Traduções

Astrologia em De vita contemplativa de Fílon de Alexandria

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Joan E. Taylor e David Hay*

*Este artigo baseia-se em material de Joan E. Taylor e David Hay, Therapeutae: um comentário sobre o De vita contemplativa de Fílon de Alexandria.

υ

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Fílon de Alexandria foi um dos pensadores judeus mais eruditos e prolíficos da antiguidade. Como membro de uma família rica e importante, e um líder eminente da comunidade judaica em Alexandria durante o final dos anos 30 e início dos anos 40 E.C., Fílon estava em posição de obter consideráveis informações precisas de dentro de sua cidade; e sua cidade era o centro intelectual do mundo greco-romano, um centro comercial onde o oriente encontrava o ocidente, onde os budistas encontravam os expoentes da Segunda Sofística (Dio Crisóstomo), onde todas as coisas podiam ser discutidas nos salões do ‘Museon’, e todo texto que valesse a pena ler estava na enorme e surpreendente Biblioteca, com sua “biblioteca filha” no Serapeum. Nesta cidade, o simbolismo astral foi incorporado em sua própria nomenclatura: a Via Canópica (na antiga cidade do Egito; Canopus) seguia do portão oriental (oeste) da Lua até o portão ocidental (leste) do Sol, e levava a leste para Canopus, num porto junto ao Nilo, onde, de 127 a 151 E.C., o excelente astrônomo-astrólogo Ptolomeu observava as estrelas.

De Vita Contemplativa e Therapeutae*

*A Therapeutae (grego: Θεραπευταί Therapeutai; feminino: Therapeutrides) eram membros de uma seita judaica helenizada descrita pelo filósofo judeu Philo de Alexandria no seu De vita contemplativa. Este livro continua a ser a única evidência desta seita, pois nenhum escrito desta corrente, que aparentemente desapareceu antes do primeiro século E.C., sobreviveu. Eusébio de Cesareia, um apologista cristão do século XIV, torna-os precursores do cristianismo, até mesmo dos cristãos.

α

Em meio à busca por conhecimento e excelência filosófica encontrada em Alexandria, Fílon escreveu seus tratados, determinado a mostrar como o judaísmo superava tudo em sua piedade, retidão e brilho filosófico. Ele exaltou aqueles que foram exemplares dentro de sua própria tradição, apontando primeiro para os Essênios da Síria Palestina, que representavam o ideal estoico de uma vida ativa (De vita contemplativa). Ele então olhou para seus próprios contemporâneos no judaísmo alexandrino, e apresentou como exemplo os ideais dos filósofos contemplativos, um grupo de exegetas alegóricos que viveram em uma pequena comunidade fora da cidade às margens do lago Mareótis. O tratado de Fílon, De vita contemplativa, é famoso por fornecer uma descrição de um grupo que atuava como um ponto de comparação entre os primeiros Cristãos e os Essênios. Os ‘ministros’ (Φεραπευταί), como são chamados os membros desse grupo, eram ascetas, místicos, retraídos, uma curiosa comunidade de homens e mulheres que renunciavam à família e ao sexo. Em vez disso – como Fílon nos diz – eles viviam escondidos em pequenas cabanas, estudando as escrituras, compondo música e rezando. Além da reunião para o culto na sinagoga no 7º dia, eles só se reuniam em comunidade para comer juntos e ouvir um discurso a cada 49ª véspera, em seguida se envolviam em cantos castos e danças sagradas, porém em transe, durante todas as celebrações noturnas. Eles então saudavam o amanhecer do 50º novo dia (dia de Nissan*) com orações voltadas para o Sol, com “as mãos estendidas para o céu” (De vita contemplativa).

* Nissan (em hebraico: נִיסָן, do acádio nisānu, do sumério nisag, “primeiros frutos”) é o primeiro mês de 30 dias do calendário judaico religioso (sétimo mês do calendário civil), que se inicia com a primeira Lua Nova da época da cevada madura em Israel. O nome Nissan tem origem babilônica: na Torá o nome do mês é abibe.

Na luta pela excelência filosófica dentro do mundo da intelligentsia Alexandrina, o retrato idealizador de Fílon em De vita contemplativa descreve a vida desses judeus eminentes, verdadeiros discípulos de Moisés, a fim de mostrar como no judaísmo em geral havia um melhor exemplo dos perfeitos ideais estoicos do que no mundo não judaico. Isso não é simplesmente um elogio; é um componente altamente polêmico, lembrando a luta dos judeus em Alexandria num momento de enorme tensão social, cheia de sarcasmo contra aqueles que supunham viver vidas de piedade quando claramente não viviam. No início de seu tratado, nos §§ 3 a 10, Fílon inicia o que pretende continuar, denuncia categoricamente todos aqueles que estão engajados em práticas diversas de loucura religiosa, mostrando-se não como ‘ministros’ das coisas divinas, mas como algo grosseiramente equivocado.

Como explorei em outro texto, o termo Φεραπευταί é cultual, usado por aqueles que atendem aos deuses dentro dos contextos do templo; não se refere a terapeutas – como poderíamos supor – mas àqueles que “cuidam” do divino dentro de lugares de santidade. O próprio Fílon usa o termo para sacerdotes e levitas no Templo de Jerusalém, um grupo que recebe então um significado alegórico indicativo de todos os que verdadeiramente adoram o Divino em suas vidas. Usando um termo culto para descrever este grupo, Fílon conjura o simbolismo cultual, jogando com o trocadilho do verbo Φεραπεῦω, que significa não apenas ‘ministrar’, ‘servir’ ou ‘cuidar’, mas também – por associação – ‘curar’. Eles ‘ministram a Deus’ e ‘curam almas’, ao mesmo tempo (De vita contemplativa).

Em De vita contemplativa o uso ordinário da palavra Φεραπευταί – como termo cultual – sustenta a discussão. Com efeito, a palavra τιμῶντας, aqui um particípio do verbo τιμάω, tem um significado amplo fundado na noção de dar honra ou reverência a alguém, com τιμἡ ‘honra’ (§ 8), significando também um dom de honra, palavra usada para uma oferenda aos deuses. Esta questão que Fílon aborda aqui é, se qualquer outro objeto além de Deus é digno da honra concedida dentro de um contexto de culto em que os ministros do divino operam. Fílon aqui então fornece um relato com humorismo irônico certos objetos de devoção cultual não judaica. A implicação geral é que servir a tais entidades é ridículo em comparação com aqueles que verdadeiramente servem ao Ser. Isso resulta na criação de uma paródia de qualquer outro que pretendesse ser Φεραπευτής noutro contexto: os verdadeiros ministros de Deus são contrastados com aqueles que servem a coisas inferiores e bastante risíveis, com uma vaga reputação piedosa e que se configuram como uma espécie do tipo ‘anti- Φεραπευταί‘. §§ 11-12 completa esta exploração do oposto, enfatizando que os verdadeiros ministros se concentram em buscar a visão do Ser, que leva à felicidade perfeita e ao êxtase arrebatador semelhante aos adoradores de Baco  ou Coribantes (Κορύβαντες).

Nos §§ 3 a 10 Fílon sistematicamente passa por cinco categorias daqueles que exibem serviço cultual especial a várias entidades divinas, e indica por que eles estão em erro. Estas podem ser resumidas na tabela a seguir:

O que interessa neste presente artigo encontra-se no § 5. Há comentários de ridicularização daqueles que, em vez de adorar a Deus como criador, adoram o que ele criou nos céus. Fílon escreve:

5 ἀλλἀ τοὺς [τιμῶντας] τἀ ἀποτελἐσματα, ἤλιον σελήνην ἤ τοὺς ἂλλομς ἀστἐρας πλάνητας ἤ άπλανεῖς ἤ τὸν σὐμπαντα οὺρανόν τε κόσμoν; ἀλλἀ καὶ ταῦτα οὐκ ἐξ ἐαυτῶν γἐγονεν, άλλ’ ùπό τινος δημιουργοῦ τελειοτἀτου τήν ἐπιστἡμην.

5 E as pessoas [que honram] as entidades completamente criadas – Sol, Lua e outras estrelas, errantes ou fixas, ou tanto o céu inteiro como um adorno? No entanto, estes também não vieram a existir por si mesmos, mas por meio de um certo Criador em perfeito conhecimento.

Fílon escreve sobre pessoas que honram ou reverenciam a ἀποτελἐσματα, a palavra usada por Fílon curiosamente tem uma ressonância astrológica, embora aqui traduzida como ‘entidades completamente criadas’. Essas entidades foram formadas a partir dos elementos brutos de terra, água, fogo e ar. A referência em Fílon é abrangente, incluindo tudo no céu. Fílon inclui estrelas fixas, não apenas os sete planetas identificados como deuses, ao se referir às estrelas ‘vagantes ou fixas’ (πλάνητας ἤ ἀπλανεῖς). Com isso ele, sem dúvida, faz referência também aos planetas e à organização das estrelas fixas em constelações.

O termo refere-se às estrelas fixas do Tetrabiblos de Ptolomeu, mais particularmente os livros 7 e 8 de seu Almagesto, que incluem um catálogo de 1022 estrelas fixas descritas de acordo com suas posições dentro de 48 constelações, trabalho que em última análise fica em dívida com o astrônomo Hiparco, do século II a.C. Plínio, afirmou que Hiparco “nunca pode ser suficientemente elogiado, ninguém fez mais para provar que o homem está relacionado com as estrelas e que nossas almas são uma parte do céu”. A obra de Ptolomeu faz exatamente o mesmo.

A referência a τόν σὐμπαντα οὐρανόν τε καὶ κόσμον é ampla, e a tradução de κόσμον é difícil, pois é tentador traduzi-la como ‘universo’, mas a referência parece ser derivada da Septuaginta Grega (séc. I d.C.) onde em Gênesis 2: 1 se lê  ὀ οὺρανος καὶ ὴ γῆ, καὶ τᾶς ὁ κόσμος αὺτῶν ‘o céu e a terra e todo o seu adorno’, e Deut. 4: 19, καὶ πάντα τὸν ‘e todo o ornamento do céu’. Em De opificio mundi este ‘deus como adorno’ é equivalente a ‘a luz sustentadora dos corpos celestes’. Esta linguagem reflete Deuteronômio 4: 18,19 (LXX): os filhos de Israel não devem fazer imagens esculpidas ‘para que, olhando para o céu, e vendo o Sol e a Lua e as estrelas e todos os ornamentos do céu, vagueiem se maravilhando com o que o Senhor teu Deus distribuiu a todas as nações debaixo do céu’.

O que é imediatamente interessante aqui é que Fílon coloca a referência a entidades astrais dentro de um contexto de ridicularização da adoração falsa, comparável à adoração egípcia de animais, ou a veneração de semideuses como Hércules ou Dionísio. Fílon parece aqui fornecer uma indicação de que havia uma adoração específica de divindades conceituadas como sendo os corpos celestes, ou vice-versa. Segue-se a definição de Fílon dos quatro elementos como sendo equiparados a divindades.

A adoração dos elementos, é claro, nunca foi um culto designado, mas era frequentemente apresentada pelos judeus como uma espécie de explicação da religião não judaica (por exemplo, 2 Enoque 16: 7 e Testamento de Salomão 8: 1,2; Sáb. Sol.: 1,2). Uma identificação de divindades e elementos, ou elementos mistos, provavelmente era corrente nos círculos estoicos que Fílon conhecia; Atenágoras (Apol. 22) observa que os estoicos fazem de Zeus fogo, Hera ar, Poseidon água, enquanto Empédocles tem Zeus como fogo, Hera como terra, Aidoneus como ar e Nestis como água. Diógenes Laércio (Vitae 7: 147) registra que os estoicos definem etimologias intrínsecas que relacionariam não apenas Hera ao ar, Hefesto ao fogo, Poseidon à água e Deméter à terra (como aqui em De vita contemplativa), mas também Zeus à força-vital (com seu nome aparentemente vindo de ξην, ‘vida’) e Atena ao éter primordial (αιθἐρα).

Plutarco em De Iside et Osiride observa em relação “às doutrinas promulgadas pelos estoicos sobre os deuses” que as forças que moldam a forma dos elementos são denominadas como: o espírito criador e mantenedor é Dionísio, o ser irado e destrutivo é Hércules e o receptivo é Amon. Aqui ‘o que permeia a Terra e seus frutos é Deméter e sua filha (Korē), e o que permeia o Mar é Poseidon‘.

Assim, o que Fílon escreve em De vita contemplativa é dirigido àqueles ‘sofistas’ estoicos que racionalizaram a reverência cultual na veneração de forças e entidades naturalmente observáveis, tanto quanto aquelas que serviam aos deuses culticamente. Aqueles que se dedicam a tais serviços estão em erro, e não podem ser comparados com os verdadeiros ministros de Deus. Desde que Fílon aceitou sem questionar que todo o mundo material é composto por quatro elementosterra, água, ar e fogo – a loucura dessas pessoas é que elas não reconhecem que estão adorando algo da ordem criada em vez do criador.

Curiosamente, no Decalogue Fílon une aqueles que adoram os elementos com aqueles que reverenciam o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas, identificando que alguns chamam a terra de Korē ou Plutão, e o mar (água) Poseidon, o ar Hera e o fogo Hefesto. Claramente, um leva ao outro, porque no sistema ptolomaico em dívida com Hiparco, as esferas dos elementos ar e fogo estão logo abaixo da esfera da Lua. Em De vita contemplativa Fílon não vincula nenhum desses corpos abertamente às divindades greco-romanas, embora no Decalogue ele observa que o Sol é chamado de Apolo, a Lua Ártemis, a estrela da manhã Afrodite (Vênus) e o ‘brilhante’ Hermes (Mercúrio), com outros também ‘nomeados por criadores de mitos (μυθογραφοι) que inventaram histórias projetadas para enganar, e ganharam fama por sua habilidade em nomear’.

Astrologia e Astronomia nas Obras de Fílon de Alexandria

Fílon é, de fato, um recurso pouco usado para evidência de entendimentos astrais no Egito helenístico que de outra forma não foi muito preservado. Por exemplo, nesta passagem do Decalogue Fílon denuncia a deificação do céu como dois hemisférios no culto dos Dióscuros, Castor e Pólux. Ele entende que todo o céu é dividido em dois hemisférios, um acima e outro abaixo da terra redonda. Normalmente Castor e Pólux, os Dióscuros, são identificados com duas estrelas na constelação de Gêmeos (o ‘signo zodiacal’ indicando então os Dióscuros como gêmeos). Fílon escreve que o mito dos Dióscuros – como hemisférios – é que eles viviam em dias alternativos, outra interpretação é encontrada apenas no Adversus Mathematicos de Sexto Empírico ‘Para os dois hemisférios, um acima da terra e outro abaixo da terra, os sábios do povo então os chamam de Dióscuros.’

Como na De vita contemplativa, no Decalogue Fílon está desprezando uma grande variedade de devoções cultuais alexandrinas como sendo muito inferiores ao serviço próprio do único objeto digno de devoção: Deus, como o próprio Ser. Como vemos pela identificação dos Dióscuros, tais devoções não eram puramente greco-romanas, embora os planetas fossem identificados com divindades gregas já na época de Platão, no final do século V a.C. No Epínomis de Platão há sete corpos celestes que se movem: o Sol, a Lua e os cinco planetas. Esses cinco planetas foram entendidos como Hermes (Mercúrio), chamado por Fílon de ‘brilhante’, Afrodite (Vênus), Ares (Marte), Zeus (Júpiter) e Cronos (Saturno). Platão refere-se à Estrela da Manhã (Afrodite, Vênus) e Hermes no Timeu; o Sol é Hélios e a Lua Semele. O Epínomis apoia uma espécie de devoção religiosa astrológica, uma vez que os deuses celestes, a harmonia e o número juntos refletem a ordem do universo. Este entendimento é encontrado desenvolvido pelo aluno de Platão, Eudoxus de Cnido, cuja obra é absorvida pela poesia de Aratus (Phaenomena e Diosemeia; início do século III a.C.) e é conhecida a partir do comentário de Hiparchus em Arati et Eudoxi Phaenomena (séc. II AEC).

No entanto, fica claro pelo que Fílon escreve em outros contextos, que ele não está pensando tanto na astronomia grega, mas está consciente da sua própria cidade, e se ele olhar para qualquer lugar, será para o leste. Em outras partes de seus escritos, associa-se fortemente ἀστρονομαί aos babilônios, ou melhor, aos caldeus.

Tal conhecimento babilônico – caldeu – é severamente ridicularizado no trabalho de Fílon, e a saída de Abraão da terra dos caldeus é concebida como uma rejeição da ἀστρονομία. Por exemplo, em Quis Rerum Divinarum Heres Fílon cita Gen. 15: 7 (LXX): ‘Eu sou o Deus que vos tirou da terra dos caldeus, para vos dar esta terra por herança’, com intenção específica. Fílon afirma que este é um êxodo da ‘meteorologia’ caldeia: um sistema que inclui a crença de que o mundo não era obra de Deus, mas era ele mesmo Deus, e que o destino de alguém para o bem ou para o mal era encontrado nos cursos e órbitas ordenadas dos corpos celestes. Tal ἀστρονομία deve ser rejeitada, a fim de contemplar Deus como Criador e Pai. Os ‘ensinamentos caldáicos confiam no céu’, enquanto Abraão confia em Deus, que dirige o mundo inteiro.

Fílon explora o simbolismo da partida de Abraão da Caldéia também em De Migratione Abrahami. Os caldeus têm a reputação suprema de explicar ‘astronomia’ e horóscopos, correlacionando as coisas no alto do céu e as coisas na terra. O ‘kosmos’, o universo físico, é tudo o que existe, ambos ‘sendo Deus em si ou contendo Deus em si mesmo como a alma do todo’. Destino e Necessidade são feitos divinos, e “os circuitos periódicos do Sol e da Lua e das outras estrelas/corpos celestes determinam para cada ser tanto coisas boas quanto seus opostos”. Fílon continua explicando que Deus está antes de todas as entidades celestiais que ele criou e não está dentro delas, um argumento destinado a “refutar a crença caldeia”. O próprio Moisés estava empenhado em tentar levar as pessoas a compreenderem isso, dizendo-lhes, que enquanto esses corpos dançam no éter acima, eles estão para além da Epinoia, do poder do pensamento, tendo uma porção ‘feliz e divina’ (εὺδαιμονεστἐρας καὶ θεοτἐρας). Deve-se simplesmente deixar essas entidades celestiais despreocupadas do estudo. Fílon faz Moisés suplicar a tal estudante de astronomia (Abraão) que “desça do céu”, a fim de explorar sua própria natureza, mudando-se para Harã. Em De Somniis, Abraão, deixando a Caldéia, ‘abandonou a língua estrangeira e ‘caldaizante’ dos meteorologistas preocupados com a astronomia (ὰστρονομία)’. Em Virtutibus Fílon escreve: ‘O pai mais antigo da nação judaica era um caldeu de nascimento, [filho] de um astronomikos, [filho] daqueles que trabalham com mathēmata, aqueles que julgam as estrelas e todo o céu e a natureza física como sendo divinos’, sendo estas entidades que dirigem as coisas na terra para o bem ou para o mal.

O mesmo é dito em De Abrahamo: os caldeus atribuem tudo aos movimentos dos corpos celestes, ‘estrelas’. Eles pensam que o mundo é guiado pelos números e proporções numéricas em suas posições. Eles reverenciam apenas o mundo físico e pensam que o mundo é Deus. Sente-se em De Abrahamo que Fílon tem um verdadeiro zelo em afastar as pessoas da atração da astrologia. Uma voz celestial diz a Abraão para fugir. Até a mudança de nome de Abraão está ligada à astronomia; Fílon explica que o nome Abrão “significa alguém chamado astrólogo (αστρολογικός) e meteorologista (μετεωρολικός), aquele que cuida dos princípios caldeus como um pai cuidaria de seus filhos”, enquanto o nome Abraão significa ‘o sábio’. Enquanto ‘para o meteorologista nada parece ser maior que o mundo físico, e é a causa do que acontece”, Abraão sabe bem.

No Congressu 49,53, Fílon interpreta alegoricamente a genealogia que menciona Nahor, irmão de Abraão, que teve duas esposas, Milca e Reumá (Gênesis). Nahor (seu nome significa – segundo Fílon – ‘descanso da luz’) está descansando demais na ‘terra da Caldéia’ porque ‘ele não se separa da contemplação da astronomia’ (ὰστρονομία): com Milca ‘ele honra o criado diante do Criador, e o mundo físico diante de Deus, ou melhor, ele julga que o próprio mundo é Deus todo-poderoso, não obra de um Deus todo-poderoso’. No entanto, surpreendentemente, aqui Fílon continua explicando que Milca representa a ‘rainha das ciências’ (βασλίδα  τῶν ‘επιοτημῶν) porque o céu, movendo-se de acordo com a música celestial, é a melhor de todas as entidades criadas. Vemos então que os caldeus são, para Fílon, tão errados quanto tão certos: errados na ideologia religiosa, mas certos na ciência.

Isso imediatamente nos alerta para dois entendimentos diferentes da astronomia. Dentro do Congressu Fílon não vê essa ciência como uma perda de tempo; ele é assertivamente positivo no Congressu sobre a ciência da ὰστρονομία como uma das disciplinas dignas de estudo e ainda altamente negativo sobre o que chamaríamos de astrologia, embora ele também chame isso de ὰστρονομία.  Em sua discussão sobre o primeiro nome de Abraão, em De Mutatione Nominum, ‘Abrão’ aparece com o significado de ‘pai do alto’ (μετἐωρος πατρή), e, além do mais, o estudo das estrelas é ‘o estudo das coisas superiores’ e, portanto, μετεωρολογία, por isso o estudante é chamado por Fílon de μετεωρολογία, μετεωρολἐσχης ou mesmo de μαθημακινός. Para ser um pouco mais ‘caldaizante’ χαλάιξω, assim como os caldeus ‘astronômicos’. Fílon escreve que, μετἐωρον ‘no alto’, indica (alogoricamente) aquele que:

está subindo da própria terra para as alturas e examinando as coisas elevadas, altas moradas e altos pensamentos, investigando o tamanho do Sol e seus cursos, como ele regula as estações do ano avançando e voltando com revoluções de igual velocidade; [investigando] sobre as iluminações da Lua, fases, minguantes e decrescentes, e os movimentos das outras estrelas tanto fixas quanto em movimento. O exame dessas coisas não é feito por uma alma sem inteligência ou improdutiva, mas por uma alma muito inteligente e capaz de gerar uma descendência completa e perfeita; e por isso chamou o meteorologista (μετεωρολογικός) [no alto] “pai”, porque ele não era improdutivo de sabedoria.

Fílon então define este estudo como bom. No entanto, mudando seu nome para Abraão, Abrão torna-se sábio e questiona se o estudo do mundo físico realmente vale a pena, pois não pode levar à virtude. O estudo das estrelas, então, não é uma coisa ruim, mas é simplesmente aquele ramo da filosofia preocupado com o físico e o lógico, e não com a ética. Aqui, Abraão não abandona a religião caldeia equivocada, centrada na astrologia e numa teologia errônea – panteísta, mas ele progride, e se afasta ‘da contemplação sobre o mundo físico’ (ὰπὸ τῆς περὶ τὸν κόσμoν θεωρίας) para a filosofia ética. Em Ebrietate, da mesma forma, a meteorologia é apenas uma das muitas disciplinas que um homem sábio deve estudar, junto com a “fisiologia” – o estudo da natureza – política, economia, estadista, jurisprudência, e assim por diante.

Fílon claramente conhece astronomia. Em De Somnis, explorando o sonho de José com o Sol, a Lua e onze estrelas se curvando diante dele, Fílon comenta: ‘Então, os meteorologistas dizem que o círculo zodiacal, sendo o maior dos círculos do céu, é como uma coroa de doze ‘criaturas’ (ξωδίων) das quais também leva seu nome. O Sol e a Lua rolam continuamente ao longo dele, para passar pelo zodíaco não na mesma velocidade, mas em tempos variáveis e desiguais, o Sol levando trinta dias e a Lua mais de um duodécimo desse tempo, ou seja, dois dias e meio.” Isso é simplesmente ciência. De fato, Fílon uma vez ouviu um homem que estudava astronomia (aqui μἀθημα) ‘não descuidada ou indolentemente’ contar-lhe sobre uma luta pelo poder entre as estrelas, uma questão que ele deixa para os meteorologistas (μετεωροθήραι). Aqui Fílon indica que o estudo estava de fato ocorrendo, e é separado do culto caldeu às estrelas: esses “meteorologistas”, o que chamaríamos de astrônomos, claramente atribuíam sensibilidades às estrelas, como fez Ptolomeu em seu livro Tetrabiblos.

Fílon realmente conhecia essa ciência bem o suficiente, como Helen Jacobus se referiu. Ele pode se referir ao zodíaco lunar para explicar o significado do festival da Lua Nova ou ao zodíaco solar em relação ao início do ano no equinócio da primavera, quando o Sol está em Áries, ou os equinócios. Ele menciona que as doze pedras preciosas do peitoral do Sumo Sacerdote significam o círculo do zodíaco, e o curso do ano conforme ele passa pelos signos do zodíaco – e as quatro estações – são expressados com alegria em Quaestiones in Exodum 76 e 77, com relevância para a compreensão da Menorá do Templo. Em outras palavras, isso prova exatamente o que Fílon afirma no Congessu 49: o estudo da astronomia pode ser a rainha das ciências, com os ‘doze signos do zodíaco’ concebidos como uma grande ordenação dos céus em que o calendário judaico foi definido.

Fílon usou frequentemente as características dos planetas de forma simbólica como um caminho positivo: em Legatio ele considera as divindades celestes em termos de quão diferente delas era o imperador Caio, em sua presunção de suposta divindade, listando Hermes (Mercúrio), Apolo (o Sol, Hélios) e Ares (Marte). Eles são definidos em termos de características exemplares fundamentais que beneficiam a humanidade: Hermes/Mercúrio é um “profeta” das coisas divinas, um mensageiro do bem e é um arauto dos tratados de reconciliação. Essa caracterização tem paralelos com as qualidades positivas de Mercúrio na alma, conforme definido no Tetrabiblos de Ptolomeu. Para Fílon Ares/Marte representa uma forte defesa contra o mal. Ares/Marte ajuda e defende aqueles que são injustiçados e, por fim, destrói as guerras. Isso é paralelo à posição “honorária” de Ptolomeu de Marte como dando a alguém uma nobreza forte e ativa (Tetrabiblos). Em outras palavras, Fílon pode usar o simbolismo astrológico, mas limpar a astrologia real que, de outra forma, aderi a isso.

Fílon então pode empregar a terminologia divinizada do estudo dos céus, mas sem suas ramificações astrológicas e divinizadoras, como um astrônomo moderno. Por um lado, Fílon pode escrever sobre o estudo da astronomia sendo, no final, inferior ao estudo da filosofia ética apresentada por Moisés; mas, por outro lado, ele pode usar os mesmos textos para que Abraão rejeite o conhecimento astrológico como teologicamente errado ao promover a ideia de que o mundo físico é Deus ou que Deus impregna o mundo físico. A ciência das estrelas, do Sol e da Lua, dos solstícios e do zodíaco é própria, boa, a forma mais elevada de estudo científico da ordem criada por Deus. As suas ramificações calendáricas conduzem ao ano das festas judaicas; e aqui Fílon defende uma visão que foi claramente compartilhada por outros judeus, de Yohanan ben Zakkai (séc. I) para aqueles que encomendaram muitas representações do zodíaco com o Sol em seu centro em mosaicos de sinagogas, como encontramos em Beth Alpha, Hammat, Tiberíades ou Séforis. Enquanto for afastada do culto caldeu, a astronomia existe como uma esfera pura e respeitável de conhecimento. Dentro do culto – ou dentro daqueles círculos de Alexandria em que o conhecimento astrológico da adivinhação era altamente estimado – torna-se uma distorção da verdadeira religiosidade, um veículo para promover o panteísmo e o fatalismo.

Astrologia e Astronomia na Antiga Alexandria

δ

Os Doze Abismos

O Primeiro Abismo é a Fonte Universal, da qual todas as fontes saíram.
O Segundo Abismo é a Sabedoria Universal, da qual todas as sabedorias saíram.
O Terceiro Abismo é o Mistério Universal, do qual todos os mistérios saíram.
O Quarto Abismo é a Gnose Universal, de onde todas as Gnoses saíram.
O Quinto Abismo é a Pureza Universal, da qual saiu toda pureza.
O Sexto Abismo é o Silêncio que contém todos os silêncios.
O Sétimo Abismo é a Essência Universal Super Essencial, da qual todas as essências saíram.
O Oitavo Abismo é o Antepassado de quem e por quem todos os antepassados ​​existem.
O Nono Abismo é o Pai de Todos, Pai de Si Mesmo, em quem está a Paternidade de Todos aqueles que são Pais de Si Mesmos.
O Décimo Abismo é o Todo-Poder, do qual todos os poderes saíram.
O Décimo Primeiro Abismo é aquele em que está o Primeiro Invisível, do qual todos os invisíveis saíram.
O Décimo Segundo Abismo é a Verdade, de onde todas as verdades surgiram.

γ

Dado que Fílon está tão incomodado com a ‘astronomia’ em seu inventário no De vita contemplativa, até que ponto essa mistura de religião e ciência se manifestou ‘culturalmente’ na antiga Alexandria? No contexto desta passagem, são aqueles que correntemente ministram várias entidades divinas que não são propriamente ‘Deus’ que são definidos como estando em erro. Que cultos em Alexandria estão sendo abordados? No mitraísmo tardio, é claro, havia uma forte dimensão astrológica. Em Nabateia, da mesma forma, havia dimensões astrológicas no culto de adoração. Os templos caldeus, ainda existentes, eram sem dúvida centros de adivinhação cósmica que podiam – por meio de astrólogos mercadores e viajantes – espalhar em muito sua influência, como vemos facilmente na história dos três magos que chegam ‘do Oriente’ na Judéia em Mateus 2: 1,13. O templo do deus babilônico Bel em Palymra foi consagrado em 32 d.C. e continha um zodíaco com deuses planetários ao norte do Adyton. Mas e sobre o Egito, ou mais especificamente o mundo helenístico – sincretista – de Alexandria?

Embora tendo considerável habilidade astronômica, os sábios do antigo Egito não usavam o tipo de astrologia oracular da Babilônia; entende-se que isso chegou ao Egito através da influência grega do mundo helenístico após o estabelecimento de Alexandria no século IV a.C., quando as crenças tradicionais egípcias se fundiram, como vemos no relevo do zodíaco da Capela de Osíris no Templo de Hathor, Dendera, agora no Museu do Louvre. No entanto, sabemos que desde o século II a.C. os alexandrinos estavam interessados ​​em coisas babilônicas. Foi Hiparco quem extraiu a astronomia babilônica para entender as questões astronômicas e astrológicas, embora seu trabalho esteja perdido. Heron, o inventor e matemático, absorveu aritmética e álgebra babilônicas. Os oráculos caldeus do século II d.C. – cuja origem é desconhecida – misturam astrologia com neoplatonismo. O mais surpreendente é o chamado Papiros de Oxyrhnchus, fragmentos de um alfabeto léxico de Alexandria, datados entre o século I a.C. e século I d.C., que inclui verbetes definidos como ‘persa’, ‘babilônico’ e ‘caldeu’, como evidência de um dicionário de intercâmbio cultural.

Voltamos então a Ptolomeu, que incluiu inúmeras referências a estudos de fontes babilônicas, incluindo observâncias planetárias “segundo os caldeus” em seu Almagesto, e que fez suas observações, segundo os ensinamentos de Olimpiodoro, em Canopus, onde colocou colunas registrando seus teoremas. De fato, uma cópia das inscrições nestas colunas – datadas da época de Antonino Pio (século II) – sobreviveu por tempo suficiente para ser registrada em manuscritos da obra de Ptolomeu, ‘(ΘΕΩ  ΣΩΤΗΡΑ ΚΛΑΥΔΙΟΣ ΠΤΟΛΕΜΑΙΟΣ ΑΡΧΑΣ ΚΑΙ ΥΠΟΘΙΣΕΙΣ ΜΑΘΗΜΑΤΙΚΟΣ) ‘Ao Deus Salvador Claudius Ptolomeu Princípios e Hipóteses Matemáticas’. Estrabão atesta este templo de Serápis em Canopus como um lugar onde as pessoas iam para curas e para oráculos; exatamente os benefícios que esperamos de Apolo (como o Sol/Hélios), de acordo com Fílon, que não menciona o deus pelo nome de ‘Serápis/Sárapis‘ de todo, No entanto, se algum culto era ‘astronomicamente amigável’ na região de Alexandria, era o de Serápis: a divindade da fusão Ptolemaica.

Lamparina em terracota representando Serápis no Museu Britânico.

A evidência sugere que o culto de Serápis integrou a adoração das estrelas caldeias e o culto do Sol. Embora originário de Mênfis como uma síntese do deus do submundo, Osíris, e do touro Ápis, Serápis logo absorveu outras divindades. O deus Osíris, como deus dos mortos, era ao mesmo tempo a noite, sendo as estrelas no antigo Egito entendidas como os espíritos dos humanos que se mantinham lá. Osíris foi retratado como negro não apenas porque representava a terra negra do Nilo, mas também o céu noturno negro. Apesar disso, a identificação mais importante de Serápis no século I d.C. foi com o Sol, Hélios, tanto que frequentemente era designado como Heliosarapis. Ele é, portanto, conceitualmente, Apolo. A coleção do Museu Britânico sozinha tem inúmeros exemplos disso. Uma lamparina (BM 1987.0402.27) mostra Serápis (o Sol) ladeado por uma Lua crescente e uma estrela. Outro item é uma gema de pasta de vidro branca transparente, com a cabeça de Serápis, cercado por sete estrelas. E se quisermos mais evidências pessoais de culto cultual com uma conexão astral no Egito de Fílon, temos um retrato de múmia bastante desconcertante de Hawara, datado de 140-60 E.C., mostrando um homem vestido de branco, com uma faixa na cabeça mostrando uma estrela de sete pontas, que geralmente é identificado como um sacerdote de Serápis.

Nos papiros mágicos gregos, Serápis foi chamado de kosmokrator, um nome associado ao poder astrológico dos planetas e especialmente do Sol. Os Papiros de Oxirrinco indicam também que Serápis era um deus oracular, no sentido de que ele poderia ser questionado em termos de fortuna. Serápis tem aqui então o conhecimento do que acontecerá aos seres humanos individualmente: um deus encarregado do destino.

Além disso, dada a insistência de Fílon de que os “caldeus” identificam o mundo como Deus, ou que Deus se encontra dentro do mundo, é interessante que seja precisamente isso que Macróbio menciona sobre Serápis, ao citar o oráculo de Nicocreonte, rei de Chipre (Saturnalia):

Como um deus eu posso aprender,
e um tipo de sorte eu relato:
O mundo celestial é minha cabeça,
O mar minha barriga,
Meus pés são a terra,
Meus ouvidos jazem no éter,
E minha visão do futuro
é a luz brilhante do Sol.

α

δ

Neste oráculo Serápis engloba o universo, com seu corpo ligado a pelo menos alguns dos elementos. O reino tradicional do deus Osíris é aqui entendido como a cabeça de Serápis, sendo Hélios (o Sol) seu olho. No capítulo seguinte, Macrobius identifica Osíris como o Sol, observando que o signo hieroglífico para Osíris é o cetro e o olho, já que o deus é o Sol que olha para o mundo do alto, sendo o Sol ‘o olho de Zeus‘; Macrobius segue isso percorrendo a compreensão egípcia do zodíaco como indicando nas doze dimensões do poder do Sol em Saturnalia.

O oráculo citado por Macrobius é mais do que uma simples absorção dos atributos de diferentes deuses em uma divindade sintética; é um afastamento radical de uma compreensão politeísta do mundo tendo inúmeras entidades divinas controlando vários aspectos de suas funções. Aqui Serápis é, na verdade, uma divindade monoteísta e panteísta, na medida em que Serápis é intrínseco ao mundo e aos céus, não separado dele e ordenando-o de um trono no reino celestial acima (No entanto, o próprio Macróbio afirma que, em resposta à pergunta de Nicocreonte sobre qual dos deuses ele deveria ser considerado, o oráculo indicou que seria Serápis o Sol, enquanto Ísis, adorada ao lado de Serápis, seria a terra, ou natureza, retratada coberta de seios). É impressionante, de fato, que Ptolomeu usa consistentemente o termo ‘Deus’, no singular, apesar de sua exploração dos numerosos planetas conceitualizados aparentemente como divindades. Isso é precisamente o que Fílon afirma repetidamente em relação àqueles que adoram as estrelas. Sua teologia está errada não porque sejam politeístas, mas porque identificam ‘Deus’ com o mundo, ou o veem como intrínseco dentro da criação. Podemos agora compreender o objeto de sua preocupação dentro de um contexto alexandrino.

Em conclusão, a referência de Fílon em De vita contemplativa se confirma que a astrologia foi uma das mais importantes importações culturais dos “caldeus” para Alexandria, como vemos sobretudo na obra de Ptolomeu no século seguinte de Fílon. Em outros lugares, Fílon usa o culto às estrelas dos caldeus para representar não um culto estrangeiro invasor, mas totalmente outro tipo de ameaça: das dimensões astrológicas da própria astronomia e as dimensões astrológicas do culto helenístico de Serápis, sem atacar explicitamente a mais popular das inovações ptolomaicas.

Em seu descrédito final dos cultos equivocados, Fílon zomba da adoração dos animais egípcios. Aqui ele zomba dos adoradores das estrelas para minar a ‘astronomia’ alexandrina que estava associada aos templos de Serápis em Alexandria e Canopus. Aqueles que veneram as estrelas são categorizados como a antítese dos verdadeiros ministros do Ser. Como Fílon afirma no Decalogue: “o Φεραπευταί do Sol e da Lua, e todas as hóstias do céu” estão em erro. Ele conclui em De vita contemplativa que a adoração das estrelas é errada porque “estas coisas também não vieram a existir por si mesmas, mas por meio de um certo Criador em perfeito conhecimento”.

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