamárias correspondem a Câncer; o coração corresponde a Leão; os intestinos e o fígado correspondem a Virgem; os rins correspondem a Libra; os órgãos sexuais correspondem a Escorpião; os quadris e as coxas correspondem a Sagitário; os joelhos, os ossos e a pele correspondem a Capricórnio; as pernas e os tornozelos correspondem a Aquário, até os pés que correspondem a Peixes.

Se nós formos assim observar a pintura de Leonardo da Vinci (1452 – 1519), chamada Cenáculo ou Última Ceia, que na verdade é um afresco, um mural pintado no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, que se encontra na cidade de Milão, na Itália, nós vamos verificar que este mural dá um destaque para a cabeça de Simão que representa Áries e está na cabeceira da mesa e pode-se observar também que as mãos dele estão em posição de comando em contraposição ao signo de Libra, representado por João que tem a cabeça inclinada e as mãos cruzadas.

É verdade que o mural original, que nós aí vemos, está afetado pelos microorganismos que o atingiram, e por isso a obra já não tem toda a beleza da época em que ela foi pintada (1495 – 97). Ela sofreu danificações quando o mencionado refeitório foi transformado em estábulo pelos soldados franceses em 1796. Por outro lado, por ser um mural esta obra se eternizou, ou pelo menos teve mais condições de ser preservada do que talvez uma tela pintada a óleo que pode desaparecer mais facilmente, pegar fogo ou até ser roubada, etc. Infelizmente fizeram até uma porta para ligar o refeitório à cozinha, e para tal destruíram a parte da parede onde estavam pintados os pés de Cristo.

Mas o que interessa é que Áries está ali representado com as mãos em posição de comando e com a cabeça exposta à cabeceira da mesa. Em seguida, Judas Tadeu representa Touro com uma concentração de luz no pescoço, e logo depois vemos Mateus com os braços em destaque, caracterizando, como nós vimos na ilustração do Homem Celeste, exatamente a mesma sequência da direita para a esquerda, seguindo assim a ordem dos signos do Zodíaco.

Portanto, nós não estamos aqui pretendendo dizer que há uma relação de conexão meramente acidental ou casual, e sim que Leonardo da Vinci tinha a intenção de deixar uma mensagem astrológica nesse mural, ainda que velada em forma de pintura artística. Naquela época, na virada do século XV para o XVI, vigorava ainda a Santa Inquisição consequentemente eu lembraria que no dia 17 de fevereiro do ano de 1600 Giordano Bruno foi queimado na fogueira da Santa Inquisição até a morte, em praça pública, em Roma, no Campo de Fiori, porque ele acreditava na onipresença de Deus e sustentava a existência da vida em mundos inumeráveis, como não acreditava na existência de vida só no planeta Terra, antes, ele sustentava que não seria digno da grandeza de Deus se só houvesse vida na Terra.

Naquela época, falar de Astrologia não era um assunto tão simples, e o cuidado que Leonardo da Vinci teve neste mural foi, justamente, pintá-lo de uma forma cifrada de tal maneira que não fique evidente para o leigo tratar-se de uma obra de Astrologia, muito pelo contrário, parece ser apenas a Sagrada Eucaristia na quinta-feira santa, no momento em que Jesus dividia o pão com os seus discípulos, e abençoa também o vinho.

No Cristianismo, todo o simbolismo da missa inicia com a Sagrada Eucaristia a partir da quinta-feira santa. Da Vinci escolheu um dos mais sagrados símbolos cristãos para expressar através dele sua mensagem astrológica para as futuras gerações. Alguns cristãos resistem à Astrologia e à Ciência Astronômica, que naquela época ainda não estavam separadas, porque elas foram trazidas novamente à Europa medieval pelos árabes juntamente com o sextante, o astrolábio, a bússola, etc., que tornaram possível o descobrimento das Américas. Porém, alguns esquecem que a maneira como o nascimento de Jesus foi descoberto pelos chamados Reis Magos, que eram evidentemente astrólogos persas, foi pelo cálculo da posição da Estrela de Belém. Por isso, o Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro, do qual tive oportunidade de ser um dos membros fundadores, escolheu o dia 6 de janeiro, dia dos Reis Magos, como a data nacional do dia do Astrólogo, porque foi assim, através da Astrologia, que o nascimento de Jesus foi descoberto.

Johannes Kepler (1571-1630), o grande Astrônomo e Astrólogo da corte alemã, o último que tinha profissionalmente sido Astrônomo e Astrólogo simultaneamente, na história dos Grandes Cientistas, sustentava que a Estrela de Belém era na verdade a conjunção de Júpiter com Saturno, ou seja, a relação do planeta da graça com o planeta do sacrifício, os dois em linha, em conjunção, proporcionariam um brilho extraordinário no céu, a soma do brilho destes dois planetas, que resultava mais tarde chamada de Estrela de Belém.

Assim também Edmond Halley (1656-1742), o descobridor do cometa que levou o seu nome, questionou as bases da Astrologia a Sir Isaac Newton (1643-1727), e ele teria respondido: “Sir, I have studied it, you have not”, “Senhor, eu a tenho estudado, o senhor não”. A Astrologia não é uma questão de crença, por isso esse livro inicia seu título com “A Ciência da Astrologia”, e juntos vamos investigar se há ou não correlação entre os fenômenos celestes e os terrestres.

Vejam então, como o signo de Câncer é representado por Filipe, por não poder, evidentemente, num homem caracterizar as glândulas mamárias, ele tem um gesto maternal de quem traz a si, ao peito, em contraposição ao seu oposto que é Santo André que representa Capricórnio e tem as mãos espalmadas. Dona Emy chamava o primeiro de ‘Vinde a mim’ e o segundo de ‘Sai de mim’, o primeiro simboliza o calor do verão e o segundo o frio do inverno no Hemisfério Norte, de onde nos vem essa simbologia zodiacal greco-romana.

Vamos verificar nessa sequência que Leão rege o coração e temos então o Apóstolo Tiago, aqui, possivelmente Tiago Menor – essa é uma das possíveis áreas de discrepância em saber se é Tiago Maior ou Menor – mas o fato é que ele tem aquela postura de expor o coração. Assim, o mural vai gradualmente demonstrando a exata sequência da direita para a esquerda que nós havíamos justamente indicado na tal correspondência entre o Homem Celeste e o Homem Terrestre. E nós vamos ver que o único apóstolo que tem os pés na luz é justamente o que representa o signo de Peixes, então observamos ali como Bartolomeu é o único que tem os pés na luz.

Evidentemente que isso não está de todo nítido no original porque essa é uma das áreas que está na fase de reconstituição, mas porque ele está de pé na cabeceira da mesa pode-se, com as cópias mais próximas da época, verificar que é o único dos apóstolos que tem os pés na luz, como se pode ver na cópia do mural que foi reconstituído na capa do Luz e Sombra de Dona Emy.

Eu citaria uma expressão de Emma Costet de Mascheville: “Através do estudo da Astrologia aprendemos a não culpar, mas a compreender, a não ser infelizes ou revoltados, mas a conhecer a nós mesmos e ao nosso próximo, encontrando a harmonia da vida e religando-nos à Fonte de Luz.”

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O Princípio da Polaridade

Passaremos a considerar o Princípio da Polaridade conforme a tradição hermética: “Tudo é duplo, tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”. Então, quando se cria o mais um tem que se criar o menos um, quando se cria o mais dois tem que se criar o menos dois, para que o equilíbrio possa ser preservado e a soma possa ser zero. A Divindade representa o elemento gerador de todos os pólos, no entanto, verificaremos que os opostos são de alguma forma idênticos em natureza, como seria o caso do cubo de gelo e do vapor d’água, os dois são água essencialmente, mas o que os diferencia é o grau da temperatura, e por isso um pode ser convertido no outro.

Esse é o grande ponto da alquimia mental a ser utilizado em práticas de meditação, que o signo de Áries procure desenvolver as virtudes de Libra e que o signo de Libra procure desenvolver as virtudes de Áries, para que assim os dois possam encontrar aquele “Cristo em vós a esperança de glória”, o ponto central no mural de Leonardo da Vinci.

O Princípio da Polaridade enfatiza “que os extremos se tocam, que todas as verdades são meias-verdades e que todos os paradoxos podem ser reconciliados.” É curioso que o fogo queime tanto quanto o gelo em temperaturas extremas, que o quente e o frio acabem ambos nos queimando. Eu disse certa vez a um amigo brasileiro que ia visitar a China: “Se tu fores mais longe, acabarás voltando pelo outro lado.” Outro exemplo é o de como o número de mortos nos campos de concentração pelas ordens de Hitler na II Guerra Mundial é tragicamente semelhante ao dos eliminados pelas ordens de Stalin nas prisões da Sibéria. Ou seja, a conduta da extrema direita representada pelo primeiro é tragicamente semelhante, nos seus resultados extremos, à conduta da extrema esquerda representada pelo segundo. Como dizia Krishnamurti: “A esquerda, afinal de contas, é a continuação da direita, sob forma modificada. Se a direita tem seus fundamentos nos valores sensoriais, a esquerda não é mais do que uma continuação dos mesmos valores com diferença apenas de grau ou de expressão. Portanto, nos extremos as condutas se assemelham, ou seja, os extremos se tocam nas polaridades.

Nós, porém, não queremos encontrar essa correspondência pelos defeitos ou vícios, mas sim pelas virtudes, pela complementaridade….

…O Cristo no centro do mural é um dos símbolos da Ultima Ceia de Da Vinci que talvez seja o mais inspirador, porém ele não deve ser confundido com nenhuma das doze partes ou signos, porque ele representa o ‘Todo integrado, o mais sagrado, ele é na verdade, a soma dos doze. Existem três janelas por onde passa a luz, sendo que o Cristo está exatamente posicionado no centro.

Agora, se observarem que é precisamente isso que acontece no nascimento do Sol, entre os dois solstícios de inverno e verão, nos dias 21 de dezembro e 21 de junho no hemisfério norte, ou o inverso no sul, e a posição equinocial que se dá na bissetriz do ângulo exatamente no meio, nós verificaremos que os dias 21 de março ou 23 de setembro, equivalentes à posição central, do nascimento do Sol, sempre foram consideradas, nas Tradições e Mistérios, com as datas mais sagradas na Grécia, no Egito, quando o Sol nascia no centro do Templo de Luxor, Karnak, quando ele nascia orientado pela posição equinocial exatamente no Leste, em Stonehenge, este era o dia da Iniciação.

Então, a posição do Cristo neste magnífico trabalho de Leonardo da Vinci intitulado o Cenáculo ou a Última Ceia, coloca o Cristo na posição mais sagrada do Templo e acima de tudo ele está a simbolizar que a posição sagrada dentro de nós está no meio caminho entre os opostos. Também o Buda dizia que o caminho que leva ao Nirvana, o caminho do meio, o Magga Satya.

 De modo que neste sentido ressaltamos o Princípio da Polaridade que diz que “na Natureza tudo é duplo, tudo tem polos, tudo tem o seu oposto”. Esse é um princípio do hermetismo, que o igual e o desigual são a mesma coisa, como de certa forma o gelo e o vapor d’água, ambos são água, um no estado sólido outro no estado gasoso, e “os opostos são iguais na Natureza, mas diferentes em grau”, justamente é o grau da temperatura que distingue o gelo da água, os extremos se tocam, todas as verdades são meias-verdades e por isso todos os paradoxos podem ser reconciliados.

Nosso primeiro objetivo é tentar reconciliar esses opostos, e o exemplo mais vivido que eu poderia apresentar, se nós apenas percebêssemos que no mural da Última Ceia estão representadas as quatro estações do ano. A primavera representada no primeiro grupo de três apóstolos à direita. Na sequência o verão, o outono e o inverno nos outros três grupos de três apóstolos, sempre da direita para a esquerda.

E que isso corresponde ao recuo aparente do Sol, quando na verdade é a Terra que está dando a volta no Sol, mas se nós projetarmos como o Sol é visto ao longo das estações do ano, veremos que há um recuo aparente projetado nas constelações. Assim, na Astrologia, a primavera e o verão projetam a declinação solar no Hemisfério Norte, e depois o outono e o inverno, declinação solar no Hemisfério Sul.

O Cristo simboliza o equilíbrio harmonioso e imparcial da Justiça Divina, pois com a mão esquerda ele se doa e com a direita ele recolhe, numa posição de equilíbrio como o Sol se doa em luz e calor na primavera e no verão, e em alguma medida proporcionalmente se recolhe no outono e no inverno, quando a Natureza vive daquilo que acumulou num período mais iluminado e produtivo.

Então, na primavera se produzem as luzes, que vão nutrir as folhas para a fotossíntese e o florescimento, para depois surgirem os frutos, quando aquelas flores foram assim fecundadas na primavera, surgem os frutos no verão e depois no outono caem as folhas, e por último no inverno, se vive daquilo que se acumulou nas estações mais iluminadas até que surja uma nova primavera. E essa ideia, cíclica e rítmica da vida, é outro dos princípios básicos do hermetismo.

Também na tradição oriental podemos encontrar: “O mal não tem existência per se e é apenas a ausência do bem; e existe apenas para aquele que é transformado em vítima sua… A Natureza é destituída de bondade ou maldade: ela segue apenas leis imutáveis quando dá vida e alegria ou manda sofrimento e morte, destruindo o que havia criado. A Natureza tem um antídoto para cada veneno, e suas leis possuem uma recompensa para cada sofrimento… O verdadeiro mal surge da inteligência humana e sua origem está inteiramente no homem que raciocina e se dissocia da Natureza… a origem de cada mal, seja pequeno ou grande, está na ação humana, no homem, cuja inteligência faz dele o único agente livre da Natureza”.

A aplicação prática desse antídoto, segundo o Yoga, é sintetizada por Patañjali: “Quando a mente é perturbada por pensamentos impróprios, a constante ponderação sobre os opostos é o remédio”.

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