Astrologia na Medicina e Psicologia

A Teoria dos Temperamentos

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Do Corpus Hippocraticum ao Século XIX

Lilian Al­Chueyr Pereira Martins
Paulo José Carvalho da Silva
Sandra Regina Kuka Mutarelli

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – Brasil

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Resumo

O objetivo deste artigo é discutir a teoria dos temperamentos, partindo de informações contidas em alguns tratados do Corpus Hippocraticum e contribuições de Galeno, bem como alguns de seus desdobramentos. Segundo essa doutrina, a condição de saúde depende do equilíbrio de humores corpóreos, sua combinação ocasiona os temperamentos e existem relações entre o caráter do homem, temperamento, aparência física e afetos. A teoria humoral tinha tanto aspectos médicos propriamente ditos como psicológicos. Alguns autores afirmam que no século XV ocorreu a decadência dessa teoria, mas ela esteve presente não apenas na Idade Média (por exemplo, em Tomás de Aquino), como em obras do início da Idade Moderna (como de autores jesuítas), e persistiu nos regimes médicos do século XVIII. Apesar de ter sido abandonada pela maioria dos médicos no século XIX, até hoje são encontrados resquícios da mesma.

1. Introdução 

A concepção dos temperamentos, que é parte integrante da tradição médica hipocrático-galênica, esteve presente na medicina ocidental durante muitos séculos a partir da Antiguidade, tendo inclusive implicações para a “psicologia”. As primeiras informações acerca concepção de humores corpóreos que determinam o temperamento e sua relação com a saúde e doença de que se tem registro estão em diversos tratados que constituem o chamado Corpus Hippocraticum ou Coleção Hipocrática. Posteriormente, ainda na Antiguidade, tais concepções aparecem na obra Claudio Galeno (129­-199). Galeno, além de ter realizado estudos em aritmética, lógica e gramática, que caracterizavam uma formação em filosofia, teve um treinamento em medicina, tanto no âmbito teórico quanto prático, que se iniciou quando ele tinha 17 anos. Há inclusive estudos sobre a “psicologia” de Galeno. Como muitas das concepções de Galeno se basearam nos conhecimentos encontrados em tratados do Corpus Hippocraticum, costuma-­se referir a essas ideias como constituindo a medicina galênica de base hipocrática ou medicina hipocrático-­galênica.

Em um dicionário médico do século XIX (Dechambre, 1864) aparece a ideia de que o “humorismo” originou-se a partir das obras de Hipócrates e se manteve até o século XV (Brochin, 1886). No mesmo dicionário (Dechambre, 1864), considera-se o século XV como o século da decadência do reino de Galeno.

O objetivo desta pesquisa é inicialmente discutir a teoria dos temperamentos, a partir de informações contidas em tratados do Corpus e nas obras de Galeno, bem como alguns de seus desdobramentos, procurando averiguar se as afirmações acima são procedentes. Serão levados em conta tanto os aspectos médicos propriamente ditos como os psicológicos.

2. Humores, saúde, doença e cura

A conotação original da palavra “humor”, durante a Antiguidade greco­-romana, era de alguma coisa úmida, relacionada a um líquido ou fluido. A palavra latina “humore” significa bebida, líquido corporal ou líquido de qualquer espécie. Gradualmente a palavra “humor” passou a indicar uma disposição de espírito, determinada a partir da distribuição e quantidade dos humores do corpo humano. Uma pessoa bem-humorada seria aquela que tivesse bons humores (bons líquidos) em seu interior.

A teoria humoral, a ideia de que a saúde está relacionada ao equilíbrio dos humores corporais, ou seja, que eles estejam nas quantidades certas e nos lugares corretos e que a doença é decorrente do excesso, falta ou acúmulo de humores em lugares errados, é atribuída normalmente a Hipócrates, um médico que teria vivido durante a Antiguidade por volta do século IV a.C. e escrito uma série de obras que constituem o chamado Corpus Hippocraticum ou Coleção Hipocrática.

Durante muito tempo a autoria das cerca de setenta obras que constituem o Corpus Hippocraticum ou Coleção Hipocrática permaneceu como um enigma para a história médica. Entretanto, essas obras têm um estilo diferente e tratam de assuntos diferentes abordando tanto a teoria como a prática médica incluindo temas como cirurgia, ginecologia, medicina interna, higiene e método terapêutico. Algumas vezes, textos sobre um mesmo assunto apresentam concepções diferentes e contraditórias. Estudos feitos por filólogos indicam que as várias obras que constituem o Corpus foram escritas durante um período vasto que abarcou vários séculos, sendo que sua parte mais antiga data de 400 a 450 a.C. Essas e outras evidências mostram não se tratar da contribuição de um único autor, mas muito provavelmente de vários, pertencentes a escolas diferentes como as de Agrigentum, Croton ou Cnidos. É possível que algumas dessas obras, que estão dentre as antigas, sejam de autoria do Hipócrates mencionado por Platão e Aristóteles.

Em diversos tratados que integram a Coleção Hipocrática são mencionados os humores e suas relações com a saúde e doença. Entretanto, as concepções apresentadas diferem em determinados aspectos.

Algumas obras como os “Aforismos”, “Prognósticos” e “Regimen das doenças agudas”, que Harris C. Coulter incluiu no grupo I, consideram a existência de um número indefinido de humores, que a doença é o resultado do isolamento de um deles e que a cura se dá a partir do cozimento do humor que estava isolado. Ao médico cabe somente observar os sintomas e examinar as secreções e excreções. A terapêutica recomendada consiste em dieta, exercícios, físicos, banhos e aplicações (que promovem o cozimento) e laxantes (que promovem a evacuação). Outras obras como, por exemplo, “Afeccções” e “Doenças internas”, que Coulter incluiu no grupo II, consideram também que a cura se dá pelo cozimento do humor e prescrevem a terapêutica dos contrários, ou seja, a utilização de substâncias com propriedades contrárias àquelas dos humores. Se o doente está com excesso de fleuma que é fria e úmida deve ingerir alimentos “quentes” com condimentos como a pimenta, por exemplo. Nos tratados “Ares, águas e lugares”, “A doença  sagrada” e “A  natureza  do homem”, que Coulter incluiu  no  grupo III, são mencionados somente quatro humores (sangue, fleuma, bílis negra e bílis amarela).

Estes, se estão em equilíbrio, resultam em saúde, mas se ocorrer a falta ou excesso de um deles, resultará a doença. Neste caso, deve­-se oferecer ao doente uma substância com qualidade oposta ao humor, elemento ou qualidade que está causando a doença. Praticamente não há menção ao “cozimento de humores”. Há uma preocupação em diagnosticar a causa da doença (como recomendava Aristóteles), mas não se faz um prognóstico. Os tratados “Medicina antiga” e “Arte”, incluídos por Coulter no grupo IV, consideram que o organismo é constituído por um número indefinido de humores e criticam a terapêutica da cura pelos contrários. Defendem que o único modo para se chegar ao conhecimento legítimo dos processos mórbidos é a partir de sinais externos ou analogia direta com o exterior, de modo análogo ao que aparece no Timeu de Platão.

Embora a ideia de que existe um número definido de humores (quatro) não apareça em todas as obras do Corpus, mas sim especificamente naquelas integram o Grupo III (como por exemplo, no Sobre a Natureza do Homem), o importante é que essa ideia esteve presente durante muitos séculos na tradição médica ocidental. No tratado que mencionamos ela aparece de modo bastante claro:

O corpo do homem tem dentro dele sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Eles constituem a natureza desse corpo e por eles surge a dor ou a saúde. Ocorre a saúde mais perfeita quando esses elementos estão em proporções corretas um para com o outro e em relação à composição, poder e quantidade, e quando eles estão perfeitamente misturados. Sente-se dor quando um desses elementos está em falta ou excesso, ou se isola no corpo sem se compor com todos os outros. (Hipócrates).

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De acordo com Martins e outros muito provavelmente a concepção de quatro humores fundamentais relacionados às quatro qualidades (a terra é fria; o ar é seco, a água é úmida e o fogo é quente) que está presente no tratado Sobre a Natureza do Homem e em outros que constituem o Corpus Hippocraticum surgiu a partir da teoria dos quatro elementos de Empédocles e depois foi aproveitada por vários outros autores, assumindo importância na medicina ocidental. Num dos fragmentos que restaram do “Poema sobre a natureza” de autoria do pré­-socrático está: “A partir da água e terra, ar fogo misturados surgiram formas e cores de todas as coisas mortais”.

Conforme a visão que aparece nos tratados a que nos referimos no parágrafo anterior, a saúde e a doença estariam relacionadas à alimentação, já que esta contribuiria para a composição dos humores. Os alimentos precisariam ser transformados em substâncias corporais e isso aconteceria através de seu “cozimento”, digestão ou “maturação”. Os humores seriam cozidos através do calor natural do organismo ou através da febre. Nesse sentido, a febre seria um sinal positivo de reação do organismo. Assim, a doença não seria produzida por algum agente que viesse do exterior. No caso das epidemias, elas seriam causadas por mudanças climáticas que afetavam várias pessoas ao mesmo tempo.

A. Dechambre considerava a concepção de temperamento que aparece nas obras hipocráticas muito geral e de natureza diversificada dependendo do indivíduo. Ele comentou:

O médico deve consultar a natureza […]; mas as naturezas são diversas; e esta diversidade não é senão uma analogia distante daquela que pode servir como base para a determinação dos temperamentos tal como eles foram compreendidos mais tarde, quero dizer, os temperamentos determinados, distintos uns dos outros e reconhecíveis por caracteres exteriores.

3. A teoria dos temperamentos

Na maior parte das obras que constituem o Corpus Hippocraticum a medicina é apresentada como uma arte ou técnica, um conhecimento empírico, ou seja, adquirido pela observação e tentativa. Apesar de existir uma teoria por trás dos conhecimentos apresentados, geralmente essas obras não procuravam explicar os sintomas através de causas internas, por exemplo. Esta visão estava de acordo com a doutrina de Platão segundo a qual não se podia obter um conhecimento exato das coisas que pertencem ao mundo material tais como os fenômenos da natureza pois, para ele, as coisas estavam sempre mudando. Se olharmos para uma árvore, por exemplo, a cada momento ela estará diferente porque terá caído alguma folha, brotado alguma flor. Assim, para Platão, não era possível obter um conhecimento verdadeiro a partir da percepção. Entretanto, tal visão sobre o conhecimento do mundo se modificou com a proposta de Aristóteles. Para ele, era possível sim obter um conhecimento seguro do mundo material através do estudo das causas dos fenômenos, pois mesmo que no mundo sublunar as coisas se modificassem, as causas dos fenômenos seriam sempre as mesmas. Em uma de suas obras Aristóteles assim se expressou:

O objetivo de nossa investigação é o conhecimento, e as pessoas não pensam ter conhecido uma coisa até terem captado o “porquê” dela – que é captar sua causa primária. Portanto, é claro que também nós devemos fazer isso com relação ao surgimento e desaparecimento e todo tipo de mudança física para que, conhecendo seus princípios, possamos tentar referir a eles cada um de nossos problemas. (Aristotle).

De acordo com Aristóteles, a medicina deveria ser um sistema filosófico racional para constituir um conhecimento. Nesse sentido, sua filosofia ofereceu uma base geral para a medicina racionalista. Ele aperfeiçoou a doutrina dos quatro elementos de Empédocles, relacionando-­os às quatro qualidades básicas (quente–frio, úmido–seco) e associou as qualidades e elementos com os quatro humores e alguns órgãos. O sangue, que é quente e úmido, podia ser associado ao ar; a fleuma que é fria e úmida, podia ser associada à água; a bílis negra, que é fria podia ser associada à terra, enquanto que a bílis amarela que é “ardente”, podia ser associada ao fogo.

Entre 350 e 250 a.C. vários médicos tais como Diocles, Praxágoras e Mnesitheos trabalharam dentro dessa visão. Eles reforçaram a relação entre os quatro humores, os quatro elementos e as quatro qualidades básicas, procuraram as causas das doenças relacionando-­as a perturbações dos humores e prescreveram tratamentos baseados na teoria de modo mais sistemático do que vinha se fazendo até então.

A medicina racionalista de base hipocrática atingiu seu apogeu com as contribuições de Cláudio Galeno. Este deixou um volume de obras bastante grande e, apesar de em muitas delas criticar Aristóteles, adotou várias de suas concepções. Além disso, referia-se respeitosamente a Hipócrates e Platão. Por exemplo, a profissão de médico deveria consistir na preservação daquilo que está de acordo com a natureza e eliminação daquilo que não está, que era a opinião de Hipócrates que deveria ser seguida. Como PlatãoGaleno admitia a alma tripartida.

O médico de Pérgamo aceitava os quatro elementos de Empédocles, as qualidades que constituiriam os quatro humores: a bílis amarela (quente e seca); o sangue (quente e úmido), a fleuma (frio e úmido) e a bílis negra (fria e seca) que aparecem em diversos tratados do Corpus, como A natureza do Homem, por exemplo.  A partir dessas concepções elaborou a “teoria dos temperamentos”. Ele assim se expressou:

9.1 Vamos retornar ao argumento. Um único corpo homoiomerous* é formado pelos quatro elementos, sendo que eles estão misturados uns com os outros; e se o corpo vai ser sensitivo ou intensivo depende da natureza da mistura, e de modo semelhante todas as propriedades individuais em ambas as classes seguem a natureza da mistura. Assim, de acordo com sua qualidade peculiar surge o osso ou carne ou artéria ou nervo. Mas também a propriedade distintiva de cada tipo de osso, carne, etc. depende da qualidade peculiar da mistura: em um leão a carne, por assim dizer, é mais seca e quente; no carneiro é mais úmida e fria; a do homem está entre essas duas; e de um indivíduo humano, a carne de Dion, como ocorre, é mais quente, porém a de  Phillon é mais fria. Consequentemente, todas as diferenças dos corpos homoiomerous são: (a) simples – como as de vários elementos: mais quentes, mais frios, mais úmidos, mais secos, e (b) compostas, mais quatro: mais seco e ao mesmo tempo mais frio, mais quente e ao mesmo tempo mais úmido; mais uma terceira, mais seco e ao mesmo tempo mais quente; e uma quarta, mais frio e ao mesmo tempo mais seco. No topo dessas [oito] está, antes de mais nada, a melhor misturada.

* Para Galeno, o corpo dos animais poderia ser dividido em duas categorias mais amplas: partes homogêneas (homoiomerous), que seriam as mais simples do corpo que seriam o que conhecemos por tecidos (ossos, carne, músculos) e partes compostas, que seriam as partes dos  organismos ou órgãos (mão, perna, fígado, etc).

9.2 O argumento completo sobre estes assuntos foi desenvolvido suficientemente em meu tratado Sobre os Temperamentos. […] (Galeno, De Constitutione Artis Medicae).

Conforme Galeno, cada pessoa já nasceria com uma certa combinação ou “tempero” dos quatro humores básicos. Embora pudesse ocorrer que em algumas pessoas os quatro humores estivessem perfeitamente equilibrados, na maioria dos casos haveria a predominância de um ou dois humores. Isso contribuiria tanto para a formação de tipos físicos diferentes como de personalidades diferentes.

De modo análogo ao que aparece nos tratados do Corpus HippocraticumGaleno considerava que a saúde era determinada pelo equilíbrio dos humores se formavam no corpo a partir dos alimentos ingeridos pelo indivíduo. Quando algum deles faltava ou estava em excesso surgiam as doenças, que poderiam ser curadas através da alimentação, medicamentos ou procedimentos. A influência da alimentação na saúde era aceita muito antes de Galeno, é claro. Porém, parece que ele introduziu algo de novo, pois acreditava que a ação desses remédios ou alimentos variava de pessoa a pessoa, dependendo de seu temperamento. No caso de febre, por exemplo, um menino de quatro anos necessitaria de um remédio frio devido a seu temperamento ser sangüíneo. Já uma menina da mesma idade necessitaria de um medicamento menos frio porque, segundo ele, as mulheres têm por natureza um temperamento frio. Porém, um senhor de oitenta anos teria um temperamento fleumático e precisaria de um medicamento levemente frio.

Na obra De temperamentis (1545) Galeno relacionava a mistura dos humores ao caráter. De acordo com Owsei Temkin, em De temperamentis (livro I, capítulos 8 e 9) o médico de Pérgamo considerou a existência de nove possíveis tipos de temperamento, resultantes da mistura qualitativa dos humores. O primeiro seria o ideal, no qual as qualidades estariam bem equilibradas. Havia quatro nos quais prevaleceria uma das qualidades (quente, frio, seco e úmido); e quatro outros nos quais as qualidades predominantes apareceriam em duplas de quente e úmido, quente e seco, frio e seco ou frio e úmido. As misturas bem equilibradas serviriam de modelo e referência para as outras.

Dentro da classificação adotada por Galeno podem ser incluídos os quatro temperamentos básicos que foram adotados pela medicina ocidental durante os vários séculos que se seguiram e que enumeramos a seguir:

– Temperamento sanguíneo: onde há predominância do sangue

– Temperamento bilioso ou colérico: onde ocorre a predominância da bílis amarela

– Temperamento melancólico: onde há predominância da bílis negra

–  Temperamento fleumático: onde ocorre a predominância do muco ou fleuma.

Ao se referir ao temperamento bilioso, que considerou excessivamente quente, Galeno comentou:

Assim, nós precisamos ter um temperamento frio e um período frio da vida se levarmos mel para a natureza do sangue. Portanto, Hipócrates aconselhou apropriadamente aqueles que são naturalmente biliosos a tomarem mel, uma vez que eles têm um temperamento obviamente muito quente. […] os médicos empiristas fizeram precisamente a mesma observação, a saber que o mel é bom para um homem velho, mas não para um homem jovem, que é prejudicial para aqueles que são naturalmente biliosos, e útil para aqueles que são fleumáticos. (Galeno).

Para Galeno, o equilíbrio dos humores do corpo poderia ser afetado pela dieta, drogas, tempo e localização geográfica. Com intuito de conservar a saúde (manter o equilíbrio dos humores). Ele recomendava que se tomasse cuidado e moderação em relação a seis pontos: a) o ar e o ambiente; b) comida e bebida; c) sono e a vigília; d) movimento e o repouso; e) excreções; f) as paixões da alma. Essas foram consideradas “as seis coisas não naturais” para a conservação da saúde.

Um aspecto que merece ser mencionado é o interesse que Galeno manifestou pela physiognomia (relações entre o caráter do homem e sua aparência física), que teve início provavelmente durante o período em que ele estudava em Smyrna. Suas idéias sobre o assunto aparecem em diversas de suas obras. De acordo com Elizabeth C. Evans, o enfoque que Galeno deu à physiognomia está intimamente relacionado com suas concepções acerca dos humores. Segundo ela, muitas vezes o médico de Pérgamo misturava diagnóstico médico com idéias relacionadas à physiognomia. Isso transparece, por exemplo, em uma passagem do tratado Arte Médica onde Galeno discutia os sinais relacionados ao aquecimento do coração:

se muito calor domina, nessa direção existe uma raiva amarga e loucura e temeridade. Nessas pessoas o tórax é peludo e especialmente o peito e as partes próximas à praecordia. Em geral, o corpo todo se torna quente quando o coração está quente, exceto se o fígado está fortemente oposto a ele.

Galeno acreditava que as faculdades da mente estavam relacionadas às misturas ou temperamentos do corpo. As faculdades da alma estavam localizadas no fígado, coração e cérebro. Revendo as idéias de PlatãoAristóteles e estoicos, ele discutiu, por exemplo, porque a secura causava a sabedoria e a umidade loucura. Acabou concluindo que a mente podia ser danificada por aflições do corpo tais como alterações nos humores. Galeno utilizou paralelismos do homem com animais que estavam presentes nas obras aristotélicas tais como associar aspectos corpóreos a disposições como por exemplo, peito amplo e sangue quente à propensão à raiva; ancas achatadas e sangue frio à covardia. Outro aspecto que Galeno considerou foi a influência das regiões onde o homem vive sobre o seu caráter (covardia, coragem, amor ou prazer, movimentos da alma) determinando a disposição do corpo isto porque o sangue difere nos animais devido ao calor e frio, espessura ou fluidez, bem como sobre outros aspectos como pensava Aristóteles.

4. A teoria dos temperamentos no período pós-galênico

De acordo com Owsei Temkin, existe pouco material que indique como ocorreu o desenvolvimento das idéias médicas e filosóficas de Galeno durante o primeiro século e meio que se seguiu à sua morte. Entretanto, há indícios de que por volta de 350 d.C. ele era respeitado e considerado uma autoridade na Alexandria. Seus trabalhos foram traduzidos para o latim por autores como Oribasius, por exemplo. Algumas das concepções galênicas foram acatadas pelos árabes que as levaram para a Europa. Durante a Idade Média, de um modo geral, ele era respeitado como um grande médico e considerado o unificador da medicina. Neste período a concepção dos quatro temperamentos era bastante aceita e adotada. As idéias de Galeno continuaram sendo influentes até o século XIX quando deixaram de ser utilizadas pela maioria dos médicos. A noção de temperamento também foi discutida no âmbito teológico cristão medieval. Tomás de Aquino (1225-­1274) interessou-­se pelo assunto, sobretudo no que tange à questão das paixões da alma ou afetos e sua relação com o temperamento.

Galeno, no As Faculdades da Alma seguem os Temperamentos do Corpo, chegou a afirmar que a alma é tributária da substância corporal ao defender o princípio de que todas as faculdades da alma seguem os temperamentos do corpo. Esta afirmação colocou um problema para os teólogos cristãos, na medida em que contradizia a soberania da alma. Em consonância com a filosofia aristotélica, sobretudo no De anima, Tomás de Aquino reafirmou, no Comentário ao Tratado sobre a Alma de Aristóteles, I, 402 a 1, que as paixões são afeições próprias à união entre corpo e alma e que simultaneamente à paixão, mansidão, medo, compaixão, coragem, alegria, amor e ódio, o corpo sofre algum tipo de alteração. Isto não significa que a substância da alma possa ser considerada o temperamento, como o escrito citado de Galeno dava a entender.

De fato, na perspectiva galênica, os diferentes temperamentos produziriam as diferentes paixões, por exemplo, a ira decorreria do temperamento colérico e a tristeza adviria do temperamento melancólico. Mesmo não podendo identificar precisamente a causa, Galeno afirmava que as alterações afetivas e cognitivas são expressões da situação dos humores:

Após numerosas pesquisas, eu não descobri porque quando a bílis amarela se acumula no cérebro, somos acometidos de delírio, nem, no caso da bílis negra, sofremos de melancolia, nem ainda porque a fleuma e as substâncias refrigerantes em geral provocam a letargia que desencadeia a perda da memória e da inteligência. (Galeno).

Pessotti explica que, segundo Galeno, a função das emoções na alteração da crase humoral, se existe, é indireta. O efeito das experiências afetivas no corpo seria muito mediato, não diferente de uma alteração climática ou a ingestão de um dado alimento.

Tomás de Aquino, na Summa contra gentiles, refutava a possibilidade da essência da alma coincidir com as qualidades do corpo. Em primeiro lugar, porque as operações da alma excederiam as qualidades ativas e passivas que regem o temperamento; em segundo lugar, porque o temperamento seria constituído de qualidades contrárias e a alma tem forma substancial e não acidental, não admitindo, portanto, contrários em si mesma; terceiro, porque a alma moveria o animal em todas as direções e o temperamento não possui esta propriedade, e, finalmente, porque a alma regeria o corpo e resistiria às paixões que brotam do temperamento.

O pensador medieval ainda alegava que Galeno teria se equivocado ao não considerar que as paixões são devidas, algumas vezes, ao temperamento, outras vezes, à alma. Ao temperamento se atribui a causa disponente e o que há de material nas paixões, como por exemplo, o fervor do sangue. À alma se atribui a causa principal e a razão do que é formal nas mesmas, como o apetite de vingança com respeito à ira. Tal controvérsia persistiu na Idade Moderna, quando foram elaboradas novas interpretações da antiga tradição, que se prestaram a outros usos e sofreram modificações conforme as exigências dos campos de saber que a assimilaram. Os jesuítas, por exemplo, fizeram um uso da noção de quatro temperamentos integrada com a psicologia aristotélico-­tomista. No meio jesuítico, ficou definido, a partir da distinção fixada pelo coimbrão Manuel Góis, no seu comentário ao Parva Naturalia de Aristóteles, de 1593, que as paixões ou afetos teriam duas causas: uma formal, o impulso da alma; e outra material, uma alteração orgânica.

Aliás, na antiga Companhia de Jesus, a noção de quatro temperamentos foi amplamente utilizada no processo de seleção e administração dos seus membros. O respeito e o aproveitamento conveniente das características de cada um, na sua inserção no grupo, já era uma preocupação de Inácio de Loyola, fundador da Ordem dos jesuítas. As Constituições (1594/1997), conjunto de regras que organizam a vida na congregação, previam uma espécie de triagem para a atribuição de funções, visando o bom funcionamento da Companhia através do adequado posicionamento dos indivíduos. Conforme M. Massimi as categorias que regiam o procedimento dessa seleção e seu método, ao longo da história da antiga Companhia, estão presentes nos Catálogos trienais, geralmente elaborados pelos dirigentes das províncias e enviados à Cúria geral da Ordem, sobretudo o Catalogus Secundus, que descreve cada jesuíta conforme, em primeiro lugar, seu ingenium, juízo, prudência, experiência e cultura intelectual; em segundo, seu complexio, e, finalmente, suas capacidades peculiares, talentum.

É justamente sob a denominação genérica de complexio, uma das referências da psicologia prática dos jesuítas, entre outras, que comparecem os quatro temperamentos e suas combinações. Massimi explica que os dirigentes jesuítas utilizavam-se dessas categorias inclusive para selecionar os missionários a serem enviados para o Brasil, onde a empresa missionária jesuítica dependia de gente ativa, enérgica e comunicativa. Assim, os coléricos, coléricos-­melancólicos ou coléricos-­sanguíneos, por apresentarem características quentes, que inclinam ao ímpeto e à fluência de comunicação, eram considerados os mais adequados para enfrentar as novas e difíceis situações naturais e sociais do Brasil colônia. Já os fleumáticos, mais apáticos, eram encaminhados aos ofícios domésticos nas casas da Companhia e os poucos indivíduos melancólicos, mais voltados para o universo intelectual, trabalhavam nos colégios como professores. Os sanguíneos não tinham destinação prevista porque eram considerados inaptos para a vida religiosa, por serem julgados inconstantes e volúveis.

Ponderações sobre a noção de temperamentos são encontradas também no Industriae pro Superioribus eiusdem Societatis, Ad curandos Animae morbos, ou seja, Indústrias para os superiores da Companhia para a cura dos males da alma, do jesuíta napolitano Claudio Acquaviva (1542-­1615), que dirigiu a Companhia, desde 1581 até sua morte em janeiro de 1615. Nesse importante documento de ensino, destinado aos jesuítas em posição de comando da época, o padre geral discorre sobre a gerência e ordenação necessárias dos movimentos atribuídos à alma na vida em uma comunidade religiosa, tendo a tradição médica como modelo comparativo e fonte de exemplos.

Conforme Acquaviva, para o tratamento conveniente de um doente é imprescindível conhecer a qualidade da doença e a compleição do corpo, isto é, seu temperamento. Deve-­se averiguar se é sanguíneo e jovial ou triste e melancólico; colérico e violento ou fleumático e apático. É necessário investigar, igualmente, quanto tempo durou a doença e quais os remédios mais apropriados para curar ou prevenir alguma indisposição da alma.

Tal orientação valia para os diferentes males psíquicos que podiam acometer os religiosos, entre outros: melancolia, hipocondria, perda do desejo pelo trabalho ou indisposição para as relações interpessoais. Em caso de discórdias entre confrades, por exemplo, dever-se-­ia intervir e levar os reclamantes a examinarem em si mesmos as causas de desentendimento com o outro. As diferenças de temperamento eram respeitadas, mas não deveriam recobrir faltas pessoais na disposição para com o próximo. A busca das raízes dos problemas não deveria circunscrever-se a este nível, mesmo que alguém afirmasse que a diferença de compleição natural o impedia de confraternizar-se com o outro. Assim, as diferenças de temperamento eram levadas em consideração, mas não deviam ser, de modo algum, uma justificativa para todas as disposições e atos.

Acquaviva não compactuava com a hipótese da soberania do temperamento do corpo na determinação do caráter moral – o que se mostra coerente com a psicologia aristotélico­-tomista, renovada e sistematizada pelos filósofos de Coimbra, que prevê a possibilidade desejável do domínio da razão sobre os apetites e movimentos afeitos ao corpo. Preocupado com a coesão e o progresso espiritual do grupo sob sua responsabilidade, Acquaviva sustentava que os religiosos deveriam superar a condição dada pelo temperamento, portanto pela composição natural do corpo, e manter-se em harmonia com o conjunto.

O tema dos temperamentos também esteve presente nos sermões do jesuíta português Antônio Vieira (1608­-1697), que circulou entre capitais europeias, como Roma, Paris e Lisboa, e postos avançados das missões na Bahia e no norte do Brasil. Vieira, em um sermão para a glorificação do missionário jesuíta São Francisco Xavier, afirmou que o sono é a imagem da morte e os sonhos são imagem da vida. Ele reafirmou a ideia antiga de que os sonhos retratam as disposições anímicas, as ações diurnas e os desejos do sonhador.

Vieira ainda afirmava que o tema dos sonhos guarda uma relação direta com os temperamentos: “O melancholico sonha coisas tristes e tragicas, o sanguinho sonha felicidades e festas, o colerico sonha guerras e batalhas, o fleumatico creio que não sonha, porque não vive”. (Vieira).

Do ponto de vista da caracterização do tipo físico e psíquico, a maneira como os jesuítas descreviam os temperamentos não era muito diferente do modo como os médicos do período o faziam. Embora não houvesse formação médica nas escolas jesuíticas, eles se interessavam pela medicina, sobretudo, pela sua vertente preventiva.

Nos manuais de regime de vida, muito difundidos na Itália do século XVI e, posteriormente, por toda a Europa, a atenção aos temperamentos era considerada uma orientação importante para a preservação da saúde. Isso se devia, em parte, à influência da medicina galênica nesse ramo da arte médica dedicado à prevenção de doenças e, muitas vezes, prolongamento da vida. Como vimos, foi na tradição fundada na medicina de Galeno que ocorreu a sistematização das causas externas da alteração da saúde, as assim chamadas no meio bizantino, sex res non naturales, isto é: comida e bebida, ar e ambiente, esforço e repouso, sono e vigília, excreções e secreções e os movimentos da alma.

De qualquer modo, os livros de Galeno sobre a compleição corporal e influência das qualidades (seco, úmido, frio e quente) para a preservação da saúde faziam parte das primeiras edições impressas de sua obra, como a primeira edição latina que Filippo Pinzi realizou em Veneza em 1490 e a editio princeps grega, publicada pelo célebre veneziano Aldo Manuzio, em 1525. Sobre os temperamentos, em específico, há uma edição parisiense, Claudij Galeni Pergameni de Temperamentis libri III. De inaequali intemperie liber I. Thoma Linacro Anglo Interprete, por Christian Wechel, de 1545.

Na mesma época, algumas obras de Galeno foram traduzidas para as línguas vulgares alcançando, com isso, um público mais amplo, interessado em regras para preservar a saúde, sem precisar recorrer diretamente aos médicos. O D’alegrir le corps, atribuído a Galeno, publicado em Paris, em 1556, prometia a cura de doenças “pelo modo de vida”, sem ajuda de medicação.

Essa arte de bem viver, baseada no humoralismo e em preceitos filosóficos, fez enorme sucesso na primeira modernidade. Um dos princípios fundamentais era justamente o exame de si mesmo a fim de identificar o seu temperamento e optar pelos hábitos condizentes com o mesmo e, portanto, mais saudáveis. É o que prescrevia, entre outros, o Della complessione del corpo humano Libri III da quali a ciascuno sará agevole di conoscere perfettamente la qualitá del corpo suo, e i movimenti dell’animo e il modo di conservali del tutto sani, (1564) do médico holandês Levinio Lemnio, publicado em Veneza, em 1561, e reeditado em 1564.

De modo geral, nos regimes de saúde que circularam na Idade Moderna, lê-se que a administração das six res non naturales deve se adequar ao temperamento de cada pessoa. Ou melhor, o regime de vida conveniente não poderia ser efetuado sem o conhecimento das características de cada temperamento porque era segundo essas categorias se elegia o modo de se alimentar, o ambiente onde se vive, as atividades, a economia do repouso e a conduta moral, enfim, a maneira de viver.

Por essa razão o médico francês Porchon afirmava: “Regre seu regime conforme o seu temperamento”. Aos sanguíneos, quentes e úmidos, ele sugeria alimentos que diminuem o excesso de sangue, refrescam e secam o excesso de umidade do corpo. Aos coléricos, quentes e secos, ele recomendava ar frio, banhos, alimentos frescos, repouso e muita água. Para os fleumáticos, frios e úmidos, ele prescrevia alimentos quentes e secos, condimentados e acompanhados de vinhos fortes, pouco sono e muitos exercícios. Finalmente, os melancólicos, frios e secos, deveriam preferir alimentos quentes e úmidos, pouco salgados, além de evitar a tristeza, o medo, as preocupações, o isolamento e o excesso de sono.

Em um apêndice de seu manual, publicado pela primeira vez em 1684 e logo reeditado e aumentado em 1688, Porchon retomou a caracterização moral, senão psicológica, tradicionalmente atribuída a cada temperamento. Em poucas palavras: os sanguíneos teriam aparência avermelhada, seriam bem-humorados e motivados pelos prazeres dos sentidos. Os biliosos ou coléricos seriam magros, secos e de pele amarelada. Seriam também impetuosos, ambiciosos e orgulhosos. Eles aprenderiam com facilidade, seriam irascíveis e espertos. Os fleumáticos, por sua vez, seriam preguiçosos, fracos, de pequena estatura e obesos. Pouco amante dos estudos, eles seriam também sedentários, dormiriam bastante, teriam os sentidos amortecidos e o semblante pálido. Por último, os melancólicos seriam vocacionados para os estudos e apreenderiam todo tipo de coisa. Seriam também maldosos, tristes, calados, discretos, invejosos, avaros, tímidos. Além de dormirem pouco, teriam a pele escurecida.

De acordo com Dechambre, a teoria dos temperamentos foi sofrendo mudanças a partir dos séculos XV e XVI nos diversos sistemas médicos. Por exemplo, no iatromecanicismo*, Hofmann atribuía o temperamento colérico ao movimento enérgico das fibras. Zimmermann, discípulo de Albrecht von Haller, considerava o temperamento como “conseqüência da constituição do corpo através da qual o homem sente, pensa e age”. Dentro do vitalismo de J. J. Barthez, seria “uma forma especial, constante, das ações vitais”. Para Cabanis, havia seis temperamentos, sendo que somente um deles tinha relação com os quatro temperamentos tradicionais e correspondia ao fleumático.

* Concepção conhecida como iatromecanicismo, que foi de fato desenvolvida em 1701 pelo médico holandês Herman Boerhaave (1668 – 1738). Segundo ela, é por uma rede composta de fibras que trafegam as afecções sensíveis e o fazem por meio de contato e transmissão por vibrações. É irritando as fibras que os estímulos externos imprimem movimento, inclusive de reação, no corpo.

Mesmo no século XVIII, a ideia de temperamento persistiu no gênero dos regimes médicos. Francisco da Fonseca Henriquez, médico do soberano português D. João V, dedicou um capítulo de seu Âncora Medicinal para Conservar a Vida em Saúde à adequação dos alimentos a cada idade da vida e temperamento do corpo. Quanto ao último quesito, ele foi bastante conciso, mas ratificou a máxima antiga: “Do que fica dito das idades, consta qual seja de ser o alimento dos temperamentos. Os quentes e secos querem alimentos frios e úmidos e assim os mais pedem dieta de qualidades contrárias”.

Por outro lado, Henriquez também abordou os efeitos dos afetos na saúde e admitia que as paixões podem causar além de gravíssimos males ao corpo, morte repentina, e ainda a própria alteração do temperamento. Em suas palavras: “E não há dúvida que as paixões do ânimo comovem muito os humores, alteram o sangue e os espíritos e chegam a mudar a constituição e o temperamento do corpo, quando são excessivas e continuadas”.

No meio médico, a noção de temperamento também servia como categoria para compreender as relações afetivas. No De la maladie d’amour ou mélancholie érotique, de Jacques Ferrand (1575-1623), os quatro temperamentos servem de referência para compreender o comportamento dos indivíduos e o resultado da convivência entre os mesmos.

Finalmente as mais expressivas diferenças do amor advêm da variedade de compleição daqueles que são afligidos por esse mal. Se o sanguíneo ama seu semelhante, é um amor suave, gracioso e louvável. Mas se o bilioso ama um colérico, é mais uma servidão do que amor, tanto ele é sujeito a turbulências e cóleras, não obstante a sua semelhança de compleição. Não há tanto perigo no amor do colérico com o sanguíneo, estes serão tanto contentes, como descontentes. O amor do melancólico pelo sanguíneo é bom e gracioso, pois o sangue tempera a má qualidade da melancolia. Mas se elas se apegam ao colérico, é mais uma peste do que amor, o que acaba frequentemente em desespero. (Ferrand).

O livro de Ferrand, embora tenha sido muito criticado em sua própria época, é um exemplo típico de tratado médico moral do século XVII, no qual fundamentos da medicina humoralista são associados à doutrina moral dos afetos. Assim, o médico e homem político francês propôs, para tratar os sintomas dos males do amor, receitas de remédios para corrigir o equilíbrio dos humores, como purgantes, vomitivos, banhos, e águas minerais. Contudo, bem ao estilo dos adeptos da soberania da moral, ele terminou seu livro afirmando que o remédio supremo para todos esses males é a sabedoria e a prudência.

5. A teoria dos temperamentos no século XIX 

No século XIX, denominava-­se “humor” todos os líquidos que entram na composição do corpo humano, tais como o sangue, o quilo e a linfa, por exemplo e sua conotação era “estado, maneira de ser, mistura em certas proporções”. A Dechambre apresentou uma explicação para temperamento que considerou neutra, por não ser nem vitalista, nem organicista, nem solidista, nem fisiológica e nem química. Ele assim se expressou:

Os temperamentos são as diferenças entre os homens, constantes, compatíveis com a conservação da vida e a manutenção da saúde, caracterizados por uma diversidade de proporção entre as partes constituintes da organização, tão importantes a ponto de ter uma influência sobre as forças e as faculdades da economia. (Dechambre).

No final do século XIX e início do século XX apareceu a concepção dos quatro temperamentos (sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico) em Rudolf Steiner (1861­-1925). Suas idéias se apresentam tanto em suas obras dirigidas aos médicos como naquelas de cunho pedagógico ou filosófico. Embora não tivesse formação em medicina ou psicologia, Steiner, que foi filósofo, jornalista e educador desenvolveu uma concepção em relação aos temperamentos aplicada à pedagogia Waldorf. A primeira escola que seguia esta linha foi fundada em 1919.

Apesar de adotar a mesma terminologia empregada pela tradição hipocrático-­galênica, as concepções de Steiner são diferentes, já que ele pensava que os quatro temperamentos não eram determinados pelo predominância de um dos quatro humores (sangue, bílis amarela, bílis negra e fleuma) mas de um dos quatro membros constitutivos do homem (eu, corpo astral, corpo etérico e corpo físico). Com forte influência da Naturphilosophie, as concepções de Steiner não tinham base empírica.

6. Considerações finais 

Esta pesquisa reafirmou a visão de que o desenvolvimento das concepções de Galeno quanto à saúde e doença e sua relação com humores corpóreos e temperamentos teve suas raízes em alguns tratados do Corpus Hippocraticum, na ideia dos quatro elementos de Empédocles, em algumas concepções de Platão e de Aristóteles, incluindo a “biologia” do último. Além dos aspectos médicos também estavam presentes aspectos “psicológicos” já que a combinação dos humores no corpo (temperamentos) resultava em determinadas disposições ou personalidades. Outro ponto interessante que foi abordado por Galeno é a relação entre a aparência física e o temperamento.

Hippocrates and Medical Education

Assim, quanto à primeira afirmação que aparece na introdução deste artigo, pode-se se dizer que o “humorismo” se originou a partir das obras de Hipócrates, já que é bem possível que dentre as obras do Corpus, principalmente dentre as reunidas por Coulter no grupo III, estejam algumas que sejam de autoria de Hipócrates. Porém em relação ao “‘humorismo’ ter se mantido até o século XV” iremos discordar, assim como da segunda afirmação que considera o século XV como sendo “o século da decadência do reino de Galeno”.

A ideia de que saúde e doença estão relacionadas ao equilíbrio dos humores, que suas combinações ocasionam os temperamentos, relações entre o caráter do homem, temperamento, aparência física e afetos esteve presente na medicina ocidental muito além do século XV. Relações entre paixões da alma (afetos) e temperamentos aparecem não apenas na Idade Média em São Tomás de Aquino como continuam presentes no início da na Idade Moderna nas obras dos jesuítas, no século XVII em Acquaviva e Antonio Vieira e persistiu nos regimes médicos do século XVIII como o de Francisco da Fonseca Henriquez, por exemplo. A noção de temperamento foi aplicada tanto neste século como no anterior para compreender as relações afetivas. Ainda no final do século XIX aparece a mesma terminologia e a ideia da saúde estar relacionada ao equilíbrio na obra de Steiner.

Os exemplos históricos aqui apresentados, que constituem apenas uma pequena amostra dos exemplos que se encontram disponíveis, indicam que a noção de temperamentos não desapareceu no século XV mas permaneceu por muito mais tempo sofrendo modificações e adaptações. Embora, como dissemos na seção anterior, tais concepções tenham deixado de ser utilizadas pela maioria dos médicos no século XIX, até hoje são encontrados resquícios das mesmas. Por exemplo, as expressões como “bem humorado”, “mal humorado”, “temperamental” e o emprego de uma terapêutica que envolve laxantes, expectorantes, etc. Ou então a referência às pessoas como sanguíneas, coléricas, fleumáticas ou melancólicas, como ainda encontramos em autores do século XX.

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