Astrologia Medieval

A Astrologia na Idade Média

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A História da Astrologia

Serge Hutin

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Capítulo II

A Astrologia no Islão

Do mesmo modo que é, como se sabe, graças sobretudo aos Árabes que o Ocidente medieval poderá – através das traduções latinas de textos de autores muçulmanos – conhecer a alquimia, é principalmente ao Islão, também, que a Latinidade é devedora do seu contato com a astrologia.

Seria necessário, apesar de tudo, esclarecer, de algum modo, a expressão, tão consagrada pelo uso, de astrologia “árabe”.

Trata-se, é certo (como em relação à alquimia), de textos escritos em língua árabe, e por autores muçulmanos, mas que se dividem por muito diversas regiões – conquistados os diferentes países, de maneira transitória ou definitiva, pela religião islâmica. O desenvolvimento completo da astrologia árabe cobriria, portanto, não só uma vasta extensão temporal, do ano de 750 a cerca de 1550 d. C., mas levar-nos-ia, por seu turno, a muitas regiões. Não só do Médio e do Próximo-Oriente, do Norte de África, mas a zonas tão afastadas umas das outras como a índia Ocidental, por um lado, a Espanha, a Sicília e o Sul da França, por outro (no apogeu da conquista “sarracena”).

Seria também de notar que os primeiros astrólogos árabes (encaramos, aqui, a expansão da adivinhação astral em todos os países islamizados) diziam-se herdeiros, de facto, de fontes muito anteriores à predicação de Maomé. “Os neoplatónicos do Islão, que operam a síntese da especulação filosófica e da experiência espiritual, reivindicam expressamente – observa Henry Corbin, o eminente islamizante – uma cadeia de iniciação (isnâd) que remonta a Hermes”. E diz ainda: “Existe uma ideia do tempo cíclico solidária de uma concepção astrológica hermetista”.

É certo que o Corão proscreve explicitamente, entre as formas de idolatria, o culto prestado ao Sol e à Lua: “No número dos seus signos (do Demônio) estão a noite e o dia, o Sol e a Lua; não vos prosterneis, pois, nem diante do Sol nem diante da Lua, mas perante Deus, que os criou, se O quiserdes servir.”

Notar-se-á, no entanto, a influência nos primeiros astrólogos muçulmanos das crenças astrais (herdeiros do culto planetário babilônico e grego) dos Sabeus de Harran.

Mas não se poderia negar, também, a maneira como a crença muçulmana na predestinação parecia tão perfeitamente conciliável com a velha doutrina dos astrólogos (babilônicos, egípcios, depois gregos e romanos) sobre o rigoroso determinismo planetário que regeria o destino dos homens. Do ponto de vista metodológico, os astrólogos árabes utilizaram com perícia os métodos horoscópicos já aperfeiçoados pelos Gregos; mas aperfeiçoaram-nos ainda mais. Não esqueçamos a reputação histórica – tão justificada – dos Árabes do início a Idade Média em matéria de cálculo; também em matéria de horóscopos eles souberam calcular!

No apogeu da sua expansão, Bagdá, a esplêndida cidade dos califas, assistirá também ao florescimento da astrologia. O faustoso Harun al-Raschid (contemporâneo de Carlos Magno), entre outros “orientadores dos crentes”, será dela intitulado protetor. Bagdá assistirá mesmo à construção de um importante observatório, em que trabalharão astrólogos, o mais célebre dos quais é Albumasar (falecido no ano 886 da era cristã). O seu livro As Flores da Astrologia, traduzido em latim, devia beneficiar de uma longa glória póstuma na Europa, e viria a estar entre as primeiras obras impressas na Alemanha por Gutenberg.

A respeito de Albumasar, conta-se uma anedota edificante e maravilhosa a propósito do seu primeiro contato com o ilustre filósofo muçulmano que viria a tornar-se seu mestre em astrologia: Al-Kindi (nascido em Koufa cerca do ano 796, falecido em Bagdad em 873 da era cristã). Albumasar, fervoroso aluno de um médico da corte persa, havia ficado de tal modo indignado ao ouvir Al-Kindi criticar publicamente as opiniões do seu professor que, por dedicação fanática a este, decidiu matar o adversário. Para tanto, armou-se de um punhal, com a intenção de assassinar o dito Al-Kindi na própria sala onde dava os seus cursos. Este, olhando fixamente o recém-chegado, ter-lhe-ia dito: “Não és Albumasar de Balkh? Serás o maior astrólogo do século, mas deves renunciar ao teu mau desígnio. Deita fora o punhal, senta-te e aceita a minha doutrina.” Albumasar, se esta bela história tradicional é objetivamente verdadeira, ter-se-ia então inclinado, para se tornar desde logo o mais fiel discípulo de Al-Kindi. De toda a maneira, Albumasar foi um dos alunos mais distintos deste eminente filósofo e sábio universal. Albumasar é o nome latinizado do célebre astrólogo muçulmano: o seu verdadeiro nome era Abu Mash’ar al Balkhi. Principal tratado (em que o estudo das conjunções desempenha um papel importante): o Kitab al-Mudkhal, ou Introdução à Astrologia.

No apogeu da capital dos califas, e muito tempo depois, a astronomia e a astrologia estiveram ligadas no mundo árabe. Todos os astrônomos de Bagdá eram ao mesmo tempo astrólogos famosos. Nada podia, pelo contrário, impedir todos estes sábios árabes – o que fizeram à porfia – de tentarem aperfeiçoar, cada vez mais, a exatidão prática dos cálculos de Ptolomeu: não aconselhava o Corão que se alcançasse toda a precisão possível no conhecimento dos ciclos solares e lunares?

“Deus criou o Sol para que brilhe durante o dia e a Lua para que ilumine durante a noite. Determinou as suas posições de tal maneira que por eles se possa conhecer o número dos anos e calcular o tempo.”

De notar o papel privilegiado, como em relação aos outros ramos da filosofia e da ciência muçulmanas, das regiões seguintes (além da antiga Babilônia): a Pérsia, o Turquestão, o Egito, a Espanha (no tempo da dominação muçulmana). Verifica-se também a associação, muito frequente (para além, por vezes, dos laços com o sabeísmo de Harran), da astrologia ao sofismo, isto é, à mística e à teosofia islâmicas.

Indicamos alguns nomes de astrólogos autores de tratados em língua árabe. Abfl Sahl ibn Nawbakht, diretor da vasta biblioteca de Bagdá sob o reinado de Harun al-Raschid, traduziu em árabe diversos manuais escritos em iraniano-médio (pehlevi), mas eram já a tradução de autores astrológicos pagãos (as obras de Teucros, da Babilônia e as do astrólogo romano Vettius Valens, igualmente). Ibn Wahshiyya (cerca do ano 820 da era cristã), um dos mais eminentes representantes islâmicos da tradição hermetista, cultivou com fervor tanto a astrologia como a alquimia e a magia. Thâbit ibn Qarra (falecido em 901 a. C.), principal doutor da seita dos Sabeus de Harran, cultivou também a astrologia, não só no seu aspecto horoscópico, mas também nos seus laços com a magia (escreveu acerca da arte de realizar amuletos astrológicos).

Abu Ali Yacaoub ibn al Kayar (a quem os latinos chamarão Albohalí) (cerca do ano 850 da era cristã) escreveu um tratado de astrologia genetlíaca reputado, que viria a ter várias traduções latinas.

Rhazes (al-Rāzi) (nascido por volta de 864, falecido em 925 ou 932 da era cristã) foi um dos maiores médicos muçulmanos da Idade Média. Tanto nas suas obras astrológicas como nos seus tratados de alquimia, preocupava-se essencialmente com as consequências terapêuticas de um conhecimento profundo destas duas artes ocultas. Foi qualificado por antecipação de “Paracelso dos Árabes”. Teve entre os seus discípulos Abū ʿAbd Allāh Muḥammad al-Battānī (a quem os latinos chamam Albategnius), originário de Harran, e que professava a religião dos Sabeus. Para além das suas obras pessoais, deixou um extenso comentário do Tetrabiblos de Ptolomeu.

Abu Ali Mohamed ibn al-Hasan ibn al-Haytham (o Alhazen das traduções latinas), originário de Bácora, passou a maior parte da sua vida no Cairo, onde morreu em 1038 da era cristã, aos 76 anos. A vastidão e extensão dos seus conhecimentos astronômicos e astrológicos farão com que os Escolásticos cristãos o cognominem de Ptolemoeus secundos, o “segundo Ptolomeu“.

Um misterioso Abū-l-Qāsim Maslama, falecido em 1007 (era cristã) na Espanha, seria o autor do tratado Ghāyat al-Ḥakīm (Livro dos Sábios), que -traduzido em latim e atribuído a um misterioso Picatrix (como é designado)- viria a ter um imenso sucesso no Ocidente na Idade Média. Nele se encontra uma aliança bastante estranha entre a astrologia e as receitas mágicas, de supostas consequências extraordinárias. Eis uma das suas fantásticas fórmulas:

“Para destruir uma cidade, fazei uma imagem na hora de Saturno quando os infortúnios estão sob o ascendente da cidade e o Senhor do ascendente se encontra desventurado, fazei com que as fortunas sejam afastadas do ascendente e do seu Senhor; assim como a triplicidade do ascendente e das quarta, sétima e décima moradas. Enterrai depois estas imagens no meio da cidade e ver-se-ão maravilhas.”

Citemos também Abû Bekr al-Hassam ben Ali Kharib al-Farsi, Albubater na tradução latina, (cerca de 893 da era cristã), Ibn Yûnus (cerca de 990), autor de Tábuas Planetárias (al-Zīj al-kabīr al-hākimī), o matemático Ali ibn Aḥmad al-Imrani (cerca de 940), autor de De Horarum Electionibus -obra traduzida para o latim por Platón de Tívoli-. Omar Khayyām, o tão célebre poeta persa do século XI, também foi – convém não esquecer de o assinalar – um dos maiores astrônomos do seu tempo. É dele uma das expressões mais densas e cursivas do fatalismo astrológico:

“Esta taça invertida a que se chama o céu, debaixo da qual rasteja e morre a raça dos homens […]. Ele (o Destino) desloca à sua vontade as peças impotentes no tabuleiro de xadrez dos dias e das noites. Põe-nas em cheque, toma-as e joga-as, uma após outra, no seu alforje.”

A filosofia muçulmana teve, no entanto, dois adversários notáveis da astrologia: Biruni e Avicena em pessoa. Abū Rayḥān Muḥammad ibn Aḥmad Al-Bīrūnī (973-1030 da era cristã) teve uma polêmica com o astrólogo Albumasar. Este grande filósofo e sábio tradicional havia adotado, contudo, a velha doutrina dos ciclos cósmicos: “[…] atingir a concepção de períodos análogos àquilo que representam os Yugas na concepção indiana. Convicção de que, no curso de cada período, a humanidade se deixava arrastar a uma corrupção e a um materialismo que cada vez mais se agravava, até que um grande desastre destruía a civilização e Deus enviaria um novo profeta para inaugurar um novo período da História”.

Abū ‘Alī al-Husain Ibn ‘Abdallāh Ibn Sīnā (chamado Avicena no Ocidente), o célebre médico, alquimista e filósofo, também hostilizou a crença tenaz no rígido determinismo das ações humanas.

Quanto a Abū al-Walīd Muḥammad ibn Aḥmad ibn Muḥammad ibn Rushd (Averróis para os latinos) -nascido em Córdoba em 1126, falecido em 1198-, o mais célebre dos grandes filósofos médicos árabes da Espanha, atacaria, ele também, a astrologia dita judiciária, ou seja, a arte de elaborar horóscopos, mas desenvolve todo o sistema cosmológico que parece dar um fundamento físico às próprias bases da astrologia.

Dentre os astrólogos muçulmanos da Idade Média espanhola, poderíamos citar:

Abū Isḥāq Nūr ad-Dīn al-Biṭrūǧī al-Išbīlī (Alpetragius para os latinos), nascido cerca de 1200 d.C., que se esforçou por dar uma nova explicação do movimento dos planetas, e Al-Qabisi (Alcabitius), falecido em Saragoça 867. Obras: Risala fi al-ab’âd wa-‘l-ajrâm (treatise on distances and bodies), Kitāb fi ithbāt ṣinā’at Aḥkām al-nujūm (On Confirming the Art of Astrology), Hal al-Zîjat (Solving astronomical tables), Risāla fī imtiḥān al‐munajjimīn (A treatise for the examination of astrologers), Shukūk al‐Majisṭī (Doubts on the Almagest).

É em Tunes, em compensação, no palácio do Sultão Al-Mamur (1016-1062), que se desenrola a carreira de Albohazen Haly, ou Abenragel Haly (nome dados pelos latinos a Abū l-Ḥasan ‘Alī ibn Abī l-Rijāl al-Shaybani). A sua reputação de astrólogo tornou-se considerável mercê da obra dos Julgamentos dos Astros (Kitāb al-bāriʿ fī aḥkām al-nujūm) em oito livros, que lhe valeria os qualificativos tão elogiosos de Ptolemoeus alter (o outro Ptolomeu) e de Summus astrologus (o maior astrólogo).

A Espanha muçulmana desempenhou, sem qualquer dúvida, um papel capital na penetração crescente da astrologia na cristandade medieval. É ao astrólogo árabe Abū Isḥāq Ibrāhīm ibn Yaḥyā al-Naqqāsh al-Zarqālī (Arzaquel) que se devem as tábuas planetárias conhecidas pelo nome de Tábuas de Toledo, utilizadas tão frequentemente no decurso dos séculos seguintes.

A astrologia não desapareceu no Islão depois da Idade Média, mas não parece ter suscitado obra maior. (…), esta arte continuou a ser exercida em terra islâmica, tanto ao nível popular (aliança com toda a espécie de práticas mágicas e de superstições, por exemplo no Norte de África), como ao nível de arte divinatória complexa praticada por homens instruídos. Mas parece que a astrologia muçulmana se fechou cada vez mais sobre si própria; e parece (pelo menos até agora) ter ficado fora das tentativas contemporâneas de renovação e de expansão da astrologia.

Entre os processos divinatórios associados à astrologia muçulmana, são de mencionar a arte de construir pentágonos estrelados e talismãs mágicos, e também a geomancia ou adivinhação pelas figuras formadas pela disposição dos pontos projetados segundo um método tradicional, quer seja por traçado no papel, ou por desenho automático na areia.

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A Astrologia entre os Judeus Medievais

Ao contrário do que viria a acontecer depois (desenvolvimento de um antissemitismo muçulmano), o apogeu da civilização medieval árabe parece ter sido marcado por relações muito amigáveis entre sábios muçulmanos e judeus.

É assim que um judeu, Mashallah, desempenhou – no domínio da astrologia – um papel muito importante na fundação de uma escola e de um observatório afamado na Bagdá dos Califas.

Parece ter havido no esoterismo muçulmano medieval uma influência direta das tão complexas especulações numerológicas dos rabinos nas letras e nos números sagrados, influência muito nítida em certos astrólogos.

Dentre os cabalistas judeus medievais da Península Ibérica, são de citar Abraão ben Ezra, Salomão ben Gabirol (ou Avicebron dos latinos) e também Abraão Zacuto, astrólogo pessoal do Rei D. Manuel de Portugal. O mais célebre, Ibn Ezra (chamado pelos latinos Avenarius, Avenare ou Abraham Judaeus (“Abraão o Judeu”) – seria o autor do misterioso Livro de Abraão o Judeu que Nicolas Flamel viria a descobrir? – (1089-1167), nascido em Toledo, fez longas viagens em países cristãos (visitou Roma, Salerno, Mântua, Narbonne e, até, Londres). Morreu em Roma. Foi um sábio universal, e não apenas um dos grandes astrólogos do primeiro período medieval. Sem dúvida, é, em parte, graças a ele que se explica a tão rápida expansão da astrologia (e das ciências ocultas, em geral) em toda a cristandade ocidental do início da Idade Média.

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Os Bizantinos

Embora tenha sido principalmente por intermédio das traduções latinas de autores árabes que a astrologia penetrou no Ocidente, não é de omitir a durável conservação, no Império bizantino, dos conhecimentos gregos, tanto em matéria de adivinhação astral como nas outras disciplinas.

É verdade que muitos teólogos e pensadores bizantinos se colocaram, por motivos espirituais, já encontrados entre os primeiros cristãos, na posição de adversários da astrologia. Segundo Jean Philopon (século IV), a astrologia teria por efeito um afastamento de Deus: se o livre-arbítrio das ações humanas não existe, que seria então das indispensáveis noções de responsabilidade, de justiça, de recompensa e de castigo? Pela mesma razão, São João Damasceno (cerca de 674-749) repudiava esta arte divinatória.

Em compensação, Michael Psellos (1018-1096) – os latinos chamam-lhe Psellus – não exclui, antes pelo contrário, a astrologia dos seus cursos magistrais: os fenómenos visíveis não são regidos por leis científicas? Dois amigos pessoais deste admirador de Platão, Jean Xiphilin e Michel Cerulaire (que virão a ser, ambos, Patriarcas de Constantinopla), acreditarão firmemente, também, em todas as artes divinatórias, e, em particular, na astrologia. “Adivinhação, astrologia, magia, demonologia, teurgia, tudo aquilo a que Psellos chama o Caldeísmo (segundo os oráculos caldeus, compilação mágica tardia que surge no fim do Império Romano), e toda a espécie de superstições parecem estar muito espalhadas na sociedade de Bizâncio […] Em todas as esferas da sociedade, nas mais altas como nas mais baixas, seguiam-se, com um interesse crescente, as práticas dos astrólogos e dos feiticeiros, que já não eram, em geral, gregos, mas egípcios ou asiáticos”.

Nisso, Bizâncio não fazia mais do que continuar a Roma imperial. No século VIII aparecera o famoso tratado Da Arte Matemática, no qual Estêvão de Alexandria fazia o elogio especial da astrologia, que achava capaz de predizer exatamente o futuro, proporcionando, assim, aos homens uma parte da ciência que Deus possui dos acontecimentos que se hão de verificar. No século XII, autores como Teodoro Prodrome e João Camateros escreverão, no mesmo espírito, dois longos poemas astrológicos.

Anonymi Christiani Hermippus – De Astrologia Dialogus

O último grande filósofo platônico de Bizâncio, Plethon (século XV), também acredita na astrologia; é uma personalidade historicamente importante, que faz a junção entre o helenismo medieval bizantino e o primeiro Renascimento italiano: fez estadas na Itália, nomeadamente em Florença, onde se torna amigo de Petrarca e de Marsilo Ficino.

Scholarios (falecido em 1468, último grande erudito bizantino) também acredita, firmemente, na astrologia – inclusive nos cálculos dos adivinhos que situavam a catástrofe terrestre final no fim do VII milênio depois da Criação. Citemos Johannes Katrares, autor de um diálogo (imitado de Platão) intitulado Hermippos, ou da astrologia. Se esta obra beneficiou (em tradução latina) de um grande sucesso no Renascimento, nada se conhece a respeito da personagem que a escreveu.

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A Astrologia no Ocidente Medieval

É seguramente por intermédio da Espanha arabizada que se efetuou a tão espetacular entrada em cena da astrologia tradicional no Ocidente cristão; o século XII, especialmente, será marcado por este regresso em força, que seguirá a oficialização desta arte nos diversos reinos cristãos.

Entre 1135 e 1153, funcionava em Toledo uma verdadeira oficina especializada nas traduções de textos árabes, realizadas por um judeu convertido ao catolicismo – Abraham ben David Halevi ibn Daud, dito Johannes (David) Toletanus ou da Espanha, Johannes Hispaniensis, ou ainda João “da Lua” – e por um espanhol, Domingo Gondisalvo (Dominicus Gundissalinus). O primeiro traduzia em espanhol os manuscritos originais, e o segundo punha em latim estas primeiras versões. Assim foram minuciosamente traduzidos numerosos tratados astrológicos árabes. A influência muçulmana fez-se sentir longamente após os lentos começos da reconquista cristã da Península Ibérica.

Mas esta grande voga das traduções ibéricas tinha lugar só depois da profunda penetração, já, da astrologia cristã: os inícios desta arte oculta na cristandade medieval eram anteriores em, pelo menos, um século. Restaria ainda saber se a astrologia antiga havia desaparecido completamente, no fim do Império Romano, do Ocidente, se – qualquer que haja sido a importância do papel inegável dos Árabes no ressurgimento astrológico ocidental – restos dela não foram secretamente conservados, em França e noutros lados. Entre os povos romanizados, não foram os Galo-Romanos dos mais receptivos à astrologia?

Mas qual será a atitude oficial da Igreja em relação à astrologia ao longo da Idade Média? Vimos as razões pelas quais vários Doutores da Igreja desconfiavam tanto das tentativas astrológicas greco-romanas para justificar as ações humanas por meio de um rigoroso determinismo planetário e estelar: negação da liberdade (e, portanto, da responsabilidade) do homem no mundo: riscos de venerar, de adorar as divindades e potências sobrenaturais a que se atribui o domínio dos astros. O Concílio de Laodiceia havia até proibido aos clérigos o exercício da profissão de mágico ou de “matemático”, isto é, de astrólogo. Agravando ainda esta condenação, o Concílio de Toledo (reunido no século V para condenar os erros do heresiarca gnóstico Prisciliano) decretava: “Se alguém crê dever fazer fé na astrologia ou na adivinhação, que seja excomungado”. O Concílio de Braga foi ainda mais claro: “Quem quer que acredite que os corpos dos homens são submetidos ao curso dos astros, como ensinavam os pagãos e os priscilianistas que seja excomungado.”

Às suas próprias razões de desconfiança, a Igreja acrescentava também uma estimável preocupação de ordem profiláctica, diríamos nós: tentar proteger a massa dos fiéis contra os charlatães que, sempre numerosos nas épocas conturbadas, tentavam explorar a credulidade e o alarme das massas.

Na realidade, praticamente, os astrólogos medievais não foram inquietados pela Igreja, salvo quando entravam abertamente nas práticas mágicas e na heresia. Vêm-se até os maiores doutores escolásticos tratarem francamente da influência dos astros sobre as ações humanas: coisa diferente, na verdade, era acreditar neste determinismo e cair no fatalismo completo. Astra inclimant, non necessitant: “Os astros orientam, não determinam” – pertinente adágio medieval que não cessará de ser lembrado até aos nossos dias.

Já bem instalada nas crenças e nos costumes no decorrer do século XII, a astrologia não deixará de se expandir à medida que a Idade Média avança. Todos os meios sociais serão atingidos, dos mais humildes aos mais elevados. Na verdade, os cépticos serão extremamente raros, mesmo entre os homens mais sábios. No século XIII, corria na escola de Medicina de Bolonha (uma das mais afamadas da Europa) o seguinte adágio: “Um doutorado sem astrologia é como um olho que não pode ver.”

Com tanta força como na Antiguidade, mas sob uma forma cristianizada, reinava, na Idade Média, como mestra incontestada, a velha doutrina do homem como microcosmo, “pequeno mundo” réplica do macrocosmo (“o grande mundo”), imagem do Universo. “O homem tem em si o céu e a terra”, clamava Santa Hildegarda de Birgen. Mas acreditar na existência de correlações significativas, de relações analógicas, de correspondências precisas entre o homem e o Universo, não era supor por este fato a existência de uma relação casual entre o ser humano e os astros? O determinismo astrológico não podia, pois – muito pelo contrário -, entrar em conflito com a própria estrutura das crenças medievais acerca da estrutura do homem e do Cosmos.

Os astrólogos medievais são levados cada vez mais a imiscuir-se na política: os grandes, os próprios soberanos, faziam cada vez mais apelo aos seus serviços, e os adivinhos podiam ser tentados a intervir nos negócios públicos.

É assim que vários astrólogos famosos nos séculos XIII e XIV intervirão nas intrigas tão complexas dos Gibelinos, partidários do Imperador, contra os Guelfos, que defendiam o poder temporal dos papas, na famosa “luta do Sacerdócio e do Império”. Michael Scot, um escocês nascido no fim do século XII, acabou por se tornar, depois de estadas em Toledo (1217), Bolonha (1220), Roma e Paris, astrólogo (e, sem dúvida, a eminência parda) do Imperador da Alemanha, Frederico II de Hohenstaufen, na sua corte de Palermo, na Sicília. Foi talvez por intermédio dele que Santo Alberto, o Grande, obteve os seus conhecimentos astrológicos. Pietro d’Abano (conhecido também sob o nome latinizado de Petrus Patavinus) (1257-1315), que será queimado em efígie* após a sua morte; residiria muito tempo (de 1270 a 1298) em Constantinopla; voltamos a encontrá-lo em Paris, onde permanece até 1307, estabelecendo ali contatos com Guillaume de Nogaret e outros “legistas” de Filipe, o Belo, antes de ensinar na Universidade de Pádua. Pietro d’Abano, grande adversário do poder pontifical, foi também um dos teóricos que levaram o determinismo astrológico até à negação expressa do livre-arbítrio do homem (de onde, ao mesmo tempo, negação dos milagres e da Providência): todos os acontecimentos que se desenrolam cá por baixo não são, acaso, provocados pela revolução das esferas celestes? Pietro d’Abano esforçou-se por desenvolver toda uma visão cíclica da História, partindo das bases astronômicas da sua arte divinatória. Cada uma das sete esferas planetárias regeria – segundo ele – 354 anos, mais quatro meses lunares. Quanto à oitava esfera celeste (a das estrelas fixas), que se move um grau em cada setenta anos, teria o poder de “transformar a terra em mar” (é o que permitiria explicar o desaparecimento do lendário continente dos Atlantes).

* Quando um sentenciado à morte não estava preso e não podia ser capturado, era executado em efígie. O que acontecia era uma encenação da execução (como, por exemplo, no caso de um boneco ser queimado em um auto de fé), e o indivíduo era declarado legalmente morto, inclusive com documentação comprobatória, de que se seguiam todos os efeitos legais. Esse morto-vivo ou vivo-morto que escapulira da Justiça não tinha mais direito algum e, ainda que continuasse a viver biologicamente, era considerado morto, para a família e para a sociedade.

Cecco d’Ascoli, astrólogo na corte de Florença, terá muito menos sorte que o seu compatriota Pietro d’Abano: acusado de heresia e de magia, será queimado vivo em 1327.

Jean de Jandun (falecido em 1328), astrólogo “gibelino” também, será obrigado a refugiar-se na corte do imperador da Alemanha, Luís da Baviera.

Outro servidor dedicado do partido Gibelino, o monge franciscano Marsilo de Pádua, que, depois de uma estada na capital francesa (aonde chegara em 1311) – o que lhe permitiu manter relações com os juristas do “clã Nogaret” e, por certo, com Pietro d’Abano -, alcançou, também a corte imperial de Nuremberg. Entre os astrólogos que se puseram ao serviço da causa gibelina deve citar-se por último Guido Bonatti (falecido cerca de 1300), cognominado pelos seus contemporâneos doctor siderabilissimus. Colocara a sua arte ao serviço do chefe militar gibelino Guido de Montefeltro: quando as configurações celestes lhe pareciam favoráveis à vitória, subia ao alto de um campanário; e na altura em que, graças aos seus livros e ao seu astrolábio, conseguia determinar, com precisão, o momento mais favorável para a batalha, transmitia o sinal ao condottiere, que dava ordem de iniciar a campanha!

Entre os soberanos protetores da astrologia, o rei Afonso X de Castela (falecido em 1285) foi, com certeza, um dos mais famosos: no seu reinado foram estabelecidas, pelo seu dedicado astrólogo judeu Isaac ben Sid as tábuas planetárias chamadas Tábuas Afonsinas.

Quase todas as grandes personagens da França dos séculos XIV e XV, da Inglaterra, etc., acreditaram na astrologia e fizeram-se protetores dela. Entre os astrólogos que, deste modo, conseguiram fazer invejável carreira, houve um eclesiástico flamengo: Lutber Hautschild (1347-1417), monge agostinho que viria a ser, em Bruges, abade de Saint-Barthélemy de l’Eeckhout. Conselheiro muito escutado, sucessivamente, do duque Jean de Berry (a quem são dedicadas as célebres Três riches heures com iluminuras, que também comportam símbolos astrológicos) e do duque de Borgonha, não só foi perito na elaboração de horóscopos, como construiu um modelo animado do Zodíaco com os planetas, círculo adaptado a uma esfera, conjunto que era movido por um mecanismo de relojoaria.

Carlos V teve o seu dedicado médico e astrólogo, Thomas de Pisan, que mandara vir especialmente de Veneza. A filha deste, Christine de Pisan (1363-1431), também praticava ocasionalmente a astrologia.

Jacques Coeur, o célebre “grande tesoureiro” do rei Carlos VII, e alquimista notório, era um apaixonado da astrologia: no seu paço particular de Bourges, pode ainda ser admirada a “torre do astrólogo”, com cúpula para a observação dos astros.

É certo que nem todos os astrólogos tinham a envergadura dos grandes adivinhos que punham os seus serviços à disposição dos poderosos. Encontrar-se-ia na Idade Média toda a série habitual dos adivinhos, desde os grandes letrados até aos charlatães da mais baixa espécie. Nos Contos de Cantuária do poeta inglês Chaucer (falecido em 1400), encontra-se a pitoresca descrição do hábito charlatão que um jovem apaixonado, cheio de esperança, vai consultar. Mas Chaucer, embora exercitando a sua verve contra os charlatães, acredita visivelmente – como todos os seus contemporâneos – na verdade dos princípios da astrologia, de que manifesta, até, um conhecimento muito preciso.

Como todas as épocas conturbadas (mas qual o não foi? – poderíamos observar), a Idade Média assistiu à influência deprimente ou exaltante (consoante os casos) de diversas predições. Se é bem conhecido o célebre “pânico do ano 1000”, poderia, ainda, citar-se – entre os malogros aparentes das predições astrológicas – o da previsão que fez João de Toledo em 1179. Anunciou, efetivamente, uma conjunção de todos os planetas no signo da Balança para o ano 1186, que deveria desencadear um terrível cataclismo natural. Ora, nada de notável se passou.

Na Idade Média, nenhum conflito (convém insistir nisto) se podia produzir entre as ciências da Natureza – tal como se apresentavam – e as ciências qualificadas hoje de “ocultas” (entre as quais a astrologia e a alquimia).

Para um doutor escolástico do século XIII, os tratados – tomemos este exemplo entre mil outros possíveis – de astrologia e de geomancia atribuídos a Robert o Inglês ou ao “Mestre de Aniane” não eram mais (nem menos: a recíproca também é verdadeira) “fantásticos” do que um tratado de matemáticas ou de geografia. É assim que uma compilação falsamente atribuída a Aristóteles, O Segredo dos Segredos, desfruta, ao longo de toda a Idade Média, de um crédito incontestado; era a reunião heteróclita de conhecimentos astrológicos, relacionados com as virtudes “ocultas” dos minerais e das plantas.

É também de assinalar a aliança muito frequente da astrologia com as outras ciências ocultas: o célebre médico alquimista Arnau de Vilanova (1235-1312), que viria a ser Reitor da Universidade de Montpellier, cultivou paralelamente a astrologia. Muitas técnicas divinatórias utilizadas na Idade Média foram praticadas fazendo entrar nelas processos astrológicos.

É assim que a “ciência dos espelhos” (que não era a óptica positiva tal como a concebemos, mas um modo de adivinhação pelas imagens que se formavam em superfícies polidas e refletoras) se praticava, tendo em conta a concordância com as horas astrológicas.

O século XII, idade de ouro da escolástica medieval, de modo algum foi sistematicamente hostil – pelo contrário – à astrologia, na pessoa dos seus teólogos, pensadores e sábios.

No Speculum majus de Vincent de Beauvais (nascido em fins do século XII) – essa colossal enciclopédia (que necessitou do auxílio de numerosos colaboradores especializados) que era, de certo modo, o “Larousse” (manuscrito, evidentemente) do período -, a astrologia encontrou o seu lugar. O sistema de Ptolomeu continuará durante muito tempo a dominar os espíritos, com a sua imagem astrológica do sistema do mundo. Eis, por exemplo, a visão do mundo desenvolvida por Guillaume d’Auvergne (assim chamado por ser nativo de Aurillac) (falecido em 1249), bispo de Paris em 1228, no seu tratado De Universo:

“O Universo forma uma esfera gigante no centro da qual está o Inferno. Em torno do fogo central a terra, depois as camadas sobrepostas dos quatro elementos. Logo a seguir, as sete esferas celestes (Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno). No limite exterior o oitavo céu, o das fixas, o novo céu ou cristalino; finalmente o sexto céu ou o Empíreo, sede da Glória”.

É a grandiosa visão do mundo que Dante desenvolverá na Divina Comédia. A mesma justificação cosmológica da astrologia (enquanto, pelo menos, ela não nega a liberdade do homem) se encontra em Robert Grosseteste (1175-1253), bispo de Lincoln. No seu Tratado acerca da Luz, descreve o mundo como sendo formado por treze esferas côncavas, concêntricas e transparentes. A luz, uma vez chegada ao limite da sua dispersão, retrocede, iluminando, assim, o Universo Colocado no centro do sistema, a nossa Terra recebe, portanto, as emanações das esferas que a rodeiam: não se encontra a astrologia justificada?

São Boaventura (1217-1274) dá tacitamente lugar à astrologia no seu sistema em que toda a Natureza é símbolo, figuração de Deus, canta um hino constante à glória do Divino.

Thomas of Cantimpré (falecido depois de 1271), no seu Liber de natura rerum, não desdenha tratar, como astrólogo, dos sete planetas e da esfera. Para Santo Alberto de Bollstädt, dito “o Magno” (1206 ou 1207-1280) tão justamente cognominado em latim Doctor universalis (o “doutor universal”) em virtude da vastidão dos seus conhecimentos, mestre de São Tomás de Aquino, a astrologia figura (como a alquimia) no número dos conhecimentos práticos tradicionais. É assim que nos explica como as esferas celestes moldam o carácter da criança que está para nascer: em cada mês a gestação encontra-se sob o controlo de um planeta: os nascimentos monstruosos são provocados pelas constelações. Alberto, o Grande, estabelece também uma correspondência estreita entre as influências zodiacais ou planetárias e as propriedades medicinais ou mágicas tradicionalmente atribuídas às plantas.

Em São Tomás de Aquino (1226-1274), encontramos codificada a posição católica medieval clássica, a que admitia a realidade das influências astrológicas, recusando considerá-las como fatais, absolutamente inevitáveis para o homem.

É preferível, de resto, ceder a palavra ao próprio “doutor angélico”, na sua Suma Teológica (I. P., pergunta 115, artigo 4):

“Os corpos celestes são a causa dos atos humanos? – Respondo que se deve dizer que os corpos celestes exercem sobre os corpos humanos numa ação diretamente e por si próprios, […]; mas só agem indiretamente e por acidente sobre as forças da alma que os órgãos corporais animam; porque os atos dessas potências sofrem necessariamente o efeito daquilo que perturba os seus órgãos; por exemplo, não vemos bem se a nossa vista está materialmente perturbada”.

Demos também o texto de uma observação adicional importante:

“Acontece frequentemente que os astrólogos anunciam coisas exatas. Isso pode ser devido a duas causas: primeira, porque a maioria dos homens segue as suas paixões corporais; os seus atos sofrerão, portanto, a influência dos corpos celestes. Poucos há, e são os únicos avisados, que moderam pela razão estas influências. É a razão pela qual os astrólogos para muitos casos anunciam coisas verdadeiras, sobretudo para os acontecimentos que dependem de agrupamentos humanos. Uma outra causa é a intervenção dos demônios.”

A influência de São Tomás de Aquino é muito importante na Divina Comédia, de Dante Alighieri. Damos uma passagem do Purgatório (canto XVI):

“Embora livres, estais submetidos a uma força superior e a uma natureza mais elevada, e esta outra potência cria em vós o espírito que os céus não podem dominar.”

O homem é duplo: se a sua natureza física está submetida às estrelas, a sua natureza mais elevada, essa, possui o livre-arbítrio. Numa passagem de O Inferno, Virgílio é-nos até mostrado conduzindo o poeta diante dos adivinhos, cuja cabeça foi torcida de maneira a obrigá-los a nunca mais poderem olhar senão para trás: assim são castigados por terem querido tentar com tanta insolência olhar para o futuro (privilégio que é apanágio exclusivo de Deus)! Em contrapartida, Raymond Lully (1232-1314) não só não condenava a astrologia, como até acreditava firmemente nela.

De entre os grandes tratados de astrologia do fim do século XIII, citemos o Tractatus optimus super totam astrologiam, de Bernard de Verdun.

Um outro doutor escolástico, Siger de Brabant (falecido em 1278), inspirando-se em Aristóteles e mais especialmente no grande admirador árabe deste: Averróis, desenvolvia a eternidade da matéria primária do Universo (donde, por isso mesmo, eternidade do movimento e do tempo); quanto à liberdade dos homens, torna-se impossível, visto que as revoluções planetárias determinam todos os acontecimentos cá em baixo. O Averroísmo (nome dado à doutrina desenvolvida por Siger) terá entre os seus partidários os grandes astrólogos Pietro d’Abano e Marsilo de Pádua de que já falamos a propósito do seu papel tão ativo na facção gibelina.

Quanto a Roger Bacon (1214-1292), cognominado Doctor mirabilis (o “doutor maravilhoso”), cultivou não só a alquimia, mas também a astrologia.

É a esta última que são consagradas diversas passagens da sua obra Opus majus, intitulada De notitia coelestium. Roger Bacon distinguia, com efeito, duas espécies de astrologias: uma legítima (a que se limita a estudar a ação dos astros), a outra ilícita (a que tenta pôr em ação, por diversas operações mágicas, as influências demoníacas). Acredita nas eleições, isto é, na utilização da astrologia para tentar escolher a hora mais favorável a uma empresa.

Preocupou-se não só com a astrologia individual, mas também com a astrologia mundial.

Colocava em correspondência a órbita do planeta Mercúrio (que só é dominante na Virgem) com o Cristianismo.

Anunciava o próximo advento do Anticristo, cujos signos prenunciadores, a seu ver, se multiplicavam: imoralidade crescente dos seus contemporâneos, nova invasão, avanço dos Tártaros.

A Idade Média cristã surgiria naturalmente como uma idade de ouro para os astrólogos, e, a partir do fim do século X, visto que Gerbert d’Aurillac (coroado Papa sob o nome de Silvestre II) a cultivava já (juntamente com a alquimia). Encontrava-se, efetivamente, em sua casa uma representação astrológica tipo (extraída do sistema do mundo descrito por Ptolomeu), e que viria a ser dominante durante muito tempo no Ocidente: no centro do Universo a terra, rodeada por nove esferas concêntricas (as dos sete planetas, as das estrelas fixas, a do “Primeiro Móbil”).

No século XI, será (e não estávamos ainda no apogeu da cristandade medieval) um florescimento de manuscritos astrológicos, alguns dos quais eram, é certo, compilações populares: Esferas de Vida e de Morte, Livros da Lua, etc. No entanto, atrevemo-nos a sugerir, não foi a idade Média a “idade de prata” da astrologia – surgindo o Renascimento como a verdadeira “idade de ouro” desta arte oculta, a época do seu maior prestígio, da sua maior extensão?

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