Astrologia e Astrólogos

Biblioteca Sadalsuud – II

Garde le Silence Le Silence te Gardera

MERLINI ANGLICI EPHEMERIS

O GRANDE FOGO DE LONDRES, 1666
MERLINI ANGLICI 1663 & 1665

A influência de William Lilly atingiu o seu auge durante o Protetorado de Cromwell (1652-8), as vendas do seu almanaque anual ascenderam a cerca de 30.000 e algumas edições foram traduzidas para idiomas estrangeiros.  O seu envolvimento com a política ultrapassou as fronteiras nacionais, chegando a receber uma corrente e medalha de ouro do rei sueco, Carlos Gustavo, em agradecimento pelos seus esforços na promoção de uma aliança entre a Inglaterra e a Suécia.  O seu rival, John Gadbury, apoiava uma aliança com a Dinamarca, país que então estava em guerra com a Suécia, e predisse corretamente a morte do monarca sueco, fato que Lilly não tinha previsto.  A sua reputação foi novamente danificada quando predisse que Richard, o filho de Cromwell, teria sucesso no estabelecimento de um forte governo depois da morte do pai, quando na realidade foi deposto passados poucos meses da predição de Lilly.

A Restauração do Rei Carlos II em maio de 1660 fê-lo passar por um período atribulado: em junho de 1660 foi chamado pela comissão parlamentar que investigava a execução de Carlos I, mas sem consequências.  Foi novamente preso em janeiro de 1661 entre os “supostos fanáticos”, mas jurou a sua fidelidade ao rei e obteve a liberdade pagando o montante de £13 6s. 3d. pelo perdão.  A sua reconciliação com o novo regime foi facilitada pela sua amizade com o eminente monárquico Elias Ashmole.

 Durante a década de 1660, Lilly continuou a publicar o seu almanaque anual, mas foi prejudicado pela censura, que tinha sido abolida durante a vigência de Cromwell e que voltou a ser imposta.  A 27 de Junho de 1665 deixou Londres para escapar à Grande Peste e instalou-se em Hersham, onde foi nomeado fabriqueiro da igreja paroquial de Walton-upon-thames.  A 25 de Outubro de 1666 foi chamado a apresentar-se perante uma comissão que investigava as causas do Grande Fogo de Londres, por ele predito em 1652, na forma de um desenho em código.  Mais uma vez, com a ajuda de Ashmole conseguiu convencer a comissão de que a sua predição não era precisa e que nada sabia sobre a causa do fogo.

Passada esta fase, Lilly ficou a viver tranquilamente em Hersham, onde se devotou ao estudo da medicina, sendo-lhe conferida uma autorização para a sua prática em 1670.  Tratava gratuitamente os pobres e cobrava um shilling aos mais abastados pelos seus remédios.

A amizade que o ligava a Ashmole e que se tinha iniciado quando este conheceu Lilly pela primeira vez em 1646, foi aprofundada pela admiração que Ashmole sentiu quando o viu defender George Wharton em 1650.  O interesse de Ashmole pela magia, alquimia e astrologia fazia-o envolver-se e criar laços de amizade com muitos astrólogos, independentemente das suas tendências políticas.  Em 1672 os dois recuperaram alguns manuscritos da autoria do lendário místico Doutor Dee, contemporâneo da rainha Elizabeth I.  Estes, juntamente com a biblioteca pessoal de Lilly e outros textos astrológicos e místicos foram preservados na Colecção Ashmolean, em Oxford, de onde se extraíram as cópias de que os textos que agora se apresentam são a tradução.

Esta época, de particular interesse para o estudante português pelas referências constantes e muito vívidas quanto às atividades da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e Orientais, requer algumas informações sobre estas mesmas organizações.

A Companhia das Índias Orientais foi criada em 1602, quando os Estados Gerais dos Países Baixos lhe concederam o monopólio das atividades coloniais na Ásia.  Foi a primeira companhia multinacional do mundo e a primeira companhia a emitir ações.  Os métodos que usava para manter o monopólio incluíam a repressão violenta da população nativa, a extorsão e o assassinato em massa.  Em 1669, era considerada a companhia privada mais rica que o mundo jamais viu, com mais de 150 navios de mercadorias, 40 navios de guerra, 50.000 empregados e um exército privado de 10.000 soldados, pagando 40% em dividendos.  A Companhia estabeleceu o seu quartel general em Batávia na ilha de Java (a atual Jakarta na Indonésia) criando outros postos coloniais nas Molucas onde mantinha à força o monopólio da noz moscada e outras especiarias.  Das minas espanholas do Peru vinha a prata que, juntamente com o cobre do Japão, era trocada pelos têxteis e porcelanas da Índia e da China.  O único posto em que se mantinha uma paz relativa era Dejima, uma ilha artificial ao largo da costa de Nagasaki que foi, durante muito tempo, o único lugar em que os europeus podiam negociar com o Japão.  Em 1652 foi estabelecido o posto do Cabo da Boa Esperança (a atual cidade do Cabo) para abastecimento dos navios de passagem para o Oriente, existindo outros na Pérsia, Bengala, Ceilão, Malaca, Sião, Cantão, Formosa e Índia Meridional.

A Companhia das Índias Ocidentais foi criada em 1621, com o propósito de eliminar a competição dos espanhóis e portugueses, sendo-lhe dado o monopólio do comércio no Ocidente e jurisdição sobre o comércio de escravos, sobre o Brasil, as Caraíbas e a América do Norte.  Só não tinha autorização para levar a cabo operações militares sem a aprovação do governo holandês, atividade a que se dava livremente a Companhia das Índias Orientais.  Estabeleceram-se na Nova Amsterdam (a atual Nova York), Connecticut, Delaware e Nova Jersey, assim como nas Antilhas Holandesas, Suriname e Guianas. Em 1630 apoderaram-se das possessões portuguesas no Brasil e foi formada a colónia da Nova Holanda com a capital em Mauritsstad (o atual Recife).  Em África estabeleceram-se no atual Ghana e brevemente em Angola.  Mas o seu sucesso decaiu rapidamente e, em 1654, o Brasil voltou às mãos dos portugueses depois de uma longa guerra da qual participou ativamente o nosso Padre António Vieira, cujas trabalhosas embaixadas junto das autoridades dos Países Baixos e do Cardeal Mazarino, na promoção da libertação das nossas colónias brasileiras são sobejamente conhecidas.

Eram estas as Companhias tão mencionadas por Lilly nos seus Merlini Anglici, cujas atividades corsárias tantas dores de cabeça davam aos governantes e aos mercadores ingleses, e cuja vassalagem era prestada exclusivamente aos seus administradores, conhecidos pelos Heeren XVII (os Dezessete Senhores).  Lilly e Gadbury, nesta e em diversas outras obras, referem-se lhes chamando Hogens.

 Curiosas são também as referências às tentativas de invasão do nosso território nacional perpetrado pelos espanhóis, apesar das quais, nas palavras de Lilly “Portugal, surpreendentemente, subsiste”, e o fato do rei de Inglaterra da época, Carlos II, ser casado com a nossa princesa D. Catarina, filha do duque de Bragança e rei de Portugal, D. João IV, a introdutora da tradição do chá em Inglaterra e em honra de quem se deu o nome de Queens ao famoso bairro de New York.

Após a morte de Carlos II, que não deixou herdeiros legítimos, sucedeu-lhe o seu irmão por um período brevíssimo e, logo depois, o parlamento inglês deu as boas-vindas ao odiado holandês, Guilherme de Orange, como rei de Inglaterra.

ISBN: 972-8861-21-4 & ISBN: 972-8861-22-2
DEPÓSITO LEGAL: 233772/05

α

NICHOLAS CULPEPER
(1616-1654)

Culpeper nasceu a 18 de outubro de 1616 mas, 13 dias antes do seu nascimento, já se manifestava a tragédia que haveria de caracterizar toda a sua vida, com a morte do seu pai que meses antes tinha sido elevado ao posto de Lord of Ockley Manor, no Surrey; com a sua morte, a Manor passou para outras mãos.

A sua infância foi fortemente marcada pelo avô materno, o Reverendo William Attersole que, além de lhe ensinar o latim e o grego, lhe deu uma forte influência puritana e um saudável desrespeito pela Coroa.  Apesar de aos 10 anos de idade o avô lhe autorizar apenas a leitura da Bíblia na sua biblioteca, nela encontrou e leu textos astrológicos e médicos, sendo especialmente impressionado pela Defesa da Astrologia Judicial, de Sir Christopher Heydon e pelo New Herbal de William Turner.  Nela encontrou também uma cópia da Anatomia do Corpo de um Homem, de Thomas Vicary, barbeiro cirurgião de Henrique VIII, que veio a influenciar notavelmente o Diretório para Parteiras que o próprio Culpeper escreveu em 1651.

Aos 16 anos entrou na Universidade de Cambridge onde, em vez do estudo da teologia, como pretendia o avô, se devotou ao estudo dos clássicos e da matéria medica de Galeno e Hipócrates, passando o resto do seu tempo em tabernas e praticando o ténis e a natação no Rio Cam, chegando mesmo a adoptar a nova moda de fumar tabaco e acabando por nunca terminar o curso.

Na altura em que entrou para Cambridge, Culpeper pretendia casar com a herdeira Judith Rivers, com quem namorava desde a infância sem o conhecimento de qualquer das famílias.  Sabendo que a sua família jamais autorizaria a união, ela decidiu fugir com ele para os Países Baixos até o escândalo se ter diluído.  Quando se dirigia ao seu encontro, a carruagem foi atingida por um raio, matando-a.  Culpeper entrou numa profunda melancolia e permaneceu em reclusão durante muito tempo.  A mãe morreu pouco depois, em estado de grande depressão.  A ira do avô fez com que fosse deserdado pela família da mãe.  Não podendo voltar a Cambridge para terminar os seus estudos de teologia ou de medicina, acabou por seguir o conselho do avô, tornando-se num farmacêutico de tão grande mérito que, tendo-se iniciado como aprendiz de Francis Drake, o substituiu quando este morreu.

Em novembro de 1635, Culpeper visitou William Lilly que se ofereceu para lhe ensinar a Arte.  Ao despedirem-se, Lilly deu-lhe umas efemérides para os anos de 1636-40 e alguns aforismos para médicos, e a sua influência é evidente na obra que agora se apresenta.  A sua opinião sobre o famoso astrólogo torna-se clara nas suas palavras:  “Deveis todos abençoar Deus por ter criado esse famoso homem, o Sr. WILLIAM LILLY que, com a ajuda de Deus, tornou a Arte da Astrologia tão clara para todos vós que não só vos podereis dar conta da vossa anterior ignorância como também vos tornareis capazes de vos fazerdes a vós mesmos algum bem”.

Em 1640, aos 24 anos, casou-se com Alice Field, filha de um dos seus pacientes, cujo dote o ajudou a estabelecer-se como astrólogo e ervanário, alcançando uma considerável reputação entre os seus pacientes que ascendiam a 40 por dia, pois a todos atendia e a poucos cobrava.  “Muitas vezes encontro os meus pacientes perturbados por preocupações da Consciência ou Pesar, e tenho que fazer de teólogo antes de poder ser médico.  De fato, a nossa maior habilidade reside na infusão de Esperanças, para induzir a confiança e a paz de espírito”.

Durante a Guerra Civil (1642-9), alistou-se a favor da causa Parlamentarista como cirurgião, tomando parte na batalha de Edgehill em 1642 e sendo ferido no ombro em 1643 no cerco de Reading, ferimento esse que terá estado na origem da tuberculose que se crê ter contraído nessa altura.

A sua obra escrita beneficiou grandemente da abolição da censura em 1641, contribuindo para a realização do seu desejo de que a medicina ervanária se tornasse acessível aos pobres que não tinham dinheiro para pagar aos médicos.  Em 1649 publicou a tradução para o inglês da Pharmacopoeia Londonesis do Real Colégio dos Médicos, chamando-lhe Um Diretório Médico, ou Uma Tradução do Dispensário de Londres, ao qual acrescentou o seu comentário pessoal sobre os usos e as virtudes de cada droga, o que provocou uma enorme controvérsia e a forte reprovação do Colégio, cuja autoridade já tinha sido abalada pela execução de Carlos I, acontecimento que se deu pouco antes da publicação desta obra.

Em 1651 publicou a Semeiotica Uranica, ou o Julgamento Astrológico das Doenças, baseado na tradução de uma obra de Noel Duret, o cosmógrafo real francês, prefaciado por uma tradução do Tratado dos Dias Críticos do astrónomo e médico árabe do sec. XVI, Abraham Avenezra, e contendo também uma seção do Primeiro Decúbito Total dos Doentes de Hermes Trismegistus.  Nesse mesmo ano terminou uma obra sobre obstetrícia, Um Diretório para Parteiras; ou um Guia para mulheres quanto à concepção, nascimento e aleitamento dos seus filhos, etc.  O tópico da obstetrícia é certamente invulgar num homem mais conhecido como ervanário e astrólogo, mas a tragédia na sua família terá certamente focado nele a sua atenção.  Dos seus sete filhos, nascidos ao fim de 14 anos de casamento com Alice, só a sua filha Mary lhe sobreviveu.

Em 1652 traduziu do latim a Arte da Medicina de Galeno e no mesmo ano escreveu Catastrophe Magnatum ou a Queda da Monarquia, obra de astrologia mundana, baseada no eclipse solar que ocorreu por volta das 9 da manhã na “2ª Feira Negra”, 29 de março de 1652, na qual comentava que “A Quinta Monarquia está a chegar, mas ele não é Escocês nem Inglês” o que mostrava que não estava a favor de Oliver Cromwell, que se tornou Lord Protector nesse ano.  A sua predição privilegiava um colapso da ordem de governo estabelecida e a aurora de uma nova era sob a orientação divina de Cristo e dos seus Santos.

Em 1653 terminou o seu ervanário O Médico Inglês, ou um Discurso Astrológico Médico sobre as Ervas Comuns desta Nação, obra cujo impacto perdurou pelos séculos, como ele predizia numa carta à sua mulher:  “…e a minha fama perdurará e aumentará com ela, apesar do período da minha Vida e Estudos estar a terminar e dever despedir-me de todas as coisas sob o Sol.”   John Gadbury descreveu-a como “…uma obra de tal raridade como jamais algum ervanário se aventurou a fazer”.

Pouco depois de conclusão desta obra, Culpeper morre com 38 anos, a 10 de janeiro de 1654, vítima do excesso de trabalho e destroçado pela tuberculose que o tinha reduzido a um mero esqueleto.  As palavras da viúva atestam a sua enorme herança literária:  “O meu marido deixou 79 livros por ele escritos ou traduzidos nas minhas mãos”.  O mais notável de todos poderá ser O Tratado do Aurum Potabile, publicado postumamente em 1656.  Obra alquímica de enorme importância, explica a filosofia por detrás de toda a sua vida e obra escrita, “sendo uma descrição do Mundo Triplo; o elementar, o celeste e o intelectual, contendo o conhecimento necessário para o estudo da Filosofia Hermética”.  Explica como o estudo dos elementos e dos planetas na verdadeira filosofia pode levar a uma descoberta do princípio Crístico no seu interior ou, como ele diz simbolicamente, no alcançar o “Ouro bebível”.  Dadas as incertezas religiosas que se viviam na sua época, não será de estranhar que tenha escrito sobre esta sua experiência mais íntima e profunda usando imagens alquímicas e que tenha deixado o tratado para ser publicado após a sua morte.

Médico de eleição, trabalhou sempre entre os pobres, defendendo que o tratamento tinha que ser barato e imediatamente disponível, o que contribuiu para a sua crença nas “ervas inglesas para corpos ingleses”.  Entre os estudantes que a sua reputação atraiu, sobressai William Ryves, que não só o ajudou na sua extensa obra literária como também escreveu a sua biografia:  A Vida do admirado Médico e Astrólogo dos nossos tempos, Sr. NICHOLAS CULPEPER.

JULGAMENTO ASTROLÓGICO DAS DOENÇAS, NICHOLAS CULPEPER
ISBN 972-8861-16-8
DEPÓSITO LEGAL 224714/05

α

NICHOLAS DEVORE
A ENCICLOPÉDIA DA ASTROLOGIA

Nasceu a 19 de maio de 1882, em Enon, Ohio, USA,
83W56 – 39N52; 00:35 CST+6
Asc. 29º59’ Aquário – MC 13º15’ Sagitário
Morreu a 20 de maio de 1960

A ASTROLOGIA, EM TESTEMUNHO DA QUAL…

REV. JOHN BUTLER, reitor de Litchborough, sentiu-se chamado a exterminar a Astrologia da Inglaterra.  Para o fazer eficazmente, começou uma leitura “moderada” sobre o assunto – com o seguinte resultado, nas suas próprias palavras:

“Gerou em mim uma reverência por estes cabelos brancos que, tão injusta como ignorantemente, eu tinha desprezado…  Verifico que, a seguir à Teologia, nada me transporta para mais perto do olhar de Deus do que este sagrado estudo das grandes obras da Natureza”.

 

DANTE,

para quem a Astrologia era “a mais nobre das ciências”, escreveu:

“…  Eu vi

O Signo que se segue a Touro, e encontrei-me nele.

…  Oh Luz impregnada

De poderosas virtudes, da qual reconheço

Advir todo o meu génio, seja ele qual for”.

JOHN RUSKIN:

“A grandeza ou mediocridade do ser humano é determinada, no sentido mais conclusivo, no momento em que nasce”.

 RALPH WALDO EMERSON:

“A astrologia é a astronomia trazida à terra e aplicada aos assuntos dos homens”.

TYCHO BRAHE, quando descobriu a sua primeira nova, levantou uma Figura astrológica para esse momento, a partir da qual predisse corretamente um conquistador que os invadiria “vindo do Norte”, Gustavus Adolphus e a Guerra dos Trinta Anos, que depois se seguiu.  Dizia ele:

“As estrelas regem o destino do Homem”.

JOHANNES KEPLER, descobridor das “Leis de Kepler” do movimento nas órbitas, sucessor de Tycho Brahe como astrônomo do Imperador Rudolph, e autor de muitos panfletos astrológicos, disse:

“Uma experiência infalível dos eventos mundanos em harmonia com as alterações que ocorrem nos céus, instruiu e compeliu a minha crença, que inicialmente lhe era contrária”.

Quando a SIR ISAAC NEWTON, ao entrar para Cambridge, foi perguntado o que desejava estudar, respondeu:

“Matemáticas – porque desejo testar a Astrologia Judicial”.

Anos mais tarde, quando censurado por Halley pela sua crença na validade dos princípios astrológicos, respondeu:

“Obviamente, não examinou a Astrologia; eu fi-lo”.

JOHN BURROUGHS:

“O ser humano é um pequeno pedaço de terra, com um pequeno pedaço de céu sobre si; e todas as leis desta terra e deste céu visível são repetidos nele numa escala maior”.

SIR WALTER SCOTT:

“Não é verdade que os Cristãos e os Infiéis, os Judeus e os Gentios, os poetas e os filósofos se unem no reconhecimento das influências estelares”?

CHARLES NORDMANN:

“Os raios-x que vêm das estrelas, que emitem estes raios abundantemente, exercem influência sobre os organismos vivos de cada um de nós”,

SIR FRANCIS BACON:

“As naturezas e as disposições dos seres humanos são, não sem verdade, distinguidas pelas predominâncias dos planetas”.

TOMÁS AQUINO:

“Os corpos celestes são a causa de tudo o que tem lugar no mundo sublunar”.

SIR W. DRUMMOND:

“A Ciência da Astrologia é uma coisa divina”.

JOHN MILTON:

“…  O conhecimento foi, como um dom, enviado

Desde o alto do empíreo, para nos avisar

Atempadamente…”

HIPÓCRATES, o mais venerado nome da medicina, disse:

“Um médico que não tenha um conhecimento de Astrologia não tem o direito de se intitular médico”.

BENJAMIN FRANKLIN, que selecionou a data para a inauguração de Washington por meio de uma Eleição astrológica, no seu Poor Richard’s Almanack de 1733, assim chamado em homenagem a um astrólogo-médico que em 1677 publicou um compêndio sobre Astrologia Médica, predisse que ocorreria um certo evento:

“…  pelos meus cálculos…  a 17 de Outubro…  no momento em que se der a conjunção do Sol e Mercúrio.”

THEODORE ROOSEVELT, falando do seu Horóscopo, disse:

“Mantenho sempre a minha “atenção às intempéries” posta sobre a oposição da minha Lua de Sétima Casa ao meu Marte de Primeira Casa”.

Tinha dez anos quando o seu primeiro horóscopo lhe foi levantado pelo pai de Li Hung Chang.  Num artigo sobre “Roosevelt e a Astro-Ciência” Dudley Clark relata que o Cor. Roosevelt tinha o seu horóscopo montado num tabuleiro de xadrez que estava sempre sobre uma mesa no seu quarto na Casa Branca.

MARK TWAIN disse:

“Nasci com o Cometa de Halley e espero morrer na data da sua reaparição” – e morreu.

 GOETHE escreveu uma descrição astrológica do seu demorado nascimento, à qual acrescentou:

“Estes aspectos auspiciosos, de que os astrólogos me fizeram a interpretação subsequente, podem ter sido as causas da minha preservação”.

SHAKESPEARE, nas suas muitas alusões à Astrologia, evidenciou um profundo interesse e um completo conhecimento da ciência.  Falando pelas palavras do Rei Lear, ele diz:

“As estrelas lá em cima governam as nossas condições”.

A outro personagem dá o comentário:

“Eu nasci, senhor, quando o Caranguejo estava a ascender:  todos os meus assuntos andam para trás”.

ISBN 972-8861-09-5
Depósito Legal Nº 220617/04

α

O PROFÉTICO MERLIN
WILLIAM LILLY

Os primeiros almanaques escritos de que se tem notícia datam do sec. II da nossa era, sabendo-se que os gregos de Alexandria já os criavam por volta da época de Ptolomeu (100-150 AD) graças à evidência deixada por Theon, o comentador de Ptolomeu, num manuscrito encontrado em Paris, em que explica o método de os organizar e registra os materiais necessários para tal.  Os almanaques mais antigos de que há menção são os de Solomon Jarchus, datados de 1150, sendo um outro publicado por Petrus Dacia em 1300, no qual a influência dos planetas é assim registada:

“Jupiter atque Venus boni, Saturnus que maligns;

Sol et Mercurius cum Luna sunt mediocres”,

Durante a idade média, Oxford destaca-se como a sede por excelência da ciência, na qual se incluíam a astrologia e a alquimia, e de lá emanavam os almanaques da época, como o de John Somers, 1380 e Nicholas of Lynna, 1386.

O Kalendarium Novum de Regiomontanus, publicado na Hungria e calculado para os anos de 1475, 1494 e 1513 foi o primeiro a ser impresso na Europa.  Apesar de conter apenas os eclipses e as posições dos planetas, foi vendido a dez coroas de ouro e rapidamente se esgotou.  Em Inglaterra só passaram a ser de uso comum a partir de meados do sec. XVI, sendo para tal utilizados os conhecimentos de hábeis matemáticos a que os astrólogos adicionavam as influências planetárias sobre a meteorologia e outros assuntos mundanos.  Em França, um decreto de Henrique III datado de 1579 proibia-os de profetizar, direta ou indiretamente, a respeito dos assuntos do estado ou dos indivíduos.  Em Inglaterra, pelo contrário, James I permitia a continuação das profecias, concedendo o monopólio da publicação dos almanaques às duas Universidades e à Companhia dos Livreiros, o que deu aso ao florescimento da astrologia, cujos praticantes criaram uma companhia que promovia um jantar anual a que Ashmole diz no seu diário ter estado presente durante vários anos seguidos.

As guerras civis de Charles I contra o Parlamento constituíram o período em que os almanaques foram mais avidamente consumidos, destacando-se O Profético Merlin de William Lilly, publicado por Booker após o seguinte incidente, descrito pelo próprio Lilly na sua autobiografia:

“Em 1644, publiquei Merlinus Anglicus Junior, por volta de abril.  Um dia, dei uma cópia a Mr. Whitelock que, por acaso, o estava a ler na Câmara dos Comuns antes do Presidente tomar assento.  Houve alguém que lhe deu uma vista de olhos, e muitos outros fizeram-no também, e compraram cópias dele, o que, tendo chegado aos meus ouvidos, fez com que me dirigisse a John Booker para obter a devida autorização, pois era ele quem atribuía as licenças de todos os livros matemáticos.  Tanto quanto me lembrava, nunca o tinha visto antes.  Ele surpreendeu-se com o livro, fez muitas obliterações impertinentes, apresentou muitas objecções, jurou que não era possível distinguir entre Rei e Parlamento e, por fim, deu a autorização conforme lhe apeteceu.

Entreguei-o ao impressor que, sendo um arqui-presbitariano, fez com que fosse inspecionado por cinco membros do Ministério que não entenderam nada mas disseram que podia ser publicado, pois nele não interferia com a sua divindade.  A primeira edição foi vendida em menos de uma semana.  Quando o apresentei a alguns Membros do Parlamento, queixei-me de John Booker por ter mutilado o meu livro.  Ordenaram-me imediatamente que o voltasse a imprimir como queria e que lhes dissesse se alguém se atrevesse a criar resistência na reimpressão, ou nas adições que eu considerasse apropriadas.  De modo que à segunda vez, saiu como eu queria”.

A forma como Lilly travou conhecimento com Sir Bulstrode Whitelock é por ele relatada da seguinte forma:

“Em 1643 tornei-me familiarmente conhecido de Sir Bulstrode Whitelock, um membro da Câmara dos Comuns.  Estando ele doente, a sua urina foi-me trazida pela Senhora Lisle, mulher de John Lisle, que mais tarde veio a ser um dos Guarda-Selos de El-Rei.

Tendo levantado a minha figura, devolvi a resposta – o doente restabelecer-se-ia desta vez, mas graças a um excesso, teria uma perigosa recaída dentro de um mês, coisa que ele provocou por comer trutas na casa de Mr. Sand, perto de Leatherhead, no Surrey.  Nessa altura, fui visitá-lo todos os dias enquanto o Dr. Prideau já não tinha esperanças de que vivesse, mas eu disse que não havia perigo de tal, e que estaria suficientemente bem dentro de cinco ou seis semanas, e assim aconteceu”.

Graças à sua amizade com Whitelock, Lilly tornou-se conhecido de muitos dos principais membros do Parlamento.  Alguns, pertencentes à facção Independente pediam-lhe conselhos astrológicos; outros, da facção Presbiteriana faziam os possíveis por o perseguir.  Dez anos após o seu primeiro encontro com Whitelock, o seu estatuto era tal que Thomas Claypole, genro do próprio Oliver Cromwell, o consultava, como regista na sua autobiografia, e a gratidão de Lilly para com Whitelock teve oportunidade de se manifestar:

“Em 1653, antes da Dissolução (do Parlamento por Cromwell) e antes de terem escolhido alguém como Embaixador junto da Suécia, Mr. Claypole veio ter comigo, perguntando-me quem é que eu achava capaz de ser enviado para nessa Embaixada à Suécia.  Eu nomeei Sir Bulstrode Whitelocke, que foi escolhido, e dois ou três dias mais tarde, Mr. Claypole voltou novamente:  Espero, Mr. Lilly, que agora o meu pai o tenha feito feliz; o seu amigo Sir Bulstrode Whitelocke deverá ir para a Suécia”.

A imagem acima representa a execução de Charles I, levada a cabo sobre um cadafalso levantado em frente a Banqueting House, Whitehall.  Em baixo, o povo chorava e rezava por ele.  A cena foi registada no momento do acontecimento, tendo a gravura sido produzida e publicada na Holanda.  Dela se fez o seguinte relato:

“O cadafalso, como é bem sabido, estava adornado nesse dia por dois carrascos com máscaras; e quanto àquele que usou o machado, uma pergunta foi levantada, quem era ele?  O público parece ter sido mantido na ignorância nesta altura dos acontecimentos; se tivesse sido de outro modo, ele não teria escapado durante muito tempo às adagas dos monárquicos.  Imediatamente após a Restauração, o governo fez um esforço para descobrir quem era o verdugo mascarado; mas não se sabe se alguma vez o conseguiram.  William Lilly, o famoso astrólogo, tendo deixado cair a insinuação de que sabia alguma coisa sobre o assunto, foi examinado perante uma comissão parlamentar nessa altura, e deu a seguinte informação:

 No domingo após ao que se seguiu depois de Charles I ser decapitado, Robert Spavin, Secretário do Tenente General Cromwell, fez-se convidado para jantar comigo e trouxe Anthony Peirson e vários outros com ele para o jantar.  O seu principal discurso durante o decurso do jantar foi unicamente sobre quem tinha decapitado o Rei.  Um dizia que tinha sido um carrasco comum; outro, que tinha sido Hugh Peters; foram nomeados outros, mas nenhum foi conclusivo.  Assim que o jantar terminou, Robert Spavin levou-me para a janela virada ao Sul.  Diz ele, “Estes estão todos enganados; não disseram o nome do homem que fez o ato:  foi o Tenente Coronel Joyce.  Eu estava na sala quando ele se vestiu para a função – fiquei atrás dele quando ele a levou a cabo – quando acabou, voltei a entrar com ele.  Mais ninguém sabe disto além do meu senhor (viz. Cromwell), o Comissário Ireton e eu”. “Mr. Rushworth também não o sabe”?, disse eu.  “Não, ele não sabe”, diz Spavin.  A mesma coisa me foi frequentemente relatada por Spavin desde então, quando estávamos sozinhos.  Mr. Prynne fez, com muita cortesia, um relato sobre isto na Câmara”.

Conta-se uma história a respeito de uma tal Miss Russell, bisneta de Oliver Cromwell, que era dama de companhia da Princesa Amelia, filha de George II; estando ocupada nas suas funções num dos aniversários da decapitação, o Príncipe de Gales entrou na sala e interpelou-a:

“Que vergonha, Miss Russell!  Por que razão não está na igreja, prostrada em prantos e lamentos pelos pecados cometidos neste dia pelos nossos antepassados?

 Ao que Miss Russell respondeu:

“Senhor, para uma descendente do grande Oliver Cromwell, é humilhação suficiente ter a função de pegar na cauda da vossa irmã”! – Rede’s Anecdotes, 1799.

 ________________________________________

Entre os almanaques mais conhecidos mundialmente, encontra-se o que Benjamin Franklin publicou em 1733, na cidade de Filadélfia, sob o nome fictício de Richard Saunders.  Ficou conhecido como Poor Richard’s Almanac e a sua edição foi mantida por Franklin durante cerca de vinte e cinco anos.

Esta obra é apresentada no mesmo volume dos Elementos da Arte da Astrologia de Al-Biruni.

ISBN 972-8861-07-9
DEPÓSITO LEGAL Nº 220615/0

α

Tetrabiblos de Claudius Ptolomeus
VIDA E OBRA

“Eu sei que sou mortal e a criatura de um só dia;
mas, quando perscruto o conjunto dos círculos giratórios das estrelas,
os meus pés deixam de tocar na terra
e, lado a lado com o próprio Zeus, sacio-me
de ambrosia, o alimento dos deuses.”

“O divino Ptolomeu” como é apelidado por Hephaestion de Tebas, terá nascido entre o ano 85 e 100, e morrido entre 165 e 178 em Alexandria.  O local do seu nascimento tem sido atribuído a Tolemada Herméia, segundo Theodore de Melitê a Ptolomaïs e, segundo a obra do sec. XI de Abulwafa, a Pelusium.  O mesmo autor refere que viveu até aos 78 anos.  O próprio Ptolomeu nos diz que as suas observações astronômicas foram feitas a partir do paralelo de Alexandria, o que nos leva a crer que esse tenha sido o seu local de residência, apesar de Olympiodorus, no sec. IV, preservar a tradição de que durante 40 anos as suas observações terão sido feitas a partir de Canopus, a 20 quilómetros de distância, e em cujo templo erigiu uma estela votiva.  A sua primeira observação registada no Almagesto foi feita em 127 e a última em 151, o que nos leva a concluir que a sua vida terá decorrido aproximadamente entre 100-178, durante os reinados de Trajano, Adriano, Antonius Pius e Marcus Aurelius.

 Mas, se por um lado a sua obra contém pouca informação biográfica, por outro transformou o seu nome na referência suprema em astronomia, geografia e astrologia, desde a sua época até à Renascença.  Por ela sabemos que filosoficamente, adotou uma posição Aristoteliana, evidenciando conhecer a obra dos seus predecessores, de Menelaus nas matemáticas, de Hiparchus na astronomia, de Marinus de Tiro na geografia, de Didymus na música e de Posidonius na etnologia astrológica e nos argumentos pelos quais a astrologia era defendida.  Bebeu livre e abertamente de todos eles, sistematizando a matéria com que lidava, uma característica particularmente evidente no Tetrabiblos.

São-lhe atribuídas, com ou sem razão, 14 obras:

– O Almagesto ou Syntaxis Mathematica, em 13 livros, o grande tratado sobre astronomia.

– Sobre as Aparições das Estrelas Fixas e uma Coletânea de Prognósticos.

– Sobre a Hipótese Planetária.

– Tábua de Reinados, uma tábua cronológica dos reinados.

Sobre a Música, em três livros.

– O Tetrabiblos ou Quadripartitum.

– De Analemmate, a descrição de uma esfera sobre um plano.

– O Planisphaerium.

– O tratado sobre Óptica, em 5 livros e de cuja autenticidade se tem duvidado.

– O Centiloquium, uma colectânea de aforismos astrológicos.

– A Geografia.

– As Tábuas Astronómicas Instantâneas.

– O Esquema e Manipulação das Tábuas Instantâneas.

– Um pequeno tratado sobre a teoria do conhecimento e a alma.

O Tetrabiblos ou Quadripartitum, também chamado, em alguns manuscritos “Tratado Matemático em Quatro Livros” e noutros “Prognósticos endereçados a Ciro” considerado por alguns como um nome fictício e por outros como um médico perito em astrologia, é um tratado sistemático em astrologia, palavra que, para Ptolomeu, significava “prognóstico através da astronomia”.  A dúvida que surgiu mais tarde sobre a autenticidade desta obra, baseada na dificuldade de certos estudiosos em aliar a astronomia à astrologia, não teria qualquer fundamento no sec. II, época em que o triunfo da astrologia era total.  Quase todos acreditavam nela, do imperador ao mais humilde escravo e, após sobreviver à crítica da Nova Academia, foi defendida pela poderosa Doutrina Estoica.  A sua posição foi fortalecida pela prevalência das religiões estelares e solares por todo o mundo, e acabou por captar as ciências como a medicina, a botânica, a mineralogia, a química e a etnografia.  Esta situação prolongou-se pela Renascença fora.  Regiomontanus, Copernicus, Tycho Brahe, Galileo, Kepler e Leibnitz praticavam a astrologia ou apoiavam a sua prática.  Portanto, o fato de um cientista como Ptolomeu ter acreditado na astrologia ou escrito sobre ela não teria constituído uma incongruência, além de que, nas suas opiniões filosóficas, na sua linguagem e na sua astronomia, a obra está em total concordância com as obras Ptolomaicas cuja autenticidade nunca foi questionada.

Apesar do Tetrabiblos gozar da autoridade de uma Bíblia entre os autores astrológicos durante mais de mil anos, o seu texto grego só foi impresso três vezes, e não o voltou a ser desde o sec. XVI até à edição de 1940.

– A primeira edição, da autoria de Joachim Camerarius, foi impressa por Froben em Nuremberga em 1535 em quarto.  Além do texto grego, contém a tradução latina de Camerarius dos Livros I-II e de partes dos Livros III-IV, assim como as suas notas sobre os Livros I-II.

– A segunda edição, também por Camerarius, em que este diz ter corrigido muitos erros do texto e em que utiliza um ou mais manuscritos adicionais, foi impressa por Joannes Oporinus em octavo em Basileia em 1553.  Esta contém o texto grego e uma tradução latina de Melanchthon.

– Fr. Junctinus incluiu o texto grego do Tetrabiblos no seu Speculum Astrologiae, cuja segunda edição, em dois volumes in folio, surgiu em Leyden em 1581.

A tradução do Tetrabiblos mais antiga é a versão árabe do sec. IX, da autoria de Ishaq ben Hunein, a partir da qual as traduções latinas de Plato Tiburtinus, em 1138 e de Aegidius de Thebaldis em meados do sec. XIII, cujas primeiras edições impressas surgem em 1484, se tornaram no principal veículo pelo qual o Tetrabiblos se tornou conhecido na Europa Ocidental, até à primeira edição do texto grego.  Após a primeira tradução latina a partir do grego, da autoria de Camerarius, surge a de Antonius Gogava, editado pela primeira vez em Louvain em 1543, que é a versão utilizada por Hyeronimus Cardanus no seu elaborado comentário, publicado no sec. XVI.  Depois da tradução de Melanchthon em 1553 que, como foi dito, é uma das três que apresenta o texto grego, surge uma tradução inglesa por John Whalley, publicada em 1701 e, novamente, em 1786, apresentando todos os erros e obscuridades que desgraçavam a anterior.  Ptolomeu não é fácil de traduzir com precisão e, apesar da versão de Whalley ser pior do que as outras, todas elas mostram uma certa tendência para encobrirem as dificuldades com frases polidas e reservadas.

A importância e a popularidade do Tetrabiblos é evidenciada pelo número considerável de comentários que podemos deduzir terem existido na antiguidade; além do de Pancharios, cuja obra se perdeu, à excepção de algumas citações, sobreviveram três tratados, editados por Hieronymus Wolf e publicados com traduções latinas in folio em Basileia em 1559.  São eles:

– Um comentário anónimo atribuído por alguns a Proclus.

– Uma introdução, que se atribui a Porfírio, apesar de não haver a certeza deste ser o seu autor.

– Os escólios de Demophilus, que não voltaram a ser publicados, mas que podem ser encontrados em vários manuscritos.

Mas a Paráfrase, atribuída a Proclus, cujo manuscrito do sec. X é mais antigo do que qualquer dos do Tetrabiblos, e cuja primeira edição surgiu em Basileia em 1554 com um prefácio de Melanchthon, é o documento que mais importância tem para o estudo desta obra, além do já mencionado comentário de Hieronymus Cardanus.

Ptolomeu era um autor difícil até para os antigos; a existência da Paráfrase e os frequentes deslizamentos do comentador anónimo atestam-no.  Demonstra uma predileção pelas frases longas e complicadas e apresenta vários maneirismos, entre eles uma tendência para o modo infinito com o artigo e um quase teutónico hábito de acumular longas sequências de modificadores entre o artigo e o substantivo, o que resulta frequentemente em sequências de dois ou até três artigos.  Nesta obra, Ptolomeu revela um certo entusiasmo pelo assunto, mas seria impossível elogiar o seu estilo literário e a transparência da sua exposição, o que faz com que seja muito difícil dar ao seu texto uma clareza cristalina.

O final dos manuscritos do Tetrabiblos tem constituído um problema para todos os estudiosos.  Num grupo a conclusão é totalmente inexistente e, ou foi deixada assim ou deu-se-lhe uma terminação que é idêntica à Paráfrase de Proclus, e que é certamente espúria; noutro, surge um final consideravelmente mais longo do que o anterior, mas cujo significado é precisamente o mesmo, e que se encontra igualmente na versão árabe.  Se este final também não for genuíno, conclui-se que o final original do livro ter-se-á perdido tão prematuramente que estará ausente em todos os manuscritos, situação que não era invulgar em tempos idos, especialmente quando o primeiro livro existia em forma de codex.  É provável que o final dado nesta edição tenha sido escrito por Ptolomeu, mas como a questão se mantém indecifrável, são apresentados ambos.

ISBN 972-8861-03-6
DEPÓSITO LEGAL Nº 206919/04

α

Astrologia Cristã, de William Lilly

 O intuito desta colecção é a expansão do conhecimento astrológico, começando-se com a obra fundamental de William Lilly, que apresenta o seu método pessoal com as seguintes palavras:

“Foi com toda a retidão e sinceridade de coração, simples e honestamente que apresentei a arte, e não omiti nada de propósito que considerasse conveniente ou adequado, ou que pudesse de qualquer forma ajudar os seus jovens estudantes;  recusei os métodos de todos os autores anteriores e criei este de novo, tendo-o sempre achado tão fácil e cheio de sucesso que ainda nunca me encarreguei da instrução de ninguém que não tenha ficado bastante satisfeito e muito competente na arte, em menos tempo do que qualquer pessoa poderia esperar;  pois apesar de ainda não ter quarenta e seis anos de idade completos, e de ter estudado esta ciência apenas desde 1632, e de ter vivido seis anos depois dessa data na província, sei contudo que fiz mais discípulos nesta profissão do que todos os que professam esta arte em Inglaterra.”

 E, mais adiante:

“Se levasse em consideração o meu lucro pessoal, não precisaria escrever de todo; quem me poderia forçar?  A minha fortuna pessoal é suficiente; mas esta coisa a que chamamos o bem comum sempre foi e será a máxima que me guiará em tais atos”

Como estas obras são extremamente técnicas e de interesse apenas para aqueles que se dedicam ao estudo académico dos textos antigos, optou-se pela edição exemplar a exemplar, em resposta aos pedidos que venham a ser enviados.  Os materiais são de luxo e o encadernador e dourador foram escolhidos entre os melhores praticantes destas artes.

 – obra de 859 páginas, datada de 1647.  A tradução do original foi acompanhada e assessorada por Olivia Barclay, Q.H.P., mestra da tradutora de todas as obras desta Biblioteca, CMM, Q.H.P.  Mantém-se a numeração das páginas, assim como se respeitam os parágrafos, tornando possível ao estudante citar qualquer frase desta obra ao defender o seu julgamento face aos detentores da versão inglesa original.

WILLIAM LILLY, ESTUDANTE DE ASTROLOGIA
VIDA E OBRA

William Lilly foi o maior astrólogo inglês da sua época, uma época que constituiu o apogeu da astrologia inglesa desde sempre. Nasceu a 1 de Maio de 1602, na aldeia de Diseworth em Leicestershire, e morreu a 9 de Junho de 1681, tendo sido enterrado a curta distância do altar da igreja paroquial de St. Mary’s em Walton-on-Thames, com uma lápide tumular de mármore mandada instalar pelo seu amigo Elias Ashmole, Windsor Herald e Controller of the Excise, e ostentando um elaborado epitáfio da autoria de George Smalridge, futuro Bispo de Bristol, que o identifica claramente como astrólogo, evidência da aprovação de que gozou durante toda a sua vida.

Foi contemporâneo e rival do astrólogo monárquico George Wharton (a quem salvou de execução em 1649) e do arqui-católico John Gadbury, e manteve relações cordiais com John Booker, autor de um almanaque de grande circulação, com Nicholas Culpepper, o ervanário astrológico e republicano, e com os astrónomos-astrólogos Vincent Wing e Jeremy Shakerley.

Durante a segunda parte do sec. XVII, deram-se mudanças dramáticas em Inglaterra, como resultado da guerra civil de 1642–49 e da decapitação de Charles I, da Commonwealth, do Protetorado de Cromwell e da Restauração de Charles II (1660).

Lilly era uma figura bem conhecida e por vez influente entre alguns dos principais promotores destes acontecimentos. Parece ter tido alguma simpatia pessoal pelo Rei, mas as suas tendências políticas eram vincadamente parlamentaristas. Os seus almanaques tornaram-se rapidamente num utensílio valioso no arsenal propagandístico dos Cabeças Redondas, sendo consequentemente detestados pelos Monárquicos; predisse a derrota destes últimos em Naseby em 1645 e em 1648 foi levado a Colchester para incentivar os sitiantes Parlamentaristas com garantias astrais de sucesso: corretamente, como se verificou. Com a flexibilidade e a abertura de espírito que lhe era característica, deu no mesmo ano conselhos astrológicos secretos a Charles I sobre a forma como o Rei poderia escapar da sua clausura. Os amigos de Lilly incluíam muitos independentes laicos importantes, militares e sectários radicais, desde moderados como Bulstrode Whitelocke, Guarda-Selos Real, até abolicionistas como Richard Overton. Entre os seus inimigos, salienta-se o clero Presbiteriano, para quem a astrologia era coisa do demo e se queixava de que algumas pessoas “depositam mais confiança em Lilly do que em Deus,” o que o levou a ser investigado em 1645 e em 1652, e a ser submetido por duas vezes a um breve período de encarceramento.

Em 1665, Londres foi atingida pela pior peste em muitos anos e em 1666 o Grande Fogo de Londres destruiu a cidade medieval, resultando num prejuízo avaliado em 10 milhões de libras e deixando cerca de 100.000 pessoas sem casa. Lilly foi imediatamente investigado pelo comité parlamentarista, cujas suspeitas tinham sido despertadas pelas suas aparentes predições do Fogo em 1648, e especialmente por duas gravuras na sua Monarquia ou Não Monarquia (1651). Uma delas mostrava corpos estendidos, envoltos em mortalhas, e coveiros a trabalhar; a outra mostrava homens lutando para apagar um fogo, sobre os quais pendiam dois gêmeos: o símbolo do signo de Gémeos, há muito associado pelos astrólogos com a cidade de Londres. A cópia pessoal de Lilly contém as suas anotações “mortalitas circa 1665” debaixo da primeira, e “forsan (talvez) 1666 vel (ou) 1667” ao lado da última; mas, face ao comitê, ele teve a sensatez de negar ter previsto o ano do Fogo, ou até de o ter tentado prever. Logo após a Restauração em 1660, voltou a ser investigado em relação à morte de Charles I e, em particular, à identidade do regicida.

O primeiro almanaque de Lilly, Merlinus Anglicus, surgiu em 1644, tornando-se num sucesso imediato. Em 1650 dizia-se que vendia quase 30.000 cópias anuais, enquanto os livros de anotações que lhe sobreviveram mostram que entre a década de 1640 e a de 1660, a média da sua prática astrológica era de quase 2.000 casos por ano; entre os seus clientes, encontravam-se desde membros da aristocracia e da nobreza (talvez uma sexta parte do total) até soldados, comerciantes e lavradores abastados, acabando nas criadas de servir (estas últimas totalizando quase um terço), para além das já mencionadas figuras políticas.

Lilly era consultado por todas estas pessoas sobre uma variedade surpreendente de questões pessoais, políticas e militares, sendo a mais comum das perguntas, depois de anotadas as circunstâncias específicas, “Quid agendum?” (O que deve ser feito?). Pela resposta a estas perguntas, cobrava um montante correspondente aos recursos do querente: desde cerca de dois shillings e seis pence (incluindo conselhos médicos grátis aos pobres) até 40 ou 50 libras aos abastados. Em 1662, estava dado como ganhando 500 libras per annum: uma soma confortável, nessa época, e que o colocava bem próximo do topo da escala social.

A Astrologia Cristã de Lilly, editada em 1647 e reeditada em 1659, tornou-se no mais cabal, detalhado e autorizado compêndio de astrologia que até então surgiu em inglês, não tendo sido ultrapassado até aos nossos dias. A sobejamente conhecida epístola “Ao Estudante de Astrologia” é um modelo de piedade e de prudência política que oferece conselhos humanos ao profissional consultado; nela Lilly afirma a equação de conhecimento e de consecução espiritual: “quanto mais pio fores e mais próximo de Deus estiveres, mais puro será o julgamento que darás”

Na gravura no frontispício das edições originais, Lilly está sentado com os acessórios técnicos e simbólicos da sua arte ante si. No céu, vê-se uma secção do zodíaco com uma conjunção de Júpiter e de Saturno na cúspide de Peixes-Carneiro, uma referência às especulações, já publicadas por Kepler, de que a Natividade de Cristo teria sido anunciada por uma conjunção destes planetas, nesse ponto do zodíaco, em 7 a.C. À direita de Lilly, um pastor leva sete ovelhas na direção de um rio. Na outra margem, um pescador; à distância, uma igreja e o aglomerado de uma vila ou aldeia. Parece tratar-se de uma alegoria do Pastor dos Homens e do Pescador de Almas, representados sob o símbolo Carneiro-Peixes. Lilly aponta com o indicador esquerdo para a 3ª cúspide de um horóscopo em branco. “Aetatis 45” indica a sua idade. Neste retrato, em que as estrelas “Non cogunt” (não compelem) surge a imagem da natureza sagrada da revelação astrológica e da obra que o astrólogo se propõe realizar. O seu Deus permitia as interpretações estelares de inspiração divina mas proibia o orgulho da certeza insolente. Esta percepção religiosa e divinatória é fundamental para Lilly que nunca mostrou o mínimo interesse numa astrologia científica reformada, do tipo então defendido pelo seu velho opositor John Gadbury. E, ao contrário do único astrólogo que poderia ser considerado como seu sucessor, John Partridge (1664–1715), nunca se perdeu em conjecturas sobre se a sua astrologia era racional ou irracional, mágica e do oculto. Não deixando que o estudante se perca em especulações antes de ter desvendado a arte, a “Astrologia Cristã” apresenta-se sem qualquer carga obscura e subsiste como um compêndio realista e prático, à excepção da única referência concreta a assuntos mágicos, que ocorre nos considerandos sobre a questão do feitiço da 12ª casa. Os “Remédios naturais contra a feitiçaria” que são utilizados assim que a bruxa é localizada na horária, são definidos por Lilly a partir da sua experiência pessoal.

Já na sua autobiografia, publicada em 1715 por Elias Ashmole, com duas edições nesse ano, seguidas por outras em 1721, 1774, 1822, 1826 e 1974, Lilly afirma que as suas predições de sucesso, como a do Fogo de Londres, foram “realizadas através da Chave Secreta da Astrologia, ou da Astrologia Profética.” “Não obtive este conhecimento nos livros, ou em qualquer manuscrito com que me tenha deparado, foi deduzido da cabala que está contida na astrologia…” (XV). Em 1634 ou 1635, ensinou a John Hegenius, Doutor Físico, o uso de talismãs e das varinhas de vedor: “criamos vários selos para bom uso; dei-lhe a verdadeira chave dos mesmos, viz. ensinei-lhe as suas várias formas, caracteres, palavras e, por último, como lhes dar vida e que número, ou números, eram apropriados para cada planeta”. A astrologia é a chave para este mundo: “Aqueles que estudarem as curiosidades acima mencionadas, se não forem muito bem versados na astrologia, raramente atingirão os fins que desejam” (XIX).

Lilly registra um caso notável do seu sucesso na magia, afirmando seguidamente: “Mas comecei a ficar receoso de tais práticas e, desde então, queimei os meus livros que ensinavam estas curiosidades; porque, depois disso, fiquei melancólico, muito afligido pela melancolia hipocondríaca, tornando-me cada vez mais magro e seco, e piorando a cada dia” (IX). No decurso de 1635 sentiu-se tão mal que teve necessidade de abandonar Londres e mudar-se para Surrey em 1636, “onde, até setembro de 1641, vivi entre aqueles que posso chamar os mais rústicos de todos os seres vivos”. A razão de ser para estas circunstâncias encontra-se no horóscopo natal de Lilly, no obscuro posicionamento de Saturno na 8ª casa em Escorpião, em oposição ao Sol. A localização do Sol em Touro sugere o ambiente rural em que Lilly recuperou lentamente as forças.

Em 1670, obteve uma autorização do Arcebispo de Canterbury para praticar a medicina, uma prática que ele oferecia tanto aos pobres da paróquia como aos seus clientes com maiores capacidades financeiras. Entre os outros médicos astrológicos bem conhecidos contavam-se Richard Napier (1559–1634), o seu sobrinho Sir Richard (1607–1676), e William Salmon (1664–1713). Em 1677, conheceu o astrólogo Henry Coley (1633–1707), que se tornou seu amanuense, ficando com o almanaque de Lilly e com a sua clientela depois da morte deste último.

Nos anos que se seguiram à sua morte, a astrologia foi cada vez mais rejeitada, ficando limitada a crenças relativamente simples centradas na Lua, nos equinócios, solstícios e eclipses. Durante o sec. XVIII, um punhado de praticantes manteve viva a astrologia judicial, do tipo representado por Lilly. No sec. XIX, foi ressuscitada pelas mãos de “Raphael” e “Zadkiel”, mas estes profetas astrológicos defrontaram-se com muito mais ignomínia do que aprovação.

O bastião da cultura superior, da ciência e das universidades permaneceu, e permanece, por ocupar.

A utilidade do primeiro livro

  “Os cidadãos de Londres têm a astrologia em pouca conta; há numa daquelas minhas epístolas palavras significativas, e às quais o tempo os tornará sensíveis (pois não foram escritas em vão), sendo agora demasiado tarde, actum est.  Quanto ao trabalho entre mãos, viz. o livro seguinte, está dividido em três tratados; o primeiro dos quais ensina ao estudante como começar o seu trabalho com muita facilidade e segundo um novo método, ensina-lhe o uso das Efemérides, da Tábua de Casas, etc.  Dá-lhe a conhecer a forma de levantar uma figura do céu, como lá colocar os planetas, como retificar os seus movimentos para a hora da sua figura; revela a natureza das casas, dos planetas, dos signos do zodíaco, a sua divisão e subdivisão, as suas várias propriedades, os termos da arte e tudo o mais que é necessário ao aprendiz saber antes de entrar num julgamento.

 …. Resta-me dar a cada autor o que lhe é devido e dizer simplesmente a qual deles estou devedor pelos assuntos em que me ajudaram na parte introdutória; na verdade, o método é meu, não é tradução; contudo conferi as minhas próprias notas com Dariot, Bonatus, Ptolomeu, Haly, Etzler, Dietericus, Naibod, Hasfurtus, Zael, Tanstettor, Agrippa, Ferriers, Duret, Maginus, Origanus, Argol.”

Precauções para jovens estudantes

“Em primeiro lugar, que seja muito exato no conhecimento de como usar as suas efemérides, e no levantar do esquema do céu para todas as horas do dia ou da noite, e em como reduzir os movimentos dos planetas para a sua hora quando houver necessidade, e no conhecimento distinto e imediato dos seus símbolos.

Em segundo lugar, desejaria que o estudante tivesse um conhecimento muito perfeito da natureza das casas, de forma a melhor descobrir a que casa pedir julgamento sobre a pergunta apresentada, não vá confundir uma coisa com a outra por falta de verdadeira compreensão.

Em terceiro lugar, gostaria que fosse capaz de determinar e de perceber bem as debilidades e fortalezas de todos os planetas, tanto essenciais como acidentais.

 Em quarto lugar, deve ser perito na definição da natureza do significador, o que ele significa naturalmente e acidentalmente, e como variar a sua significação conforme houver necessidade.

Em quinto lugar, que perceba bem a natureza dos signos, as suas propriedades e qualidades, e que forma, feitio e condições são por eles naturalmente significadas, e o que resulta da presença física de um planeta em qualquer deles.

Em sexto lugar, que seja hábil quanto ao aspecto e à descrição que cada planeta designa e como variar o seu aspecto conforme estão colocados por signo e casa, ou aspectados pela Lua ou qualquer outro planeta.

Em sétimo lugar, deve ler frequentemente os termos da arte e tê-los frescos na sua memória, especialmente o vigésimo e o vigésimo primeiro capítulo do primeiro livro”.

O Segundo livro

 “A segunda parte deste tratado, que julga as perguntas horárias, é muito vasta, e excedeu o seu tamanho devido muito para além das minhas intenções.  Na elaboração desta obra, aconselhei-me com Bonatus, Haly, Dariot, Leupoldus, Pontanus, Avenezra, Zael.  Examinei os manuscritos dos antigos e reverendos professores desta arte que viveram muito antes destes tempos corruptos (pois aos vulgares professores agora residentes nesta cidade não estou nada devedor);  e apesar de não ter sido pequeno o meu problema, ao ver a discrepância de julgamento entre eles e os mais antigos autores publicados, reconciliei contudo com alguma dificuldade os seus desacordos, e reformei e corrigi aquilo que poderia levar o leitor a um erro;  pois na verdade os escritos dos nossos antepassados, na língua em que apresentaram os seus pensamentos, eram fortes e sólidos, mas a simplicidade daqueles que se encarregaram da sua tradução era muita e deu origem a erros, pois aqueles que tentaram traduzir os autores para o Latim ou para qualquer outra língua que consideraram adequada, não percebiam a arte nem os seus termos;  de forma que deixaram daquelas suas obras uma má versão para a posteridade, como qualquer um pode ver na tradução do que nós chamamos o Judicium in Novem Judiciis, etc., e noutras peças de Alkindus, uma das quais me foi recentemente dada por um erudito cavalheiro, com a mesma deficiência na tradução.

Neste segundo livro não omiti nada que me parecesse útil e, se a minha própria forma de julgamento agradar a alguém, sendo ela um tanto diferente da dos antigos, poderá fazer uso dela em muitos capítulos.  Ilustrei cada casa com uma ou mais figuras e nelas mostrei o método de julgamento, o qual considerei muito conveniente para os aprendizes, sendo a minha intenção apenas o desenvolvimento desta arte e o tornar até o menos dotado capaz dela.”

O terceiro livro

“No terceiro livro poderão apreciar a completa Arte das Natividades, a qual tornei simples e significativa; parte do método e muita da matéria tomei-a de Leovitius, que foi o primeiro a metodizar a arte das natividades, antes dele extremamente deficiente nesse ponto; onde ele não foi copioso, suplementei-o ou ampliei-o eu a partir de Origanus, Junctine, Pezelius, Naibod, Cardan, Garceus, Schonerus, Albubater, Montulmo, Judeus, Ptolomeu, Lindholt.

Talvez alguns me acusem de divergir de Ptolomeu; confesso que o fiz, e que não fui o primeiro, nem terei sido o último, pois sou mais guiado pela razão e pela experiência do que pela única autoridade de um qualquer homem, etc.  Inseri muitos julgamentos meus e poderia juntar muitos mais; mas quem sou eu, que sou todo erros, para contradizer os ditos de tantos homens sábios, cujos conhecimentos e esforços eu tanto aprecio e respeito.”