Astrologia Medieval

Vícios e virtudes na teoria e na prática astrológica medieval

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Exemplos portugueses da dinastia de Avis (século XV)

Helena Avelar

FCSH – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa
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Resumo

Como sistema simbólico de interpretação, a Astrologia estabelece uma correlação entre a configuração dos astros e personalidade humana, com os seus vícios e virtudes. A cada planeta faz corresponder determinados defeitos e determinadas qualidades; da mesma forma, a cada temperamento correspondem virtudes e vícios específicos. No entanto, as características descritas pelo sistema astrológico medieval não representam condicionamentos rígidos, mas apenas inclinações: através do esforço pessoal e da oração, os vícios podiam transformar-se nas virtudes correspondentes. Quanto mais virtuoso fosse o indivíduo, tanto mais livre seria. E a chave para essa libertação era o conhecimento do mapa astrológico. Este conceito era expresso pelo ditado “o varão sabedor domina as estrelas”, muito popular no período medieval. Este artigo explora estes conceitos nas crônicas e nos escritos da corte de Avis.

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Vícios e virtudes no sistema astrológico

1 Todo o sistema astrológico assenta numa dualidade: a separação entre o Céu e a Terra. Esta separação, que constitui o primeiro passo da Criação descrito no Gênesis, é para muitos astrólogos medievais o primeiro passo para a explicação do sistema astrológico. Na sua perspectiva, o Céu e a Terra funcionavam com um sistema, em que os movimentos do primeiro eram «espelhados» ou «ecoados» pelo segundo.

2 Mas apesar de criados em simultâneo, o Céu e a Terra tinham naturezas muito diferentes: o Céu, com as suas estrelas, signos e planetas, era perfeito, eterno, incorruptível; a Terra, com tudo o que nela nasce, cresce, envelhece e morre, representava a impermanência, o decaimento. O Céu era, portanto, o exemplo da virtude sendo a Terra, por contraste, o espelho do vício. Esta dualidade vício-virtude serve de base a todo o sistema astrológico.

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Qualidades, Elementos, Temperamentos

3 Esta noção de vícios e virtudes existem também nas Quatro Qualidades: Quente, Frio, Seco e Úmido. Estas, por sua vez, combinam-se para formar os Quatro Elementos clássicos – Fogo, Ar, Terra e Água – e os correspondentes Temperamentos – Colérico, Sanguíneo, Melancólico e Fleumático:

Figura 1 – Qualidades, elementos e temperamentos.

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4 Assim, de forma muito simplificada, temos para cada elemento um conjunto de qualidades (virtudes) e os correspondentes defeitos (vícios):

5 O elemento Fogo, quente e seco, corresponde ao temperamento Colérico. É extrovertido, expansivo, auto motivado, mas também pode ser excessivo, impositivo, destrutivo.

6 O Ar, quente e úmido, corresponde ao Sanguíneo. É também extrovertido, mas mais adaptável, rápido, leve, comunicativo; também pode ser inconstante, incoerente e irresponsável.

7 A Terra, fria e seca, corresponde ao Melancólico. É introvertida, estável, confiável, eficiente, mas também pode ser triste, retentiva, derrotista.

8 A Água, fria e úmida, corresponde ao Fleumático. É introvertida, sensível, contemplativa, mas também pode ser inerte, passiva, paralisante.

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Signos, planetas e temperamentos

9 As Quatro Qualidades estão também presentes nos signos e nos planetas, em diferentes combinações. Desta forma, a Astrologia atribui a cada signo e a cada planeta uma natureza própria, com as correspondentes qualidades e defeitos.

10 Os temperamentos dos planetas são-lhes atribuídos da seguinte forma:

Figura 2 – Os planetas – suas qualidades e temperamentos.

11 Quanto aos signos, a sua relação com as qualidades e os temperamentos é a seguinte:

Figura 3 – Os signos – suas qualidades e temperamentos.

12 A relação entre os signos e os planetas pode exacerbar as virtudes ou os vícios por eles representado, dependendo da compatibilidade entre ambos. Assim, quando um planeta se encontra num signo compatível com a sua natureza, diz-se que está dignificado, e as suas virtudes são realçadas; quando está num menos compatível, diz-se que está debilitado, e os seus vícios tornam-se prevalentes.

13 Assim, temos:

Figura 4: Virtudes e vícios de cada planeta.

14 Os astrólogos medievais utilizavam todos estes fatores, devidamente ponderados segundo as regras astrológicas tradicionais, para determinar a personalidade de cada indivíduo, e por consequência, os seus vícios e virtudes inerentes. Esta determinação, contudo, não excluía a responsabilidade pessoal de cada indivíduo, que deveria procurar aperfeiçoar-se, desenvolvendo as qualidades e contornando os defeitos.

15 Não obstante, o mapa astrológico era por vezes evocado para justificar determinadas ações e atitudes, conferindo-lhes maior legitimidade.

16 Encontramos um exemplo disso na Crónica de D. Duarte de Menezes, onde um mapa astrológico é evocado para desculpar uma atitude pouco ética – um vício.

17 D. Duarte de Menezes (1414-1464), primeiro capitão de Alcácer Seger (atual Marrocos), era filho ilegítimo de D. Pedro de Menezes (1370-1432), primeiro governador de Ceuta. Quando voltou a Portugal, o conde prometeu ao filho o governo da Vila Real (Algarve, Portugal), o que representava uma considerável benesse. No entanto, rapidamente quebrou esta promessa e decidiu dar Vila Real a sua filha legítima, Beatriz, de quem muito gostava.

18 O cronista, Gomes Eanes de Zurara, explica esta inconstância através do mapa natal de D. Pedro: «a natureza daquelle conde que era de mudauees propositos ca nacera em signo de dous corpos na triplicidade do fogo».

19 Se considerarmos que os signos de dois corpos (isto é, os signos duplos) são Gémeos, Virgem, Sagitário e Peixes e que os signos de fogo são Carneiro, Leão e Sagitário, verificamos que o único que associa as duas características – dois corpos e Fogo – é o signo de Sagitário. O cronista refere-se, muito provavelmente, ao signo Ascendente do Conde, não ao seu signo solar.

20 A correlação entre os signos de dois corpos e a volubilidade está claramente indicada por vários autores usados na época como autoridades nesta matéria. Claudius Ptolomeu, por exemplo, refere no seu Tetrabiblos que: «os signos bicorpóreos fazem as almas complexas […] propensas a mudar de ideias». Outro autor largamente difundido na época, Ali ben Ragel, faz eco destas palavras no Libro conplido de los iudicios de las estrellas : «los signos comunales [signos de dois corpos] fazen los espiritos convertibles que’s cambian por que quiere e non se afirman en ninguna cousa, de diuersos asmamientos».

21 O cronista está, portanto, a afirmar que o signo de Sagitário (possivelmente no Ascendente) inclinava o conde Pedro de Menezes a ser inconstante. Oferece desta forma uma explicação e, ao mesmo tempo, uma desculpa para esta inconstância: a sua natureza inclinava-o a tal, pelo que não era inteiramente culpado.

22 Noutras ocasiões, as crônicas usam argumentos astrológicos para conferir ainda maior legitimidade a feitos já considerados gloriosos. É o caso da Crónica da Guiné, onde o mesmo cronista, Zurara, refere o mapa do Conde D. Henrique para justificar o seu relevante papel na expansão marítima portuguesa. O cronista apresenta cinco razões para explicar as ações de D. Henrique, todas elas de natureza política e econômica. E no fim acrescenta: «Mas sobre estas cinco razões, tenho eu a VIª, que parece que é raiz donde todalas outras procedem: e isto é, a inclinação das rodas celestiaes». Desta forma, atribui às «rodas celestiais», isto é, aos astros, um poder sobre todas as coisas da Terra.

23 E passa a explicar a referida «inclinação», com alguns detalhes do mapa de D. Henrique:

porque o seu Ascendente foi em Áries, que é casa de Marte, e exaltação do Sol, e que seu senhor está em a XIª casa, acompanhado do Sol. E porquanto o dito Marte foi em Aquário, que é casa de Saturno, e em casa de esperança, significou que este senhor se trabalhasse de conquistas cobertas aos outros homens, e secretas, segundo a qualidade de Saturno, em cuja casa ele é. E por ser acompanhado do Sol, como disse, e o Sol ser em casa de Júpiter, significou todos seus trautos e conquistas serem lealmente feitas e a prazer de seu Rei e senhor .

24 Neste trecho o cronista usa as posições planetárias do nascimento do Infante para justificar as virtudes de seus feitos. As suas conclusões estão inteiramente de acordo com as regras astrológicas tradicionais. Ao enunciar que Marte e o Sol, o planeta regente e o planeta da exaltação de Carneiro, o signo ascendente do Infante, estão na casa XI (casa muito favorável segundo a doutrina astrológica), Zurara exacerba as qualidades de conquista e de valentia (Marte). Acrescenta-lhe de seguida a virtude de Saturno, regente do signo de Aquário onde está posicionado Marte. Esta qualidade significou a sua aptidão por ações fora do alcance dos outros homens, como foram os descobrimentos marítimos. A virtude de Júpiter, regente do signo onde se encontra o Sol, foi indicador da sua lealdade ao rei, simbolizado pelo Sol.

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Vícios e virtudes na prática astrológica

25 Em Portugal, é da dinastia de Avis que nos chegam os exemplos mais notáveis do conhecimento astrológico no ambiente de corte, e consequentemente do debate entre as suas virtudes e os vícios da sua prática. Aqui vamos centrar-nos em duas figuras que espelham ponto de vista distintos relativamente à astrologia: o rei D. Duarte e seu irmão, o infante D. Pedro, regente do reino após a morte do primeiro. Ambos príncipes demonstram ter um conhecimento básico de astrologia e há evidencias que recorreriam às interpretações astrológicas para questões médicas e para tomadas de decisões. Quanto às possíveis fontes deste conhecimento, pouco se sabe. Seu pai, o rei D. João I, fundador da dinastia, cita três livros que estariam na base deste estudo: De Sphaera de Sacrobosco, um livro de ampla divulgação no mundo medieval e que explicava os rudimentos do sistema de esferas celestes e dos movimentos dos planetas; O libro cumplido em los iudicios de las estrellas de Aly ben Ragel, outro livro de grande circulação, traduzido para o castelhano por Afonso X de Castela; O Livro de estrolomia (astrolomia) de Joam Gil, outra obra introdutória sobre as esferas celestes e o sistema astrológico. Infelizmente as listagens da biblioteca de D. Duarte apenas referem dois livros de astrologia, sem mencionar o título ou autor.

26 Outra fonte provável seriam os físicos de corte, cuja prática astrológica está relativamente bem documentada nas crônicas e nos manuscritos astrológicos portugueses conhecidos.

27 No período medieval a Astrologia era praticada nas suas quatro vertentes: Natal (horóscopos de indivíduos), Mundana (horóscopos para determinar as condições políticas, econômicas e climatéricas de um dado reino ou região), Interrogações (resposta a perguntas diretas através do mapa astrológico do momento em que a pergunta é colocada ao astrólogo) e Eleições (escolha de momentos favoráveis para a realização de determinados eventos).

28 Por regra, a Igreja aceitava melhor a «Astrologia Natural», que integrava a Astrologia Mundana (sobretudo na sua vertente de Astro-meteorologia) e as Eleições Astrológicas, por considerar que permitia conhecer a vontade de Deus – e portanto obedecer-lhe. Em contrapartida, tendia a rejeitar a Astrologia Judiciária, que incluía a Astrologia Natal (particularmente na sua vertente preditiva) e as Interrogações, por considerá-la incompatível com a noção de livre arbítrio. Esta não era, contudo, uma regra rígida, até porque existiam muitos homens da Igreja que consultavam astrólogos e que, inclusivamente, praticavam eles mesmos astrologia. Em qualquer caso, a relação entre determinismo e questão do livre arbítrio deu origem a infindáveis discussões.

29 O rei D. Duarte (1391-1448) debateu longamente esta questão em vários dos seus escritos, designadamente no seu livro Leal Conselheiro:

das pranetas e das outras partes podemos seer enduzidos e tentados, mes nom costrangidos, porque principalmente fica todo em poder de nosso livre alvydro, nom nos costrangendo a predistynaçom, nem persciencia de Nosso Senhor Deos.

30 A sua preocupação, mais centrada no exercício do livre arbítrio do que na funcionalidade da Astrologia, é sobretudo de teor moral: o Homem tem de ter capacidade para gerir as inclinações dos astros, contrariando os vícios da sua natureza e reforçando as virtudes. Assim, noutra passagem do mesmo livro afirma que

é de teer sem duvida que as pranetas nos enduzem e dam inclinaçõ, a bem e a mal […] mas nom em tal guisa que nom possamos contradizer.

31 A existência de predestinação absoluta retiraria todo o mérito às ações humanas:

Se todo fosse [feito] constrangidamente, nem por nossos feitos haveriamos galardom ou pena.

32 Encontramos uma atitude consideravelmente mais tranquila perante a Astrologia no irmão deste rei, D. Pedro (1392-1449), que considera o Homem como parte integrante do Mundo Sublunar, estando portanto sujeito às suas contingências, tal como no seu livro:

Do mouimento dos çeeos continuado, se faz em a terra mudança do tempo, e uiuendo em elle as cousas corruptivees, sofrem em seus stados desvayradas minguas.

33 Para D. Pedro, a via para alcançar a ordem neste mundo corruptível é a compreensão das mudanças geradas pelos ciclos planetários: «sse nom fossem estas cousas [os astros] nom poderya seer ordenança». Os movimentos dos planetas são para D. Pedro os agentes da ordem no Mundo, sendo que a chave para a libertação dos constrangimentos mundanos reside, justamente, na compreensão dos seus ciclos.

34 Enquanto D. Duarte considerava errado e talvez mesmo ímpio levar em conta os movimentos dos astros para tomar decisões, D. Pedro encarava a Astrologia como um auxiliar para a tomada de decisões – um exercício de livre arbítrio, não a sua negação. Esta divergência de atitudes está bem patente em dois episódios relatados nas crônicas de Rui de Pina: a coroação de D. Duarte, em 1433, e a cerimônia de juramento do seu filho, Afonso V, em 1438.

35 Conta Rui de Pina na Chronica do Senhor Rei D. Duarte que a coroação deste rei estava marcada para a manhã do dia 15, dia de Nossa Senhora. Ao ter conhecimento da data, o astrólogo da corte, Mestre Guedelha, pediu-lhe que adiasse a cerimônia por apenas algumas horas, altura em que ocorreriam configurações planetárias mais favoráveis. D. Duarte teria recusado, alegando:

Nom dovido que ha Astronomia seja boa, e huma das Sciencias antre as outras permitidas e aprovadas, e que os Corpos inferiores são sogeytos aos sobrecelestes; porem ho que principalmente crêo, he seer Deos sobre todo.

36 Por outras palavras, D. Duarte levanta a sua habitual objecção: a dificuldade em conciliar a prática astrológica (mesmo nas suas vertentes mais lícitas, como é o caso das eleições astrológicas) com os preceitos da Igreja.

37 Segundo a crônica, Mestre Guedelha insistiu: «nom era grande inconveniente sobreserdes nisso huu pouco para se tudo fazer prosperamente, e como devya», mas D. Duarte mantevese irredutível:

Nom farei, pois nom devo, ao menos por não parecer que mingoa em my a sperança de firmeza que em Deos, e sua Fee devo ter.

38 O ponto central da sua recusa é a já referida preocupação de conciliar a prática astrológica com as questões religiosas. No fim, a vontade do rei prevaleceu e a cerimónia não foi adiada.

39 Em claro contraste com esta recusa está a atitude do infante D. Pedro na cerimônia de obediência de D. Afonso V, em Setembro de 1438, relatada por Rui de Pina, na Chronica do Senhor Rey Affonso V. Neste episódio, o cronista volta a mencionar Mestre Guedelha, que desta vez participa na cerimônia por pedido expresso de D. Pedro:

Mestre Guedelha, singular Fysico e Astrologo, por mandado do Yfante regulava, Segundo as ynfluencias e cursos dos Planetas, a melhor hora e ponto em que se poderia dar aquella obediência […].

40 Desta vez os conselhos do astrólogo são rigorosamente seguidos:

dizendo Meestre Guedelha, que era booã ora pera fazer sua obediencia, o Yfante com os giolhos em terra tomou as maaons ao Pryncepe […].

41 A divergência de atitudes entre D. Duarte e D. Pedro espelha os dilemas da sociedade do século XV face à Astrologia. Por um lado, estavam os que atribuíam à astrologia um determinismo absoluto, e que não conseguiam conciliar este fatalismo com o livre-arbítrio preconizado pela fé cristã; por outro, os que lhe atribuíam um valor relativo (mas claramente definido pelas regras astrológicas) e faziam essa conciliação sem dificuldades. Para estes últimos, a proporção de liberdade e determinismo de cada indivíduo dependia em grande parte da dinâmica de vícios e virtudes de cada indivíduo: os que dominavam os vícios e desenvolviam as virtudes, conseguiam libertar-se da sujeição dos «corpos inferiores».

42 O cronista Gomes Eanes de Zuzara aborda o tema na Crónica da Guiné:

posto que seja escrito que o barão sabedor se assenhorará das estrelas, e que os cursos dos planetas, segundo boa estimação dos Santos Doutores, não podem impecer ao bom homem, manifesto que é porém que são os corpos ordenados no mistério de nosso senhor Deus, e correm por certas medidas e a desvairadas fins, reveladas aos homens por sua graça, por cujas influencias os corpos mais baixos são inclinados a certas paixões.

43 Em suma, Zurara admite que alguns indivíduos podem suplantar as tendências induzidas pelos astros, visto que estas atuam sobre tudo «nos corpos mais baixos». A relação que Zurara estabelece entre a prática da astrologia e a Igreja é sem dúvida mais tranquila que a de D. Duarte. Sobre este ponto, afirma Zurara:

E por assim é, falando como católicos, que as contrairas predestinações das rodas do ceu, por natural juizo, com alguma divinal graça, se podem estorvar, muito mais de razão está que as proveitosamente predestinadas forem, por essa mesma graça, não somente seguirão seu curso, mas ainda se acreditarão muito mais.

44 A graça divina será portanto alcançada apenas pelos que forem piedosos e que, por sua fé e esforço, consigam erguer-se acima das suas paixões (ou seja, dos seus vícios), deixando assim de estar sujeitos às influências dos astros.

45 Para o cronista, ao ato de «dominar» as estrelas reveste-se assim de um significado positivo: o «barão sabedor», conhecedor das tendências pessoais expressas no seu mapa astrológico, usa este conhecimento de forma consentânea com a fé cristã, procurando melhorar-se e obedecer à vontade de Deus.

46 Esta relação em dois termos – aceitação da existência de correlações astrológicas e limitação do seu poder – espelha a principal linha de fractura do debate astrológico deste tempo: a conciliação dos princípios astrológicos com a fé cristã, expressa através do binômio determinismo / livre-arbítrio. No fiel da balança estão, mais uma vez, os vícios e as virtudes: os vícios fazendo pender para o determinismo (devido à submissão das paixões ao Mundo Sublunar), as virtudes libertando o Homem das limitações e oferecendo-lhe uma via para a transcendência.

47 Note-se que em momento algum este debate se afasta da temática determinismo / livre-arbítrio para ir por em causa a funcionalidade do sistema astrológico. Esta nunca é questionada, pois faz parte integrante da concepção medieval do Mundo.

48 Em suma, o sistema astrológico está codificado para descrever as virtudes e defeitos do ser humano apresentando uma metodologia complexa para determinar a qualidade individual de cada ser humano. Isto é feito primariamente pela avaliação da forças e fraquezas dos planetas no mapa natal do indivíduo; um planeta forte corresponde a uma expressão mais virtuosa, e um planeta fraco a uma expressão mais moralmente ambígua (sempre segundo a qualidade intrínseca do planeta em questão). Neste processo participam também outros fatores como os signos, que determinam qualidades segundo os seus atributos astrológicos. O mapa astrológico, que representa as diferentes combinações inerentes ao nascimento de uma pessoa, ou ao de um momento importante, torna-se a ferramenta para a interpretação das qualidades e defeitos representadas nas esferas celestes. Desta forma, torna-se recorrente o uso dos mapas astrológicos para justificar a escolhas morais de um indivíduo ou o valor de um acontecimento. As crônicas portuguesas quatrocentistas exemplificam cabalmente esta prática.

49 Por outro lado, a própria prática da astrologia, sobretudo face à religião é considerada ora como virtude ora como vício. Os escritos portugueses, dos primeiros reis da dinastia de Avis oferecem bons exemplos desta ambiguidade, sobretudo no discurso do rei D. Duarte que se debate com as questões morais do uso da astrologia, tão comum na sua época. Este rei coloca sempre em questão se a prática astrológica será uma mácula que atenta às virtudes do bom cristão.

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Bibliografia
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