Traduções

A Evidência da Astrologia na Grécia Clássica

Robin Waterfield

CULTURE AND COSMOS

A Journal of the History of Astrology and Cultural Astronomy Vol. 3 no 2, Autumn/Winter 1999.

Published by Culture and Cosmos and the Sophia Centre Press, in partnership with the University of Wales Trinity Saint David, in association with the Sophia Centre for the Study of Cosmology in Culture, University of Wales Trinity Saint David, Faculty of Humanities and the Performing Arts Lampeter, Ceredigion, Wales, SA48 7ED, UK.

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

Traduzido com a permissão do autor.

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Há um consenso acadêmico (não exatamente unanimidade) de que a astrologia não criou raízes na Grécia até o início do terceiro século a.C., ou mesmo um pouco mais tarde.1 Neste artigo, mostrarei as principais evidências que sugerem fortemente que isso é um erro.

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Em primeiro lugar, deve-se admitir que há poucas evidências para a astrologia na Grécia do quinto e quarto século, e que a evidência é muitas vezes delicada e ambígua. Essa é uma admissão importante, porque sempre há uma tendência dos entusiastas de qualquer assunto quererem traçar seus interesses o mais longe possível na história, para lhes dar uma aura de respeitabilidade. Há também, no caso da Grécia antiga, a atração adicional de sublevar o bastião da racionalidade apolínea, já que é assim que a “era de ouro” da Grécia (pela qual Atenas realmente se refere) é comumente retratada. Desde o século XIX, a cultura da Grécia clássica (que é como me referirei por conveniência à Grécia dos séculos V e IV, antes da era de Alexandre) tem sido implicitamente retratada como um fenômeno puro e isolado, impermeável às influências do influências do Oriente Próximo ou da África ou da Trácia. E assim, contrariando os entusiastas, têm aqueles estudiosos que se recusam a admitir que seus autores favoritos poderiam ter se interessado por algo tão obscuro quanto a astrologia. Uma linha judiciosa precisa ser percorrida entre esses dois extremos.

Deve-se também admitir que as evidências para a astrologia na Grécia antes do terceiro século são insuficientes nos seguintes aspectos: não existem horóscopos antigos, discretamente preservados pela Providência em pedaços de papiros antigos,2 e não há textos que declarem com absoluta falta de ambiguidade crenças astrológicas fundamentais, como a de que nossos personagens e o seu futuro são determinados até certo ponto pelas posições dos planetas no nascimento (mas veja A5 abaixo). As evidências apontam principalmente para um interesse no culto às estrelas e nos fundamentos filosóficos da astrologia, e para o conhecimento de algum tipo de previsão do futuro por meio das estrelas. Embora, um pouco grosseiras, tais tipos de predição proto-astrológicos, precisam ser distinguidas da astrologia plenamente desenvolvida, eu espero fornecer evidências cumulativas suficientes para tornar, pelo menos, altamente provável que o consenso precise de revisão. Mesmo o conhecimento da astrologia, e ainda menos sua prática, era um fenômeno raro, limitado a poucos indivíduos – mas era um fenômeno existente.

Eu dificilmente preciso discutir hoje em dia que a Grécia do século V não existia em um vácuo cultural. Não estou pensando em teses extremas como a de Bernal3 (que realmente não se favorece exagerando todos os aspectos de sua tese), mas de avaliações acadêmicas mais sóbrias dos elos filosóficos entre a Grécia e o Oriente Próximo.4 Recentemente tem sido concluído que: ‘Escritores helenistas em regra não eram tão culpados de fabricar conexões entre o Grego e os filósofos do oriente a ponto de simplificá-las excessivamente.’5 E, mesmo à margem do interesse filosófico pelas idéias orientais, há muitas evidências de uma grande quantidade de contato cultural, diplomático e político entre gregos e, especialmente, a Pérsia na anos após as importantes invasões persas da Grécia no primeiro quartel do quinto século.6 Isso estabelece uma plausibilidade geral que, juntamente com outras idéias e influências, os gregos tinham se deparado com a astrologia, que já havia sendo usada por até quinze séculos no Oriente Próximo. Isto, obviamente, não significa que os gregos tenham adotado a prática da astrologia, e isso não nos diz nada sobre quando eles podem ter feito isso, mas é importante notar que muito do conhecimento astronômico babilônico foi posto a serviço da astrologia.7 Como nenhum estudioso da antiga astronomia grega nega agora que os gregos estavam em débito com seus vizinhos orientais, é extremamente provável que o que agora separamos em dois ramos, “astronomia” e ” astrologia ‘, veio para os gregos como um pacote único.8 Em grego, as duas palavras astrologia e astronomia são intercambiáveis, ambas significando basicamente ‘conhecimento das estrelas’, embora esta última tenha mais a conotação de perícia nas medições relacionadas à corpos celestes.9

Finalmente, por meio de comentários preliminares, devo acrescentar que há pouco ou nada no que se segue, que colida até mesmo com uma explicação conservadora do desenvolvimento da astrologia do Oriente Próximo. Por exemplo, se, como afirmo, Filolau soubesse de uma divisão de doze vezes no zodíaco na Grécia por volta de 430 a.C., isso não constituiria uma evidência segura de tal conhecimento no Oriente Próximo.10

No que segue, agrupo as evidências da seguinte forma: (A) evidência de conhecimento das práticas astrológicas orientais; (B) evidência para aprovação de tais práticas; (C) evidência para pesquisa teórica e especulação em assuntos astrológicos; (D) evidências para um conhecimento prático da astrologia. Outras evidências podem estar disponíveis (embora talvez não tanto quanto estudiosos entusiastas como Bidez sugere), mas acredito que todas essas evidências serão subsidiárias das evidências literárias que apresento. Em cada uma dessas quatro seções, A-D, as evidências são apresentados em ordem cronológica aproximada.

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A1 – A cena pode ser definida de forma útil por um fragmento de Ctesias, um historiador do final do quinto século a.C., que escreveu, inter alia, uma história da Pérsia, da qual temos um fragmento expressando admiração pela incrível precisão com que um padre “caldeu” poderia prever o futuro; diziam que o padre era especialista em “astrologia e adivinhação”.11 Essa é uma evidência inequívoca do interesse na astrologia oriental já no final do século V. Além disso, vale a pena ressaltar que Ctesias estava escrevendo para um público grego; havia uma fascinação grega, no final do século V, com as maravilhas em geral e (talvez) a astrologia em particular, que Ctesias estava mirando.

A2 Nós temos informações, mas sem nenhum detalhe de apoio, que Demócrito de Abdera, o famoso filósofo atomista do final do quinto século a.C., escreveu um livro sobre os Textos Sagrados da Babilônia, que pode ou não pode ser o mesmo que outro do mesmo título atribuído a ele, Sobre os Caldeus.12 Ele também escreveu um livro chamado Das imagens ou da Presciência do Futuro, mas esse certamente não era astrológico, já que sabemos de outro lugar que Demócrito acreditava que os deuses (que, para ele, não eram mais do que agregados de átomos longevos) poderiam aparecer para nós como imagens no sono e predizer o futuro.

A3 – O tardio biógrafo Diógenes Laércio (c. 200-250 d.C.), que escreveu as séries Vidas de Filósofos Eminentes, relata no curso da Vida de Sócrates: ‘Aristóteles nos diz que um certo mago veio a Atenas da Síria e, entre outros terríveis prognósticos, previu que ele morreria de forma violenta’. Embora atribuído a Aristóteles,13 talvez não seja um relato confiável; mas vale a pena notar que os gregos geralmente confundiam os “magos” e os “caldeus” – sendo estes últimos os astrólogos conhecidos.14

A4 – Há vestígios do conhecimento astrológico no Fedro de Platão (início do 4º a.C.). Ele fala dos deuses sendo divididos em doze grupos, e diz-se que as almas dos não-nascidos assumem os caracteres dos deuses que são seus acompanhantes (252c-d): “Cada homem vive depois o padrão do deus de cujo coro ele era um membro. Platão pode, como diz Dodds, não ser mais do que “decoração imaginativa”,15 mas o ponto é que isso reflete provavelmente a familiaridade com a astrologia. A tentativa de negar isto (como por Koster16) argumentando que Platão não é apóstolo do determinismo, mas permite que as almas sejam melhores ou piores seguidoras de seu deus particular (248a, c), é baseada na confusa equação da astrologia com o determinismo absoluto.

A5 – No grande mito com o qual Platão conclui sua República, ele atribui cores aos planetas que, argumenta-se, são tiradas diretamente dos textos astrológicos da Babilônia.17 O mito também é perpassado com mais conhecimento astrológico do que é geralmente reconhecido, porque é sutil. Precisamos considerar o papel dos Três Destinos no mito. Nós os encontramos pela primeira vez em 617c, onde nos é dito que eles transformam o fuso cósmico no qual estão localizados todos os planetas. Eles reaparecem em 620d-e onde toda alma, a ponto de reencarnar de volta à Terra, tem que passar pelos Três Destinos. LáquesisΛάχεσις– (“ela que reparte”) dá à alma a divindade guardiã que seleciona, para acompanhá-la durante toda a sua vida. ClothoΚλωθώ– (“a tecelã”) “ratifica o destino” que a alma escolheu; ÁtroposἌτροπος– (“a implacável”) torna a teia tecida por Clotho “fixa e inalterável” – ela tece a teia na trama de Clotho.18 A frase traduzida “ratifica o destino” é carregada astrologicamente: “destino” (moira) é a palavra que depois (se já não o fez) veio a significar ‘grau do zodíaco’,19 e ‘ratificar’ (kuroun) é cognato com a palavra astrológica para o governo de um planeta. Agora lembramos que os Destinos são responsáveis ​​pela rotação dos planetas. É claro que a alma reencarnada está tendo as posições planetárias apropriadas para sua existência fixadas no momento de seu nascimento ou reencarnação. Eu até sugeriria que Clotho é responsável pelos signos zodiacais e Átropos pelos planetas. Seja como for, finamente disfarçado em linguagem alegórica, temos aqui uma evidência clara do conhecimento da astrologia horoscópica na Grécia do século IV.20

A6 – Há uma história fragmentária, preservada em um pedaço de papiro resgatado dos destroços causados ​​em Pompéia de Herculano pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., que em sua velhice – ainda mais ou menos em seu leito de morte – narra: Platão foi instruído no conhecimento dos ‘Caldeus’ por um visitante do leste.21 Platão morreu em 347 a.C.

A7 – Há uma passagem particular dentro do Epinomis (Apêndice às Leis), cujo texto foi alterado por eruditos que incapazes não estavam dispostos a aceitar a direção na qual inevitavelmente leva. Em 987c, de acordo com todos os manuscritos mais antigos e fidedignos, o autor (que provavelmente foi aluno de Platão de dentro da Academia, em vez do próprio Platão) escreveu: ‘Existem três corpos celestes remanescentes, dos quais um é particularmente lento e às vezes é chamado de “Sol”. “Como é o planeta que agora conhecemos como Saturno sobre o qual estamos falando, o texto foi alterado para:” … às vezes referido como “Cronus”. “Não há surpresas lá – e, claro, à primeira vista chamar Saturno de “Sol” é muito estranho. Mas, na verdade, como explica Cumont, o título “Sol” para Saturno deriva do Oriente Próximo e é baseado numa doutrina que é puramente astrológica: em certas situações horoscópicas, Saturno foi autorizado a substituir o Sol.22

A8 – O sucessor de Aristóteles como chefe do Liceu, Teofrasto de Eresus (c. 330), relatou que os caldeus eram capazes de prever o tempo, o curso da vida de uma pessoa e o modo de sua morte, através dos céus. Não podemos dizer da conta de Proclus (Comentário sobre o Timeu de Platão) se ele está expressando aprovação, ou meramente relatando como um observador neutro, então é mais seguro classificá-lo como uma peça de evidência-A.

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B1 – Em uma passagem negligenciada do Timeu (40c-d), Platão escreve: “Mas, quanto à dança circular do casal de divindades astrais, e seus retrocessos e progressões; quanto a eles entrarem em conjunção e oposição uns com os outros, e sobre a ordem que eles passam na frente um do outro, e em quais momentos algum deles se escondem da nossa vista e depois reaparecem para assustar aqueles que são capazes de lhes calcular e apontar os sinais do futuro – para descrever tudo isso sem modelos visíveis seria trabalho gasto em vão”. Agora, se você comparar esta tradução com qualquer outra, você verá que todo o resto tem um certo ‘não’: ‘ … aqueles que não são capazes de calcular …’Isto ‘não’ ocorre no padrão de todas as edições modernas gregas do Timeu, mas se baseia em pouca ou nenhuma autoridade manuscrita, e certamente deveria ser omitido. Com o ‘não’, Platão zomba da astrologia supersticiosa e acusa seus praticantes de precisarem da arte racional do cálculo para corrigir suas tendências irracionais; sem isso, porém, Platão está claramente elogiando e aprovando a capacidade de calcular os movimentos dos planetas e de prever eventos por esses meios.23

B2 – A premissa de Epinomis é que a “astronomia” é todo o conhecimento necessário pelos governantes da cidade ideal que Platão propôs nas Leis. Dada a estreita ligação feita neste livro entre astronomia e aritmologia, e dada a declaração explícita de que a astronomia deriva do leste (986e-987b), é muito provável que “astronomia” esteja sendo tomada para incluir o que hoje chamaríamos de “astrologia”. Em qualquer caso, dado o elo essencial no mundo antigo entre a astrologia e a adoração dos planetas como deuses, a ênfase colocada neste livro (como, novamente, na República) sobre a divindade dos planetas provavelmente não é insignificante.24 Aqui, então, o autor de Epinomis encoraja seus leitores a valorizar a astrologia/astronomia como a ciência suprema.

B3 – A evidência sobre Eudoxus de Cnidos, um colega próximo de Platão na Academia, é difícil de avaliar. Por um lado, Cícero nos diz (De Divinatione) que, enquanto Eudoxo escreveu sobre os babilônios usando astrologia para prever o curso da vida de uma pessoa, ele foi desconsiderado. Se isso fosse o mais longe possível, teríamos que contar isso como uma peça de evidência-A. Mas Eudoxo também usou a astrologia babilônica em um livro chamado Predições do Mal Tempo. Parece mais seguro concluir, com Bidez, que Eudoxus ‘não ignorou a astrologia caldéia; pelo contrário, depois de estudá-la, ele reteve o máximo que lhe pareceu racionalmente admissível ou justificado pela experiência.’25 É possível, e claro, que Eudoxo tenha realmente desenvolvido o conhecimento que adquiriu a partir do leste, neste caso seu trabalho pertence como uma peça de evidência-C; mas infelizmente não sabemos mais sobre este livro de previsões.

The Antikythera Mechanism

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C1 – Estamos em terreno mais seguro26 com a mais antiga evidência sobre a astrologia na Grécia clássica – uma série de testemunhos sobre o filósofo pitagórico Filolau de Croton, que viveu de aproximadamente 470 a.C. a aproximadamente 390 a.C.27 Nestes testemunhos nos é dito que Filolau dedicou ângulos de certas figuras geométricas a certos deuses. O filósofo neoplatonista Proclo, do quinto século a.C., é a nossa principal fonte, especialmente em passagens do seu Comentário sobre os Elementos de Euclides; mas traços da mesma ideia ocorrem mais cedo em Sobre Ísis e Osíris, de Plutarco, bem como, mais tarde, no Dos Princípios de Damascio da Síria.28 Agora, a informação em cada um desses autores é ligeiramente diferente; mais em Proclo do que em Plutarco ou Damascius, e diferente em detalhes também. Isso torna improvável que eles estejam obtendo suas fontes uns dos outros. Assumindo, então, que existe uma fonte comum, há pouca razão (além do preconceito) para não pensar que a fonte é o próprio Filolau. Isso é especialmente verdade já que Plutarco explicitamente atribui sua fonte a Eudoxo, que leva o relato para dentro do século da vida de Filolau.

De acordo com Proclo, Filolau disse que “o ângulo do triângulo” era sagrado para quatro deuses masculinos – Cronos, Hades, Ares e Dionísio – enquanto “o ângulo do quadrado” era sagrado para três divindades femininas – Rhea, Deméter e Héstia. Eudoxo (ou, mais provavelmente, Plutarco) não chegou a entender, porque no relato de Plutarco (que é atribuído mais geralmente aos ‘pitagóricos’, em vez de a Filolau em particular), três deuses governam o triângulo (Hades, Dionísio, Ares), enquanto cinco deusas governam o quadrado (Rhea, Afrodite, Demeter, Hestia, Hera). Ambos concordam que Zeus rege o ângulo do dodecaedro, e Damascius acrescenta que o semicírculo era sagrado para os Dioscuri, Castor e Pollux. Eu digo que Plutarco errou o alvo,29 porque a atribuição de quatro divindades ao ângulo do triângulo e três ao ângulo do quadrado é o que é autenticamente astrológico. Quatro triângulos podem ser inscritos nos doze signos do zodíaco (um para cada elemento) e três quadrados (um para cada qualidade) .30

C2 – No curso desta curiosa passagem aritmológica da República sobre o chamado “número nupcial”, Platão prevê que os guardiões de seu estado ideal usarão conhecimento aritmológico (e provavelmente astrológico) para escolher os tempos auspiciosos dentro de uma vida para que a concepção ocorra de modo a garantir a boa primavera que perpetuará a harmonia do Estado.31 Se estou certo de que tanto a astrologia quanto a aritmológica estão envolvidas (e as conexões entre as duas são profundas no mundo antigo) esta é a última de uma forte evidência-B, já que Platão não está apenas aprovando as práticas astrológicas, mas as encorajando. Mesmo admitindo que Platão pode nunca ter imaginado seu estado ideal como uma realidade prática, continua sendo o caso que qualquer um que ler esta passagem tiraria disso a lição de que a astrologia/aritmologia podem dar benefícios à sua vida. Mas já que temos todos os motivos para pensar que, embora baseados na tradição, as especulações que Platão exibem nesta passagem são suas, eu considero isso como uma peça de evidência-C.

Finalmente chegamos a uma única peça de evidência-D. Não tenho desculpa para guardar isso até o fim, porque é importante que seja lido contra o pano de fundo de todas as evidências, o que deve deixar qualquer pessoa com a mente aberta com a impressão de que a astrologia foi estudada – mesmo que apenas por alguns indivíduos – na Grécia clássica. Mas se foi estudada, certamente também foi posta em prática. Não é de surpreender que deva haver um declínio no número de evidências à medida que nos movemos de uma evidência-A para uma evidência-D. O conhecimento geral e o interesse pela astrologia tendem a ser mais difundidos do que sua prática – na Grécia clássica como agora.

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D1 – Tanto na Vida de Alcibíades como na Vida de Nicias, Plutarco preserva um fragmento anedótico sobre um astrônomo chamado Meton, que viveu no final do século V a.C., mas de quem de outra forma temos pouca informação. Uma das poucas outras informações que temos sobre ele, no entanto, é que ele introduziu o Grande Ano de dezenove anos para harmonizar os ciclos lunares e solares (19 anos solares = 235 meses lunares).32 Desde que esse ciclo de 19 anos já fora conhecido na Babilônia há algum tempo, está claro que Meton estava ciente da “tradição estelar” oriental.33 Como podemos julgar por sua aparição na obra-prima cômica de Aristófanes, Aves (produzida em 414 a.C.), Meton era uma figura bem conhecida em Atenas. De qualquer forma, a história que Plutarco preserva sobre ele é que pouco antes da desastrosa expedição siciliana que Atenas empreendeu em 415 a.C., e que foi um fator contribuinte importante em sua derrota na Guerra do Peloponeso, Meton fingiu insanidade e queimou sua casa, de modo que ele poderia então implorar para seu filho ficar em Atenas e cuidar dele, e não ser enviado para a morte na expedição. Na versão de Nicias Plutarco, advertiu a Meton por uma série de presságios (não-astrológicos), ou simplesmente usando sua inteligência. Em Alcibíades, no entanto, ele diz que Meton ‘foi solicitado para cálculos [logismos] ou pelos resultados de algum tipo de adivinhação’. Meton, lembre-se, era um astrônomo; é certamente provável que ele tenha usado a astrologia para prever as conseqüências desastrosas da expedição siciliana.

Aqui estão, então, catorze peças de evidência para o conhecimento da astrologia na Grécia, no quinto e quarto séculos a.C., entre aproximadamente 440 e aproximadamente 320. Elas variam em impressionividade, e em quão rude ou refinada é a astrologia que eles presumem, mas as mais impressionantes, na minha opinião – porque são as mais difíceis de negar – são: A5, que estabelece além de qualquer dúvida razoável que Platão acreditava no papel dos planetas no destino individual, e C1, porque remete ao trabalho  da especulação e do conhecimento astrológico ao longo de linhas astrológicas cerca de 440 a.C. Mas B1 e D1 vêm em segundo lugar, por tudo o que há é uma ligeira névoa de incerteza nestes casos. No entanto, para repetir, o efeito cumulativo dessas quatorze peças de evidência é esmagadoramente poderoso e certamente suficiente para dissipar pequenas névoas. Esse efeito cumulativo é importante porque a maioria dos livros acadêmicos que se lê referem-se a um ou a três desses textos, mas ignoram o restante.

É importante notar também que, mesmo nesta fase inicial, uma ampla gama de aplicações da astrologia parece ser coberta ou implícita. Não só os gregos, no período clássico, haviam aprendido pelo menos os fundamentos da astrologia de seus vizinhos do Leste, como também tiveram tempo de aprender uma variedade de técnicas. É claro que há muito – mais – trabalho para o desenvolvimento e refinamento da astrologia na Grécia que ainda precisa ser feito, mas isso é uma implicação da evidência que apresentei de que há uma considerável história oculta da astrologia grega clássica, provavelmente perdida para sempre, e possivelmente estendendo-se à algumas décadas mais para trás no tempo antes de 440 a.C.

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References
1. The opening of an astrological school by the ‘Chaldean’ Berosus on the island of Cos in 280 BCE is often taken to herald the start of astrology in Greece. For general scholarly discussions, see A. Bouché-Leclerq, L’astrologie grecque (Paris, 1899), and O. Neugebauer, A History of Ancient Mathematical Astronomy, 3 vols. (Berlin, 1957). Neugebauer’s main conclusions can be more accessibly found on p.188 of his The Exact Sciences in Antiquity, 2nd edn. (1957; repr. Dover, 1969). This consensus opinion is repeated in summary fashion by the most recent writer on the subject: T. Barton, Ancient Astrology (London, 1994), p.22. Even Campion, who recognises the importance of early Greek philosophy to astrology (An Introduction to the History of Astrology, London: Faculty of Astrological Studies, n.d., p.16), was in 1982 apparently unaware of the majority of the evidence presented here in this article. The main voice to challenge the consensus in recent years, since (as we will see) an important piece of evidence comes from within the Pythagorean school, is W. Burkert, Lore and Science in Ancient Pythagoreanism (Harvard University Press, that the adoption by Greece of the eastern practice of astrology is symptomatic of her decline from classical greatness; see J. Lindsay, The Origins of Astrology (London, 1971), p.91.
2. The earliest extant Greek horoscope is portrayed on the stone monument at Nimrud Dagh, cast on the orders of Antiochus I of Commagene in 62 BCE. See Otto Neugebauer and H.B. van Hoesen, Greek Horoscopes, 61 (Philadelphia, American Philosophical Society, 1959), pp.14-16.
3. M. Bernal, Black Athena: The Afroasiatic Roots of Classical Civilization (New Brunswick, 1987).
4. The most important book in this regard is still M.L. West, Early Greek Philosophy and the Orient (Oxford University Press, 1971), but see also, for instance, P. Walcot, Hesiod and the Near East (University of Wales Press, 1966).
5. P. Kingsley, ‘Meetings with Magi: Iranian Themes Among the Greeks, from Xanthus of Lydia to Plato’s Academy’, Journal of the Royal Asiatic Society, 3rd series, 5 (1995), pp.173-209, at p.187.
6. See, for instance, J. Hofstetter, Die Griechen in Persien (Berlin, 1978).
7. See F. Cumont, Astrology and Religion Among the Greeks and Romans (1912; repr. Dover, 1960), chapter 1; N.M. Swerdlow, The Babylonian Theory of the Planets (Princeton University Press, 1998) esp. chapter 1.
8. Here I deliberately take issue with Otto Neugebauer. Despite the influence of his The Exact Sciences in Antiquity, one of the ways it is flawed is in its assumption that Babylonian astronomy was a separate subject from Babylonian astrology. For recent useful discussions see Alexander Jones, ‘Babylonian Astronomy and its Legacy’, Bulletin of the Canadian Society for Mesopotamian Studies, 32 (1977), pp.11-16; ‘Evidence for Babylonian Arithmetical Schemes in Greek Astronomy’, in H.D. Galter (ed.), Die Rolle der Astronomie in den Kulturen Mesopotamiens (Graz, 1993), pp.77-94; ‘On Babylonian Astronomy and its Greek Metamorphoses’, in F. Jamil Ragep and Sally P. Ragep (eds.), Tradition, Transmission, Transformation, Leiden and New York: E.J. Brill, 1996; and Francesca Rochberg-Halton, ‘Elements of the Babylonian Contribution to Hellenistic Astrology’, Journal of the American Oriental Society, 108.1 (January-March 1988), pp.51-62.
9. The same lack of distinction between the words ‘astrologer’ and ‘astronomer’ applied in English until relatively recently. The OED remarks: ‘Gradually, 1972). It is also commonly stated, even by sympathetic scholars such as Lindsay, though not completely before the seventeenth century, astrology and astronomy took their current senses.’
10. For an accessible, consensus-opinion account of eastern astrology, see Cumont, op. cit, chapter 1; or S.J. Tester, A History of Western Astrology (Woodbridge: Boydell, 1987), pp.12 ff; or, most recently, M.R. Wright, Cosmology in Antiquity (London: Routledge, 1995), passim. It seems unlikely that the Greek Cleostratus, at the end of the sixth century, knew the zodiacal twelvefold division of the ecliptic, as the Roman writer Pliny recorded (Natural History 2.8), since that would push Greek knowledge of the zodiac back to about a century before we can be certain that the Mesopotamian zodiac had been developed.
11. FGrH 688F1. 23-5 Jacoby. The word ‘Chaldean’ was more or less synonymous with ‘astrologer’ for the Greeks.
12. Diels/Kranz, Fragmente der Vorsokratiker (Berlin, 1952), 68B298b and 299d. Fragment 32 Rose.
13. Fragment 32 Rose.
14. On this Greek confusion, see Kingsley, op. cit. A similarly apocryphal story is preserved by Aulus Gellius, writing in the second century CE, about Chaldeans predicting victory for Euripides in competition (Attic Nights 15.20.2).
15. E.R. Dodds. The Greeks and the Irrational (University of California Press, 1971), p.261.
16. W.J.W. Koster, Le Mythe de Platon, de Zarathoustra et des Chaldéens: Étude critique sur les relations intellectuelles entre Platon et l‘Orient (E.J.Brill, 1951), pp.11 ff.
17. See J. Bidez, Eos, ou Platon et l’Orient (Brussels, 1945), Appendix 1 (Bidez cites no cuneiform references). It is universally recognised that the Greeks had distinguished the planets from the fixed stars by the middle of the fifth century.
18. ‘Fixed and unalterable’ should not be taken too literally: Plato always allowed for the possibility of self-improvement.
19. The first known use of zodiacal degrees dates from 263 BCE. See A. Sachs, ‘Babylonian Horoscopes’, Journal of Cuneiform Studies, 6 (1952), pp.57-8. For a late (5th c. CE) use of moira to mean degree see Proclus, Hypotoposis astronomicarum positionum 3.52.4: ‘The next thing to consider is where the sun’s apogee and perigee are – I mean, in what degree (moira) of the zodiac they are.’
20. J.H. Holden, by contrast, claims that the Greeks ‘invented’ horoscopes in the third or second centuries BCE: A History of Horoscopic Astrology (Tempe: American Federation of Astrologers, 1996).
21. Index Herc, Col. III.36-41.
22. Cumont, op. cit., p.28. R. Campbell Thompson, The Reports of the Magicians and Astrologers of Nineveh and Babylon in the British Museum, (London: Luzac and Company 1900), vol. 1, no. 176; ‘Saturn is the star of the Sun and the Sun is the star of the king.’
23. I am grateful to Peter Kingsley for first drawing my attention to this ‘not’ and its weak manuscript authority. In his edition of Timaeus (Macmillan, 1888) R.D. Archer-Hind writes (p.135): ‘Although the negative rests on the authority of A alone, I have retained it … [It] would very readily be omitted by a copyist living at a time when astrology had become prevalent.’ Actually, even the manuscript A was not absolutely certain of this negative, perhaps because the form in which it occurs in the Greek is grammatically unusual – another indication that we have here a case of interpolation, not omission. None of the other editions of the text even try to justify their inclusion of the negative. A.E. Taylor perfectly summarises the prevalent scholarly attitude when he says, ‘Timaeus has the complete disregard for astrology (its existence among Oriental peoples was of course known to him) which marks all the Greek astronomy of the best period’ (A Commentary on Plato’s Timaeus (Oxford, 1928), p.244). Note the prejudices implicit in his use of ‘Oriental’ and ‘best’.
24. Also in Timaeus we find at 42b the idea that after death souls will return to a life of blessedness in the star to which they are akin. See also Republic 621b.
25. Bidez, op. cit., p.30.
26. I say that we are on safer ground, despite the fact that the only recent detailed commentary on Philolaus denies the authenticity of these testimonia: C. Huffman, Philolaus of Croton: Pythagorean and Prescocratic (Cambridge University Press, 1993), pp.381-91. But see the reply of P. Kingsley in his review of this book, Classical Review n.s 14 (1994), pp.294-6. Kingsley’s notes also contain references to a number of important studies relevant to the astrological interpretation of these testimonia.
27. There is an extraordinary magical rite preserved on a papyrus dating from the third or fourth centuries CE which clearly attributes astrological knowledge to the Pythagoreans, but since it is not certain whether the Pythagorean origin of the rite is as early as fifth or fourth centuries BCE, I have not included it in the main body of this article as evidence. Nevertheless, it may serve to support the authenticity of these testimonia, by the simple fact that Pythagoreanism and astrology were indubitably linked. The papyrus contains the text (7.795 ff. in K. Preisendanz’s Papyri Graecae Magicae (Stuttgart, 1931)) of a rite to guarantee dream divination by inscribing with cinnabar on each of the twelve leaves of a laurel branch a sign of the zodiac and crowning yourself with it. The papyrus was found in Egypt and makes use of some Egyptian symbolism, but still attributes the spell to Pythagoras (and to Democritus, on whom see A2).
28. All the sources are written as 44A14 of Diels/Kranz, and both the Greek and a translation are given by Huffman, op. cit.
29. Plutarch also assigns the disruptive deity Typhon to the number 56, an awkward divisor of the zodiacal circle. I am grateful to Nick Campion for pointing out the controversy surrounding the number 56 at Stonehenge. Gerald Hawkins and John White (Stonehenge Decoded, (London, Fontana, 1970)), argued controversially that there were 56 post holes in the Aubrey Circle at Stonehenge because this was best number for predicting eclipses. For the contrary point of view see Clive Ruggles, Astronomy in Prehistoric Britain and
Ireland (Yale University Press, 1999), p.40.
30. This practice is guaranteed for later classical astrology, at any rate, by Manilius, Astronomica 2.270 ff. Manilius wrote in Latin at the time of the emperor Augustus, in the last decades of BCE or the first decades of CE.
31. See further my notes on this complex passage in Plato, Republic (Oxford University Press, 1993), pp.432-4; and, in general, J. Adam, The Nuptial Number of Plato (1891; repr. Kairos/Thorsons, 1985).
32. Theophrastus, On Signs 4.
33. See e.g. J. Lindsay, op. cit., p.32. There is also, interestingly, a report (Columella, On Agriculture 9.14.12, written in the first century CE) that Meton knew how to measure the ecliptic in degrees. This of course fits in with the astrological context we have established for Philolaus. Also for Meton see David Pingree, ‘Legacies in Astronomy and Celestial Omens, pp.132-3, in Stephanie Dalley (ed.), The Legacy of Mesopotamia (Oxford: Clarendon Press 1998).

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