Astrologia na Medicina e Psicologia

A Teoria dos Temperamentos em Steiner

Sandra Regina Kuka Mutarelli

Os Quatro Temperamentos na Antroposofia de Rudolf Steiner

Mestrado em História da Ciência
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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Resumo

Rudolf Steiner (1861-1925) foi um filósofo, jornalista e educador. Atualmente seu nome está associado ao movimento Camphill de educação curativa, sua arquitetura, vários estudos sobre religião, à agricultura biodinâmica e à medicina antroposófica.

O objetivo principal desta pesquisa é estudar as ideias de Steiner acerca dos quatro temperamentos, dentro de seu contexto histórico, procurando verificar até que ponto existem semelhanças e diferenças entre as concepções de Steiner e o conceito dos quatro temperamentos que faz parte da antiga tradição hipocrático-galênica.

Esta dissertação contém uma introdução e cinco capítulos. O capítulo 1 discute alguns aspectos da teoria humoral, da teoria dos temperamentos e seus desdobramentos. O capítulo 2 dá uma ideia geral do contexto de Steiner e trata de sua formação, carreira, interesses profissionais, bem como sobre algumas possíveis influências sobre seu pensamento. O capítulo 3 apresenta a concepção dos temperamentos em Steiner que aparece na obra Das Geheimnis der menschlichen Temperamente e suas relações com outros estudos do autor. Discute também a aplicação da concepção dos quatro temperamentos à educação. O capítulo 4 compara as ideias de Rudolf Steiner acerca dos quatro temperamentos com a concepção dos quatro temperamentos na tradição hipocrático-galênica. O capítulo 5 apresenta algumas considerações finais sobre o assunto.

Este estudo levou à conclusão de que, embora existam algumas semelhanças entre as duas concepções em relação a alguns pontos, existem também grandes diferenças. Por exemplo, em ambas concepções a terminologia empregada para se referir aos tipos de temperamentos é a mesma. Porém, enquanto na tradição hipocrático-galênica os temperamentos eram determinados pela predominância de um dos quatro humores (sangue, bílis negra, bílis amarela e fleuma), na concepção de Steiner eles eram determinados pela predominância de um dos quatro membros constitutivos do homem (corpo físico, corpo etérico, corpo astral e o eu). Além disso, verifica-se que a concepção dos quatro temperamentos de Steiner constitui uma ponte de integração entre saberes pedagógicos e os saberes sobre a constituição humana.

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Capítulo 3

A Teoria dos Temperamentos em Steiner

Este capítulo discutirá alguns pontos importantes que fazem parte da visão de Rudolf Steiner a respeito dos temperamentos. Iniciará apresentando a concepção dos temperamentos na obra O Mistério dos Temperamentos traduzida do original Das Geheimnis der menschlichen Temperamente. Descreverá cada um dos quatro tipos básicos de temperamento – colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático – segundo o autor. Fará uma comparação entre o significado deste termo em suas diferentes obras. Finalizará com a apresentação de suas ideias sobre a aplicação da concepção dos quatro temperamentos à educação.

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3.1 A Concepção dos Temperamentos em Steiner

O livro O Mistério dos Temperamentos é uma compilação de três conferências proferidas por Steiner em 1909. A primeira delas ocorreu em Munique no dia 9 de janeiro, a segunda em Karlshuhe no dia 19 de janeiro e a terceira em Berlim no dia 4 de março. Buscamos a transcrição individual de cada uma das conferências para poder verificar a exatidão da tradução para o português na obra O Mistério dos Temperamentos. Não encontramos a transcrição das duas primeiras conferências, porém, tivemos acesso à tradução em inglês da conferência proferida em Berlim, traduzida com o título The Four Temperaments. Verificamos que o conteúdo desta obra é equivalente à compilação das três conferências no livro O Mistério dos Temperamentos.

Nestas conferências, Steiner defendia a ideia de que não é possível conhecer o homem, ou conhecer um pouco em que consiste a essência da natureza humana, ou nas suas palavras, “decifrar esse enigma do homem”, considerando o que há de geral em sua essência. Também não é possível conhecê-lo considerando o que há de individual em sua essência. A única forma de conhecê-lo é no encontro com outro homem, na sensação e no sentimento que se tem em cada encontro com outra pessoa. Pois cada ser humano é, ao mesmo tempo, um enigma para os outros e para si próprio, devido à natureza da essência peculiar a cada um. Steiner assim se expressou:

Ao observar a vida humana com olhar abrangente, devemos ficar especialmente atentos a este enigma individual do ser humano, porque toda a nossa vida social, o nosso comportamento de pessoa para pessoa deve depender mais de como, em cada caso isolado, somos capazes de aproximar-nos, não só com a razão, mas com o sentimento e a sensibilidade, desse enigma único que é cada homem com quem cruzamos muitas vezes todos os dias e com quem frequentemente temos de lidar.

De acordo com Steiner, as características e qualidades herdadas dos pais, avós, e demais antepassados mostram apenas um lado da natureza humana. Este lado, envolve como uma capa o núcleo essencial da entidade humana, o que é mais inerente, mais íntimo ao cerne espiritual da mesma. Este núcleo é algo que vem de existência em existência e que pode ter sido vivido num mundo totalmente diferente (é a chamada lei das reencarnações). Steiner acreditava na transmigração e reencarnação da alma. Assim, todo o ser humano, ao entrar na vida física, já havia passado por uma sucessão de vidas anteriores.

Ao nascer, ao receber o corpo físico, o homem precisa adaptar-se a esses dois lados da entidade humana. Precisa adaptar-se e estabelecer um vínculo entre a sua individualidade e a natureza genérica em que é inserido por nascimento, por meio da família, povo e raça a que pertence. É necessário que haja uma intermediação para que esta adaptação seja possível, algo que imprima uma fisionomia de sua individualidade mais íntima unindo as duas correntes – a corrente hereditária e a corrente das vidas passadas. Esta intermediação, ou aquilo que está entre as duas correntes, é o temperamento. O temperamento estabelece uma ligação entre todas as qualidades interiores (que o homem trouxe de suas encarnações precedentes) e o que a linha hereditária (características herdadas) lhe traz. Para Steiner, o temperamento equilibrava o eterno com o passageiro. Steiner explicou:

Vemos, portanto, no homem com que nos defrontamos no mundo, a confluência de duas correntes. Por um lado, vemos nele o que ele recebe de sua família; por outro lado, o que é desenvolvido a partir da essência mais íntima do ser humano – uma quantidade de predisposições, qualidades, aptidões interiores e destino exterior. É preciso conseguir um equilíbrio. Essas duas correntes confluem; todo homem é composto dessas duas correntes.

Segundo Steiner, no momento em que a corrente hereditária e a corrente de experiências passadas se unem, elas se tingem mutuamente. “Assim como o azul e o amarelo se unem formando o verde, as duas correntes se unem, formando o que se chama de temperamento”. Portanto, por meio das qualidades dos temperamentos, a individualidade tinge as características transmitidas de geração em geração.

O temperamento, ou a natureza da essência peculiar de cada ser humano, é, portanto, uma coloração fundamental da personalidade humana que atua em todas as manifestações individuais na vida de cada homem. Steiner explicou:

E aí, no grande espaço existente entre o que se chama de natureza humana em geral e o que se nos defronta em cada ser humano em particular, vemos também muita coisa semelhante em grupos humanos inteiros. A essas semelhanças pertencem as qualidades da entidade humana que hoje constituem o tema de nossas observações, e que normalmente chamamos de temperamento do homem.

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Ainda segundo Steiner, pelo fato de as duas correntes confluírem no homem quando este penetra no mundo físico, surge uma mistura variada dos quatro membros essenciais do homem – corpo físico, corpo etérico, corpo astral e eu – obtendo um deles o domínio sobre os outros e imprimindo nele seu matiz. Steiner considerava que “é justamente na maneira como o eterno e o efêmero se mesclam que temos a relação dos membros entre si”, conforme predomine este ou aquele membro, deparamo-nos com um homem que tem este ou aquele temperamento. Ele esclareceu:

Se as forças, ou seja, se os diversos meios de poder de um ou de outro [membros] predominam, tendo preponderância sobre os outros, disso depende a coloração típica da natureza humana, que chamamos de verdadeira coloração do temperamento. A essência arquetipicamente eterna do ser humano, a que vai de encarnação em encarnação, é vivida em cada nova encarnação de modo a provocar uma determinada ação recíproca dos quatro membros da natureza humana – eu, corpo astral, corpo etérico e corpo físico; e a partir de como esses quatro membros interagem surge o matiz do homem, que chamamos de temperamento.

Ainda segundo o autor, o corpo físico e o corpo etérico fazem parte da corrente hereditária. Pode-se constatar isso, principalmente, no corpo físico do homem no qual normalmente é possível perceber as semelhanças com os pais, tios, etc. O corpo etérico, por sua vez, está intimamente ligado ao corpo físico, visto que é ele que impede o mesmo de perecer, degenerar. O corpo astral está mais ligado a corrente das vidas passadas, ao núcleo essencial do homem. Ele é como um mediador interno que irradia suas qualidades essenciais para o exterior. O eu é o corpo que paira acima de todos. É nessa ação recíproca dos quatro membros que se encontra, na concepção de Steiner, o “enigma do homem”, o verdadeiro “mistério dos temperamentos”, ou a força dos temperamentos que atua individualizando cada ser humano. Ele explicou então como se formam os temperamentos:

Através dessa ação recíproca entre corpo astral e eu, entre corpo físico e corpo etérico, através dessa confluência das duas correntes, surgem na natureza humana os temperamentos. Eles são, portanto, algo que depende da individualidade humana, que se incorpora na linha hereditária geral. Se o homem não pudesse moldar sua essência interior desse modo, todo descendente seria apenas o resultado de seus antepassados. E o que é então formado, o que atua individualizado, é a força do temperamento; aí reside o mistério dos temperamentos.

Apesar do homem trazer em si todos os membros, em geral, um se sobressairá mais do que os outros. Por isso, na teoria antroposófica dos quatro temperamentos, denomina-se a pessoa segundo o mais incisivo deles. Portanto, para entender os quatro tipos básicos dos temperamentos – melancólico, sanguíneo, colérico e fleumático – de acordo com a concepção de Steiner, é preciso conhecer cada um dos quatro membros da entidade humana – corpo físico, corpo etérico, corpo astral e eu – pois, eles também se expressam externamente no corpo físico.

Quando o “eu” do homem predomina em relação aos outros membros na natureza humana tetramembrada, surge o temperamento colérico. Quando o corpo astral predomina, atribui-se ao homem um temperamento sanguíneo. Quando o corpo etérico ou vital atua em excesso sobre os demais, surge o temperamento fleumático. E, quando o corpo físico predomina, surge o temperamento melancólico.

Embora o temperamento flua de dentro para fora, a primeira impressão é a de que ele é externo e se manifesta no que se pode observar de fora. É possível sentir algo desse humor básico no encontro com outro ser humano. Steiner comentou:

“[…] mesmo tendo que admitir que os temperamentos brotam do íntimo do homem, eles se expressam exteriormente nele em tudo o que nos aparece diante dos olhos.

Com isso, é possível concluir que, entender os temperamentos a partir do predomínio de um dos quatro membros constitutivos do ser humano, possibilita não apenas perceber como o temperamento se manifesta na imagem exterior do homem, na sua forma física; mas, também, identificar predisposições e características pertencentes a cada um dos quatro temperamentos atuando na individualidade de cada ser humano.

Portanto, trataremos agora da coloração que cada um dos quatro temperamentos básicos imprimem na aparência física, nas características e predisposições do homem, de acordo com as ideias de Rudolf Steiner. Apresentaremos inclusive, o que o autor considera como um perigo pequeno e um grande de degeneração de cada temperamento, que pode ser causado devido à um endeusamento da unilateralidade do temperamento.

Devemos levar em consideração, também, o alerta que Steiner fez com relação ao fato dos temperamentos não ocorrerem de maneira pura. Ele afirmou que não é possível generalizar e garantir que todo colérico é baixo, ou tem olhos escuros como carvão, etc., pois só é possível comparar a figura do homem com seu próprio crescimento. Para isso, é preciso saber qual é a relação do crescimento com a configuração toda. Steiner esclareceu:

Cada pessoa tem como tônica apenas um dos temperamentos e, além desse, possui um pouco dos outros. Napoleão, por exemplo, tinha muito de fleumático, embora fosse um colérico. Quando dominamos a vida em seu lado prático, é importante que possamos deixar atuar em nossa alma aquilo que se expressa fisicamente.

Steiner considerava que “toda a multiplicidade, a beleza e toda a riqueza da vida são possíveis somente graças aos temperamentos”.

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3.1.1 A concepção do Colérico em Steiner

No temperamento colérico, há a predominância do quarto membro da entidade humana, que é o eu. É ele que proporciona ao homem dizer “eu” de si próprio e chegar à independência. Este membro pertence exclusivamente ao homem, isto é, com o eu o homem fica acima de todas as criaturas dos reinos mineral, vegetal e animal. O sangue em sua circulação, a força de pulsação do sangue é o que se pode ver fisicamente como portador do verdadeiro eu. Por esse motivo, no colérico é a circulação, ou a força de pulsação do sangue, que confere a tonalidade do corpo físico. O eu é o portador do atuar e do querer dirigidos ao exterior. Steiner escreveu:

Num homem assim – em que espiritualmente o eu e, por assim dizer, fisicamente o sangue é atuante – vemos a força mais íntima manter sua organização com robustez e energia. E ao se defrontar assim com o mundo exterior, ele desejará fazer valer a força de seu eu. Essa é a consequência desse eu. Com isso o colérico se comporta como um homem que quer impor o seu eu em todas as circunstâncias. Da circulação do sangue deriva toda a agressividade do colérico, tudo o que está relacionado com a natureza volitiva forte do colérico.

Na pessoa de temperamento colérico, o eu se fortalece gerando um centro forte e firme no interior do homem. Com isso ele impede o corpo astral e o corpo etérico de se desenvolverem. Ao impedir o desenvolvimento do corpo etérico e do corpo astral, as forças formativas do homem se tornam limitadas, impedindo o crescimento dos outros membros do homem, tornando-o pesado e, com frequência, baixo. Por isso, na aparência física exterior do colérico, normalmente, tem-se a impressão que o crescimento foi detido. Steiner citou como exemplos de temperamento colérico o filósofo alemão Johann Gottlieb Fichte e Napoleão.

Normalmente, os olhos do colérico são escuros como o carvão, pois a predominância do eu em relação ao corpo astral, impede o surgimento das cores. Ao mesmo tempo, como o colérico volta toda a luminosidade para o seu interior, para o seu centro, ele costuma ter uma maneira firme e segura de olhar. O olhar do colérico também é ardente e brilhante.

Com relação aos traços fisionômicos do colérico, Steiner explicou que são bem talhados. Seu andar é firme como a força vigorosa do eu. Ele comentou:

Quem é versado no assunto chega a conhecer pelas costas quem é colérico. O passo firme anuncia, por assim dizer, o colérico. Também no passo vemos a expressão da força vigorosa do eu. Na criança colérica já podemos ver o passo firme, como se ela não apenas pusesse seu pé no chão, mas pisasse com tanta força por querer forçar o passo mais um pouco chão adentro.

O perigo menor de degeneração do temperamento colérico é seu eu ser moldado pela natureza irascível. Isto ocorre quando a pessoa não consegue dominar seu temperamento colérico na juventude. O perigo maior é a obsessão de perseguir um único objetivo seja ele qual for: “O mais radical do temperamento colérico consiste em todos os ataques da natureza humana doentia que vão até à fúria violenta”.

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3.1.2 A concepção do Sanguíneo em Steiner

No temperamento sanguíneo, há a predominância do terceiro membro da entidade humana, o corpo astral, portador de tudo o que é prazer, sofrimento, alegria e dor, instintos, impulsos, paixões, desejos, enfim, todas as sensações e representações que comovem o homem. Ele é considerado pela Antroposofia como um corpo real dos impulsos e desejos. Ele é um membro anímico-espiritual, responsável pela construção do corpo físico. Este membro o homem tem em comum com o reino animal. O corpo astral também poderia ser chamado de corpo do sistema nervoso. Por esse motivo, no sanguíneo é a parte ativa do sistema nervoso que confere a tonalidade ao corpo físico.

Para entender melhor o corpo astral, é preciso entender também a influência que este sofre do eu, ou melhor, a relação existente entre o sistema nervoso e a circulação do sangue. Para Steiner, a circulação sanguínea, o sangue que flui no homem, é o que põe freio no que se expressa no sistema nervoso. Ele comentou que “o sangue refreia a vida flutuante de sensações e sentimentos, é o domador da vida nervosa”. Por isso, se o corpo astral tem uma atuação excessiva, o sangue não consegue levar o sistema nervoso a um equilíbrio completo, isto é, não consegue refrear por completo a flutuação dos sentimentos e sensações. Quando isto acontece no homem, este homem não consegue deter-se numa coisa só. Ele demonstra um interesse intenso por alguma coisa, porém momentâneo, transferindo rapidamente este interesse para outra coisa e, em seguida, para outra coisa, mostrando uma inconstância dos sentidos. Steiner escreveu:

Nesse entusiasmo súbito e nessa passagem fugaz de uma coisa para outra vemos a expressão do corpo astral predominante, o temperamento sanguíneo. O sanguíneo não consegue demorar-se numa impressão, não consegue fixar-se numa imagem, não prende seu interesse a um objeto. Ele passa de uma impressão a outra, de uma ideia a outra, mostrando uma volubilidade dos sentidos. Podemos observar isso sobretudo na criança sanguínea; e pode causar-nos preocupação o fato de que nela o interesse facilmente desperta, facilmente uma imagem começa a atuar, a causar logo uma impressão, mas que, no entanto, essa impressão desaparece rapidamente.

No sanguíneo o corpo astral plasma livremente, com uma mobilidade que imprime leveza, alegria e felicidade. O corpo astral plasma livremente no sangue fazendo com que o interior se exteriorize. Podemos perceber isto, claramente, no brilho do olhar, na alegria e felicidade interior que brotam do olhar da pessoa de temperamento sanguíneo.

De acordo com Steiner, os traços faciais do sanguíneo são móveis, expressivos, mutáveis e, na criança sanguínea muitas vezes encontramos uma certa “possibilidade interior” de mudar a fisionomia.

No sanguíneo predominam os olhos azuis que estão intimamente ligados à luz interior do homem com a luz do corpo astral.

A figura do sanguíneo é normalmente esbelta, seus músculos são esguios. Seu andar demonstra a leveza e a mobilidade interior do corpo astral. Ao comparar o temperamento sanguíneo ao colérico Steiner explicou:

No sanguíneo, ao contrário [do colérico], temos um andar leve e saltitante. No andar saltitante, dançante da criança sanguínea, vemos a expressão do móvel corpo astral. O temperamento sanguíneo se distingue com especial vigor na idade infantil.

O perigo menor de degeneração do temperamento sanguíneo é a volubilidade, a inconstância. O perigo maior é a alienação mental causada pelos altos e baixos das oscilações das sensações.

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3.1.3 A concepção do Fleumático em Steiner

É o corpo etérico ou vital que predomina no temperamento fleumático. Ele é o primeiro membro suprassensível. É ele que impede o corpo físico de perecer, ligando-se a ele durante toda a vida como um construtor, um plasmador do corpo físico. Ele luta constantemente contra a decomposição do corpo físico evitando que o corpo físico siga as leis e as forças físicas e químicas. Nele encontram-se os membros superiores suprassensíveis da natureza humana. Estes membros são tão reais e essenciais quanto o corpo físico. Ao coração físico subjaz um “coração etérico”, ao cérebro físico subjaz um “cérebro etérico”, etc.

O corpo etérico não é visível aos olhos exteriores, mas ele existe e pode ser percebido aos olhos do espírito. Este corpo também poderia ser chamado de corpo do sistema glandular, o homem o tem em comum com o reino vegetal. Por esse motivo, no fleumático é o sistema glandular que confere a tonalidade ao corpo físico.

O corpo etérico ou vital é o membro que regula interiormente os processos de crescimento e vida. É ele que causa no homem o bem-estar e o mal-estar, ele tem uma espécie de vida interior. A pessoa em que este membro predomina se sente tentada a querer permanecer comodamente em seu interior. Seu bem-estar é estar imersa dentro de si. Steiner esclareceu:

Quando, então, esse corpo etérico – que age como corpo vital e mantém equilibrada cada função – prevalece, […] pode ocorrer que esse homem viva de preferência nesse bem-estar interior, sentindo-se tão bem, quando em seu organismo tudo está em ordem, que se sinta pouco impelido a dirigir seu interior para fora, estando pouco disposto a desenvolver um querer vigoroso. Quanto mais confortável se sente um homem em seu interior, mais consonância criará entre o interior e o exterior. Quando é esse o caso, quando isso é almejado em excesso, estamos lidando com um fleumático.

Como as forças formativas interiores do bem-estar estão demasiadamente ativas e acima do normal, devido a predominância do corpo etérico, o que o sistema glandular produz acaba se agregando ao corpo humano, tornando-o corpulento, inflando-o, provocando um acúmulo de gordura. Por isso, o fleumático é normalmente corpulento.

O andar do fleumático é desleixado, arrastado. Por viver imerso em seu interior, ele não se relaciona com as coisas e parece não querer pisar no chão.

A fisionomia da pessoa de temperamento fleumático é imóvel, indiferente. Seu olhar, normalmente, é apagado e incolor. O fleumático está voltado para o seu interior, para os processos do sistema glandular, não tem interesse pelas coisas do mundo. Não quer sair de seu interior.

O perigo menor de degeneração do temperamento fleumático é a falta de interesse pelo mundo exterior. O perigo maior é a debilidade mental, a idiotia.

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3.1.4 A concepção do Melancólico em Steiner

É o corpo físico que predomina na pessoa de temperamento melancólico. O corpo físico, na Antroposofia de Rudolf Steiner, é aquilo que o homem tem em comum com toda a natureza exterior. Ele é uma soma das leis químicas e físicas e é o que o homem tem em comum com o reino animal. É o único membro do homem que pode ser visto ao se encontrar outro ser humano. Para Steiner, a expressão do corpo físico se expressa nos órgãos sensoriais. Por esse motivo, no melancólico são os órgãos sensoriais que conferem a tonalidade ao corpo físico.

Quando o corpo físico opõe resistência aos demais membros do homem – ao corpo etérico, ao corpo astral e ao eu – o homem fica incapaz de vencer a rigidez de seu corpo, seu corpo se torna endurecido, denso. Com isto, Steiner alegava que, o homem interior não tem poder sobre seu sistema físico o que faz com que ele sinta obstáculos internos. Por não poder dominar seu corpo físico, ele sente sofrimento e dor. Essa dependência do interior ao exterior cria uma fonte de aflição interior, que é sentida por ele como dor e contrariedade, “como disposição tristonha”. Steiner esclareceu:

Somos muito facilmente tocados dolorosa e sofregamente pela vida. Certos pensamentos e ideias começam a tornar-se constantes; o homem começa a ficar pensativo, melancólico. Sempre existe aí, um emergir da dor. Essa disposição surge unicamente de o fato do corpo físico opor resistência à comodidade interna do corpo etérico, à mobilidade do corpo astral e à firmeza decisória do eu.

O melancólico não consegue dominar o corpo, não consegue fazer uso do próprio corpo. Sua cabeça normalmente pende para a frente, pois não dispõe de força para enrijecer o pescoço. É, principalmente, em seu olhar e no andar que se percebe o peso e as dificuldades que seu corpo físico lhe traz. Seus olhos são voltados para baixo e seu olhar é turvo. Seu andar, apesar de firme, é pesado, pausado e arrastado.

O perigo menor de degeneração do temperamento melancólico é a depressão, a possibilidade da pessoa não conseguir superar o que emerge de seu próprio interior. O perigo maior é a loucura.

3.1.5 A concepção dos temperamentos nas obras de Steiner

Em uma das primeiras obras de Steiner, Linhas Básicas para uma Teoria do Conhecimento na Cosmovisão de Goethe, publicada em 1886, encontra-se o que consideramos ser um primeiro esboço do que seria mais tarde a sua concepção dos temperamentos.

Neste livro, conforme exposto no capítulo 2 desta dissertação, Steiner propôs despojar o conhecimento humano do caráter meramente passivo que lhe é atribuído, e entendê-lo como uma atividade do espírito humano. Para ele, a verdadeira essência da ciência é a ideia, e não a matéria exterior percebida.

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Steiner utilizou o termo typus no capítulo cinco, “A Cognição da Natureza“. Este capítulo é dividido em duas partes: a natureza inorgânica e a natureza orgânica. É, justamente, na parte sobre a natureza orgânica que ele define o que é o typus. Porém, antes de utilizar este termo, ele defendeu a ideia de Goethe de que não é possível vir a conhecer a natureza orgânica da mesma maneira que se conhece a natureza inorgânica. Não se pode indagar para que serve um determinado órgão de um ser vivo, porém, pode-se indagar de onde ele surge. Portanto, não importa sua utilidade e sim como se desenvolve. Steiner assim se expressou:

Acredita-se na possibilidade de deduzir o caráter de uma determinada espécie a partir das condições externas em que ela viveu, da mesma forma em que se pode deduzir o aquecimento de um corpo a partir da incidência dos raios solares. Esquece-se completamente que nunca se pode demonstrar esse caráter, em suas determinações cheias de conteúdo, como uma consequência dessas condições. As condições poderão ter uma influência determinante, mas não são uma causa geratriz. Bem podemos dizer: sob o efeito desta ou daquela circunstância, uma espécie teve de desenvolver-se de modo a moldar este ou aquele órgão em particular; mas o conteúdo, o que se refere especificamente a um órgão, não se deixa deduzir das condições externas.

Steiner afirmou que ao estudar o meio ambiente de um ser é possível conhecer o “porque” desse desenvolvimento, ou a forma particular, mas não é possível conhecer a forma especializada. A forma especializada deve ser deduzida de um princípio interno, ela é algo em si e por si, ela tem certas propriedades. Dito de outro modo, a forma especializada não é determinada passivamente pelas influências externas, ela é determinada ativamente a partir de si mesma sob as influências externas. É nesse ponto que, Steiner sugere a utilização do termo typus para designar o que Goethe chamou de organismo geral, ou uma imagem geral do organismo, que contém dentro de si todas as formas particulares do mesmo. Steiner comentou:

Mas qual será este fundamento? Nada mais pode ser do que aquilo que aparece no particular sob a forma de generalidade. Mas no particular sempre aparece um organismo determinado. Esse fundamento é, portanto, um organismo na forma de generalidade – uma imagem geral do organismo, que compreende em si todas as formas particulares do mesmo.

O typus não é uma forma conceitual concluída, ele é algo geral e fluido, do qual derivam todos os gêneros e espécies particulares que podem ser consideradas como subtipos ou tipos especializados. Ele pode adotar as mais variadas formações, sendo infinito o número dessas formações. O typus é o interior do que vemos nas formas externas de todo ser vivo. Ele é o organismo primordial do qual todas as formas são consequências. Ele desempenha no mundo orgânico aquilo que a lei natural desempenha no mundo inorgânico. Steiner explicou:

Trata-se, porém, de algo especialmente diferente do que ocorre na natureza inorgânica. Lá se trata de mostrar que um determinado fato sensorial pode suceder assim, e não de maneira diferente, porque existe esta ou aquela lei natural. Aquele fato e a lei se defrontam como dois fatores separados, e não é necessário mais nenhum trabalho espiritual além de lembrarmos, ao vermos um fato, da lei que o rege. É diferente com um ser vivo e seus fenômenos. Aí se trata de desenvolver a forma isolada, que aparece em nossa experiência, a partir do tipo que tivemos de captar. Devemos executar um processo espiritual de uma espécie essencialmente diferente. Não devemos opor o tipo ao fenômeno isolado como algo pronto, qual a lei natural.

Steiner concluiu no final do capítulo 5 que, cada organismo isolado é a estruturação do tipo em uma forma particular, é uma individualidade que se regula e se determina a si mesma a partir de um centro. “É um todo fechado em si”.

No capítulo 6 desta mesma obra, “As Ciências Humanas”, Steiner prosseguiu afirmando que o homem não deve atuar sobre outro ser segundo normas exteriores, nem deve ser apenas a forma individual de um tipo geral. O que o homem é em si, o que ele é entre seus semelhantes, “ele precisa sê-lo por si mesmo”, pois é dele que depende a maneira como ele se encaixa no mundo. E para determinar sua participação no mundo, ele precisa conhecer o mundo espiritual, pois o “espírito ocupa no todo do Universo apenas aquela posição que, como indivíduo, ele atribui a si. Está é, segundo Steiner, a essência da liberdade. Pode-se concluir então que, o que importa não é a personalidade isolada, mas sim a personalidade em si. Steiner esclareceu:

[….] Não importa a ideia tal como se manifesta na generalidade (tipo), mas sim como se apresenta no ser singular (indivíduo). […] O tipo tem a determinação de se realizar tão-somente no indivíduo. A pessoa, que já é algo ideal, tem de conquistar uma existência baseada realmente em si mesma. É totalmente diferente falar de uma Humanidade em geral ou de um conjunto geral de leis que se aplicam à natureza. No último, o particular é condicionado pelo geral; na ideia da Humanidade, a generalidade é condicionada pelo particular.

Steiner argumentou que não se deve confundir o tipo com o conceito generalizado, pois é essencial ao tipo defrontar-se, como algo geral, com suas formas individualizadas. “O tipo se manifesta em formas individualizadas e nelas se encontra em interação com o mundo exterior”. Para compreender o tipo, deve-se ascender da forma isolada (particular, individual) à forma primordial (geral).

Steiner complementou explicando que o homem não pertence apenas a si mesmo, ele pertence também a sociedade em que vive. Desta forma, o que nele se revela, não é apenas sua individualidade, mas também a do grupo étnico a que pertence. Com isso ele concluiu que a constituição de um povo nada mais é do que seu caráter individual colocado em formas legais.

Está foi a única obra em que encontramos o termo typus. Parece-nos que, embora em alguns trechos o typus confunda-se com a ideia de tipo (tipos referindo-se às espécies), ao mesmo tempo, Steiner conceituou, gradativa e paulatinamente, as ideias que mais tarde ele publicou no livro O Mistério dos Temperamentos, na forma em que conceituou os temperamentos.

Em um artigo publicado na revista mensal Luzifer Gnosis em 1903, “Reencarnação e Carma”, Steiner procurou esclarecer a natureza do anímico-espiritual. O ser humano é mais do que um membro de sua espécie. Assim como o animal, ele compartilha as características de sua espécie com seus antepassados físicos, mas quando estas características terminam, aí começa para o ser humano sua posição única, sua tarefa no mundo. A partir de sua posição única, cessa qualquer possibilidade de explicação a partir do padrão hereditário físico-animal. Steiner comentou:

Eu posso saber de onde vem o nariz e o cabelo de Schiller, e até algumas características de seu temperamento, como traços correspondentes de seus antepassados, mas nunca sua genialidade. […] Esta é a direção na qual a psicologia deve prosseguir se deseja fazer um paralelo entre o postulado científico-natural de que “toda criatura viva origina-se do vivo” com o postulado correspondente de que “tudo da natureza da alma deve ser explicado pela natureza-da-alma”. Nossa intenção é seguir esta direção e mostrar como as leis da reencarnação e do carma, vistas sob este ponto de vista, são uma necessidade científico-natural.

Pode-se perceber que Steiner já situava o homem entre as duas correntes – a corrente hereditária e a corrente de suas vidas passadas, embora ainda não fique claro a intermediação do temperamento. O temperamento aparece aqui apenas como uma característica qualquer, e não como uma coloração peculiar da entidade humana, uma característica íntima individualizada.

No livro Teosofia, publicado em 1904, Steiner fez apenas uma menção aos temperamentos na parte em que trata das formas-pensantes e da aura humana. Ele escreveu a respeito:

A aura é bastante diversa de acordo com os temperamentos e índoles das pessoas, e também segundo os graus de evolução espiritual. Uma pessoa totalmente entregue a seus impulsos animais possui uma aura bem diversa daquele que vive imerso em seus pensamentos.

Infelizmente, não há nenhuma correlação dos temperamentos em relação à aura no livro O Mistério dos Temperamentos, portanto, não podemos dizer se Steiner manteve essa ideia ou, simplesmente, abandonou-a. Ao mesmo tempo, mostraremos na última parte deste capítulo que Steiner descrevia as crianças de temperamentos fleumático e melancólico como imersas dentro de si. A diferença entre os dois temperamentos é que no fleumático é uma imersão apática, como se a criança não estivesse pensando em absolutamente nada, como se estivesse totalmente concentrada no metabolismo de seu sistema glandular. No caso da criança melancólica, esta introspecção é ativa, é como se ela estivesse cismando por dentro, ruminando interiormente.

Em 1909, no artigo “A Educação da criança na luz da Antroposofia“, Steiner explicou a influência exercida pelo eu, que pode ser em maior ou menor grau, em todos os demais membros do homem – corpo astral, corpo etérico e corpo físico – no momento em que o ser humano é colocado em confronto com o mundo exterior. O eu trabalha sobre os demais membros transformando-os. A partir deste momento, o corpo astral passa a ser o veículo de sensações puras de prazer e dor, desejos e anseios. O corpo etérico também se transforma tornando-se o veículo dos hábitos, das inclinações permanentes, do temperamento e da memória. Steiner esclareceu:

Em suas primeiras manifestações, quando a criatura humana apenas começa a elevar-se em relação ao animal, e é muito semelhante a este no que corresponde a seus membros inferiores: seu corpo etérico ou vital é simplesmente o veículo das forças formativas do crescimento e da reprodução, e seu corpo astral só expressa aqueles instintos, desejos e paixões que a natureza externa estimula. Conforme o homem, por trabalho progressivo e através de encarnações sucessivas, se eleva a níveis cada vez mais altos, seu eu vai transformando os demais membros constitutivos. Assim, seu corpo astral se converte em veículo de sentimentos purificados de prazer e desprazer, de desejos e anseios refinados; seu corpo etérico, transformado, se torna o veículo dos hábitos, das inclinações permanentes, do temperamento e da memória.

De acordo com Steiner, ao ser colocado no mundo, o ser humano atinge o estado em que a formação e o crescimento do corpo etérico podem ser trabalhados em seu exterior pela educação. Ele explicou que modificação e crescimento significam o moldar e desenvolver das inclinações, dos hábitos, da consciência moral, do caráter, da memória e do temperamento. Para atuar sobre o corpo etérico desta forma, é necessário recorrer a imagens e exemplos que ordenem a fantasia da criança. Esta ideia será melhor explicada na seção 3.2 deste capítulo que trata da concepção dos temperamentos aplicada à educação.

O ano de publicação da obra mencionada acima é o mesmo das conferências compiladas no livro O Mistério dos Temperamentos (1909). De uma certa forma, Steiner complementou alguns conceitos, principalmente, no que diz respeito à interação dos quatro membros constitutivos do homem. Parece que ele atribui uma importância maior ao eu em relação aos demais membros – corpo astral, corpo etérico e corpo físico. Há uma hierarquização dos quatro.

O que diferencia as duas obras, substancialmente, é que Steiner introduziu a ideia do que mais tarde passou a ser conhecido como a Pedagogia Waldorf; o conceito de que pela educação podemos transformar o homem, seu caráter, seu temperamento.

A obra que mencionaremos a seguir, A Ciência Oculta, é bastante similar em seu conteúdo à obra A Educação da criança na luz da Antroposofia.

A Ciência Oculta – R$ 12,90

No capítulo 2, “A Essência da Humanidade”, do livro A Ciência Oculta, publicado em 1910, Steiner conceituou os temperamentos como as particularidades mais profundas do caráter do homem. Ele defendeu a ideia de que é possível trabalhar os quatro membros constitutivos – eu, corpo astral, corpo etérico e corpo físico – tendo em vista modificar o caráter e o temperamento do homem. Steiner comentou:

Um ser humano irascível enquanto criança conserva, muitas vezes, certos aspectos de irascibilidade em seu desenvolvimento posterior até à idade madura. Este fato é tão flagrante que certos pensadores negam peremptoriamente a possibilidade de o caráter básico de uma pessoa se transformar. Eles supõem que esse caráter se mantenha por toda a vida, apenas variando a manifestação para este ou aquele lado. Tal juízo, porém, baseia-se numa falha de observação.

Steiner afirmou que tanto o caráter quanto o temperamento se modificam sob a influência do eu, embora essa modificação seja lenta. Ele alegou que as forças que promovem essa modificação são as forças do corpo etérico – que podem ser comparadas com as forças reinantes no domínio da vida, isto é, as forças de crescimento, de alimentação e aquelas que servem à procriação. Steiner explicou:

Portanto, não é quando o homem se abandona ao prazer ou ao sofrimento, à alegria ou à dor, que o eu atua sobre o corpo astral, e sim quando as características dessas qualidades anímicas se modificam. Da mesma forma, a ação atinge o corpo etérico quando o eu dirige sua atividade para uma modificação de suas particularidades de caráter, de seu temperamento, etc. Também nesta última alteração atua todo o ser humano, quer tenha ou não consciência disso.

Ele comentou que, quando o eu se deixa influenciar – por exemplo, pelos impulsos emanados da religião ou pelas influências da arte – ele passa a atuar sobre o corpo etérico.

Depois Steiner só voltou a mencionar os temperamentos no final da terceira parte do livro: Sono e Morte. Nesta ele utilizou duas citações de Fichte para respaldar sua ideia de que o ser humano possui um centro interior e que, além das aptidões herdadas de seu pai, de sua mãe, etc. ele também carrega em si aptidões surgidas do íntimo de sua personalidade de suas vidas passadas. Logo a seguir as citações de Fichte, Steiner concluiu com suas próprias palavras que:

O íntimo do homem, que para cada indivíduo se origina de um fundamento primordial divino, ficaria totalmente alheio a tudo o que lhe adviesse durante a vida terrena. Só não seria o caso – quando o íntimo humano já tivesse sido ligado ao elemento exterior por não estar vivendo nele pela primeira vez. O educador sem preconceitos pode convencer-se claramente do seguinte: “Dos resultados de vidas terrenas anteriores estou oferecendo a meu aluno algo que, embora seja alheio às suas aptidões herdadas, faz surgir nele a sensação de ter estado presente ao trabalho do qual procedem tais resultados. Só as sucessivas vidas terrenas, em combinação com os fatos do âmbito espiritual entre elas, expostos pela pesquisa do espírito – apenas isso tudo pode dar uma explicação satisfatória da vida da humanidade atual observada sob todos os aspectos”.

No capítulo 2, The World Conceptions of The Greek Thinkers (“As concepções de mundo dos filósofos gregos”) do livro Riddles of Philosophy (“Os enigmas da Filosofia”), de 1914, Steiner alegou que o fato de Tales de Mileto considerar a água como princípio fundamental de todas as coisas, Anaximandro de Mileto o “infinito” (apeiron), Anaxímenes o ar e Heráclito o fogo, demonstra que estes homens viviam ainda no processo da gênese da concepção intelectual do mundo. Eles não conseguiam separar suas almas humanas dos processos da natureza.

No caso de Tales, o que se apresentava a ele como um evento natural, como o processo e natureza da água, ele experimentava de uma forma similar ao que ele sentia dentro de seu corpo e alma. Para Steiner, esta associação se deve ao fato dele experimentar em si uma entidade anímico-corpórea, e não um elemento alma.

Steiner afirmou que era possível perceber, na concepção de mundo de Tales, o que sua alma, que era afim ao temperamento fleumático, o motivava a experimentar interiormente. Ele experimentava em si o que aparentava ser para ele o mistério do mundo da água. Steiner afirmou ser, também, verdadeira a ideia de que um temperamento fleumático, associado a uma imaginação energética e objetiva, pode transformar um homem em sábio (filósofo), devido à sua serenidade, controle e autonomia de paixões.

De acordo com Steiner, Anaxímenes, por sua vez, experimentava em si o temperamento sanguíneo e Heráclito um temperamento colérico. Steiner discordou em relação à existência de uma associação entre os temperamentos e os quatro elementos, comentando:

Alguns consideram o temperamento melancólico, como ligado ao elemento terra; o fleumático, ao elemento água; o sanguíneo, ao elemento ar; e o colérico, ao elemento fogo. Estas não são meras expressões alegóricas. Eles não sentiam o elemento da alma completamente separado, mas experimentavam em si uma entidade anímico-corpórea como uma unidade.

Steiner prosseguiu comentando sobre outros filósofos gregos – Anaximandro, Xenófanes, Zenão de Eléia, Melissos de Samos, etc., porém, sem especificar o seu tipo de temperamento. Sua preocupação passou a ser a relação do pensar e do sentir em relação à natureza externa e em relação à natureza anímica do homem.

Para ele, Empédocles experimentou em sua alma um antagonismo, não aceitando a ideia de que a natureza era, realmente, o que o pensamento queria que ela fosse. Com Empédocles, a natureza da alma é estendida homogeneamente além de suas fronteiras e aparece em forças que separam e unem os elementos da natureza externa – ar, fogo, água e terra – causando com isso o que os sentidos percebem do mundo exterior.

No dia 21 de agosto de 1919, em um colóquio para professores, Steiner afirmou que no homem ideal reinaria a harmonia pré-estabelecida pela ordem cósmica. Porém, pelo fato da entidade humana não estar efetivamente acabada ao entrar no mundo físico, não existe ainda esta harmonia. A educação e o ensino devem servir, justamente, para transformar cada indivíduo em um homem completo, tendo como função primordial harmonizar os quatro membros do homem.

Neste livro Steiner descreveu cada um dos temperamentos em relação ao comportamento na criança que os possuí. Por tratar-se da aplicação da concepção dos quatro temperamentos à educação, os pontos abordados neste livro serão discutidos na última parte deste capítulo da dissertação.

Mark Grant comenta que pode parecer estranho à primeira vista que Steiner tivesse adaptado as teorias gregas a respeito dos humores às suas ideias educacionais porque em seus trabalhos ele frequentemente criticava a base clássica que estava presente no Gymnasium da escola alemã alegando que a vida econômica deveria brotar do tempo presente. Entretanto, Steiner considerava que como os gregos viviam, pelo menos até trinta anos, a conexão entre a alma e o corpo e o espiritual e o físico estava ainda intacta. Assim, eles podiam sentir a harmonia entre o corpo físico e espiritual às vezes até os quarenta anos, o que se traduzia na transformação de tudo o que era teórico em arte. Steiner acreditava então que, como os gregos apresentavam a união do corpo e espírito, suas teorias sobre os humores eram adequadas para serem adotadas pela Antroposofia.

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