Astrologia na História e Mitologia

O Conhecimento Europeu acerca da Natureza

A Filosofia Natural e as Crônicas elaboradas na Nova Espanha do século XVI

Márcia Helena Alvim*

*Mestre em Geociências. Doutoranda do Programa de Ensino e História das Ciências da Terra do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas

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As narrativas missionárias elaboradas na Nova Espanha do século XVI apenas podem ser entendidas, como toda fonte documental, a partir da consideração do momento histórico em que foram produzidas. Assim, compreender o conjunto de conceitos relacionados ao âmbito intelectual europeu deste período, denominado de Filosofia Natural, se apresenta como recurso essencial para o entendimento destes textos, pois nos conecta com o universo cultural e de pensamento dos missionários que narraram os costumes e crenças indígenas da Nova Espanha.

Durante a Idade Média e início da Moderna, a magia natural e a astrologia integravam o conjunto das disciplinas da filosofia natural e possuíam um status valorizado entre as demais especialidades do conhecimento, como a matemática, a medicina, a fisiologia, a farmacologia, a navegação, a cartografia, a mineralogia, a metalurgia, a mecânica, a cinemática, a ótica e a música.

Estas práticas adivinhatórias e o conhecimento sobre a natureza estavam conectados ao hermetismo, ou seja, à capacidade de desvendar o segredo da escrita e dos símbolos. Por volta de 1450, a obra de Hermes Trismegisto foi traduzida para o latim por Marsílio Ficino, o que levou à difusão destes manuscritos, o Corpus Hermeticum, por toda a Europa Ocidental. Acreditava-se que estes escritos haviam sido elaborados por um grande sacerdote egípcio, Hermes Trismegisto. Entretanto, o Corpus Hermeticum foi provavelmente produzido entre os séculos I e III d.C. por vários autores.

Após a tradução deste tratado, a magia e os demais sistemas adivinhatórios experimentaram um período de apogeu. De acordo com Rossi,

(…) O grande renascimento da magia no final do século XV e no século XVI está ligado a estes textos (…) Toda a grande herança mágico-astrológica do pensamento antigo e da Idade Média estava inserida em um quadro platônico-hermético.

A magia natural e as práticas adivinhatórias, como a astrologia, foram fundamentais para o universo medieval e da Renascença, estabelecendo formas legítimas de se conhecer e explicar o mundo de acordo com a cultura daquele período. A concepção mais importante da magia natural consistia na crença de que fenômenos ocultos da natureza tinham o poder de afetar o mundo e as pessoas, gerando acontecimentos elucidados apenas pela prática da magia. Por isso, o mago deveria conhecer profundamente os corpos e elementos da natureza, na tentativa de manipulá-los.

A Igreja católica condenava a prática da magia. O aumento crescente no número de curandeiros e mágicos, e a contínua procura dos fiéis por estes profissionais explica a constante perseguição da Igreja a estas práticas. De acordo com Thomas,

“(…) na virada do século XVI (…) os bem informados achavam que o número de magos era mais ou menos equivalente ao de párocos.”. Essa citação nos faz acreditar que a magia deveria ser uma forte concorrente da religião cristã, não apenas para as classes menos privilegiadas, mas inclusive para a nobreza, pois muitos nobres e reis possuíam seu mago e astrólogo particular.

A própria Igreja católica sempre se valeu da crença em ações e poderes sobrenaturais. Por exemplo, o emprego da água benta para evitar acidentes ou infortúnios, a crença na proteção dos amuletos e talismãs, ou a prática das orações e a confiança no poder dos santos. Desta forma, como considera Thomas, o que chancelava os poderes sobrenaturais como lícitos ou não era a presença ou ausência da Igreja. As situações que envolviam a prática da magia eram aceitas quando se tornavam importantes para a religião cristã, p. ex., para santificar um dos seus membros. Mas essas mesmas ações eram consideradas diabólicas quando realizadas fora do âmbito cristão. Thomas assegura que a Igreja medieval foi um repositório de poderes sobrenaturais, distribuídos aos fiéis para enfrentarem os problemas cotidianos.

Durante todo o século XVI o clero tentou intensamente afastar seus fiéis das práticas sobrenaturais e ocultas, usando principalmente o confessionário e os sermões. Durante a Reforma Religiosa, a crítica à magia foi mais enérgica devido ao ataque dos protestantes a qualquer prática mágica, inclusive àquelas relacionadas à religião católica. De acordo com Thomas,

(…) os protestantes e católicos de meados do século XVI eram igualmente veementes na sua hostilidade para com a magia popular e ambos a denunciavam em termos que teriam sido aprovados por seus predecessores medievais.

Se analisarmos as diferenças conceituais e de princípios existentes entre magia e Igreja católica, poderemos entender melhor a condenação desta às práticas adivinhatórias. O fundamento do conhecimento mágico consistia na crença de que o homem poderia controlar a natureza, conhecendo suas leis sobrenaturais. A magia não se relacionava ao conhecimento e observação da natureza, mas era considerada uma força pré-existente, liberada pela arte mágica. A pessoa que exercia a magia também deveria possuir poderes ocultos, místicos. Já a religião cristã assegurava que todos os infortúnios eram provações ou castigos divinos, e que os acontecimentos da natureza e da vida humana estavam relacionados à vontade e aos desígnios divinos. Desta forma, somente o poder de Deus poderia curar um enfermo ou conceder alento às infelicidades e às desventuras. Essa diferença conceitual foi o mais importante motivo que levou a Igreja cristã a condenar e perseguir os praticantes de magia e das previsões sobre o futuro.

Desta forma, as práticas adivinhatórias foram condenadas pela Igreja, na mesma proporção em que estavam amplamente disseminadas na sociedade européia. A Reforma Religiosa foi um catalisador importante para o combate da Igreja a estas práticas. Se considerarmos as sociedades nativas da América que, além da prática de sistemas adivinhatórios possuíam religião e costumes não-cristãos, o empenho missionário foi muito mais profundo em delinear estas práticas, divulgá-las e extirpá-las. Por isso, estes temas são freqüentes nas crônicas missionárias do século XVI.

Em relação ao conhecimento sobre os astros, a observação do céu e de suas possíveis alterações sempre possuiu um locus privilegiado na construção do saber dos povos antigos, pois, entre outros benefícios, poderia explicar as alterações climáticas que trariam vantagens ou prejuízos para a vida cotidiana das populações. Assim, acredita-se que o conhecimento astronômico visava inicialmente solucionar questões práticas, tais como a determinação da posição dos astros para a previsão das estações e a elaboração de um calendário funcional.

Na Europa, a ciência dos astros era um instrumento precioso na organização da agricultura, mas também se tornou fundamental nas previsões da vida social, principalmente quando foi interligada às crenças nos poderes sobrenaturais e nas forças ocultas da natureza. Os fenômenos meteorológicos foram, muitas vezes, interpretados como manifestações divinas. Assim, através da interpretação dos eventos naturais ou cotidianos em relação com o movimento dos astros, surgiu a astrologia, que compunha um dos ramos da filosofia natural. Tester define astrologia como,

(…) la interpretación y predicción de acontecimientos que suceden en la Tierra, así como del carácter y las aptitudes de los hombres, a partir de la medición y el trazo de los movimientos y las posiciones relativas de los cuerpos celestes, estrellas y planetas, incluido entre estos últimos al Sol y a la Luna.

Até o século VII, astrologia e astronomia eram conhecidas apenas por astrologia, sendo que o primeiro autor a diferenciá-las foi o religioso Isidoro de Sevilha. Segundo Tester,

(…) ambas eran simplemente aspectos teóricos y prácticos complementários del mismo arte, como lo habían sido para Tolomeo. La distinción trazada por los cristianos no se hizo sobre bases teóricas y científicas, sino sólo para oponerse a la superstición (…) La astrología es simplemente parte de la astrología (o astronomía), pero hay cierta astrología que no es lícita para los cristianos.

Isidoro de Sevilha classificou como astronomia o estudo da rotação do céu e do movimento dos astros; como astrologia física o estudo da trajetória do sol e da lua; e como astrologia supersticiosa o uso da relação dos movimentos dos astros para a previsão do futuro. A astrologia supersticiosa, ou horóscopo, estava vinculada à magia e aos agouros e foi condenada pela Igreja católica desde o período medieval. Apenas a astrologia relacionada à compreensão dos fenômenos meteorológicos, às causas e desenvolvimento das doenças e ao entendimento das propriedades dos metais era aceita pela Igreja.

Nos séculos XIV, XV e XVI a astrologia viveu seu período de apogeu na Europa ocidental. A sintonia entre aristotelismo e astrologia fazia com que a rejeição desta última parecesse algo pouco científico. A concepção aristotélica de que o mundo superior (Céu) governava o inferior (Terra) foi o principal pressuposto para se conceber o conhecimento astrológico. Os corpos celestes teriam o poder de influenciar a natureza e algumas demonstrações dessas ações eram as estações do ano, as marés, as calamidades naturais e os eventos meteorológicos. Estes fenômenos reforçavam a idéia de que, se havia uma relação astros/natureza, haveria também uma relação astros/humanidade.

Nesse sistema de pensamento, o homem, como parte integrante do cosmos, não estaria imune à influência do comportamento dos astros. De acordo com Camenietzki,

Prever o futuro sempre foi um problema que interessou aos homens, e acreditar que os astros governavam tudo o que acontecia na Terra sempre foi crença comum das pessoas. Na Idade Média (…) o astrólogo era personagem de grande importância na vida dos povos.

Para a astrologia desse período os astros não eram apenas corpos celestes, mas entes com sentimentos e comportamentos humanos. Podemos perceber que nessa visão de mundo ocorria uma humanização do cosmos, já que aos astros eram concedidas características humanas, como virtudes, defeitos, sexo, cor. Até o século XVII vigorava a concepção de que o homem era parte orgânica da natureza, representada pela idéia de que o universo era um grande organismo e o homem fazia parte deste. Desta maneira, os astros também integravam o corpo do universo e todas as suas partes articuladas conferiam harmonia e perfeição ao sistema.

O perfeito funcionamento da natureza era prova inconteste do poder infinito de Deus e a perfeição e ordenamento do cosmos era o reflexo da graça divina, já que o celeste sempre foi associado ao âmbito divino. Essa relação entre Céu/Deus foi responsável pela interferência constante da Igreja nos assuntos ligados à astrologia. Podemos afirmar que esse conhecimento foi elaborado a partir do tripé: teologia, conhecimentos astronômicos e filosofia natural.

De acordo com a cosmovisão aristotélica, a imutabilidade e perfeição dos céus conferiam a estes o poder de influenciar nos acontecimentos terrenos. Essa influência dependia da posição dos astros no exato momento do acontecimento, por isso, era necessário traçar um mapa dos céus para a avaliação das suas influências. Até a Reforma Protestante teólogos, filósofos e astrônomos concordavam, em graus diferentes, na influência celeste nos eventos terrestres. Segundo Rossi

(…) pressuposto de que todo o mundo natural seja governado e dirigido pelo movimento celeste e que o homem, enquanto ser natural, esteja sujeito às regras e às leis que governam o mundo superior.

Como nesse período a astrologia era sinônimo de astronomia, apenas um ramo da primeira a diferenciava da astronomia, era a astrologia judiciária. Esta se referia às previsões baseadas na data de nascimento das pessoas. Segundo Thomas, a astrologia judiciária era formada por quatro seções: as previsões em geral, como a ocorrência de eclipses e o movimento dos planetas e suas influências na agricultura, clima, etc.; a formulação dos horóscopos ou mapa astral; a utilização dos mapas astrais para a escolha de momentos ideais em importantes acontecimentos, como o casamento ou grandes viagens; e a obtenção de resposta a qualquer questão levantada de acordo com a posição dos corpos celestes.

A astrologia era exercida em larga escala pelos membros da aristocracia, já que a complexidade dos cálculos e a exigência de um profundo conhecimento dos astros requeriam a dedicação destes astrólogos ao estudo e à pesquisa. Muitos astrólogos eram também médicos, alquimistas, magos e curandeiros, dado à vinculação desses saberes entre si, como já citado. O conhecimento dos astros também poderia anunciar eventos políticos, por isso, essa prática foi intensamente usada por reis europeus. O surgimento de novas estrelas, a passagem de cometas ou a ocorrência de eclipses poderiam ser interpretados como fatores favoráveis ou contrários para as ações reais. Por exemplo, Tycho Brahe ao observar a supernova de 1604, relacionou seu aparecimento com a supremacia da monarquia à qual pertencia. Outro exemplo, descrito por Carolino, refere-se aos vários astrólogos que trabalhavam para a casa real portuguesa, destacadamente nos séculos XVI e XVII, realizando prognósticos a partir do movimento dos astros ou novas ocorrências no céu. Ressaltamos o médico e astrônomo português Manuel Bocarro Francês que realizou muitas previsões astrológicas para a Coroa portuguesa, além de ensinar astrologia em outras localidades, como Espanha e Roma.

Os cronistas-missionários do século XVI elaboraram suas obras inseridos nesse contexto cultural e científico. Isso explicaria porque foi tão importante para eles entenderem a cosmologia, a cosmografia e o sistema calendário mesoamericanos. Em muitos momentos, estes cronistas explicaram as práticas nahuas a partir de analogias com o conhecimento europeu, elaborando assim concepções aparentemente “equivocadas” sobre o universo cultural nahua. Por exemplo, ao tentarem explicar o sistema calendário nahua denominam de ‘meses’ o período de 20 dias do Xiuhpohualli, ou classificam como astrologia judiciária o saber expresso no Tonalpohualli.

O grande número de adeptos das práticas adivinhatórias na Europa indica que havia uma importante conexão entre a astrologia e a vida cotidiana da população em geral. Além do interesse pela previsão do futuro e das condições da natureza, podemos citar o uso da astrologia na medicina. Acreditava-se que a doença era um desequilibro dos humores (sangue, fleuma, cólera e melancolia) que compunham o corpo humano e estes poderiam ser alterados pela ação dos planetas. Essa teoria pertencia a Hipócrates (século V a. C.) e foi aceita até o século XVII. A ação dos humores era controlada pelas qualidades primárias descritas acima, por isso, os astros, por alterar as qualidades primárias e estas os humores, poderiam provocar as doenças. A cura das mesmas exigia, assim, um grande conhecimento astrológico. A influência dos astros na medicina, através dos humores, foi um exemplo do uso da astrologia nesta disciplina. Os médicos deste período consultavam mapas astrais e a ação dos corpos celestes para os tratamentos e aplicação de remédios.

Essa conexão entre astros/medicina foi aprovada pela Igreja e intensamente difundida na Europa medieval e moderna. De acordo com Thomas,

Considerava-se que diferentes signos do zodíaco governavam diferentes partes do corpo, e uma eleição adequada dos momentos tinha que ser feita para administrar medicamentos, fazer sangrias ou realizar operações cirúrgicas (…) Traçando um mapa (…) e resolvendo uma questão à vista da sua urina, o médico astrológico alegava ser capaz de diagnosticar a doença, prescrever o tratamento, prever quando a doença chegaria à sua crise e prognosticar seu eventual desenlace.

Ainda discutindo a questão da interferência celeste, outro debate acalorado referia-se à maneira como os astros atuariam na vida das pessoas. Duas idéias foram formuladas: a influência direta e a indireta. Quanto à ação direta dos astros, considerava-se o homem como ser passivo, mero receptor da influência astral sem poder algum de controle da mesma. Essa explicação, por contrariar o princípio do livre-arbítrio, foi veementemente condenada pela Igreja católica, sobretudo no contexto da Reforma Protestante que trazia consigo o ideal de predestinação.

Já a influência indireta dos astros pressupunha uma ação no corpo (órgãos), preservando a mente (espírito) e o dogma do livre arbítrio sendo, por isso, aceita pela Igreja católica. Como Carolino afirma,

Se é certo que o homem era, por princípio, livre nas suas decisões, ainda que sujeito indirectamente à influência dos corpos celestes, os juízos astrológicos não eram certos e infalíveis, ainda que apresentassem uma certa probabilidade para a maioria da humanidade.

Para muitos homens da Igreja como Tomás de Aquino, a prática astrológica que não atingisse o princípio do livre-arbítrio era considerada lícita. Desta forma, o estudo da astrologia foi veiculado em muitas universidades e colégios medievais. A astrologia permitida pela Igreja se referia às previsões sobre o mundo natural, sobre os acontecimentos celestes (eclipses e cometas) e os fenômenos ligados ao corpo físico (doenças). A astrologia judiciária era fortemente perseguida e condenada pela Igreja.

A posição da Igreja cristã, em relação à astrologia, foi a mesma que manteve para com a magia. Como nas práticas mágicas, as diferenças entre cristianismo e astrologia iniciavam-se desde as concepções básicas, como na explicação dos infortúnios. Mas não foi este princípio que acirrou o conflito entre Igreja e astrólogos. No caso da astrologia, o motivo principal era o determinismo deste conhecimento que, para o clero, era visto como um ataque à doutrina cristã do livre-arbítrio. Os religiosos acreditavam que os astros poderiam influenciar o corpo das pessoas, como nas doenças e nos seus tratamentos, mas nunca determinariam o caráter, a vontade ou o intelecto. Estes estariam livres das influências astrais devido ao dogma do livre-arbítrio. A vontade humana era livre, por isso, seria impossível prever suas atitudes. Caso isso ocorresse, os astrólogos estariam vinculados às forças diabólicas, segundo Thomas ,

“(…) Os encantos e feitiços (…) eram os rudimentos do Diabo, mas a astrologia judicativa era a sua universidade.”

Dentre estas causas, existia ainda a ameaça da astrologia judiciária ao poder terreno da Igreja e à força divina – seu poder espiritual. A grande procura por estes métodos de adivinhação, concorrentes com a influência do clero perante os fiéis, fez com que a astrologia fosse perseguida. Muitas vezes a Igreja acusou os astrólogos pela prática da astrologia judiciária e estes foram julgados por Tribunais Eclesiásticos. O mesmo ocorreu com outros praticantes da tradição mágica, como curandeiros, bruxos e magos.

Contudo, como ocorria na prática mágica, mesmo rejeitando o conhecimento astrológico, a Bíblia continha passagens que evidenciavam a influência dos astros nos acontecimentos, inclusive na previsão destes. O exemplo mais importante refere-se à estrela de Belém que anunciou o nascimento de Cristo aos reis magos. Para contornar essa questão, os membros da Igreja afirmavam que o poder adivinhatório dos astros havia existido até o nascimento de Jesus.

Entretanto, não foi a perseguição da Igreja que levou ao declínio as práticas adivinhatórias. A astrologia conviveu com a condenação cristã durante séculos. A decadência da tradição mágico-hermética, e inclusive da astrologia, pode ser associada a várias causas. O principal motivo, apontado pelos historiadores Rossi e Thomas, refere-se às descobertas da revolução copernicana, ou seja, às mudanças de concepções que conduziram à Revolução Científica. Os estudos de Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e Galileu, mesmo elaborados em conexão com essa tradição, romperam, posteriormente, com as idéias que fundamentavam o universo da magia e da astrologia. A descoberta de que o sol era o centro do universo e de que o céu não era imutável, desestabilizou a crença de que os astros poderiam influenciar nos acontecimentos terrestres. Ainda de acordo com Keith Thomas “O telescópio, ao revelar novos corpos celestes, confirmou a hipótese de uma pluralidade de mundos. O universo (…) de Ptolomeu deixara de existir”.

Dentre as novas idéias, o que mais abalou a astrologia foi a decadência da teoria aristotélica que concedia ao mundo celeste um “status” superior e, por isso, interventor em relação ao âmbito terrestre. Conforme Rossi,

O fim da astrologia, que não era uma forma de superstição, mas uma coerente e orgânica visão de mundo, foi determinado pela gradual obliteração da distinção entre céu e terra que se verificou no curso dos séculos XVI e XVII e, enfim, pela radical destruição, operada por Newton, de qualquer diferença entre o mundo superior dos corpos celestes e o mundo inferior dos elementos. E, Carolino,

(…) enquanto a discussão se deteve nos limites da influência astral e na denúncia da ignorância dos astrólogos, enquanto a realidade cósmica foi perceptível através de uma hierarquização entre a região celeste, perfeita e imutável, e a região terrestre, imperfeita e sujeita à influência celeste, a astrologia foi um conhecimento possível; enquanto predominou uma concepção aristotélica do mundo, apesar das importantíssimas críticas a que esta estava sujeita.

O céu não era mais o locus da perfeição e a Terra não estava mais no centro do universo, agora era aceita a ideia de que a Terra era um astro como os demais. Desta maneira, a astrologia perdeu seu prestígio científico ficando relegada ao plano místico. As práticas de previsão do futuro usadas até o século XVII passaram a ser consideradas como superstição pela população e relacionadas à ausência de conhecimento científico. As crenças nestas previsões (magia e astrologia) foram associadas à ignorância e seus praticantes considerados iletrados, “Ciência, racionalidade e ocultismo deixarão, portanto, de ser sinônimos, assumindo-se ciência e ocultismo como modelos de explicação da realidade natural antagônicos e autonômicos”.

As transformações na visão do mundo e do cosmos romperam com todas as concepções e tradições medievais. O mundo não podia mais ser visto como um compacto organismo interligado; era agora um mecanismo de dimensões infinitas, do qual a velha subordinação hierárquica da Terra aos céus havia desaparecido inapelavelmente.

No século XVII, diante do triunfo da filosofia mecanicista, a influência da astrologia nos meios acadêmicos e científicos estava bastante reduzida. Para as novas concepções e metodologias, à astrologia faltava uma característica fundamental, a capacidade de experimentação, de demonstração, para poder se firmar como uma ‘ciência’. A filosofia mecanicista atingia fatalmente os conceitos básicos do pensamento mágico, pois nesse novo contexto as idéias deveriam ser demonstradas pela experiência e empirismo. De acordo com Toulmin, os pensadores do século XVII se dedicaram a purificar as novas idéias de tudo o que não se ajustasse aos axiomas fundamentais, principalmente os princípios matemáticos: “(…) Descartes se propuso expurgar los principios del conocimiento humano de todo lo que no fuera ‘ideas claras y distintas’”. A partir do século XVII, com toda essa transformação no conhecimento, astrologia e astronomia tornaram-se saberes distintos, sendo que à primeira coube o caráter “não-científico”, enquanto que a astronomia tornou-se a única forma válida de estudo dos astros.

Esta explicação sobre o declínio da tradição mágica é a mais aceita e difundida, entretanto, Rossi nos alerta para uma importante questão. Quando consideramos que a astrologia foi derrotada pelo sistema copernicano, inferimos que a ciência sempre se desenvolveu de uma maneira linear, ou seja, frente ao surgimento de novas idéias, tornamos o sistema de conhecimentos que vigorava anteriormente obsoleto. Não podemos nos esquecer dos inúmeros conflitos, erros, descontinuidades e das sobrevivências de antigos componentes quando da formação das novas teorias científicas. Neste sentido, o conhecimento astrológico não foi simplesmente esquecido e desacreditado frente às novas idéias. Durante mais de um século (século XVII/XVIII) a astrologia e a nova astronomia conviveram, numa espécie de mistura de ambas as tradições. A aceitação das teorias copernicanas não ocorreu de imediato, bem como não foi automático o abandono do antigo sistema cognitivo.

Mas, durante o século XVI, a tradição mágico-hermética influenciava todo o sistema cognitivo europeu. Como os cronistas missionários estudados nesta pesquisa elaboraram suas obras neste período, não podemos desconsiderar a importância da magia e da astrologia para a mentalidade destes. Este conhecimento esteve presente desde a escolha dos temas a serem abordados pelos religiosos até a formulação de suas interpretações sobre os saberes e a crenças indígenas.

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