Astrologia na História e Mitologia

Os Deuses Planetários da Grécia

Jupiter and Pandora – Francesco Albani

A Teogonia e a Posteridade de Zeus

Sociedade das Ciências Antigas

“A Astrologia, como o inconsciente coletivo que interessa à psicologia, é constituída de
configurações simbólicas: os planetas são deuses, símbolos dos poderes do consciente.”

Carl Jung

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Os deuses nascem, crescem, constituem família e reinam em seus domínios. Assim como uma família humana pode ter toda sua genealogia traçada, aos deuses greco-romanos também é possível, graças aos vários mitos que narram seus feitos. Porém, sendo à vida humana impossível traçar a genealogia até o primeiro ancestral, para os deuses ocorre o contrário: é plenamente possível remontar ao primeiro dos deuses, o supremo pai, a suprema mãe. Chegar-se-á ao princípio dos tempos, onde nada existia senão o Vazio. Hesíodo, este magnífico poeta grego, narrou soberbamente este momento de criação por meio de sua Teogonia.

Cabe lembrar que a Teogonia, não é somente um belíssimo poema mítico-literário; é também uma fonte preciosa de símbolos que desvelam o Macrocosmo – as Leis Gerais da Natureza – e o Microcosmo – o Interior do Homem. A Mitologia Grega consiste, assim, em uma importante fonte na qual os Iniciados devem beber a largos goles.

No princípio havia somente o Caos. Nesta substância informe, infinita e desprovida de qualquer estrutura, estavam mesclados todos os futuros princípios que viriam a existir. É deste estado de eterna confusão que surgem os primeiros deuses do Universo nascente: Gaia, a Terra, Eros, o Amor Universal, as Trevas e a Noite. De Gaia, a Terra, amorosa Mãe de todos os seres viventes, nascem Urano, os Céus, mais as Montanhas e o Mar. Das Trevas e da Noite nascem o Éter radiante e o Dia, trazendo assim a Luz ao reino das sombras. A Luz que nasce das sombras para sobre ela reinar eternamente.

Teogonia – Hesíodo

Da união de Gaia e Ouranos, Terra e os Céus, nascem os Titãs, em número de seis, e as Titânidas, suas irmãs, também em número de seis. Desta sagrada união surgem também os três Ciclopes, o Trovão, o Raio e o Relâmpago, e ainda os três terríveis monstros de cem braços e cinquenta cabeças, os Hecatônquiros. Estes brutais filhos foram temidos mesmo por seu poderoso pai, os Céus, tendo por isso precipitado-os ao Tártaro, abismo subterrâneo no qual perecem até mesmo os mais poderosos deuses.

Gaia, em seu intenso amor maternal, encobre-se de ira pela sorte de seus últimos filhos, e exulta os demais, os Titãs, para engendrarem a vingança contra seu pai. Dentre todos eles, somente Cronos, o mais jovem e sedento de poder, aceitou o terrível plano tramado pela Terra. A Mãe Terra forja de seu seio uma foice do mais puro aço e a concede a Cronos, que em seus recessos se esconderia para de lá operar seu maquiavélico plano. Neste esconderijo aguarda pacientemente a chegada do pai, os Céus, que vem acompanhado da Noite, para novamente molestar a Terra. Então, no momento oportuno, sai de seu covil e; com a mão esquerda agarra o falo do pai, e com a direita toma a foice e o castra. Do sangue jorrado e caído na terra nascem as Erínias, os Gigantes e as ninfas do freixo.

Cronos atira ao mar o membro extraído de seu pai, que fecunda as espumas e dá nascimento a Afrodite de beleza insuperável. Tão logo nasce das espumas do mar, é abraçada pelas leves mãos de Zéfiro, o vento oeste, que a conduz à Citéria e posteriormente a Chipre.

Ouranos, os Céus, assim desprovido de seu poder procriador, cede sua soberania sobre o Universo para Cronos, o terrível Tempo. Cronos é o ícone do tirano, que reina de forma absoluta, não querendo partilhar o poder nem mesmo com seus irmãos. Não atendeu às súplicas de sua Mãe, de libertar seus irmãos do Tártaro; lá eles continuaram, para não ameaçar sua soberania tirânica.

A Terra e os Céus profetizaram que de sua posteridade surgiria um poderoso filho, que o destronaria assim como ele fizera com seu pai. Cronos, então, como o terrível tempo que a tudo devora, engolia os filhos à medida que nasciam de sua irmã e esposa, Réia. Assim, Hestia, Demeter, Hera, suas belas filhas, e mais Hades e Poseidon foram implacavelmente devorados por Cronos.

Estando grávida de seu último filho, Réia suplica a ajuda a seus pais, para que ele fosse poupado da loucura de Cronos. Com o auxílio dos Céus e da Terra Réia é enviada à Creta, no monte Liktos, onde lá daria a luz a seu tão amado filho, Zeus. Para enganar Cronos, envolve uma grande rocha em fraldas, e o dá ao deus em lugar do filho. Cronos sequer percebe do ardil, e engole a rocha imaginando que fosse seu filho.

Zeus cresce com o vigor e qualidades excepcionais, típicas de um futuro soberano. Já na idade adulta, sente o momento de retornar à casa paterna para dele tomar o trono. Pede então auxílio e conselho de Metis, a Prudência, filha dos Titãs Oceano e Tétis. Ela oferece a Zeus uma poção miraculosa que, se tomada por Cronos, o faria vomitar seus irmãos, que o auxiliariam na batalha contra os poderosos Titãs.

Ao tomar o poderoso elixir, Cronos vomitou um de seus filhos engolidos. Com eles, Zeus combateu os Titãs liderados por Cronos por dez longos anos; a sorte desta guerra, chamada Titanomaquia, que parecia não ter fim, foi decidida quando Zeus, de acordo com uma profecia da Mãe Terra, libertou os Ciclopes e os Hecatônquiros das profundezas do Tártaro. Com seu apoio os Olímpicos, como eram chamados os deuses filhos de Cronos, venceram os implacáveis Titãs, assumindo assim o poder do Universo.

Zeus, o grande líder dos Olímpicos, em agradecimento a seus fiéis irmãos, Poseidon e Hades, divide o Mundo em três reinos, e os distribui do seguinte modo: Zeus governaria os Céus e a Terra, Poseidon os Mares, e Hades os Mundos Subterrâneos.

Zeus é a figura central da Mitologia Grega, o soberano absoluto por mérito, o deus dos deuses. Por seu histórico e seus feitos na Teogonia, e por sua posição destacada entre os deuses, seria de se imaginar que Zeus fosse o arquétipo da perfeição, dotado de todas as Virtudes imagináveis e isento de quaisquer defeitos, como ocorria em outras Mitologias nas figuras de seus deuses supremos.

Ledo engano. Zeus era totalmente suscetível às paixões, quer fossem com deusas, quer fossem com mulheres mortais. É nesta fraqueza que reside o principal defeito de Zeus, conforme será detalhado na seção seguinte. Os filhos de Zeus nascidos de suas relações extraconjugais com deusas e mortais figuram entre os principais deuses e heróis de toda a Mitologia Grega, sendo digno de nota mencionar alguns deles.

De acordo com Hesíodo o primeiro dos relacionamentos de Zeus deu-se com Metis. A deusa, relutante à avidez de Zeus, se metamorfoseia em diversas formas para fugir de sua perseguição, até que finalmente é dominada por ele. A Terra e os Céus profetizam que se Metis desse a luz à uma menina, teria depois um filho de Zeus com esta Titânida que destronaria o próprio pai. Seguindo então um conselho da Terra, Zeus engoliu Metis, evitando assim que o oráculo se cumprisse.

El nacimiento de Aatenea de la cabeza de Zeus, de Paolo Fiammingo

Porém, no tempo certo, passou a sentir uma enxaqueca terrível e, para aliviar-se dela, solicitou a Hefaistos abrir-lhe o crânio com um golpe de machado. De sua cabeça surge então Athena, a deusa da Sabedoria, vestida em sua armadura de guerra.

Depois Zeus tomou como esposa Themis, a deusa da Justiça, e com ela teve as Horas. Com Eurínome teve as Graças, com sua irmã Demeter teve Perséfone, a futura rainha dos infernos. Com Mnemosine teve as Musas em número de nove.

Zeus tinha como esposa Hera, sua irmã. Sua cerimônia de casamento, segundo uma das tradições, se deu no belíssimo Jardim das Hespérides, onde a Mãe Terra a presenteou com maçãs de ouro. Hera, maravilhada com tamanha beleza, mandou plantá-las no Jardim, a ser vigiado pelas leais Hespérides. Os filhos de Zeus e Hera foram Ares, o terrível deus da guerra, Hefaistos, o ferreiro, Hebe, a Juventude, e Eilithyia, a deusa do bom parto.

Após estas primeiras esposas Zeus desejou Leto, filha dos Titãs Koios e Phoebe. Não desejando entregar-se ao deus dos deuses, tentou fugir a seus encantos de todas as formas, não logrando êxito, porém. Ao saber que Leto estava grávida de Zeus, Hera perseguiu-a de forma implacável, ameaçando castigar com sua fúria o local que desse abrigo à Leto para que esta desse a luz. Leto errou pelo mundo, buscando um sítio de paz onde pudesse parir seus filhos. Após uma sofrível peregrinação, Leto encontra finalmente um lugar que a abrigaria, a ilha flutuante de Ortygia. Hera, furiosa, proíbe Eilithyia, a deusa dos partos felizes, de acompanhar o nascimento dos filhos de Leto.

Com isso, Leto sofreu durante nove dias, até que as deusas, comovidas por seu sofrimento, enviaram Íris para presentear Eilithyia com um magnífico cinturão de âmbar e ouro, o que convenceu-a a dar suas bênçãos ao parto da perseguida mãe. Assim nasceu a bela Ártemis que, mesmo recém-nascida, auxiliou nos trabalhos de parto de seu irmão gêmeo, Apolo. Apolo, deus vigoroso, fixou a ilha no mar, e a chamou de Delos, “a Brilhante”.

Zeus se apaixonou também pela ninfa Maia, que era uma das Plêiades. De sua união nasceu Hermes em uma caverna no monte Cilene na Arcádia.

Por fim, cumpre-se mencionar dois outros importantes filhos de Zeus: Dionísio, cuja mãe é Semele; Heracles, o grande herói, cuja mãe é Alcmena; e finalmente Perseu, cuja mãe é Dânae.

Eis então os principais deuses e dois dos mais importantes heróis da Mitologia Grega. Dentre os deuses acima mencionados, os que estão destacados em vermelho terão direta relação com as influências planetárias, conforme se discutirá a seguir.

Os Sete Deuses

Conforme anteriormente mencionado, os romanos fundiram a Mitologia Grega com sua própria, originando assim a Mitologia Greco-Romana. Assim, alguns dos deuses mencionados na seção anterior tiveram seus nomes gregos alterados para os seguintes equivalentes romanos:

Conforme abordado em seções anteriores, os deuses gregos apresentavam virtudes e defeitos, e era graças à sua humanidade divina que se tornaram excelentes arquétipos para se analisar a influência dos astros na personalidade humana. As características de personalidade destes deuses se manifestaram em suas proezas narradas pelos Mitos, os quais serão resumidos a seguir. Uma discussão relativa aos atributos de cada um destes sete deuses será esboçada, bem como suas virtudes e defeitos capitais associados:

Apollo and Two Muses ~ Pompeo Batoni

I. Apolo – O Sol

Apolo, filho de Júpiter e Leto, e irmão gêmeo de Diana, era o deus que diariamente conduzia o carro do Sol pelo céu. Dotado de beleza singular, era mestre da adivinhação e supremo soberano do mais famoso dos oráculos, o de Delfos. Apolo era o deus da Música, de cuja lira emanavam sons cuja melodia encantava a todos; somente Orfeu era comparável a Apolo nesta arte. Apolo não admitia rivais nesta divina arte: comprou de Mercúrio a lira e a siringe8, instrumentos estes cuja melodia poderia encantar mais que a música de Apolo. Por esta razão aniquilou Marsias, que recuperou do lago a flauta de Athena, cuja melodia era tão tocante que fez este mortal julgar-se melhor que Apolo; não conseguindo vencê-lo por meio da Música, logrou êxito somente por meio de um ardil. Venceu Pã em outra disputa musical mediada pelo rei Midas.

8 A popular flauta de Pã

Atributos de personalidade

Apolo, assim como Diana, que personificam os dois grandes luzeiros do Céu, o Sol e a Lua, podem ser analisados tanto por suas características pessoais, quanto pelo simbolismo deste astro. Do ponto de vista estritamente pessoal, Apolo era o mais belo entre os deuses. A Beleza, em sua plena acepção, é um grande oceano onde a estética física consiste em apenas um pequeno córrego. A Beleza em si é uma manifestação da grandiosidade do Criador, que a depositou sobre suas mais singelas criaturas para que o homem sinta a sua presença Divina na Natureza. A Beleza comove, pois conversa diretamente com a Alma; é através dela que o homem sente a Deus, como muito bem expressou Éliphas Lévi: “(…) o homem não se limitará a crer em Deus, mas que o verá em suas obras, que são as manifestações externas de seu Ser”.

O Sol é o princípio da vida, pois seus raios aquecem o ar terrestre conferindo-lhes a Vida Solar10, que será transformada em Vida Terrestre pelo pulmão da Terra, a atmosfera11. O homem aspira a Vida Terrestre por meio de seus pulmões, que a transfere ao sangue e transporta a vitalidade, princípio motriz da Vida humana. Com isso, o Sol é a representação máxima do princípio ativo, positivo, masculino e criador, do poder fecundante, pois é ele quem gera a fonte da Vida, a Luz Solar.

10 A Tradição Ocultista afirma que a Vida das Vidas, emanada pelo Criador, é absorvida pelo Universo que a emita a seus inferiores hierárquicos como Vida Universal, que é, por sua vez, sintetizada pelo Sol e irradiada como a Vida Solar.
11 A Tradição Ocultista considera a Terra como um grande organismo vivo, com órgãos e sistemas fisiológicos análogos aos do homem.

Apolo premia os deuses e os homens com a beleza quase incomparável de sua Música. A Música é como uma panaceia para as dores e sofrimentos humanos, restaurando a alegria de viver daqueles que, momentaneamente ou não, perderam o sorriso dos lábios. Do mesmo modo é o Sol, que com sua extrema generosidade doa seus raios aos homens, trazendo de volta seu ânimo quase sempre combalido pelas vicissitudes da vida.

O Sol é o centro do sistema solar. Transportando este conceito ao homem, considerando-o analogamente a um sistema solar em miniatura, seu centro será o seu Eu, sua personalidade interior. Porém, ser o centro do sistema solar pode evocar alguns pontos negativos. Sua importância destacada pode tornar o homem arrogante, caso se centre exclusivamente em si mesmo. A beleza extrema de Apolo, se adulada, converter-se-á em vaidade. Sua capacidade de tirar dulcíssimas notas de sua lira, que é quase incomparável, é eclipsada pela excessiva confiança em si mesmo, haja visto que teve de trapacear Marsias para poder vencê-lo na disputa.

Defeito Capital: O Orgulho

Apolo, imerso na vaidade que sua divina beleza e dotes musicais lhe despertavam, não admitia ser vencido por ninguém. Exemplo disso são as barganhas que efetuou, e as disputas em que participou, de modo a sempre ter a vantagem em relação a seus adversários. Se fosse necessário ser ardiloso e vil para sempre vencer, fazia-o sem nenhum escrúpulo, sem nenhum pudor. Assim, Apolo escondia

de si mesmo suas próprias fraquezas, pois não era forte o suficiente para admiti-las. Atribuía algumas de suas vitórias, erroneamente, como é característico daqueles que se auto iludem, aos seus talentos, e não aos ardis. Esta ilusão provocada pelo ego, ocultando de si mesmo suas debilidades, e exagerando suas virtudes, ou mesmo exaltando-as sem existir, recebe o nome de orgulho. Apolo personifica deste modo o defeito capital do orgulho.

Virtude Capital: A Magnanimidade

Apolo conduz o carro solar todos os dias, levando a luz a todos os homens. Sem ela, não existiria vida; a luz solar é, portanto, um presente dos deuses a todos os seres viventes. Apolo se encarrega, diariamente, de compartilhar seu brilho com todos os seres, sem egoísmo, demonstrando assim sua grandeza. Esta grandeza é como fonte inesgotável, onde todos que tem sede podem vir e saciá-la. Esta doação de si mesmo, que ocorre pela grandeza interior, da Alma, denomina-se Magnanimidade. Apolo personifica, portanto, a Virtude da Magnanimidade.

Artemis – Guillaume Seignac

II. Ártemis – Diana – A Lua

Diana era filha de Júpiter e Leto e irmã gêmea de Apolo. Diana, logo após ter nascido, auxiliou a deusa dos partos, Íris, no nascimento de seu irmão. Ainda criança, pediu a Júpiter, seu pai, que lhe mantivesse eternamente virgem, como a deusa Minerva; lhe desse arco e flecha, como recebera seu irmão Apolo; lhe desse um séquito de ninfas para que auxiliassem em suas tarefas; e que ela também carregasse a luz, como seu irmão Apolo. Júpiter realizou seus desejos, e a partir de então Diana tornou-se a deusa da Lua e da caça. Apolo, o formoso e majestoso deus Sol, o princípio ativo, tinha a faculdade de se iluminar por si mesmo, ao passo que Diana, a deusa Lua, o princípio passivo, não gerava luz, porém refletia a de seu irmão. Assim, enquanto o Sol reinava durante os dias, sua irmã Lua reinava à noite, sendo o guia que ilumina na negra escuridão.

Atributos de personalidade

Se o Sol representa o princípio ativo, criador, a Lua representa o princípio passivo e formador. Ela reflete os raios solares nas negras noites, em níveis de brilho que variam de acordo com suas fases. Em uma delas, a Lua Nova, ela se situa na região de sombra da Terra, estando em exata oposição ao Sol, não refletindo, portanto, sua Luz. Esta variabilidade de brilho remonta às emoções, que com suas tórridas variações levam o homem a oscilar entre a felicidade e a infelicidade, entre a tristeza e a alegria, entre o amor e o ódio. Portanto, a Lua rege a instabilidade do ser humano, sujeito sempre a seus altos e baixos emocionais. Neste aspecto, representa a indecisão, que é a dúvida gerada pela oscilação do pensamento entre duas ou mais ideias. Por estar ligada às emoções, a Lua representa também a irracionalidade, que impacta os atos do homem que se deixa levar somente pelos meandros do coração.

Uma noite enluarada desperta a sensibilidade dos corações humanos, tornando-a uma incomparável paisagem para o enlace dos enamorados. Poderosa fonte de inspiração, muitos foram os poetas tocados em sua fértil imaginação por seus doces raios.

Enquanto o Sol é o poder fecundante, a Lua é o poder fecundado. Neste aspecto, representa a capacidade de formação de uma nova vida, sendo, portanto, o princípio da maternidade por excelência. Enquanto refletora da Luz Solar, a Lua representa a experimentação do mundo não pela via direta, por meio da visão, e sim pela via indireta, por meio da intuição.

Defeito Capital: A Preguiça

Diana não era dada às tarefas em geral. Tanto era assim que rogou a seu pai a virgindade perpétua, que a livraria dos labores de mãe; rogou também ser acompanhada de um séquito de ninfas, fidelíssimas servas da deusa. Diana era, assim, avessa aos esforços exigidos pelo trabalho, e sempre se esquivava deles. Esta aversão ao trabalho caracteriza a preguiça, defeito que impõe obstáculos à realização de qualquer Obra, seja ela material ou espiritual. É por esta razão que Diana personifica o defeito da preguiça.

Virtude Capital: A Humildade

A Lua não possui brilho próprio, e é somente um satélite que gira ao redor de um outro astro sem luz, o planeta Terra. Todo o esplendor de sua luz provém do Sol; porém a Lua, em sua simplicidade, toma de assalto os raios solares e os doa ao homem, livrando-os da escuridão, como uma mãe amorosa que protege seu filho das trevas. A Lua aceita, com humildade, seu papel aparentemente secundário e cumpre fielmente sua importante missão, a de alumiar as trevas da noite. Pois, sem seu brilho, como ocorre nos dias de lua nova, os homens ficam desamparados, imersos no abismo da escuridão, sem nada a guiá-los, a não ser a pálida luz cintilante das estrelas. Portanto, por menor importância que uma dada missão represente em relação a uma outra, ela será, no todo, imprescindível; eis a lição de humildade que a Lua dá ao homem. Por esta razão é que a deusa Lua, Diana, que singra os bosques com seu arco prateado, personifica a grandiosa Virtude da Humildade.

Kronos

III. Cronos – Saturno

Conforme visto na seção referente à Teogonia, Cronos era o jovem filho de Ouranos e Gaia, o ambicioso aspirante ao trono do Mundo. Durante seu reinado governou de forma tirânica, absoluta, impedindo assim a evolução das demais forças e a organização do Universo, tendo engolido seus filhos logo ao nascerem. Após ser destronado por Zeus, a Mitologia Romana consagra Cronos como o deus Saturno, que após peregrinar por terras desconhecidas chega ao Lácio, na península itálica.

Lá é recebido pelo deus Janus, no Capitólio, e torna-se soberano. Porém, diferentemente do que ocorrera em sua fase de rei tirano do Universo, em Roma Saturno civilizou os homens, conferindo-lhe leis e promovendo a justiça. O período de reinado de Saturno foi deveras próspero, tendo sido chamado de “Idade de Ouro”.

Atributos de personalidade

O Mito do deus grego Cronos foi complementado pelo Mito do deus romano Saturno. Esta mescla originou um riquíssimo arquétipo, onde se podem delinear duas fases opostas: a primeira, em sua juventude, é marcada por sua dinastia tirânica como supremo soberano do Universo; a segunda, em sua maturidade, é marcada por seu generoso reinado sobre os povos do Lácio. É desta dualidade

que nasce um perfil altamente complexo, caracterizado por uma evidente evolução de um estado espiritual pobre para outro extremamente rico. Saturno representa o chumbo, e não é em vão que os alquimistas usam a frase “transmutar chumbo em ouro”. Compreendida iniciaticamente, esta frase resume a importância do Mito de Saturno para se realizar a Grande Obra.

Na juventude, Saturno é inconsequente e assaz egoísta, seguindo cegamente seus instintos e sua ambição desenfreada pelo poder. Porém, o poder pelo poder corrompe, e traz como recompensas a derrota e a queda. Saturno destronado retira-se de cena, como que para purgar a dor de sua derrota; assim, em seu sofrimento lega ao tempo, atributo por ele personificado, a tarefa de amenizar as dores. Deste modo Saturno aprende com seus erros, pela reflexão profunda sobre seus atos, o que o faz amadurecer e adquirir Sabedoria. Porém, nada amadurece sem o devido tempo; é necessário se desenvolver a paciência para que os frutos cresçam e estejam prontos na época apropriada. A Natureza não dá saltos, pois a evolução se processa de forma lenta, respeitando sempre o tempo correto. É somente por meio do tempo, e do trabalho paciente, que a obra da transmutação ocorre.

Com este aprendizado por meio da experiência, o agora sábio Saturno torna-se o rei soberano. Dá aos homens selvagens as leis e ensina-os a cultivar, e promove a igualdade entre as classes, pois somente desta forma uma sociedade pode ser sólida. Organiza, assim, a sociedade para que proporcione uma vida melhor a seus súditos.

Defeito Capital: A Avareza

A Lua não possui brilho próprio, e é somente um satélite que gira ao redor de um outro astro sem luz, o planeta Terra. Todo o esplendor de sua luz provém do Sol; porém a Lua, em sua simplicidade, toma de assalto os raios solares e os doa ao homem, livrando-os da escuridão, como uma mãe amorosa que protege seu filho das trevas. A Lua aceita, com humildade, seu papel aparentemente secundário e cumpre fielmente sua importante missão, a de alumiar as trevas da noite. Pois, sem seu brilho, como ocorre nos dias de lua nova, os homens ficam desamparados, imersos no abismo da escuridão, sem nada a guiá-los, a não ser a pálida luz cintilante das estrelas.

Portanto, por menor importância que uma dada missão represente em relação a uma outra, ela será, no todo, imprescindível; eis a lição de humildade que a Lua dá ao homem. Por esta razão é que a deusa Lua, Diana, que singra os bosques com seu arco prateado, personifica a grandiosa Virtude da Humildade.

Virtude Capital: A Castidade

Saturno, na condição de sábio ancião, foi depurado por sua própria experiência, o que fez com que reunisse os homens mais brutais, os educasse, lhes desse as leis. O ancião que, outrora, tudo queria para si, como o avarento que se apega a seus bens como se fossem um só, agora compartilha o fruto de sua experiência, de seu saber, com aqueles que sequer iniciaram sua jornada nas terras da evolução. Saturno então transforma-se completamente, livrando-se de suas impurezas do seu ser pretérito como uma pedra de ouro é limpa das crostas da terra na qual nasce. O processo de transformação de Saturno pode ser totalmente resumido em uma única palavra: purificação. Saturno agora é o mestre, aquele que estabelece a igualdade por entre os homens e os dá os meios para que evoluam. Completamente regenerado, Saturno ancião personifica a grande Virtude da Castidade, expressão máxima da pureza.

IV. Zeus – Júpiter

Aegina and Zeus – Louis Jean François Lagrenée

Zeus – Júpiter é a principal figura da Mitologia Greco-Romana. Símbolo da força aliada à inteligência, Júpiter enfrenta seu pai, Saturno, e o destrona. Restaura assim a Ordem no Universo, e interrompe as forças contrárias que o impediam de evoluir. Partilhando seu reinado do mundo com seus irmãos Netuno e Plutão, Júpiter tornou-se o oposto de seu pai, o tirânico Saturno, sendo o supremo rei de divide para governar. Conquistando o respeito e o temor de seus pares, Júpiter governa de maneira soberana, estabelece as leis, e torna-se o grande legislador. Do alto de seu trono no Olimpo Zeus julga as ações dos homens, recompensando os que são bons e castigando os maus com seu temível raio, presente dos Ciclopes. De suas aventuras amorosas Júpiter lega ao mundo inúmeros deuses e heróis, como a divina Minerva, a Sabedoria, que nasce de sua cabeça, e Hércules, arquétipo do poderoso herói.

Atributos de personalidade

Uma minuciosa análise do episódio da Titanomaquia, conforme narrada pela Teogonia, mostra que dois fatores foram fundamentais para a vitória dos Olímpicos, além é claro da força de Júpiter: a poção de Metis e o oráculo de Gaia. Júpiter, mesmo sendo sabedor de seu grande poder, o que lhe permitiria ser um tirano mais absoluto que Saturno, preferiu buscar auxílio e orientação dos mais sábios, para somente depois se lançar à guerra contra seu pai. Júpiter demonstra assim, mesmo sendo ainda jovem e inexperiente, uma ampla visão, pois busca fundamentalmente o melhor entre os caminhos possíveis de serem trilhados. Eis, então, o uso da reflexão antes da ação, da razão antes do impulso. Neste quesito, Júpiter demonstra ser diametralmente oposto a seu pai, pois Saturno deixa-se levar pelos impulsos, não permitindo a luz da razão conduzir-lhe.

O uso da reflexão, e a busca pelo melhor dentre os caminhos representa um modo de raciocinar filosófico, que com o poder da análise investiga todas as possibilidades e lhes confere valores, comparáveis entre si; assim, o juízo do que é melhor provém exatamente da comparação dos valores atribuídos para cada uma das possibilidades.

Júpiter é o ícone do jovem ambicioso, porém consciente do que deve ser feito. Em reconhecimento ao grande auxílio prestado por seus irmãos Netuno e Plutão na Titanomaquia, Júpiter divide a soberania do Mundo com eles, o que demonstra sua grande generosidade e senso de justiça. Tendo conquistado o respeito e a admiração de seus súditos, Júpiter era o deus indulgente, piedoso para com aqueles que demonstrassem ser merecedores. Sua dinastia trouxe ordem ao Universo, o que permitiu desde então sua evolução.

Apesar de todos estes qualificativos, Júpiter era dado a excessos. Abusando muitas vezes de sua condição de deus dos deuses, o que demonstra arrogância, Júpiter não aceitava jamais ser rejeitado por alguma deusa ou mulher. Este ímpeto por possuir muitas mulheres, aliado a episódios como aquele em que engole Metis, temendo que fosse destronado, demonstra seu lado um tanto megalomaníaco.

Defeito Capital: A Gula

Júpiter era dado a excessos, conforme mencionado acima. Não se satisfazia somente com uma mulher; eis então que se envolveu com várias, fossem elas deusas, ninfas, ou mortais. Para cortejá-las valia-se de disfarces, truques, e tantas outras artimanhas, e seus filhos foram constituindo ou o panteão de deuses olímpicos, ou o de heróis e semideuses, como Hercules. Esta insaciabilidade, que faz com que o indivíduo perca a noção do que é necessário e passe à perseguir o excesso, o supérfluo, caracteriza a gula. Júpiter, mesmo sendo o rei dos deuses, era totalmente exagerado em suas paixões; eis porque Júpiter personifica o defeito da gula.

Virtude Capital: A Caridade

Júpiter era generoso. Não quis o poder somente para si, como um tirano; dividiu-o com seus irmãos, em reconhecimento à ajuda que estes deram na guerra contra os Titãs. Este sentimento que faz com que alguém divida aquilo que é seu com outrem, esta doação que muitas vezes é incondicional, caracteriza o indivíduo caridoso. Júpiter é, portanto, a personificação da Caridade.

V. Ares – Marte

Mars and Venus, Allegory of Peace – Louis Jean François Lagrenée

Marte, o filho de Júpiter e Juno, era o deus da guerra. Bárbaro e desprovido de cultura, era cruel, pois destruía a todos aqueles que se opusessem a seu caminho; impulsivo ao extremo, Marte dava vazão a seus instintos brutais, não poupando ninguém de sua sede de sangue. Corajoso, enfrentava todos os seus inimigos com uma inabalável convicção da vitória, e comandava seus exércitos com pulso e direção. Porém, sua costumeira precipitação, fruto do dar vazão dos impulsos, quase sempre lhe tirava a vitória certeira. Marte apreciava a destruição, e a tinha como uma espécie de diversão. Tinha como companheiras deidades tão terríveis quanto ele: Fobos (o Medo), Deimos (o Terror), Éris (a Discórdia).

Minerva, a deusa da Sabedoria, também era uma deusa guerreira, porém suas características eram opostas à de Marte: enquanto Marte era impulsivo, Minerva conduzia suas batalhas pela estratégia e aguçada inteligência.

Marte fora imortalizado também como o grande amante da insaciável deusa Vênus, cuja relação será melhor comentada na seção referente à esta deusa.

Atributos de personalidade

A guerra é uma das mais profundas metáforas da vida humana. A vida profana é um contínuo ir e vir de conflitos, seja com a Natureza, seja com outras pessoas, seja do homem consigo mesmo. Cada conflito apresenta uma natureza binária, pois somente dois opostos ou dessemelhantes podem incorrer em desarmonia. O resultado de um conflito é a vitória de um dos lados, o que implica necessariamente na derrota do outro, exatamente como em uma guerra. Assim, a guerra está mais presente na vida humana do que se imagina, pois é a metáfora de toda e qualquer espécie de conflito.

Para se vencer uma guerra não basta somente uma esmerada estratégia; é fundamental se ter também recursos materiais como armas, por exemplo. Transportando estes conceitos para o homem, a estratégia da guerra representa o uso da mente para se vencer os conflitos, ao passo que as armas e exércitos representam os instintos que lhe conferem os meios para se combater. Por meio da Mitologia se percebe nitidamente que a estratégia é personificada por Minerva, ao passo que os instintos são personificados por Marte.

Os instintos são os atributos humanos herdados dos animais, pois são faculdades que não dependem do raciocínio. Adaptando uma analogia encontrada em uma das obras de Papus, os instintos são como um cão: se domado e adestrado, ele será extremamente benéfico para seu dono, pois será o guardião fiel de sua residência; caso contrário, ele será uma ameaça desenfreada, agredindo e podendo até mesmo matar. Assim o instinto, se usado positivamente, será altamente positivo para a guerra constante que é a vida humana; caso contrário, será sua ruína.

Para se combater em uma guerra, é necessária a força para vencer as limitações, coragem para não se intimidar pela potência do inimigo. Quando as tropas estão quase vencidas, o nobre combatente tem de tirar energia do âmago de seu ser para não sucumbir perante a fraqueza, e então tomar iniciativa do ataque para se lançar contra o inimigo, demonstrando assim a seus pares que enquanto houver o alento haverá a possibilidade da vitória. Eis a síntese da liderança, daquele que toma para si a responsabilidade por acreditar no triunfo, conforme Marte empreendia em seus combates.

Porém, assim como existe a guerra pela sobrevivência, existe a guerra despertada pelo egoísmo. O egoísmo, em sendo irracional, estimula o uso da força por meio do impulso, tornando o homem bruto, assim como Marte fazia quando se tornava encolerizado por qualquer ação de outrem que lhe desagradasse, mesmo que fosse insignificante. O primeiro impulso, reação reflexa estimulada por uma ação externa (como, por exemplo, uma provocação), desencadeia a agressividade, se não controlada imediatamente, ou o sentimento de vingança, quando debilmente controlado no momento, porém sem ser purgado do interior do homem. O uso desenfreado da força para propósitos egoísticos gera a discórdia entre os homens (eis porque Marte era sempre acompanhado por Éris).

Marte, em personificando os instintos e sendo o amante principal de Vênus, representa também a força desenfreada da procriação, a sexualidade.

Defeito Capital: A Ira

Conforme visto acima, Marte encolerizava-se ao mínimo ato que alguém provocasse e assim desgostasse o deus. Eis o exemplo mais típico do dar vazão ao primeiro impulso, cuja manifestação é a resposta agressiva. Esta resposta agressiva, que traz consigo discórdia, e destruição, consiste exatamente no conceito da ira. Marte personifica, assim, o terrível defeito da ira.

Virtude Capital: A Diligência

Uma Guerra, para ser vencida, requer persistência. Perdem-se batalhas, aconchega-se o desespero, o desânimo se aninha, o medo instala seu trono, a derrota parece inevitável; eis os terrores que assaltam o combatente. Porém, Marte, em sua natureza belicosa, lutava até o fim. Os terrores mencionados – Fobos e Deimos – eram seus filhos, e estavam consigo; assim, nada abalava sua confiança na vitória, que o fazia lutar sem desistir. A persistência, a coragem de prosseguir frente aos obstáculos, a determinação que faz com que o sofrimento deixe de assombrar o combatente da guerra da vida denomina-se Diligência. Marte personifica, com sua determinação, a Diligência, pois é ela o ingrediente que leva à vitória.

Venus and Adonis – Charles Joseph Natoire

VI. Afrodite – Vênus

Vênus nasceu das espumas do mar, fecundadas pelos testículos de Urano, caídos no mar após a castração imposta por Saturno. Dotada de extraordinária beleza, logo atraiu a atenção de todos os deuses em sua chegada ao Olimpo, trazida por Zéfiro, e depois pelas Horas. Júpiter fê-la casar-se com Vulcano, o deus coxo, de feições horríveis. Porém, por sua extraordinária beleza e encantos, traiu-o com os homens que quis, mesmo porque possuía uma guirlanda que fazia com que nenhum homem resistisse a seus encantos.

Deusa das paixões ardentes, Vênus enamorou-se dos mais diversos deuses e mortais, autênticas presas fáceis a seus encantos. Em suas aventuras amorosas, chegava até os píncaros da audácia, traindo Vulcano em seu próprio leito de casada. Certa vez, Vulcano descobriu que Marte está em sua casa, juntamente com sua amante, Vênus; então, armou um plano para flagrar os dois amantes juntos: forjou uma rede tão fina, que era praticamente imperceptível; armou-a, quando do descuido dos amantes, no leito de Vênus, e quando estes lá se deitaram, ficaram presos na armadilha. Vulcano, então, chamou todos os deuses do Olimpo à seu quarto, para verem a traição e assim envergonhar os amantes.

Esta característica marcante de Vênus corresponde ao amor carnal, fundamentalmente voltado à satisfação do apetite sexual. Porém, o amor carnal nada mais é do que uma profunda deturpação do Amor puro, verdadeiro, que une almas e não corpos. Este Amor, imortalizado em tantas obras de belíssima plástica literária, une dois seres não para satisfazer apetites, mas sim para que juntos vivam como se fossem um só. O Amor verdadeiro pode nascer da simples atração carnal, pois ele se apossa do homem como uma flecha que o atinge sem se aperceber, o que o faz se despir de seu manto maculado pelo desejo para se vestir com o manto puro da sublimidade do que é verdadeiro. Assim, Vênus se apresenta também sublime, como a deusa do Amor em sua plenitude. Conforme relatou Platão, esta natureza dupla de Vênus, a contradição encarnada, comparece sob duas formas na mesma deusa, dando como impressão, porém que fossem duas: Afrodite Urânia, deusa do Amor puro, e Afrodite Pandemos, deusa do amor carnal.

Atributos de personalidade

Vênus é a deusa do amor sob todas as formas. Personifica tanto as paixões carnais desenfreadas quanto o amor cavalheiresco, idílico, imortalizado pelos trovadores provençais. Por sua beleza extrema e delicada, a maior entre todas as deusas e mortais, personifica a graça, a ternura, a estética, o charme, o bom gosto e os pequenos prazeres da vida. Representa também os cuidados com a aparência, o que não deve ser confundido com vaidade, que se associa ao cuidado exagerado.

Por seu hipnotismo irresistível, Vênus personifica a arte da sedução, a sensualidade. Também representa, na qualidade de deusa das paixões, a incapacidade de se lidar com os impulsos sexuais. Por ser uma deusa com personalidade dual, ela personifica ao mesmo tempo a existência ou a ausência de moral e o senso de atribuição de valor, ou sua ausência.

Defeito Capital: A Luxúria

Vênus não tinha limites em seus desejos. Não se importava nem mesmo em se arriscar, pois os desejos ofuscam a razão, não permitindo que riscos sejam avaliados. Paga-se o preço da vergonha, como tão bem é relatado pela descoberta da traição por Vulcano. Vênus não se importava com seu caráter moral, pois vagava de leito em leito; para ela, bastava tão somente realizar seus desejos.

Esta vida pregressa, maculada pelo desejo, pela necessidade de satisfação das paixões, caracteriza a luxúria, cujo exemplo máximo se resume na figura de Vênus. Vênus personifica, portanto, a luxúria em sua plenitude.

Virtude Capital: A Temperança

Afrodite Urânia e Afrodite Pandemos, eis a dupla natureza da deusa Vênus. Ela era, portanto, o binômio dos opostos encarnado, era a própria contradição. Porém, na maravilha da Natureza eis que surge a Lei Universal da Harmonia, da constituição ternária dos princípios. Se ela encarna a contradição, encarna também a intermediário, o ponto central, neutro. Se há o excesso, há também a moderação. Se se mergulha nas paixões que agrilhoam o indivíduo na matéria, há as asas do Amor que o desprende. Portanto, do mesmo modo que Vênus tem em si a faculdade de se chafurdar nos excessos do prazer, tem em si as chaves de como domá-los, para dirigi-los ao desfrute do casal enamorado do amor verdadeiro. Esta Virtude que permite moderar os apetites e as paixões denomina-se Temperança. Eis a razão porque Vênus personifica a Temperança, pois tem em si os extremos, que podem ser equilibrados.

Mercury Presenting Juno with the Head of Argus – Donato Creti

VII. Hermes – Mercúrio

Mercúrio, o Mensageiro dos deuses, o filho de Júpiter e Maia, já em seus primeiros dias de vida mostrou sua natureza astuta e enganadora. Desejoso de comer carne, saiu de sua caverna no monte Cilene na Arcádia e foi até a Piéria, ao campo onde pastavam o gado de Apolo. De lá furtou o gado e, para passarem despercebidos, calçou as patas dos animais com cascas de um carvalho tombado no campo. Apolo posteriormente descobriu o furto, porém não teve nenhuma pista de qual seria o ladrão. Sileno e seus sátiros, desejosos de obter alguma recompensa, procuraram o ladrão e o gado furtado em vários cantos, sem lograr êxito, até que um dia, atraídos por uma doce melodia jamais outrora ouvida, foram até a caverna do monte Cilene. Lá encontraram a ninfa de mesmo nome, aia de Mercúrio, que lhes disse que o instrumento de tão doce melodia fora a criação de um bebê de faculdades extraordinárias. Este instrumento, a lira, fora construída com a carapaça de uma tartaruga e com tripas de vaca. Desconfiados da procedência das tripas de vaca, adentraram a caverna, e lá perceberam peles que logo identificaram como sendo do gado de Apolo.

Apolo, levado pelas artes da adivinhação, descobriu o paradeiro do ladrão, e foi até sua caverna em Cilene. Lá, acordou Maia, que dormia um sono profundo enternecida pela melodia da lira. Mercúrio fingia estar dormindo, enquanto Apolo ralhava com Maia argumentando que seu filho havia roubado seu gado. Mesmo com o protesto da mãe, alegando que seu filho era ainda um menino envolto em fraldas e que não poderia ter cometido um ato como este, Apolo tomou o pequeno ladrão e o levou até seu pai, Júpiter. Lá, Apolo acusou Mercúrio, e Júpiter, relutante em acreditar que Mercúrio seria ladrão, o convenceu a revelar o paradeiro do gado. Mercúrio aquiesceu, confessando, portanto, seu ato criminoso.

Mercúrio justificou seu roubo alegando que estava fazendo uma imolação aos doze deuses do Olimpo, tendo sacrificado apenas duas vacas e cortando sua carne em doze pedaços, oferecendo-a aos doze deuses olímpicos; Apolo, surpreso, inquiriu Mercúrio para saber qual seria o décimo segundo deus, pois até então havia somente onze. Com um sorriso malicioso nos lábios, Mercúrio disse que o décimo segundo deus era ele mesmo, e que, portanto, estava comendo o décimo segundo pedaço de carne em sua própria homenagem. Era assim realizado, portanto, o primeiro sacrifício de oferecimento da carne animal aos deuses.

Mercúrio conduziu Apolo ao local onde havia conduzido o gado; antes, porém, foi até sua caverna e tomou a lira, tocando e cantando à honra de Apolo. O deus Sol, inebriado com tamanha beleza musical, perdoou seu pequeno irmão ladrão, dando-lhe o restante do gado em troca da lira. Mercúrio aceitou o negócio, e efetuou a troca.

Posteriormente, Mercúrio criou a flauta de juncos, a siringe, cujo belíssimo som novamente tocou Apolo, o deus da Música e da Beleza. Apolo propôs uma troca entre a siringe e seu cajado de ouro, ao qual o astuto deus Mercúrio recusou, alegando que sua flauta valeria mais; fazendo então uma contraproposta, Mercúrio quis não somente o cajado, mas também que fosse ensinado acerca das artes divinatórias. Apolo concordou, porém, levou o caso a Júpiter, que repreendeu o jovem e astuto deus, ordenando-lhe que não mais desrespeitasse a lei da propriedade alheia. Admirando-se, porém, com a astúcia e eloquência do jovem deus Mercúrio, Júpiter tornou-o seu arauto, a pedido aliás do próprio Mercúrio. Deu-lhe o cajado de ouro com duas serpentes entrelaçadas, o Caduceu, deu-lhe também suas típicas sandálias aladas, e seu chapéu característico. Dentre suas obrigações, deveria promover os tratados entre os homens e o comércio.

Atributos de personalidade

Mercúrio, ainda em tenra idade, demonstra grande astúcia ao disfarçar as pegadas do gado de Apolo. Mesmo sendo usada para o mal, demonstrou ser dotado de grande inteligência ao planejar o roubo sem deixar pistas.

Usou de uma grande eloquência para convencer Júpiter a tornar-lhe seu arauto. Demonstrou ser altamente comunicativo, pois foi designado por Júpiter para presidir a todos os tratados e relações entre os homens. Isso fez dele um diplomata.

Mercúrio era também cínico, como demonstra o episódio em que ele se auto atribuiu a condição de décimo segundo deus do panteão olímpico.

Defeito Capital: A Inveja

Um dos primeiros atos cometidos pelo jovem deus Mercúrio foi o roubo dos bois de Apolo. Pode-se tentar justificar um roubo pelo fato de o ladrão estar faminto; porém, na maioria dos casos, o fator motivador de qualquer roubo se resume fundamentalmente na cobiça, ou seja, o desejo de possuir. Posteriormente, no episódio da barganha que Mercúrio faz com Apolo sobre a siringe, é fácil de ver

que Mercúrio desejava mesmo era a aquisição da faculdade de adivinhação, poder este que Apolo detinha. Eis novamente o desejo de Mercúrio de possuir algo que não era dele, fazendo uso de artifícios para conseguir seu intento. Ambos os comportamentos deste deus o caracterizam como um indivíduo invejoso; portanto, Mercúrio é o deus que personifica a inveja.

Virtude Capital: A Paciência

Nos episódios acima, apesar de revelarem o caráter malicioso, ardiloso e invejoso de Mercúrio, é possível dele extrair uma Virtude. Sim, pois se é possível uma flor ser esplendorosa sozinha em um pântano, eis que também é possível se encontrar uma Virtude no meio do lodo do vício. Mercúrio, apesar de invejoso, não foi impulsivo a ponto de querer roubar para si o cajado de Apolo, ou mesmo de tentar forçá-lo a ensinar-lhe as artes da adivinhação. Este seria o comportamento típico de um ladrão barato. Mercúrio foi muito mais astuto: percebendo que Apolo, em sendo deus da Música, se atrairia por algum instrumento cujo som fosse realmente fenomenal, assim como ocorreu com o som da lira, criou um outro instrumento, a siringe, e através deste que negociou com Apolo aquilo que queria em troca. Mercúrio não cedeu ao impulso característico do ladrão pois foi paciente, planejando o que faria para obter seu intento. Assim como uma flor necessita de tempo para que sua semente germine e cresça, eis que uma ideia necessita do tempo para que germine e se converta em uma ação ordenada, planejada. A Virtude que permite aguardar, voluntariamente, este tempo para que a Natureza aja transformando as sementes em colheita, denomina-se Paciência. Mercúrio é, portanto, a personificação da Paciência.

(…)

Le secret d’Amour – Guillaume Seignac

Agora é possível efetuar comparações entre os atributos dos deuses e as influências planetárias correspondentes. Em cada uma das descrições dos atributos dos deuses descritas as palavras condensam adjetivos que qualificam as ações e consequentemente definem traços de personalidade dos deuses correspondentes. Ou seja, as descrições dos perfis dos deuses correspondem fielmente às influências planetárias observadas ao longo dos séculos.

As correspondências existentes são, como era de se esperar, exatas. Seriam coincidência? A resposta é um sonoro não.

A configuração do céu muda constantemente no decorrer do tempo. As posições relativas entre os Planetas e os Signos se alteram após um determinado lapso de tempo. No momento exato do nascimento de um bebê o céu terá uma configuração muito específica, com cada Planeta se situando relativamente em um ou mais Signo. O desenho desta configuração celeste, dependente do local e instante exato de nascimento, o Tema ou Mapa Astrológico. As influências astrológicas sobre o indivíduo são determinadas totalmente em função da configuração celeste apontada no tema astrológico. Estas influências são resultantes das forças astrais que os Planetas e os Signos. Tais forças são captadas pela atmosfera terrestre, compondo assim a Vida Terrestre.

Antes de um bebê nascer, toda a sua conexão com o mundo se dá por meio de sua mãe. É somente por meio do nascimento que ele toma seu primeiro contato com o meio exterior. É em sua primeira respiração que este bebê insuflará em seus pequenos pulmões o ar carregado com a Vida Terrestre, impregnada com as influências astrais características daquele momento. Então, deste modo, o bebê interioriza as forças que determinação as suas tendências de personalidade futuras.

Assim, o interior do bebê, sua alma, será impregnada de influências astrais externas. O interior espelhará em maior ou menor grau o exterior. Como a Astrologia lida com forças externas, e a Mitologia, com forças internas, a ligação entre o exterior e o interior representada pela primeira respiração do bebê ratifica a relação exata entre a Astrologia e a Mitologia. Eis a razão, portanto, de as correspondências apresentarem uma exatidão extrema.

Tratado Elemental de Ciencia Oculta

Bibliografia
1 – Papus, O ABC do Ocultismo, Coleção Arcanum, Vol. 5; Ed. Martins Fontes
2 – Papus, O Ocultismo; Ed. Cultrix
3 – Papus, Tratado Elementar de Magia Prática; Ed. Cultrix
4 – Papus, Tratado Elemental de Ciencia Oculta; Ed. Humanitas
5 – Lévi, Éliphas, Dogma e Ritual de Alta Magia, Ed. Cultrix
6 – Lévi, Éliphas, A Chave dos Grandes Mistérios, Coleção Arcanum, Vol. 8, Ed. Martins Fontes
7 – Schuré, Édouard, Os Grandes Iniciados, Ed. Madras
8 – Barnes, Jonathan, Filósofos Pré-Socráticos, Ed. Martins Fontes
9 – Aquino, São Tomás de, Sobre o Ensino; Os Sete Pecados Capitais, Ed. Martins Fontes
10 – Hesíodo, Teogonia, a Origem dos Deuses, Ed. Iluminuras
11 – Graves, Robert, The Greek Myths: I, Penguin Books
12 – Commelin, Pierre, Mythologie Grècque et Romaine, Pocket
13 – Bulfinch, Thomas, The Golden Age of Myth and Legend, Wordsworth Reference
14 – Schwab, Gustav, As Mais Belas Histórias da Antigüidade Clássica, Ed. Paz e Terra
15 – Grimal, Pierre, Dictionary of Classical Mythology, Penguin Books
16 – The Wordsworth Dictionary of Mythology, Wordsworth Reference
17 – March, Marion; McEvers, Joan, Curso Básico de Astrologia, vol. I, Ed. Pensamento
18 – Astrologia – Coleção A Sua Sorte, Nova Cultural
19 – Wirth, Oswald, O Simbolismo Astrológico, Ed. Nova Fronteira