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A Influência Astrológica na Arbor Sapientiae

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Drew Collins

Drew Collins is an Associate Research Scholar at the Yale Center for Faith and Culture and a Lecturer of Divinity and Humanities at Yale University.

Tradução:

César Augusto – Astrólogo

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À primeira vista, a figura da Arbor Sapientiae ou Árvore da Sabedoria em Beinecke MS 416 pode parecer facilmente inteligível. Um lado descreve as sete idades do homem: bebê, menino, adolescente, juventude, homem, homem velho e homem idoso. O outro apresenta as sete artes liberais – gramática, lógica, retórica, música, aritmética e astrologia. O ponto parece ser que com a idade vem a sabedoria. Talvez certas disciplinas possam ser mais adequadas para diferentes faixas etárias. Ou, se não estamos inclinados a fazer correspondência direta entre os dois lados, pode-se supor simplesmente que o envelhecimento e a aprendizagem são processos com fases distintas e são agrupados por causa de sua associação mútua com o número sete. De fato, Elizabeth Sears faz essa mesma suposição em seu livro, The Ages of Man.

Um olhar mais atento sobre a organização das artes liberais dentro da figura e as origens da noção das sete idades do homem, no entanto, revela que há muito provavelmente mais nesta ação do que simplesmente correspondência numérica. Que a figura tenha na astrologia o topo das artes liberais é particularmente significativo. Isto é estranho, primeiro de tudo, porque a lógica era tipicamente reconhecida como a disciplina acadêmica de maior prestígio entre as artes. Segundo, pelos relatos, o nome do campo de estudo deveria ter sido astronomia, não astrologia.

O século XIII foi um período de mudanças dramáticas na aprendizagem ocidental. As traduções latinas de obras antigas e árabes de Aristóteles, Ptolomeu, Avicena, Albumasar, bem como o surgimento de universidades criaram um clima em que as classificações tradicionais de conhecimento estavam passando por mudanças. O valor da astrologia foi muito discutido. Enquanto muitos foram contrários, Roger Bacon, entre outros, argumentou fortemente pela inclusão e aceitação da astrologia como ciência que ilumina a humanidade e nosso estudo do mundo e do divino. Propõe-se neste ensaio que este atípico destaque da astrologia na ordenação das artes liberais na figura de Beinecke é o resultado de um renascimento do estudo astrológico na Idade Média central, representado mais claramente no trabalho de Roger Bacon.

A figura da Arbor Sapientiae consiste em quatro partes básicas: os lados direito e esquerdo da árvore, o topo e o inferior. Começando pela base: a árvore está plantada em um vaso, em cujo rebordo está rotulado “Sabedoria”. No meio do vaso está inscrito as palavras: “Assim eu irei, Assim eu decreto, Assim eu faço, por direito meu”, o que pode indicar Deus como o orador, ou pode ser de fato as palavras de sabedoria personificadas. Abrangendo o espaço de ambos lados do vaso há uma sentença que lê: “A Sabedoria apresenta uma vida em sete partes, demonstrando as artes que um homem prudente deve procurar”. Isso se refere ao princípio organizador da figura em si, com a vida dividida em sete idades de um lado e as sete artes liberais do outro.

No lado esquerdo da ilustração, as sete idades do homem são apresentadas. Lá são oito ramos, no entanto, o primeiro é intitulado “Natureza”, referindo-se a natural progressão de vida e contém a inscrição: “Toda natureza através de mim transmite suas leis.” Esta frase parece ser apresentada pela Sabedoria – seja divina, como na criação das próprias leis, ou no homem, em relação a percepção dessas leis. A primeira idade é a da criança, cujo pergaminho diz: “Eu não falo e minto ante os imutáveis elementos da natureza”. O próximo é o garoto, para quem “o destino é límpido” e “mais puro que o fluxo da natureza”. Então vem o adolescente, que reconhece que “formando meus valores, a flor exala seus odores em mim”. Isto é seguido pela juventude, cuja legenda declara que “destino, ignorante da tristeza, surge no fruto da juventude”. A legenda para a idade do homem adverte o leitor para “protejam-se homens e associem-se com homens de habilidade”. O velho, refletindo, sobre sua idade, diz que envelhecer significa “Ter plena consciência”. Finalmente, o homem à beira da morte, é dito pela legenda para ser “colocado em dúvida.”

O lado direito da figura, que apresenta as artes liberais, é disposto em um padrão semelhante. As artes estão agrupadas sobre o título “Filosofia”, que procede de algo divino ou da sabedoria humana. As próprias artes seguem, personificadas e acompanhada de declarações, com as exceções de “Gramática” e “Retórica”, cujas legendas são faladas pela pessoa que estuda essas artes. Então a primeira arte, Gramática, é acompanhada pelo testemunho que “com cuidada gramática eu falo corretamente, sem artifício ”. A seguir, a Lógica é personificada, advertindo, “sem mim o conhecimento do homem cultiva minhas irmãs em vão”. Então a legenda da Retórica informa ao aluno que essa arte é o método para ele “falar com requinte.” A Música lembra o leitor que “melodias vocais encontram sua ordem através de mim”, seguida pela Geometria que anuncia que sabe “a medida das coisas e sua forma”. A penúltima arte, Aritmética, diz: “eu explico através do número qual é a proporção das coisas”. Finalmente, a Astrologia proclama: “Eu possuo só para mim as estrelas e os vários caminhos dos céus.”

A última parte da figura, o topo da árvore, é deixado vazio, mas é rotulado como “Santíssima Trindade”. Uma frase, semelhante à da base inferior do vaso, abrange o topo: “Organizo todas as coisas, crio todas coisas, e forneço todas as coisas. ”

Um dos aspectos imediatamente mais impressionantes da Arbor é a sua ênfase no número sete. Atribuindo significância ao acordo numérico que pode ser rastreado até os pitagóricos, que acreditavam que a verdadeira natureza das coisas é constitui-se pelo número. Os pitagóricos consideravam a alma um microcosmo do universo e o homem e o cosmos poderiam ser entendidos através das harmonias matemáticas comuns a ambos. Apesar de que, não diretamente sob o domínio dos pitagóricos, o criador da nossa figura compartilha a crença que esses números sustentam o curso dos eventos da pessoa e do mundo. Ao vincular as idades do homem com as artes liberais ele também mostrou o seu acordo com a noção antiga dessa simetria numérica vinculada a elementos que pareciam externamente não relacionados.

Também foi importante para o criador da Arbor a visão ptolomaica da influência celeste na atividade humana. Segundo o Tetrabiblos, redescoberto pelo Ocidente no século XII, o poder é irradiado de uma região chamada éter, causando assim as mudanças dos elementos sublunares como as plantas e animais. Na opinião do autor do Tetrabiblos, o Sol, a Lua, planetas e as estrelas exercem uma força sobre o mundo e o mais importante, sobre o homem.

No sistema ptolomaico “os atributos de cada de idade estão de acordo com a natureza de seu planeta dominante”. A Lua úmida e instável domina a infância. Mercúrio influencia a criança, pois “trabalha com a alma racional, implantando as sementes de aprendizado”. Na adolescência, Vênus assume e reina instilando paixão e incontinência. O Sol implanta autocontrole e o início ansiado por reputação e juventude, enquanto Marte introduz “um senso fundamental de passagem, miséria e ansiedade e um desejo pela dignidade e conquista” no homem. No velho Júpiter oferece descanso de labuta, dignidade e discrição e Saturno esfria e diminui a velocidade morrendo, instilando fraqueza e descontentamento.

Com estas descrições em mente, parece que se pode de fato ter alguma correspondência horizontal entre as idades e as artes na Arbor Sapientiae. O efeito racional de Mercúrio na alma corresponde com a Lógica, que se aprendida na infância, revela o uso adequado das outras artes e abre possibilidades no destino do garoto, como a figura indica. A natureza apaixonada de Vênus na adolescência é ligada ao estudo da Retórica, considerada útil, mas uma arte em última análise vã, a influência de que deve se parecer com uma flor pois apenas “exala seus odores” na formação dos valores do adolescente. O Sol incutindo autocontrole e sobriedade na juventude, quando o “destino, ignorante da tristeza, emerge”, está do outro lado da Música, com sua rigidez de regras matemáticas através das quais “a modulação de vozes encontra seu lugar”. A realização da mortalidade e o senso de urgência aciona o homem a buscar a realização que Marte causa no homem e é ecoada nas obrigações de se proteger dos homens e associar-se a homens de habilidade”, auxiliados pelo conhecimento da Geometria sobre “a medida das coisas e sua forma”. E assim com o descanso, a dignidade e discrição de Júpiter influenciam o homem velho, então a figura diz que ser velho é “ter plena consciência” que está associado a capacidade da Aritmética para explicar “a proporção de coisas” no reino terrestre. No entanto, a relação entre os dois últimos, o idoso e astrologia, é mais difícil de determinar. Enquanto “O homem idoso é colocado em dúvida” como Saturno instila fraqueza e descontentamento, à Astrologia é dito possuir “As estrelas e os vários caminhos dos céus”. A relação mais plausível parece ser que a perspectiva cada vez mais sombria dos idosos pode ser amenizada pelo conhecimento da astrologia, a mais celestial das artes liberais.

Não apenas a astrologia ptolomaica se destaca no fundo da Arbor sapientiae, mas também as reflexões filosóficas de Platão. Ele argumentou que o imanente é inerentemente inteligível, que essa verdade é alcançada por meio da razão, e que existem dois reinos: o de ser inteligível, eterno e constante (as formas) e o do vir a ser (o mundo), que é apreendido através dos sentidos. A metafísica de Platão, particularmente como ela foi comunicada por Agostinho, habilita o cristão medieval a acomodar o estudo do mundo (e o cosmos) com suas crenças no reino eterno de Deus. Na estrutura cristã platônica o estudo dos fenômenos naturais e a manutenção da fé religiosa eram complementares. Esta aceitação é expressa no currículo das universidades de século XIII, que simultaneamente abraça a filosofia natural e a teologia. Isto também é profundamente enraizado na Arbor, que não concede apenas um valor particular do estudo astrológico, mas o vê como um meio de levar mais próximo ao entendimento de Deus.

A organização conhecimento dentro da universidade se deve muito com a redescoberta de Aristóteles. Iniciada nas universidades do século XIII, a classificação de conhecimento “tornou-se mais rigorosa, sistemática e abrangente”. Nossa figura inteira exemplifica essa tendência apresentando uma organização hierárquica das artes liberais isso corresponde à progressão natural da vida humana.

A filosofia natural aristotélica também subjaz às ideias de criação e destruição, assunto mantido pelo criador da Arbor. Aristóteles afirma na Física que o movimento é a fonte essencial da mudança e geração. No seu De generatione et corruptione, Aristóteles começa argumentando que o princípio efetivo de causação explica como o Sol gera mudanças na Terra. Para explicar o crescimento e a deterioração, criação e destruição, Aristóteles postulou a ideia de que o movimento elíptico do Sol ao redor da Terra, “implica um certo avanço e recuo”. Nossa figura mostra a influência de pensamento aristotélico, ilustrando o homem avançando e recuando na vida e como ele ganha e perde força no curso das sete idades. Da mesma forma, um alinhamento paralelo mostra como o conhecimento pode avançar enquanto a vida, em essência, recua.

Os esquemas de classificação de Aristóteles, bem como sua especulação científica, podem muito bem ter sido considerado pelo criador da nossa figura. Mas, mais importante para ele era o compromisso de Aristóteles com o estudo da natureza como uma ferramenta filosófica. A crença de que a ciência poderia ser usada para desbloquear verdades filosóficas, mesmo teológicas foi revolucionária para estudiosos latinos na idade Média. Desafiou a noção tradicional de que todo conhecimento deve estar subordinado a disciplina de teologia.

A ideia de que filosofia natural é um ramo útil de sabedoria na investigação teológica, bem como a crença de que a astrologia é a mais importantes das artes liberais é expressada pelo estudioso do século XIII, Roger Bacon. Em 1266, o Papa Clemente IV ordenou que Bacon apresentasse um relatório sobre o ‘status’ da filosofia dentro da teologia e mais especificamente, sobre a situação acadêmica da

Universidade de Paris e o “desenvolvimento do conflito sobre Aristóteles na Faculdade de Artes”. A resposta de Bacon foi o seu Opus maius, no qual ele não apenas argumenta sobre as interpretações árabes de Aristóteles por Avicena e Averroes devem ser estudadas pelos alunos cristãos na Universidade, mas além disso, que Aristóteles e a astronomia (isso inclui a astrologia), juntamente com outras ciências, deveria ser incorporada na criação de uma nova teologia.

Bacon divide a astronomia em três partes: a primeira diz respeito à princípios matemáticos sobre as teorias dos movimentos celestes; o segundo lida com os usos de instrumentos astronômicos; o terceiro é focado nos poderes naturais dos corpos celestes e a influência que cada um deles tem sobre a Terra. Enquanto que a das duas primeiras partes tem importância para o cristianismo, argumentou Bacon, em assuntos como determinar a data real do nascimento de Cristo o que foi relativamente aceito por seus contemporâneos, o significado da terceira parte, o chamado processo judicial da astronomia ou astrologia, foi mais controverso.

Em oposição àqueles pais da Igreja que tiveram a astrologia pintada como uma forma de magia que alegava possuir infalível conhecimento sobre o mais específico dos aspectos aqui em Terra, Bacon argumentou que enquanto alguém puder fazer previsões sobre o comportamento e disposição das pessoas através dos corpos celestes e sua influência em humanos, essas previsões podem apenas ser de natureza geral ou universal. Ele é tentando a afirmar que uma compreensão das leis da natureza como regras só pode ser determinada pela experimentação e observação, enquanto existe um espaço para a influência de ambos, a vontade de Deus e a vontade do homem. Descrevendo a metodologia adequada para cientistas/filósofos naturalistas, ele escreveu:

Quando eles preveem a possibilidade contingente de qualquer coisa acontecer em eventos naturais ou voluntários, eles não dizem que isso acontecerá por necessidade, mas que isso possa acontecer, e que isso acontecerá na medida em que está de acordo com o poder de suas causas, e que isso acontecerá em virtude dessas causas, a menos que Deus mude a Lei Ordenada da Natureza e a sua Vontade.

Essa ideia, de que existem verdades observáveis ​​e discerníveis presentes na causa e efeito em relação aos corpos materiais no mundo e no universo que ajuda na busca do conhecimento divino, também está presente nosso próprio Arbor sapientiae. A figura não apenas sugeri que esse conhecimento do divino vem através de ambos processos natural de envelhecimento e o processo de adequação da educação nas artes liberais. Além disso, afirma que a astrologia, o estudo dos próprios planetas, seu movimento e sua influência no homem e na Terra ao seu redor, estabelece a base para o entendimento de Deus e a Santíssima Trindade.

Não deveria ser surpresa que a Arbor sapientiae foi usada como uma ferramenta instrutiva e moralizante, que incorporou a amálgama cristianizada de tantas escolas antigas de diferentes pensamentos. Enquanto apresenta diretamente os dois modos de aproximação da sabedoria no envelhecimento e na educação, implicitamente oferece de Pitágoras e Platão e mais importante, de Ptolomeu, Aristóteles, a sua síntese cristã apresentada por Roger Bacon. De fato, a mesma ideia por trás da ênfase da figura na importância da astrologia é provável ter influenciado seu próprio propósito de instrução visual – ou seja, a ideia que a verdade é discernível através de nossos sentidos e mais importante, através da visão. Como Aristóteles escreveu,

Todos os homens por natureza desejam o saber. A indicação disso é o prazer que sentimos em nossos sentidos … e acima de todos os outros o sentido de visão… [que mais que os outros sentidos] nos faz saber e traz a iluminação para as diferenças entre muitas coisas.

Em sua Perspectiva, Roger Bacon pega essa ideia e a batiza. Além da verdade material em si, há aqui a divina verdade. Nas suas próprias palavras:

[A visão da ciência tem] utilidade inexprimível com respeito à sabedoria divina. Pois nas escrituras divinas, nada é tratado tão frequentemente como assuntos pertinentes aos olhos e a visão … e, portanto, nada é tão essencial para [uma compreensão] do sentido literal e espiritual do que a certeza fornecida por esta ciência.

Somente o homem pode aprender sobre a natureza das verdades divinas através do uso de visão com a astronomia e a astrologia, ele também pode determinar os significados necessários para aplicar o aprendizado de sua visão em figuras como a Arbor sapientiae.

O período durante o qual o Arbor Sapientiae foi produzido foi o de maior conscientização sobre ciência a celeste e sua clássica influência, que foi devido ao recente aumento de universidades, traduções recentemente disponíveis de textos clássicos de Aristóteles e outros, e filósofos teólogos-naturalistas como Roger Bacon. Ao enfatizar a superioridade da astrologia nas artes liberais juntamente com as sete idades de homem o criador da Arbor pode ter apoiado conscientemente as afirmações de Roger Bacon, ou ele pode ter feito isso sem intenção. Intencionalmente ou não, as várias ideias incorporadas na figura iluminam nosso entendimento da natureza e do pensamento do final do século XIII. Aos olhos do criador da Arbor sapientiae, a astrologia foi a maior das artes liberais, e aquela com a maior influência na compreensão do homem e da Santa Trindade. Na figura, a grande folhagem no pico da árvore dedicada a este mistério é totalmente sem qualquer ilustração. A ideia parece ser que, enquanto Deus é incognoscível, o universo que ele manifesta é realmente bastante cognoscível. Através do conhecimento do mundo e do cosmos circundante, chegamos mais perto de aprender a verdade sobre a natureza divina.

Ω

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