Astrologia e Astrólogos

D. Duarte e a Astrologia na Corte de Avis

Helena Avelar de Carvalho

 Mestre em História Medieval pela FCSH-UNL e membro integrado do Instituto de Estudos Medievais. A sua área de pesquisa foca as mentalidades e a ciência medieval, com especial enfoque nas práticas astrológicas de corte. Está presentemente a preparar um doutoramento em História Medieval através do Warburg Institute, University of London.

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Resumo

A relação de D. Duarte com a astrologia tem sido várias vezes referida, embora nem sempre bem entendida, na historiografia portuguesa. É comum atribuir-se a este rei uma atitude de total rejeição face ao tema, mas um estudo mais aprofundado dos seus escritos, onde a astrologia é referência frequente, revela uma posição bem mais complexa e interessante. Com efeito, as críticas de D. Duarte indiciam uma profunda ambiguidade face à astrologia: por um lado critica-a, por considerá-la contrária à fé cristã e ao exercício do livre arbítrio; por outro, aceita a sua funcionalidade prática e o seu papel de relevo entre os saberes de corte. O seu questionamento dirige-se, sobretudo, à questão do determinismo.

Este artigo apresenta uma breve resenha das referências ao tema nos escritos de D. Duarte e uma análise da sua relação com a astrologia, no contexto da cultura de corte do século XV.

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A astrologia medieval

Antes de avançar para o estudo dos escritos de D. Duarte, importa definir o que é a astrologia e qual o seu papel a sociedade, no período medieval.

De Afonso X de Castela chega-nos uma definição de astrologia:

“Astrologia es ell art que muestra conoscer los mouimientos delos çielos e delas estrellas et de como se catan unas a otras en sus rayos. Et por que es esta ell arte que fabla del saber delas estrellas lleua el nombre deste fecho mismo, segund quelos griegos pelo puseiron, ca alo que nos llamamos estrella dizen ellos Astros, alo que nos razon ellos logos; e destos dos nombres griegos, astros et logos, uiene este nombre astrologia, que quiere dezir tanto como art que fabla dela razon delas estrellas e las ensenna saber.”

A astrologia é, portanto, uma arte (no sentido das artes liberais) que estuda a “razão das estrelas” – definição que a remete para a categoria dos saberes mais nobres, demarcando-a das outras práticas divinatórias.

Na cultura medieval, a astrologia era, portanto, um saber respeitado, que estudava a correlação entre os movimentos planetários e os eventos terrestres. A sua prática exigia conhecimentos aprofundados de astronomia e matemática, bem como um completo domínio das regras de interpretação. Por este motivo, o termo astrólogo era frequentemente associado a cultura e sabedoria. E mesmo D. Duarte, que tinha óbvias reticências relativas à prática astrológica (abordadas mais adiante), reconhecia-lhe este estatuto. Por exemplo, ao referir-se à vasta cultura do rei Afonso X de Castela (1221-1284) exclama: “aquele honrado rei dom Afonso estrologo” sem que a associação à astrologia diminuísse a seus olhos a louvada sabedoria deste rei.

Foi aliás Afonso X quem determinou que as previsões de eventos futuros fossem reservadas apenas a quem tivesse concluído os estudos de astrologia, tendo proibido, sob pena de morte, as outras formas de adivinhação.

A insistência na demarcação é recorrente pois na prática estes limites podiam facilmente ser transgredidos. Esta insistência não é, de resto, exclusiva do período medieval: está presente em épocas muito anteriores e é referida por muitos autores de renome. Por exemplo, é abordada por Ptolomeu, autor do século II, na sua obra Tetrabiblos, uma das principais fontes de conhecimento astrológico da Idade Média. É também reconhecida em diversos sínodos, que condenavam magias e adivinhações, mas pouco ou nada diziam sobre a interpretação das configurações planetárias.

Para além da dicotomia entre astrologia e práticas ilícitas, havia ainda uma outra distinção, mais subtil mas igualmente relevante, dentro das próprias práticas astrológicas. Está patente, por exemplo, em Gerbert d’Aurillac (Papa Silvestre II, c. 940-1003) quando distingue entre a “astrologia natural” (estudo e previsão do estado do tempo e das colheitas), que aceita como contributo válido para o conhecimento científico, e a “astrologia natal” (o cálculo de mapas de indivíduos e respectivas previsões) que rejeita como superstição.

Não obstante estas reservas, a astrologia era uma das sete artes liberais8 (juntamente com a Astronomia) sendo o seu ensino recomendado como parte da educação dos príncipes. Egídio de Colona (1247-1316), autor de Regimento dos Príncipes (um dos principais livros de corte deste período), afirma expressamente:

“É desejável que estudem astrologia, que é a ciência dos corpos celestes, mostrando os movimentos e as distâncias das estrelas, e a influência que exercem sobre os corpos terrenos. Esta ciência é de muito valor para as obras dos homens, pois revela o tipo de poder que os céus têm sobre eles e sobre todas as coisas corruptíveis”.

8 A astrologia fazia parte das sete Artes Liberais: o Trivium (as três artes verbais): Gramática, Dialéctica e Retórica o Quadrivium (as quatro artes numéricas): Aritmética, Música, Geometria e Astrologia/Astronomia.

A diferença fundamental entre a astrologia e as práticas divinatórias menores consistia sobretudo no tipo de conhecimentos exigidos aos respectivos praticantes. Enquanto um adivinho precisava apenas de conhecer algumas regras simples (ou, nalguns casos, simplesmente confiar na “inspiração” do momento), um astrólogo tinha de ser versado em duas grandes áreas: cálculo matemático e astronômico (para determinar com exactidão as posições planetárias a cada momento) e interpretação, ou seja, em teoria astrológica (para “traduzir” as configurações planetárias em resultados práticos). Os conhecimentos matemáticos incluíam o domínio da trigonometria e outros cálculos complexos; por este motivo, a astrologia era por vezes chamada Ars Mathematica. A estes vinham juntar-se sólidos conhecimentos de Astronomia, conhecimento dos modelos explicativos dos movimentos celestes e familiaridade com os instrumentos de medição dos céus.

Quanto à vertente interpretativa, exigia-se ao praticante um conhecimento profundo dos elementos fundamentais da sua arte (significado dos signos, planetas, casas astrológicas, aspectos planetários) bem como de regras específicas para a combinação de todos estes elementos, em todas as configurações possíveis. Este conhecimento baseava-se na compreensão e na dedução, não na memorização, embora existissem livros de aforismos, com versões simplificadas, para auxiliar a memória. Era, aliás, também por dedução que se processava a vertente preditiva da astrologia: partindo da premissa que determinadas configurações planetárias correspondiam a eventos específicos, deduziam-se eventos futuros por via do cômputo das configurações futuras (obtido através de cálculos astronômicos). Esta forma de previsão contrastava com a de outras práticas divinatórias, baseadas em métodos “intuitivos” ou “mágicos”.

Neste contexto cultural, um indivíduo iletrado poderia intitular-se adivinho e praticar as artes menores, mas nunca poderia, em rigor, ser considerado astrólogo. A astrologia estava reservada apenas a indivíduos cultos.

Esta relação entre sabedoria e prática astrológica é salientada por Fernão Lopes, quando se refere ao prior Álvaro Gonçalves Pereira, pai de D. Nuno Álvares Pereira. Segundo o cronista, o prior era “sizudo e emtemdido, assi dizem que era astrollogo e sabedor, e quamdo lhe alguus filhos naçiam trabalhavasse de ver as nascemças delles.”

Mais adiante, refere-se ainda a um amigo da família Pereira em termos muito semelhantes: “huu gram leterado e mui profumdo astrollogo, que chamavom meestre Thomas”. Embora a narrativa tenha, em ambos casos, a óbvia intenção exaltar as virtudes de D. Nuno, atribuindo-lhes um tom de predestinação, o facto de usar o epíteto astrólogo como sinônimo de cultura é, em si mesmo, revelador do estatuto da astrologia. Esta é, aliás, apresentada como a “chave” que revela esta predestinação, o que ainda mais reforça este estatuto.

No período medieval, a prática astrológica articulava-se em quatro ramos distintos: Astrologia Natal, Astrologia Mundana, Interrogações e Eleições. A Astrologia Natal estudava as inclinações dos indivíduos, expressas no seu mapa de nascimento, e previa os principais eventos das suas vidas; estava, obviamente, reservada aos poucos que conheciam a hora exacta do seu nascimento. A astrologia Mundana estudava, como o próprio nome indica, o Mundo, o colectivo, os eventos de impacto geral, com particular destaque para o estado do tempo e das colheitas, e as suas repercussões na economia, na política e na estabilidade geral do reino. As Eleições tratavam da escolha (eleição) do momento mais adequado para levar a efeito uma determinada tarefa ou acção (como declarar uma guerra, assinar um tratado ou, mais trivialmente, tomar um medicamento ou cortar o cabelo). O ramo das Interrogações (também chamadas Questões ou Astrologia Horária) oferecia respostas directas a questões específicas. O mapa era calculado para o momento exacto em que a pergunta era feita ao astrólogo, e a interpretação oferecia a resposta. Estes quatro ramos da Astrologia são mencionados numa carta a D. Duarte, escrita por Diogo Afonso Mangancha, um mestre de leis com quem o rei por vezes se aconselhava.

A associação da astrologia à medicina era mais uma razão do seu prestígio. O mapa natal era encarado como um importante instrumento de diagnóstico, por permitir calcular o temperamento do paciente, de acordo com a teoria clássica dos Quatro Elementos (Colérico, Melancólico, Sanguíneo e Fleumático)16. Nos casos em que não era possível calcular o mapa natal, o médico podia ainda recorrer à astrologia para determinar qual o momento mais adequado à administração de certos medicamentos, sempre de acordo com a teoria dos Elementos; poderia ainda calcular um mapa para o momento em que a doença se declarava, e deduzir dele o desenvolvimento e eventual cura da mesma.

16 Teoria estabelecida por Empédocles (495/90-435/30 a.C.) e desenvolvida por Hipócrates (460-377 a.C.) e Galeno (131-200). Correlaciona os quatro elementos clássicos e os quatro temperamentos: Fogo com o temperamento Colérico, Terra com Melancólico, Ar com Sanguíneo e Água com Fleumático.

Exemplos práticos da associação entre astrologia e medicina são Rolando de Lisboa e Regiomontanus, ambos ligados à família de D. Duarte. O primeiro, Rolando (c.1400–c.1470), descendente de mãe portuguesa, serviu na corte da irmã de D. Duarte, D. Isabel de Avis, Duquesa de Borgonha. Esteve ao serviço do marido da Duquesa, Filipe o Bom, e do filho de ambos, Carlos o Temerário. Serviu também João de Lencastre, Duque de Bedford (1389-1435), primo de D. Duarte. Foi, aliás, ao serviço deste duque que assistiu, na qualidade de físico e académico, à sexta sessão do julgamento de Joana d’Arc, entre 9 de Janeiro e 30 de Maio de 1431. Quanto ao segundo, Regiomontanus (1436 – 1476), sobejamente conhecido pelos seus trabalhos na área da Matemática, serviu na corte da filha de D. Duarte, a imperatriz Leonor (1434 – 1467), mulher de Frederico III. Existe um mapa astrológico da imperatriz, calculado por este astrólogo.

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D. Duarte e a prática astrológica de corte

Ao contrário do que por vezes se afirma, D. Duarte não nega a funcionalidade do sistema astrológico. Tal não seria, aliás de esperar, visto que cresceu num ambiente onde estas práticas eram encaradas como parte natural da vida quotidiana. Para além da aceitação manifesta por seu pai (que será analisada mais adiante), também a sua mãe, Filipa de Lencastre (1359-1415) estava familiarizada com astrologia de corte.

Não será, portanto, muito surpreendente que nos seus escritos D. Duarte afirme:

“é de teer sem duvida que as pranetas nos enduzem e dam inclinaçõ, a bem e a mal”, estabelecendo uma correlação entre as características pessoais e as configurações planetárias. Importa notar que esta correlação é definida por termos como indução e inclinação, que destacam o seu carácter relativo. Com efeito, D. Duarte rejeita o valor absoluto que alguns atribuíam às inclinações astrológicas, considerando-as passíveis de ser reguladas pela vontade humana. É por isso que acrescenta, na mesma frase, que estas inclinações não são “em tal guisa que nom possamos contradizer”.

Esta relação em dois termos – aceitação da existência de correlações astrológicas e limitação do seu poder – espelha a principal linha de fratura do debate astrológico deste tempo: a conciliação dos princípios astrológicos com a fé cristã, expressa através do binômio determinismo / livre-arbítrio.

Estes temas, recorrentes em D. Duarte, encontram-se expressos de diversas formas nos seus escritos. Por regra, protesta contra o valor absoluto que alguns querem atribuir às influências astrológicas:

“das pranetas e das outras partes podemos seer enduzidos e tentados, mes nom costrangidos, porque principalmente fica todo em poder de nosso livre alvydro, nom nos costrangendo a predistynaçom, nem persciencia de Nosso Senhor Deos”.

Reclama, portanto, uma ampla porção de poder para a escolha pessoal, reduzindo o fator astrológico a um peso relativo, nunca absoluto. Este é, de resto, o seu grande protesto relativamente às afirmações dos astrólogos:

“Que as pranetas nos outorguem grande parte das condiçoões, preguntemse os estrollegos; os quaaes nom sollamente parte destas, mas todas, querem afirmar que nos som dadas”.

A questão do livre arbítrio, premente em D. Duarte, leva-o à reflexão sobre a questão do mérito:

“se todo per tal ordenança fezessemos e nom per determinaçom de nosso livre alvidro, a que seria mandar e aconselhar a quem per si mais poder nom tevesse de que as pranetas nos outorgassem?”.

Se o condicionamento fosse total, a pontos de obliterar o de livre-arbítrio, as ações humanas seriam totalmente desprovidas de mérito. Mais adiante no mesmo texto volta a reforçar o seu protesto:

“Se todo fosse constrangidamente, nem por nossos feitos haveríamos galardom ou pena”.

Note-se que estas considerações se aplicam somente à astrologia. Face às práticas menores de divinação, a sua rejeição é total e inequívoca:

“d’agoiros, sonhos, daar a voontade, sinais do ceeo e da terra, alguu boo homee nom deve fazer conta”.

Para além das considerações filosóficas e religiosas, a astrologia parece ser também um pomo de discórdia nas relações familiares de D. Duarte. Numa carta incluída no Livro da Cartuxa, D. Duarte, que na altura ainda não tinha subido ao trono, escreve a seu irmão Fernando (1402-1443) expressando o seu desagrado sobre o seu outro irmão, Pedro (1392-1449). Na carta, D. Duarte incentiva Fernando a “passar palavra” a Pedro, dando-lhe assim a conhecer a sua desaprovação. Na origem do problema está uma reação abrupta que D. Pedro teria tido, face a certas ordens do pai de ambos, D. João I (1357-1433). Presume-se que tenha havido uma discussão anterior, com troca de palavras amargas, acusações mútuas e possível afastamento. Por esta razão, D. Duarte não escreve diretamente a Pedro, preferindo “mandar recado” através do irmão mais novo, Fernando, para refutar as questões deixadas em aberto na discussão anterior. O tema da astrologia surge a talhe de foice, a propósito de um encontro que ambos tinham combinado, ao qual D. Duarte não pode comparecer. Neste contexto, D. Duarte comenta que:

“do que toca de Crença da estrologia e que por eso mesmo me estoruou que non fose a ele a esto lhe respondo que esto foy tardada do moço e a peste que andaua no estremo como el bem sabe…”.

As razões do desencontro com o irmão foram, segundo afirma, a “tardança do moço” e a “peste que andava no extremo”, não reconhecendo, portanto, quaisquer causas astrológicas para o seu atraso. Estas teriam sido possivelmente aventadas por D. Pedro em conversa ou mensagem anterior. Mas, tendo mencionado a astrologia – tópico sensível – D. Duarte aproveita a oportunidade para recriminar o irmão, usando um argumento muito comum na época:

“lembresse que o homem sabedor Se asenhorea das estrelas, e elas non podem mais fazer que dar nos tentaçom ou alguas relinações de deseJos, mais escrito he que noso senhor non consentyra seremos tentados mais do que sabe que por boa vontade se qujsermos poderemos resystir.”

A frase “o barão sabedor assenhoreia-se das estrelas” e suas diversas variantes aparecem de forma recorrente em muitos escritos desta época. É repetida por D. Duarte no Leal Conselheiro, e ecoada por Zurara (com um sentido diferente) no seu extenso preâmbulo ao mapa do Infante D. Henrique da Crónica da Guiné.

Zurara parece ter maior facilidade que D. Duarte em conciliar as considerações astrológicas e o livre-arbítrio. Diz o cronista:

“posto que seja escrito que o barão sabedor se assenhorará das estrelas, e que os cursos dos planetas, segundo boa estimação dos Santos Doutores, não podem impecer ao bom homem, manifesto que é porém que são os corpos ordenados no mistério de nosso senhor Deus, e correm por certas medidas e a desvairadas fins, reveladas aos homens por sua graça, por cujas influencias os corpos mais baixos são inclinados a certas paixões.”

Em suma, Zurara admite que alguns indivíduos podem suplantar as tendências induzidas pelos astros, visto que estas actuam sobre tudo “nos corpos mais baixos”. A relação que Zurara estabelece entre a prática a astrologia e a Igreja é sem dúvida mais tranquila que a de D. Duarte. Sobre este ponto, afirma Zurara:

“E por assim é, falando como católicos, que as contrairas predestinações das rodas do ceu, por natural juizo, com alguma divinal graça, se podem estorvar, muito mais de razão está que as proveitosamente predestinadas forem, por essa mesma graça, não somente seguirão seu curso, mas ainda se acreditarão muito mais.”

A graça divina será, portanto, alcançada apenas pelos que forem piedosos e que, por sua fé e esforço, consigam erguer-se acima das suas paixões, deixando assim de estar sujeitos às influências dos astros. Para o cronista, ao acto de “dominar” as estrelas reveste-se assim de um significado positivo: o “barão sabedor”, conhecedor das tendências pessoais expressas no seu mapa astrológico, usa este conhecimento de forma consentânea com a fé cristã, procurando melhorar-se e obedecer à vontade de Deus.

Para D. Duarte, esta relação não é tão tranquila. A sua noção de “domínio” das estrelas é uma imposição da vontade pessoal sobre as tendências expressas no mapa, sobrepondo-se assim àquilo que entende como determinismo. A ideia de usar o conhecimento astrológico para cumprir a vontade de Deus não tem eco neste rei.

É talvez por via desta intranquilidade (a que se somam, porventura, antigas discussões com o irmão), que D. Duarte termina a sua carta com um argumento que quer definitivo e demolidor:

“o poder todo de nosas obras a deus somente deue ser dado, e a nos per aquela parte do liure aluidrio que nos outorgou e das estrelas nem estrolomjia nenhu bom homem devue curar, saluo naqueles casos que a geral vsança da terra custumam”.

De volta à temática religiosa, fala em tom dogmático, mas faz ainda assim uma ressalva relativa aos costumes locais, que a seu ver podem sobrepor-se a esta determinação geral.

A sua preocupação com a concordância entre a prática astrológica e a fé cristã é tão premente que volta a abordá-la no Leal Conselheiro, desta vez para oferecer conselho em situações em que o parecer do astrólogo contradiga o do padre. Em caso de desacordo, D. Duarte aconselha, prudentemente, que se siga o parecer do padre:

“a Nosso Senhor que é sobre todos estrolagos e melhor sabe escolher os tempos e as horas, devemos todos nossos feitos comendar /, nom desobedecendo a el por obedecer nem seguir outro conselho d’estrologos (…)”.

As crónicas de Rui de Pina oferecem dois exemplos de práticas electivas, nos relatos da coroação de D. Duarte, em 1433, e na cerimónia de obediência de D. Afonso V, em 1438. E mesmo que estas narrativas, escritas muitos anos depois dos eventos, tenham por intuito de apresentar D. Duarte sob uma luz menos favorável, permanece o facto de se ter escolhido a temática astrológica, e não outra, para fazê-lo. As intenções ulteriores em nada diminuem o interesse histórico do estudo da vertente astrológica.

Conta Rui de Pina na Chronica do Senhor Rei D. Duarte que após a morte de D. João I, em Agosto de 1433, D. Duarte quis ser levantado por rei logo na manhã do dia 15, dia de Nossa Senhora. Ao ter conhecimento da data, o astrólogo da corte, Mestre Guedelha, pediu-lhe que adiasse a cerimónia por apenas algumas horas, altura em que ocorreriam configurações planetárias mais favoráveis. D. Duarte teria recusado, alegando:

“Nom dovido que ha Astronomia seja boa, e huma das Sciencias antre as outras permitidas e aprovadas, e que os Corpos inferiores são sogeytos aos sobrecelestes; porem ho que principalmente crêo, he seer Deos sobre todo”.

Voltamos, portanto, a encontrar, desta vez por via da crónica, a já referida dificuldade de D. Duarte em conciliar a prática astrológica (mesmo nas suas vertentes mais lícitas, como é o caso das eleições astrológicas) com os preceitos da Igreja.

Mestre Guedelha assegura-o de que não há conflito entre este adiamento e a vontade divina, dizendo:

“Senhor, a elle [Deus] praza que assi seja”; e mais adiante volta a insistir: “nom era grande inconveniente sobreserdes nisso huu pouco para se tudo fazer prosperamente, e como devya.”

Contudo, a resposta de D. Duarte, tal como é registada pelo cronista, vem salientar não apenas a sua irredutibilidade nesta matéria, mas também – e sobretudo – a recorrência deste conflito:

“Nom farei, pois nom devo, ao menos por não parecer que mingoa em my a sperança de firmeza que em Deos, e sua Fee devo ter.”

O ponto central da sua recusa é a já referida preocupação de conciliar a prática astrológica com as questões religiosas.

Em claro contraste com esta recusa, está a atitude do infante D. Pedro na cerimónia de obediência de D. Afonso V, em Setembro de 1438, relatada por Rui de Pina, na Chronica do Senhor Rey Affonso V. É possível que as divergências dos irmãos em relação à astrologia – as hesitações de Duarte e o à-vontade de Pedro – fossem bem conhecidas na corte. Neste episódio, Pina volta a referir Mestre Guedelha, que participa na cerimónia a pedido de D. Pedro:

“Mestre Guedelha, singular Fysico e Astrologo, por mandado do Yfante regulava, Segundo as ynfluencias e cursos dos Planetas, a melhor hora e ponto em que se poderia dar aquella obediência…”

Desta vez os conselhos do astrólogo são expressamente requisitados e rigorosamente seguidos:

“dizendo Meestre Guedelha, que era booã ora pera fazer sua obediencia, o Yfante com os giolhos em terra tomou as maaons ao Pryncepe…”.

A atitude de D. Pedro em relação à astrologia, relatada na crónica, está em claro contraste com as de D. Duarte. Contudo, é coerente com relatos de outras fontes, o que lhes confere alguma verossimilhança. Nos seus escritos, D. Pedro revela uma integração natural entre as práticas astrológicas e a fé cristã, sem vestígios de conflito. O seu livro Virtuosa Benfeitoria apresenta uma descrição do Cosmos claramente inspirada em Aristóteles, como era aliás comum no seu tempo:

“o mundo sensyuel he departido em duas partes”, estendendo-se a primeira “do çírculo da lua pera çima, em a quall som stendidos os çeeos, e as strellas dam o seu splendor, e os planetas se mudam com desvayrados cursos” e a segunda “des o çirculo da lua pera baixo”, contendo “os quatro elementos e plantas e anymalias que per ele rreçebem vida”.

Tendo descrito as duas grandes regiões do universo aristotélico, D. Pedro estabelece a correlação entre ambas:

“todallas cousas que em ella [a Terra] uiuem e creçem ou ham sentimento, reçebem da parte primeyra per canaaes nom sensiuees uertuosas enfluençias”. Passa então a explicar o papel do ser humano: “do mouimento dos çeeos continuado, se faz em a terra mudança do tempo, e uiuendo em elle as cousas corruptivees, sofrem em seus stados desvayradas minguas”.

Nesta descrição breve, D. Pedro descreve o modo de actuação do Cosmos medieval: as configurações planetárias determinam o estado do tempo, que por sua vez actua sobre a Terra e os que nela habitam, impulsionando o ciclo natural da Vida. Neste mundo sempre em transformação, é possível alcançar a harmonia através da compreensão dos movimentos celestes: “sse nom fossem estas cousas, nom poderya seer ordenança”. Para D. Pedro não existe, portanto, qualquer conflito entre os factores astrológicos, a liberdade moral e a fé cristã. A sua noção de “domínio sobre as estrelas” aparenta ser mais próxima da de Zurara que da de D. Duarte.

Esta mesma aceitação natural é também revelada pelo pai de ambos, D. João I, no capítulo 18 do Livro de Montaria. Nesta secção do livro D. João estabelece uma relação entre as configurações planetárias e os ventos, informação que considera fundamental para a caça. Para que a correlação seja bem compreendida, inclui uma breve descrição do sistema astrológico, baseada, segundo afirma, num livro de astrologia escrito por Joham Gil. A sua explicação, que inclui os principais conceitos aristotélicos, concilia sem atritos as noções astrológicas e os preceitos da fé cristã. Começa por referir que Deus

“todo sabedor, e poderoso, pollo seu saber e poder fez de nouo húa matéria, a qual nos nom podemos saber que he, nem de que he, senom que lhe chamam todos philosophos ille, da qual fez os quatro ellementos, e que por esta materia, a que elles disserom ille, e que por esto leuarom elles nome ellementos.”

Tendo desta forma conciliado a criação bíblica com os preceitos aristotélicos, D. João avança para os conceitos astrológicos:

“destes quatro ellementos segundo os philosophos criou Deus, a que elles dizem natura naturante, todallas cousas que som, também ceeos, como as pranetas, e signos, e estrellas, as quaes elles disserom que eram feitas destes ellementos.”

Toda a Natureza, incluindo estrelas e planetas, é vista como uma manifestação de Deus, funcionando pelas leis naturais – não há, portanto, contradição entre a vontade divina e as configurações planetárias.

É neste contexto que D. Duarte aceita a astrologia “natural”, como é exemplo uma passagem do Leal Conselheiro: ao enumerar as múltiplas causas da peste, indica

“especial sentença do Senhor Deos”, “corrupçom dauguas” e “apagamento”, e também “geral constelaçom como foi a pestellença grande que ante per muyto tempo dos estrollogos foi prenosticada”.

No poema “O que tomamos da Terra”, do Livro dos Conselhos, encontramos uma visão similar:

Da terra [tomamos] compreison
Do leyte e viandas, criaçom
Dos parentes, Naçom
Das doenças e acontecimentos, occasiom
Dos planetas, constellaçom
Do senhor e amigos, conuersação
De noso senhor deus, per especial Jnspiração, nos he outorgada condiçom e discreçom
Daquesto se deue tomar non falando da especial graça de noso senhor que per sy so faz mudar todas condições e discreções que cada hua per sy non he tam poderosa que das outras partes non receba torva ou ajuda”.

Esta breve enunciação refere os principais factores que contribuem para a formação da personalidade: a compleição física, que advém da própria Terra (mais especificamente, da região do Mundo onde se nasce); a nutrição, que provém dos alimentos; a Nação (isto é, a nacionalidade, a cultura e a religião), herança dos pais; a ocasião (os incidentes fortuitos), fruto de doenças e eventos vários; a constelação (o horóscopo ou mapa natal), gerado pela configuração dos planetas no momento do nascimento; a conversação ou interacção social, garantida pelos laços sociais; e finalmente as capacidades mais subtis, outorgadas por Deus, cujo poder poderá modificar todos os outros factores. Mais uma vez, a componente astrológica surge de forma natural, como um dos vários elementos formadores da personalidade e do destino. Contudo, todas as condições enunciadas deverão estar subordinadas à “especial graça de nosso senhor” e nenhuma é, por si mesma, tão forte que “das outras não receba torva (isto é, impedimento) ou ajuda”.

Esta é, de resto, a grande objecção que D. Duarte coloca às práticas astrológicas: o poder último tem de estar nas mãos de Deus, pois “o poder todo de nosas obras a deus somente deue ser dado”. Sem querer negar por inteiro a funcionalidade da astrologia, cuja vertente “natural” aceita implicitamente, mas sem conseguir enquadrar estas práticas nos requisitos da sua fé, D. Duarte fica preso numa terra de ninguém.

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Algumas conclusões

D. Duarte, D. João I e D. Pedro ilustram posições bem distintas face ao tema da astrologia. Em D. Pedro e D. João verifica-se uma aceitação implícita do sistema astrológico como parte natural da vida medieval. Contudo, nota-se diferenças nesta aceitação: enquanto D. João I parece integrar a astrologia na sua vivência quotidiana, sem grandes questionamentos, D. Pedro dirige-lhe um questionamento mais profundo, atribuindo-lhe um propósito moral.

Em contraste com ambos, D. Duarte revela uma relação algo desconfortável com a astrologia: embora não questione a sua funcionalidade, tem dificuldade em conciliar a prática astrológica com os princípios da fé cristã, sobretudo no que diz respeito à questão do livre-arbítrio. Neste sentido, D. Duarte posiciona-se num campo ideológico claramente oposto ao do pai e do irmão.

Estas diferentes posturas ilustram a divisão que a astrologia (e em particular a questão do livre-arbítrio) vinha gerando na sociedade medieval. Importa, contudo, entender que a linha de fractura não se traça entre os que aceitam cegamente a astrologia e os a rejeitam, pois a aceitação da sua funcionalidade (com mais ou menos restrições), nunca é verdadeiramente posta em causa. A divisão ocorre entre os que conseguem integrar de forma pacífica os conceitos de destino, livre-arbítrio e fé cristã, como D. João e D. Pedro, e os que, como D. Duarte, não conseguem conciliar estes conceitos.

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Bibliografia
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