Astrologia e Astrólogos

Esoterismo e Astrologia na Nova Era

§

Do Ocultismo à Psicologização

Silas Guerriero

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, Departamento de Ciência da Religião.

δ

Resumo

O artigo procura levantar algumas questões relacionadas à presença da astrologia, entre outras artes divinatórias, no Movimento Nova Era. A Nova Era faz uma releitura do esoterismo ocidental e considera as artes divinatórias como disciplina-chave para a revelação de uma sabedoria oculta passível de ser desvelada. A Nova Era entende por esoterismo tudo aquilo que está no interior do indivíduo, ainda de forma oculta, e que é passível de ser desvendado e alcançado mediante práticas, procedimentos e estudos. Embora não se possa considerar a Nova Era como parte do esoterismo em sentido estrito, deve a este grande parte de seus conteúdos e características fundamentais. Muitas vezes vista como uma simplificação comercial de conhecimentos muito mais profundos, a Nova Era pode ser compreendida como uma vertente e estágio de desenvolvimento do esoterismo ocidental. A astrologia recebe dentro da Nova Era uma conotação diferenciada, tida como astrologia psicologizada, voltada ao estudo das características e potencialidades do indivíduo novaerista.

§

Introdução

A Nova Era é muitas vezes denominada pelos próprios praticantes como um esoterismo. Embora não se possa considerar a Nova Era como parte do esoterismo em sentido estrito, deve a este grande parte de seus conteúdos e características fundamentais. A astrologia e demais artes divinatórias sempre fizeram parte do esoterismo tradicional e no interior da Nova Era ganham uma dimensão relevante. Oráculos de diferentes tradições são utilizados livremente não apenas para adivinhar o futuro, mas principalmente para desvelar o que está oculto. Uma ênfase é posta no sentido do oráculo como instrumento de autoconhecimento. O Movimento Nova Era empreendeu uma continuação e divulgação do pensamento esotérico e possibilitou a emergência da astrologia erudita a um público mais amplo. A astrologia permite efetivar uma das grandes metas do Movimento Nova Era em relação à constituição de uma nova ciência, que concilia espiritualidade e racionalidade. Um dos usos mais corriqueiros da astrologia entre os praticantes da Nova Era é a denominada astrologia psicológica, tida como instrumento de autoconhecimento e aperfeiçoamento do ser.

Este artigo traz primeiramente uma reflexão sobre a relação da Nova Era com o esoterismo ocidental e com o ocultismo em geral. Em seguida, elabora algumas considerações acerca das artes divinatórias na Nova Era e finaliza analisando especificamente a astrologia e seu papel central no interior desse movimento.

§

Nova Era e Esoterismo

A relação entre a Nova Era e o esoterismo é bastante estreita. Para alguns, o termo esotérico passou a ser utilizado como adjetivo das práticas, pensamentos e produtos da Nova Era. Para outros, no entanto, a Nova Era apenas vulgarizou o termo esoterismo, nada tendo a ver com este último. Torna-se importante, portanto, verificar as diferenças e conexões entre essas duas instâncias.

O esoterismo pode ser definido como uma forma de pensamento com a qual a realidade é concebida de uma maneira específica. Há muitas controvérsias em relação ao termo esotérico. Para alguns, inclusive para pensadores do próprio movimento esotérico do século XIX, como Madame Blavatsky, indicava um conhecimento interior, uma espécie de doutrina secreta somente acessível aos iniciados. No entanto, essa aura de oculto serviu mais como uma maneira de autovalorização do que como efetiva restrição de acesso. Faivre lembra que muitos dos conhecimentos tidos como esotéricos, citando o exemplo da alquimia, estavam amplamente disponíveis por meio de uma literatura abundante. Há outra conotação do termo esotérico, muito mais comum: serve para designar um conhecimento essencial que só pode ser atingido por meio de técnicas apropriadas. Trata-se de um grau superior de conhecimento que estaria acima das diferentes escolas ou tradições, uma espécie de unidade transcendental. Quando utilizado nesse sentido, o discurso esotérico vem sempre carregado de enorme subjetividade. Faivre designa uma terceira acepção, mais geral e precisa: trata-se de uma forma de pensamento, que reúne tendências e escolas distintas com algumas características comuns.

O termo esotérico já era utilizado desde a Antiguidade. No entanto, o uso de esoterismo como substantivo a designar um conjunto ou forma de conhecimento é bem mais recente. Somente no século XIX é que passou a ser amplamente utilizado. Deve-se a Eliphas Levi (1810-1885) a divulgação do termo em conjunto ao de ocultismo. Se o esoterismo é mais compreendido como uma forma de pensamento, o ocultismo seria mais uma forma de ação ou conjunto de práticas legitimado pelo esoterismo. Nesse sentido não é possível confundir os dois termos, embora muitas vezes sejam utilizados como sinônimos, principalmente no universo da Nova Era.

Para Faivre, há quatro elementos fundamentais que caracterizam o esoterismo. Eles são importantes de serem destacados inclusive para poder compreender o papel do esoterismo na Nova Era. O primeiro desses elementos a pontados é o da correspondência: há uma interdependência universal entre o todo e as partes, entre o macro e o microcosmos. O segundo elemento diz que a natureza é viva, ou seja, é rica em revelações de todos os tipos e pode ser lida como um livro. Dessa natureza participam não apenas as coisas empíricas e objetivas, valorizadas pela ciência moderna, mas também os elementos espiritualistas e subjetivos. A terceira característica do esoterismo diz respeito à imaginação e às mediações. O uso de mediações, como rituais, signos e imagens, per mite alcançar o conhecimento pleno. Por fim, a última característica do esoterismo diz respeito à experiência da transmutação. É essa que permite ir além de uma mera espiritualidade contemplativa. Trata-se de um segundo nascimento, uma modificação profunda no indivíduo.

Além dessas características fundamentais, Faivre aponta ainda duas outras secundárias, que podem ou não estar presentes num determinado conhecimento esotérico. No entanto, entende-se que para a Nova Era essas duas características assumem importância crucial. A primeira delas diz respeito à concordância entre duas ou mais tradições diferentes na expectativa de se obter uma iluminação ou sabedoria de qualidade superior. Trata-se de se chegar a um conhecimento perene, uma tradição primordial que estaria acima das diferenças. A segunda dessas características trata da transmissão do conhecimento. A isso corresponde a questão da autenticidade e validade do conhecimento, bem como a maneira como e por quem esse conhecimento é transmitido.

De certo modo, a Nova Era não pode ser englobada no interior das correntes esotéricas. No entanto, há inúmeras ligações possíveis de serem percebidas entre essas duas instâncias. Hanegraaff ressalta que é bastante comum, tanto para os insiders como para os outsiders, estabelecer associações de certos movimentos antigos da tradição esotérica, como a Antroposofia, por exemplo, com a Nova Era. As correntes esotéricas tradicionais são claramente demarcadas e possuem histórias próprias, e não são dependentes do Movimento Nova Era. Em geral, essas histórias antecedem em muito o período em que a Nova Era começou a ser difundida. Outro elemento importante é que a maioria dessas correntes esotéricas não quer se ver confundida com o rótulo “Nova Era”, principalmente pela conotação comercial e superficial desta última. No entanto, o simples fato de tanto os de dentro como os de fora da Nova Era fazerem essa associação é um elemento de grande importância. Isso indica possíveis afinidades entre as correntes esotéricas e a Nova Era. Além disso, as seções de Nova Era das livrarias passaram a ser incrementadas com a literatura esotérica. De alguma maneira isso acarretou um impulso na divulgação das próprias cor rentes esotéricas. Além do mais, convém ressaltar que muitos dos adeptos da Nova Era, principalmente aqueles mais voltados à seriedade dos estudos ocultos, acabaram frequentando e se vinculando a vários desses grupos esotéricos. Se não há uma ligação indistinguível, o que é o caso, a relação parece ser de simbiose, pois ambos os lados se alimentam dela.

§

As correntes esotéricas e a Nova Era

As origens da Nova Era podem ser traçadas desde alguns anos após o final da Segunda Guerra Mundial. Grupos formados em torno da crença em seres extraterrestres e da visita de Objetos Voadores Não Identificados (OVNI) na Terra foram influenciados por pensamentos esotéricos de várias procedências. Hanegraaff destaca os escritos da teósofa cristã Alice Bailey (1880-1949) e também a metafísica antroposófica do visionário alemão Rudolf Steiner (1861-1925) como inspiradores desses pioneiros. A Nova Era em seu início, denominada por Hanegraaff de Nova Era em sentido estreito, tinha forte inclinação milenarista. Uma oração, canalizada por Alice Bailey, denominada ‘The Great Invocation’, e que tem influência até os dias atuais, inspirou esses pioneiros com uma espécie de milenarismo cristão ocultista. Essa perspectiva milenarista desses grupos de cultuadores de OVNI foi adotada pelas comunidades alternativas que começaram a surgir nos anos 1960, inclusive Findhorn, na Escócia, talvez o grande ícone da Nova Era. A crença central, ainda em sintonia com a “grande invocação”, era de que essas comunidades a presentavam um novo jeito de viver, harmonizando as leis da natureza e o mundo espiritual. Acreditavam que esses seriam pontos irradiadores de onde partiria um grande movimento transformador e o advento de uma nova era. Um grande pensador expoente de Findhorn, David Spangler, 1945-, também considerado um dos iniciadores da Nova Era, fora discípulo de Alice Bailey. O início da Nova Era pode ser caracterizado por essa metafísica ocultista, influenciada especialmente pela teosofia e pela Antroposofia de Steiner. Havia uma for te ênfase nos valores comunitários e numa moralidade calcada no amor altruísta e no ser viço a toda humanidade, em busca de novos momentos que possibilitariam a salvação do planeta.

Noções então sistematizadas no século XIX por Helena Blavatsky (1831-1891) influenciaram sobremaneira esse início da Nova Era, mas mantêm uma espécie de pano de fundo até os dias atuais. Entre elas podem-se destacar: a formação do cerne de uma irmandade universal da humanidade (sem dúvida mais presente no início da Nova Era, mas não menos presente hoje); o estudo das leis naturais e das forças ocultas do ser humano; a busca de uma espiritualidade oriental como sabedoria primordial; a síntese entre ciência, religião e filosofia; a popularização da ideia de carma.

Outras correntes esotéricas também exerceram forte influência na constituição da Nova Era. Aleister Crowley (1875-1947), fundador da Hermetic Order of the Golden Dawn, foi outro pensador esotérico com forte influência no interior do movimento. Outras correntes esotéricas de destaque para a Nova Era foram o gnosticismo, o mesmerismo, a Saint Germain Community, The New Thought, este último seguindo os ensinamentos de Phineas Quimby (1802-1866). A interpretação do mesmerismo realizada por Quimby pode ser considerada como matriz da crença Nova Era segundo a qual cada indivíduo cria a sua própria realidade. Seguidores de Quimby disseminaram seus ensinamentos, inclusive o da cura da mente, precursora da filosofia do pensamento positivo.

Outra forte influência esotérica na formação das ideias e crenças da Nova Era deve ser atribuída a Carl Jung (1875-1961). Esse pensador psicanalista foi um dos maiores responsáveis pela inclinação psicológica da religião Nova Era. Jung teve, ao lado de seus estudos e pesquisas na área terapêutica, uma intensa incursão pelo mundo do esoterismo, principalmente por meio do pensamento alquimista e ocultista de Paracelso, da Rosa-cruz e também da teosofia. A ligação entre religião e ciência, tão propalada pela Nova Era, tem em Jung um de seus mais fortes pilares de sustentação.

§

A Nova Era e as características do esoterismo

Para a Nova Era, o termo esoterismo recebe a conotação de tudo aquilo que está no interior do indivíduo, ainda de forma oculta, e que é passível de ser desvendado e alcançado mediante práticas, procedimentos e estudos, cabendo ao indivíduo a tarefa da descoberta. Ao contrário de se referir a uma tradição histórica, passou a significar um tipo de religião que tem sua base em elementos subjetivos focados na experiência interior.

As possibilidades do desenvolvimento do esoterismo Nova Era já estavam dadas desde a constituição do esoterismo ocidental, que trouxe as contribuições do neopitagorismo, do estoicismo, do neoplatonismo e do hermetismo, mas incorporou a ênfase na natureza e a preocupação em desvendar os segredos desse mundo. Esse processo de secularização, como demonstrou Hanegraaff, foi fundamental para o posterior surgimento da Nova Era. Os estudos esotéricos pós Renascença aprofundaram a perspectiva de uma similaridade entre neoplatonismo, hermetismo e cristianismo, levando ao surgimento da ideia de que todos faziam parte de uma mesma tradição. Essa ideia desembocou, posterior mente, na formulação da Philosophia Perennis e, no século XIX, ganhou força com a redescoberta das tradições orientais. Esse princípio de um conhecimento perene, acima das diferenças das tradições, foi adotado pela Nova Era como um de seus princípios básicos. O Corpus Hermeticum, atribuído a Hermes Trismegisto, desempenhou papel fundamental no esoterismo ocidental, principalmente na sua ênfase na gnose intuitiva e na atitude positiva do ser humano em relação ao cosmos. Segundo Hanegraaff esses temas são extremamente similares àqueles propalados por influentes autores da Nova Era, como Shirley MacLaine, Jane Robert e Stanislav Grof. A esse Corpus Hermeticum foram acrescentados elementos da magia, inclusive da cabala cristã. A ligação da tradição esotérica com a magia propiciou as condições históricas de toda uma visão mágica do mundo presente na Nova Era, além de ter fornecido as bases para o desenvolvimento do neopaganismo, uma de suas principais ver tentes.

O esoterismo ocidental é, dessa feita, a manifestação de um sincretismo religioso baseado numa cosmologia que envolve as descobertas da natureza, a ciência, a filosofia e a dimensão espiritual religiosa. Essa característica permanecerá incólume na religião Nova Era.

Destarte, fica evidente de que a Nova Era pode ser entendida como uma expressão do esoterismo ocidental. Hanegraaff a ponta as seguintes concordâncias: o paradigma holográfico, relação entre o macro e microcosmos, sincronicidade e possibilidade de adivinhação, se ajustam às leis das correspondências (primeira das características do esoterismo definidas por Faivre); a natureza está impregnada pela energia divina, possibilitando uma magia natural; a imaginação e a mediação são ricamente perceptíveis por meio dos rituais, imagens e simbolismos da Nova Era; a importância atribuída à individuação e o processo interno místico de purificação e regeneração parecem exemplificar os elementos de transmutação espiritual. O próprio xamanismo, tão valorizado na Nova Era, pode ser compreendido como uma forma de transmutação. Além dessas características fundamentais do esoterismo, a Nova Era apresenta, ainda, a ideia de concordância, quando coloca juntas as mais diferentes tradições, e a da transmissão a partir de uma fonte confiável. Nesse último caso, dada a importância dada à divindade interior e sabedoria dentro de cada indivíduo, as figuras do mestre e discípulo não são tão evidentes. Há uma ênfase em que o indivíduo percorra, por si mesmo, as experiências que o levarão à evolução espiritual. Na Nova Era dá-se importância aos chamados facilitadores, aqueles que já passaram pela experiência e podem auxiliar os demais para que façam suas viagens interiores.

Além das características do esoterismo ocidental a presentadas por Faivre, e perceptíveis na Nova Era, Hanegraaff aponta outros elementos que podem complementar aquela visão, como o processo de secularização e racionalização. Por um lado, o desencantamento do mundo (no sentido weberiano) possibilitou o fortalecimento de uma cosmologia científica, favorável ao progresso científico e à modernidade, garantindo as bases práticas da Nova Era. Por outro lado, a influência do Romantismo teria garantido a ideia das correspondências e da natureza viva.

§

O esoterismo na atualidade

Pela obra de Torre, pode-se ver que a Nova Era na América Latina vai muito além da conexão com o esoterismo. Essa é uma característica geral da Nova Era e não se restringe apenas ao continente latino-americano. Principalmente a pós os anos 1980, a Nova Era ganhou uma conotação muito mais ampla e aberta à sociedade. Para alguns, tal fato representou a perda de princípios esotéricos fundamentais e teve como consequência a comercialização barata e superficial de elementos tidos como esotéricos. O próprio termo acabou virando sinônimo de qualquer tipo de religiosidade alternativa às tradicionais. Espaço esotérico passou a significar qualquer empreendimento que vende desde pequenas imagens de gnomos, cristais ou livros Nova Era, até abrigar as instituições mais tradicionais responsáveis pela divulgação dos conhecimentos de escolas esotéricas. Em outras palavras, o termo está desgastado. Mesmo a mídia passou a tratar esoterismo, ocultismo e misticismo como sinônimos dessa comercialização rápida da Nova Era.

No entanto, o próprio Magnani lembra que nesse meio há pessoas bastante sérias e interessadas no desenvolvimento de um conhecimento esotérico mais profundo, como também há aqueles que se voltam apenas aos produtos da moda e de comercialização rápida. Um simples ponto, de caráter claramente comercial, pode oferecer a venda de produtos baratos, como um jogo de runas do tipo “interprete você mesmo”, e também promover palestras com pessoas capacitadas num conhecimento esotérico que poderiam propiciar o ingresso de algum cliente no mundo do esoterismo. Há, também, aqueles espaços destinados às sociedades iniciáticas que se caracterizam por apresentar um sistema doutrinário baseado em uma tradição filosófica e/ou religiosa bem definida. Mesmo nesses espaços, no entanto, é possível perceber a comercialização de produtos outros que vão além dos livros. Além disso, praticamente todos dispõem de sites de internet que não a penas ser vem para divulgar eventos, como também promover a venda de seus serviços.

A variedade das escolas esotéricas e iniciáticas é extremamente ampla, e seria praticamente impossível de se apontar sequer as principais delas. Muitas possuem filiais nos principais países do continente latino-americano, algumas delas com intercâmbios e conexões mais estreitas, outras com autonomia bastante acentuada. De alguma maneira, as principais correntes esotéricas possuem ramificações nos países latino-americanos e estão, inevitavelmente, conectadas à Nova Era. Como afirmado anterior mente, o público participante faz parte do circuito Nova Era de errância e de busca constante. Podem permanecer por pouco tempo em cada uma dessas agências, bem como podem se tornar membros fiéis e percorrer todo o caminho iniciático ali proposto.

A Sociedade Teosófica, criada em 1875 por Helena Blavatsky, está presente em muitas das grandes cidades latino-americanas, com Buenos Aires, Bogotá, Lima, Santiago, São Paulo, Rio de Janeiro, cidade do México e muitas outras. A Eubiose, fundada em 1921 por Henrique José de Souza (1883-1963), seguidor da obra de Blavatsky, tem filiais em muitas cidades no Brasil, Chile e Venezuela, além de outros países fora do continente. A Sociedade Antroposófica, criada por Rudolf Steiner, presente também em muitos países, possui várias ramificações em diferentes áreas, como educação e saúde. O mesmo poderia ser afirmado para várias outras grandes escolas esotéricas, como a Ordem Rosacruz, a Ordem Hermética Golden Dawn, a Fraternidade Saint Germain etc. Ainda em relação às disciplinas básicas do esoterismo, convém lembrar a intensa relação da Nova Era com a astrologia e a magia. Do mesmo modo já então apresentados, esses elementos são vivenciados em diferentes graus de intensidade e profundidade. É possível passar vários anos estudando astrologia em alguma grande escola ou aprender a ler carta natal em um seminário de final de semana e sair, logo em seguida, oferecendo serviços astrológicos a qualquer interessado.

Mesmo que os mais puristas não concordem, a Nova Era representa um estágio do esoterismo. Secularizado, pauperizado e palatável às mais diferentes exigências, é um retrato típico do momento sociocultural.

§

As práticas divinatórias na Nova Era

As práticas divinatórias são uma constante no mundo da Nova Era. Inseridas no conjunto do ocultismo, são percebidas como instrumentos capazes de fazer desvelar tudo aquilo que está oculto, permitindo ao sujeito que consulta encontrar sua verdadeira natureza e destino. O desvelamento do destino é compreendido, pelos praticantes da Nova Era, não como algo imutável, mas como uma oportunidade de enxergar as possibilidades de realização do ser.

As práticas divinatórias, também chamados jogos divinatórios ou oráculos, dizem respeito a todo tipo de meio ou instrumentação utilizado para desvendar as supostas verdades ocultas. Caracterizam-se como uma maneira de adquirir informações sobre o futuro e o desconhecido, não acessíveis pelos canais mais convencionais de comunicação, como a fala e o discurso racional.

A Nova Era elegeu, ao longo do tempo, algumas práticas divinatórias como preferenciais e mais completas, como a astrologia e o tarô. Muitas outras, no entanto, têm suas origens nos mais distantes contextos culturais e sofreram o processo de ressignificação característico da Nova Era. Muitas vezes simplificadas, essas práticas são utilizadas e abandonadas à medida que os adeptos aderem ou não, como as Runas vikings, o I Ching e a numerologia. Muitas dessas práticas Nova Era se encontram afastadas de seus mitos de origem, como é o caso do jogo de búzios. A mitologia de Ifá, originária da tradição africana Iorubá, já havia sido modificada ao longo do tempo pelo processo de constituição do candomblé no Brasil e em outros países da diáspora africana, mas foi bastante simplificada e pasteurizada no universo Nova Era, no qual a leitura dos búzios se apresenta ao lado de inúmeras outras práticas divinatórias sem qualquer relação entre si. A recorrência a uma tradição mítica, mesmo que distante, é instrumento importante da Nova Era e funciona como instância legitimadora desses discursos.

Um exemplo bastante interessante é o do tarô. A leitura dessas cartas é tida, no meio Nova Era, como um instrumento bastante poderoso de desvelamento do oculto e, principalmente, de autoconhecimento. As livrarias especializadas na literatura Nova Era possuem, em geral, uma seção especializada em livros sobre tarô. Sites da internet divulgam o tarô a qualquer interessado, e as consultas ao tarô guardam enorme sucesso no meio. Em suma, na Nova Era o tarô é reconhecido com grande seriedade e como um forte instrumento aglutinador e potencializador de desvelamento da realidade oculta. O mito criado em torno do tarô coloca-o no interior de uma sabedoria milenar e profunda. No entanto, a origem do tarô é bem mais prosaica. Surgiu em meados do século XV na Europa como um jogo de baralho. Somente no século XVIII é que adquiriu uma conotação de adivinhação e no final do século XIX passou a fazer parte do cerne do esoterismo moderno. Na Nova Era, o tarô chegou a partir da divulgação em larga escala do esoterismo ocidental.

Os termos artes, jogos ou práticas divinatórias vêm de divinação. O termo “divinação ” está ligado particularmente ao verbo divinar, ou seja, tornar algo divino, não sendo, porém, esse o sentido de uso cor rente. Segundo Karcher, divinação revela aquilo que está oculto através de meios nem sempre racionais. Faz isso por meio de algo considerado pelos praticantes como de inspiração divina (deuses, espíritos, anjos, demônios) ou por meio de arquétipos. Os adeptos da Nova Era utilizaram o termo intuição para designar o processo de tomada de consciência das ditas verdades ocultas. Além disso, identificam essa intuição com uma possível ligação com as forças, ou pelo termo que é mais frequentemente utilizado, energias superiores.

O adivinho, ou homo divinus, é aquele a quem os deuses concederam o dom de adivinhar. Na Nova Era, no entanto, seguindo a lógica corrente do meio, esse adivinho pode ou não ser um agente externo. É comum que o próprio sujeito consulente apreenda uns poucos princípios de algumas práticas divinatórias e pratique a si mesmo. Há aqueles que, inclusive, não assumem compromissos ou atitudes sem antes consultar um oráculo qualquer. O importante é que o adivinho estabeleça uma relação entre a estrutura social e o quadro de valores. O adivinho, para fazer um dia gnóstico bem-sucedido, deve estabelecer uma correspondência entre a vida do cliente, seus problemas, e os aspectos sociais mais amplos. Utiliza símbolos propositadamente vagos e flexíveis, garantindo uma liberdade em suas interpretações.

A divulgação do conhecimento místico e oculto das práticas divinatórias se dá basicamente por meio da literatura Nova Era sobre o tema, das vivências, dos cursos de cura duração e de sites da internet. O buscador pode, por si mesmo, entrar em contato com as técnicas e a sabedoria de cada prática divinatória e começar a praticar em si mesmo ou para seus próximos. Outro meio bastante comum é o da consulta oracular. Nessas, o consulente contrata os serviços de um adivinho mais ou menos respeitado, dependendo do seu prestígio no meio.

Oráculos não são religião, mas são vistos como sagrados, místicos e participantes de uma “esfera cósmica”. Há um aspecto dos oráculos que evidencia sua dimensão mística. Sendo supostamente um instrumento de contato com o divino e com tudo aquilo que está oculto, a divinação responde, em parte, pela sede de transcendência dos sujeitos que a utilizam. O êxtase experimentado pelo adivinho e, de certa maneira, pelo consulente, consolida a sensação de distanciamento da realidade objetiva e visível, e de acesso a uma outra realidade, desta vez oculta e misteriosa.

A Nova Era tem como um de seus princípios a ideia de que toda a realidade se encontra no interior de um grande holos. Nesses termos, o adivinho tem o poder de desvendar o oculto, pois tudo está interligado. Há uma indistinção entre o micro (o ser humano) e o todo (compreendido como toda a natureza, material e espiritual). A divindade é vista na Nova Era como uma propriedade do próprio ser. A divinação passa a ser encarada, com muita naturalidade, como uma via capaz de estabelecer uma conexão entre o indivíduo e o seu próprio deus interior. Essa nova mística não é aquela tradicional da entrega e a da contemplação silenciosa, mas a porta de entrada à sua verdade interior.

Há uma confiança no poder das mancias e dos próprios adivinhos, no sentido de estabelecer, não uma comunicação com o sobrenatural, mas com aquilo que é tido com o a mais profunda realidade natural, ou seja, a divindade existente dentro de cada um.

Numa vida resignada, o indivíduo pode localizar as causas de um possível sofrimento na vontade de um deus externo, mas na Nova Era, deus está dentro de cada um. Não se deve esperar uma ajuda externa, ou que o adivinho descubra o devir já traçado para o consulente, mas abrir os canais e a percepção de como o indivíduo pode ajudar a si mesmo.

§

Astrologia e Nova Era

A astrologia ocupa lugar central no sistema de crenças e práticas da Nova Era. A própria origem do termo Nova Era pode ser compreendida como uma variação do termo “Era de Aquário”, utilizado principalmente nos anos 1960 e 1970. Hanegraaff define esse período como o de um Movimento Nova Era em sentido estrito. Muitas das características apresentadas naquele momento se assemelhavam a movimentos de culto e tinham como um de seus pontos de crença central a ideia de que o planeta estaria entrando numa nova era astrológica, a Era de Aquário.

O termo “Nova Era” ainda não era utilizado como definição ou identificação de um movimento, o que somente vai acontecer numa etapa posterior, a partir dos anos 1980, definida por Hanegraaff como ‘Movimento Nova Era em sentido amplo’. Em um primeiro momento da Nova Era em um sentido estrito, o planeta Terra estaria entrando em um novo ciclo evolucionário que acarretaria um tipo de consciência espiritual superior. O velho mundo, dominado e regido pelo signo de peixes, estaria em ruínas e seria substituído por esse novo momento aquariano. Ferguson definiu esse momento como o de uma conspiração aquariana. A sociedade de então estaria passando por crises profundas e o próprio planeta sofreria grandes cataclismas, resultando num profundo colapso da civilização. Aquelas pessoas que estivessem conectadas aos novos valores seriam os líderes das transformações em rumo à Era de Aquário, um novo momento, uma nova era da humanidade passível de ser vivida em harmonia com as leis cósmicas do Universo.

Numa perspectiva astrológica, as grandes eras estão relacionadas à inclinação do eixo terrestre em relação aos signos zodiacais. A cada dois mil anos, aproximadamente, o planeta entra numa nova era, regida por um novo signo. A Era de Peixes, que vingou entre o começo da era comum, com o nascimento de Jesus Cristo, e o momento atual, estaria fortemente marcada pela fé cristã e pelas religiões institucionalizadas. A política e a vida social foram dominadas pela autoridade centralizada, pelo dogmatismo, pelos conflitos e guerras. O momento atual representa a ruptura com os antigos valores e a mudança gradual para a Era de Aquário. É o momento de resgate da antiga sabedoria e da união entre a tecnologia e espiritualidade. Os seguidores da astrologia acreditam que esse momento propicia a harmonização, a paz e o crescimento espiritual.

Mas a astrologia não é importante para a Nova Era apenas por essa questão de fundo. Um dos princípios básicos da Nova Era é o da psicologização da religião. Essa psicologização está for temente ancorada na perspectiva de uma psicologia do inconsciente relaciona à astrologia, também chamada de astrologia psicológica. Outro fator a ser ressaltado é o da astrologia ter se popularizado antes mesmo da Nova Era e ser utilizada por esta como uma porta de entrada no mundo do esoterismo.

§

A presença da astrologia no mundo da Nova Era e o esoterismo moderno

A astrologia cumpre um papel de aparente aglutinação entre o simbolismo místico e a ciência empírica. Para muitos adeptos da Nova Era ela representa a perfeita união de saberes tão propalada e aguardada da Era de Aquário. Não é sem motivos que a astrologia se transformou numa face de ampla visibilidade da Nova Era, mas também numa prática bastante comum entre os novaeristas, possibilitando o surgimento de um amplo campo de atuação profissional para os novos astrólogos.

A Astrologia e a Psique Moderna – R$ 6,90

Em praticamente todos os países da América latina por onde a Nova Era teve algum tipo de repercussão, surgiram a partir dos anos 1970 inúmeros serviços relacionados à astrologia. Entre eles podem-se destacar as escolas de astrologia erudita. Convém ressaltar que a astrologia já estava popularizada através dos horóscopos publicados em jornais, mas o estudo de uma astrologia erudita representava uma iniciação no mundo esotérico. Surgiram institutos de astrologia, voltados ao estudo, pesquisa e ensino da disciplina; associações nacionais, como a Associação Brasileira de Astrologia, fundada em 1977; e também sindicatos de astrólogos, mostrando que essa é uma profissão que luta por um reconhecimento na sociedade. O Sindicato dos Astrólogos do Estado de São Paulo foi o primeiro do Brasil, fundado em 1980, e desde então luta pela representação legal da categoria perante os poderes públicos.

Não tão oficial assim foi a proliferação de pequenas escolas e centros de estudos astrológicos espalhados por todas as grandes cidades. Muitos daqueles que se interessavam pelos valores propalados pela Nova Era foram buscar na astrologia um meio tido como eficaz para a realização do autoconhecimento e compreensão dos acontecimentos pessoais, sociais e mundiais. De acordo com uma pesquisa realizada por Magnani sobre o circuito neoesotérico na cidade de São Paulo, em muitos dos espaços voltados às práticas da Nova Era havia a oferta de cursos de astrologia ou de consultas astrológicas. Até o presente momento, a astrologia ocupa lugar destacado nos serviços ofertados no universo da Nova Era. O número de sites que divulgam conhecimentos astrológicos ou fazem referências à astrologia ou simplesmente oferecem consultas e serviços astrológicos é incomensurável.

Stuckrad lembra que as tradições astrológicas fazem parte da história ocidental há muito tempo. No entanto, essas tradições recebem influência dos momentos históricos em que estão inseridas, sofrendo transformações que acompanham as mudanças sociais e culturais mais amplas. Tal fato não poderia ser diferente em relação às mudanças sociais ocorridas a partir dos anos 1960. Para esse autor, tais mudanças possibilitaram o surgimento da astrologia moderna. Edgar Morin definiu esse momento como o retorno dos astrólogos. A astrologia popular dos horóscopos de jornais continua seu sucesso, mas surge outra astrologia, erudita, relacionada a um público cada vez mais ávido por aprofundamento em outros saberes que não apenas os da racionalidade científica.

O público voltado à Nova Era, principalmente no momento da Nova Era em sentido estrito dos anos 1960 e 1970, tinha um alto grau de escolaridade e posicionamento social. Isso foi uma constante nos diferentes países da América Latina por onde a Nova Era se fez presente, mesmo que em momentos um pouco diferentes daqueles apontados por Hanegraaff. Conhecer um pouco da astrologia erudita significava sair da superficialidade oferecida pelos horóscopos dos jornais e revistas e entrar num mundo de um conhecimento esotérico, superior, mais profundo e de outra ordem. Por si mesmo, esse possibilitava um autoconhecimento e uma sabedoria esotérica que ia além dos limites da ciência moderna. Tal fato possibilitou, desde então, o enorme sucesso da astrologia nos meios da Nova Era.

Nos dias atuais, mesmo diante daquelas características apontadas por Hanegraaff como de um Movimento Nova Era em sentido amplo, essa lógica se faz presente. As características do momento atual, como a maior preocupação com o desenvolvimento espiritual individual do que com o social e a comercialização dos valores e ideias da Nova Era, não diminuíram a importância e presença da astrologia. Pelo contrário, a divulgação de cursos, manuais e consultas astrológicas permanecem em alta. O campo de aplicação da astrologia não se restringe somente às pessoas. Há muitos astrólogos especializados na aplicação desse conhecimento a empresas e eventos específicos. Cartas natais são encomendadas por empresários que querem saber o melhor momento para empreender um determinado negócio. Astrólogos são contatados pelos meios de comunicação para interpretar eventos sociais. Não são poucos os profissionais da astrologia que se mantêm e vivem profissionalmente desses serviços. Tal fato significa que há um mercado expressivo que sustenta todas essas práticas e, em última instância, que a astrologia continua presente na vida dessas pessoas.

A astrologia é uma disciplina central do esoterismo moderno. Segundo Faivre, a astrologia compõe, junto à gnose, ao hermetismo, à magia e à alquimia, as formas de pensamento ou tradições do esoterismo. Tendo essa ligação forte com o esoterismo, não é de se estranhar que a astrologia tenha recebido tamanha importância no interior da Nova Era.

A Nova Era não apenas teve forte influência do esoterismo como pode ser compreendida como um momento do desenvolvimento da vertente ocidental do esoterismo. O conhecimento esotérico, até então voltado para poucos, passou a ser divulgado mais abertamente e para um público mais amplo após os anos 1960. Para Hanegraaff, essa mudança significou a passagem de uma atitude mais passiva dos movimentos esotéricos até então, para um posicionamento mais ativo em termos sociais, voltado à construção de uma nova sociedade. Ainda para esse autor, do ponto de vista intelectual, as ideias básicas da Nova Era têm origem no esoterismo ocidental moderno, representando uma espécie de secularização desse esoterismo. Embora decorrente do esoterismo tradicional, o pensamento dominante da Nova Era guarda algumas especificidades que são fundamentais para a compreensão da importância dada à astrologia. Uma delas é a possibilidade de arranjos entre, de um lado, o pensamento místico e esotérico e, de outro, uma visão científica desencantada. Outra, ainda, é a incorporação da moderna psicologia, principalmente por meio das obras de Jung.

Em relação à primeira, a astrologia representaria a união cabal e perfeita do misticismo e da ciência moderna. Plena de mitologias e reconhecidamente um saber simbólico, a astrologia faria a conciliação com a ciência moderna na medida em que há uma correspondência com o posicionamento dos astros no firmamento, fato esse passível de ser comprovado empiricamente pela observação e registrado de maneira previsível nas efemérides. Embora haja muita divergência entre os astrólogos sobre como se efetiva a influência dos astros sobre os acontecimentos, a vida e a personalidade das pessoas, o fato é que a astrologia carrega uma “aura” de ciência. Em tempos em que a veracidade do conhecimento é dada pela ciência, e não simplesmente pela fé, esse fato passa a ser bastante relevante. Para os adeptos da Nova Era, a astrologia é científica.

No entanto, a Nova Era critica a posição mecanicista da ciência moderna. A Nova Era anseia por novos paradigmas científicos, uma ciência que seja voltada, também, para outros saberes. Apoiados nas novas descobertas científicas, notadamente no campo da física das partículas, os adeptos da Nova Era logo perceberam um potencial a ser explorado. Esses novos paradigmas da ciência apontavam para uma imprevisibilidade e indeterminismo. A astrologia seria uma perfeita representante dessa nova ciência, uma nova aliança entre saberes. Por um lado, teria o apoio das observações astronômicas, tendo, inclusive, incorporado as descobertas dos novos planetas a partir do advento do telescópio. Por outro, traria o campo das indeterminações, visto que a astrologia sempre foi vista como uma ciência interpretativa dos astros, necessitando sempre da intuição do astrólogo.

Para a Nova Era, essa ciência da astrologia representaria aquilo que se espera da nova ciência: é baseada em fatos (supostamente) verificáveis. Embora para os seus praticantes as efemérides astrológicas representem os fatos, hoje se sabe que o posicionamento dos astros não corresponde exatamente ao que é descrito em termos de signos zodiacais. A astrologia foi constituída a partir de uma visão geocêntrica, mas hoje se sabe que a visão que se tem dos planetas é distorcida, pois o movimento deles, inclusive da Terra, se dá em torno do Sol (visão heliocêntrica). Como os astrólogos não levam esse detalhe em consideração, a astrologia ainda é vista como uma ciência baseada em fatos verificáveis.

Além disso, a astrologia postula uma correspondência entre o nível planetário e o nível terrestre a partir de analogias simbólicas, as quais só podem ser constituídas a partir da intuição do astrólogo. Desse ponto de vista, ela seria uma ciência que junta a sensibilidade e intuitividade ao conhecimento empírico racional.

A correspondência entre os astros e a vida mundana se dá, para a Nova Era, a partir do princípio de que tudo está interligado. Essa visão holística, oriunda de correntes esotéricas, é a chave para a garantia da eficácia simbólica da astrologia.

A astrologia esteve presente nas principais escolas esotéricas desde o final do século XIX. O Movimento Nova Era teve por base muitas dessas tradições. De maneira coerente ao processo empreendido pela Nova Era, esses conhecimentos foram sendo divulgados a um público cada vez mais amplo. A popularização dessas tradições em geral, e da astrologia em particular, levou a uma simplificação e a uma espécie de pasteurização desses conhecimentos. Embora se mantendo afastada e diferenciada da astrologia popular, a astrologia erudita da Nova Era significou a possibilidade de acesso a um público infinitamente mais amplo do que aquele das sociedades esotéricas.

§

A psicologização da astrologia

A Nova Era pode ser entendida como uma psicologização da religião, a qual, por sua vez, tem uma forte relação com a astrologia. Esse processo pode ser compreendido como o esclarecimento de elementos religiosos, inclusive a divindade, por meio de estados de espírito, projeções da psique, emoções profundas, arquétipos etc. Os fenômenos esotéricos passaram a ser associados a aspectos psicológicos. Segundo Hanegraaff, produziu-se na Nova Era um duplo processo de psicologização da religião e sacralização da psicologia.

A ideia, já formulada desde Feuerbach e Freud, de que os seres metaempíricos são criações humanas, fruto de projeções de conteúdos inconscientes, foi incorporada pela Nova Era. No entanto, a consequência ateística foi descartada, e Deus passou a ser visto como sendo parte integrante do self. Há uma tendência de compreender o cosmos como uma mente divina imanente, e a alma individual como uma parte, também perfeita, desse todo.

A popularização da psicologia produziu um sincretismo entre ideias religiosas e determinadas formas da nova ciência psicológica, o que confundiu os limites entre conceitos de insight psicológico e desenvolvimento espiritual. Essa tendência, no entanto, dadas as características dos valores esotéricos a ela subjacentes, pode apresentar aspectos positivos, na visão de Heelas. Como diz esse autor, “em alguns países ocidentais as crenças em ‘vida interior’ se tornaram certamente mais populares do que as crenças no teístico Deus pessoal do Cristianismo tradicional”.

O Movimento Nova Era incorporou preocupações relacionadas à vida interior dos sujeitos, como bem-estar emocional, autoestima, paz interior, equilíbrio, satisfação e completude. Ao valorizar essa dimensão do self e trazer como princípio a ideia de uma divindade interior que o indivíduo pode, e deve, despertar, abriu as portas para uma forte conotação psicológica em suas práticas e metas. Esse caminho espiritual da Nova Era é confundido com autoconhecimento. Em várias cidades brasileiras encontra-se uma infinidade de serviços de astrólogos que utilizam seus conhecimentos para o desvelamento das verdades interiores de seus clientes. Siqueira aponta vários grupos Nova Era da região de Brasília, que oferecem tratamentos e terapias voltadas à superação de problemas psicológicos por meio da busca do eu interior e da iluminação espiritual.

Hanegraaff afirma que Jung partilhava de uma perspectiva espiritual fortemente enraizada no esoterismo e nas correntes ocultistas, a qual possibilitou a apresentação da espiritualidade como uma forma de psicologia científica. Hanegraaff aponta ainda o Movimento do Potencial da Mente, surgido nos Estados Unidos no final do século XIX e que pregava ideias metafísicas sobre o poder de atração da mente e o pensamento positivo, como tendo exercido forte influência sobre a junção do ocultismo e da psicologia na espiritualidade Nova Era.

Para Stuckrad, a astrologia foi ganhando cada vez mais uma dimensão voltada a questões individuais, resultando, na segunda metade do século XX, na consolidação de uma astrologia psicológica. Foi esse interesse privado da astrologia que garantiu a presença profissional de muitos astrólogos, agora ofertando leituras de cartas natais a pessoas em busca de autoconhecimento. Esse mesmo autor também imputa a Jung a responsabilidade por uma certa impregnação religiosa do psiquismo, o que, por um lado, sacralizou a psicologia e, por outro, psicologizou a religião.

Stuckrad vai mais longe e afirma que a ligação entre a psicologia do inconsciente e a astrologia é tão intensa e evidente hoje que praticamente não se encontra uma escola astrológica que não recorra a sistemas fundamentais da psicologia para realizar seu trabalho de interpretação dos astros.

§

Conclusão

A Nova Era surge a partir do esoterismo ocidental, simplificando seus conteúdos e possibilitando sua popularização a um público amplo. Nesse processo, considera as artes divinatórias como disciplina-chave para a revelação de uma sabedoria oculta, passível de ser desvelada. Mesclado com elementos da cultura contemporânea, notadamente oriundos do campo científico, o ethos Nova Era valoriza intensamente a dimensão individual. Percebe como esotérica uma sabedoria que está no interior do indivíduo ainda de forma oculta, e que é passível de ser desvendada e alcançada mediante práticas, procedimentos e estudos.

Assim, a astrologia é ressignificada e compreendida como instrumento de evolução do ser. Recebe uma conotação diferenciada, tida como astrologia psicologizada, focada no estudo das características e potencialidades do indivíduo novaerista. No mundo da Nova Era deste começo de século XXI, a astrologia continua sendo utilizada como um dos principais instrumentos voltados ao autoconhecimento e que possibilitam o autodesenvolvimento do self. Consultar a carta na tal permite ao indivíduo conhecer as particularidades ocultas de sua personalidade e de seus potenciais de desenvolvimento. Mais que querer saber sobre o futuro, os adeptos da Nova Era buscam, pela astrologia, encontrar os caminhos interiores que permitirão a elevação espiritual e a realização.

δ

Referências
AMARAL, L. Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova Era. Petrópolis: Vozes, 2000.
FAIVRE, A. O esoterismo. Papirus: Campinas, 1994.
FERGUSON, M. A conspiração aquariana: transformações pessoais e sociais nos anos 80. 10. ed. Rio de Janeiro: Record, 1995.
GUERRIERO, S. Divinatory games: Temporality, imaginary and mythic living. Revista Imaginário, v.8, p.332-347, 2002.
HANEGRAAFF, W.J. New Age religion and Western culture: Esotericism in the mirror of secular thought. New York: Brill, 1996.
HANEGRAAFF, W.J. New Age movement. In: JONES, L. (Ed.). The encyclopedia of religion. New York: MacMillan Pub, 2005. p.6495-6500.
HEELAS, P. Spiritualities of life, romantic themes and consumptive capitalism. Oxford, UK: Blackwell Publishing, 2008.
KARCHER, S. Divination, synchronicity and fate. Journal of Religion and Health, v.37, n.3, p.215-227, 1998.
MAGNANI, J.G. Mystica urbe. São Paulo: Studio Nobel, 1999.
MAGNANI, J.G. O Brasil da Nova Era. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
MORIN, E. O retorno dos astrólogos. Lisboa: Moraes, 1972.
SIQUEIRA, D. As novas religiosidades no Ocidente. Brasília, cidade mística. Brasília: UnB, 2003.
STUCKRAD, K.V. História da astrologia. São Paulo: Globo, 2007.
TORRE, R.; ZÚÑIGA, C.G.; HUET, N.J. (Coord.). Variaciones y apropiaciones latinoamericanas del new age. Mexico: Ciesas, 2013.
TURNER, V.W. Divination as a phase in a social process. In: LESSA, W.; VOGT, E. (Ed.). Readers in comparative religion: An anthropological approach. New York: Harper, 1979. p.373-376.
ZUESSE, E.M. Divination: An over view. In: JONES, L. (Ed.). The encyclopedia of religion. New York: Macmillan Pub, 2005. p. 2369-2375.

Ω