Nicholas Kollerstrom
υ
Tradução:
César Augusto – Astrólogo
φ
Galileu era um mathematicus, como Kepler, um termo que tinha um significado triplo, referindo-se à matemática, astrologia e astronomia. Favaro em 1881 compôs seu ensaio, Galileo Astrologo, onde concluiu:
Parece-me impossível ter a menor dúvida de que Galileu estava envolvido com a astrologia, de fato, ele era famoso por sua grande habilidade nessa arte, tal que pessoas ilustres o consultavam com total confiança, em muitos casos pedindo por horóscopos e previsões.
As cartas de Galileu a seus colegas astrólogos, assim como as cartas mais famosas compostas por ele se perderam e nós só temos as respostas², no entanto, cerca de vinte e cinco cartas elaboradas por ele permanecem, além de vários exemplos de suas análises de gráficos. O livro no qual ele aprendeu a astrologia enquanto em Pisa, possivelmente o Introductio in Ptolemaei opus de effectibus astrorum… ainda existe uma cópia, feita por sua mão, que permanece em Florença.
2 Catalogue entry by Germana Ernst in Opuscoli Astrologici ms Galil. 81, BNF 1980 exhibition: ‘the most famous charts have been lost.’ Galileo’s Astrologica nonnulla comprises 48 pages. BNF ms Galilei n.81; Opere, 19, pp.205-220.
Esse caráter essencial foi totalmente omitido na peça Galileu de Brecht, como também no clássico de Koestler, Os sonâmbulos. Giorgio de Santillana, em uma amistosa biografia de Galileu, caracterizou a Cadeira (leitorado) na Universidade de Pádua, que ele aceitou em 1592 da seguinte forma:
a cadeira de “matemática” cobria então o ensino de geometria, astronomia, engenharia militar e fortificação.
Santillana aqui omitiu descaradamente uma importante função tradicional do mathematicus, provavelmente a mais importante em Pádua, nomeada para estudantes do ensino de medicina sobre como fazer um horóscopo. Neste caso o horóscopo seria feito no início de uma doença, para indicar o remédio apropriado. Como Westman observa neste contexto, “… a astrologia combina a função do astrônomo com o papel explicativo do filósofo natural na pessoa do médico acadêmico…”, ressaltando que a Universidade de Pádua tinha uma tradição significativamente forte nesse sentido. Nós temos cartas de Galileu desse período, afirmando que a maioria de seus alunos eram estudantes de medicina. Favaro discutiu essa longa tradição de astrologia médica em Pádua, uma das universidades mais antigas da Europa. Ele usou como comparação, Jean-Baptiste Morin na Universidade de Paris que detinha o título:
Doctore Medico atque Regio Parisiis Mathematicum Professore
indicando a importância então atribuída à astrologia médica. Há, em toda a obra de Santillana, mais uma referência ao assunto, feita com bastante casualidade: que, no final da carreira de Galileu, uma calúnia foi lançada contra ele por seus arqui-inimigos, os jesuítas, afirmando:
que Galileu previu astrologicamente a morte do Papa em 1630,
sugerindo que ele gozava de algum renome por sua prática da arte.
Compulsão Astral
O ano de 1604 viu a primeira e pouco conhecida convocação de Galileu pela Inquisição: em abril de 1604, feita por um jovem do distrito Veneza, o Signor Silvestro, que trabalhava na casa de Galileu como seu amanuense (copista). Ele fez um depoimento com o arquivista do correio de Pádua, num testemunho de três pontos contra Galileu, de 39 anos: que ele vivia brigando com a mãe, que se opunha a ele por manter uma amante e três filhos em Pádua; que ele deixava de comparecer à missa, e que ele estava propondo uma doutrina de determinismo para seus clientes ricos. Ele foi acusado de estar dizendo a eles que ninguém poderia escapar da influência das estrelas, e era, portanto, bom saber o próprio futuro na leitura de mapas.

Evidence of Galileo’s interdisciplinary work uniting astronomy and astrology
Galileu foi acusado de fatalismo indevido em suas previsões. Por exemplo, Silvestro testemunhou que uma leitura foi para “um homem que viveria, disse ele, por mais vinte anos, e ele sustentou que sua previsão era certa e inevitavelmente aconteceria”. O Signor Silvestro testemunhou que nunca viu Galileu ir à missa ou confissão, mas em vez disso “ele ia para aquela prostituta veneziana dele, Marina”. No entanto, Silvestro negou ter ouviu qualquer heresia ou incredulidade de Galileu. Isso provocou a seguinte troca de registro:
P: Você disse que antes que esse Galileo fizesse suas natividades, ele dizia suas previsões como certas; isso é heresia. Como então você pode dizer que ele é um crente em matéria de fé?
R: Eu sei que ele disse isso e que ele considera certas suas previsões das natividades, mas não estou ciente de que isso tenha sido declarado heresia.
A Igreja se opunha fortemente a tal fatalismo. Em 22 de abril de 1604 a Inquisição formulou sua acusação contra Galileu Galilei, professor de matemática, pela qual foi acusado de:
haver ragionato che le stelle, i pianeti at gl’influssi celesti necessitino
— Ele teria argumentado que as estrelas, planetas e influências celestes eram capazes de determinar o curso dos acontecimentos. Também foi acusado de “viver como um herege”. Eram “acusações da maior gravidade”. Embora Galileu tenha sido interrogado em Pádua como herege por causa disso, a acusação não foi levada adiante, e nunca passou para as mãos do Santo Ofício em Roma: ele foi evidentemente protegido por ocupar a Cadeira de matemática em Pádua. A Igreja não deseja problemas com a universidade.
Esta convocação foi descoberta pelo frade franciscano professor Antonino Poppi. Ele a encontrou nos arquivos de Sartori em Pádua, e foi difícil para ele acreditar. Então, em 1990, ele localizou duas denúncias juramentadas nos Arquivos do Estado de Veneza (Pádua, na província do Veneto), listando os pontos principais da acusação, como corroboram os documentos de Pádua.
As Qualidades de Júpiter
Em 1609 Galileu mudou-se para Florença. Seu revolucionário best-seller, Sidereus Nuncius, ‘A Mensagem das Estrelas’ exibido em março de 1610, começa com um relato eloquente das qualidades tradicionais atribuídas a Júpiter:
Portanto, quem não conhece essa clemência, bondade de coração, gentileza de maneiras, esplendor do sangue real, nobreza nas funções públicas, ampla extensão de influência e poder sobre os outros, todos os quais fixaram sua morada e assento comum em Vossa Alteza – quem, eu digo, não sabe que essas qualidades, segundo a providência de Deus, de quem procedem todas as coisas boas, que emanam da estrela mais benigna de Júpiter?
Isso indica não apenas que Galileu não duvidava do assunto, mas que ele dificilmente poderia imaginar alguém duvidando disso. O texto segue com uma descrição da posição de Júpiter no topo do mapa de seu jovem patrono, Cosimo de Médici, o Duque da Toscana:
Júpiter, Júpiter eu digo, que no instante do nascimento de Vossa Alteza já havia lentamente passado os vapores opacos do horizonte e ocupava o Meio-do-Céu, de onde iluminava o ângulo oriental, daquele sublime trono transmitiu exultante todo o esplendor e magnificência ao recém-nascido difundido seu ar mais puro…
Do latim Orientalemque angulum sua Regia illustrans se traduz literalmente como “Iluminando o ângulo oriental do qual ele [Júpiter] é o regente”: alude ao signo ascendente (‘oriente’) de Sagitário de Cosimo de Médici, tradicionalmente pertencente a Júpiter, (sua Regia ou seja, sob seu regime). O texto de Galileu contínua,
… para que seu corpo tenro e sua mente possam absorver como seu primeiro sopro essa influência e poder universal,
aludindo à condição do horóscopo naquele instante, dominado pelo planeta Júpiter. Esta é a visão de Galileu de como a astrologia funcionava.
Uma pergunta foi feita a Galileu por Piero Dini em Roma sobre os “Medici sidera”. Como alguém poderia determinar qual era a influência dele sobre a espécie humana? Galileu respondeu em 21 de maio de 1611 com uma carta que ocupou onze páginas da Opere de Favaro. Seus argumentos, na realidade, colocam os ‘Medici sidera’ como indissoluvelmente ligados à questão desta influência. Não pareceria correto afirmar que “os Planetas dos Médici carecem desta influência, onde abundam as outras estrelas”. Ele fez uma comparação com as diferentes espécies de plantas que têm suas “qualidades, virtudes e efeitos” a serem explorados. Galileu conjecturou como os pequenos planetas podem nos afetar, contrastando suas causas “superiores” e “inferiores”:
Se, portanto, das causas inferiores, aquelas que suscitam ousadia de coração são diametralmente contrárias àquelas que inspiram a especulação intelectual, é também muito razoável que as causas superiores (se é que operam sobre nós) sejam totalmente diferentes daquelas sobre as quais a coragem e a faculdade especulativa dependem; e se as estrelas operam e influenciam principalmente por sua luz, talvez seja possível, com alguma conjectura provável, deduzir coragem e ousadia do coração das estrelas maiores e veementes, e agudeza e perspicácia de humor das luzes mais finas e quase invisíveis.
γ
- Carta de Galileo adquirida em Florença
Dinastia e Destino
Sidereus Nuncius foi dedicado ao jovem Grão-Duque Cosimo di Médici, soberano da Toscana. Seu livro propunha que as luas novas de Júpiter deveriam ser dedicadas ao Duque, já que seu mapa natal era de relevância, e estava incluído no manuscrito original de Sidereus Nuncius em Florença. O propósito era estabelecer a relação das características da carta do Duque com sua reivindicação.
Júpiter era tradicionalmente a estrela real, e o avô de Cosimo I, de 18 anos, se identificava especialmente com Júpiter como chefe do panteão das divindades romanas. A corte do palácio Médici, o Palazzo della Signoria, estava cheio de afrescos com os temas clássicos do Olympo (Όλυμπος), como que auxiliando na usurpação do poder sobre as outras famílias proeminentes que há muito governavam em uma coalizão incômoda. A corte olhava para a mitologia astral com muita a seriedade, na verdade nenhuma outra corte havia decidido fazer uso público e consistente do simbolismo astrológico, Biagioli mostrou como essas mitologias ‘constituíram a “narrativa mestre” que informava quais imagens seriam usadas em cerimônias políticas públicas e festivais, bem como os assuntos da poesia, teatro, pintura e ópera na corte.’
O jovem Cosimo tinha três irmãos, de modo que as quatro novas estrelas foram repartidas, uma para cada. Não foi mera coincidência, como Galileu explicou em sua dedicatória no Sidereus Nuncius ao jovem Cosimo, que “estrelas brilhantes oferecem-se nos céus” imediatamente após sua entronização. As quatro estrelas haviam sido “reservadas” para os Médicis. A dedicação de Nuncius ao simbolismo astrológico era de uso político. Júpiter no horóscopo de Cosimo de Médici II ocupava uma posição dominante, sendo claramente o planeta mais forte. Ocupando uma posição de comando no topo do horóscopo (o ‘Medium Coeli’ ou MC, o ponto mais alto de Júpiter no arco diurno), como sendo especialmente significativo para um governante de estado – não o ascendente como Biagioli declarou; ele formou aspectos importantes com dois planetas (Marte e Saturno) em ascensão, e em terceiro lugar, seu signo ascendente (‘horoscopos’) era Sagitário, “governado” por Júpiter. A Figura 1 mostra o horóscopo feito por Galileu para Cosimo II.
γ
- Figura 1 – Carta de Cosimo II de Médici. – O Gabinete de Registros da Corte é de 12 de maio de 1590 de uma noite, ou seja, uma hora após o pôr-do-sol. O pôr-do-sol foi às 19h06 desse dia (tempo local aparente), e na versão inicial da carta de Galileu (Figura 2) eu reconstruo como tendo sido para 20h31, então sua versão final aqui mostrada, vinte minutos depois, sendo 20h51. Galileu possivelmente usou o tempo mais tardio para colocar Júpiter perto do Meio-do-Céu. Um mapa moderno usando as mesmas divisões de casas mais os aspectos de Júpiter (para Marte, Saturno e o ascendente) é mostrado para comparação.
Galileu ganhou em julho de 1610 o título de matemático e filósofo chefe do Grão-Duque da Toscana, o que significava que cópias de seu telescópio e o Sidereus Nuncius que o acompanhava foram distribuídas desde então pelos Médicis. Mais tarde, Cosimo III foi parcial para as quatro ‘stella Médici’ e teve uma imagem delas colocada em seu peito no seu funeral em 1723. Seja em qualquer nível, o estratagema de Galileu foi incrivelmente bem-sucedido.
Cartas para suas filhas
Galileu não apenas elaborou mapas para suas duas filhas ilegítimas, mas compôs julgamentos de caráter com base neles. Para Virginia, a filha mais velha, ele observou que a Lua (tradicionalmente de significado feminino para a vida adulta etc.) estava “debilitada” e sombriamente escreveu:
A Lua está muito debilitada no signo ao qual obedece. Ela é dominada por relações familiares. Saturno significa submissão e costumes severos que lhe dá um comportamento triste, mas Júpiter está muito bem com Mercúrio, e este bom aspecto corrige isso. Ela é paciente e feliz em trabalhar arduamente. Ela gosta de ficar sozinha, não fala muito, come pouco com uma severa vontade, mas nem sempre está disposta e pode não cumprir sua promessa.
Na filha mais nova, Lívia, ele discerniu (equivocadamente, de acordo com Sobell) um personagem mais extrovertido. Em seu De Ingenio afirmou:
Mercúrio no ascendente é muito forte para todas as coisas, e Júpiter que está em conjunção dá conhecimento e generosidade, simplicidade, humanidade, erudição e prudência.
A obra de seiscentas páginas de Sobell, A Filha de Galileu, não faz alusão a esses textos, embora publicados por Favaro, indicando o quão censurado foram os temas relacionados a estes tópicos.
Giovanni Sagredo
O aristocrata veneziano Sagredo consultava Galileu para obter conselhos astrológicos com bastante regularidade. Sua análise do horóscopo de Giovanni Francesco Sagredo estava repleta de laudatórias (“benéfica, pacífica, sociável, amante do prazer”), derivadas das posições de Vênus e Júpiter:
O ascendente cai nos termos de Vênus em sua própria casa, cercado pelas Plêiades fixas e aplicando-se a Júpiter por um sextil exato. Ela está livre de raios maléficos para si mesma.
Assim, não havia “aspectos ruins” para o ascendente. Além disso, no entanto, Galileu discerniu um desequilíbrio no gráfico:
Da combinação de testemunhos resulta um temperamento quente e úmido, de fato com falta de equilíbrio do sanguíneo porque Vênus é a dama desequilibrada da genitura, e o ascendente é sua casa, e, além do que, Saturno está em oposição ao ascendente.
Sagredo foi caracterizado em um Prefácio do Diálogo como “um homem de nobre descendência e sagacidade incisiva”. Uma carta de Sagredo a Galileu solicitou uma leitura da carta astrológica para um colega, de uma maneira que sugeria pedidos repetidos e semelhantes.
A propósito da tendência dos oráculos e profecias serem interpretados retrospectivamente, o personagem Salviati no Diálogo afirma:
E por que você deixa de fora as profecias dos astrólogos [‘genethliaci’], que são vistas tão claramente nos horóscopos (ou deveríamos dizer na configuração dos céus) após o seu cumprimento?
pergunta tal que é seguida por uma mudança imediata de assunto, para um ataque sobre os alquimistas que interpretaram credulamente os mitos antigos como se eles tivessem codificado mistérios alquímicos. Não há acompanhamento como tal para Salviati pergunta. Galileu está aqui fulminando aqueles que fingem fazer previsões e fazem-nas apenas em retrospectiva. Podendo-se desmenti-las se vermos isso como um ataque à astrologia judicial. Isso é o mais próximo a uma crítica da astrologia que se encontra no Diálogo de Galileu.
Data de nascimento de Galileu
Os mapas de nascimento de Galileu são a única fonte de evidência sobre sua data de nascimento. Favaro publicou uma coletânea deles, em várias datas, sem indicar quais foram compostas por Galileu. Os arquivistas na Biblioteca Nazionale em Florença, para uma exposição de 1980 sobre material astrológico, exibiram apenas dois mapas elaborados por Galileu para seu próprio nascimento, conforme ilustrado na Figura 2.
γ
- Figura 2 – Duas cartas (astrológicas) para o nascimento do próprio Galileu, 15h30 e 16h de 16 de fevereiro de 1564, publicadas pela Biblioteca Nazionale, Florença em 1980. As longitudes planetárias são idênticas nas duas cartas (exceto sete minutos de arco para a Lua) e estão escritas ao lado junto com as latitudes celestes.
Esses dois horóscopos diferem apenas meia hora, dando assim uma escolha entre diferentes graus do ascendente: a 14º33’ ou 21º37’ de Leão. Seu local de nascimento Pisa usava o relógio de sol contando as horas até o pôr do sol, considerando que em Pádua, onde esses gráficos foram presumivelmente compostos, adotava-se o sistema francês, com horas contadas a partir do meio-dia. Acima dos gráficos estava escrito:
As duas primeiras linhas descrevem o mesmo momento com a primeira dado o método mais antigo, que mediu as horas a partir do pôr do sol anterior, enquanto a segundo dá ‘p.m.’, ou seja, horas depois do meio-dia. Como observou Favaro, na segunda linha Galileu escreveu primeiro 15 de fevereiro, depois mudou para 16th – um erro inicial, podemos conjecturar, que causou confusão no futuro. A latitude para Pisa está um pouco fora mais de um grau, sendo seu verdadeiro valor 43º43’. O noção de seu nascimento sendo 15 de fevereiro pode muito bem ter vindo de leituras casuais neste estilo antigo, em que sua hora de nascimento era dada como 22 horas do dia 15, ou seja, após o pôr do sol do dia 15.
Que Galileu tenha levado a sério essas cartas, como as de sua natividade, é mostrado pela maneira como ele escreveu as latitudes planetárias à esquerda, ao lado de sua longitude, conforme necessário para calcular “direções primárias”. Esses, como vimos com as ‘direções primárias’ de Sagredo estabelecidas por Galileu, são necessárias para olhar para o curso de uma vida. É evidente que esses dois gráficos foram cuidadosamente preparados e ponderados, com longitudes em triplicado e latitudes e as diferentes convenções de tempo comparadas. Eles são definitivamente de Galileu, e indicam que ele nasceu no dia 16 fevereiro de 1564 (26 de fevereiro, Novo Calendário) – e não no dia 15, como geralmente se afirma. Sua posição de Mercúrio errou quatro graus e sua Lua por um, indicando que a necessidade de reforma na astronomia tinha uma base muito prática.
Uma carta de Galileu de 1633, um ano depois de seu Diálogo sobre os dois Principais Sistemas do Mundo foi publicado, por seu amigo Elia Diodati em Paris, em alusão a Morin de Villefranche, professor de matemática em Paris e o mais célebre astrólogo da época. Tendo recebido exemplares dos novos livros por Morin e Fromondo, lamentou não tê-los conhecido antes, pois ele teria tido “a oportunidade de dizer muitas coisas em louvor a ambos.” Sua carta concluiu dizendo:
Estou pasmo que Morin tenha uma consideração tão elevada pelo poder judiciário [astrologia] e que ele afirma com suas conjecturas (que me parecem incerto, se não muito incerto) para estabelecer a certeza da astrologia; e isso seria realmente uma coisa maravilhosa se – como ele promete – ele pode, astuto como ele é, colocar a astrologia na posição mais alta das ciências humanas; e eu vou esperar com grande curiosidade para ver esta maravilhosa inovação.
Esperança e ironia aparecem mescladas neste comentário. Favaro comentou, “Nestas palavras não encontramos o sentido de reprovação absoluta, como outros tem prazer em encontrar”. Galileu estava aqui lançando dúvidas sobre se a astrologia deveria ser vista como uma ciência: tradicionalmente, a partir do Tetrabiblos de Ptolomeu, ela era considerada mais como uma arte que nunca poderia alcançar a certeza do que poderia uma ciência como a astronomia.
O livro em questão, de Jean-Baptiste Morin, defendia a imobilidade da Terra usando argumentos astrológicos. Além disso, Morin estava trabalhando em um enorme tratado astrológico de vários volumes. Será que isso não seria uma ocasião para aquele famoso sarcasmo com que Galileu dizimou seus oponentes? Em vez disso, ouvimos meramente de seu “louvor” pelo livro e pelo argúcia de seu autor – dificilmente compatível com a noção de Favaro de um ceticismo como o que se desenvolveu nos anos de maturidade.
Durante séculos a imagem de Galileu funcionou como um ícone da nova ciência que ele tanto fez para fundar. Isso significou ignorar a pessoa real. Sua biografia torna-se mais interessante se a vemos no contexto de um mathematicus renascentista sem lhe impor nossos preconceitos. Filósofos franceses como Descartes e Gassendi eram céticos em relação à astrologia, enquanto isso não se tornou um problema na Itália renascentista: não havia contexto social que pudesse ter apoiado os astrônomos céticos para com a astrologia durante a vida de Galileu. Só mais tarde, na segunda metade do século XVII, a astrologia foi expulsa das universidades, onde novamente a astronomia se estabeleceu como uma disciplina separada e independente.
Referências
Biblioteca Nazionale di Florence (BNF), Manoscriti Galileiani, VI, Tomo VII.
Favaro Antonio Ed., Le Opere di Galileo Galilei, Florence 1929-39, 20 Vols.
Ω
Categorias:Traduções








