Astrologia Antiga

Da Astrologia Antiga

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Gianriccardo Grassia Pastore*

* Gianriccardo Grassia Pastore é graduado em História/UFF e em Ciências Sociais/UERJ. Atualmente desenvolve mestrado em História e Filosofia das Ciências na Universidade de Lisboa. É membro do Centro Interuniversitário de História e Filosofia das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT- Universidade de Lisboa e Universidade Nova de Lisboa).
Revista Transdisciplinar Logos e Veritas, Vol. 01, nº 02, 2014, pp. 46-58, ISSN 2318-9614

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Resumo:

Este artigo procura apresentar, de forma introdutória, o que foi a astrologia antiga (aquela praticada até o século XVII), discorrendo do seu encontro com alguns dos pensamentos ocidentais, tais como o aristotelismo, platonismo, estoicismo, dentre outros, e de seus usos na vida cotidiana.

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Baseada em uma cosmovisão geocêntrica do universo na qual o Sol e a Lua eram considerados planetas e hegemônica na Astronomia dos séculos XVI e XVII, a astrologia tinha a percepção do céu a partir de um olhar da Terra, no qual os astros giravam em torno a este planeta e as estrelas mantinham-se fixas. Esta cosmovisão, herança grega e babilônica, dividia o céu circular em 12 setores iguais, com 30 graus cada um, chamados de zodíaco. Os 360 graus do zodíaco eram medidos a partir da constelação de Áries e as posições dos planetas eram feitas a partir da eclíptica em graus da longitude celestial. Os planetas, sempre girando em torno da Terra na mesma direção, possuem diferentes velocidades. Mercúrio, por exemplo, necessita de apenas oitenta e oito dias para executar sua volta, enquanto Júpiter precisa de doze anos.

Nesta cosmovisão, então reinante, as estrelas eram consideradas “fixas”, pois sua distância em relação à Terra fazia crer que estavam sempre no mesmo local. Aliado a isto, estudos das obras cosmológicas de Aristóteles, sobretudo o De caelo, De generatione et corruptione e dos Metereologica influenciavam a cosmovisão nos séculos XVI e XVII, fazendo que fosse a de tipo aristotélico-ptolomaica a mais aceita e levavam a interpretações de uma região celeste composta por um quinto elemento, o éter, em estado de perfeição. A região supralunar, na qual se encontravam as estrelas fixas, os sete planetas (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e a Lua) caracterizava-se, dentre outras coisas, pela sua perfeição e eternidade, na qual os sete planetas giravam em círculos concêntricos. O movimento circular representava exatamente essa eternidade e perfeição. Em contraposição, o mundo terreno (região situada entre o côncavo do orbe da Lua e o centro da Terra) era formado pelos quatro elementos de Empédocles: fogo, ar, água e terra. Os movimentos, por seu turno, eram retilíneos (ascendentes e descendentes). Caracterizava-se pela mudança, pela decomposição, pela geração, por início, meio e fim, nascimento, crescimento, e morte, ou seja, era imperfeito, corruptível

Essa mutabilidade, verificada no mundo inferior, relacionava-se com a influência dos corpos celestes, segundo o aristotelismo. É, nesse ínterim, que aristotelismo e astrologia encontram pontos em comum, partilhando de um mesmo dualismo cosmológico de hierarquia entre céu e Terra. Todavia, a segunda não se resumia a uma leitura estritamente física do mundo, era também uma “ciência oculta”, “magia”, “prática divinatória”, possuía uma concepção animista do universo, na qual os astros, dotados de vida e ação, influenciavam na vida terrena e na vida humana.

Apesar de Aristóteles não ter explicitado de que forma a influência celeste se dava na Terra, desde a Idade Média foi objeto de especulação daqueles que seguiam suas ideias.  As principais instituições de ensino filosófico da Europa no século XVII, incluindo os famosos Colégio das Artes de Coimbra; o Colégio de Santo Antão de Lisboa2; o Colégio de São Paulo, em Braga e a Universidade de Évora, eram locais nos quais, em Portugal, fazia parte do plano de estudos.

2 É minimamente muito curioso o fato de que, no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, durante a famosa “Aula da Esfera”, ministrada por jesuítas, fosse ensinada a astrologia judiciária, ou seja, aquela que fazia previsões e atentava contra o livre-arbítrio, tão defendido pela Cúria Romana e pelos próprios jesuítas. Isso nos leva ampliar nossa investigação sobre o objeto em tela.

É, neste ínterim, que a carta astrológica, também chamada de mapa astral, é utilizada. Ou seja, é feito um desenho do céu no momento do nascimento da pessoa ou evento do qual se quer fazer uma previsão. O que define o mapa é o ascendente, conhecido entre os gregos como Horoscopos. O ascendente é definido pelo grau do zodíaco no horizonte (Leste) no momento do nascimento.

Os sete planetas, de acordo com a teoria astrológica, exerciam, cada qual, um tipo de influência, segundo as características que possuíam. A Lua, Júpiter e Vênus tinham influências positivas, benfeitoras; enquanto Marte e Saturno eram negativos ou maléficos. Já o Sol e Mercúrio possuíam as duas características mencionadas (positiva e negativa). Também eram associadas características dos deuses que lhes eram atribuídos os nomes. Contudo, a influência dos planetas era alterada por outros fatores também. Uma das quais diz respeito à natureza do signo zodiacal no qual se encontrava. Cada planeta regulamentava dois signos, ou, no caso dos astros, apenas um signo. Os estudiosos afirmavam que cada planeta possuía sua exaltação beneficente em um signo, ou em graus do zodíaco e suas depressões, que seriam maleficentes em um signo diametralmente oposto. As características de um signo combinam com as características dos diferentes planetas a fim de produzir efeitos específicos. Além dos já citados, outros fatores poderiam influenciar na ação dos planetas sobre a vida terrena, contudo isso tomaría-nos demasiado tempo e, por ora, não faz parte de nosso propósito. Os astrólogos utilizavam-se do movimento dos planetas então conhecidos para fazer previsões ou explicações dos acontecimentos, sejam eles coletivos ou na vida dos indivíduos.

Como fora dito no princípio deste opúsculo, a astrologia concordava com a astronomia em sua visão de mundo, ou, se ainda quisermos, com os filósofos naturais, de uma maneira mais geral. Para compreendermos melhor aquilo que dizemos, um exemplo elucidativo de alguns dos pontos que lhe eram comuns seria a influência solar sobre a Terra, ou a da Lua. Sobre a Lua, especificamente, afirmava-se ter influência sobre os humanos. Médicos e filósofos naturais escreviam que as fases da Lua influenciavam as mulheres, principalmente naquilo que tange a menstruação. Aristóteles e seu contemporâneo, o médico Diocles, afirmavam que a menstruação se dava no fim do ciclo lunar. Escritos farmacológicos mostravam o uso de plantas que haviam conexão com a Lua durante a menstruação. Outras crenças davam conta da relação da Lua minguante com o medo e o frio. O próprio termo “lunático” tem sua origem na relação que aquela teria com a epilepsia ou algumas manifestações de loucura. Plutarco foi outro que escreveu sobre a influência da Lua sobre a Terra, afirmando que aquela aquecia a esta e que atraía exalações terrenas, purificando-a.

A ideia de simpatia estava contida em escritos antigos, particularmente os concernentes à medicina, e referia-se à correspondência que animais, plantas e pedras poderiam ser simpáticas ou antipáticas, em condições particulares, aos corpos celestes. Esta teoria foi melhor desenvolvida pelos filósofos estoicos, cuja “simpatia universal” referia-se à conexão que as coisas tinham entre si. Simpatia, para esta escola, era a ação causal do destino. Seguidos por Aristóteles e Platão, os estoicos afirmavam a existência dos quatro elementos de Empédocles (ar, água, fogo e ar) como constituidores de todas as matérias. Assim, o fogo, enquanto calor inato, seria o único elemento permanente. Os quatros elementos denotam as propriedades de quente, frio, seco e úmido. Para Aristóteles, o céu ainda era formado por um quinto elemento, o éter; destacando, desta maneira, a diferença de constituição do mundo perfeito e incorruptível, do mundo sublunar. Ptolomeu trabalhava segundo o modelo aristotélico para explicar a influência astral:

Algumas pequenas considerações tornariam evidente para todos que um certo poder que emana da substância eterna etérea é dispersa e permeia toda a região em torno da Terra, aonde tudo está sujeito a mudanças, já que, dos elementos sublunares primários, o fogo e o ar estão englobados e alterados pelo movimento do éter que, por sua vez, a tudo muda: terra, água, as plantas e os animais.

Segundo Barton, é impossível saber quem teria sido o primeiro a fazer a conexão entre aristotelismo e astrologia, porém é provável que tenha sido anterior a Ptolomeu. O autor afirma que existe uma passagem atribuída a Nechepso e Petosiris, autores de textos fundamentais sobre astrologia na Antiguidade Helênica, na qual descrevem como a força entre os planetas é transmitida entre as esferas até a esfera sublunar.

Contudo, a astrologia é ainda anterior a este período. No século VII a. C., os babilônicos já desenvolviam uma cosmologia assentada em uma visão de universo na qual o movimento do cosmos se relacionava com as ações humanas. Babilônicos e caldeus estabeleceram a primeira relação entre corpos celestes e os eventos da Terra. Essa correlação de fatos parece ter tido aceitação dentre os egípcios e o mundo helênico. De acordo com a mitologia clássica, Orfeu interpretou o adultério de Vênus através da astrologia. Ptolomeu, o mais famoso dos astrólogos gregos, via a astronomia e a astrologia enquanto complementares, ainda que visse a segunda enquanto dependente da primeira, pois necessitava das bases factuais da astronomia. Enquanto dedicou o Tetrabiblos à astrologia, o Almagesto era dedicado à astronomia e estas são das suas obras mais fundamentais.

Alexander of Aphrodisias – On Fate

Alexander de Aphrodisias, pertencente à Escola Peripatética por volta do séc. III a.C. e, provavelmente, influenciado por Ptolomeu, discute a questão da influência astral em uma série de textos. Em um deles, trabalha a questão da influência planetária mais especificamente. Os planetas, movendo-se em torno ao zodíaco, aproximam as partículas do quente ou seco, enquanto produzem os outros elementos – ar (quente e úmido), água (fria e úmida) e terra (fria e seca) – a uma grande distância. Ao mudar a posição, efetua-se um processo de contínua mudança no material afetado. Corpos rarefeitos, mais perfeitos e ativos são gerados do fogo, enquanto os corpos mais imperfeitos, passivos e densos são compostos por outros elementos.

Em uma passagem que muito se aproxima do pensamento de Aristóteles na sua famosa obra Da geração e da corrupção, Ptolomeu observa os elementos como sendo todos fornecidos pelo Sol em quantidades diferentes.  De acordo com a sua posição em relação à Terra, Barton assevera que, segundo Ptolomeu:

“Para o Sol, em conjunto com aquilo que o circunda, está sempre, de alguma forma, afetando tudo na terra, não apenas as mudanças que acompanham as estações do ano para trazer a geração dos animais, a fecundidade das plantas, o escoamento das águas e as mudanças, mas também por suas revoluções diárias que fornecem calor, umidade, secura e frio em ordem regular e em correspondência com as suas posições em relação ao zênite”.

Segundo Barton, os efeitos dos corpos celestes são explicados por Ptolomeu de acordo com as quatro qualidades. Em muitos locais, a energia do Sol ativa aparece aquecendo e secando, enquanto a da Lua umidifica. Marte queima e arde, conforme sua coloração de fogo e devido a sua aproximação ao Sol. Júpiter possui força de aquecimento da temperatura devido ao seu movimento entre o arrefecido Saturno e à Marte que queima, além de produzir umidificação e ventos fertilizantes. Vênus aquece moderadamente devido a sua proximidade em relação ao Sol, contudo, principalmente, umidifica devido a quantidade de sua luz própria e porque se apropria das exalações da atmosfera úmida em torno da Terra. Saturno é frio e seco (porque ele é removido do calor solar e das exalações úmidas da Terra).

As ideias ptolomaicas acima citadas muito provavelmente têm sua origem no pensamento dos filósofos originários Heráclito e Anaximandro, conforme observa Barton. Todavia, muito possivelmente, a referência mais direta é, mais uma vez, Aristóteles. A cosmologia aristotélica, no que concerne a atmosfera sublunar, é, basicamente, constituída por calor, secura e exalações de fumaça da terra; enquanto o frio e vapores úmidos são provenientes da água. A parte mais elevada da atmosfera consiste em exalações quentes e a sua parte inferior, da mistura entre as duas.

As ideias sobre as exalações foram, muitas vezes, ligadas à compreensão do universo baseadas no corpo humano. Cleantes de Assos, filósofo estoico do III a. C., sugeriu que os corpos celestes eram sustentados por exalações provindas dos oceanos e de outros líquidos do corpo terrestre, assim como a alma humana (vista aqui como corpórea) seria sustentada por exalações de sangue. Nesse ínterim, se dava a explicação para os solstícios: o Sol dava voltas quando atingia o ápice do oceano porque não haveria mais nada para sustentá-lo. Os corpos celestes, assim como os corpos humanos, derramavam-se como líquidos com o calor. Já no diálogo de Plutarco Na face da Lua (em tradução literal), enquanto as estrelas giravam como olhos radiantes na face do universo, o Sol desempenhava o papel do coração, transmitindo e distribuindo calor e luz como se fosse o sangue e a respiração. A Terra e o mar agem como o intestino e a bexiga. e a Lua, por sua vez, situada entre o Sol e a Terra, assume a função de um órgão como o fígado ou, talvez, o baço e direciona o calor do Sol para a Terra e as exalações da Terra para o Sol após refiná-las e purificá-las.

Em uma série de filosofias da Antiguidade, a correspondência entre o universo (macrocosmo) e os seres humanos (microcosmo) foram importantes axiomas. É nesse contexto que Cleantes desenvolve a interpretação médica de que o calor inato é o princípio da vida humana, argumentando que este fora o próprio princípio do universo. Analogamente, assim como os homens têm inteligência para suas faculdades (a principal parte da alma), então o universo também possuiria uma inteligência preeminete para suas faculdades. Essa noção associativa entre o macro e o microcosmo é também partilhada pelos pitagóricos. Epifânio de Salamina, grande defensor da ortodoxia cristã em fins do IV d. C., escritor de um compêndio de heresias que ameaçavam o cristianismo primitivo, que atribui a Pitágoras a ideia de que Deus, ou o céu, seria um corpo e seus olhos e outras funcionalidades seriam o Sol, a Lua os demais elementos do céu. Já o platonista do II d. C., Theon de Smyrna, menciona que os pitagóricos viam o Sol como o comandante das faculdades e centro dos planetas, como uma espécie de coração do universo. Outro platonista, Porfírio, em sua Introdução ao Tetrabiblos também atribui ao Sol o coração do universo e suas competências especiais, enquanto a Lua seria o baço e Júpiter o fígado. A afirmação de que o homem seria um pequeno universo é atribuída ao filósofo originário Demócrito. Como pode-se observar, essas analogias entre os humanos e o universo se originam na Antiguidade e irão se desenvolver ao longo dos séculos seguintes e nos serão de especial importância para compreendermos o que é astrologia em um contexto no qual o mundo perfeito (supra-lunar) influencia o mundo da corrupção e da geração (mundo sublunar).

Aquele que se tornaria um dos principais autores e pilares da Astrologia, Ptolomeu, não faz tantas analogias entre o céu e o corpo humano, como vimos os autores mencionados até o presente momento. Ptolomeu parte da constituição dos quatro elementos para explicar a relação existente entre os planetas. Para este autor, o calor e a umidade eram fatores beneficentes, sendo ativos e férteis; enquanto o seco e o frio seriam destrutivos e passivos, forças de separação e destruição. De acordo com a combinação dos elementos, os planetas seriam classificados como masculinos ou femininos. Para elucidar melhor o que acabamos de afirmar, peguemos como exemplos Vênus e a Lua que, por possuírem umidade, eram considerados femininos; enquanto o Sol, Marte e Júpiter seriam masculinos. Mercúrio, por seu turno, seco e úmido, era considerado hermafrodita. De acordo com Ptolomeu, os quatro elementos seriam produzidos acima do Sol. Além desses fatores, era preciso também considerar a alteração do gênero dos planetas de acordo com o aspecto do Sol e o quadrante em que estes estivessem. A Lua, em fase de crescimento até o seu primeiro quartel, produz mais umidade; já da passagem do seu primeiro quartel até se tornar cheia, produz calor; da passagem da lua cheia para o último quartel produz mais aridez; e, por fim, do seu último quartel até a chamada lua nova, produz mais frio.

Quanto aos signos, Ptolomeu classifica-os em gêneros alternadamente, iniciando em Áries como masculino, pois este gênero conduz, é ativo e superior. Ptolomeu tem explicações para cada elemento da Astrologia. A casa dos planetas é contada por suas naturezas e posições. Dessa forma, Leão e Câncer pertencem ao Sol e a Lua respectivamente porque são signos localizados mais ao norte que os demais, e ,sendo mais próximos do zênite, produzem calor, e Leão é masculino como o Sol e Câncer feminino como a Lua.

A explicação naturalística de Ptolomeu são, muitas vezes, racionalizações de teorias que tinham origem em mitos sobre as estrelas, como atesta Barton. Ptolomeu esforça-se para excluir os elementos de personificação com os quais os astrólogos estavam acostumados a trabalharem nas suas explicações sobre os céus.

Platão, associa a alma às estrelas. Em seu famoso diálogo Timeu, as almas são produzidas pelo Demiurgo no mesmo número de estrelas. As estrelas, para Platão, têm um papel secundário na criação: enquanto o Demiurgo cria a parte racional da alma humana, as estrelas formam os corpos humanos. Alguns neoplatonistas, nos fins da Antiguidade, deram ênfase a este lado “místico” de Platão, em uma espécie de “física religiosa”. Macróbio, em seu comentário ao Sonho de Cipião, de Cícero, atribui à rotação do Universo a uma espécie de “mundo-alma”, que estaria intimamente relacionada com a alma humana individualmente. Pitagóricos e platonistas davam origem astral às almas.

A crença na relação das estrelas com a vida (ou alma) humana estendia-se a outros autores da Antiguidade. Plínio, o Velho, por exemplo, afirmava que cada ser possuía sua própria estrela, que surge com este no seu nascimento e desaparece na sua morte. Durante a vida, o brilho da estrela variaria de acordo com o estado da pessoa a qual pertencesse. No já citado Sonho de Cipião, de Cícero, a personagem que dá nome à obra sonha que sua alma deixa seu corpo, indo parar nas estrelas. No comentário de Porfírio ao Tetrabiblos, é exposto que o corpo astral da alma vem das esferas planetárias e voltam a estas após a morte. Alguns neoplatonistas desenvolveram também a ideia de que as estrelas purificavam a alma ou de que a alma ascendia após a morte, outros ainda afirmavam a contribuição estelar para alma humana. Servius, comentador de Virgílio do IV século, lembrava que, de acordo com os filósofos naturais, as pessoas recebiam a pneuma do Sol; o corpo, da Lua; o sangue, de Marte; a inventividade, de Mercúrio; o desejo de honra, de Júpiter; paixões, de Vênus; e as lágrimas, de Saturno. Os vícios também eram atribuídos a estes: a preguiça era atribuída a Saturno; a raiva, a Marte; a luxúria, a Vênus; apego ao dinheiro, a Mercúrio; e desejo de governar, a Júpiter. Muito provavelmente, como afirma Barton, as características míticas dos deuses são graças à Astrologia.

Na Antiga Mesopotâmia, as estrelas eram vistas como deuses. Historiadores, inclusive, afirmam que pertenceria a esta sociedade o mais antigo horóscopo encontrado e dataria do V a.C. Já os astrônomos helenísticos designavam as estrelas com nomes que pudessem representar a sua aparência, tais como a “estrela cintilante” (Mercúrio), a “brilhante” (Júpiter), ou referindo-se a elas como pertencentes aos deuses gregos. Dessa forma, Saturno seria a “estrela de Kronos”; Júpiter, a “estrela de Zeus”; e assim por diante. Foi durante a ascensão da República Romana que os planetas passaram a ser conhecidos pelo nome dos deuses.

É, nesse contexto, que podemos explicar que diferentes sociedades antigas recorriam à Astrologia para os seus mitos e, apesar de se desenvolverem de formas diferentes, possuíam esse ponto em comum. Na Grécia, o Sol, Helios, tinha um papel menor e, por isso, o deus olímpico Apolo tomou o Sol como uma de suas várias províncias. Astrólogos como Vittius Valens, baseando-se na mitologia egípcia, associou os luminares à Ísis e Osíris. Na cosmologia babilônica, a Lua vem de Anu, Enlil e Ea e era de onde provinha o seu poder ao longo das suas fases. Nesta cosmologia, a Lua presidia o destino e a realeza com sua filha Ishtar (Vênus). Na mitologia grega Artêmis era a deusa associada a Lua, assim como Diana o era na mitologia romana.

Na Babilônia, Saturno assumia a figura sacerdotal. Já para os gregos, este papel foi Cronos, o deus de uma era brutal, anterior às regras olímpicas nos céus. Por ser visto como velho, considerado o pai dos planetas, seu nome foi inevitavelmente associado ao tempo. Por sua história de crueldade, de castrador do próprio pai por ter engolido seus filhos, era associado à maleficências. Júpiter era Zeus, rei do Olimpo e o planeta mais dinâmico, associado à fecundidade, talvez reflexo da quantidade de filhos que possuía. Marte, na Babilônia, era designado como deus da guerra ou de mortes violentas, baseado na sua coloração avermelhada.

Na mitologia suméria, Vênus, ou Ishtar, filha da deusa Lua, uniu-se ao deus Céu e tornou-se mãe do universo. Na mitologia grega, era Afrodite, deusa do amor. Já para os egípcios, tinha a reputação de pureza e graça. Mercúrio era Hermes, o astuto mensageiro dos deuses. Talvez tenha sido a sua velocidade de seu movimento a responsável pela sua identificação enquanto mensageiro. Na Astrologia, estava associado também a pessoas que tivessem facilidade em Matemática, Filosofia Natural e o uso das palavras.

A relação entre os planetas também era utilizada para explicar suas personalidades. Assim sendo, à Vênus, que teve uma relação de adultério com Marte, era associada essa prática. Contudo, possuíam características opostas, tais como o frio e o calor, eram o planeta beneficente e maleficente, respectivamente, e todo astrólogo estava ciente de que o primeiro venceu o segundo, considerando-se, assim, que o amor era mais forte que a raiva. Este princípio foi motivador para que Marsílio Ficino escrevesse a este respeito em seu comentário do diálogo de Platão Simpósio, “O Banquete”.

Como se pode observar até o presente momento, os planetas recebiam características antropomórficas e estas, muitas vezes, eram comuns àquelas adotadas pela Astrologia. Como vimos, cada planeta recebia uma atribuição que lhe era própria, assim como as estrelas. Cada corpo celeste contribuía à sua maneira para a vida terrena. O astrólogo, combinando técnicas mesopotâmicas e gregas, fazia previsões de acordo com o movimento planetário. Instrumentos astronômicos, tais como o astrolábio e as tábuas astronômicas, permitiram fixar mais acuradamente nascimentos e outras ocorrências. Utilizando-se desses instrumentos e de suas técnicas, os astrólogos poderiam designar o signo do Zodíaco e os planetas de maior significância que ascendiam no horizonte à data do nascimento ou de algum evento qualquer. Poderiam, da mesma maneira, identificar o ascendente, dividir o Zodíaco, localizar os quatro pontos cardeais e delimitar os doze segmentos, chamados casas, que definiam os efeitos da influência planetária.

De acordo com as interpretações perpetradas pelos astrólogos, poder-se-ia predizer quantos anos o cliente viveria, os talentos que possuía, o quanto poderia prosperar. Na Idade Moderna, ainda, segundo afirma Grafton, era comum a um astrólogo determinar a influência que um planeta exerceria em um evento importante da vida do cliente, ou ajudá-lo em alguma escolha. Também eram comuns predições sobre casamentos, investimentos, previsões sobre assuntos políticos, dentre muitos outros. Os utilizadores da Astrologia com maiores ambições intelectuais ainda se utilizavam desta para investigar a História Mundial. O simples fato de Saturno e Júpiter alinharem-se a cada vinte anos, por exemplo, poderia significar reveses para a história mundial. Astrólogos persas, judeus, árabes e europeus utilizavam-se disto para fixar pontos de viradas na história mundial, tais como o nascimento de novas religiões e para predizer o fim de eras. Contudo, a mais importante e desafiadora tarefa de um astrólogo qualificado era sempre a mesma: elaborar a geração ou origem de eventos através da carta celestial.  Isso explica como a influência dos céus formaria o caráter individual das pessoas, cidades, países, dentre outros.

É, nesse ínterim, que cabe aqui explicar uma subdivisão dentro do seio da astrologia e que será de capital importância para compreendermos alguns dos mais fundamentais problemas durante a Idade Moderna e engendrados entre a Inquisição romana e a astrologia. A primeira das mais famosas distinções entre a astrologia natural e judiciária foi desenvolvida por São Tomás de Aquino na obra Summa theologica. Esta divisão, que será seguida nos séculos seguintes, justamente por, muitas vezes, não estabelecer fronteiras muito nítidas entre as duas será fonte de muitos desdobramentos nos séculos XVI e XVII, período de grande convulsão no seio da Igreja Católica, devido às Reformas Protestantes. Aceitar a astrologia judiciária, era aceitar a predestinação do homem. É, nesse contexto, que o papa Sisto V lança a bula Coeli et Terrae (1586), proibindo esta prática divinatória, todavia permitindo a astrologia natural, o que contraria a ideia de uma Igreja que se opunha às ciências. Importante notar que esta bula fora traduzida do latim para a língua vulgar, o que não ocorria. Talvez para que conseguisse atingir o maior número possível de pessoas, ainda que boa parte da população fosse de analfabetos. Contudo, na própria bula, consta que esta deveria ser afixada na porta das igrejas, dentre outros lugares para que se fizesse saber o maior número de pessoas possível.

Segundo Ugo Baldini, desde seus primórdios, o cristianismo sempre estabeleceu relações com artes divinatórias e, mais especificamente, com a própria astrologia, considerada a mais “científica” de todas elas. Essas técnicas, conforme atesta o autor, estão contidas em passagens do Antigo e do Novo Testamentos e não apenas enquanto algo a ser desacreditado. Todavia, a situação começa a tornar-se mais complexa nos períodos apologéticos e patrísticos devido às pressuposições de que essas técnicas (crenças sobre a realidade natural e suas ligações com entidades sobrenaturais ou forças) não foram imediatamente expurgadas pela nova religião. Dessa forma, essas crenças eram imediatamente catalogadas enquanto demoníacas e admitidas enquanto reais. Esse tipo de pensamento, sustenta o autor, não encontrou terreno fértil apenas no mundo cristão. Essas ideias, originadas ainda no mundo pré-clássico, relacionavam-se com a criação, com a divina onipotência, dentre outras e era uma questão com contornos problemáticos.

 Essa “teologização” das crenças mágico-divinatórias suscitaram debates na construção de uma ortodoxia cristã. De várias formas e em graus variados, a aceitação dessas entidades, forças ou processos envolviam várias formas de “heresias”. Contudo, como desenvolveremos mais adiante, no início da Idade Moderna, será um tipo de astrologia – a judiciária – que enfrentará as proibições da Igreja romana.

Por astrologia judiciária entende-se aquela que faz previsões sobre a vida de alguém, sobre alguma guerra, eventos políticos, dentre outros e esbarrava em um princípio muito caro ao catolicismo: o livre-arbítrio. A partir do momento em que um indivíduo não pudesse mais se responsabilizar pelos seus atos perante Deus (visto que a predeterminação era incoerente com isso), a Igreja Católica colocava-se contra esta posição. Contudo, a astrologia de tipo “natural”, ou seja, a que dizia respeito a questões agrícolas, médicas (pois, para o médico, em um mundo marcado pela cosmovisão aristotélico-ptolomaica, o ser humano era formado pelos quatro elementos e estes, por sua vez, eram influenciados pelo mundo perfeito, supralunar), esta sim era aceita pela Inquisição. Conforme afirma Ana Avalos, de Hipócrates, até o século XVII, o conhecimento de astrologia fazia parte do aprendizado do médico ou físico.

Segundo afirma Ana Avalos, a astrologia medieval seria ainda rudimentar até a influência vinda da ciência muçulmana. É muito provável que a Europa não tivesse conhecimento das grandes obras da Antiguidade. Nem Firmicius Maternus e nem tampouco Manilius eram conhecidos antes do século IX e o próprio Tetrabiblos viera na esteira do conhecimento islâmico. Durante a Baixa Idade Média, o conhecimento cosmológico provinha apenas das principais obras de Aristóteles (De Caelo, Metaphysica, Metereologica, De Generatione et Corruptione) através de seus comentadores gregos e, especialmente, árabes, tais como Averrois e Albumasar.

Em fins da Idade Média, as utilizações da Astrologia variavam da mais prática a mais teórica. No que tange à prática, a Astrologia fazia parte, fundamentalmente, das necessidades dos físicos e ainda oferecia informações sobre o tempo e matérias pessoais. Nas cortes medievais, a astrologia obteve destaque principalmente em França, Itália e Inglaterra.  Os horóscopos influenciavam ainda decisões políticas e militares. As estrelas costumavam ser “questionadas” a cada novo rumo a ser tomado pelo Estado, desde viagens de um príncipe, até a entrada em uma guerra. Já na parte teórica, foi em fins da Idade Média que os grandes intelectuais do período, notadamente Robert Grosseste, Alberto Magno, Roger Bacon e Tomás de Aquino deram as bases da filosofia natural aristotélica. Nas universidades, a astrologia transformara-se em um honorável membro do Quadrivium, muito apreciada pelos estudiosos, ainda que enfrentasse resistência por parte dos teólogos.

No período do Renascimento, a astrologia recebeu particular atenção dos estudiosos sob as mais diferenças perspectivas, como atesta Avalos. Segundo a autora, isso se deve ao fato de que é nesse momento que a arte, a religião e a filosofia convergem ou divergem em debates a respeito da astrologia.

Avalos ainda continua afirmando que os estudiosos têm dado papel de destaque a Marsilio Ficino, devido as suas sofisticadas teorias astrológicas no período em questão. O terceiro livro da obra, De triplici vita (De vita coelitus comparanda), é provavelmente um dos mais complexos, elaborados e detalhados trabalhos sobre magia e Astrologia. De acordo com Ficino, nas palavras de Avalos, os céus influenciam todo o estado físico e mental do homem. Todo homem foi subjugado aos poderes de um planeta no momento de seu nascimento. Contudo, observa Ficino, o homem sofre influências, inclinações das estrelas, mas estas não determinam sua vida. Na tentativa de distinção entre a “inclinação” e a “determinação” dos astros, Ficino quis conciliar suas ideias sobre astrologia com a sua fé cristã. Esta tentativa de conciliação foi tema de longos debates durante a Idade Moderna.

As bases na qual irão se assentar as explicações ficinianas é a teoria da alma platônica. Após o século II d. C., a hipótese da formação do cosmos são inspiradas na teoria da formação anímica antes do próprio nascimento do ser e determinava seu destino. Esta tese combinava-se ainda com a ideia da ascensão e do decesso d’alma. Neste percurso do céu até a Terra, a alma assimilaria a influência dos planetas. Os sete planetas reforçam nos corpos humanos e nas almas as sete virtudes originais concedidas por Deus. Contemplação é dada por Saturno; poder, por Júpiter; o valor da alma, por Marte; a clareza dos sentidos, pelo Sol; o amor, por Vênus; a capacidade de interpretação e expressão, por Mercúrio; e a geração, pela Lua. As almas descendem para seus corpos através da constelação de Câncer e ascendem através de Capricórnio, cobertas por um véu celestial chamado pneuma. As ideias neo-platônicas de Ficino foram dissipadas ainda no início da Idade Moderna, muito provavelmente devido ao que muitos autores afirmam ser o “declínio” da astrologia no século XVII.

Mais do que simplesmente meras previsões, conforme asseguraria o senso comum e, muito longe daquilo que se vê publicado em jornais e revistas de nossos dias, a Astrologia foi e, para muitos, ainda é, fonte inesgotável de saber. Mais do que isso: fez – e em muitas universidades ao redor do mundo ainda faz – parte dos curricula. Desde o seu surgimento até o seu “encontro” com as filosofias dos antigos gregos, passando por toda a chamada Idade Média, até a Idade Moderna, foi fruto de incessantes contendas, das mais variadas espécies. Se, por um lado, era vista como perturbadora da ordem, era igualmente utilizada nas cortes; se, por um lado era atacada pela Igreja Católica, defensora do livre-arbítrio, era ensinada na Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão, por jesuítas. Conforme podemos observar, a partir da leitura deste pequeno texto introdutório, que a Astrologia se assentava nas mais importantes filosofias, era possuidora de todo um corpus teórico, dotada de racionalidade e era praticada por nomes que seriam caros àquilo que ficou conhecido como “Revolução Científica”, tais como Galileu, Kepler, Newton.  Além disso, estava muito longe de ser obscurantista.

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Referências Bibliográficas

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