Astrologia e Astrólogos

Biblioteca Sadalsuud – I

Garde le Silence Le Silence te Gardera

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ABRAHAM BEN MEIR IBN EZRA (1089-1164)

“Não quero ter mais pátria que o mundo, e não acabo de acabar comigo não ser português”.
  (Padre António Vieira)

Tal como o Padre António Vieira, outro erudito de origem hebraica pela bisavó materna, forçado a evitar a terra natal cinco séculos mais tarde devido à perseguição religiosa instaurada pela Inquisição, que o acusava de ter sido batizado de pé, apesar das provas em contrário, também Abraham Ibn Ezra levou uma vida de judeu errante cujo percurso nos conta a história das perseguições contra o seu povo e as vicissitudes por que este passou durante a Alta Idade Média.

A sua obra desenvolveu-se em muitas áreas, englobando a exegese bíblica, a gramática hebraica, a poesia nacional e litúrgica, a filosofia, a matemática, a geometria, a astronomia e a astrologia.  Entre os judeus, é principalmente conhecido e admirado pelo seu comentário à Bíblia e pela sua poesia, mas no mundo cristão europeu tornou-se conhecido pelos seus escritos astrológicos e matemáticos.

Nasceu em Tudela, na Espanha árabe, numa época em que os judeus gozavam de grande esplendor económico, científico e cultural e foram fundamentais na transmissão da ciência e filosofia árabes para a Europa cristã.  Era a época das cruzadas e das guerras entre muçulmanos e cristãos em Espanha, no meio das quais as comunidades judaicas foram apanhadas, sofrendo perseguições tanto no Norte de África como na própria Espanha, circunstâncias que influenciaram grandemente a vida e obra de Ibn Ezra.

A sua vida de judeu errante foi devotada à busca de conhecimentos, à escrita dos seus livros e ao ensino dos seus estudantes, decorrendo sempre numa grande pobreza e na dependência da ajuda dos seus patronos.  Num dos seus poemas pessoais, diz ironicamente que na sua natividade as estrelas alteram o seu curso natural para lhe trazerem a desventura, de tal forma que se decidisse vender velas, o Sol nunca se poria, e se decidisse vender mortalhas, ninguém haveria de morrer.

Casou cedo com a filha do célebre poeta e filósofo judeu, Yehuda HaLevi, de quem teve um filho, Itz’hak, que se converteu ao islão em Baghdad.  As viagens de Ibn Ezra levaram-no várias vezes para o Sul, às regiões muçulmanas e às comunidades judaicas do Norte de África, tendo visitado o Egito e a Palestina.  Em 1140 deixa definitivamente a Espanha e dá início às suas viagens pelas comunidades judaicas da Itália, França e Inglaterra, a quem transmite as ciências islâmicas às quais estas comunidades não tinham acesso.  Em 1146, em Lucca, perto de Roma, na segurança que lhe era proporcionada sob os decretos dos Papas e onde sobrevivia graças à celebridade já alcançada e à prática da astrologia, escreveu a maior parte dos seus tratados astrológicos, que algumas fontes dizem ter sido escritos em Beziers, onde chegou em 1147.

Em 1152 foi para a Provença onde, recuperando de uma doença séria que o atingiu aos 64 anos, jurou escrever o seu comentário para a Bíblia numa versão alongada.  Aos 70 anos decide ir para Inglaterra onde é muito bem recebido e onde compõe importantes obras.  A sua morte dá-se aos 75 anos, no ano de 1164, sendo as versões contraditórias quanto ao local:  Roma, Calahora ou Inglaterra.  Parece ter predito a sua própria morte, a avaliar pela frase escrita por um dos copistas do seu Comentário sobre a Torah no final do livro:

“Na segunda feira, no Primeiro de Addar I, no ano 4924, Ibn Ezra morreu, com a idade de setenta e cinco anos, e escreveu para si mesmo no ano da sua morte pela sua própria mão “Avraham tinha setenta e cinco anos quando saiu debaixo da ira de Deus”.  A data mencionada corresponde a 27 janeiro 1164 do calendário Juliano.

A sua obra astrológica consta de nove tratados astrológicos de sua autoria e a tradução de dois outros do árabe para o hebreu, e abrange todos os ramos da astrologia.  Demonstra conhecer as várias teorias e fontes dos seus antecessores, mas parece seguir o Tetrabiblos de Ptolomeu.  Alguns dos seus livros foram escritos duas vezes, numa versão curta e noutra alongada.

1 – RE’SHIT HO’CKMAH (O Princípio da Sabedoria) – Tratado de astrologia em dez capítulos, descrevendo os signos tropicais e siderais, as estrelas fixas, os decanatos e as imagens neles contidas, a divisão do círculo e as casas, os atributos dos planetas e luminares, os aspectos, a força relativa dos planetas, os seus aspectos e uma extensa lista de Partes Árabes.  É, sem dúvida, o mais célebre dos seus livros, tendo sido traduzido do hebreu para o francês em 1273 por Hagin o Judeu.  Foi feita outra tradução do original hebreu para o catalão por Martim de Osca, de Aragão.  Lê-se no seu início:  “O princípio da sabedoria é o temor a Deus, pois é ele a instrução.  Pois quando um homem não segue os seus olhos e o seu coração para satisfazer o seu desejo mundano, então a sabedoria habitá-lo-á.  Além disso, o temor a Deus protegê-lo-á das leis e dos decretos dos céus todos os dias da sua vida e, quando a sua alma se separar do seu corpo, o temor a Deus dar-lhe-á a eternidade e ele viverá para sempre”.

2 – SE’FER HÁ’TE’AMIM (O Livro das Razões) – Comentário e material adicional relativo aos tópicos do Princípio da Sabedoria, dirigidos àqueles que já dominam essa matéria.

3 – SE’FER HÁ’MOLADOT (O Livro das Natividades) – Um extenso debate sobre as casas do mapa, o destino do indivíduo dentro do coletivo, a influência relativa das circunstâncias em torno do nativo versus a sua natureza, a retificação do mapa pelo Nimodar, a determinação das datas dos acontecimentos pelos regentes das triplicidades, pelas firdárias, pelas idades de Ptolomeu, pelo método das Profecções e pelo Retorno Solar, e a conjugação das Profecções com o Retorno Solar nas observações anuais, mensais e diárias.

4 – S’EFER H’AME’OROT (O Livro das Luzes) – Astrologia Médica muito citada por Nicholas Culpeper no seu Julgamento Astrológico das Doenças.

5 – SE’FER HÁ’MIV’HARIM (O Livro das Eleições) – Astrologia Eletiva.  Se o nativo alcançará o resultado desejado elegendo uma data propícia para dar início a alguma ação.  A necessidade de considerar a natividade e o que fazer quando não é conhecida.  A identificação da casa que significa o propósito da eleição.  As várias considerações para cada casa e planeta no mapa da eleição.

6 – SE’FER HÁ’SHE’ELOT (O Livro das Perguntas) – Astrologia Horária.

7 – SE’FER HÁ’OLAM (O Livro do Mundo) – Astrologia Mundana.  As fórmulas matemáticas para o cálculo do máximo número possível de conjunções planetárias.  As conjunções Júpiter-Saturno.  Debate sobre a precisão dos cálculos do signo ascendente no momento da conjunção Júpiter Saturno e a hora da revolução solar anual.  O uso alternativo da hora da Lua Nova ou Cheia antes do ingresso em Carneiro.  Os períodos firdários dos astrólogos persas.  Menção do texto cabalístico “Sefer Yetsira”.  O signo regente de um país e a conjunção Marte-Saturno de Mashallah.  Sobre a interpretação dos eclipses de Ptolomeu, as fases e mansões lunares, etc.

8 – HE’ZIONOT RABBI AVRAHAM IBN EZRA SHE’HAZA AL SH’NAT 4914 LA’YE’TSIRA (Previsões Feitas para o Ano de 1154) – Astrologia Mundana baseada na grande conjunção de Júpiter-Saturno em Capricórnio no ano de 1166 que se avizinhava.

9 – MISHPATEI HÁ’NOLAD (Análise do Horóscopo de um Recém-nascido) – Tratado sobre como ler um horóscopo, determinação do Hyleg, a regra sobre não se ler o horóscopo antes do nativo ter 4 anos de vida, a direção do Hyleg para as datas críticas, o sucesso geral e a qualidade mental, além de observações sobre os progenitores.

10 – KLI HÁ’NE’HOSHET (O Tratado do Astrolábio) – Tratado de astronomia essencial para o cálculo dos mapas astrológicos.

11 – TA’AMEI LU’HOT AL-KHWARIZMI (Explicações para as Tabelas Astronómicas de Muhammad al-Khwarizmi) – Tradução do árabe para o hebreu, contendo uma introdução dos cálculos astronómicos hindus, uma comparação dos cálculos do Almagesto de Ptolomeu, uma discussão sobre o erro de precessão encontrado nos textos antigos na determinação da posição das estrelas fixas e constelações, etc.

12 – Um Livro por Mashallah sobre os Eclipses do Sol e da Lua – Tradução do árabe para o hebreu.

Há relatos de que Ibn Ezra tenha escrito um livro autobiográfico chamado Kohot Shnot há-Adam, no qual descreve a sua vida do nascimento à morte e lista os livros que escreveu.

Na obra notável que agora se apresenta, salientam-se os 120 aforismos fundamentais no julgamento de qualquer pergunta horária, assim como a descrição detalhada daquilo que é significado pelos regentes das triplicidades nas natividades, das regências das novenárias e duodenárias, para não falar do importante capítulo dedicado às Partes Arábicas.

ABRAHAM BEN EZRA
LIVRO DOS JULGAMENTOS DAS ESTRELAS DE ABRAHAM BEN EZRA
LIVRO INTRODUTÓRIO
ISBN: 972-8861-18-4
DEPÓSITO LEGAL: 232514/05

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AL BIRUNI

Abu Rayhan Muhammed ibn Ahmad al-Biruni nasceu um pouco antes do nascer do Sol, no dia 4 de setembro de 973, nos subúrbios da cidade de Kath (a Khiva atual), situada no rio Oxus, naquilo que era então o Principado de Khwarizm, o Uzbequistão atual.  Daí o seu nome: al-Biruni significa literalmente “o suburbano”.  Cedo se revelou um estudante e cientista de excepção que se parece ter interessado por todos os ramos do conhecimento, sobressaindo particularmente na astronomia, matemática, física, história e medicina.  Fluente no turco, persa, sânscrito, hebreu, siríaco e árabe, aos 20 anos já tinha escrito vários textos científicos muito aplaudidos e sabe-se que conversava e se correspondia com o seu contemporâneo ibn Sina (Avicena), cuja obra se tornou vastamente conhecida na Europa.

Quando Al Biruni tinha vinte e poucos anos, a dinastia reinante de Khwarizm foi derrubada pelo Emir Ma’mun ibn Muhammad da vizinha Gurganj.  Al Biruni procurou refúgio na corte do Sultão Nuh ibn Mansur, o senhor a que todos os príncipes da região prestavam vassalagem.  Aí conheceu o Emir Qabas al-Ma’ali que tinha sido temporariamente afastado do seu próprio principado.  Em 988 o Sultão restituiu o poder a Qabas que levou Al Biruni consigo para Gurgan, no Mar Cáspio, onde permaneceu durante vários anos.  Durante este período concluiu a sua primeira grande obra, A Cronologia das Nações Antigas.

Em 1009, Al Biruni regressou a Khwarizm, onde ocupou uma posição ilustre como conselheiro e oficial da corte junto dos sucessores de Ma’mun, o usurpador.  Em 1017, o segundo filho de Ma’mun foi assassinado por súbditos rebeldes e o seu cunhado, Mahmud de Ghazna, invadiu Khwarizm para se vingar.  Os membros sobreviventes da corte de Khwarizm foram levados contra vontade para a fortaleza de Mahmud em Ghazna, no Afeganistão, e Al Biruni foi levado com eles, juntamente com o matemático ibn Iraq e o médico ibn Khammar. Mahmud tinha grande interesse em atrair gente erudita para Ghazna para aumentar o prestígio da sua corte, e estava preparado para usar de quaisquer meios para os conquistar.  Avicena tinha fugido da região vários anos antes ao receber um dos “convites” ameaçadores de Mahmud.  No entanto, Al Biruni parece ter-se sentido muito feliz em se instalar em Ghazna, onde era venerado pela sua grande erudição e onde exerceu as funções de astrólogo da corte de Mahmud e dos seus sucessores.

Entre 1017 e 1030, viajou extensivamente na Índia, coligindo material para o seu registo monumental da história, costumes e crenças do subcontinente.  Índia foi a sua obra que mais aplauso gerou durante a sua vida.  Produziu também uma grande obra sobre astronomia, conhecida como o Cânone Masúdico, dedicada ao filho de Mahmud, Ma’sud.  Diz-se que Ma’sud o recompensou com um elefante carregado de prata, mas que Al Biruni o devolveu ao tesouro real.  Como obra técnica sobre a astronomia medieval, o Cânone é notável pela aprovação de Al Biruni sobre a teoria de que a Terra gira sobre o seu eixo, o que sugere que os astrônomos árabes eram mais críticos sobre as teorias de Aristóteles e de Ptolomeu do que se supõe frequentemente.  Ma’sud conferiu-lhe uma pensão que lhe permitiu devotar o resto da sua vida aos estudos científicos e à sua obra literária.  Além dos Elementos da Astrologia, escreveu livros importantes sobre a medicina, geografia e física, e traduziu para o sânscrito o Almagesto de Ptolomeu.  Morreu aos 75 anos em Ghazna, no dia 13 de dezembro de 1048.

O Livro de Instrução dos Elementos da Arte da Astrologia foi escrito por Al Biruni para uma dama, Rayhanah, que fazia parte da corte Khwarizm levada por Mahmud para Ghaznah em 1017.  Pouco se sabe dela para além daquilo que nos é dito por R. Ramsey Wright:  “distinguia-se entre as mulheres orientais pela sua sede de conhecimento científico e pela rara distinção de lhe ter sido dedicado um livro”.

As instruções de Al Biruni a Rayhanah são verdadeiramente abrangentes.  Segundo Wright, os Elementos “podem ser considerados como uma cartilha da ciência do sec. XI”.  Começam com secções sobre geometria e aritmética que levam a uma completa exposição da astronomia Ptolomaica que inclui uma detalhada descrição do uso do astrolábio.  A isto seguem-se secções sobre geografia e cronologia, pois Al Biruni insiste em considerar que ninguém se pode intitular astrólogo sem um bom conhecimento destas ciências.  Nesta edição omite-se essa parte, apresentando-se apenas a secção astrológica que começa na página 210.

São cinco as divisões da astrologia judicial por ele reconhecidas.  A primeira, a astrologia “natural” diz respeito à meteorologia, aos tremores de terra, às inundações e a todas as outras “vicissitudes e desastres da natureza”.  A segunda é a astrologia mundana, que diz respeito à ascensão e queda de reinos, batalhas, revoluções, etc.  A astrologia natal individual constitui a terceira divisão na qual Al Biruni, como Ptolomeu, revela ter perfeita noção de que as considerações sobre a hereditariedade e o ambiente modificam quaisquer indicações astrológicas.  A quarta divisão “tem a ver com todas as atividades e ocupações e é fundamentada nos inícios ou origens”.  Esta incluiria a astrologia horária e a elecional, seguindo-se a quinta divisão em que a astrologia alcança um ponto que ameaça transgredir os seus próprios limites e em que o astrólogo está num lado e o feiticeiro no outro, e entra-se num campo de presságios e adivinhações que não tem nada a ver com a astrologia, apesar de se manter a sua referência às estrelas.

A imagem da astrologia árabe que emerge é muito semelhante ao modelo grego tal como é exemplificado no Tetrabiblos, apesar de haver atribuições e correspondências diferentes que refletem um ambiente cultural distinto.  Al Biruni faz frequentes comparações com as práticas indianas, registando a sua desaprovação sempre que ofendem aquilo que considera correto.  A sua extensa lista das chamadas “partes arábicas” foi tirada de Abu-Ma’shar, apesar do conceito ser muito mais antigo.  Esta era uma técnica popular entre os astrólogos árabes que lhes ficou intimamente associada.  Al Biruni lista mais de 150 partes ou lotes, embora ainda se lamente da “impossibilidade de enumerar os lotes que foram inventados para a solução das perguntas horárias, os quais aumentam de número todos os dias”. O conceito das “mansões lunares” ou “estações da Lua” é puramente árabe, apesar de nisto Al Biruni se limitar apenas à sua descrição astronómica.  É a dimensão astronómica da astrologia de Al Biruni que a distingue dos textos clássicos, refletindo as vantagens e refinamentos da ciência árabe.  O seu debate das subtilezas da interpretação resultantes das diferentes fases das órbitas planetárias ultrapassa grandemente o nosso atual entendimento do que são as “dignidades acidentais”.

As obras de Al-Biruni não foram traduzidas para o latim pelos tradutores do sec. XII, mas quatro delas existem atualmente em tradução inglesa:

 – The Chronology of Ancient Kingdoms, traduzida e editada por C. Edward Sachau em Londres, 1879.

 –  Alberuni’s India, traduzida por Edward C. Sachau em Londres, 1888.

 – Al-Biruni on Transits, traduzida por Mohammad Saffouri e Adnan Ifram com um comentário por E.S. Kennedy em Beirut, pela Universidade Americana de Beirut, 1959.

 – The Book of Instruction in the Elements of the Art of Astrology, que é agora apresentada na sua tradução para língua portuguesa.

ISBN 972-8861-12-5
DEPÓSITO LEGAL Nº 220620/04

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DOROTHEUS DE SÍDON
CARMEN ASTROLOGICUM

Descrito por Firmicus Maternus, no século IV, como “um homem muito sábio que escreveu sobre a predição pelas estrelas em versos muito precisos e eruditos” Dorotheus viveu antes de Balbillus, o astrólogo do imperador Nero, depois de Manilius (c.14AD) e antes de Ptolomeu (c.120AD).

Dorotheus foi reconhecido como um dos principais pilares de erudição pelos astrólogos clássicos e medievais tanto do mundo cristão como islâmico.  Influenciou Hephaestion de Tebas, astrólogo egípcio que viveu no final do sec. IV e princípio do sec. V, sendo também citado como uma grande autoridade por Abu Ma’shar, um dos fundadores da astrologia islâmica e uma das principais influências sobre a astrologia mundana medieval no sec. VIII.  Michael Scot, um dos mais importantes sábios do sec. XIII e astrólogo do imperador Frederico II, do Sacro Império Romano, faz também menção da sua obra.

O impacto da obra de Dorotheus na astrologia helênica resultou na importância que passou a ser dada ao estudo das Interrogações (Katarchai), os horóscopos levantados para responder a perguntas, que mais tarde viriam a ser chamados horóscopos horários, tornando-se no primeiro grego de que se tenha conhecimento a escrever sobre tal assunto.  A importância da sua obra na Europa medieval revela que a ideia prevalecente de que os astrólogos do período entre o séc. XII e o séc. XV sentiam antipatia pela astrologia horária, preferindo a vertente Ptolomaica que a omite no Tetrabiblos, estava profundamente errada.  Exemplo disso é o facto de Michael Scot, o homem mais erudito da Europa, aconselhar o homem mais poderoso com base nas regras para a análise celeste estabelecidas 1200 anos antes por Dorotheus de Sídon.

Apesar de Dorotheus ter vivido na zona e época em que surgiu a religião cristã, pois Sídon se encontra na costa Levantina, na ponta Norte daquilo que em tempos foi o império de Salomão, a tradição a que pertencia era inteiramente diferente e, apesar da oposição do cristianismo, encontrou um lugar muito respeitado na corte do próprio representante do Sacro Império Romano.

ISBN 972-8861-00-1
Depósito Legal Nº 206921/04

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GUIDO BONATUS E HIERONYMUS CARDANUS
ANIMA ASTROLOGIAE OU O GUIA DO ASTRÓLOGO

As Considerações de Bonatus e os Aforismos de Cardanus foram as últimas obras que William Lilly publicou, em 1676, selecionando-as entre todas as obras ao seu dispor, numa época em que o conhecimento da astrologia e a crença nesta ciência eram praticamente generalizadas entre as classes eruditas.

Guido Bonatus viveu no sec. XIII em Milão e a sua obra atesta a sua reconhecida habilidade e mestria na ciência que professava.  O historiador Fulgusos relata que estando Guido, Conde de Monte-Serrant, sitiado naquela cidade, recebeu palavra de Bonatus, informando-o que se fizesse uma incursão no campo inimigo, a vitória seria completa e o cerco levantado, mas que ele próprio sofreria um ferimento perigoso, mas não mortal, na coxa.  O Conde seguiu o conselho, a incursão foi levada a cabo na data indicada e, apesar da sua grande desvantagem numérica, a predição concretizou-se.  Foi ferido na coxa, mas recuperou-se rapidamente, pois tinha entrado na batalha com todos os apetrechos necessários para tal eventualidade.

Bonatus chegou à conclusão de que algumas pessoas o consultavam para troçarem dele, como é patente no seu Guia do Astrólogo em que avisa o leitor “Quando o querente vem apenas para o tentar, ou para lhe fazer uma partida, como muitos fazem, dizendo “Vamos a este ou àquele astrólogo, perguntar-lhe tal coisa, para ver se ele nos consegue dizer a verdade ou não”.  Terá sido a resultante preocupação em identificar estes indivíduos que o levou a criar as regras relativas ao ascendente nos primeiros e últimos graus de um signo, assim como as considerações sobre a hora planetária.  Para Bonatti, se o mapa não fosse radical, haveria razão para suspeitar que a atitude do querente não era séria nem sincera, que se sentia inseguro quanto à pergunta ou, pior ainda, que tinha a intenção de troçar do astrólogo; a própria pergunta seria inconsequente, tonta e, provavelmente, sem qualquer fundamento na realidade.  Citando as suas próprias palavras, “Observava a hora da pergunta e, se o Ascendente estivesse muito perto do final de um signo e no início de outro, de tal forma que parecesse estar entre ambos, eu dizia que não perguntavam a sério, ou que tinham vindo para me testar”.

Sobre Hieronymus Cardanus, a informação é vasta já que é fornecida pelo próprio e a sua vaidade é notória.  Filho ilegítimo, a mãe tentou evitar o seu nascimento, mas sem sucesso.  Acabou por nascer por cesariana em Milão a 1 de outubro de 1501, apresentando a cabeça coberta de espessos caracóis negros.  Casou em 1531, ultrapassando as condições físicas que o tinham impedido de o fazer até então, e que ele atribuía às nefastas influências do planeta sob o qual tinha nascido e que sempre considerou como um dos maiores infortúnios da sua vida.

Foi educado como médico e leccionou como professor na maioria das universidades italianas.  No ano de 1570 foi preso; ao ser libertado, retirou-se para Roma, onde serviu o Papa Gregório XIII como médico e graças ao que recebeu uma pensão até morrer em 1576.

O próprio Cardan descreve as aventuras da sua vida com uma liberdade raramente encontrada entre os eruditos, parecendo ter como único propósito a demonstração de que a pessoa pode ser dotada de um grande gênio e, ao mesmo tempo, ser completamente destituída de razão.  Submete todas as outras considerações à sinceridade com que confessa as suas boas e más qualidades, acabando por manchar a sua reputação.

Apesar de Cardan raramente divagar quando relata os seus princípios morais e os seus sentimentos, somos levados a duvidar daquilo que ele conta sobre si próprio, pois parece quase impossível existir um carácter tão caprichoso e inconsistente como ele se apresenta.  Gabava-se de não ter um único amigo no mundo, mas que em vez disso, era servido por um Espírito que emanava de Saturno e de Mercúrio, que era o guia constante das suas ações e o mestre de todos as missões que era chamado a realizar.  Apreciava tanto todos os jogos de azar que neles passava dias inteiros, para grande prejuízo da sua família e reputação, pois chegava a apostar a mobília e as jóias da mulher.

Não tinha qualquer escrúpulo em confessar que era vingativo, invejoso, traidor, praticante da magia negra, difamador, caluniador e viciado sem reservas em todos os excessos mais asquerosos e detestáveis que imaginar se possa; não obstante esta declaração tão humilhante, nunca deve ter existido um homem mais vaidoso, ou alguém que com menos cerimónia exprimisse a elevada opinião que tinha de si:

 “Tenho sido admirado por muitas nações; panegíricos sem fim, em prosa e verso, foram compostos para celebrar a minha fama.  Nasci para libertar o mundo dos muitos erros que o subjugam.  Aquilo que descobri não o pôde ser feito pelos meus antecessores nem pelos meus contemporâneos; e essa é a razão porque os autores que escrevem qualquer coisa merecedora de ser lembrada não se envergonham de confessar que me estão em dívida por isso.  Compus um livro sobre a arte da Dialectica, no qual não existe uma só letra supérflua ou incorreta.  Terminei-o em sete dias, o que parece ser um prodígio.  No entanto, haverá alguém que possa gabar-se de dominar a sua doutrina num só ano?  E aquele que a tenha compreendido nesse tempo terá que ter sido instruído por um Demónio íntimo”.

Cardan prima por uma mente culta em todo o tipo de conhecimento, da filosofia à medicina, da astronomia às matemáticas, etc.  Até Scaliger, que tão mal falou dele, confessava que era dotado de uma mente incomparável na sua agudeza e capacidade de compreensão.  Acusado de impiedade e ateísmo por citar alguns princípios de outras religiões no seu “De Subtilitate”, em “De Vita Propria” verifica-se que é um homem de fé e não um livre pensador.  Mas apesar de não ser um devoto, parum pius, afirma que, sendo naturalmente vingativo, deixou muitas vezes passar a oportunidade de satisfazer o seu ressentimento porque, como escreve, “Não existe nenhuma forma de culto que mais agrade à Divindade do que a de obedecer à lei, contrariando o mais forte impulso das nossas naturezas para a transgredir”.  E, falando sobre o seu amor à solidão, dá-nos mais uma prova da sua piedade:  “Quando estou só é que me sinto, mais do que em qualquer altura, na companhia daqueles que amo – a Divindade e o meu bom Anjo.”  Gabava-se orgulhosamente de ter recusado uma soma considerável de dinheiro, que lhe foi oferecida pelo Rei de Inglaterra, com a condição de que lhe devolvesse os títulos que o Papa lhe havia retirado.

O mesmo carácter caprichoso, revelado pela sua conduta moral, se verifica na composição das suas obras.  O leitor é bloqueado a cada passo pelas suas constantes digressões relativamente ao assunto em questão, num texto já de si obscuro.  Nos tratados em aritmética, entrega-se a divagações sobre os movimentos dos planetas, sobre a Criação e sobre a Torre de Babel e nos tratados em dialética, opina sobre os historiadores e os escritores de epístolas, justificando esta prática como uma forma de encher a página, pois era à página que o editor lhe pagava e ele trabalhava tanto para o seu sustento com para a obtenção da glória.

 Cardan foi instrumental ao ressuscitar a sagrada filosofia da Cabala e os Cabalistas, e os seus Sete Segmentos são de grande valia para os astrólogos.

ISBN 972-8861-04-4
DEPÓSITO LEGAL Nº 206918/04

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JEAN-BAPTISTE MORIN DE VILLEFRANCHE

«Sol et homo generant hominem».
“O Sol e o homem geram o homem”. 

Aristóteles

Jean-Baptiste Morin de Villefranche nasceu às 8h33m GMT do dia 23 de fevereiro de 1583 em Villefranche-sur-Saône, Beaujolais, França – 45N59, 4E43, segundo nos informa na sua própria autobiografia, e morreu às 2 da manhã do dia 6 de novembro de 1656, em Paris, morte que foi por ele predita para esse mesmo dia.

Começou por estudar filosofia, passando depois à medicina, profissão que lhe granjeou elevado respeito, mas que nunca o fez feliz:  “…quando o regente da décima está na doze, a profissão do nativo será a causa do seu infortúnio, ou abandona-a ou perde-a, que foi o que me aconteceu na profissão médica, porque Saturno era regente da décima e estava na doze”.

Aos 35 anos começou a estudar astrologia e pouco depois tornou-se famoso por ter predito o encarceramento do Bispo de Bolonha na data exata em que tal aconteceu, impressionando a rainha Maria de Médicis de tal forma que esta fez com que o rei o nomeasse Professor de Matemáticas no Colégio Real de Paris em 1629, tornando-se também astrólogo da corte, posto que ocupou até morrer aos 73 anos.  Durante esse período, serviu Henrique IV, Louis XIII, Louis XIV, o Cardeal Richelieu e o seu sucessor, o Cardeal Mazarin.  As suas predições eram de tão precisas que chegou a ser secretamente introduzido por Richelieu no quarto em que a rainha dava à luz ao futuro Rei Sol Louis XIV, de forma a que o seu horóscopo fosse levantado com exatidão.

Entre as suas outras predições mais conhecidas encontram-se a da morte no cadafalso de Cinq Mars, o favorito de Louis XIII e a morte violenta do rei da Suécia Gustavus Adolphus na batalha de Lützen, amplamente mencionadas na Astrologia Gallica, mas o caso mais curioso e que lhe valeu a publicação desta obra mestra em que investiu trinta anos da sua vida aconteceu com Louise Marie de Gonzague, que o interrogou sobre uma proposta de casamento com um príncipe de sangue real;  Morin respondeu-lhe que tal união não aconteceria, visto já lhe ter dito anteriormente que ela se casaria com um rei.  O casamento com o príncipe foi cancelado e ela veio a casar com Wladislaus IV, rei da Polónia.

Sobre os progenitores serem necessariamente representados pelo Sol e Saturno para o pai e pela Vênus e Lua para a mãe, conforme a genitura fosse diurna ou noturna, diz o seguinte:  “Considerem o meu próprio horóscopo:  eu nasci durante o dia e o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus e Saturno estão na 12ª casa, e em quadratura a Marte, que rege o Ascendente.  A Lua é, por conseguinte, o significador dos progenitores, porque é o regente da quarta, e da minha mãe em especial, visto que a Lua é feminina e está localizada no signo feminino de Peixes; a sua separação da conjunção de Saturno enquanto não se aplica a qualquer outro planeta indica desamor da parte dos meus progenitores – particularmente da minha mãe – e um tratamento desleal às suas mãos.  No entanto, o Sol está em conjunção partil com Júpiter, e isto fez com que o Cardeal Richelieu se tornasse no meu inimigo secreto, visto que este Sol está na 12ª juntamente com Saturno.  O Sol, aqui, é o significador de poderosos inimigos e dos prejuízos causados por eles, mas não do meu pai, apesar de ter nascido durante o dia; na realidade, o meu pai nunca desgostou de mim e nunca me fez qualquer mal deliberadamente.  E assim, este horóscopo é um exemplo de como os significadores universais não são capazes de referir qualquer situação ou evento específico, visto que, considerados apenas por si sós, o seu significado e aplicação permanecem excessivamente gerais”.

A sua rivalidade em relação a Richelieu, nascido em Paris a 9 de setembro de 1585, às 9:18:21 GMT, não resultava apenas do fato deste ter feito com que lhe fosse negado o prémio que lhe tinha sido inicialmente destinado pelos estudos feitos sobre a forma de determinar com precisão a longitude no mar, circunstância que o alienou da comunidade científica.  Devia-se também ao carácter do Cardeal, cuja morte a 4 de Dezembro de 1642 foi predita por Morin com uma diferença de dez horas, baseando-se na revolução solar daquele “que, tendo iniciado guerras por toda a Europa, foi a causa da morte de tantos milhões de homens pelo ferro, fogo, fome, pestilência e outras causas” e sobre cujo poder disse que “quando o regente da doze está na décima, os inimigos, o exílio, a prisão ou os infortúnios serão a causa da honra e da promoção, como foi o caso do Cardeal Richelieu, cuja Vênus era regente da doze e estava no MC.  E, similarmente, o regente da onze na doze transforma os amigos em inimigos, que foi o que me aconteceu”.

Sobre si próprio, Morin fala com uma franqueza surpreendente:  “E, na minha própria vida, um quase constante desejo de fama é mostrado no meu horóscopo por Marte regendo o Ascendente enquanto está localizado no signo da exaltação de Júpiter, e todos os outros planetas exceto Mercúrio no signo da exaltação de Vênus, que é co-regente da primeira; mas talvez principalmente através da exaltação do Sol e da Lua na primeira casa, referindo-se evidentemente ao meu carácter e temperamento.  Como resultado, sou excessivamente inclinado a considerar-me superior aos outros devido aos meus dotes intelectuais e conquistas científicas, e é muito difícil para mim lutar contra esta tendência, exceto quando a tomada de consciência dos meus pecados me perturba e me vejo como um homem vil e digno de desdém.  Por causa de tudo isto, o meu nome tornou-se famoso em todo o mundo”.

Morin nunca casou, mas envolveu-se em muitas aventuras amorosas, sendo salvo de dois ferimentos pela espada em 1605, segundo ele, pela presença dos benéficos na casa doze: “Um exemplo disso é o meu próprio horóscopo onde Vênus, Sol, Júpiter, Saturno e a Lua estão na décima segunda casa.  Já tive várias doenças graves que foram difíceis de curar e mais de uma vez fui quase parar à prisão devido a loucuras de juventude, pelo menos dez vezes estive perto de uma morte violenta e tenho experimentado todo o tipo de perigos.  Alistei-me dezesseis vezes ao serviço de outros, o que é uma coisa pouco diferente do encarceramento ou do cativeiro, e tive muitos inimigos devido à inveja, e nobres que me trataram injustamente – um dos quais foi o Cardeal Richelieu.  Saturno da casa doze provocou todas estas coisas porque tem uma analogia com estes males; mas sempre iludi os males piores graças a Júpiter e a Vênus em bom estado celeste, e é verdade que fui resgatado do perigo de uma morte violenta em mais de cinco ocasiões pela divina bondade e misericórdia – uma vez miraculosamente, quando fui atirado de cima de um cavalo e corri o maior perigo de morte. Quando os maléficos Marte e Saturno dizem respeito a alguma coisa boa, é desfavorável a não ser que estejam em bom estado celeste; mas mesmo a despeito disso, se estiverem em quadratura ou oposição ao Sol, Lua, Ascendente ou MC ou aos seus regentes, provocam sempre coisas nefastas.  Mesmo quando estão conjuntos aos benéficos não perdem toda a sua malignidade, como é mostrado no meu próprio horóscopo em que Marte está em trígono a Júpiter, mas este último está conjunto a Saturno; e apesar disso, de Saturno e Marte tenho sofrido e ainda sofro de abundantes males.       As experiências que ilustram estes fatos ocorrem frequentemente, mas falarei aqui apenas da minha própria.  Eu tenho Júpiter e Vênus na doze em Peixes – o domicílio de Júpiter e a exaltação de Vênus – e já fui salvo de muitas doenças graves e consegui frequentemente evitar o encarceramento.  Consegui a vitória sobre os inimigos ocultos, mesmo os muito influentes representados pelo Sol, de modo que apesar de todo o seu poder e má vontade, foram incapazes de me causar um mal irreparável.  Mas em todo o tipo de serviço aos outros tenho sido sempre infeliz, com a única excepção de duas ocasiões, quando era um jovem e estudante.

Quanto ao livre arbítrio, Morin defende a astrologia como sendo capaz de predizer os acontecimentos futuros, mas respalda-se em Ptolomeu para contornar esta delicada questão: “Pois se o horóscopo não for uma causa eficiente, como é que estas coisas aconteceriam em conformidade com as configurações celestes?  No entanto, devido ao fato de uma causa só agir em concordância com a disposição do sujeito, conclui-se que é possível resistir à condição celeste, como o próprio Ptolomeu evidenciou no aforismo 5 do Centilóquio, quando afirmou: “Aquele que tem conhecimento pode evitar muitos dos efeitos das estrelas através da compreensão da sua natureza e preparando-se antes de tempo”.  Por conseguinte, estes sinais ou causas não são de todo inevitáveis – como muitos pensam – erro esse que é também condenado pela Igreja.”

“Agora vamos perguntar se as estrelas indicam com certeza os acontecimentos futuros na vida de um indivíduo.  Eu creio que a resposta é “não”, de outra forma teria que ser admitido um inexorável fatalismo e a afirmação de Ptolomeu dada acima não seria verdadeira.  Pois as estrelas não indicam a possível resistência de um homem contra o seu poder através da prudência e da razão divinamente iluminada; elas podem mostrar, por exemplo, uma doença ou uma altercação num determinado momento, mas não podem mostrar simultaneamente que não haverá altercação, ou que, graças à prudência e à ingestão de medicamentos apropriados, a saúde da pessoa possa ser salvaguardada.  O fato é que, daquelas coisas que podem acontecer a um homem na vida, algumas não estão dentro seu poder – tais como quem são os seus irmãos ou inimigos, ou a sua morte, ou ocorrências fortuitas – enquanto outras estão dentro do seu poder, no sentido de que podem depender da sua livre vontade – tais como as suas finanças, filhos, criados, esposa, litígios, combates, viagens e honras profissionais.  Estas questões são extrínsecas relativamente ao nativo, visto ele ser capaz de fazer uma escolha livre a respeito delas e poder evitá-las ou rejeitá-las apesar da influência das estrelas poder dar-lhe uma grande inclinação para fazer o contrário”.

“Mas as indicações das estrelas inclinam ou predispõem tão fortemente o nativo que pelo menos a inclinação pode ser afirmada com considerável certeza.  E dos possíveis efeitos concomitantes com tal inclinação, aqueles que não estão dentro do poder do nativo acontecerão com a maior certeza, enquanto aqueles que dependem da sua própria vontade terão um resultado mais duvidoso.  No entanto, como a maioria das pessoas geralmente se comportam de acordo com a disposição estelar, e como o homem é normalmente ignorante daquilo que ele próprio é – ou seja, da sua própria natureza, assim como das coisas que estão destinadas a acontecer-lhe – não faz o suficiente para se opor a acontecimentos futuros desagradáveis.  E como é árduo resistir às propensões naturais de cada um, muito poucos iniciam sequer o esforço, muito menos persistindo nele com perseverança.  Por conseguinte, as predições astrológicas tornam-se frequentemente verdade; pois as causas inferiores e particulares são claramente obedientes ao poder das causas superiores e universais – esta é a lei da natureza – apesar de todas as predições serem de facto meramente conjecturais e ninguém poder predizer seja o que for com certeza”.

Apresentam-se agora os seguintes livros da gigantesca obra deste autor:

 Astrologiae Gallicae

Livro 18: As Fortalezas dos Planetas. ISBN 972-8861-13-3

Livro 21:  As Determinações Ativas dos Corpos Celestes e as Determinações Passivas do Mundo Sublunar. ISBN 972-8861-06-0

Livro 22: Direções. ISBN 972-8861-17-6

Livro 23: As Revoluções das Natividades. ISBN 972-8861-14-1

DEPÓSITO LEGAL Nº 220614/04

α

JOHN GADBURY
COLLECTIO GENITURARUM

Sir John Curson, um próspero e católico cavalheiro de Oxfordshire, avô materno de John Gadbury, deserdou a filha quando esta resolveu casar-se com William Gadbury, um modesto lavrador.  John Gadbury foi aprendiz de alfaiate até aos dezesseis anos, altura em que uma reconciliação com o seu abastado avô lhe possibilitou uma educação em Oxford.

Em 1649, imediatamente a seguir à execução de Charles I, tornou-se em Londres num seguidor do movimento político dos Levellers (Igualitários), que exigiam a liberdade de consciência, a redistribuição da riqueza e uma constituição democrática.  Na vertente religiosa, encontrou inspiração na Família do Amor, cujo líder carismático Abiezer Coppe advogava o uso do álcool, do tabaco e do amor livre para alcançar a libertação espiritual.

Foi nesta conturbada época que conheceu Lilly, 25 anos mais velho e reconhecido como o astrólogo mais importante de Inglaterra, que o encorajou a regressar a Oxfordshire em 1652 e a estudar a astrologia com o matemático e astrólogo Nicholas Fiske.  Passados três anos, já se tinha estabelecido como astrólogo em Londres.  Apresentou as suas primeiras efemérides em 1655 e no ano seguinte publicou uma muito aplaudida Emenda às Tábuas Astronómicas de Hartgil, com prefácio de Lilly e dedicada a Elias AshmoleA Doutrina das Natividades e a Doutrina das Perguntas Horárias surgiu em 1658, sendo calorosamente elogiada por Lilly.

Apesar da primeira obra publicada por Gadbury ser “Uma Defesa do Sr. Culpeper, do Sr. Lilly e do resto dos estudiosos daquela nobre Arte” (1651), uma refutação do panfleto anti-astrológico da autoria de William Brommerton, poucos anos depois atacava Lilly por escrito sempre que a oportunidade se lhe apresentava, acusando-o de plágio, incompetência e fraude.  As razões para tal mudança foram em parte políticas.  Durante o Protetorado de Cromwell, Gadbury abandonou o seu extremismo político e religioso para se transformar num conservador e dedicado monárquico.  Na sua famosa Coleção de Natividades, o seu novo zelo pela causa monárquica encontrou plena expressão nos seus comentários sobre a natividade de Cromwell, atacando frequentemente Lilly e apodando-o de “criatura de Oliver”.

Lilly ficou chocado com a veemência da reação de Gadbury contra ele, justificando-se tê-lo descrito na sua autobiografia como “um monstro de ingratidão”.  Depois da Restauração, Lilly passou a evitar prudentemente qualquer envolvimento com a política, indo viver calmamente para a província e continuando a publicar os seus almanaques e panfletos.  Em 1674, aos 72 anos de idade, Lilly lançou um ataque satírico contra Gadbury, comentando como que por casualidade num dos seus panfletos que qualquer pessoa que nascesse com o ascendente em Escorpião tinha necessariamente que ser um criminoso, um traidor, um debochado, etc.  Não foram mencionados nomes, mas Gadbury mordeu a isca e publicou em resposta o Obsequium Rationabile, ou Serviços Razoáveis Realizados pelo Signo Celeste de Escorpião contra as Malignas e Falsas Tentativas daquele Grande (mas Afortunado) IMPOSTOR, o Sr. William Lilly.

Gadbury dirigia-se aos seus companheiros escorpianos em termos estrondosos:

“Senhores, quaisquer que sejam os vossos nomes ou títulos, sois apodados pelo Sr. Lilly como as pessoas mais vis e perigosas no mundo inteiro.  Sois a geração odiosa que ele aconselha toda a gente a temer, e isto meramente por causa do vosso inocente horóscopo.  Estais todos igualmente incluídos (juntamente comigo) sob o egrégio escândalo do Sr. Lilly contra o Escorpião, no entanto, eu tenho grande razão para acreditar que o Sr. Lilly dirigiu o seu maligno e invejoso dardo a mim, em particular”.

Depois apresentava “20 notáveis Genituras” na defesa “daquele glorioso, mas estigmatizado horóscopo”.  Deliciado com os rompantes de Gadbury, Lilly emitiu um panfleto em que declarava:

“Quando vi pela primeira vez o panfleto de J. Gadbury e a sua torrente de retórica dirigida a todas as pessoas da Tribo de Escorpião, pensei que estava eminente alguma horrível conspiração.  Aplaudi a sua bondade avisando-as sobre perigos tão desconhecidos e terríveis, mas após um exame mais calmo e imparcial, verifiquei que o nosso autor teve apenas um ataque de quixotesco orgulho e malícia, de modo que me atrevo a garantir a todos os Escorpianos que se defenderem a paz d’El Rei e mantiverem uma boa dose de sensatez, poderão continuar a viver em segurança, acabando por morrer nas suas camas sem haver necessidade de se auto degolarem”.

Mas a inimizade que Gadbury sentia por Lilly não resultava apenas do fato de apoiarem partidos diferentes.  Debaixo da sua postura pomposa que tanta troça provocava em Lilly, Gadbury era um astrólogo profundamente empenhado e consciente de que estava a viver uma época em que a arte propriamente dita tinha caído em descrédito e, para ele, Lilly estava na origem do problema.

Além de ter apoiado Oliver Cromwell e o seu Protetorado, Lilly tinha democratizado a astrologia ao publicar a Astrologia Cristã em inglês e não em latim, fazendo com que deixasse de ser apenas acessível ao teólogos e doutores com educação universitária.  A seguir a Lilly, Nicholas Culpeper agastou o elitista Colégio de Médicos ao escrever sobre astrologia médica e ervanária em inglês corrente, para benefício do cidadão comum.  Gerard Winstanley, uma luminária do Verdadeiro Movimento Igualitário, tão aplaudido por Gadbury na sua juventude, e considerado como um dos pensadores mais progressistas da época, advogava a abertura das universidades a todos, mulheres e homens, ricos e pobres.  No sistema de educação idealizado por Winstanley, a astrologia teria feito parte do currículo básico.

Não é de estranhar que quando o rei, os nobres e os bispos regressaram ao poder em 1660, a astrologia fosse associada à “tendência igualitária” que havia feito tremer o fundamento da sua autoridade e se tivessem tomado medidas para que tal nunca mais voltasse a acontecer.  Em 1661, Charles II criou por carta régia a “Royal Society para o Desenvolvimento do Conhecimento Natural”, criando assim o primeiro instituto científico de pesquisa.  O principal intuito da Royal Society era estabelecer um corpo oficial de conhecimento baseado em fatos objetivos.  A sua “causa oculta” era impor uma ortodoxia intelectual e desencorajar ideias subversivas.  John Gadbury passou o resto da sua vida a tentar provar que a astrologia era uma área de estudo legítima, digna de ocupar um lugar ao lado das embriónicas disciplinas científicas que começaram a emergir debaixo da égide da Royal Society.

A primeira ação de Gadbury foi distanciar-se das desacreditadas práticas dos astrólogos populistas.  Reagindo contra os seus próprios entusiasmos de juventude, tornou-se severamente crítico das seitas radicais que tinham participado da derrocada da monarquia.  Apesar de nunca se ter associado a qualquer destas seitas, Lilly misturara livremente a sua astrologia com antigas profecias para augurar a desgraça régia.

Gadbury percebeu que doutrinas deste tipo não seriam já toleradas na Inglaterra da pós Restauração.  Juntamente com os sortilégios e os talismãs, a contemplação da bola de cristal e a invocação dos espíritos, rejeitou a profecia astrológica e a revelação mística, defendendo que a astrologia era uma ciência racional cuja verdade podia ser demonstrada através de um estudo objetivo de causa e efeito.  Para tal havia que registar com precisão os dados do nascimento e implementar uma cooperação entre os pesquisadores astrológicos, sendo esses os primeiros passos vitais para o estabelecimento de uma ciência de natividades respeitável.  A sua Collectio Geniturarum ou Coleção de Natividades, a primeira do seu tipo a ser publicada em inglês, contém a análise detalhada de 150 horóscopos de personalidades famosas ou invulgares.

Vários membros fundadores da Royal Society apoiaram os esforços de Gadbury para criar uma ciência da astrologia sistematizada.  Entre eles, Elias Ashmole, que chegou a dar conselhos astrológicos a Charles II e se relacionou amistosamente com todos os astrólogos da época, independentemente das suas rivalidades ou opiniões políticas, assim como John Aubrey e John Goad, além do arcediago da Catedral de Salisbury, Joshua Childrey, que propunha uma nova abordagem da astrologia baseada nas descobertas astronómicas de Galileo e de Kepler.

Com a morte de todos estes defensores do estudo científico da astrologia, no final do sec. XVII, esta entrou num abrupto declínio e o fato de ser associada às superstições das “massas ignorantes” tornou-a uma proposta pouco atraente para a intelligentsia da Idade da Razão.

ISBN: 972-8861-20-6
DEPÓSITO LEGAL: 232515/05

α

JOHN PARTRIDGE

Partridge nasceu a 18 de janeiro de 1644 em East Sheen, Surrey.  Trabalhou como sapateiro, mas brilhante autodidata, aprendeu a dominar o latim, o grego e o hebreu, estudando os compêndios e os dicionários no seu tempo livre, após o que se aplicou a dominar a astrologia e a física.

Em 1678 já Partridge abandonara a atividade de sapateiro e se estabelecera como astrólogo em Londres.  O seu almanaque, Merlinus Liberatus, cujo título se assemelha ao Merlinus Anglicus de Lilly, surge pela primeira vez em 1680, no ano da morte deste último.

Durante a última parte do sec. XVII, à medida que a Coroa, o Parlamento e a Igreja se esforçavam por chegar a uma plataforma de entendimento, a opinião política polarizava-se em dois campos opostos – os Whigs e os Tories – os quais formaram a base do sistema partidário que ainda hoje se mantém em Inglaterra.  O partido Tory apoiava os interesses da monarquia, da nobreza e da Igreja Anglicana, enquanto os Whigs representavam a crescente classe média de mercadores, industriais e proprietários sem título de nobreza.  O espectro do catolicismo de Roma assombrava o partido Tory.  Desde a época da Armada Espanhola que os protestantes ingleses olhavam para o Vaticano como os capitalistas ocidentais olhavam para o Kremlin durante a Guerra Fria.  Os dissidentes e os não conformistas apelavam para os Whigs como uma forma de se oporem ao que era visto como uma tendência para o catolicismo na monarquia e na Igreja estabelecida.

A conhecida rivalidade entre Partridge e o seu contemporâneo Gadbury não se cingia apenas ao aspecto astrológico, abrangendo amplamente o posicionamento político que cada um tinha adoptado e as alianças políticas que dele resultavam.

 Enquanto Gadbury se revelava um monárquico cujas tendências de extrema direita chegaram ao ponto de levantar suspeitas de que fosse católico, Partridge ganhava fama graças à tendência Whig dos seus almanaques que transformaram Gadbury num alvo a atacar sem misericórdia.  Quando James II, um católico confesso, subiu ao trono em 1685, Partridge fugiu para a Holanda.  No entanto, continuou a emitir profecias e predisse a queda do Rei James e do catolicismo na Inglaterra.  A sua reputação foi sublinhada pela gloriosa revolução de 1688 em que, a convite do Parlamento, William de Orange marchou sobre Londres e James foi forçado ao exílio.  A coroação de William e Mary garantiu uma sucessão protestante e estabeleceu a supremacia do Parlamento sobre a monarquia.  Partridge regressou à Inglaterra em triunfo.

O abismo político e religioso entre Gadbury e Partridge refletiu-se nas suas abordagens inteiramente diferentes à astrologia.  Ambos se davam conta de que a arte estava em crise, mas Partridge escarnecia do sonho que Gadbury tinha de uma reforma científica.  No seu Opus Reformatum (1693), Partridge anunciou a sua intenção de “ressuscitar o Verdadeiro e Antigo Método, estabelecido para nossa Orientação pelo Grande Ptolomeu”.  Assim, surgiu a situação paradoxal em que Gadbury, o arqui-conservador, advogava métodos que, nos seus princípios, antecipam as pesquisas estatísticas de John Addey e de Michel Gauquelin, enquanto Partridge, o revolucionário político, tentava promover um renascimento da tradição Ptolomaica.

A explicação reside na aceitação por parte de Partridge de uma doutrina Whig, herdada dos radicais da Guerra Civil, que defendia que a Conquista Normanda de 1066 tinha levado ao poder uma tirânica aristocracia estrangeira, sobrepondo-a aos nativos ingleses.  Os ideólogos Whig olhavam para a Inglaterra anglo-saxónica como a idade de ouro da justiça e da igualdade antes da imposição da repressiva canga normanda.  O renascimento Ptolomaico de Partridge era o equivalente astrológico desta doutrina.  Ptolomeu representava uma forma pura e não corrompida de astrologia, mas a arte tinha degenerado constantemente à medida que os astrólogos se afastavam cada vez mais do percurso traçado pelo raciocínio Ptolomaico.  Esta era a razão, segundo Partridge, porque no final do sec. XVII a astrologia se parecia cada vez mais com uma “carcaça morta”.

ISBN 972-8861-08-7
Depósito Legal Nº 220616/04

α

JULIUS FIRMICUS MATERNUS
VIDA E OBRA
MATHESEOS LIBRI VIII

Julius Firmicus Maternus, siciliano de Siracusa do sec. IV, praticou a advocacia durante muitos anos, tendo dela desistido para se dedicar ao estudo.  É apelidado de Senador, Vir Clarissimus ou Vir Consularis e, apesar de não haver evidência de ter pertencido a uma família senatorial antiga, existe a possibilidade de ter sido um dos muitos senadores criados pelo Imperador Constantino para a nova capital em Constantinopla, visto abrir o Mathesis com uma “Carta a Mavortius” em que menciona uma longa e difícil viagem de regresso a Itália.  Lollianus Mavortius, um alto oficial do governo e seu patrono, com o qual mantinha relações amistosas, é mencionado duas vezes pelo historiador Ammianus Marcellinus (330-395), estando as suas promoções registadas numa série de inscrições.

Firmicus é conhecido como o autor de duas obras:  a primeira, Matheseos Libri VIII (Oito Livros de Mathesis, ou Teoria de Astrologia) que se sabe ter sido iniciada no ano 334, pois o eclipse do Sol de 17 de julho desse ano é mencionado no primeiro livro, perfila-se como a mais completa e decisiva obra de astrologia do mundo clássico.  A outra, De Errore Profanarum Religiorum, é escrita cerca de dez anos depois e, apesar de se saber que se terá convertido ao cristianismo no período que separa a escrita das duas obras, esta última não contém qualquer doutrina cristã formal, apresentando-se apenas como um ataque acérrimo contra as religiões de mistério, já condenadas no Mathesis, obra ainda fortemente imbuída de uma postura filosófica pagã.  Nela, Firmicus defende que a astrologia é uma forma pura e superior de filosofia, baseando-se no conceito estoico da sympatheia, segundo o qual existe uma relação íntima entre todas as partes do universo, incluindo as estrelas e a humanidade.

Como homem de letras de classe superior com interesse pela filosofia e pela ciência, Firmicus seria fluente em grego, verificando-se que o Mathesis é quase totalmente derivado de fontes gregas e composto por retalhos da ciência helénica e da ciência das estrelas atribuída à lendária sabedoria do antigo oriente.  Percursor da tendência de muitos autores dos secúlos IV e V, Firmicus diz que tenciona pôr em latim “para os nossos Romanos” a sabedoria dos antigos. Desde Ptolomeu no sec. II que a astrologia estava ligada à doutrina científica mais respeitável e o determinismo fazia parte integrante da visão estoica do mundo.  Na questão filosófica erudita que, desde a época helénica, se desenvolvia sobre até que ponto a pessoa se deveria render ao determinismo estoico, Firmicus defende a posição extrema, atacando ferozmente os opositores da sua teoria e desdenhando a opinião de alguns filósofos de que o destino pudesse controlar algumas partes da vida humana, mas não outras.  A sua ideologia é uma mistura de neoplatonismo e de estoicismo, com um elevado tom moral evidente na “Vida e Instrução de um Astrólogo” no final do Livro Dois, tão apropriada a um prelado cristão como a um filósofo neoplatônico, pois este é um século ascético entre pagãos e cristãos.

Bebendo profundamente de fontes helênicas, egípcias e sírias, o Mathesis constitui um documento histórico extraordinário, pois retrata os pensamentos, estilos de vida, ambições e ocupações dos povos que proliferam no mediterrâneo oriental entre a época de Alexandre e Constantino, mostrando-nos a variedade de problemas, doenças, sucessos e insucessos das gentes que a história negligencia.

Firmicus não mostra qualquer interesse na vida após a morte, nem qualquer desejo de salvação miraculosa, mantendo-se friamente científico na sua adesão ao determinismo fatal e hostil às religiões de mistério que, tal como o cristianismo, ofereciam a libertação do destino através de milagres.  Para Firmicus, a astrologia é não só tranquilizante na sua revelação da lei natural imutável, tal como o é a doutrina estoica da familiaridade entre todos os aspectos do universo, mas também inebriante, visto proporcionar uma forma de entrever os segredos cósmicos; mas, segundo ele, só se forem seguidas todas as regras com rigidez matemática.

Com o agudizar das penalidades contra todas as práticas não cristãs sob Constantino e, mais tarde, sob o Código de Teodósio (438 d.C.) em que se ordenava que os astrólogos queimassem os seus livros, o Mathesis tornou-se na última obra sobre astrologia do mundo antigo e, apesar da desaprovação oficial a que foi sujeita pela Igreja, foi silenciosamente copiada e preservada nos mosteiros medievais, reaparecendo como um dos primeiros livros impressos.

Uma nota no catálogo da Biblioteca de Regensburg do sec. X refere-se a um Mathesis que pode ser o de Firmicus.  É mencionado nas Bibliotecas de St. Maure des Fosses e Bamberg, por volta de 1200, assim como na Philosophia Mundi de Honorius de Autun, no sec. XII.  William de Malmsbury, o historiador do sec. XII relata que Gerbert, mais tarde conhecido como o Papa Silvestre II (999-1003), estudou “o astrolábio de Ptolomeu e de Firmicus sobre o Destino” quando esteve em Espanha, entre os sarracenos.  O mesmo autor refere também que Girard, Arcebispo de York, tinha pecado ao ler Firmicus, sustentando-se posteriormente o fato de que o Mathesis tinha sido encontrado debaixo da almofada no momento da sua morte, razão porque lhe tinha sido negado um enterro cristão.

Os manuscritos mais antigos do Mathesis são do sec. XI e contêm apenas os Livros I a III e parte do IV.  O final do Livro IV e os Livros V a VII só se encontram nos manuscritos dos séculos. XV e XVI.  Existiam numerosas cópias em circulação na Idade Média comprovativas da sua popularidade e a primeira edição impressa apareceu em Veneza em 1497, acendendo o entusiasmo astrológico da renascença e acabando por chegar até nós numa era que se volta de novo para a segurança e inebriação das filosofias que prometem uma compreensão do lugar do homem no universo.

ISBN 972-8861-01-X
DEPÓSITO LEGAL Nº 206920/04