Traduções

O Horóscopo de Cristo e o Segredo do Deus Mitra

A Sagrada Família de Luis Morales – O Divino

O Horóscopo de Cristo

Javier Garcia Blanco

Javier García Blanco é jornalista, fotógrafo e escritor. Depois de estudar História da Arte na Universidade de Zaragoza, trabalhou por vários anos como redator chefe de edição em diferentes publicações.

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Em 1563, um pintor espanhol – o maneirista Luis de Morales, o divino – concluiu o encargo de uma pintura que, a primeira vista, parece uma representação convencional de uma Sagrada Família. No entanto, o óleo, hoje nos fundos da Sociedade Hispánica de Nova York, esconde um singular e cativante detalhe.

Em primeiro plano aparece a Virgem Maria com o menino Jesus dormindo entre seus braços. A sua esquerda (do ponto de vista do espectador) se encontra São José e à direita, uma garota que sustenta uma cesta com vários ovos. Ao fundo, Morales pintou uma paisagem com colinas, onde se pode ver uma torre com a inscrição em latim Turris Ader (Torre de Ader), iluminada por uma poderosa luz celestial. Há, ademais, um rebanho de gado. A cena inteira parece estar lembrando, portanto, o nascimento de Jesus. No entanto, um último elemento, no canto superior direito, sobressai por suas estranhas características: se trata de uma figura quadrangular cheia de símbolos e linhas aparentemente incompreensíveis, acompanhadas por uma longa frase em latim. Esta curiosa figura passa desapercebida para a maior parte dos espectadores, mas se trata, nem mais nem menos, do que uma carta astrológica. A pergunta é, o que ela está representado em uma pintura de temática religiosa?

Detalhe do Horóscopo de Cristo, camuflado na pintura de Morales.

Embora a presença do insólito horóscopo tem chamado a atenção de muitos estudiosos, foi o historiador de arte espanhola Juan Francisco Esteban Lorente quem mais a fundo analisou a origem e o significado do mesmo. No ano de 1554, apenas nove anos antes da data de criação que foi atribuída a pintura, o cientista e matemático italiano Gerolamo Cardano havia publicado um livro discutindo o Quadripartitus de Ptolomeu, e nele aparece, precisamente, um horóscopo idêntico representado na pintura de Luis de Morales. O ilustre horóscopo, como explica Esteban Lorente é, por estranho que pareça, a carta astral do nascimento de Cristo.

Em seu livro, Cardano tinha tomado como referência a data tradicional do nascimento de Cristo (0 hora do dia 25 de dezembro do ano 0), e com isso criou a carta astral correspondente. A identificação do quadro astrológico representando na pintura o cálculo do matemático italiano está fora de dúvida porém há outro elemento, a inscrição latina que aparece no quadro, e que é suspeitamente similar a escolhida na obra de Cardano: “Esta é a situação dos céus quando Jesus Cristo apareceu no mundo feito homem, no dia seis e doze horas antes do início do ano astrológico, que é o início astral do ano eclesiástico. Na latitude de 32 graus ao norte”.

Curiosamente, tudo parece indicar – embora sem provas conclusivas – que a pintura realizada por Morales foi um encargo de Juan de Ribera, Bispo de Badajoz e mais tarde Arcebispo de Valência, cuja predileção por questões astrológicas foi mais que notável, a julgar pela grande coleção de títulos sobre o assunto que formava a sua biblioteca. O encargo do Bispo Ribera teria ocorrido em torno de 1562, quando a Igreja de Roma ainda não tinha emitido proibições específicas sobre algumas práticas astrológicas – e especialmente a horóscopos relacionados com Cristo – e, portanto, a representação astrológica da natureza humana de Jesus ainda não se via como suspeita de heresia. Se este encargo ocorresse apenas alguns anos mais tarde, é possível que a pintura nunca fosse realizada.

Quem sofreu a condenação eclesiástica foi Cardano, embora tivesse tomado a precaução de incluir um significativo texto em sua análise do horóscopo de Cristo (“e não pensem que quero dizer que a divindade de Cristo, ou seus milagres e sua santidade de vida ou promulgação da lei dependem das estrelas”) foi feito prisioneiro pela Inquisição em 1570, e o fragmento de seu trabalho sobre esta questão foi abolido pela ordem do Papa Sixto V em 1586.

Agora analisemos neste horóscopo representado na pintura do ‘divino’ através dos modernos softwares de astrologia as diferenças encontradas.

Olhando através de uma lupa, uma uma vez que não se vê muito claramente os números, vê-se que o signo ascendente se coloca a 2º 43′ de Libra; em seguida, se estabelece os graus para as cúspides seguintes, portanto se utiliza o sistema de cúspides iguais para a divisão de casas.

* No sistema de casas iguais a eclíptica também é dividida em doze setores de 30º cada um, mas diferença do sistema de signos inteiros, a primeira casa não começa onde o signo começa, mas no ponto exato que começa a cúspide do ascendente. As demais cúspides se situam nos mesmos graus correspondentes. O primeiro sistema de casas iguais a partir do ascendente se atribui a Cláudio Ptolomeu. Alguns astrólogos como Vettius Valens, ainda não influenciados pelo Tetrabiblos de Ptolomeu, também levaram em conta os graus do ascendente. Atualmente, a astrologia védica ou hindu usa casas iguais. Para conhecer os sistemas de casas astrológicas: Wiki

Mas para ângulos principais se utiliza uma hora de nascimento do Tempo Universal 21 h 46 m 42 s de 24 de dezembro que é realmente a data dada no centro da figura; diz-se: 6 dias + 12 horas antes do início do ano litúrgico. O ano começa no dia 1 de Janeiro do ano 0 Juliano ao amanhecer as 6 da manhã, que nos transporta ao dia 26 de dezembro menos 12 horas que corresponde às 6 da tarde, 18 h do dia 25 de dezembro.

O ascendente corresponde com a hora local de 00 h 07 m 30′ do dia 25 dezembro do ano O Juliano ou 1 a.C. ou 0001 d.C.

Não conhecemos essa tabela de casas usada por Cardano sobre este tema específico, que é a figura que Luis de Morales copia de Cardano. Mas podemos investigar outros caminhos que já foram trilhados.

Vemos nas cúpides iguais: Horóscopo de Cristo pelo ‘divino’, a hora 21 h 46 m 42 s do dia 24 de dezembro o que nos dá este ascendente.

Esta é a carta natal mais aproximada a da pintura.

Vemos que tanto no ascendente como na cúspide da casa VII são colocas duas estrelas (nenhum astrólogo sério do século XVI teria sonhado em interpretar um horóscopo desprovido de estrelas fixas; os planetas eram as estrelas errantes).

Mercúrio, Marte e Saturno são os mais ‘desviados’, estão errados em vários graus, sobretudo o primeiro como costumava acontecer nas efemérides (εφημερίς) daqueles anos.

Não posso dar aqui uma expalnação que envolva as efemérides e tábuas de casas que foram usadas no século XVI; como eram as de Leowitz, Stadius, Stoeffler e as Alfonsinas.

As cartas natais se davam em horário local, e isso não é mais usado, muito diferente da atual, que envolve o GMT e começa no meridiano 180º; e ademais foram baseadas no Calendário Juliano.

Muitos horóscopos famosos de meados do século XVI foram feitos por astrólogos que costumavam usar as efemérides de Regiomontano.

Depois apareceram as Tábuas Pruténicas de Erasmus Reinhold que reconheceu a necessidade de usar efemérides mais precisas derivadas do modelo de Copérnico; as efemérides de Stadius estiveram vigentes desde 1551 até 1570.

Em 1555 em Paris havia uma infinidade de lixo astrológico como hoje em dia, e muit mais se expalhou com o desenvolvimento da imprensa; naqueles anos se destacavam Alchabitius (as revoluções, os ingressos), AlbumasarBen Ezra, Regiomontano era um fã deste último, ele tinha um enfoque diferente dos demais no que diz respeito a interpretação das cúspides.

As principais correntes de pensamento esotérico astrolótico surgiram nesta época e em outros lugares longe de Paris, Cardan e Luca Gauricus eram italianos, Garcaeus era alemão, Paracelsus era suiço, exceto Oronce Finé.

Nostradamus aprendeu a usar todas estas efemérides; se encontraram várias efemérides de Stadius. Foi, talvez, Johannis Garcaeus e seu trabalho dedicado à astrologia o mais influente do seu século e ele era um fã do sistema de casas de Campanus.

Voltando a pintura, vemos que o sol está na cúspide da casa III, parece ser a 2º 53′ de Capricórnio em conjunção ao nódulo a 28º 28′ Sagitário; se nos fixarmos no desenho dos planetas colocados nas casas cardinais ele está dentro do quadrado interior, no local da casa correspondente; e a lua se situa a 28º 28′ de Áries em conjunção a estrela Algol a 28º 26′ de Áries e perto da cúspide da casa VIII; não sabemos se, como dizem alguns, se Cristo existiu ou não de verdade, ou foi uma alegoria da parada sol na sua quarta, solstício de inverno, o sepultamento da semente.

Os signos de Peixes e Virgem, em sentido retrógrado, é a marcha do Sol, que parecemos olvidar, e a marcha do Sol pela eclíptica, não apenas a Precessão dos Equinócios: o bamboleio da Terra; a figura do pescador/peixes de Cristo estava na mente dos homens – e dirigiu seus passos em todos os níveis de realidade durante toda uma Era, no plano físico, no seu DNA, no aspecto filosófico, sócio-cultural, artístico, religioso, político e etc.

A Terra segue ao Sol e a toda sua corte, o Sol arrasta com ele todos os outros; o Sol também tem sua precessão, ou nao? É isso que estão pesquisando os cientistas atuais.

Antes dos computadores, no ano 6 a.C.; o ano solar ou o ano de 0007 a.C., é o mesmo adicionando o 0 ao ano 0 que se esqueceu de calcular com o computador como a passagem de 1999-2000/1. Outro “Stelium” como aquele se dará em fevereiro de 2021 em Aquário, apos a grande conjunção de Júpiter – Saturno em 0º de Aquário, a renovação.

De qualquer maneira, também sabemos que Cristo, se encarnado teria seu horóscopo mais parecido a um genótipo puro de Peixes, que se deu no dia 1º de março do ano 6 a.C., ou 7 a.C.; combinando assim com as escrituras sagradas, com parte da história, da mitologia e com inconsciente coletivo; segundo a figura de Cristo por Demetrio Santos: gênio que tem sido como um jarro chinês para o mundo astrológico.

O Segredo dos Magos em San Pedro Viejo de Huesca

Javier Garcia Blanco

 No acalorado dia de reis, parece uma boa ideia analisar uma das muitas representações artísticas da Adoração dos Magos em busca de segredos curiosos. E precisamente uma das mais exclusivas cenas conhecidas deste tipo se encontra na cidade de Huesca.

Na atualidade os cristãos comemoram o nascimento de Cristo em 25 de dezembro, uma data que foi integrada pela Igreja de Roma no século IV para a celebração  do deus pagão Sol Invictus e a festividade de Mitra, ligados ao solstício de inverno.

 Apesar de que desde então essa se tornou a data tradicionalmente atribuída ao nascimento de Jesus, sábios de diferentes épocas se questionaram sobre a data real deste nascimento, bem como sobre a natureza real da famosa “estrela” que guiou os Magos até Belém.

 Na idade média, tornou-se popular em certos círculos de estudiosos da época – especialmente os astrólogos – que Jesus nasceu na primavera e, possivelmente, no ano 7 a.C., porque naquela época tinha ocorrido um stellium: uma impressionante conjunção de Júpiter, Saturno, Vênus, a Lua e o Sol no signo de Peixes (o peixe era o símbolo que os primeiros cristãos usavam para representar a Cristo).

Para esses estudiosos, o mais importante deste stellium – a estrela de Belém, do Novo Testamento – teria sido a conjunção de Júpiter e Saturno com o Sol, que é, na opinião do Professor Juan Francisco Esteban Lorente, o que aparece retratado no tímpano do mosteiro românico de San Pedro el Viejo de Huesca.

 Se olharmos para a cena representada sobre o tímpano, vemos que entre as figuras dos Magos e da Sagrada família há um grande círculo (o Sol) em cujo interior aparecem duas “estrelas” de sete pontas. Essas ‘estrelas’ são na verdade, Júpiter e Saturno, que se sobrepõem no disco solar, representando a marcante conjunção.

 Não é de estranhar que os escultores que talharam essa epifania conhecessem esta teoria sobre o stellium que guiou os Magos pois, na data de sua construção, um  judeu convertido, Pedro Alfonso, já havia deixado está narrativa num importante tratado de astrologia.

Artigos

Artículos de Astrología

Cielo e Terra – Association for the Study of Classical Astrology

The International Astrology Research Center Directed by Patrice Guinard

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O Zodíaco de Cristo I

Ars Secreta

Em outras ocasiões falei aqui da presença de certos elementos pagãos nos templos cristãos de todos os tempos. Agora eu quero fazer uma breve análise das representações de zodíacos, que encontramos frequentemente esculpidos nas fachadas de igrejas e catedrais, em torno da imagem de Cristo. Nestes casos, não é estranho que o Salvador esteja acompanhado pelas figuras dos doze apóstolos, de modo que a cena identifica Cristo com o Sol e os 12 apóstolos com os 12 signos do zodíaco.

Los Orígenes de la Estética Medieval

O uso de zodíacos em templos cristãos remontam aos primórdios do cristianismo, pois foram encontradas representações deste tipo em mosaicos e decorações de algumas basílicas paleocristãs. Esta mesma iconografia, calçada símbolo a símbolo, encontra-se em obras de arte da antiguidade tardia, o que representa os deuses antigos MitraFanes ou Aiôn. Estes aparecem envoltos pela roda do tempo, com os doze signos do zodíaco representado nela. Nestes exemplos pagãos, o deus representado simboliza o “Senhor Eterno”, que garante o movimento circular e infinito. Na Roma antiga, encontramos a mesma iconografia, aplicada inclusive em meros mortais, tal como explica o especialista André Grabar em Los orígenes de la estética medieval:

Na arte do fim da antiguidade, a imagem da eternidade (Aiôn) representa o eterno retorno infinito do tempo, em conformidade com as doutrinas filosóficas e religiosas. O Deus eterno é o senhor que, desde sempre, garante este movimento sem fim, ou seja, circular. Mitra e Fanes, Zeus e Aiôn são vistos, então, no meio ou ao lado da roda do tempo, na qual estão inscritos os doze signos do zodíaco. A aeternitas de um Augusto de Roma adota a mesma iconografia, que em certas ocasiões se aplica aos simples mortais quando se imaginam, após a morte, na eternidade do além.

Deus Fanes representado no interior do círculo zodiacal.

Todos estes casos têm a função de ressaltar que a eternidade é produzida como resultado da sucessão infinita de “retornos incessantes”. No caso de Cristo, por outro lado, esta roda do tempo não constitui, como nos exemplos dos pagãos, uma alusão a um tempo cíclico e circular, mas é uma alusão ao tempo que só se move para a frente, com o intuito de alcançar seu objetivo: a chegada do fim dos tempos e a segunda vinda de Cristo.

Como se produziu esta cópia de elementos pagãos pela arte cristã? Nos primeiros séculos do cristianismo, a nova religião rivalizava com as doutrinas pagãs, de grande importância e divulgação. Então a Igreja nascente viu com bons olhos a ideia de se apropriar de algumas das características de divindades desses cultos pagãos, como também já vimos com no caso da psicostasia. Como afirmou Emile Mâle, «A Igreja não tinha nenhum escrúpulo em tomar emprestadas formas pagãs e santifica-las, tornando-as numa leitura cristã». No caso dos zodíacos, os cristãos da época primitiva adotaram esta iconografia de Mitra ou Fanes sem mudanças notáveis. E assim acabou passando para os templos, sendo frequente sua representação em igrejas e catedrais na idade média, tanto em esculturas como em vitrais.

Alguns dos exemplos mais belos e marcantes são encontrados na espetacular catedral gótica de Chartres. Na fachada oeste, na porta da esquerda, aparece Cristo retratado na sua segunda vinda. Ao redor de sua figura estão esculpidos os signos do zodíaco. Este grupo de esculturas tem sido interpretadas como uma representação do tempo, que assume um significado especial ao estar com Cristo em sua segunda vinda e, portanto, iniciando o fim dos tempos.

Tímpano da Catedral de Chartres – Fachada Oeste

No entanto, este ciclo zodiacal tem uma peculiaridade, já que os signos não aparecem na ordem correta, mas estão alterados. Assim, por exemplo, a Virgem (Virgo) está num lugar mais proeminente, acima de tudo, ao lado da figura do Arqueiro (Sagitário). Esta variação poderia ser explicada porque esta catedral é dedicada a Nossa Senhora, por isso teria se modificado o conjunto para realçá-la. Além disso, também chama atenção que se representara a Virgem ao lado de Sagitário, já que estes signos não estão juntos no calendário. Os defensores da origem templária da Catedral (uma fantasia desprovida de toda a fundamentação, aliás) queriam ver neste detalhe uma prova de suas teorias: o arqueiro, Sagitário, é um símbolo militar, por isso representaria os Cavaleiros Templários, supostos promotores das obras da Catedral.

No entanto, autores como Louis Charbonneau-Lassay, autor do clássico El bestiario de Cristo, propôs uma explicação mais convencional: que a imagem de um centauro (Sagitário), seria um símbolo de Cristo, que agiria como um condutor de almas, e se mostra ordenando o Cosmos, acompanhado de Virgo (Virgem), sua mãe.

Além do caso que observamos em Chartres há outros belos exemplos de zodíacos, como as esculturas de Peixes e Gêmeos observaram no portão sul da fachada oeste, ou nos brilhantes e policromados vitrais que iluminam o interior do templo. Mas, tal e como já disse antes, são muitos os templos que repetem este motivo iconográfico. Na maioria deles, Cristo aparece rodeado pelo zodíaco e os meses correspondentes a cada signo, e geralmente aparece como Cronocrator (Senhor e ordenador do tempo) ou Cosmocrator (Senhor do Cosmos).

Na maioria dos casos, estas representações aparecem na frente dos templos, que, como Jean Hani esclarece: “são símbolos das portas solsticiais, os quais são a imagem da Porta do Céu, que não é outra senão o próprio Cristo”. Nestes exemplos, é habitual que o zodíaco apareça separado em duas metades, representando o ciclo anual. Assim, os signos ascendem do solstício de inverno para o de verão e, em seguida, descem até o inverno. Ocasionalmente, estes pontos de «mudança» aparecem simbolizados na porta pela representação dos dois «São João». Não é incomum ver São João Batista e São João Evangelista, cujas festividades coincidem «casualmente», com os respectivos solstícios. Esta representação dos «Joões» repassa uma mensagem clara. Ambos sinalizam para dois momentos chaves na história de Cristo: um anunciando a sua vinda – o Batista – e outro anunciando a segunda vinda – o Evangelista -. E da mesma forma, a Sua representação nos tímpanos – que às vezes acompanha o zodíaco – anuncia a chegada dos solstícios, as duas fases do ciclo anual. Esse utilização iconográfica dos «dois Joões» não é casual. Em templos pagãos, era utilizada a imagem de Janus, um Deus de duas faces cada uma das quais mirava em uma direção.

Em última análise, todos estes casos representam um exemplo da “viagem” que executam os símbolos ao longo da história. As formas são mantidas, enquanto o significado é moldado em muitos casos às novas crenças.

Bibliografia
CHARBONNEAU-LASSAY, L. El bestiario de Cristo. Olañeta ed. (Palma de Mallorca, 1997).
ESTEBAN LORENTE, Juan Francisco. Tratado de iconografía. Ed. Istmo (Madrid, 2002).
GRABAR, André. Los orígenes de la estética medieval. Ed. Siruela (Madrid, 2007).
WITTKOWER, Rudolf. La alegoría y la migración de los símbolos. Ed. Siruela (Madrid, 2006).
VV. AA. Cristianismo primitivo y religiones mistéricas. Ed. Cátedra (Madrid, 2007).

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O Zodíaco de Cristo II

Ars Secreta

O artigo acima menciona a presença de zodíacos astrológicos em alguns templos cristãos. Vimos o motivo e o significado de tais signos pagãos no seu processo de cristianização.

Neste artigo apresento um exemplo curioso de zodíaco em um templo cristão, presente na charmosa Basílica de Santo Isidoro, em León. Este magnífico templo de origem medieval possui inúmeras joias artísticas, mas neste caso estamos interessados na chamada Porta do Cordeiro, o principal acesso ao templo. Esta entrada, de estilo românico, conta no tímpano com uma representação do famoso episódio bíblico do Sacrifício de Isaac, bem como um relevo do Agnus Dei rodeado por uma mandorla que sustenta dois anjos, um de cada lado. Em ambos os lados do tímpano e de maior tamanho, as estátuas de São Isidoro e São Pelayo custodiando o acesso ao templo. No entanto, o que mais nos interessa é a presença, no topo desta porta, de curiosos relevos representando, nem mais nem menos, os 12 signos do zodíaco, começando com Peixes e terminando com o signo de Áries.

Os relevos estão atualmente em um péssimo estado de conservação, mas ainda podemos identificar cada uma das figuras. No entanto, há uma delas que se destaca. O signo de Capricórnio (o terceiro a partir da esquerda, a imagem que se vê ao lado) não se apresenta na imagem usual, mas em vez disso há um relevo do Deus Mitra ferindo o touro. Certamente, os artistas que realizaram este relevo escolheram esta representação deste deus porque seu nascimento era celebrado em 25 de dezembro (data que posteriormente foi apropriada pelo cristianismo), no solstício de inverno, que ocorre no signo de Capricórnio. Não deixa de ser curioso, também, que no interior da Basílica estão os restos mortais de São Isidoro, responsável para a primeira distinção entre astronomia e astrologia. Mais sobre a relação entre o mitraísmo (مهرپرستی) e astrologia pode ser visto no próximo artigo ‘O segredo do Deus Mitra’.

Vemos as fotografias em preto e branco com os signos de modo separado. Evidenciando o Capricórnio-Mitra. Poderá ser vista uma descrição detalhada de cada signo retratado na Porta do Cordeiro no seguinte link:

O Segredo do Deus Mitra

Ars Secreta

Todo ano milhares de turistas “armados” com câmeras fotográficas vão para as ruas de Roma a fim de visitar os recantos mais característicos de cidade: o ColiseuCidade do Vaticano, as diversas ‘piazzas’, o PantheonFórum RomanoNo entanto, muitas vezes outros rincões da cidade passam despercebidas aos olhos dos turistas, enquanto eles têm um interesse histórico, artístico e religioso igual ou maior que dos lugares mais populares. É o caso do Basílica de San Clemente, um templo do século XII, localizado a uma curta distância do famoso Coliseu e que, infelizmente, tende a ser obscurecida por isto. No entanto, alguns visitantes chegam lá atraídos pelos belos mosaicos que retratam cenas da vida do Pontífice que dá o nome ao templo. Mas, curiosamente, alguns dos elementos mais destacados deste rincão não são visíveis à primeira vista, eles estão “escondidos” no porão da mesma.

Em 1857, o dominicano irlandês Joseph Mullooly, decidiu dar início a escavações para trazer à luz o antigo templo paleocristão que, graças a várias fontes históricas, se sabia adormecido sob as fundações da Basílica atual. O padre Mullooly alcançou seu objetivo, mas também fez outras descobertas que ninguém esperava. Além dos restos do templo paleocristão do século IV, o trabalho detectou outros dois níveis inferiores, um correspondente às casas romanas destruídas durante o incêndio de Nero e outro, mais importante, correspondente ao século II. Nesta camada intermediária, apareceu uma mansão onde aparentemente se realizava as reuniões dos primeiros cristãos (conhecidos como Titulus Clemens) e também um bloco de “apartamentos”, que foi uma surpresa ainda maior: um spelaeum ou santuário dedicado ao Deus Mitra, em que os membros deste culto misterioso celebravam suas cerimônias secretas e ritos iniciáticos.

Mitra, o Deus da Luz

Vários cultos de mistério que prosperaram na época greco-romana (como os de ElêusisDionysusMagna Mater ou Isis), o mais singular e misterioso de todos foi, sem dúvida, o mitraísmo. Chamada de “religião de mistério” foi caracterizada por cultos de caráter esotérico e iniciático, em que se celebravam ritos secretos, cujos ensinamentos só podiam ser aprendidos por iniciados. Atualmente, a maioria dos estudiosos tendem a acreditar que segredos descobertos por aqueles que tinham se iniciado nos mistérios guardavam relações com a revelação da sobrevivência da alma após a morte, uma salvação que se obtinha através da participação e da iniciação nos próprios mistérios. Infelizmente, os detalhes sobre os rituais, iniciações e doutrinas destes cultos são muito escassos, em grande parte devido à natureza secreta e esotérica de tais práticas. No caso do mitraísmo, esta ausência de informação é muito mais pronunciada, os especialistas têm apenas vagas referências pouco confiáveis coletadas em muitos casos por autores cristãos que a atacavam impiedosamente as crenças e práticas mitraicas, que se iniciaram por volta do século I a.C. e teve seu maior apogeu no final do século II e início do III, desaparecendo completamente no final do século IV.

Por este motivo, os historiadores das religiões contam unicamente com a iconografia desenhada nas obras de arte encontradas em alguns mitreus para tentar revelar o conteúdo religioso e as doutrinas do mitraísmo. Para complicar ainda mais a questão, se dá a circunstância de que o primeiro estudo sério do culto de Mitra não apareceu até recentemente, em 1913, quando o estudioso belga Franz Cumont publicou Os mistérios de Mitra, cujos resultados foram revigorantes durante grande parte do século XX. Apesar das dificuldades, graças a vários estudos realizados desde o trabalho de Cumont, os pesquisadores conseguiram reconstruir, com alguma fiabilidade, o relato mitológico associado a Mitra e, com as possíveis cerimônias realizadas nestes santuários.

Altar com a cena da Tauroctonia, preservado no Mitreum de São Clemente.

Segundo esta mitologia, Mitra – retratado como um jovem com um gorro frígio e equipado com um punhal – havia nascido de uma rocha, tal e como representam numerosos relevos, como o preservado em um dos nichos do Mithraeum de São Clemente. Seguindo as ordens do Deus Apolo enviadas por um corvo (um dos animais que é sempre retratado juntamente com nosso protagonista), Mitra recebeu o encargo de encontrar e sacrificar um touro, que possuía o dom da fertilidade e da vida.

Quando ele finalmente localiza-o, Mitra consegue matar o animal, derramando seu sangue vivificante sobre a terra, preenchendo-a com a vida. Com o cheiro de sangue, outros animais vem ao encontro da ave moribunda: um cachorro, uma cobra e um escorpião (este último costuma ser representado com suas garras segurando os testículos do touro, um símbolo claro da potência fertilizadora), que estaria simbolizando, de acordo com algumas interpretações, a entrada do mal no mundo.

Essa cena da morte do touro, conhecida como Tauroctonia, aparece periodicamente em todos os mitreus encontrados até aquela data. Após o sacrifício, Apolo se juntou a Mitra para comemorar a vitória, celebrando-a com um banquete. Este ponto da história parece ser um dos momentos mais importantes dos cultos mitraicos pois, nos santuários – como é o caso do triclinium (τρικλίνιον) de São Clemente – são encontrados bancos corridos de pedra de ambos os lados do altar, que aparentemente eram ocupados pelos iniciados durante a celebração do banquete ritual. Após a celebração, as cenas das peças de arte mitraica representando a Mitra subiam em um carro com Apolo, sendo transportado diretamente para o céu.

Junto com este caráter fertilizador de Mitra, especialistas concordam que estes mistérios tinham um forte simbolismo cósmico. Isto é particularmente detectável na forma e arranjo do próprio mitreus, sempre em recintos sob a forma de uma caverna subterrânea, com tectos abobadados, que aludem, sem dúvida, ao Cosmos. Esta mensagem é rememorada em muitos mitreus, como acontece em São Clemente, porque a cúpula está decorada com estrelas – hoje muito turvas – que representam o firmamento. Em outros casos, as estrelas refletem-se na túnica do próprio Mitra. No recinto descoberto sob a Basílica romana, existem também outros detalhes que reforçam ainda mais este sentido cósmico: encontraram-se onze aberturas no teto que representam as sete esferas dos planetas na cosmologia platônica, e mais as quatro estações. Por outro lado, muitos relevos mitraicos, mostram além da tauroctonia habitual, a representação de duas figuras masculinas que carregam tochas: Cautes e Cautopates. O primeiro mantém a tocha apontando para cima, simbolizando a “ascensão” do Sol que se inicia com o solstício de inverno, enquanto o segundo aponta sua tocha para baixo, representando o solstício de verão e o início do “declínio” do Sol, com o qual Mitra – Deus da Luz – se identificava. Em outras ocasiões, Cautes e Cautopates são acompanhados por um touro e um escorpião respectivamente, então, que representam as datas depois dos equinócios. A todos estes detalhes são somadas outras representações mitraicas que incluem também representações do Sol e da Lua, além dos doze signos do zodíaco.

Cautes e Cautopates

De acordo com estas cenas e seguindo a história mitológica reconstruída graças a iconografia, os pesquisadores concluíram que Mitra era considerado o deus responsável pelo movimento das estrelas, bem como o criador (algumas inscrições aludem a ele como o “Pai Criador”) e que a realização do abate do touro permitia a harmonia, regeneração e revitalização do Cosmos, como parece demonstrar uma frase descoberta em outro mithraeum, de Santa Prisca: “E ele nos salvou através da irrigação do sangue eterno”.

Um Mapa Estelar

Durante décadas essa tem sido a interpretação defendida pela maioria dos historiadores. No entanto, nas últimas décadas do século XX, vários professores universitários levantaram uma hipótese fascinante. Em 1989 um deles, a orientalista David Ulansey publicou um artigo na revista Scientific American, no qual ele defendeu que a representação da tauroctonia, como a que se pode ser vista em São Clemente, era na verdade um “mapa estelar” de pleno direito.

Segundo o Ulansey, o abate do touro não é um episódio puramente mitológico, mas um fenômeno astronômico cuja existência se descobriu, precisamente, coincidindo com o surgimento do culto de mistério de Mitra: a precessão dos equinócios. Na antiguidade, acreditava-se que a terra era o centro do universo e que a chamada “esfera das estrelas fixas” girava ao seu redor, embora considerava-se que seu eixo era fixo. A precessão dos equinócios consiste em que o eixo de rotação da terra está a sofrer uma espécie de “balanço” (semelhante a um pião), o que motiva que o Equador Celeste bomboleie, causando uma alteração na posição relativa da linha da equador e da eclíptica (a linha imaginária que atravessa o sol durante um ano, do fundo das “estrelas fixas”). Por este motivo, a posição da nossa estrela se “atrasada” ao longo da eclíptica, de modo que a cada ano, o equinócio ocorre um pouco antes. É um processo muito lento, que tarda a se completar em mais de 25.000 anos, mas que inevitavelmente altera a aparência do céu. Assim, segundo Ulansey, ainda que na atualidade durante o equinócio da primavera o sol esteja localizado na constelação de Peixes, na época romana ele estava em Áries e, por volta de 2000 a.C., se encontrava em Touro. E daí, segundo o estudioso estadunidense, esta é a chave para a tauroctonía representada em São Clemente e, consequentemente, o segredo dos mistérios mitraicos.

Aproximadamente por volta de 125 a.C., Hiparco de Niceia descobriu a precessão dos equinócios. Ele viu que a esfera das “estrelas fixas” “bamboleava” e determinou que algo ou “alguém” era o responsável. Na opnião de Ulansey e dos defensores desta hipótese, Mitra seria esta força: um novo deus tão poderoso que era capaz de “mover” o universo. Mas, em que se apoia exatamente Ulansey para defender a “teoria estelar”? Se olharmos para as imagens da tauroctonía com os dados fornecidos por Ulansey, os animais e os objetos lá representados adquirem outra leitura: o touro, o cão, a cobra, o escorpião, o corvo, próprio Mitra e inclusive uma taça e o leão que, também aparecem às vezes, seriam representações das constelações de Touro, Cão Maior, Hydra, Escorpião, Corvus, Perseu, Taça e Leão.

Exceto essa última, todas estas constelações se encontravam no equador celeste, quando o Sol se econtrava em Touro durante o equinócio da primavera, por volta de 2.000 a.c. Desta forma, segundo Ulansey, a tauroctonía significava “o fim do reinado do touro (Tauro) como a constelação do equinócio da primavera e o início de uma nova era. As outras figuras da tauroctonía representam todas as constelações cuja posição especial no céu também terminavam pela força da precessão. Matando o touro, Mitra movia todo o universo. Além disso, aquele poder permitiu superar as forças do destino residente nas estrelas e garantir uma passagem segura da alma através das esferas planetárias após a morte”.

Tauroctonia

Embora alguns autores, como o perito Walter Burkert, não vê muita clareza nesta interpretação, a hipótese “estelar” tem outras provas notáveis para apoiá-la. De fato, os estudiosos sabem perfeitamente que a astrologia desempenhou um papel importante para os muitos iniciados do mitraísmo. Disso se depreende, por exemplo, de várias inscrições encontradas em muitos mitreus. Em uma delas, um iniciado é recordado como studiosus astrologiae (estudioso da astrologia), enquanto em outra, um Pater (o mais alto grau dentro dos mistérios mitraicos) chamado Nonius Olympius é descrito como “um devoto do céu e das estrelas”.

Em última análise, o mais provável é que as várias leituras iconográficas das obras mitraicas sejam ao mesmo tempo corretas e complementares, como assinala o historiador italiano Luisa Musso: “numa tentativa em se ler a tauroctonia se revelará uma imagem com muitos significados, que poderá ser entendida em diferentes níveis. Desde a fase essencialmente esotérica, até tornar-se uma interpretação em termos cósmicos (Mitra criador do universo), finalmente atinge o nível de exegese astrológica, que é quase uma nota de rodapé na página para os estudiosos”.

De uma forma ou de outra, e enquanto avançam as pesquisas, a única coisa certa é que este misterioso culto desapareceu no final do século IV, vítima de suas próprias características e do poder crescente do seu grande inimigo: o cristianismo. O sucesso dos seguidores de Cristo terminou por sepultar – no caso do mithraeum de São Clemente de maneira literal – os mistérios de Mitra, cujos segredos continuam hoje, longe de serem revelados completamente.

Fuentes para el Estudio del Mitraismo

Os 7 Graus de Mitraísmo

Como em todos os cultos de mistério os mistérios de Mitra eram acessíveis apenas após a participação em rituais de iniciação. No entanto, no caso dos seguidores de Mitra se dava a circunstância de que havia sete graus diferentes, criando uma complexa hierarquia inexistente em outros mistérios. Os fiéis a este deus – principalmente legionários, comerciantes e burocratas romanos – se submetiam a vários ritos de iniciação  (cujo conteúdo é pouco conhecido por seu caráter secreto) para acessar cada um dos graus: Corax (Corvo), Nymphus (cônjuge ou namorado), Miles (soldado), Leo (Leão), Perses (Persa), Heliodromus (emissário do Sol) e, finalmente, Pater (o pai).

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Bibliografia
* BOYLE, Leonard.  A short guide to St. Clement’s, Rome. Ed. Collegio San Clemente. (Roma, 1989).
* ALVAR, Jaime. Los misterios. Religiones “orientales” en el Imperio Romano. Ed Crítica. (Barcelona, 2001).
* BURKERT, Walter. Cultos mistéricos antiguos. Ed. Trotta. (Madrid, 2005).
* ULANSEY, David. The origins of the mithraic mysteries. Oxford University Press. (Nueva York, 1989).
* VV. AA. Cristianismo primitivo y religiones mistéricas. Ed. Cátedra. (Madrid, 2007).