Estudos Herméticos

O Mito de Osíris

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No antigo Egito, o deus cuja morte e ressurreição se celebrava anualmente com duelos e alegorias alternativas foi Osíris, o mais popular de todos os deuses egípcios e do qual existem bons fundamentos para classificar-se em um dos aspectos conjuntamente com Adonis e Atis, como personificação da grande mudança anual da natureza e, especialmente, deus dos cereais. Mas o imenso favor que obteve durante muito tempo induziu a seus adoradores e entusiastas a acumular nele os atributos e poderes de muitos outros deuses, pelo que não é fácil despojar-lhe, vamos dizer assim, de suas plumas emprestadas, deixando somente as suas próprias. A lenda de Osíris está contada de forma conexa somente por Plutarco, cuja narração foi confirmada e de algum modo aumentada em épocas modernas pelo testemunho dos monumentos.

Osíris foi o grande nascido de uma intriga amorosa entre um deus terreno chamado Seb (Keb ou Geb, segundo as diversas transliterações) e a deusa Nut, ou Nuit. Os gregos identificaram a estes deuses, pais de Osíris, com os seus Cronos e Rhea. Quando Rá, o deus do Sol, se inteirou da infidelidade de sua esposa Nut, decretou como maldição que não poderia parir a uma criatura em nenhum mês do ano. Mas a deusa tinha outro amante, o deus Thoth, ou Hermes, como lhe denominavam os gregos. Jogando uma partida de damas com a Lua, conseguiu desta uma 72ª parte de cada dia do ano, com a qual compôs cinco dias completos que acrescentou ao ano egípcio de 360 dias. Esta foi a origem dos cinco dias suplementares que os egípcios colocavam no final do ano com o objetivo de estabelecer uma harmonia entre os tempos lunar e solar.

Nestes cinco dias, considerados fora do ano de doze meses, a maldição do deus Solar não tinha efeito, e por esta razão, Osíris nasceu no primeiro deles. Em seu nascimento soou uma voz proclamando que o Senhor de Tudo havia chegado ao mundo. Alguns dizem que um tal Pamyles ouviu uma voz no Templo de Tebas, ordenando-lhe que anunciasse aos gritos o nascimento de um grande rei, Osíris o Benéfico. Osíris não foi a única criatura que pariu sua mãe. No segundo dia suplementar deu a luz a Hórus o Grande; no terceiro, ao deus Seth, (que os gregos chamavam Tifon); no quarto, a deusa Ísis, e no quinto, a deusa Néftis. Mais tarde, Set desposou a sua irmã Néftis e Osíris a sua irmã Ísis. Regendo Osíris como um deus terreno, redimiu aos egípcios da selvageria, lhes promulgou leis e ensinou o culto aos deuses. Antes dele, os egípcios eram canibais, mas Ísis, irmã e esposa de Osíris, descobriu o trigo e a cevada, que cresciam silvestres, e Osíris introduziu o cultivo destes cereais entre os povos, que de pronto se aficionaram a comê-los, abandonando o canibalismo imediatamente.

De outro lado, se conta que Osíris foi o primeiro a colher o fruto das árvores, podar as videiras e pisar a uva. Desejando comunicar estas descobertas benéficas a toda a humanidade, entregou o governo do Egito por inteiro a sua mulher Ísis e marchou pelo mundo difundindo os benefícios da agricultura e da civilização por onde quer que passasse. Nos países onde, por ter um clima rigoroso ou o solo muito pobre, era impossibilitado o cultivo das vindimas, idealizou consolar os habitantes do desejo do vinho, elaborando cerveja a partir da cevada. Pleno de riquezas dadas pelas nações agradecidas voltou ao Egito e em consideração aos benefícios que havia outorgado à humanidade, foi exaltado e adorado como uma divindade.

Mas seu irmão Seth, com outros 72º, conspirou contra ele e, tomando com astúcia as medidas do corpo de seu bom irmão, o maléfico irmão construiu um sarcófago luxuoso e de tamanho exato. Em certa ocasião, onde encontravam-se divertindo e bebendo, trouxe o sarcófago e prometeu este àquele que se encaixasse exatamente nele. Todos, um após o outro, tentaram, mas a nenhum serviu. Por fim, Osíris entrou em seu interior e os conspiradores fecharam rapidamente a tampa, chavearam, soldaram com chumbo derretido e lançaram o sarcófago ao Nilo.

Isto aconteceu no dia 17 do mês de Athyr, quando o sol está no signo de Escorpião, durante o vigésimo oitavo ano do reinado ou de vida de Osíris. Quando Ísis inteirou-se do acontecido, raspou a cabeça e vestindo-se de luto, errou aflita por todos os cantos, buscando o cadáver. Avisada pelo deus da sabedoria, buscou refúgio entre os papiros das lagoas do Delta. Sete escorpiões a acompanharam em sua fuga. Uma tarde onde, estando fatigada, chegou à casa de uma mulher, esta se assustou com os escorpiões e fechou de um golpe a porta. Então um dos escorpiões, deslizando-se por sob a porta, picou o filho da mulher e o matou. Mas quando Ísis ouviu os lamentos da mãe, se compadeceu e, colocando suas mãos sobre a criança, pronunciou poderosos conjuros. Desta forma, o veneno saiu da criança, que ressuscitou.

Tempos depois, Ísis deu à luz a um menino nos lagos. Ela o havia concebido enquanto andava revoando sobre o cadáver do seu marido. O infante foi Hórus o jovem, que em sua infância levou o nome de Harpócrates, isto é, Hórus Criança. A deusa do norte, Buto, ocultou o menino da ira de seu perverso tio, Seth, mas não pode protegê-lo de todas as desventuras. Um dia que Ísis veio visitar seu filho no esconderijo, lhe encontrou jogado ao solo, rígido e sem vida, por ter sido picado por um escorpião. Ísis implorou a ajuda de Rá, deus do Sol, que, atendendo, parou sua barca no céu e enviou Thoth para que lhe ensinasse um conjuro com o qual poderia devolver a vida a seu filho. Pronunciou as palavras mágicas e o veneno imediatamente fluiu do corpo de Hórus, o ar entrou em seu peito e o reviveu.

Então Thoth ascendeu aos céus, ocupando outra vez o posto na barca do Sol e a brilhante procissão seguiu jubilosa seu caminho adiante. Entretanto o sarcófago que continha o corpo de Osíris foi flutuando rio abaixo até chegar ao mar, ficando encalhado em Biblos, na costa da Síria, onde brotou subitamente uma árvore enorme, que incluiu no seu crescimento o sarcófago dentro do tronco. O rei do país, admirado daquela grande árvore, mandou cortá-la para que servisse de coluna em sua casa, ignorando que dentro havia o sarcófago que continha Osíris morto.

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A notícia chegou a Ísis, que viajou até Biblos, onde se sentou junto a um poço em humilde pose e chorando. Ninguém falou até que chegaram as serventes do rei, que saudou amavelmente, trançou seus cabelos e lançou sobre elas o perfume maravilhoso de seu corpo divino. Quando a rainha contemplou as tranças de cabelo de suas donzelas, e sentiu o suave aroma que delas emanava, mandou buscar a estrangeira e a recebeu em sua casa, fazendo-a ama-de-leite de seu filho. Mas Ísis deu ao menino o dedo para mamar no lugar do peito e, à noite, incendiou tudo que na criança era mortal, enquanto ela mesma, transformada em golondrina (pomba), revoava ao redor do pilar que continha seu irmão e marido morto, piando lastimosamente.

A rainha, que expiava suas ações, começou a dar gritos ao ver seu filho em chamas, impedindo assim, que este chegasse à imortalidade. A deusa então manifestou-se como era e pediu a coluna que sustentava o teto. Deram-lhe a coluna, e abrindo-a retiraram o sarcófago de seu interior e a deusa se atirou sobre ele e lamentou-se de tal forma, que, o menor dos filhos do rei morreu de susto ali mesmo. Envolveu o tronco da árvore num fino lenço o ungiu, devolvendo o lenho aos reis, que o colocaram num templo de Ísis, e foi adorado pelo povo de Biblos até a manhã. Ísis pôs o sarcófago numa embarcação e acompanhada pelo filho mais velho dos reis, se afastou navegando. Enquanto estiveram sós, abriu o tampo do sarcófago, tendo seu rosto acima do rosto do irmão, beijou-o e chorou. O menino cautelosamente aproximou-se por trás e viu o que ela estava fazendo. Quando ela se voltou de repente e o olhou, o menino não pode suportar sua face encolerizada e morreu.

Alguns acreditam que isso não aconteceu assim, senão que o menino caiu ao mar, afogando-se. Tal é o que os egípcios cantavam em seus banquetes sob o nome de Maneros. Quando Ísis deixou o sarcófago para ir ver a seu filho Hórus na cidade de Buto, Seth o encontrou quando caçava um javali em noite de lua cheia. Reconhecido o cadáver, ato contínuo, esquartejou o cadáver em quatorze pedaços, que espalhou por lugares distintos. Ísis, depois, embarcou em um bote feito de papiros, buscou por todos os lados os pedaços na lagoa. Esta é a razão pela qual quando as pessoas navegam em um bote de papiros, não temem aos crocodilos, pois estes respeitam a deusa. E, além disso, também é a razão de haver tantas tumbas de Osíris no Egito, pois ela ia sepultando os pedaços nos mesmos lugares onde os encontrava.

Outros mantêm a idéia que ela enterrou uma imagem dele em cada cidade fingindo que era o corpo, com a intenção que Osíris pudesse ser adorado em muitos lugares, e de que se Seth buscasse a tumba verdadeira, não pudesse encontrá-la.

Como o membro genital de Osíris havia sido devorado pelos peixes, Ísis modelou uma imagem dele em seu lugar e esta imagem é usada pelos egípcios em seus funerais até os dias de hoje.

Ísis – escreve o historiador Diodoro Sículo – recuperou todas as partes do corpo, exceto os genitais, e como ela desejava que a tumba de seu marido fosse desconhecida e reverenciada por todos os moradores das terras egípcias, recorreu ao seguinte artifício: moldou com cera e especiarias aromáticas umas imagens humanas no formato de Osíris e colocou dentro de cada uma delas um dos pedaços do cadáver deste.

Depois foi chamando sacerdotes dos distintos grupos tomando-lhes o juramento que jamais revelariam a ninguém a confiança que lhes dispensava, e deste modo a cada um deles disse que lhe confiava o enterro do cadáver e que o fizesse em seu próprio terreno, exortando e recordando-lhe os benefícios recebidos para que honrasse a Osíris como um deus. Também lhes conjurou para que dedicassem a qualquer animal de seu distrito e que lhe venerassem em vida como o fizeram primeiramente a Osíris e que quando morresse o animal sagrado, que lhe fizessem exéquias semelhantes às do deus. E com o desígnio de estimular aos sacerdotes para que conferissem as precipitadas honras, tendo nele um interesse pessoal, lhes cedeu um terço do terreno usado no serviço e culto dos deuses. De acordo com isso, se dizia que os sacerdotes, atentos aos benefícios de Osíris, desejosos de agradar à rainha e movidos pela perspectiva da ganância, executaram todas as instruções de Ísis. Por isso, e até hoje, cada sacerdote imagina que Osíris esteja enterrado em seu país e veneram aos animais que consagraram ao princípio e quando morrem, renovam os sacerdotes no enterro deles no duelo por Osíris. Ainda mais, os bois sagrados, o chamado Ápis e o Mnévis, foram dedicados a Osíris e se ordenou que fossem adorados como deuses por todos os egípcios, pois estes animais, sobre todos os demais, foram os que ajudaram aos descobridores das gramíneas nas semeaduras, conseguindo os benefícios universais da agricultura.

Este é o mito ou lenda de Osíris que contam os escritores gregos e entremeios dos dados fragmentários ou alusões da literatura egípcia. Uma grande inscrição do templo de Denderah conservou uma lista das tumbas do deus e outros textos mencionam as partes do corpo que foram guardadas como relíquias sagradas em cada um dos santuários. Assim, seu coração estava em Athribis, sua coluna vertebral em Busiris, o pescoço em Letópolis e a cabeça em Mênfis.

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Como parece ocorrer nesses casos, alguns de seus membros estavam multiplicados milagrosamente; sua cabeça, por exemplo, estava em Abidos assim como também em Mênfis, e suas pernas, notavelmente numerosas, poderiam ter bastado para vários mortais correntes. Com respeito a isto, Osíris fica reduzido ao grau de um São Dionísio, de quem não existem nada menos que sete cabeças, todas igualmente autênticas. Segundo os relatos egípcios que complementam o de Plutarco, quando Ísis encontrou o cadáver de seu marido Osíris, ela e sua irmã Néftis, se sentaram junto a ele e romperam em lamentos que em épocas posteriores foram o tipo de todas as lamentações egípcias pelos mortos. “Volta a tua casa – gemiam -, volta a tua casa, tu que não tens inimigos. Oh, belo jovem! volta a tua casa para que possas me ver. Sou tua irmã, a que amavas; não te separarás já de mim, oh belo moço! Volta a tua casa. Não te vejo e, apesar disso, meu coração te adora e meus olhos te desejam. Volta a que te ama, a que amas, Un-nefer, o Bendito. Volta a tua irmã, volta a tua mulher, a tua mulher cujo coração está morto. Volta à mulher de tua casa. Sou tua irmã da mesma mãe e tu não te afastarás mais de mim. Os deuses e os homens voltaram a face para ti e todos por ti choram. Te chamo e choro e meus lamentos são ouvidos no céu, mas tu não ouves minha voz, mas sou tua irmã, a que amaste na terra, tu não amaste a ninguém senão a mim. Irmão meu, irmão meu!” Ao implorar pelo belo jovem, truncada sua vida no melhor, nos lembra as lamentações por Adônis. O título de Un-nefer ou o Bom que lhe é concedido acentua a bondade que a tradição universal descreve a Osíris; foi seu título mais corrente e um de seus nomes reais. As chorosas queixas das duas pobres irmãs não foram em vão; apiedados por suas lágrimas, o deus sol, Rá, enviou desde o céu o deus cabeça de chacal, Anúbis, o que, com a ajuda de Ísis e Néftis, de Thoth e de Hórus, reuniu pedaço por pedaço do corpo destroçado do deus morto, o envolveu em vendas de linho e executou todos os demais ritos que os egípcios costumavam cumprir nos corpos dos defuntos. Depois, Ísis abanou a fria argila com suas asas, Osíris reviveu e desde então governou entre os mortos como rei em outro mundo. Ali gozava dos títulos de Senhor do Mundo subterrâneo, Senhor da Eternidade e Rei dos Mortos.

Ali também, no Grande salão da Dupla Verdade, assistido por quarenta e dois assessores, um para cada um dos principais distritos principais do Egito, presidia como juiz no julgamento das almas dos defuntos, que faziam sua confissão solene diante dele, e quando seus corações haviam sido pesados na balança da justiça, recebiam o prêmio da virtude em uma vida eterna ou o castigo apropriado de seus pecados. Na ressurreição de Osíris os egípcios viram a promessa de uma vida eterna para eles mesmos, além da tumba. Acreditaram que todos os homens viveriam para sempre no outro mundo se os amigos sobreviventes executassem em seu cadáver o que os deuses fizeram com o de Osíris. Por isso as cerimônias funerais eram cópias do executado com o deus morto. Em cada funeral se representava o mistério divino efetuado anteriormente sobre Osíris, quando seu filho, seus irmãos e amigos se reuniram ao redor de seus restos destroçados e com seus conjuros e manipulações conseguiram converter seu corpo rasgado primeiramente em múmia, reamimando-o e provendo-a depois dos meios para ingressar em uma nova vida individual mais além da morte. A múmia do que falecia era o próprio Osíris; as choronas profissionais ou carpideiras eram as duas irmãs Ísis e Néftis.

Anúbis, Hórus, todos os deuses da lenda Osiriana, estavam ali reunidos diante do cadáver. Desta maneira, todos os egípcios mortos se identificavam com Osíris e assim se lhes denominava. Desde o Médio Império em diante foi costume nomear ao falecido como “Osíris fulano de tal” e lhe acrescentavam o título de Verdadeiro (Justo de Voz, Vitorioso, etc.) em razão de ser característica de Osíris falar verdades. As milhares de tumbas grafadas e pintadas que foram descobertas no Vale do Nilo provam que o mistério da ressurreição atuava em benefício de todos os egípcios que morriam.

Como Osíris, morto e ressuscitado dentre os mortos, do mesmo modo esperavam todos resgatar-se da morte para a vida eterna. Segundo o que parece ter sido a tradição geral nativa, Osíris foi um rei egípcio benquisto e amado que sofreu morte violenta, mas que se libertou da morte e foi assim adorado como uma deidade. Em harmonia com esta tradição, os escultores e pintores lhe representam em geral com forma real e humana, como um rei morto, vendado com as faixas de uma múmia, levando sobre a cabeça uma coroa real e agarrando numa de suas mãos, o cetro real.

Duas cidades, sobre todas as demais, se associaram com seu mito ou recordação. Uma delas foi Busíris, no Baixo Egito, que proclamava ter sua coluna vertebral. A outra cidade, Abidos, no Alto Egito, gloriava-se com a posse de sua cabeça.

Aureolada pela Santidade do deus morto e ressuscitado, a ignorada aldeia de Abidos chegou a ser, até fins do Império Antigo, o lugar mais santo do Egito. Cremos que sua tumba ali foi para os egípcios o que a Igreja do Santo Sepulcro é para os cristãos. O desejo de todos os homens piedosos era que seu cadáver repousasse na terra santa próxima a tumba do glorificado Osíris. Poucos em verdade foram bastante ricos para gozar deste privilégio inestimável, pois a parte do custo de uma tumba na cidade sagrada, somente o transporte das múmias desde tão grandes distâncias era difícil e custoso.

Ainda assim, foram muitos os ávidos de absorver já mortos a influência benéfica que irradiava o santo sepulcro, pelo que compeliam seus sobreviventes a conduzir seus restos mortais a Abidos, deixando-os permanecer algum tempo ali para depois voltarem pelo rio a seu lugar nativo e enterrá-los na tumba que lhes estava preparada.

Outros construíam cenotáfios ou lápides sepulcrais, erigidas anteriormente por eles mesmos próximo da tumba de seu senhor morto e ressuscitado, e assim podiam gozar em sua companhia a bem-aventurança de uma ressurreição feliz.

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O Princípio da Verdade

Maat é a personificação da Verdade, da Justiça e da Harmonia Universal. Ela é a potência, o princípio metafísico, que mantém o mundo na sua regrada continuidade. O Cosmos, a Natureza, e a Sociedade, no fundo, a Ordem Universal, só se mantêm de forma duradoura exatamente pelo seu atento zelo.

Representada como uma mulher, de pé, sentada ou com um dos joelhos em terra, apresenta, fixada em uma fita da sua cabeleira, uma pluma de avestruz, que é o seu principal signo identificador. Em muitas representações, a simples figuração da pluma simboliza a sua presença e atuação.

É irmã de , o Deus-Sol e esposa de Thoth, o escriba dos deuses com cabeça de íbis.

Maat é equivalente à Têmis grega e, como esta, é explicitamente a representação divina da lei e da ordem cósmicas naturais. Como ordem cósmica, Maat é o alimento do Deus-Sol ; é também “o olho de ” e o Ka de . Segundo as crenças egípcias, o corpo do homem se compunha de dois elementos espirituais, o Ba, similar a alma e o Ka, uma espécie de réplica do corpo. A morte representava a separação do elemento corporal dos espirituais. Entretanto, Ka não poderia sobreviver sem a presença do corpo, foi daí que se desenvolveram técnicas precisas de conservação, conhecidas com embasamento. O processo de mumificação tinha como objetivo a manutenção do corpo para própria existência de Ka.

Maat é a Senhora do Céu, Rainha da Terra e amante do Mundo Inferior. O grande inimigo de Maat era Seth, a versão egípcia do Ares grego, Deus da desordem crassa, da injustiça e da ambição.

A atividade crucial de Maat ocorria no Palácio das Duas Verdades (Maati), aonde os mortos iam para o julgamento final. Primeiro, o falecido deveria proferir uma “confissão negativa” declarando que não cometera pecados ou más ações. Verificava-se então se estava sendo honesto a cada um dos 42 itens confessados. Depois seu coração era colocado em um prato de balança, enquanto no outro estava uma pena de avestruz simbolizando Maat (a verdade). Por vezes era ela mesma, a balança. Não se sabe com clareza de que forma o coração era pesado para que a alma do morto fosse considerada justa. Sabe-se somente, que se o coração tivesse o peso certo em contraste com o peso de Maat, a pessoa estava justificada.

O coração, portanto, é considerada a “voz” e somente ele dirá para onde deverá ser destinado. Caso não o tenha, a pessoa é lançada a um monstro híbrido temível composto de partes de crocodilo, leão e hipopótamo chamado Amut, comedor de mortos.

Para os egípcios, o coração não era tão somente um órgão vital do corpo, mas era também a consciência, ou o centro do pensamento. Ele representava a voz de Maat no ser humano, a voz oracular da Ordem Cósmica que rasga o véu e penetra no mundo humano. Entretanto, por essa razão, as palavras do coração tornaram-se um problema para os egípcios, pois ele testemunhava no Palácio das Duas Verdades contra a pessoa. Essa crença era tão forte, que existia até uma prece especial, dirigida ao coração, que era inscrita em um amuleto em forma de escaravelho e depositada no local do coração durante o ritual de embasamento. Tal prece suplicava que o coração não se levantasse “como testemunha contra mim”.

Para os antigos egípcios, o porta-voz oracular da lei da natureza, localizado no próprio corpo do indivíduo, estava muito mais próximo da consciência ordinária do que consideravam os gregos, para quem Gaia e Têmis haviam sido forçadas a retira-se do Delfos e a permanecer nos mundos inferiores, enviando de lá mensagens através dos sonhos. Muito embora Maat falasse em nome da ordem cósmica, ela também é “o olho de ” e os filhos de sentavam-se nos tronos dos faraós. Deste modo, a lei e a justiça estavam unidas, e os árbitros da ordem natural e da ordem social eram um só, unidos em Maat e no faraó. Por intermédio do oráculo da Deusa, o coração, as leis e os costumes da vida social eram confirmados por uma intuição mais profunda de justiça e integrados nesse nível.

Algumas vezes, Maat era representada infundindo o hálito da vida nos faraós. Para tanto, suspendia um ankh contra o seu nariz. Hator e outros deuses e deusas também se representavam da mesma maneira, porém só Maat infundia o alento da vida sobre o começo de todas as coisas.

Como princípio divino e como divindade do Equilíbrio Cósmico, Maat era uma força permanente ao lado do faraó aprovado e escolhido pelos deuses. Em última instância, o funcionamento regular e a própria existência e continuidade do faraonato como instituição fulcral da vida egípcia dependiam da atuação de Maat.

Em complemento, a função real devia estar conforme aos desígnios universais que a própria Deusa perseguia, ou seja, a promoção e a manutenção da fecundidade, da prosperidade, da solidariedade e da abastança das Duas Terras, sob todos os aspectos. O faraó devia honrar a Justiça, a Eqüidade, a Verdade, a Retidão, isto é, a Deusa Maat.

Sentado em seu trono, o faraó trazia em sua mão uma figura da Deusa, diminuta como uma boneca, também sentada, que se oferecia aos deuses como sinal de que o rei representava a ordem divina que não havia sido perturbada desde o dia de sua criação. De forma similar, os juízes levavam sobre o peito um emblema lápis-lazúli que representava Maat. Assim, a ordem social era um reflexo da ordem divina e o governo de cada dia representava o tempo primordial em que , o Sol, pôs a ordem (Maat) em lugar do caos.

Nessa linha de ideias, é compreensível que uma representação recorrente no âmbito da ideologia e da iconografia real seja a oferta de uma estatueta da Deusa Maat feita pelo faraó aos deuses. O rei assume e compromete-se perante as divindades mais elevadas do panteão a zelar “maaticamente” pela marcha harmoniosa do país, pelo estabelecimento e funcionamento da Justiça, da Paz, do Equilíbrio e da Solidariedade, nas suas vertentes social, ética e cósmica.

“A oferenda de Maat” resume-se, portanto, numa imagem carregada de significado: é o símbolo máximo da atividade litúrgica, que consiste, no fundo, numa sólida relação interativa entre o oficiante e o oficiado. A esfera humana, terrestre, reconhecendo a fragilidade da sua posição no Cosmos, louva e honra os deuses, a esfera divina, deles guardando, em resposta, a proteção, o auxílio, a benção. A Deusa Maat é, assim, a medida de toda a conduta humana. Sem ter culto local específico, ocupava um papel fundamental na vida dos egípcios.

Além da oferenda da efígie da Deusa perante divindades maiores, conscientes da importância significativa da relação com a Deusa Maat, muitos faraós, de vários períodos históricos, incorporaram nos seus nomes a nomenclatura da Deusa. A este propósito são de citar os casos de Amenemhat III, da XII dinastia, cujo nome de coroação era Nimaetré, ou seja, “Aquele que pertence à Maat/Justiça de ” Na XVIII dinastia, faraós como Hatchepsut (nome de coroação: Maetkaré, “A Maat/Justiça é o Ka de ) e Amenhotep III (nome de coroação: Nebmaetré,” é o senhor de Maat/Justiça“) levaram também em consideração este importante vetor na proclamação das suas titulaturas”.

Entretanto, muitos outros faraós seguintes denotam este reconhecimento pela ação conjugada que deviam assegurar com a Deusa Maat: Seti I e Ramsés XI (nomes de coroação: Menmaetré, “Estável é a Maat/Justiça de ); os Ramsés II, III, V, VII e VIII, que escolheram todos como uma das designações dos seus nomes de coroação Usermaetré, ou seja, “Poderosa é a Maat/Justiça de ); Merenptah usava um pujante Hotephermaet, “Aquele que está repleto de Maat/ Justiça” como epíteto associado ao seu nome de nascimento; Ramsés IV preferiu para nome de coroação Hekamaetré, “Soberano de Maat/Justiça como “, enquanto que Ramsés VI (como Amenemhat III) optou por Nebmaetré “ é o senhor de Maat/Justiça”.

Também no Terceiro Período Intermediário, faraós das XXII e XXIII dinastias continuaram a utilizar o mesmo processo (Takelot I, Osorkon II, Chechonk II, Petubastis I, Chechonk III). Até no Período Ptolomaico a tendência se verifica: Ptolomeu VI tinha como nome de coroação Irmaetenimenré, Aquele que faz reinar a Maat/ Justiça de Amon-(); os Ptolomeus VII e XII usavam como nome de coroação Irmaet. Aquele que faz reinar a Maat/Justiça; Ptolomeu XV (o filho de Cleópatra VII e de Júlio César) não se fez de rogado e adotou como nome de coroação Irmaetenré, proclamando-se assim como. Aquele que faz reinar a Maat/ (Justiça de ).

Todos esses faraós “amados e amantes de Maat” a viam como uma autoridade suprema, cujo comportamento modelo tentavam, pelo menos ideologicamente e propagandisticamente, capitalizar na sua onomástica. O próprio faraó “herético” Akhenaton foi descrito como vivendo “de acordo com Maat“. Além disso, a maioria dos faraós que usaram o nome da Deusa (designadamente a partir de Ramsés VI) reinavam em períodos de esfacelamento e de decadência da própria civilização faraônica, até da própria instituição real, o que reforça ainda mais a importância e o significado político-mental que efetivamente a Deusa Maat detinha no seio da sociedade e da cultura egípcia.

Todas as religiões têm um conteúdo moral ao lado dos objetos de culto e a moral básica dos egípcios tinha o nome de Maat. Ela foi criada antes do mundo e através dela o mundo foi criado. É quase impossível traduzir a palavra com exatidão, mas ela envolvia uma combinação de ideias como “ordem”, “verdade”, “justiça” e “retidão”. Considerava-se Maat uma qualidade não dos homens, mas do mundo, infundida neste pelos deuses no momento da Criação. Assim sendo, representava a vontade dos deuses. A pessoa se esforçava para agir de acordo com a vontade divina porque essa era a única maneira de ficar em harmonia com os deuses.

Para o camponês egípcio, Maat significava trabalho árduo e honesto, já para o funcionário, significava agir com justiça.

Durante as amargas dificuldades e a desilusão que flagelaram o Primeiro Período Intermediário, surgiu por instante a ideia que Maat não era apenas uma qualidade passiva inerente ao mundo, mas que os súditos do rei-deus tinham o direito de esperar que fosse praticada. Isso representava um passo para o desenvolvimento de um conceito de justiça social.

Portanto, é mais importante “conservar Maat” (obedecer à lei) do que adorá-la. A própria Maat dá assistência nessa tarefa guiando, instruindo e inspirando os egípcios e após a morte ela é o princípio pela qual eles são julgados. Ela é a personificação da sabedoria!

No período helênico, os atributos de Maat foram absorvidos por Ísis.

Maat era, portanto, a Deusa da Justiça e da Verdade, ligada ao equilíbrio (Libra) necessário para a convivência pacífica entre todos os seres. Maat rege o primeiro signo social do zodíaco egípcio. Era filha de , o Sol, e de um passarinho que, apaixonando-se pelo calor e pela luminosidade dos raios solares, subiu por eles até morrer queimado. No momento em que foi incinerado, uma pena voou pelos ares. Essa era a nossa Deusa Maat. Ela também foi a responsável pela união do Alto e do Baixo Egito, simbolizando com isso a força da união e os benefícios da justiça. Sem Maat, a criação divina, que é a Terra e seus habitantes, não poderia existir, pois tudo se afundaria no caos inicial.

Maat toca todos os aspectos da vida: independência, situações familiares, amor, ódio, temor, enfermidade, morte, eternidade, solidão, propósito e eleições. Não há situação que não possa ser enquadrada no esquema da verdade.

Maat como um Sistema Metafísico

Após alguns anos de estudo, pode-se começar a discernir padrões que atravessam a riquíssima variedade de especulações metafísicas do coletivo da humanidade. O contínuo de ideias que se apresenta reflete a nossa tentativa de dar algum tipo de sentido ao fato de que somos capazes de conceber um Praeternatural (Transcende a ordem natural ou material) altamente desenvolvido em torno de nós, mesmo quando vivemos em um mundo que é essencialmente material.

A metafísica é uma construção montada ao longo dos séculos por mestres da antiga arte da holografia. Seu holograma coletivo é universalmente reconhecido e claramente visível para todos os povos do mundo. Todas as culturas parecem concordar com as suas características mais notáveis: a origem do Universo é o caos, em forma no início por mãos alheias e ordenado em um mundo, o mundo é povoado por seres mortais, estes seres estão envolvidos em uma luta constante entre a moralidade e a banalidade. As culturas são definidas por suas próprias opiniões de quem ou o que aquelas mãos de criação foram, porque criou o mundo, e qual o destino dos seres mortais (humanos) pode, deve, ou será. Este holograma é evidente em todas as religiões do mundo, incluindo a ciência, e poderia muito bem ser o quadro em que sistemas como os sonhos, a teologia, a personalidade, e as chamadas memórias raciais são baseadas.

O essencial é exclusivamente a luta humana entre a moralidade e a banalidade, é provavelmente a maneira mais fácil de abordar o holograma metafísico. Muitas pesquisas têm se dedicado a provar essa luta que está no centro dos fantasmas do bem e do mal, com que preenche nossas mitologias pessoais e culturais. Sabemos que nenhum outro mundo que o nosso, não está fora de nós mesmos e, portanto, somos incapazes de manter uma visão de mundo que não reflita a luta que nos define. Neste contexto somos o universo da quintessência.

Assim, parece que o conceito de moralidade, a mais importante característica distintiva da humanidade, está no cerne da identidade pessoal e cultural. Nós construímos grandes sistemas para definir moralidade e governar a nós mesmos em seu nome. Os povos do Oriente desenvolvido Dharma e Karma para lidar com o dilema da moralidade; a raça hebraica, o Torah e a Kaballa; os cristãos, um sistema de salvação e danação regido pela Igreja. Para os antigos egípcios, no entanto, foi simplesmente Maat.

Nos tempos mais remotos Maat, como todas as outras conceituações extra-humanas, tomou a forma de uma encarnação divina. Até nesta cultura coletiva que podia atingir o nível de sofisticação capaz de perseguir matematicamente abstrações, era necessário manipular conceitos morais e Praeternatural através da personificação e das histórias. Assim, os deuses começaram como as figuras de ação divina na infância cultural do Egito, só mais tarde se tornaram capaz de suportar o peso, tanto de culto e de experimentação metafísica. O panteão do Egito foi especialmente útil como um vocabulário para a especulação algébrica sobre a física do Universo, formada numa língua sagrada, que escapou de ser embotada pelo uso diário.

Maat, na maioria das vezes descrita como uma mulher com a pena da verdade e, por vezes, de olhos vendados, foi universalmente adorada e aceita pelo povo do Egito, não importa a religião ou a política da época. Enquanto outros deuses e deusas apreciavam o aumento de seus favores apenas em determinadas linhas Faraônicas ou quando templos poderosos estavam no poder, Maat sempre foi reconhecida como uma das grandes potências e verdade da natureza.

O fato de Maat ser facilmente venerada como uma deusa é facilmente compreensível na verdade subjacente que faz uma existência de valor. A verdade de Maat atingia um nível de saturação no interior da psique egípcia que só aumentou com a maturação da cultura, permeando todos os estratos pessoais e culturais.

Considerando que a Kaballa permaneceu um segredo muito bem guardado passado somente de pai para filho, e mesmo as doutrinas bíblicas da Bíblia cristã foram cuidadosamente dispensadas pela Igreja nos dias antes da imprensa. Maat, no entanto, era um diálogo espiritual que foi enraizado no âmago da sociedade egípcia. Ela tocou cada aspecto da vida e da civilização, incluindo o direito, a família, o sistema de castas, a ética do trabalho, a esfera política, o comércio, e, claro, a maquiagem metafísica e existencial do povo.

Seu âmbito de aplicação universal e a facilidade com que seus princípios podem ser aplicados à vida distinguem o conceito de Maat das escolas de seus irmãos de moralidade em outros tempos e lugares. Não há nenhuma evidência existente nos cultos de mistério dos sacerdócios a restrição de Maat dos olhos do profano. Aliás, foi em grande medida, tão universalmente aceita que era praticamente um dado adquirido para a justificação essencial de todos os modelos de comportamento.

Como tal, pode ser difícil diante da nossa perspectiva cronológica montar uma impressão clara do que realmente Maat implica.

Silence

Silence stood in the rear of the large, dusty room.

Ancient Silence; from before Time.

Silent. Standing. Listening.

No voices are heard but our own.

Still Silence watches and listens;

Hears our words, nods, and hears.

No sound is heard from the rear of the room.

Silence; like a tomb.

Dignity, she stands like a woman, or a proud man.

Beside her stands Righteousness;

Justice, kneeling at her feet.

Equality encircles the world.

Imagination breeds fear.

A voice raised is not heard; an idea presented may be seen as blurred.

And in the rear of the room, Silence, like a tomb.

Silence speaks not a word.

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