
Specula physico mathematico historica notabilium ac mirabilium sciendorum, 1696
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Robert Collis
Drake University
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Tradução:
César Augusto – Astrólogo
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Resumo
A astrologia exerceu uma forte influência na corte de Pedro, o Grande, mas recebeu pouca atenção dos historiadores russos ou ocidentais. Meu artigo explora as várias maneiras pelas quais a astrologia teve impacto sobre vários aspectos da cultura da corte petrina. Mais especificamente, analiso a maneira pela qual os panegíricos oficiais da corte utilizaram repetidamente o simbolismo astrológico para exaltar o reinado de Pedro, o Grande. Também mostro como a forma de astrologia adotada na corte russa refletia um profundo interesse pelas teorias coetâneas científicas e médicas do ocidente. Em outras palavras, ao lado de habilidades práticas, como construção naval, demonstro como Pedro, o Grande, também promoveu vertentes do pensamento astrológico. Por fim, concentro-me na influência da astrologia na formação das características individuais e visões de mundo dos cortesãos petrinos, com ênfase particular no príncipe Boris Ivanovich Kurakin (1676-1725), o mais proeminente diplomata russo de sua época.
Em um trabalho recente intitulado The Petrine Revolution in Russian Culture, o historiador americano James Cracraft argumenta que Pedro, o Grande (1672-1725) supervisionou um período “de intensa europeização”. Cracraft elabora referindo-se à “transmissão de valores, bem como tecnologias inteiras, estilos, crenças e conhecimentos, de uma matriz cultural bastante distinta para outra”. Inerente a esse argumento está a suposição de que a Europa incorporou um modelo cultural e científico homogêneo – fundado nos pilares da razão e da racionalidade. Assim, Cracraft inclui capítulos sobre o desenvolvimento da marinha russa, modernização militar, revolução burocrática, reforma linguística e promoção da ciência e da literatura.
Este paradigma predominante em relação ao programa de reforma petrina é endossado por W. F. Ryan, que escreveu o único estudo histórico de magia em língua inglesa na Rússia. Ele escreve, por exemplo, que “Pedro, o Grande […] tinha um robusto entusiasmo por quase tudo o que era ocidental, em particular nas áreas da tecnologia, tanto civil como militar, administração e modos” e que esta “praticidade pertencia mais ao Iluminismo do que ao ao século XVII e há poucos vestígios nele ou em sua corte dos interesses ocultos de seu pai”.
No entanto, o “entusiasmo robusto” de Pedro pela cultura e ciência europeias incluía a promoção de várias formas de cultura ocidental, ou mais precisamente alemã, polonesa e ucraniana, temática e prática astrológica em sua corte. Isso não contradiz o argumento de Cracraft de que Pedro, o Grande, desencadeou a transferência cultural da Europa; ao contrário, sugere que uma compreensão mais ampla e matizada da cultura e da própria sociedade europeia ajudaria a explicar a natureza complexa das reformas instauradas pelo monarca russo.
Neste artigo, a extensão em que a corte de Pedro, o Grande abraçou as vertentes do pensamento astrológico europeu, será examinada de duas maneiras. Em primeiro lugar, fornecerei uma breve visão geral de como os temas astrológicos foram amplamente utilizados por clérigos da Ucrânia, Bielorrússia e do sul da Rússia em panegíricos oficiais em louvor a Pedro, o Grande. Em segundo lugar, descreverei como Pedro, o Grande, encorajou ativamente a publicação de almanaques e calendários russos após 1708, repletos de informações e previsões astrológicas. Significativamente, esses almanaques são classificados como as primeiras versões russas de uma tradição editorial mais antiga da Europa Ocidental que remonta ao século XV.
O uso de temáticas astrológicas em panegíricos para Pedro, o Grande

Figura 1. A star shaped poem written by Simeon Polotskii to celebrate the birth of Tsarevich Simeon in 1665
Para marcar o batismo de Pedro, o Grande, em junho de 1672, o principal clérigo da corte Simeon Polotskii (1629-1680) escreveu um panegírico saturado de motivos astrológicos. O clérigo fez uma interpretação altamente favorável, por exemplo, do fato de que o novo ‘tsarevich’ (Царевич) nasceu durante a conjunção de Marte e Júpiter, bem como pronunciou que o ‘as quadraturas dos planetas’ significava glória3. O herdeiro Romanov está predestinado como o governante que capturará Constantinopla dos turcos.
3. For further discussion of Polotskii in relation to Peter the Great’s horoscope, see F. Miller, ‘Rozhdenie gosudaria imperatora Petra Velikogo’, Opyt trudov Vol’nogo rossiiskogo sobraniia (Moscow, 1780), pp. 87– 105; N. A. Polevoi, ‘Astrologicheskie predveshchaniia pri rozhdenii Petra Velikogo’, Russkii vestnik, no. 2 (1842): pp. 258–80; M. P. Pogodin, ‘Goroskop Petra Velikogo’, Moskvitianin 1 (1842): pp. 58–65; D. Sviatskii, ‘Zvezda Petra I’, Mirovedenie, no. 3 (1927): pp. 168–87; A. P. Bogdanov and R. A. Simonov, ‘Prognosticheskie pis’ma doktora Andreasa Engel’gardta tsariu Alekseiu Mikhailovichu’, in Estestvenno[1]nauchye predstavleniia drevnei Rusi, ed. R. A. Simonov (Moscow: Nauka, 1988), pp. 151–203; (…). For an analysis of the astrological influences on Polotskii, see A. N. Robinson, ‘Simeon Polotskii—Astrolog’, in Problemy izucheniia kul’turnogo naslediia, ed. D. S. Likhachev (Moscow, 1985), pp. 177–84. For examples of the astrological poetry of Polotskii, see, for example, ‘Beseda so planity’ (‘Conversation with the Planets’); ‘4 Preobladaiushchikh temperamenta’ (‘The 4 Predominant Temperaments’); ‘Znaki semi planet i kharakter ikh vozdeistviia’ (The Signs of the Seven Planets and the Character of their Influence’) in S. Polotskii, Virshi, ed. V. K. Bylinin and L. U. Zvonareva (Minsk: Mastatskaia litaratura, 1990), pp. 86, 117, 123.
Polotskii nasceu na Bielorrússia e estudou na renomada Academia de Kiev. Ele havia sido convidado a Moscou pelo Czar Aleksei (1629-1676) – pai de Pedro, o Grande – em 1664 e rapidamente se estabeleceu como um excelente expoente dos temas literários barrocos, além de fundar uma escola de latim. O clérigo foi sem dúvida o melhor graduado da Academia de Kiev, que promovia um amplo estudo das artes liberais. Quando em Moscou, Polotskii desenvolveu uma forma de literatura barroca nova para a corte russa que se baseava livremente em tropos astrológicos. Já em 1665, o clérigo compôs um poema em forma de estrela para marcar o nascimento do ‘czarevich’ Simeon Alekseevich (1665-1669) (figura 1).
Poltoskii morreu em 1680, mas sua influência na corte de Pedro, o Grande, foi imensa. De fato, o estilo de panegíricos barrocos que ele desenvolveu na corte, enfeitados com temáticas astrológicas, foi continuado por uma sucessão de clérigos ucranianos e do sul da Rússia até o século XVIII.
O legado deixado por Polotskii é evidente, por exemplo, em um poema emblemático escrito pelo clérigo Karion Istomin (ca. 1640–ca. 1720), de Kursk, no sul da Rússia, para marcar o casamento de Pedro, o Grande, com Evdokiia Lopukhina em janeiro de 1690. Nesta obra ricamente detalhada, Istomin se baseia na astrologia para prever um casamento longo e feliz para o casal. O clérigo justifica seu uso da astrologia citando Isaías 51:6, que diz: ‘Levantai os olhos para os céus e contemplai a terra embaixo’. Ele prossegue afirmando que “os astrônomos olham com astúcia para os céus [para] descobrir suas necessidades no mundo”. Istomin então proclama que o casamento real foi predeterminado pelas estrelas celestiais e que o jovem casal “viverá por um século unidos no amor”. Estas palavras são acompanhadas por uma ilustração representando dois indivíduos observando o Sol e a Lua através de telescópios (figura 2).
O texto correspondente explica que as descrições do Sol e da Lua representam o Czar e a Czarina, respectivamente. Apesar da lamentável imprecisão das previsões de Istomin – apenas nove anos depois, Pedro confinou sua esposa a um convento – o poema emblemático testemunha a continuidade da tradição de usar tropos astrológicos em panegíricos barrocos para exaltar o monarca russo.
Em 1700, Pedro, o Grande, seguindo os passos de seu pai, convidou um importante clérigo ucraniano – Stefan Iavorksii (1658-1722) – da Academia de Kiev para Moscou, o ucraniano rapidamente ganhou a reputação como proeminente expoente dos panegíricos barrocos. De fato, nas duas décadas seguintes, Iavorskii foi contratado para escrever uma série de panegíricos para marcar ocasiões especiais da corte, a maioria deles respaldados por uma mistura de temática astrológica, profecia bíblica e misticismo.

ЦАРИЦА НЕБЕСНАЯ – Nikolai Konstantinovich Roerich
Entre 1703-1706, por exemplo, Iavorksii fez uma série de sermões de Ano Novo, nos quais desenvolveu o tema da carruagem de Ezequiel subindo ao céu. Além deste tema principal, que foi influenciado pelo misticismo Merkavah (Merkabah), Iavorskii também se baseou na astrologia para interpretar eventos do ano anterior e pronunciar prognósticos anuais. No sermão que ele proferiu no dia de Ano Novo de 1705, por exemplo, ele declarou que a captura russa de Narva dos suecos em agosto anterior havia ocorrido “quando o Sol estava irradiando no signo da Virgem celestial”. Iavorksii acrescentou então que os astrólogos interpretam a Virgem como subjugando o Leão no zodíaco celestial e, assim, foi capaz de domar o feroz leão sueco no campo de batalha. Após essas observações, Iavorskii prognosticou sobre o próximo ano, atribuindo grande significado profético à correlação de nomes, letras e números. Assim, o clérigo proclamou que ‘este quinto ano começa no nome de Jesus’, que ele afirma ter cinco letras. Além disso, acrescentou que “o santíssimo nome Maria também tem cinco letras”. Assim, Iavorskii anunciou que “haverá para nós um prazer genuíno neste ano”. O gosto do Czar pelos prognósticos de ano novo de Iavorskii é testemunhado em uma carta a um cortesão em 1707, na qual o monarca expressa a esperança de que “neste ano a profecia de Iavorskii seja realizada”.
O uso mais extensivo de temas astrológicos por Iavorskii ocorre em um panegírico escrito para marcar o aniversário de Pedro, o Grande, em 30 de maio de 1709. Depois de exaltar o Czar como um “verdadeiro pupilo de Platão” o clérigo prossegue descrevendo como os governantes da Antiguidade convidavam os astrólogos a “interpretar o dia, a hora, o mês, o planeta e o signo celeste quando uma criança nasce” e que “a partir dos signos celestes do caráter do horóscopo e da natureza do ascendente, eles poderiam predizer e profetizar partir do nascimento sobre que tipo disposição teriam quando adolescentes como seria o seu tipo de comportamento”. Na sequência deste prólogo, Iavorskii volta-se então para o aniversário de Pedro, no qual elabora presságios favoráveis.
O clérigo continuou a ser chamado pelo monarca para execução de tais panegíricos até sua morte em 1722. Assim, em agosto de 1720, Iavorskii deu um sermão para marcar a Assunção da Virgem Maria. Nesta ocasião, mais uma vez ele interpretou enfaticamente o modo como o signo zodiacal da Virgem está localizado entre Leão e Libra. O clérigo lembrou como as vitórias da frota russa contra a marinha sueca em 1714 e 1719 ocorreram em julho, “quando o Leão apareceu em seu signo zodiacal”. Assim, a Virgem, de acordo com Iavorskii, foi capaz de domar vitoriosamente o leão sueco barrando sua boca aberta.
É notável que por cerca de sessenta anos, entre 1665 e 1725, os clérigos ortodoxos das fronteiras ocidentais do território da Rússia empregassem temas astrológicos em panegíricos oficiais, que exaltavam os monarcas, assim como o Estado russo. A este respeito, Stefan Iavorskii foi o herdeiro indubitável de Simeon Polotskii na maneira como empregou uma rica variedade de tropos astrológicos em suas obras literárias e oratórias. Tanto Aleksei Mikhailovich quanto Pedro, o Grande, estavam plenamente conscientes das características únicas da formação teológica ucraniana, que foi grandemente influenciada pela união de práticas do Catolicismo na Comunidade Polaco-Lituana. Embora os clérigos ucranianos da corte russa aderissem ao dogma ortodoxo e à prática ritual, eles também introduziram na Rússia expressões de esteticismo barroco que não contradiziam os princípios teológicos da Igreja Oriental. Crucialmente, isso incluía aspectos do esoterismo que poderia ser usado como uma potente visão simbólica para exaltar a monarquia russa.
O Almanaque Petrino
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- Figura 4. A New Published Plate’ (Novo siia tablitsa izdana) (1709)
Significativamente, a chegada de Polotskii à corte moscovita em 1664 também coincidiu com o despertar marcante do interesse do Czar Aleksei pelos almanaques poloneses e alemães. Assim, neste ano, nota-se pela primeira vez a tradução de um almanaque polonês. No entanto, o volume de tais traduções aumentou substancialmente no final da década de 1680 e no início da década de 1690, ou seja, quando Pedro, o Grande, atingiu a maioridade. É extremamente digno de nota que os almanaques traduzidos nesta época, que incluíam as obras dos poloneses Stanislaw Slowakowicz (1634–1702), Adam Stanislaw Pecherzynski (fl. 1695–1707) e Tomasz Franciszek Orminski (m. 1735) e o alemão Johann Johann Henrich Voigt (1613-1691), continham prognósticos políticos sobre a Rússia. Evidentemente, um misto de curiosidade e apreensão motivou as autoridades russas a traduzir tais obras. O poder dos almanaques estrangeiros de incitar o mal-estar entre as autoridades czaristas é notavelmente ilustrado pelo exemplo do almanaque de Voigt para 1682, que continha a previsão de que “nem Moscou escapará de sua má sorte”. Um alemão contemporâneo residente na Rússia, Georg Adam Schleusing, observou que as autoridades moscovitas se deram ao trabalho de traduzir o trabalho de Voigt, pois sua previsão de má sorte foi interpretada como sendo cumprida na Revolta dos Guardas Streltsy daquele ano. Em 1699, o enviado austríaco em Moscou, Johann-Georg Korb, observou que ainda era considerado uma ofensa criminal “introduzir o calendário de Voigt, o astrônomo na Moscóvia”, porque ele “prenunciava uma rebelião aos moscovitas”. No entanto, apesar da proibição dos calendários de Voigt, Pedro, o Grande, ordenou que traduções do almanaque fossem feitas ao longo da década de 1690, juntamente com uma série de outras obras semelhantes de poloneses e alemães.
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The title page to Johann Heinrich Voigt’s almanac for 1677 (1676) shows his understanding of the relationship between the subjects related to astronomy. A tree constitutes ‘Scientia Realis‘. A device above states that the force of the roots will nourish the fruits. The roots are numerical characters; the main trunk is arithmetic, supporting the two branches, astronomy and geometry. The boughs of astronomy are astrology, optics, gnomonics, music, and the boughs of geometry are stereometry, geography, architecture, and statics. Voigt’s definition of astronomy comprises astrology, optics, gnomonics, and music. The picture makes it obvious that it is necessary to master mathematics to be able to understand all the other subjects. Voigt, being himself an astrologer, wrote in the introduction of the almanac that while the astronomer observes and calculates positions, the astrologer explains and uses the past to try to make reasonable suppositions about the future. In order to do so sound knowledge of the basic mathematical skills was needed. (Inga Elmqvist Söderlund – Taking possession of astronomy).
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Até 1708, o Ministério das Relações Exteriores continuou a traduzir almanaques poloneses e alemães para Pedro, o Grande. A tradução de tais almanaques permitiu que Pedro e seus funcionários fossem informados sobre a natureza das previsões estrangeiras sobre a Rússia. No entanto, as traduções por si só claramente não forneceram às autoridades russas os meios para controlar o impacto negativo de previsões desfavoráveis. Consequentemente, em 1708 o Czar ordenou a publicação de um calendário russo – kalendar’ ili mesiatseslov – que foi impresso em Moscou e que continuou a ser publicado anualmente pelo restante de seu reinado. (In 1709 the kalendar’ ili mesiatseslov reminded everyone that “we Christians” begin the church and civil new year at the birth of Christ, “in honor of Christ our Savior and His Circumcision,” which is also close to the winter solstice).
O monarca russo teve um papel extremamente ativo na publicação desses primeiros calendários russos e garantiu que fossem distribuídos aos membros da corte e oficiais militares. De fato, deve-se enfatizar que Pedro concebeu os calendários de uma maneira altamente prática – consistente com a natureza abrangente de sua personalidade – em que oficiais da corte e militares usavam o almanaque de bolso diariamente para planejar e organizar todos os aspectos de suas vidas em em sintonia com as novas tendências na esfera da cultura oficial: desde a observância de festas religiosas e estaduais, até questões de saúde e bem-estar pessoal, além de fornecer à sua elite uma fonte de conhecimento prontamente disponível (e autorizada) sobre fenômenos astronômicos e previsões astrológicas.
Os calendários apresentavam uma abundância de informações astrológicas. Assim, depois de listar os principais eventos cronológicos relevantes para a história russa, os calendários forneceram informações sobre os signos do zodíaco e os sete planetas. Todos os meses continham previsões sobre o clima, e as publicações também continham prognósticos principalmente relacionados a assuntos militares e assuntos de saúde. O calendário de 1713, por exemplo, impresso em Moscou em dezembro de 1712, afirmava que a posição dos planetas prenunciava a paz para 1713, além de afirmar que a saúde geral também seria melhor do que no ano anterior. A única exceção a esse formato padrão foi o primeiro calendário impresso em São Petersburgo no final de 1713 (para o ano seguinte), que excluiu todos os prognósticos. No entanto, as direções definitivas nas previsões astrológicas do calendário eram limitadas pelo próprio Pedro, o Grande. Em 23 de novembro de 1714 o Czar escreveu a Ivan Musin-Pushkin (1661-1729), que supervisionou a publicação dos calendários, informando-o dos prognósticos que seriam impressos nas próximas edições.
Cada calendário anual também continha informações relacionadas ao corpo humano como um microcosmo do cosmos, que designava o significado zodiacal para partes específicas internas e externas do corpo. Como Katharina Volk observou, essa doutrina – conhecida como ‘melothesia’ – foi defendida por Marcus Manilius (século I d.C.) em seu influente tratado Astronomicon. Assim, a ilustração do ‘homo signorum‘ presente na edição de 1721 do calendário russo (figura 3) está inteiramente de acordo com essa tradição astrológica clássica. A folha fornece informações astrológicas relativas a tempos propícios para sangria de veias e vasos (O krovopuskanii zhelnom i rozhechnom) e quando tomar remédios (kogda lekarstvo prinimat’) durante janeiro de 1721. Sob a ilustração do ‘homo signorum‘, pode-se ver as datas designadas para a sangria dependendo se a pessoa tem um temperamento úmido, colérico ou melancólico. O gráfico também fornece os melhores dias do mês para tomar remédios que induzam a diarreia e o enjoo.
Em suma, os calendários russos emulavam o estilo e o conteúdo das publicações polonesas e alemãs que haviam sido traduzidas em Moscou desde a década de 1660. De fato, até a morte de Pedro, o Grande, em 1725, os calendários russos continuaram a se basear diretamente nos prognósticos de Voigt e Paul Halcke (1662-1731), que veio de Buxtehude, no distrito de Stade. Este último foi um membro fundador da Hamburg Mathematical Society, que foi criada em 1690 por Heinrich Meissner e Valentin Heins e também incluía o famoso místico pietista Johann Jakob Zimmermann. O atrativo deste método foi que as autoridades russas podiam escolher os prognósticos favoráveis de profissionais estrangeiros, ao mesmo tempo aumentar estas previsões com assuntos mais relevante para o público russo.
No entanto, os calendários oficiais do estado não foram as únicas publicações desse tipo no Império Russo durante o reinado de Pedro, o Grande. Notavelmente, vários mosteiros ortodoxos produziram almanaques repletos de informações astrológicas. Em 1696 ou 1697, os monges do Mosteiro Antoniev-Siiskii, perto de Kholmogory, na província de Arkhangel’sk, produziram o chamado Koliadnik, que fornecia previsões meteorológicas e horóscopos mensais.
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“Divination is the category where the Southern and Eastern Slavs proved to be the most interested. Primarily importing from Greek but also recombining and re-contextualizing the translated materials, Bulgarians, Serbians, and Russians took over a wide range of Byzantine methods. These included prognostications on the basis of meteorology (Gromnik, that is thunder divination), on the basis of the calendar (Koliadnik) and other methods involving geomancy (Rafli) and scapulimancy (Lopatochnik: divination from the signs on a sheep’s shoulder blade), as well as astrological almanacs based on the theory of lucky and unlucky days. Particularly interesting is the early 16th century Rafli (geomancy) attributed to the Russian of Ivan Rykov (probably a cleric from the court of Ivan IV), which is in fact a long and elaborated text on geomancy, an originally Byzantine but in many ways rewritten material for Russian Christians”. (William Francis Ryan, The Bathhouse at Midnight: An Historical Survey of Magic and Divination in Russia).
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O almanaque de igreja mais proeminente e amplamente distribuído foi o anual Kalendar ili mesiatsoslov produzido pelo Mosteiro das Cavernas de Kiev. A edição de 1717 do calendário continha prognósticos políticos quase semanalmente sobre a Grande Guerra do Norte em andamento travada pela Rússia contra a Suécia. Assim, o calendário prevê que ‘o inimigo [Suécia] vai querer destruir três torres com portões abertos’ em referência à cidade polonesa de Torun. Além disso, o calendário também estava repleto de previsões meteorológicas.
Além disso, na esfera secular, uma série de seis calendários chamados Calendários de Bruce foram impressos por tipógrafos civis entre 1709 e 1715. Esses calendários de folha única foram produzidos em conjunto por Jacob Bruce (1669-1735) – daí o título – que atuou como o diretor da iniciativa e Vasilii Onufrievich Kiprianov (fl. 1705-1723), que era o bibliotecário-chefe do país e em 1706 tornou-se o chefe dos tipógrafos civis. Bruce, que era descendente de escoceses, é um dos principais patronos do ensino e do avanço da astronomia na Rússia no primeiro quarto do século XVIII. Na virada do século XVIII, ele estabeleceu o primeiro observatório do país em Moscou e desempenhou um papel fundamental na criação da Escola de Matemática e Navegação na cidade – a primeira do gênero na Rússia. Além disso, ele foi um servidor muito valorizado de Pedro, o Grande, ocupando cargos-chave nas forças armadas, no campo diplomático e em vários cargos civis de prestígio.
Os Calendários de Bruce complementavam os calendários estaduais anuais apresentando informações astronômicas e astrológicas em um formato que foi projetado para ser apresentado com menos frequência, mas que pudesse ser admirado em termos estéticos. As seis folhas são todas caracterizadas por um notável grau de ornamentação, imagens emblemáticas, símbolos religiosos e motivos astrológicos clássicos, todos evocando o ponto alto da cultura barroca russa. Em termos estruturais, cada uma das quatro primeiras folhas, publicadas em 1709 e 1710, abordam diferentes aspectos do conhecimento astronômico, astrológico e religioso: a primeira folha traz informações sobre a entrada do Sol nos doze signos do zodíaco de acordo com a latitude de Moscou; a segunda folha fornece uma lista abrangente de dias santos e festas religiosas, juntamente com cálculos astronômicos sobre as datas da Páscoa entre 1709-1784; a terceira folha fornece uma série de previsões astrológicas baseadas nos planetas em relação às estações; e a quarta folha oferece informações astrológicas sobre o curso da Lua no zodíaco. Cada uma das duas folhas finais fornece breves resumos das respectivas informações impressas nas quatro folhas anteriores.
A primeira folha é simplesmente intitulada ‘A nova tábua publicada’ (Novo siia tablitsa izdana). Abaixo do título pode-se ver dois querubins segurando um escudo com uma águia de duas cabeças (o emblema do Estado russo), e acima deles está uma bandeira inscrita com uma citação do Salmo 21: “Ó senhor; e em tua salvação quão grandemente ele se regozijará!” Uma representação de Moscou pode ser vista abaixo do escudo, em ambos os lados são apresentados modelos do universo de acordo com o sistema ptolomaico.
O corpo principal da folha apresenta doze colunas verticais com símbolos e emblemas do zodíaco, acompanhados de uma breve descrição das qualidades de cada signo. Assim, Peixes é afirmado como sendo “frio e seco” por natureza e é acompanhado por um emblema representando dois pescadores, além de uma horta à esquerda banhada pelo Sol (figura 5). Os dados astronômicos fornecidos em cada uma das doze colunas referem-se ao nascer do Sol diário, ao pôr do Sol e às durações do dia e da noite de acordo com a latitude de Moscou.
A segunda folha, como mencionado, é predominantemente religiosa em tom e conteúdo, fornecendo uma lista de dias de santos e festas religiosas, bem como cálculos astronômicos sobre o calendário pascal. A inclusão de uma representação triangular de Deus em estilo barroco, abaixo da faixa do título, é uma característica notável no contexto russo, pois tal representação estética era estranha à tradição ortodoxa. Abaixo da águia imperial de duas cabeças, pode-se notar também a representação da Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo. Em termos astrológicos, pode-se ver a representação emblemática dos signos do zodíaco logo acima das informações relacionadas ao calendário religioso. Além disso, na parte inferior da folha, do lado esquerdo, há uma breve seção dedicada às características planetárias, onde se pode aprender, por exemplo, que Vênus é muito frio e úmido.
Embora as duas primeiras folhas incluam imagens astrológicas e forneçam breves descrições das qualidades dos doze signos do zodíaco e dos sete planetas, respectivamente, a ênfase em cada folha está no fornecimento de dados astronômicos sobre o Sol e em relação aos respectivos calendários ortodoxos. No entanto, a terceira folha – intitulada “Os presságios de todas as estações de acordo com os planetas” (Predznamenovanie vremeni na vsiakoi god po planetam) – concentra-se em fornecer previsões astrológicas baseadas nas qualidades dos planetas e quando eles terão mais influência ao longo do curso de cada ano. Versos astrológicos estão inscritos em ambos os lados do emblema ornamentado que exibe o título. À esquerda pode-se ler: “Os sete planetas mostram sua influência para nós, narram a qualidade de cada ano [e] mudam várias coisas. Eles [os planetas] são administrados nas quatro estações”. O verso à direita diz: “Como na primavera, assim no verão, como também no outono e nas profundezas do inverno, finalmente eles proclamam todas as aflições [com relação ao] que acontece ao homem”. A parte superior da terceira folha também está repleta de uma bela panóplia de símbolos astrológicos, com os doze signos do zodíaco abrangendo representações alegóricas das quatro estações (figura 7).
O corpo principal da folha é dividido em sete colunas principais no centro, cada uma ilustrada por uma representação humana dos planetas no espírito da tradição planetenkinder. Além disso, uma coluna à esquerda é dividida em catorze seções com informações sobre as qualidades dos planetas. Seguem-se as seções sobre como o planeta regente influencia as quatro estações, bem como seu impacto na semeadura na primavera e no outono. Também se encontram seções dedicadas a como o planeta regente afeta plantas e árvores, vinhas e vinho, bem como influências meteorológicas. Além disso, também é possível discernir a influência dos planetas regentes sobre répteis e peixes, bem como o impacto na saúde e aflições humanas. Por último, é dado o número pascal de cada planeta, juntamente com informações relativas aos anos em que se correlaciona com os ciclos solares.
Em um contexto russo, esta folha fornece evidências notáveis da atração de previsões astrológicas e simbolismo entre os principais cortesãos petrinos. Além disso, é altamente significativo que a fonte de todas as informações astrológicas seja extraída literalmente de uma tabela encontrada no primeiro volume de Specula Physico-Mathematico-Historica, um trabalho publicado em 1696 por Johann Zahn (ca. 1641-1707), da Ordem Premonstrate em Würzburg. Zahn se encaixava bem no modelo polímata enciclopédico de Athanasius Kircher (1602-1680). No entanto, ao contrário de Kircher, Zahn era um defensor entusiástico da astrologia. Assim, nos monumentais três volumes de seu Specula, a seção de astrologia de Zahn cita repetidamente as obras de Agripa, Cardano, Paracelsus, Robert Fludd e Antonio Francisco de Bonattis, entre outros, para expor sua abordagem em relação à arte celeste. Zahn dificilmente merece uma nota de rodapé em relatos contemporâneos de filosofia natural no final do século XVII, mas a adoção entusiástica de suas previsões astrológicas em Moscou em 1710 ilustra sua ampla influência na época. Além disso, a estética barroca de sua obra astrológica não é apenas replicada nos Calendários de Bruce, mas também está de acordo com as inclinações culturais mais amplas da corte petrina.
A quarta folha, intitulada “Previsões diárias de influências de acordo com o curso da Lua no zodíaco” (Predznamenovanie deistv na kazhdyi den’ po techeniiu Luny v zodii), segue a mesma linha da publicação anterior. Versos sobre um tema astrológico adornam o cartaz em ambos os lados do título principal. O terço superior da folha contém uma ilustração dos doze signos do zodíaco em forma de arco, sob o qual está uma representação da Lua. O corpo principal da folha é então dividido em três tabelas, com a primeira contendo informações sobre o ciclo lunar ao longo dos doze signos zodiacais. A segunda tabela é dividida nos doze signos do zodíaco e contém dados relativos ao ciclo lunar e aos dias, em combinação com o signo zodiacal relevante. Por fim, a terceira tabela fornece descrições extensas que recomendam se é bom, ruim ou inconsequente realizar ações específicas, que se correlacionam com os signos do zodíaco. Em outras palavras, a folha fornece informações sobre a posição da Lua em relação aos signos do zodíaco e as correspondentes possíveis influências sobre uma extraordinária gama de atividades humanas. Uma pequena amostra será suficiente para dar uma ideia da natureza intrigante do conselho astrológico (figura 9). Por exemplo, fornece ajuda médica, sugerindo os melhores horários para tomar remédios ou comprar pedras preciosas, bem como conselhos sobre quando é melhor realizar experimentos alquímicos ou indagar sobre artes secretas. Também são dispensados conselhos práticos, no que diz respeito ao barbear, quando comprar produtos ou mudar de casa, vários assuntos agrícolas e assuntos militares, como quando melhor libertar prisioneiros para diminuir a chance deles se vingarem. Em suma, a folha oferece uma cornucópia de conselhos astrológicos para um cortesão russo de mente esotérica.
É mais uma vez fascinante notar que uma fonte alemã é usada literalmente para todas as informações astrológicas. Neste caso, a folha cita a influência de Martin Albert, um médico e metalista teofrástico e espagírico de Chemnitz”. Em outras palavras, um médico paracelsiano, cujas tabelas sobre a passagem da Lua pelos doze signos do zodíaco apareceram no terceiro livro da Magia Naturalis de Wolfgang Hildebrand (fl. 1610-1631), que foi publicado pela primeira vez em 1610 e continuou a ser republicado no século XVIII (figura 10).
A inclusão de longas citações sobre astrologia de Zahn e Hildebrand aponta para a contribuição considerável de Jacob Bruce na composição dos Calendários de Bruce. Bruce não apenas possuía cópias de obras-chave de ambos os autores alemães, mas também possuía a mais extensa coleção de tomos astrológicos alemães e ingleses no início do século XVIII na Rússia.
A publicação dos Calendários de Bruce foi endossada pelo monarca russo. Isso é atestado pelo fato de que tanto a quinta quanto a sexta folhas, publicadas em 1715, contêm representações de Pedro, o Grande. Na sexta folha, por exemplo, o Czar pode ser visto na base, vestindo uma armadura adornada com símbolos astrológicos e de pé ao lado de um globo, ao redor do qual também podem ser vistas representações dos doze signos do zodíaco. Saturno também pode ser visto à direita do monarca, bem como uma representação da Fortaleza de Pedro e Paulo acima do globo. É significativo que esta ilustração seja baseada em uma imagem quase idêntica que adorna a base do Verbesserter Hamburgische Curiositäten Auss das de 1715 de Paul Halcke, publicado vários meses antes dos Calendários de Bruce. Como mencionado, os calendários produzidos por Halcke em Hamburgo foram uma fonte chave de informações astronômicas e astrológicas para as publicações anuais kalendar’ ili mesiatseslov que foram impressas após 1708. Assim, mais uma vez uma fonte alemã foi usada como modelo com pequenas alterações para acomodar o contexto russo.
Conclusão
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- Figura 6- ‘Kalendar povsemstvennyi ili mesiatseslov na vse leta Gospodnie’
Para concluir, vale a pena citar R. A. Simonov, o principal historiador da astrologia na Rússia, que afirma que “o Czar reformador era um personagem complicado e contraditório [que] não era um oponente da astrologia”. No entanto, eu iria mais longe e afirmaria que Pedro, o Grande, abraçou ativamente aspectos do pensamento astrológico para promover seu personagem e seu programa de reforma. Além disso, como parte de sua reforma mais ampla do calendário russo, o Czar encorajou os principais servidores a adotar uma visão de mundo astrológica em suas vidas diárias, com base na promoção de almanaques de bolso e luxuosas gravuras instrutivas. Além disso, vale ressaltar que clérigos, em sua maioria oriundos da Ucrânia, como Iavorskii, e importantes figuras científicas, como Jacob Bruce, formavam a vanguarda dos servidores de Pedro, o Grande, encarregados de assimilar aspectos estrangeiros da cultura astrológica na esfera oficial e cotidiana da vida da corte russa. Em outras palavras, o monarca russo defendeu formas de prática astrológica que atravessavam as divisões religiosas e científicas que estavam se tornando cada vez mais prevalentes e agudas em muitos países da Europa Ocidental, particularmente na França e na Inglaterra.
A esse respeito, é significativo que o Czar russo tenha usado especificamente formas polonesas e alemãs de prognóstico astrológico, que foram então adaptadas às exigências da vida na corte russa. Essa transferência de ideias estava inteiramente de acordo com o empréstimo mais amplo de Pedro, o Grande, de práticas culturais ocidentais e inovações tecnológicas, mas há muito tempo é um aspecto negligenciado da Rússia petrina (figura 11).
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…”And they showed us into a place where they worshipped their God, and we knew not if we were in heaven or earth. For, earth knows no such beauty or sight … We only knew that God was with people, and that their divine service surpassed the service in any other kingdom…”
Genetic horoscope of the Russians
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- The sign of Aries. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of the Taurus. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of Gemini. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of cancer. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of the Lion. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of the Virgin. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of Libra. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of the Scorpio. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of Sagittarius, Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of Capricorn. Russian horoscope of the early 20th century.
- The sign of Aquarius. Russian horoscopeof the early 20th century.
- The sign of Pisces. Russian horoscope of the early 20th century.
Ω
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