Traduções

O Desenvolvimento do Zodíaco Babilônico

 

Algumas Observações Preliminares

John Steele

Department of Egyptology and Assyriology, Brown University.
Mediterranean Archaeology and Archaeometry, Vol. 18, No 4, (2018), pp. 97-105

φ

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

Resumo

O desenvolvimento dos signos do zodíaco como uma divisão da zona através da qual a lua, o sol e os planetas viajam em doze partes iguais representa um passo importante na história da astronomia antiga. O desenvolvimento do zodíaco uniforme ocorreu na Babilônia no final do século V a.C. e foi posteriormente transmitido para outras partes do mundo antigo. Neste artigo, apresento uma discussão preliminar do desenvolvimento do zodíaco como uma estrutura para o posicionamento dos corpos celestes. Esse desenvolvimento submeteu-se à tradição babilônica que era observacional e computacional. Além de considerar a estrutura conceitual do zodíaco, presto atenção especial à maneira como os nomes dos signos do zodíaco foram atribuídos.

1. Introdução

O desenvolvimento do zodíaco foi o evento chave na história da astronomia e da astrologia babilônica. Na astronomia, o zodíaco astrológico forneceu uma estrutura matemática uniforme dentro da qual os corpos celestes, e em particular a lua, o sol e os cinco planetas, poderiam ser localizados. Esta estrutura matemática simplificou bastante o cálculo dos fenômenos astronômicos. Com a astrologia, o zodíaco abriu toda uma gama de novas possibilidades ao fazer associações entre os eventos terrestres e os do reino celeste. O desenvolvimento do zodíaco astrológico ocorreu em algum momento na Babilônia durante o final século V a.C. E o conceito de zodíaco astrológico posteriormente circulou pelo Oriente próximo, sendo transmitido ao Egito e ao mundo grego, de onde se espalhou para a Índia e depois da Índia para China e outras partes do leste da Ásia, enquanto no Oeste tornou-se um modelo padrão da astronomia grega, islâmica e européia.

Antes de prosseguir, é importante esclarecer a distinção entre o zodíaco da astrologia e o zodíaco das constelações. As constelações zodiacais são um conjunto de estrelas através das quais o sol, a lua e o planetas se movem. As constelações são um subconjunto de outro grande número das constelações espalhadas em toda a esfera celeste e, como todas as constelações, diferem em tamanho e forma e têm lacunas entre elas. Todas as constelações são construções humanas, projeções feitas no grande número de estrelas visíveis a olho nu que são distribuídas por todo o céu noturno. As constelações zodiacais são, portanto, culturalmente dependentes – culturas diferentes organizarão as estrelas em diferentes padrões e nomes com significados diferentes – embora, como qualquer conhecimento astronômico, as tradições que definem os nomes constelações podem circular entre culturas. Em termos modernos, as constelações zodiacais são uma série de constelações distribuídas em torno de uma zona centrada na eclíptica através da qual a lua, o sol e os planetas se movem. Podemos chamar isso de zona zodiacal. O zodíaco astrológico é uma divisão matemática uniforme desta zona zodiacal em doze partes iguais de comprimento, cada uma com 30°, e que podemos chamar de signos zodiacais (ou signos do zodíaco). Ao contrário das constelações zodiacais, o zodíaco dos signos são do mesmo tamanho e não têm lacunas entre eles. No entanto, enquanto os limites das constelações podem ser visto no céu noturno imaginando-se linhas entre estrelas, os limites dos signos zodiacais são definidos matematicamente e não podem ser diretamente visto no céu.

O desenvolvimento do zodíaco na Babilônia derivou de uma tradição existente das constelações zodiacais. Começo este artigo, portanto, com uma breve discussão dessas constelações antes de revisar a maneira como o zodíaco foi usado nos referidos textos astronômicos e astrológicos. Depois voltarei ao desenvolvimento do próprio zodíaco. O desenvolvimento da minha discussão será dividido em duas partes. Primeiro eu vou considerar o desenvolvimento do conceito do zodíaco como uma divisão uniforme da banda zodiacal. E segundo, examinarei a nomeação do zodíaco dos signos, uma pergunta que foi quase completamente esquecida em estudos anteriores.

2. Antes do Zodíaco: O Zodíaco das Constelações

O texto conhecido como MUL.APIN (𒀯𒀳), é um compêndio de conhecimento astronômico antigo que foi composto em algum momento antes do início do século VII a.C. (possivelmente séculos antes), e contém uma lista de dezessete constelações zodiacais:

As estrelas que estão no caminho em que a lua atravessa é a região onde a lua repete sua passagem durante o mês ‘tocando-as’: as Estrelas, o Touro do Céu, o Verdadeiro Pastor de Anu, o Velho, o Trapaceiro, os Grandes Gêmeos, o Caranguejo, o Leão, o Sulco, as Escalas, o Escorpião, Sagitário (Pabilsag) o Peixe-Cabra, o Grande, as caudas de Engula, Anunitu e o Contratado.

Esta lista começa com as Estrelas (Plêiades) porque pressupõe-se em MUL.APIN que no ano corrente a lua esteva situada dentro dessa constelação no seu início. No calendário babilônico, os meses começam no anoitecer em que a lua nova em seu crescente é visível pela primeira vez. O ano começa na primavera, na época do equinócio da primavera (quando, em relação ao equinócio, essa intercalação ocorre). Assim, o ano começa no anoitecer com a primeira visibilidade da lua perto do equinócio da primavera.

Textos observacionais do século VII a.C. em diante incluem relatórios da posição da lua e dos planetas em relação às constelações zodiacais, ou estrelas individuais, ou pequenos grupos de constelações de estrelas (por exemplo, a estrela da extremidade da Cabeça do Homem Contratado). Esses textos acrescentam mais uma constelação zodiacal à lista de constelações zodiacais: a Carruagem. Os textos astrológicos do mesmo período atestam mais uma constelação zodiacal: o Campo. Assim, pelo menos dezenove constelações zodiacais foram identificadas pelos babilônios.

3. Referências aos Signos Zodiacais em Textos Astronômicos e Astrológicos

3.1 Textos Observacionais e Relacionados

Um grande número de tabletes cuneiformes da Babilônia conhecidos contêm relatórios de observações astronômicas. As observações contidas nos textos escritos nestes tabletes datam do meio do primeiro até o final do oitavo século a.C. A maioria dos tabletes contém textos inscritos e nomeados em menor número (pelos próprios babilônios) por tipologias. Os textos mais amplamente citados são do tipo de Diário Astronômico, que contém informações astronômicas terrestres e cobrem períodos de vários meses geralmente meio ano (mas os Diários conhecidos cobrem períodos de alguns meses a um ano). Destes Diários foram produzidos vários textos que contêm coleções de dados astronômicos, seja para analisar dados passados ou ​​para identificar regularidades astronômicas. Essas previsões foram escritas nos chamados Almanaques e Almanaque Geral de Estrelas, que são muito semelhantes ao estilo dos Diários.

Começando por volta de 400 a.C., os signos zodiacais são quase sempre dados em relatórios de observações da primeira ou última aparição (elevação e fixação heliacal) de um planeta. Eles também são ocasionalmente apresentados em relatórios de observações de posições planetárias e eclipses lunares. A primeira e última aparições previstas e posições planetárias também costumam incluir o signo zodiacal em que o planeta estava localizado nessa data. Aqui está um exemplo típico: “Mês IX, 20, Saturno na primeira aparição em Sagitário”. Se o planeta estava próximo do início ou do fim do signo zodiacal, o nome do signo zodiacal deveria ser precedido pela palavra “início” (SAG) ou “final” (TIL). As zonas de “início” e “final” de um signo zodiacal correspondem a aproximadamente ao primeiros e últimos 5° do signo. Diferentemente dos escritos referentes às constelações, onde um planeta pode estar “na frente” ou “atrás” de uma constelação, os planetas só podem estar “em” um signo zodiacal.

O segundo tipo de afirmação envolvendo o zodíaco encontrado nos diários e nos almanaques são declarações de qual signo zodíaco ou planeta estava localizado durante um determinado mês. Se o planeta se mexesse de um signo para outro signo a data é bem relatada. Por exemplo: – [Nesse mês … Jup] iter estava em Escorpião; Vênus e Marte estavam em Gêmeos; Saturno estava em Virgem; no dia 19, Marte alcançou Câncer; no dia 21, Vênus chegou ao Câncer”.

As datas em que um planeta alcançou um novo signo do zodíaco não pode ser observado diretamente porque os signos zodíaco não têm limites visíveis. Em vez disso, essas datas foram derivadas da posição do planeta em relação a certas estrelas de referência (nomeadas por estudiosos modernos “Estrelas Normais”). Foi observado que os limites dos signos zodiacais coincidiam (neste caso, a rédea meridional da Carruagem (ζ Tau), a estrela Gêmea Traseira (β Gem) e a Estrela da retaguarda do peixe-cabra (δ Cap), capturados para marcar o início de Gêmeos, Câncer e Aquarius respectivamente) com as distâncias conhecidas na “frente” ou “atrás” de uma estrela normal. Este elo entre o início dos signo zodiacal e a localização das estrelas indica que zodíaco da Babilônia era sideral e, portanto, deslizava em relação ao nosso zodíaco tropical ao longo do tempo, uma conclusão confirmada através da análise de comparações de posições zodiacais com computação moderna. São conhecidos catálogos de duas estrelas que dão as posições das Estrelas Normais dentro dos signos do zodíaco.

3.2 Textos Astronômicos Matemáticos

A matemática astronômica babilônica usava funções aritméticas para calcular a data e posição da lua e dos planetas em seus fenômenos sinódicos -conjunção e oposição da lua, primeira e última aparição, posições e a ascensão (ἀκρόνυκτος)‎ heliacal dos planetas- junto com o material relacionado como a latitude celeste do corpo, a velocidade lunar e a duração do mês sinódico. Nos textos contendo os resultados desses cálculos, a posição da lua ou de um planeta é especificada pelo número de graus (UŠ) dentro de um signo do zodíaco.

3.3 Textos Astrológicos

O zodíaco aparece em uma ampla variedade de textos astrológicos que datam de cerca de 400 a.C. em diante. Estes textos incluem horóscopos que contêm coleções de dados astronômicos por dias e em torno da data de nascimento de um indivíduo. Esses dados inclui frequentemente o signo do zodíaco dentro do qual o sol, a lua e os planetas estavam localizados naquele momento. Relacionados aos horóscopos, há textos que listam presságios da natividade que relacionam o signo do zodíaco que o sol, a lua ou um planeta estão localizados com a futura vida e morte dessa criança. Outro texto astrológico que faz uso dos signos do zodíaco inclui textos que dão associações entre os signos zodiacais e cidades, textos que associam signos zodiacais com partes do corpo humano e textos que associam os signos do zodíaco e aos signos de um micro-zodíaco (1/12 de um signo do zodíaco) ingredientes médicos, locais religiosos, etc.

Um grupo particularmente interessante de textos astrológicos são os chamados kalendertext, que usam um simples esquema numérico para conectar datas do calendário com posições no zodíaco. Esses signos zodiacais nessa posição são então associado a itens terrestres como lcoais e, mais comumente, os materiais para fazer remédios médicos. Aqui está um exemplo típico de uma escrita de um destes textos:

8 12 1 6 nam.tar-wood, ú.gír-wood, white-plant, tomilho-planta, […] -planta, sag.gil.mud-pedra. Eanna. Dia do deus da cidade. Abertura do portão, Sin, Šamaš, e [Ištar, A] nu, Enlil e Ea e o guerreiro Ningirsu. Júpiter. Armas, conflito. Ele deveria sair para julgamento. Ele deve prostrar-se diante do pecado e Šamaš, e ele provará ser misericordioso.

A frase começa com quatro números. Os dois primeiros números são do signo do zodíaco e do número de graus dentro desse signo (neste caso, 12° da 8° signo que é Escorpião). Os dois segundos números correspondem para o mês do ano e o dia do mês. O signo e os graus são calculados a partir do dia do mês e de acordo com o cálculo da regra de que a posição aumenta 277° a cada dia. O texto do qual este exemplo é retirado abrange todo o primeiro mês do ano. Esse modelo segue os quatro números e se repete a cada vez que o mesmo signo do zodíaco aparece no esquema. (Os dois números finais seguem um esquema que aumenta 13° por dia.)

3.4 Textos Astronômicos Esquemáticos

O zodíaco aparece em um pequeno número de textos de um corpus maior do que o do esquema astronômico. O esquema astronômico dos textos contêm cálculos matemáticos simples que descrevem fenômenos astronômicos como a variação do dia durante o ano, a duração da visibilidade lunar e o comprimento de uma sombra lançada por um gnômon. Um grupo de textos neste gênero apresentam um esquema para os chamados tempos de ascensão. Estes textos existem de duas formas: uma versão baseada no calendário que apresenta um esquema para a ascensão de certas estrelas (ou distâncias atrás dessas estrelas) ao nascer do sol nas datas do ano e, uma versão baseada no zodíaco que apresenta o mesmo esquema, mas relacionado aos pontos culminantes da ascensão no horizonte oriental dos pontos no zodíaco.

4. O Desenvolvimento do Conceito de Zodíaco

É geralmente aceito entre os historiadores da astronomia babilônica que o conceito do zodíaco é uma divisão uniforme da zona através da qual o sol, lua e planetas se movem em doze partes iguais, cada uma das quais foi subdividida em 30°, desenvolvendo por analogia a divisão do modelo de doze meses, cada um dos quais contendo 30 dias. O calendário babilônico era um calendário luni-solar que se iniciava no mês regido pela primeira visibilidade do crescente da lua nova, levando a meses com duração de 29 ou 30 dias e o ano normalmente continha 12 meses, mas com uma ligeira oscilação a cada três anos, e um mês extra intercalado era adicionado para impedir que esse calendário se perder-se longe demais em relação às estações, trazendo o número de meses nesses anos para 13. Em razão da incerteza em saber se um mês tem 29 ou 30 dias e se um ano terá 12 ou 13 meses, desde muito cedo na história da Mesopotâmia encontramos evidências  do uso de um método simplificado de fazer cálculos para um calendário. Esse calendário, usado exclusivamente para cálculo nunca foi considerado um calendário real, feito meramente com um mês de 30 dias e cada ano de 12 meses, totalizando 360 dias dentro de um ano. O modelo deste calendário foi usado pela primeira vez em documentos para simplificar o cálculo da alocação de rações e cálculo de juros sobre empréstimos, etc., mas a partir do segundo milênio a.C. também foi frequentemente usado em cálculos astronômicos.

Uma evidência clara do papel deste esquema de calendário no desenvolvimento do conceito do zodíaco é fornecida por vários textos astronômicos e astrológicos que usam os nomes dos meses para se referir aos signos do zodíaco (veja a seção 5 abaixo). Dentro deste conceito astronômico paralelo à estrutura do zodíaco, o esquema do calendário forneceu um modelo simples para o movimento do sol na longitude em que o sol se move 1° por dia. Assim, se assumirmos que o sol está localizado a 1° de Áries no 1º dia do ano, a posição do sol será sempre igual para este dia a cada ano. Assim, o número do mês e do dia são os mesmos no signo do zodíaco e nos graus dentro esse signo. Por exemplo, no 14º dia do mês IV, o sol estará localizado 14° dentro do quarto signo zodiacal que é Câncer. Essa equivalência entre a data do calendário esquemático e da posição do sol foi explorada nos primeiros textos e, transformou um esquema baseado em calendário em um modelo de zodíaco, o kalendertext astrológico também explora o paralelismo do calendário e do zodíaco para criar um esquema astrológico.

O conceito do zodíaco, portanto, sai do modelo de um calendário. Em certo sentido, o zodíaco também serviu para uma função paralela ao modelo de calendário. O esquema de calendário simplificou o cálculo, fornecendo um sistema uniforme de contagem constante dos meses e anos. Da mesma forma, o zodíaco simplificou o cálculo da posição do sol, lua e planetas, fornecendo um ‘esquema’ do conjunto de ‘constelações’ de largura uniforme. Assim como há 12 meses de 30 dias cada no modelo do calendário, o zodíaco é dividido em 12 signos cada um contendo 30 UŠ. O zodíaco, portanto, não é uma redução de um grande número de constelações zodiacais para 12, mas sim um sistema independente de dividir a zona zodiacal. Como vou discutir nesta próxima seção, uma tradição para nomear os signos do zodíaco era usar os nomes das constelações selecionadas no repertório disponível de constelações zodiacais.

5. Nomeando os Signos Zodiacais

O processo de nomeação dos signos do zodíaco tem recebido pouca atenção dos estudiosos. Um estudo completo dos signos do zodíaco deve levar em conta não apenas os nomes dos signos encontrados em textos astronômicos e astrológicos, mas também as imagens de signos zodiacais encontradas nas impressões de selos, desenhos sobre tabletes cuneiformes, etc. Espero empreender tal estudo no devido tempo, mas o espaço para essas considerações me impedem de fazê-lo aqui. A seguir, portanto, considero apenas evidências textuais e restrinjo isso apenas aos tabletes astrológicos selecionados e os Diários Astronômicos. No entanto, os resultados que apresento aqui parecem fornecer uma coerente e, não necessariamente, completa imagem da nomeação dos signos zodiacais.

Três métodos para nomear os signos do zodíaco são conhecidos: (i) pelo nome do mês, (ii) pelo número e (iii) pelo nome de constelação.

5.1 Nomeação pelo Nome do Mês

Um pequeno número de textos usa nomes de meses para indicar os signos do zodíaco. O primeiro deles, BM 53282, uma coleção de horóscopos que datam do reinado de um dos reis chamado Artaxerxes (quase certamente Artaxerxces II) usa a terminologia É ituMN literalmente “casa do mês MN” para indicar o signo do zodíaco. A mesma terminologia “casa do mês MN” é usada em BM 36609+, esse texto contém uma lista de Estrelas Normais com suas posições zodiacais. Vários textos astrológicos se referem aos signos do zodíaco pelo nome equivalente do mês. Por exemplo, uma lista dos chamados “termos” (a divisão de cada signo do zodíaco em comprimento desigual de partes associadas a um planeta em particular) encontradas no compêndio astrológico BM 36303+ (+) BM 36628+ (+) BM 36988 usam nomes de meses para se referir aos signos do zodíaco e dois tabletes kalendertext, SpTU III 104 e 105, misturam nomes do mês e nomes de constelações para indicar os signos do zodíaco.

5.2 Nomeação por Número

Vários dos tabletes de texto kalendertext e informações astrológicas e material relacionado referem-se aos signos do zodíaco usando numerais. Os signos do zodíaco são numerados em ordem começando com Áries. Esta prática parece restringir-se a textos que empregam métodos matemáticos de modelos astrológicos.

5.3 Nomeação pelo nome da constelação

A maneira mais comum de nomear os signos do zodíaco era pelo nome das constelações localizadas dentro dos signos. Uma lista bastante padrão dos nomes dos doze signos surgidos nos últimos séculos a.C. Esta lista é apresentada no BM 34566 Obv. 2–4 (dou uma transcrição tanto dos signos cuneiformes e tradução para referência):

HUN MÚL-MÚL MAŠ-MAŠ ALLA A ABSIN RÍN GÍR-TAB PA MÁŠ GU zibme

O Homem Contratado, As Estrelas, Os gêmeos, O Caranguejo, O Leão, O Sulco, As Escalas, Escorpião, Pabilsag, O Peixe-Cabra, O Grande, As Caudas.

Esta “lista padrão”, como chamarei a partir de agora, é usada para os nomes dos doze signos do zodíaco que aparecem nos Diários Astronômicos e textos relacionados, em textos de matemática astronômica e em textos astrológicos deste período, com apenas alguns exceções que discutirei abaixo. (Observe que às vezes, esses nomes são escritos de maneira ligeiramente diferente em textos diferentes, por exemplo, em formas mais completas, como como UR.A para o Leão, ou abreviações mais curtas, para exemplo MAŠ para os Gêmeos e GÍR para o Escorpião; essas formas mais curtas são comuns nos textos de matemática astronômica onde o espaço em uma mesa era em um prêmio e onde visualmente fazia sentido referindo-se a cada signo do zodíaco por apenas um signo cuneiforme em vez de dois signos, como seria o caso por quatro signos usados nos escritos acima.)

Comparando a lista padrão com a lista das constelações zodiacais em MUL.APIN, descobrimos que todos esses nomes de constelações aparecem nas listas antigas. Como veremos, no entanto, o processo de escolha para usar os doze constelações não era intencionalmente direcionada. Além disso, é claro, a  alternância dos nomes, pois alguns dos signos do zodíaco ainda estavam em uso no início do século III a.C., bem mais de cem anos após o desenvolvimento do zodíaco.

A seguir, apresento breves discussões sobre os nomes de cada signo do zodíaco.

5.3.1 Áries

O nome do signo zodiacal de Áries é escrito usando dois signos cuneiformes diferentes: HUN e LU.HUN é a escrita mais comum na Babilônia e é uma abreviação de mul lúHUN.GA – o Homem Contratado. LU é comumente usada em Uruk, mas também é ocasionalmente usado na Babilônia (o primeiro exemplo está em um Diário de 374 a.C.). Não sei se a tradução LU.LU poderia ser simplesmente outra abreviação de mul lúHUN.GA. O sinal LÚ nesse nome é indicativo determinante de que os signos seguintes denotam uma profissão. É possível que LÚ tenha sido tomado como abreviação do nome completo e substituído pelo signo cuneiforme homófono LU. Às vezes encontramos casos em que signos cuneiformes complicados são substituídos por signos com a mesma pronúncia mas que são mais simples de escrever (por exemplo, no período babilônico tardio os signos complicados BÁR e SIG4 para o Mês I e Mês III, foram respectivamente substituídos pelos signos BAR e SIG, que são signos mais simples que exigem menos cunhas e ocupam menos espaço). No entanto, o signo LU não é mais simples que o LÚ, exigindo não menos cunhas para ser escrito. A alternativa é ler o sinal LU como UDU (eles são o mesmo signo), o que pode significar “ovelha”. Evidências do início do século III a.C. em diante sugere que o signo zodiacal de Áries era por vezes interpretado como uma ovelha: um kalendertext que faz uma associação simples entre animais e ingredientes médicos utilizados aos animais de nomes correspondentes para os signos zodiacais (por exemplo, sangue do Leão e cabelo do Leão), associa o sangue, o cabelo e a gordura com Áries e o sêmem da ovelha representando aparentemente Áries são retratados em selos do mundo helenístico do período de Uruk. Assim, pode ser que a “Ovelha” fosse um nome alternativo para “o Homem Contratado” de Áries. Um texto descrevendo a constelação conhecida em um tablete de Uruk, datado do final do século III a.C. racionaliza a transformação do “Homem Contratado” para “A Ovelha” num jogo de palavras cuneiforme como segue:

“O Carneiro Contratado” (mulMÚ.MU.HUN.GA), “Ovelhas Contratadas” (mulLU.HUN.GÁ), Nisan, o Mês de Anu, estrela do Ano Novo. “O Homem Contratado” (mulLÚ.HUN.GÁ), o cordeiro, ovelha, Dumuzi. Em relação as “ovelhas contratadas” (mulLU.HUN.GÁ) – três estrelas são desenhadas na testa; duas estrelas são desenhadas em sua coxa: quatro estrelas ficam aos seus pés.

O jogo de palavras é usado para transformar “o Contratado” em “O Homem Ovelha Contratado” e depois em a “Ovelha Contratada ”. Não é difícil imaginar o passo seguinte em que “ovelha contratada” é abreviado para “Ovelha”. É possível que essa transformação de “Homem Contratado” em”Ovelha” foi influenciada pela tradição grega de Áries, o Carneiro. No entanto, dado que o signo já é referido como LU em um arquivo do Diário astronômico de 374 a.C., a influência grega parece improvável.

5.3.2 Touro

Touro apresenta um caso particularmente complicado. O tablete, chamado TE (BM 77824), associa os signos zodiacais com seus meses, fornece dois nomes ao lado da inserção para o Mês II: “As Estrelas” e “O Touro do Céu”. Estes dois nomes também são indicados juntos num par de micro-zodíacos em textos indicando Touro. Portanto, parece que um ou ambos os nomes “as Estrelas” e o “Touro do Céu” podem se referir a Touro. Nos Diários Astronômicos, Touro é geralmente referido como “as Estrelas” (MÚL-MÚL). Contudo, antes de 267 a.C., encontramos casos com os nomes “Touro do Céu ”(GU4-AN) e “A Carruagem” (gisGIGIR ou GIGIR) onde esperaríamos o nome do signo de Touro. Ao comparar esses casos usando a moderna computação de posicionamento astronômico quando se diz que o “Touro do Céu” e “O Carro”, embora, encontremos “o Touro do Céu” parece que ele é usado apenas para aproximadamente a primeira metade de Touro e “a Carruagem” é usada apenas para a segunda metade do signo. “As Estrelas” parece ser usada para todo o signo. Não há problema com o nome usado, as inscrições seguem o estilo de relatórios que, de outra forma são, usados ​​apenas para o signo zodiacal. Parece, portanto, que Touro – exclusivamente – poderia às vezes ser dividido em duas metades quando usado como um signo do zodíaco, pelo menos antes de cerca de 267 a.C.

Embora Touro seja mais comumente chamado de “as Estrelas ”, as impressões dos selos de Uruk helenístico retratam o signo zodiacal como um touro. Mais pesquisas são necessárias para entender se isso é puramente uma variação local ou se o signo zodiacal de Touro era geralmente entendido como um touro, independentemente de como foi nomeado.

5.3.3 Gêmeos

O tablete TE lista ambos de nomes para o assinar o signo zodiacal Gêmeos: “O Verdadeiro Pastor de Anu” e “os Grandes Gêmeos”. A mesma associação é usada para nomear Gêmeos nos textos micro-zodiacais. No Diário Astronômico e no material relacionado, no entanto, Gêmeos é sempre chamado “os Gêmeos”. E está sempre escrito como MAŠ-MAŠ.

5.3.4 Câncer

Todos os textos conhecidos referem-se ao signo zodiacal Câncer como “o Caranguejo”. Nos Diários Astronômicos, o caranguejo é sempre escrito usando o signo cuneiforme ALLA. Os textos astrológicos, às vezes, usam AL.LUL.

5.3.5 Leo

Todos os textos conhecidos se referem ao signo zodiacal de Leão como “o Leão”. Nos Diários Astronômicos, “o Leão” está escrito como UR-A em textos que datam do século VI até 309 a.C., e como A nos textos de 307 a.C. em diante. (A única exceção a esta regra é um Diário de 381 a.C., que escreve A em vez do esperado UR-A). Ambas as formas são encontradas em textos astrológicos junto com UR-GU-LA.

5.3.6 Virgem

Todos os textos conhecidos se referem ao signo zodiacal de Virgem como “o Sulco”. Nos Diários Astronômicos, “o Sulco” é sempre escrito usando o signo ABSIN. Os textos astrológicos, às vezes, usam AB-SÍN.

5.3.7 Libra

Todos os textos conhecidos se referem ao signo zodiacal de Libra como “as Escalas”. Nos Diários Astronômicos, “as Escalas” é sempre escrita com o sinal RÍN. Os textos astrológicos, às vezes, usam a forma mais completa gisRÍN ou escrevem o nome silabicamente (por exemplo, zi-ba-an-na).

5.3.8 Escorpião

Todos os textos conhecidos se referem ao signo zodiacal de Escorpião como “o Escorpião”. Nos Diários Astronômicos, Escorpião é sempre escrito GÍR-TAB.

5.3.9 Sagitário

Todos os textos conhecidos se referem ao signo zodiacal de Sagitário como “Pabilsag” (um deus babilônico). No Diário Astronômico, “Pabilsag” é geralmente escrito como PA, mas nos antigos Diários até 369 a.C., às vezes, usa-se  forma completa PA-BIL-SAG ou PA-BIL. Todas as três formas são encontrados em textos astrológicos.

5.3.10 Capricórnio

Todos os textos conhecidos se referem ao signo zodiacal de Capricórnio como “O Peixe-Cabra”. Nos Diários Astronômicos, “O Peixe-Cabra” é sempre escrito como MÁŠ. Os textos astrológicos, às vezes, usam a forma completa SUHUR-MÁŠ.

5.3.11 Aquário

Todos os textos conhecidos se referem ao signo zodiacal de Aquário como “O Grande”. Nos Diários Astronômicos, “o Grande” é geralmente escrito GU, embora um Diário (datado de 344 a.C.) escreve GU-LA. Os textos astrológicos usam as duas formas.

5.3.12 Peixes

O tablete TE refere-se a Peixes pelo par de nomes “O Campo” e “As Caudas”. Surpreendentemente, os tabletes do micro-zodíaco referem-se apenas a Peixes como “O Campo”. “O Campo” é usado com bastante frequência em textos astrológicos, mas nunca foi usado nos Diários Astronômicos que sempre chamam Peixes de “As Caudas”, escrito como KUNme nos antigos Diários de até 381 a.C. e zibme em Diários posteriores em 330 a.C. (com uma única exceção conhecida em 383 a.C., onde o zibme é usado, talvez sugerindo que foi nessa época que a convenção foi trocada e as duas formas coexistiram por alguns anos).

6. Conclusão

O desenvolvimento do zodíaco foi um significativo evento na história da astronomia babilônica, fornecendo um sistema uniforme de referência posicional, simplificando o cálculo matemático dos dados dos fenômenos astronômicos e abrindo novas possibilidades para a interpretação astrológica destes dados astronômicos.

O desenvolvimento do zodíaco exigiu não apenas conceber o conceito de uma divisão uniforme da zona zodiacal, que saiu da divisão de um paralelo com o esquema de um calendário anual, mas também definiu como cada signo deveria ser nomeado. A convenção adotada com mais frequência foi nomear os signos após sua seleção no zodíaco das constelações. Rastreando os nomes usados ​​para os signos do zodíaco dos Diários Astronômicos, foi possível explorar quais constelações seriam escolhidas como nomes para os signos zodiacais e como isso mudou com o tempo. Ao fazê-lo, uma melhor compreensão cultural do seu significado individual surge nos signos zodiacais (em particular, uma aparente preferência por representar Áries e Touro como animais em Uruk). Além disso, a mudança de convenções na nomenclatura pode fornecer um critério adicional que pode ser usado na datação dos fragmentos dos Diários Astronômicos.

υ

Estudos Babilônicos sobre Astrologia

1Astrologia Grega nas Tabuletas Babilônicas

2Ciência Astral Babilônica no Mundo Helenístico

3Mais sobre a Transmissão do Zodíaco Babilônico

4A Astrologia no Mundo

5Astrologia Caldea

6Quando o Zodíaco Subiu aos Céus

7El Testimonio de las Estrellas

8O Tempo em que os Anjos Ensinaram Segredos aos Homens

9Um Fio de Ouro

δ

Referências

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