Cosmologias

A Cosmologia Medieval e a Ideia da Profecia Milenarista

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Daniel Lula Costa

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Mestrando em História pelo Programa de Pós-graduação em História da UEM. Integrante do Laboratório de Estudos em Religiões e Religiosidades da UEM (LERRUEM). Artigo publicado na revista História e-História

Resumo

A cosmologia medieval foi baseada na teoria dos círculos concêntricos, defendida por Aristóteles e adotada posteriormente por Ptolomeu. No final do século XIII esta teoria encontra-se presente na obra magna de Dante Alighieri, a Divina Comédia, e a concepção de mundo presente na narrativa foi influenciada pelas ideias que percorriam os discursos ocidentais e principalmente o discurso da Igreja Cristã. Nosso objetivo é discutir e entender a cosmologia presente no período medieval utilizando como fonte a Divina Comédia, escrita por Dante. Destarte compreenderemos o modelo de mundo no qual eram construídas teorias e profecias sobre o Juízo Final, o Apocalipse e a ideia da salvação eterna presentes nas profecias milenaristas. Com isso visamos entender o cenário e o próprio imaginário nos quais estas profecias foram concretizadas e que no século XVII, após a expansão marítima europeia, ainda estavam presentes na sociedade portuguesa, que visava ascender ao Quinto império.

Introdução

O homem tem fascínio pelo desconhecido e busca explicar e conhecer o sentido da vida humana. Na Idade Média o conhecimento sobre o mundo tinha raízes nas mitologias antigas e, principalmente, na Igreja Cristã. As explicações para o universo, as estrelas, os planetas e o sentido da vida eram encontradas no discurso religioso. Diversas foram as perguntas dirigidas ao mundo pelos pesquisadores e cientistas para conseguirem entender o ambiente onde se encontravam. O homem, ao cair da noite, olhava para o céu estrelado e buscava respostas no movimento dos astros e nas suas posições. A visão do céu no Medievo não era prejudicada por lâmpadas elétricas, nem pela poluição da vida cotidiana do século XX, mas era clara e nítida, um espetáculo para os olhos humanos.

No período medieval o conhecimento sobre o mundo era pautado naquilo que se conhecia até então, como, por exemplo, os planetas ou esferas andantes, a Lua, o Sol, a Terra – ou seja, na astrologia e na religião cristã. Este conhecimento possibilitava que eles imaginassem e buscassem respostas no universo, na própria natureza. Os cientistas buscavam entender o movimento das estrelas com base nos valores e nas escolhas do homem, que era compreendido como um microcosmo, um organismo considerado parte de um todo.

Certamente o homem medieval possuía todas essas capacidades sensitivas. Talvez mais, pois tinha em si um sentimento profundo de pertencer ao universo, de fazer parte de algo transcendente, de integrar todo o espaço imaginado, visível e invisível e a ele estar unido. A teia de reciprocidades tão característica da sociedade dita feudal ultrapassava e muito o mundo material, mundo das aparências.

Além disso, as teorias de filósofos da Antiguidade estavam presentes na mentalidade do homem medieval e a busca por entender o fenômeno físico do universo e a ordem das coisas era atribuída também ao corpo humano, o qual era entendido como um pequeno universo, um microcosmo, composto dos mesmos elementos da natureza: o fogo, o ar, a água e a terra. “Para eles, a natureza são os quatro elementos que compõem o universo e o homem, e este último é visto como um universo em miniatura, um microcosmos.” . As simbologias numéricas eram muito presentes nas tentativas de entender o mundo. Por exemplo, a noção do número quatro encontrado nos elementos da natureza era semelhante aos quatro pontos cardeais, aos quatro ventos da rosa-dos-ventos, aos quatro rios do Inferno, entre outros que associavam a realidade da natureza com os sentidos humanos.

A cosmologia medieval foi influenciada pela teoria dos círculos concêntricos, defendida por Aristóteles e adotada posteriormente por Ptolomeu, a qual apresentava a Terra na posição central do Espaço, com o Sol, a Lua e as esferas ou planetas girando ao seu redor. Esta ideia cosmológica dividia o universo em duas partes: a sublunar e a supralunar:

[…] a cosmologia medieval distinguia duas regiões em todo o universo com características bastante distintas. A primeira era a esfera sublunar, que continha todas as substancias sujeitas à corrupção, devido à contrariedade natural existente entre os quatro elementos constitutivos dos corpos (fogo, ar, terra e água) e suas qualidades (quente, seco, frio e úmido). A segunda, a esfera supralunar (ou celeste), era povoada pelos astros, pelos santos que estão na Glória Eterna, os anjos e Deus. Acreditava-se que o mundo supralunar emitia fluidos, influxos invisíveis que influenciavam as coisas do mundo sublunar, ideias de base neoplatônica que influenciou decisivamente a Astrologia.

Esta reciprocidade entre o homem medieval e o universo fazia parte do imaginário religioso. Na religião cristã, as escolhas e ações do homem estabeleciam o seu local no pós-morte: se fossem boas, mais perto de Deus ele estaria e a paz reinaria em sua alma; mas se fossem ruins, o corpo e a alma seriam punidos com o sofrimento eterno. Esta concepção de mundo estava interiorizada na mente da sociedade medieval e era parte de suas representações coletivas.

Diversas são as obras de arte e as narrativas que apresentam este medo da punição eterna e a possibilidade de se obter a paz. Uma delas foi escrita pelo poeta Dante Alighieri, por volta do final do século XIII. A sua obra magna, nomeada como Commedia e, mais tarde, renomeada por Boccaccio como Divina Comédia, apresentou a concepção de mundo e a própria cosmologia do período de acordo com o conhecimento do autor sobre as representações religiosas medievais. Ela também foi influenciada por obras de arte como as de Giotto e por narrativas como a Visão de Túndalo e o Apocalipse de São Paulo. Nosso objetivo é entender a cosmologia presente na Divina Comédia e a busca do homem pela salvação por meio de teorias escatológicas e profecias que foram inseridas no imaginário medieval, sendo a mais relevante para este artigo aquela dos mil anos de felicidade ou milenarismo.

Antes de percorrermos as ideias escatológicas que, consequentemente, terminariam na busca pela Idade do Ouro, vamos entender a cosmologia apresentada por Dante Alighieri, já que para compreendermos as ideias referentes à possibilidade dos mil anos de felicidade devemos conhecer a estrutura e a concepção de mundo na qual elas foram baseadas. A obra Divina Comédia mostra-nos a composição do cosmos com base na teoria aristotélica por sua vez baseada em Ptolomeu: a teoria dos círculos concêntricos. “O significado interno da Divina Comédia aparece na sua característica mais notável: a estrutura do seu Cosmos. O arranjo de Dante baseou-se na filosofia e ciência aristotélica, ptolomaica e neoplatônica […]”.

A obra foi dividida em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Foi escrita em formato de poema com estrofes, cada uma das quais era composta por três versos, num rigoroso esquema de rimas, exclusivo do autor (ABA BCB CDC). Cada uma de suas partes é composta por trinta e três cantos, com exceção do Inferno, que possui trinta e quatro, dos quais o primeiro é uma introdução para toda a obra, a qual possui, ao todo, cem cantos.

Esta obra narra a jornada do Dante-personagem, ainda vivo, que busca reencontrar sua falecida amada, Beatriz, destinada ao Paraíso. Para isso ele conta com a ajuda da alma do poeta romano Virgilio, para guiá-lo pelo Inferno e pelo Purgatório. O Paraíso a alma de Virgilio não consegue alcançar, pois ele foi destinado ao Limbo (primeiro círculo do Inferno), e desta forma não possui o direito de conhecer o reino de Deus; por isso nesse local o Dante-personagem é guiado por Beatriz. Conforme lemos a obra conseguimos entender a maneira como o poeta pensa e a própria cosmologia pertencente ao período, pois: “[…] os ‘materiais-documentos’ obedecem, eles também, a procedimentos de construção onde se investem os conceitos e as obsessões de seus próprios produtores e onde se marcam regras de escritura particulares ao gênero de que fazem parte”.

O entendimento de mundo presente na obra de Dante mostra um universo moldado por círculos concêntricos cujo centro é a Terra. No século XIII o imaginário medieval compreendia a geografia do mundo como uma esfera suspensa no espaço, dividida em dois hemisférios: o norte e o sul. No primeiro haveria apenas terra, onde estariam os continentes que lhes eram familiares: a Europa, a Ásia e a África; já no outro hemisfério existiria somente água, com exceção da Montanha do Purgatório, que veremos adiante. De acordo com Dante, no centro do hemisfério superior (norte) estava a cidade de Jerusalém, o umbigo do mundo.

O horizonte geográfico é um horizonte espiritual, o da Cristandade. Mais que a imprecisão dos conhecimentos dos eruditos em matéria de cosmografia – admite-se em geral que a terra é redonda, imóvel e situada no centro do universo, e, depois da introdução de Aristóteles, imagina-se um sistema de esferas concêntricas ou, progressivamente a partir do século 13, um sistema mais complexo e mais perto da realidade do movimento dos planetas segundo Ptolomeu – o que mais surpreende é a fantasia da geografia medieval em relação ao que se situava além da Europa e da bacia do Mediterrâneo. Mais notável ainda é a concepção teológica que até o século 13 inspira a geografia e cartografia cristãs. Em regra geral, a organização espacial da Terra é determinada pela crença de que Jerusalém constitui seu umbigo […]

No céu encontramos as estrelas andantes: a Lua, Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Para Dante, elas formavam o Paraíso cristão; a diferença residia nas outras duas esferas: na oitava estavam as estrelas fixas e as constelações, e na nona esfera, o Céu Cristalino ou Primum Mobile, o local onde está Deus. Assim, o Paraíso era formado por nove esferas, cada uma das quais teria a hierarquia celestial, respectivamente: Anjos, Arcanjos, Principados, Atribuidores, Virtuosos, Dominadores, Tronos, Querubins, e o Primum Mobile. A última comandava todas as demais, pois era o lar do próprio Deus.Na cosmologia de Dante havia ainda o nono círculo (Primum Mobile ou Céu Cristalino), céu concêntrico e o mais veloz de todos, pois não continha nenhuma matéria e comandava o movimento dos oito céus inferiores. Acima do nono círculo estava o Empíreo (imóvel), com a Rosa Mística (a glorificação dos beatos), e por fim os nove círculos angélicos (concêntricos) rodeando Deus. O número nove significa o amor incondicional, pois sua raiz quadrada é o três da Santíssima Trindade […]

Para Dante, a cosmologia e a astrologia compunham este cenário até que Lúcifer, o anjo mais fiel de Deus, rebelou-se contra Ele. Alguns historiadores atribuem ao anjo o pecado do orgulho, da vontade de ser melhor que Deus; ao ser descoberto, o próprio Deus castiga Lúcifer jogando-o na Terra. O impacto do ser angelical é tão forte que desfigura a esfera terrestre. Em Jerusalém, onde Lúcifer caiu, formou-se um gigantesco buraco, que se afunilou até o centro terrestre, onde encontramos aquele que ficou conhecido como Diabo. Este local passou a ser denominado Inferno. Do outro lado da Terra o impacto alterou o relevo, e no centro do hemisfério sul formou-se uma Montanha grandiosa, ou seja, o Purgatório.

Todos estes ambientes do além-túmulo estavam presentes no imaginário da sociedade medieval. Este era o modo de explicar a morte e os destinos das pessoas: com base em suas ações e, principalmente, na mitologia cristã. Era um modo de unir o homem com o saber transcendental, com o sobrenatural e o desconhecido, dando importância às ações e aos desejos do ser humano. No Inferno estavam aqueles que pecaram ou não foram fiéis aos mandamentos cristãos; no Purgatório estavam os arrependidos, e no Paraíso, aqueles que foram fiéis e escolheram fazer o bem ao invés do mal. Cada ambiente era dividido de acordo com suas categorias: o Inferno foi dividido em nove círculos, cada qual diferenciado pelos pecados e punições; o Purgatório foi dividido em sete cornijas, que totalizam nove se a elas somarmos o ante-purgatório e a entrada do Paraíso; já o Paraíso é dividido em nove esferas, diferenciadas pela bondade e virtude de cada alma.

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A profecia milenarista

A partir do século XIV a ideia das profecias apocalípticas começa a ganhar espaço no imaginário medieval. Estas teorias dividiam-se em duas diferentes idéias: a primeira baseava-se no fim do mundo, no Anticristo, no Juízo Final e nos desastres naturais que eram narrados na Bíblia, mais precisamente no Apocalipse de São João; e a segunda insistia na promessa dos mil anos de felicidade. Podemos justificar a transmissão e até mesmo a apropriação destas profecias pela sociedade, pois desde a Alta Idade Média o discurso já dizia respeito ao Apocalipse, Este anúncio do fim dos tempos pelas guerras, epidemias e fomes, parecia algo próximo aos homens da Alta Idade Média; os massacres das invasões bárbaras, a Grande Peste do século 6, as fomes terríveis que se repetiam de tempos e tempos alimentavam a angustiosa espera […]

O homem medieval esperava a salvação, e seu grande objetivo “Era sobretudo sentir-se rumando para a eternidade. Para ele, o tempo essencial era o da salvação”. No decorrer da Idade Média a Igreja Cristã abordava o tema do Fim dos Tempos, o discurso religioso preparava as pessoas para o pior e ainda prometia os mil anos de paz, com base no Apocalipse de São João, que narra a volta de Jesus Cristo e, consequentemente, a derrota do Diabo.

O milenarismo e o Juízo Final caminharam juntos, a instituição do medo estava presente no cotidiano medieval e as desgraças do fim dos tempos causavam medo e angústia na sociedade. O milenarismo prometia a volta do Paraíso Terrestre, o céu na Terra, o advento da felicidade eterna, este era o sonho de muitos, “um período de mil anos que, na realidade, correspondia à eternidade – instaurado, ou melhor, restaurado sobre a Terra”.

Estas profecias estavam interiorizadas no imaginário da sociedade medieval e no século XVI elas ganharam força, principalmente com o advento da expansão marítima européia; outros acontecimentos culminavam na estruturação de diferentes profecias que prometiam a prosperidade e a paz. Em muitos locais o mito do imperador ou rei que voltaria ecoava no imaginário, como Barba-Ruiva, Balduíno e Frederico II; acreditava-se que eles não estavam mortos, mas dormindo, e que no momento certo despertariam para conduzir as pessoas à paz. Em Portugal havia a crença na volta do rei Sebastião, “No tempo da ocupação espanhola (1580-1640), recusa-se a acreditar na morte do rei Sebastião, desaparecido na batalha de Alcácer Quibir (1578). Ele retornará para restituir glória e liberdade a seu povo”. Está própria ideia estava presente em discursos proferidos nas praças e nos locais públicos, de acordo com Boxer:

A Florescente lenda sebastianista acabou por se identificar no espírito de muitas pessoas com as trovas proféticas, ou versos de pé-quebrado, do sapateiro de Trancoso, Gonçalo Anes (c.1500-56), conhecido como ‘o Bandarra’. Seus versos baseavam-se na crença que pregava a vinda de um messias rei, originária do Antigo Testamento, e em remanescentes do ciclo lendário do rei Artur, que sobreviviam na memória popular. Revelavam traços de uma crença apocalíptica numa futura ‘idade do ouro’ espiritual, inicialmente propagada pelo abade cisterciense Joaquim de Fiore, morto em 1202, e popularizada pelos franciscanos espirituais, e que teve enorme influência sobre Colombo.

Ainda em Portugal, algumas profecias baseadas nas visões de Daniel e relacionadas ao Apocalipse imaginavam a ascensão de um Quinto Império. Muitas destas visões foram interpretadas de diversas maneiras, cada uma visando a objetivos que divergiam de acordo com a nação ou interesse nacionalista e messiânico. Esta profecia dizia respeito à queda de quatro impérios, os quais eram objeto de discussão de muitos teólogos; e a sucessão destes impérios seria ocupada por um Quinto Império, trazido por Deus, o qual prometia paz e prosperidade, muito se assemelhando com o milenarismo presente no Apocalipse de são João. Este narrava a ascensão de Deus e os mil anos de paz conquistados com a derrota de Satã.

As divergências entre milenaristas e profetas de um Juízo Final próximo provinham especialmente de interpretações diferentes das visões de Daniel relacionadas ao Apocalipse. Daniel anunciara as quedas sucessivas de quatro impérios – geralmente identificados em seguida pelos teólogos como o dos assírios, o dos persas, o dos gregos e o dos romanos. Um quinto reino devia sucedê-los, erguido pelo Deus do céu […]

Aos olhos ocidentais, antes da expansão marítima europeia o conhecimento de territórios era limitado. Apenas alguns continentes do globo terrestre eram conhecidos pelos povos medievais, a saber, a Ásia, a Europa e a África. A própria cosmologia e geografia do planeta eram moldadas de acordo com este modelo de mundo. As ideias religiosas sobre os ambientes do além-túmulo também estavam entrelaçados com a noção da geografia, astrologia e astronomia do período. De acordo com Boxer, “a característica principal da história da sociedade humana antes dos descobrimentos de portugueses e espanhóis era a dispersão e o isolamento dos vários ramos da humanidade”.

Com a expansão marítima europeia, as profecias e crenças em um novo mundo, ou na possível descoberta do Paraíso narrado no Gêneses, estavam interiorizadas no imaginário dos viajantes; mas o pensamento que realmente estimulava a sociedade, e, principalmente, os portugueses, era a crença na ascensão do Quinto Império e nos mil anos de felicidade. No século XVII o Padre Antônio Vieira idealizou e escreveu sobre esta profecia, que dizia respeito à eternidade de paz. Além disso, Vieira acreditava num mundo governado por duas autoridades nomeadas por Cristo: o papa, em Roma, e o rei, em Portugal. De acordo com as historiadoras Souza e Bicalho,

A obra original expunha em latim a tese milenarista que, em escritos anteriores – Esperanças de Portugal, Quinto Império do mundo e Defesa perante o tribunal do Santo Ofício -, Vieira tratara em português, visando então a um maior número de leitores. Segundo essa tese, um príncipe luso, o Encoberto, profetizado anteriormente por diversos autores e em diversos escritos, derrotaria os inimigos da fé – os turcos – e conquistaria a Terra Santa, diante do espanto do mundo. Seria, então, instalado o Quinto Império; um reino de mil anos, compreendendo todas as raças e culturas, unidas fraternalmente na fé católica e sob a égide de um só império mundial, governado pelos dois vigários de Cristo: o papa, em Roma, chefe do plano espiritual; e o rei, em Portugal, chefe do plano temporal.

As profecias sobre a conquista da salvação foram fortalecidas com a expansão marítima europeia, pois o reconhecimento de outros territórios fez que o homem alterasse seus interesses e objetivos para alcançar a salvação. Exemplo disso é o próprio Padroado português, que buscava catequizar e moldar os povos recém-descobertos de acordo com a doutrina cristã. As profecias traziam esperança e atribuíam objetivos de vida para as mais diversas nações; a noção de que o Apocalipse e o Anticristo viriam era compreendida como algo ruim mas necessário, pois estava profetizado, portanto deveria acontecer. Após a destruição viria a calmaria, os mil anos de felicidade seriam alcançados e o desejo e a espera pelo Paraíso Terrestre cessariam. Esta era uma das muitas profecias relacionadas com o milenarismo.

Considerações finais

A cosmologia medieval e as ideias que percorriam o período possibilitavam que o homem buscasse conhecer o transcendental e entender o mundo ao qual estava limitado. O ato de buscar explicações nos astros, na religião e nos mitos antigos estava presente como uma realidade incontestável. O homem medieval moldava suas escolhas e ações de acordo com os ensinamentos cristãos. Quando olhavam para as estrelas buscavam explicações nos acontecimentos celestiais e no movimento dos astros. Um cometa, por exemplo, poderia significar o nascimento de alguém poderoso ou a destruição de um império.

O próprio universo era interpretado como algo divino e explicado pelo cristianismo como o lar dos seres celestiais e do próprio Deus; já a Terra situava-se no centro de tudo, de forma que em sua volta giravam as estrelas e planetas. Na superfície terrestre encontramos, no hemisfério norte, o Inferno que se afunila até o centro do globo terrestre, e no outro lado, no hemisfério sul, estaria o Purgatório, e ao seu redor, toda a água. Esta explicação era proferida no discurso religioso e encontrada em algumas narrativas e obras de arte, e, como vimos, é muito presente na Divina Comédia.

Ao longo da Idade Média diversas profecias e teorias surgiram para explicar ou trazer novas ideias do que poderia acontecer ao mundo. A sua grande maioria centrou-se nas escrituras bíblicas e, principalmente, no Apocalipse. A espera do dia do Juízo Final, ou do nascimento do Anticristo, estava fundida com o imaginário ocidental. Entre estas profecias escatológicas também encontramos aquelas que narravam a conquista da paz, da felicidade e da vida eterna: “para além da provação e do terror, estes sinais são também uma mensagem de esperança na ressurreição final. Assim, o tempo medieval torna-se um tempo de medo e de esperança”. A própria profecia dos milenaristas visava alcançar os mil anos de felicidade, o Paraíso Terrestre.

Estas profecias traziam ao mesmo tempo medo e esperança: uma enraizava-se na destruição e na vinda do Anticristo, já a outra pregava a possível volta da Idade de Ouro, do céu na Terra. Com a expansão marítima europeia, o modelo de mundo sofreu algumas transformações, mas as profecias e visões ainda estavam presentes, e até nos dias atuais encontramos a crença no possível fim, ou no recomeço dos dias de paz no Paraíso Terrestre. Esta busca do sobrenatural e de explicações que culminam em algo além do homem, além dos animais, em algo divino e transcendental, fascina a mente do ser humano, o qual aguarda ansiosamente para entender o sentido do universo e da própria vida.

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Referências Bibliográficas

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