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Astrologia Racional e Empirismo, de Pico a Galileu

Scott E. Hendrix

Scott E. Hendrix is an assistant professor of history at Carroll University in Waukesha, WI (USA). His teaching spans the medieval and early modern periods and he writes on the history of astrology as well as mysticism.

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Resumo

No moderno mundo “científico” é norma igualar a “racionalidade” como ponto de vista que leva os intelectuais modernos a retratar o surgimento da ciência moderna como um processo que envolve a rejeição da superstição. Por esta razão muitos historiadores, filósofos da ciência e cientistas descrevem Giovanni Pico della Mirandola e Galileo Galilei como arautos do racionalismo científico por sua “rejeição” ao modelo de superstição como a astrologia. A narrativa tradicional de Pico no seu Disputations Against Astrological Divination é frequentemente descrita como um marco no movimento em direção à modernidade. Contudo, quando se vê com atenção é claro que este trabalho não apresenta a maciça rejeição à astrologia que muitos assumiram e, de fato, a evidência indica que Pico nunca se opôs amplamente à teoria ou a prática astrológica. Avançando o olhar para Galileu, o progenitor do método científico, há considerável evidência de que ele foi praticante da astrologia judiciária ao longo da sua vida, demonstrando que ele nunca rejeitou o conceito da influência celeste nos eventos terrestres ou na prática de prever o futuro através do uso dessa disciplina. Além disso, o modelo astrológico da mecânica do cosmos funciona com regularidade matemática absoluta e pode ter influenciado positivamente o desenvolvimento da filosofia mecânica de Galileo. Portanto, a história da astrologia deve ser reavaliada: ao adentrar no início do período moderno ela não foi uma ‘superstição’ que retardou o desenvolvimento de uma visão de mundo “moderna”, mas de fato ela contribuiu para o nosso atual modelo de racionalismo científico.

Quando discutimos a modernidade e o mundo moderno, de imediato as definições se confundem. A modernidade é um conjunto de idéias? Uma forma de comportamento? Possui status ontológico individual ou existe apenas em contraste com o que não é moderno? Uma discussão geral destes tópicos estaria muito além dos limites deste opúsculo, mas há um elemento-chave que desejo abordar: a função do racionalismo científico e sua relação com o que agora consideramos ‘superstição’. Filósofos da ciência como Boris Castel e Sergio Sismundo disseram: “O mundo moderno, e talvez o que significa ser moderno, está completamente entrelaçado com a ciência”,  o que levou a uma redefinição dos termos “racional” e “científico” como sinônimos virtuais de nosso mundo moderno. Portanto, vou me concentrar em dois intelectuais, ambos italianos, que foram considerados ícones da racionalidade, o humanista do século XV Giovanni Pico della Mirandola e o progenitor do método científico do século XVII, Galileo Galilei. Ambos são vistos na direção do avanço a esta percepção do moderno, em grande parte devido à rejeição da superstição irracional, simbolizada na imaginação popular e, com muita frequência entre os acadêmicos, bem como pela oposição à astrologia. O que vou argumentar é que, não apenas nenhuma dessas figuras iconográficas rejeitou adivinhação baseada na crença compartilhada de que os céus afetam as criaturas terrestres e eventos, mas também a adesão à crença na influência celeste foi totalmente racional e, de fato, pode ter desempenhado um papel positivo no desenvolvimento das ideias científicas do Galileo.

Antes de explorar essas idéias, no entanto, devo fazer uma pausa para explicar o que quero dizer com astrologia e descrever brevemente seu lugar no cenário intelectual da Renascença e da Europa Moderna. A disciplina deve seu início conceitual aos antigos babilônios, que por volta de 410 a.C., faziam a confecção de horóscopos destinados a descrever o futuro do indivíduo. Mas, mais importante para a ciência ocidental, os gregos apropriaram e adaptaram essas idéias para seus próprios fins. A ideia de que o céus influenciavam eventos na Terra parece ter sido universal entre filósofos naturais gregos, como no Timeu de Platão descrevendo o fluxo de influências celestes descendente para objetos terrestres e Aristóteles afirmando que tais forças eram responsáveis ​​pelo nascimento e morte aqui na Terra. Na época em que o grande cosmólogo helenístico do século II Ptolomeu escreveu o trabalho que viria a ser conhecido como o Almagesto em Alexandria, o interesse pela influência celeste deu um grande impulso ao estudo dos céus. Ptolomeu sustentava que os corpos celestes são ‘letras inscritas (em movimento) nos céus’, derramando calor no mundo sub-lunar e, assim, afetando todas as criaturas terrestres. Essas ‘letras’, como ele chamava, pressagiavam mensagens diferentes à medida que suas combinações mudavam, e lendo-as um conhecedor de astrologia poderia aprender muito sobre seu uso na direção da vida de alguém. A importância colocada na compreensão dessa influência pode ser vista pela dedicação de Ptolomeu em mais da metade do Almagesto ao direcionar as discussões sobre isso, um ponto que devemos ter em mente.

Da nossa perspectiva do século XXI, pode parecer estranho que o os gregos hiper-racionais e seus descendentes helenísticos teriam abraçado tão completamente a astrologia. Mas foi justamente por causa de sua racionalidade que intelectuais de Platão a Ptolomeu consideraram a astrologia tão atraente. Estudiosos como Cecil J. Schneer observaram que a principal tendência no pensamento grego helenístico era explicar o mundo e os eventos dele através da interação de forças físicas e não sobrenaturais. O ‘racionalismo grego’ é sinônimo de uma abordagem que enfatiza explicações lógicas e replicáveis ​​pelas pessoas treinadas na filosofia grega. A astrologia ao atingir seu pleno desenvolvimento na antiguidade tardia no trabalho de Ptolomeu apresentou um modelo do universo no qual os corpos  físicos interagem uns com os outros com perfeição e com movimentos matemáticos consistentes. Esse modelo cosmológico não exigia esforço de entidades invisíveis ou crença na intervenção divina para explicar os movimentos dos planetas que viriam a existir sobre sobre a passagem dos seres vivos na terra. De fato, o modelo ptolomaico é aquele em que todo o universo funciona com a regularidade de uma máquina, um ponto ao qual voltarei.

Eventualmente, o mundo muçulmano se apropriou do conhecimento grego e da astronomia ptolomaica, desenvolvendo e agregando essas idéias de maneira criativa. O estudioso mais importante a fazê-lo foi o persa do século IX, Abū Ma’shar al-Balkhī ou Albumasar, como ficou conhecido no Ocidente, ele foi o primeiro a lidar com a integração de conceitos da influência celeste e a astrologia judiciária – que usava esta arte para responder perguntas sobre o mundo, incluindo o curso de eventos futuros – dentro de um contexto religioso monoteísta que naquele período já valorizava o livre arbítrio humano. Acusado por um oponente de ‘estudar astrologia até se tornar ateu’, a reação de Albumasar foi desenvolver uma posição em que os céus inclinam, mas não obrigam, a ação humana. Portanto, o homem ‘sábio homem’, ou seja, alguém que entende essas influências poderia compensá-las, ‘dominar as estrelas’, uma ideia que preservou o poder preditivo da astrologia em grande medida, bem como a liberdade da vontade humana. Após a transmissão das obras de Albumasar para o Ocidente no século XII, esse consenso acabaria tornando a astrologia aceitável para a maioria dos intelectuais cristãos no século XIV.

As contribuições de Albumasar para a história da astrologia são diretamente relevantes para entender a abordagem de Pico della Mirandola à disciplina. O humanismo renascentista promoveu uma abordagem “de volta à fonte” entre os estudiosos que exigiam uma releitura não apenas de comentários sobre obras fundamentais, mas também de traduções. Foi por esse motivo que o estudioso italiano estudou árabe e procurou as obras dos mais importantes construtores da herança intelectual árabe em sua língua original, para obter uma compreensão direta de seu conteúdo. O compromisso alinhado de Albumasar entre o determinismo astrológico e a liberdade humana encapsulado nesse ditado, ‘o homem sábio domina as estrelas’ se tornou bastante familiar a Pico, ele aprendeu sobre isso diretamente ou através das obras do teólogo alemão do século XIII, Alberto o Grande, e fez muito uso dele em suas próprias obras. As obras do intelectual árabe, bem como as de Alberto, o Grande, ocupavam um lugar de destaque na biblioteca pessoal de Pico.

Pico teria encontrado esta formulação trazendo, congruentemente, a crença astrológica ao conceito de livre-arbítrio de modo muito útil. Sua própria veneração pela liberdade humana foi consagrada justamente no seu famoso Discurso sobre a Dignidade do Homem, onde proclama que, para o homem é permitido que ele seja o que ele escolhe ser, ou semelhante a um anjo através do cultivo do intelecto, ou a um animal de outra maneira. No entanto, o que é frequentemente esquecido é que Pico escreveu este discurso para servir como o prefácio às suas 900 teses. Este trabalho veio sob proibição papal em 1486, em parte por causa da reverência à influência astrológica que Pico exibe durante todo o trabalho, levando Pico a fugir para a França. Influenciado pelos comentários de Proclus no final do quarto ao início do quinto século sobre Timeu de Platão, oito das teses argumentam que tipos específicos de intelecto derivam suas habilidades humanas apropriadas através do poder dos céus. Independentemente dos elevados comentários do Pico sobre a liberdade humana – o que pode ter sido pretendido contrariar as críticas esperadas nas teses – o papado viu nisso um argumento a favor do determinismo astrológico.

No entanto, a posição de Pico não foi surpreendente. Ele pode ter acreditado que a influência celeste tinha maior força na vida humana do que muitos de seus  contemporâneos, mas fazia séculos desde que alguém havia manifestado uma rejeição total do poder das estrelas. Mesmo críticos da astrologia do século XV como o teólogo e chanceler francês em Paris, Jean Gerson, manifestaram preocupações sobre possíveis abusos da disciplina, argumentando que a adivinhação celeste era simplesmente muito complicada para ser eficaz, ao invés de rejeitar a ideia de que os céus influenciam os eventos terrestres. Além disso, o amigo e contemporâneo de Pico, Marsilio Ficino, foi um defensor tão forte da importância de entender a influência do mundo celeste sobre os seres humanos que ele foi forçado a defender seus pontos de vista antes do Papa em 1489. Isso não ocorreu porque a crença de Ficino na força dos corpos celestes transmitidos a objetos terrestres era de alguma maneira incomum, mas porque ele argumentou com muita força que a aplicação do conhecimento astrológico permitiria às pessoas a elevar-se a um relacionamento mais próximo com Deus. Embora essa afirmação possa parecer estranha, tudo o que ele realmente quis dizer foi que forças celestes influenciam as pessoas a agir de maneiras que nem sempre são consistentes com o que Deus desejaria, transmitindo impulsos como luxúria ou gula. Mas se entendermos a fonte desses impulsos, poderemos mais facilmente resistir a eles e agir de acordo com o nosso intelecto, ao invés de nosso físico desejos.

Ficino estava em um terreno muito sólido, pois na época em que escrevia mais de dois séculos de tradição apoiavam a noção de que os céus afetam a essência corporal da humanidade, influenciando a alma secundariamente através de um “puxar e repuxar” da alma. No século XV, a ideia que tudo na terra experimentava um bombardeio constante de forças celestes estava tão bem estabelecida que nenhum filósofo natural teria argumentado contra esse ponto, e intelectuais e profissionais trabalhando dentro de uma variedade de campos consideravam necessário ter conhecimentos em astrologia. Nem alquimistas nem médicos teriam tentado exercer seu ofício sem um completo domínio da disciplina e quase todos os tribunais da Europa tinham pelo menos um astrólogo em residência. Claramente, enquanto em suas 900 teses Pico poderia enfatizar demais o papel da influência celeste na vida do ser humano, sua crença no poder das estrelas para afetar a humanidade estava inteiramente alinhado ao conhecimento geral aprendido no seu tempo.

Dado o clima intelectual em que ele trabalhava e o forte suporte dado à astrologia evidenciado nas 900 teses de Pico, alguém poderia pensar que haveria pouca necessidade de argumentar a favor da importância da disciplina para o humanista italiano. Infelizmente, nos últimos anos de sua vida Pico complicou bastante a escrita na publicação póstuma das Disputations Against Astrological Divination. Certamente parece bem clara a avaliação de muitos estudiosos – incluindo na edição moderna do volume, Eugenio Garin – a enfática e absoluta rejeição de Pico à astrologia divinatória. Essa rejeição é destacada por Louis Dupré como um passo significativo no caminho da modernidade. Infelizmente, essa posição não resiste a uma leitura atenta do próprio texto, fato que recentes estudiosos estão começando a reconhecer.

Voltando ao texto, é importante notar que, quando Pico morreu seu trabalho estava inacabado e inédito. Portanto, a versão que é disponível para nós hoje foi editada pelo sobrinho do estudioso trabalhando junto com o médico pessoal de Pico, e é bem provável que o resultado final do trabalho foi fortemente influenciado por essa parceria. Conquanto, a interpretação problemática, fica claro que a intenção de Pico era criticar astrologia, em suas palavras, ‘proibida por lei, condenada pelos profetas, ridicularizada pelos santos, proibida por papas e sínodos sacrossantos’. No entanto,  ao modo como essa afirmação é fortemente redigida, devemos ter cuidado com o que Pico quer dizer. Ele pretende reunir toda a astrologia em sua condenação? Em uma palavra, não. Em vez disso, Pico aceitou que os céus transmitem influência para criaturas terrestres, incluindo pessoas, ao afirmar: ‘nós defendemos isso (a crença na influência celeste) até aqui, que nada nos chega do céu exceto quando a luz carrega’. Enquanto ele continua atacando as ‘rodas de natividades’ – quer dizer aqueles que compõem gráficos de nascimento – como promovendo “a mais infecciosa de todas as fraudes”, em última análise, Pico parece mais preocupado com o fato de os astrólogos levarem as pessoas a se concentrarem nas forças mundanas e longe da atenção dirigida a Deus. Essa é a mesma preocupação que levou alguns teólogos medievais, como Jean Gerson, a rejeitar a astrologia por medo de que ela pudesse levar aqueles que a praticavam a depositar sua fé na idolatria.

O contexto que Pico discutiu ou não nas Disputationes são importantes, pois na edição moderna da obra, Eugenio Garin, tentou estabelecer uma relação direta entre os argumentos do texto e o trabalho de um intelectual italiano posterior – Galileu Galilei. Como figura de destaque no desenvolvimento do método científico, há muito de artigo de fé entre não apenas cientistas, mas também historiadores, de que Galileu era um ‘constante adversário da astrologia divinatória’, para citar Garin. Essa atitude em relação a Galileu também tem sido comum entre filósofos da ciência como Karl Popper e cientistas como Carl Sagan. Para esses intelectuais, o arco da história vai da ‘rejeição’ racionalista da astrologia de Pico até a ‘oposição’ à astrologia na Itália de Galileu do século XVII. No entanto, assim como Pico não desejava rejeitar a adivinhação celeste, Galileu estava ainda menos inclinado a opor-se à disciplina.

Na edição do século XIX das obras coletadas em 1881 de Galileu, Galileo’s Astrology, Antonio Favaro publicou um artigo intitulado ‘Galileo Astrologo’, que foi recentemente traduzido e incluído em um volume especial Galileo’s Astrology divulgado pelo site Culture and Cosmos em 2003. Embora as conclusões de Favaro tenha sido tentativas ele sugeriu que talvez Galileu tivesse perdido o interesse pela astrologia à medida que envelhecia; a evidência que ele apresenta deixa ao leitor é sem dúvida de que Galileu frequentemente traçava horóscopos. Vemos isso não apenas através do mapa natal que Galileu fez para o Grão-Duque Cosimo II de Florença, mas também nas discussões epistolares dos horóscopos em que Pico se envolveu com figuras importantes, mas distantes, como o Cardeal Allesandro d’Este e amigos íntimos, como Giovanfracesco Sagredo. Ainda hoje, os historiadores tentam explicar o caminho astrológico de Galileu engajado numa atividade destinada a angariar patrocínio de pessoas poderosas como os Duques de Florença, e passam por isso rapidamente como uma atividade em que ele mostrou certo interesse ou ignorou-a completamente.

Essa abordagem de Galileu é indesculpável, pois, como Darrel Rutkin argumentou, se queremos entender o grande inovador científico em seus próprios termos, devemos estar dispostos a examinar seu escopo de trabalho como ele é, e não como desejaríamos que fosse. Se dispormos um tempo para examinar os horóscopos que Galileu fez não há dúvida de que ele foi completamente sério naquilo que fazia e na importância da disciplina. No MS. Gal. 81 não encontramos apenas horóscopos que poderiam ter sido destinados a angariar o apoio de um patrono como o mencionado Cosimo II, mas também aqueles que Galileu fez para si mesmo, suas filhas e vinte pessoas ainda a serem identificadas. Rutkin dedicou algum tempo à análise dos mapas natais das filhas de Galileu e para seu amigo Sagredo e ele observa o cuidado com que essas gráficos são construídos. Esses gráficos estão agora disponíveis no site da Skyscript e, usando o mapa de nascimento do próprio Galileu como ponto de referência, eu observaria uma questão que não é mencionada no trabalho de Rutkin que reforça seu argumento – as notas corretivas encontradas ao longo do gráfico. No canto superior esquerdo do horóscopo de Galileu, encontramos uma mesa horizontal listando informações sobre cada um dos planetas, mais o sol e a lua como também a “cabeça do dragão”, que significa o nódulo norte da lua. Tem quatro linhas abaixo do símbolo para cada ponto astronômico detalhando sua moção no dia em questão e usando o meio-dia como ponto de referência. A questão importante é que existem correções matemáticas visíveis sob os títulos de Saturno e Marte, bem como no corpo do próprio horóscopo. Se Galileu traçou esses horóscopos apenas para fins de patrocínio ou para ganhar dinheiro, por que ele estaria tão preocupado com a precisão?

A importância da existência desse número considerável de horóscopos é que eles deixam claro que Galileu não estava familiarizado com o funcionamento da astrologia judiciária. Todos esses horóscopos parecem ter data de final dos anos 1580 e 1590, enquanto ele estava em Pádua, mas não há nada a sugerir que ele mudou de ideia sobre a disciplina após sua nomeação para o posição de ‘Matemático-Chefe da Universidade de Pisa e Filósofo e Matemático do Grão-Duque’ da Toscana em 1610. Em vez disso, é apenas tão provável que outras preocupações simplesmente o mantivessem ocupado demais para tais atividades, especialmente desde que ele se tornou cada vez mais ansioso para solidificar seu status de filósofo, e não simplesmente professor de matemática. Na ausência de evidências em contrário, devemos assumir que Galileu manteve seu interesse em astrologia ao longo de sua vida.

Este ponto não é algo meramente antiquado. Repetindo o ponto, a visão do mundo do astrólogo era aquela em que o cosmos existia como um todo interconectado, e a medida das distâncias em que os corpos celestes interagem entre si e a Terra são inteiramente consistentes e matematicamente descritíveis. A versão cristã deste sistema, conforme articulada pela filosofia natureza medieval colocou o começo do sistema sob a influência de Deus, mas os teólogos ocidentais concordaram que não haveria intervenção a partir de então, permitindo seu funcionamento com precisão mecânica, como se fosse um relógio na frase de Nicole Oresme. Este é o significado do sistema astrológico que Galileu herdou, e é interessante especular sobre a influência dos aspectos mecânicos deste modelo no sistema de pensamento de Galileu. Uma coisa é certa, porém: se a teoria astrológica deu um impulso à filosofia mecânica florescente do Revolução Científica ou não, não há dúvida de que é um anacronismo procurar uma rejeição da astrologia durante este período como um sinal de racionalismo. Afinal, tanto para Pico quanto para Galileu, a crença na qual a astrologia se baseava era a melhor filosofia natural da época e era racional.

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