Cosmologias

Jaipur: O Jardim dos Deuses de Pedra

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Observatórios astronômicos, astronomia e astrologia na Índia do século XVIII

Mario Fundarò

*Arquiteto, Mestre em Historia da critica do restauro pela Universidade degli Studi di Milano; doutorando em Restauro da Escola de Arquitetura da UFMG.

II Seminário internacional Cultura Material e Patrimônio de C&T

Resumo

Entre 1720 e 1740 o Marajá indiano Jai Singh II, projetou e construiu cinco grandes observatórios astronômicos em escala arquitetônica em cinco cidades indianas: Jaipur, Delhi, Varanasi, Ujjain e Mathura. Estes complexos arquitetônicos são um dos exemplos mais claros e impressionantes da aplicação do desenvolvimento do conhecimento cientifico e tecnológico do homem, onde a obra arquitetônica, mesmo mantendo a sua escala monumental, é pensada e projetada em função do seu uso cientifico, neste caso como instrumento de observação astronômica. Este trabalho, visando o aprofundamento do conhecimento e a promoção do patrimônio cultural mundial ligado à ciência e à tecnologia aplicada à arquitetura, neste caso melhor dizer, da arquitetura aplicada à tecnologia, quer contribuir para a conservação do patrimônio histórico através de uma reflexão sobre o papel fundamental do conhecimento da cultura da época para o real entendimento da história e dos seus produtos materiais, trazendo como exemplos os instrumentos dos observatórios de Jai Singh II e a cidade fundada por ele: Jaipur.

Introdução

O debate atual sobre conservação e restauro do patrimônio histórico e cultural abrange com certeza também o campo do patrimônio cientifico, enquanto este último é manifestação concreta de um determinado saber e conhecimento, de uma determinada época e país. É interessante, portanto, o paralelismo que podemos tecer no que respeita a polêmica existente entre os restauradores, quando o objeto do restauro é um monumento artístico e quando é um instrumento cientifico.

A discussão intensa entre os “conservadores integrais” e os “restauradores da repristinação” – onde as temáticas da “proeminência do valor histórico da matéria”, por um lado, se contrapõe à “ideia de poder recompor um estilo absoluto e perfeito” de uma obra de arte – encontra a mesma dialética quando se trata de um instrumento cientifico, onde os conservadores integrais opõem resistências aos restauradores que acham possível, num restauro, melhorar o funcionamento cientifico do instrumento, assim como, por exemplo, a sua precisão.

O perigo do falso histórico é presente em ambas as situações, seja de obras de arte, seja de instrumentos científicos e, a nosso entender, igualmente grave.

Quando o Logotenente inglês E.H. Garrett em 1902 inicia os trabalhos de restauro do Observatório Jantar Mantar de Jaipur, construído em 1734 pelo Marajá Jai Singh II na Índia, podia escolher entre um restauro de concepção “estilística” – baseado na idéia positivista de poder recompor cientificamente a realidade histórica de uma determinada obra, que encontra as suas origens no pensamento de Viollet-le-Duc – e as novas teorias em formação na época: na Itália, com as posições mais respeitosas e conservadoras de Boito (restauro filológico) e Beltrami (restauro histórico), na Alemanha, com A. Riegl e a sua “teoria dos valores” (“a DenkmalKultus”) e, na Inglaterra, com J. Ruskin, que considerava a restauração a verdadeira destruição dos edifícios.

A escolha de Garrett foi feita com base na concepção “científica” da escola de Viollet-leDuc, isto é, restaurar e aprimorar se possível, os instrumentos do Observatório no que respeita ao funcionamento e à precisão. Escolha bastante criticada já poucos anos depois da conclusão dos restauros.

A titulo de exemplo, no instrumento denominado Rasivalaya Yantra, Garrett – mal interpretando o funcionamento dos instrumentos que o compõem – julgou errada a maneira como tinham sido construídos e se sentiu tranquilamente autorizado a modificar as inclinações dos gnomon de cada um deles. Igualmente, no Samrat yantra, a escala graduada presente ao longo do gnomon foi “melhorada” pelo restaurador. Esta foi a sorte que a maioria dos instrumentos teve de enfrentar.

Em muitas suas componentes, portanto, o observatório de 1734 do Marajá Jai Singh II não existe mais, perdeu-se para sempre porque não é possível recuperar a matéria de algo que foi destruído.

Ainda hoje muitos profissionais do restauro acreditam na sua própria capacidade, direito – e dever – de recompor e restaurar uma obra, inspirando-se em uma condição inicial ideal, para entregar à comunidade, o edifício “como antes, melhor que antes”.2

2. “Come prima meglio di prima” (como antes melhor que antes) é o titulo de uma comedia de Luigi Pirandello, que inspirou os restauros de repristinação do campanário da Basílica de San Marco em Veneza, que desabou em 1902 e foi reconstruída, igual ao original, em 1912.

A esta visão opomos o conceito de “conservação integral”, onde o valor de uma obra está principalmente na sua materialidade, na matéria histórica que o compõe e que o restaurador tem obrigação de conservar o que existe sem melhorar e sem eliminar as sobreposições do tempo, focando unicamente a sua preocupação em consolidar estruturalmente os instrumentos, eliminar eventuais patologias danosas e proporcionar o máximo possível o conhecimento e a compreensão da obra. No caso do Jantar Mantar de Jaipur, redescobrindo também a modalidade de funcionamento e a função de cada instrumento de observação astronômica – sendo isso também um elemento extraordinário de salvaguarda de uma obra de arte ou científica.3

3 Desde 1968 o Observatório de Jaipur é monumento nacional e em 2010 foi reconhecido como Patrimônio Mundial (UNESCO), ademais é protegido pela Lei de Antiguidades dos Sítios Arqueológicos do Rajhastan desde 1961.

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Historia e Descrição dos Instrumentos do Observatório de Jaipur

O Marajá Sawai Jai Singh II nasceu em 3 de novembro de 1688, na cidade de Amber, Estado do Rajasthan, na Índia norte-ocidental. O período de máxima ascensão política do marajá, entre 1720 e 1740, corresponde também ao período de sua máxima produção intelectual. Podemos descrever o Jai Singh II como um verdadeiro príncipe iluminado, com uma corte rica de artistas, astrônomos, cientistas e brahmins, além de receber frequentemente visitas de estudiosos estrangeiros. Ele mesmo é considerado um importante astrônomo: em 1729, após vários anos de observações, publica as suas tábuas astronômicas, as Zij Muhammad Shahi.

A fama do Marajá astrônomo inicia na verdade quando, em 1725, em homenagem ao Imperador Muhammad Shahi, conclui em Delhi a construção do primeiro dos seus cincos observatórios astronômicos em escala monumental.

Nem sempre a crítica ocidental conseguiu interpretar estas obras de Jai Singh II de maneira correta. A realização de observatórios com instrumentos de grandes dimensões não é da cultura ocidental a qual, a partir do século XVI, rompeu drasticamente com sua dependência das técnicas de observação de origem árabe e indiana e iniciou uma nova era de observações baseada em centros de observação astronômica com a utilização de instrumentos metálicos de média e pequenas dimensões, mas sempre mais precisos e versáteis.

A realização no século XVIII de um tal tipo de observatório foi por isso considerada um fato estranho e pouco científico.

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O Observatório, Jantar Mantar de Jaipur

Como mencionado inicialmente, a crítica contemporânea não se interessou muito pelo funcionamento científico e tecnológico dos instrumentos construídos em escala arquitetônica pelo Marajá. O aspecto de tecnologia aplicada à arquitetura, ou melhor, neste caso, de arquitetura aplicada à tecnologia será pelo contrário o centro deste escrito, fornecendo uma análise do funcionamento destes instrumentos, fazendo jus ao gênio tecnológico de Jai Singh II.

O Observatório de Jaipur possui hoje quinze instrumentos principais para observações dos astros que estão apresentados a seguir:

Samrat Yantra – Grande relógio solar, indicação da hora solar. Leitura da declinação do Sol e dos corpos celestes.

Shashthansha Yantra – Leitura da latitude solar.

Jai Prakash Yantra – Leitura da altitude, azimute, etc. dos corpos celestes.

RashivalayaYantra – Instrumento dos signos zodiacais.

Ram Yantra – Leitura da altitude, azimute, etc. do Sol e dos corpos celestes.

Kapali Yantra – Leitura da hora, azimute, altitude e declinação do Sol. Leitura da longitude dos corpos celestes. Determinação ascendente zodiacal.

Chackra Yantra – Leitura do ascendente vertical, da declinação e hora angular.

Digansha Yantra – Leitura e cálculo do azimute do Sol e dos corpos celestes.

Dhruva Darshak Yantra – Instrumento da estrela polar. Cálculo norte geográfico, posição exata da estrela polar, constelações, etc.

Yantra Raja – Astrolábio, medições diversas.

Narivalaya Yantra Relógio solar hemisférico. Leitura da hora, distância zenital e posição do Sol.

Unnatasha Yantra – Instrumento da altitude. Leitura e medição da altitude de corpos celestes.

Laghu Samrat Yantra – Relógio solar pequeno.Leitura da hora. Leitura da declinação do Sol e dos corpos celestes. Realizado posteriormente, no séc. XIX.

Dekshinobhitti Yantra – Relógio solar vertical. Leitura da altitude corpos celestes no meridiano local. Leitura da distância zenital. Realizado posteriormente, no séc. XIX.

Kranti Writa Yantra – Instrumento da eclíptica. Leitura latitude e longitude dos corpos celestes no que respeita a eclíptica. Realizado posteriormente, no séc. XX.

Trataremos especificamente do Grande Relógio Solar (Samrat Yantra) pelas suas dimensões excepcionais e dos quatros instrumentos considerados invenções ex novo do Marajá e, portanto, uma contribuição marcante na história dos observatórios astronômicos e, em geral, da técnica: o Jaiprakash Yantra, o Rashivalaya Yantra, o Ram Yantra e o Kapali Yantra.

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Samrat Yantra

Vista do Samrat Yantra. O gnomon de 27 metros de altura.

O Samrat Yantra pode ser descrito como um gigantesco “relógio solar”, sendo que a sua finalidade principal é, de fato, indicar a hora local. O gnômon deste relógio solar tem um altura de 27m e uma base de 44m, com um ângulo igual à latitude de Jaipur ou seja: 26° 55′.

Os enormes quadrantes semicirculares de raio equivalente a 14,5m são inclinados segundo o plano equatorial, portanto de 63° 45′, estando orientados ao longo do eixo leste-oeste. Na hipotenusa deste gnômon, orientada exatamente para o Norte, há uma escala graduada que representa a “escala das tangentes”, utilizada para medir a altitude do Sol.

Os quadrantes também apresentam uma escala graduada em mármore, utilizada para a leitura da hora (pela manhã de um lado e à tarde do outro). A escala graduada é em horas, minutos e segundos. Devido às enormes dimensões dos quadrantes, Jai Singh II conseguiu a subdivisão do minuto em até 30 partes, permitindo, portanto, a precisão de 2 segundos. Este dado explica o que motivou o Marajá na construção de um instrumento em escala tão grande: quanto maior for o instrumento, maior será a precisão. De fato, este axioma que acompanha a cultura dos observatórios árabes e indianos é verdadeiro, mas tem um limite: a leitura da hora é realizada observando-se a sombra do gnômon no quadrante, que não define uma linha nítida e exata, reduzindo a precisão real, que fica limitada a 3-5 segundos.

Outra função deste instrumento é a leitura da declinação dos corpos celestes (diurno e noturno) dado fundamental para determinar a altura de um astro na esfera celeste. Esta leitura é feita ao longo do gnômon mediante a “escala das tangentes”. Para determinar o ângulo da declinação do Sol se procede da seguinte forma: Posiciona-se um indicador, uma haste em madeira ou de aço, perpendicularmente á escala graduada do gnômon. Este indicador é movido ao longo desta escala graduada até a sua sombra projetada “cortar” a borda do quadrante determinando um ponto na escala das tangentes que representa o ângulo de declinação do Sol.

À noite é possível fazer a leitura da declinação dos astros (estrelas, planetas, etc.).

Para fazer tal leitura são necessárias duas pessoas e uma haste ou barra suficientemente longa. Supondo-se que o astro a medir esteja no lado oeste em relação ao gnômon, o primeiro observador se posiciona ao longo da borda do quadrante a leste, o outro observador sobe pelo gnômon até fazer a colimação com o astro. A leitura feita da barra ao longo da “escala das tangentes” representa o ângulo da declinação deste astro. Segundo Sharma, com este instrumento pode-se obter uma precisão respectivamente de 15′ na determinação da altitude dos planetas e de 1′ no cálculo da declinação do Sol.

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Jaiprakash Yantra

Este instrumento é a primeira entre as invenções de Jai Singh II. Sua finalidade é a leitura da altitude e do azimute dos corpos celestes.

É composta de uma plataforma em arenito de (9,5 x 17,5)m com duas cavidades em mármore, semi-hemisféricas, de 5,5m de diâmetro, complementares entre si.

Estas cavidades em mármore representam a esfera celeste invertida, onde a borda, com escala graduada em 360 graus, define o horizonte e o ponto ao seu centro representa o Zênite, ao longo do qual passa a linha de meridiano N-S. Nas cavidades estão marcadas as linhas do Equador Celeste, do Trópico de Câncer e do Capricórnio. Ademais se encontram as linhas paralelas ao meridiano (círculos do azimute) e linhas paralelas ao horizonte (círculos da altitude). Os doze círculos do zodíaco estão marcados ao longo do equador celeste, de acordo com suas diferentes declinações.

As duas cavidades semi-esféricas não são contínuas, mas cada uma é dividida em seis blocos de mármore, permitindo assim a circulação do observador entre as mesmas, favorecendo assim as leituras diretas nas escalas graduadas.

Um anel de bronze fica pendurado, mediante tirantes, no centro das semi-esferas. O método de observação é o seguinte:

Durante o dia a sombra do anel, projetada no plano semi-esférico, marca um ponto. A distância deste ponto da linha do horizonte, do meridiano local, do equador celeste, dos trópicos e do Zênite indica a hora local, a altitude, o azimute, a distância zenital e a declinação do Sol.

A medição deste ponto no que respeita um determinado círculo do zodíaco indica a longitude do Sol, a décima casa do zodíaco e o signo ascendente. As linhas dos signos do zodíaco assinalam claramente que este instrumento também tinha finalidades ligadas à Astrologia Prasna12 e à produção de almanaques astrológicos.

12 Também denominada astrologia horária, que tem as suas bases nos Vedas. Segundo Sylvia de Long, o que distingue a Astrologia Prasna “é o fato de poder ajudar o astrólogo a julgar não apenas o resultado provável dos planos de um cliente, mas também as intenções, o caráter ou as decisões de outras pessoas implicadas em determinados assuntos, no plano pessoal ou de negócios, mesmo que os dados natais dos envolvidos não sejam conhecidos ou estejam incompletos”.

À noite, o observador agachado entre as lajes de mármore, pode observar os astros através do anel de metal. Entre o corpo celeste “colimado”, mediante o anel, e o olho do observador define-se uma linha imaginária que “marca” um ponto na semiesfera. Este ponto determina a posição do astro na esfera celeste (representada pela semiesfera de mármore) naquele determinado momento e, portanto, as suas coordenadas.

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Rashivalaya Yantra

Rashivalaya Yantra

Trata-se da segunda invenção de Jai Singh II. Este instrumento é na verdade composto por doze instrumentos cada um medindo aproximadamente cinco metros de base e três metros de altura. Os doze instrumentos representam os doze signos zodiacais. Sua função é determinar a latitude e longitude dos corpos celestes dia e noite, bem como para o cálculo astrológico do ascendente (lagna).

Formalmente similares ao Samrat Yantra, mas na verdade bastantes diferentes: enquanto no Samrat Yantra o gnômon é orientado para o Norte, os instrumentos do Rashiyalaya são orientados na direção do pólo da eclíptica – este pólo não é fixo, mas define um círculo de 23° 27′. Além disso, os quadrantes não estão no plano do equador, como no caso do Samrat Yantra, mas sim da eclíptica. Enfim o ângulo do gnômon varia em função da posição do pólo da eclíptica e não, como no caso do Relógio Solar, segundo a latitude do lugar.

Mediante o auxílio de dois outros instrumentos, o Jai Prakash Yantra e o Samrat Yantra, o observador determina o momento exato que um determinado signo culmina no meridiano local. Utilizando o instrumento correspondente13 podem ser feitas leituras da sombra do gnômon no quadrante com escala graduada em graus e senos, para cálculos ligados a astrologia e astronomia (latitude e longitude de astros).

13 Cada instrumento podia ser utilizado por 2 horas. 24 horas/12 instrumentos = 2 horas cada instrumento.

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Ram Yantra

Terceira invenção de Jai Singh II

Este instrumento consiste em duas construções circulares de pedra em forma de cilindros, com oito metros de diâmetro, formadas por doze colunas.

Dentro destes enormes cilindros encontramos doze elementos triangulares colocados horizontalmente e radialmente em relação ao centro, onde está fixada uma haste perpendicular ao plano da base, de comprimento igual ao raio interno do instrumento.

Estes dois instrumentos representam a esfera celeste de forma complementar, sendo que o espaço vazio entre as duas colunas de um corresponde a uma coluna do outro. O horizonte corresponde à borda superior dos instrumentos e o zênite situa-se na base da haste.

As doze colunas distanciam-se de 12° num instrumento e 18° no outro. Cada coluna possui uma graduação que vai de 0° a 45° de cima para baixo. Ademais as colunas são marcadas com 360 linhas verticais que representam os círculos do azimute, enquanto os doze triângulos horizontais são graduados de 45° a 90°, da parte externa para o centro, havendo 90 linhas horizontais que representam os círculos da altitude.

Durante o dia, a sombra da haste marca nas linhas verticais das colunas o azimute do Sol no horizonte leste (de manhã) e do oeste (à tarde). Deste modo, a posição do Sol pode ser lida diretamente nas paredes do instrumento. Observando a sombra em relação às linhas horizontais na “escala das tangentes” determina-se a altitude.

À noite, colimando as estrelas e os planetas através do ápice da haste é possível ler a altitude destes astros na escala graduada horizontal da “escala das tangentes”, e o azimute nas colunas. De tal modo é também possível, com suficiente antecedência, saber qual será o movimento e a localização dos astros no céu.

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Kapali Yantra

A última das invenções do Marajá é o Kapali Yantra. Este instrumento é muito similar ao já descrito Jai Prakash Yantra, tendo duas cavidades semiesféricas representando a esfera celeste.

As cavidades, todavia, ao contrário do Jai Prakash, não apresentam soluções de continuidade, são orientadas ao longo do eixo leste-oeste e não são complementares. A borda da cavidade ocidental representa a linha do horizonte, enquanto a borda da cavidade oriental representa o coluro14 solsticial.

14 Em astronomia, coluro é um dos quatro meridianos principais do sistema de coordenadas equatoriais. O coluro solsticial representa portanto o circulo máximo da esfera celeste que passa pelo solstício.

A Figura mostra uma imagem da cavidade ocidental. Este é o verdadeiro instrumento, a semi-esfera em mármore é marcada por linhas semicirculares, havendo 30 linhas (círculos de azimute) paralelas ao meridiano principal que passa pelo centro ao longo do eixo norte-sul, 15 linhas (círculos da altitude) com andamento horizontal a cada 6°, o círculo do equador celeste com doze linhas paralelas que indicam os signos zodiacais, a eclíptica de 23° 27´, o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, etc.

A borda, que representa a linha do horizonte, possui uma escala graduada de 360°. De dia, a sombra do anel de metal suspenso permite a determinação da hora local, o azimute, a altitude e a declinação do Sol. À noite, colimando as estrelas com o anel, é possível determinar a longitude do astro e efetuar o cálculo aproximado do ascendente.

A Cavidade oriental também possui linhas similares a outra cavidade, mas não é finalizada a observações diretas pois a borda representa o coluro solsticial e não a linha do horizonte. Sua função é, portanto, só de apoio a operações de trigonometria esférica e para soluções de problemas específicos relacionados à astrologia horária e natal.

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Conclusões

Resulta claro, portanto, o quanto a historiografia contemporânea tenha subestimando este cientista astrônomo e as suas contribuições à ciência e à técnica.15 Acabamos de demonstrar que Jai Singh II não só contribui concretamente para o avanço da ciência astronômica, dedicando mais de 20 anos em observações quotidianas dos astros, mas também projetou e construiu novos instrumentos com uma precisão tal que, ainda hoje, as suas tábuas astronômicas Zij Muhammad Shahi são consideradas de alta precisão. Resta esclarecer o motivo de tal atitude na historiografia.

15 Em particular Hunter e Tod afirmaram que o observatório não tinha função cientifica, confundindo, portanto, a diversa finalidade da observação dos astros que existe entre astrologia e astronomia, com a observação em si. A função dos instrumentos de Jai Singh era o cálculo exato e “cientifico” da posição dos astros.

De um lado temos de evidenciar que, até a metade do séc. XX, a historiografia que tratou fatos ligados aos observatórios de Jai Singh II esteve nas mãos de estudiosos europeus, na maioria ingleses e, portanto, certamente influenciados pela realidade da ciência astronômica européia, que julgava obsoleta e anacrônica, no séc. XVIII, a construção de observatórios com instrumentos maciços e de grandes dimensões. Além disso, bem sabemos que a historiografia colonial costumava não enfatizar positivamente descobertas, invenções e, em geral, as culturas dos países que ocupava, preferindo interpretar, eventuais diversidades, no redimensionado mundo do folclore, das crenças populares e do “estranho”.

Por outro lado, notamos que os instrumentos ideados por Jai Singh II são fortemente marcados por finalidades astrológicas. Analisando a documentação presente nos arquivos históricos de Bikamer, Jaipur e Delhi, reconstruímos a figura deste marajá que, além de ser, sem dúvida, um “príncipe iluminado”, demonstrava profundo interesse e credo nos astros e na Astrologia Prasna ou Horária, componente da astrologia que permite saber o momento mais indicado para realizar determinadas ações. É evidente que, para um Príncipe que praticava esta “Fé nos Astros”, possuir um sistema sofisticado de observação – construindo cinco observatórios em latitudes e longitudes diferentes19 e elaborando as próprias tábuas astronômicas – era elemento de importância fundamental, pois isso permitiria saber com antecedência o momento certo, por exemplo, para uma guerra, uma viagem ou um acordo de paz.20 Até mesmo para determinar a data certa e a orientação ideal para fundar e construir uma cidade.

19 A precisão das leituras astronômicas, pela determinação da posição de planetas e estrelas, aumenta se for realizada em lugares diferentes no mesmo momento, pois isso permite comparar as leituras.

Jaipur foi fundada por Jai Singh II no dia 18 de novembro 1727. Segundo os antigos tratados de arquitetura indianos, os Silpa-sastra, a data de fundação de uma cidade capital tem de ser escolhida com grande atenção, em particular, na data da fundação não podem existir conflitos entre o mapa celeste e o mapa astral natal do fundador. A análise dos mapas da época demonstra que o marajá escolheu esta data na base da Astrologia Prasna, sendo o 18 de novembro o dia com o quadro celeste mais favorável para por a primeira pedra da sua nova capital22.

22 Analisando o mapa celeste de 18 de novembro e comparando-o com o mapa astrológico do marajá resulta claro que esta é data ideal pois “O Sol encontra-se agora na estrela favorável de Jyestha, o potente planeta Saturno é em conjunção favorável com o belicoso Marte, e também a Lua está em configuração de bons auspícios, encontra-se de fato na tithi (fase lunar) da tritya, que junto às da dvitiya, saptami, astami e trayodasi indicam os cinco “momentos de bom auspício para iniciar as obras de construção da cidade”.

Além disso, se preocupou em orientar astrologicamente a própria cidade na direção do próprio signo ascendente como ditavam os tratados de arquiteturas. A cidade de Jaipur apresenta de fato uma rotação de 15° em relação ao eixo norte-sul, idêntica a posição do seu signo ascendente, a Libra, no mapa celeste do dia 18 de novembro de 1729. Portanto, ao contrario de como a critica tem afirmado23, graças ao seu potente aparato de observação astronômica, o marajá Jai Singh II conseguiu orientar perfeitamente a sua nova capital e determinar exatamente a data mais idônea para sua fundação.

23 A nova capital do marajá, de planta regular, estranhamente fundada 15 dias apos a data do aniversario de Jai Sing II e rodada de 15° no que respeita o eixo norte-sul, logo ativou a critica historiográfica, a qual viu nisso um “erro de planificação” por parte do marajá.

A motivação que orientou o marajá Jai Singh II na construção dos próprios instrumentos de observação não diminui o gênio deste cientista nem a sua enorme contribuição ao desenvolvimento da prática da observação astronômica. Como justamente o apostrofa Bhatnagar, ele certamente foi o “mais ilustre astrônomo entre os indianos”.

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