Traduções

A Astrologia da Antiguidade

Emmanuel d’Hooghvorst

Conferência proferida pelo Barão Emmanuel d’Hooghvorst, 15 de dezembro de 1975 em Bruxelas, publicada em “Le Miroir d’Isis”, número 14, inverno de 2008.

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Resumo

Esta conferência sobre astrologia na antiguidade lança luz sobre o que é astrologia, refaz sua história e nos mergulha no conhecimento tradicional, que oferece a perspectiva de levar a natureza humana a um estado de perfeição além do qual não há mais progresso possível.

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Um feiticeiro da vila que cura o câncer com ervas… Uma mãe que salva seu filho mordido por uma cobra venenosa usando apenas a magia… uma avó que orgulhosa recupera seu peito e alimenta um bebê em virtude de um caldo de ervas colhidas na floresta… Os povos primitivos, como aqueles da África Ocidental ou Equatorial, herdaram um conhecimento do que, aparentemente, nada os havia preparado a adquirir. Se perguntados de onde eles vêm, eles respondem: dos antepassados!

A sabedoria tradicional, ou a ciência tradicional, se distingue da ciência acadêmica no que é uma ciência transmitida. Ela é um tipo de essência ancestral que recebemos e que também devemos valorizar e transmitir do modo mais intacto possível aos nossos descendentes.

A astrologia está entre as ciências tradicionais que não deve nada às invenções humanas. Lamentamos ser difícil encontrar seu inventor. Todas as pessoas que a praticaram sempre a relacionaram com os seus antepassados como uma arte da adivinhação. Assim, os gregos e os romanos disseram manter esta arte dos egípcios e caldeus.

Segundo René Guénon, a tradição é feita “do que permanece como era originalmente”: isso é algo que tem sido transmitido de um estado passado da humanidade para um estado presente. A origem dessa tradição, não sendo apenas humana, como veremos, não é provável que progrida. Quando se diz respeito à astrologia, uma obra que remonta a quase dois mil anos, o Tetrabiblos do matemático e astrônomo Ptolomeu não há nada em absoluto a invejar dos tratados que são escritos por nossos melhores astrólogos contemporâneos.

Sem dúvida é um erro acreditar que a história do pensamento do ser humano anda de mãos dadas com o desenvolvimento da tecnicidade. Temos a impressão de que a tecnicidade, e não a técnica da qual nos faz tão orgulhosos, tem o efeito de superar e de substituir certo déficit da intuição e da sutileza do homem nos dias de hoje. Os homens de outrora não tinham a necessidade da nossa tecnicidade, eram particularmente mais sutis e mais diretamente relacionados ao cosmos.

A ciência dos astrólogos é fundamentalmente diferente das ciências modernas: ela parte, assim como todas as ciências tradicionais, do ponto de vista humano. Ela coloca o homem no meio do cosmos. E não é assim que toda a sabedoria tradicional aborda o saber do homem, reduzindo todo o conhecimento para a unidade do homem? Todos os princípios desta ciência poderiam ser resumidos neste tema que foi inscrito no frontão do templo de Delfos:

Conheça a si mesmo e você conhecerá o universo e os deuses.

A ciência moderna procede de um princípio absolutamente diferente, pois para ela, tudo é revisado e questionado à luz da razão humana. O argumento da autoridade dos antepassados, obviamente, não é mais válido e, portanto, a ciência moderna está sujeita à evolução e ao progresso. É assim que vemos essas ciências dando à luz técnicas extraordinárias, das quais todos somos beneficiários, isso é evidente, e isso ajuda a nos instalar e viver melhor no mundo em que nos encontramos. Graças a essas técnicas, o homem fez um inventário da multiplicidade. Poderíamos quase dizer que ele se dispersa no infinito e na multiplicidade. À medida que o homem progride, ele vai para a descoberta – ele investiga o infinitamente pequeno e o infinitamente grande – ele vai cada vez mais longe, mas temos o direito de pensar: cada vez mais longe do que, se não de si mesmo?

Para essa noção de progresso indefinido, poderíamos talvez opor, com Louis Cattiaux, o autor da Mensagem Reencontrada, a noção de arte: a arte tem o efeito de levar a natureza a um estado de perfeição além da qual não há mais progresso possível. Estado que os antigos descreviam tomando o exemplo do vidro: vidro é uma areia, um nitro, movido para um estado de perfeição a partir do qual não há mais progresso.

Então, se considerarmos a astrologia como uma ciência da Natureza – o que realmente é: a astrologia é a ciência da natureza humana; a Natureza só pode existir através da união do Céu e da Terra: onde o Céu e a Terra não se unem, ou não estão unidos, não há Natureza – então podemos  nos fazer uma pergunta: haveria uma arte, uma arte do céu, que transmitida nos permitiria, como aos Anciãos, guiar, para levar a natureza humana a um estado de perfeição além da qual não haveria mais progresso? É isso que os antigos nos ensinaram falando sobre palingênese (παλιγγενεσία), a nova geração, um renascimento … E os Anciãos também nós falaram sobre a deificação do homem, para fazer do homem um deus.

Alguns exemplos ajudarão a entender melhor essa noção de arte e de natureza. Assim a natureza produz trigo, mas a arte produz o pão. A natureza produz a videira, mas é a arte que produz o vinho. Nunca encontraremos vinho, nem pão produzido naturalmente. É preciso a mão de homem… Então haveria nesta terra uma arte que produziria deuses ? Contanto que, bem entendido, que esta é uma nova geração, um novo horóscopo…

Existe na astrologia, como é praticada, algo um pouco decepcionante, no sentido de que não tem propósito. O homem nasce com um certo horóscopo, um certo destino: ele é feliz, infeliz … rico, pobre … ele tem boa saúde, ou não … e então ele morre. Ele vai da geração à corrupção, como diziam os antigos. E quando ele morre, as estrelas continuam seu curso no zodíaco, independentemente de serem aquelas que lhe deram à luz ou aquelas que levaram a corrupção…

Então, é verdade, de acordo com Píndaro, que o homem é um sonho de uma sombra? Um sonho que se realiza durante um breve momento no tempo, e então é apagado como a sombra que deu à luz a ele? Esta é a pergunta que faríamos para os antigos, e especialmente para os gregos e romanos.

Notemos que os judeus também nos deixaram uma tradição astrológica. Os judeus descendentes de Abraão, que era um Caldeu e que havia transmitido a astrologia caldeia a seus filhos e da qual ele próprio era o depositário. Por isso quando lemos os comentários bíblicos hebraicos, por exemplo, no Talmude, encontramos muitos comentários nos versículos da Escritura onde se trata da astrologia.

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Encontramos a astrologia desde o momento em que o pensamento grego nos deixou testemunhos. Cleóstrato (Κλεόστρατος), de Ténedos no século VI a.C., nos deixou um tratado de astrologia em que ele apresenta o significado dos diferentes signos do Zodíaco.

No século VI, Heráclito de Éfeso, uma cidade na região asiática da Grécia da Caldeia, havia escrito um opúsculo de filosofia, que ele confiou aos padres que os recomendavam transmiti-lo cuidadosamente. Não havia quase nada, apenas cem fragmentos de uma frase ou duas … Dois desses fragmentos lidam com da ciência do céu. No primeiro, que é biográfico, Heráclito fala sobre o que ele chama de grande ano. É uma espécie de medida de tempo. Para nós que estamos na terra, obviamente, o tempo é medido pela elevação e configuração do Sol. Mas para um observador que estaria acima da lua ou ao nível da lua, como contar o tempo? O grande ano é precisamente o espaço de tempo que separa um certo estado do céu, de cada planeta estando em um ou outro signo, do próximo estado que seria exatamente o mesmo.

Por exemplo, o mundo teria sido criado – ou, mais precisamente, a máquina teria começado a girar – com todos os planetas em seus domicílios: Marte em Áries, Vênus em Touro, etc. Para encontrar um momento em que as estrelas se encontrariam na mesma posição, teríamos que esperar pela renovação de um grande ano … Heráclito definiu o grande ano por um período de 10.800 anos; mas isso é puramente simbólico, multiplicando 360 por 30, sendo trinta o número anos de vida média de um homem.

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Interlúdio

Reconoce, es cierto, que la afirmaba Aristóteles (cosa que Burnet negaba); pero se la reprocha como un error procedente de la pretensión aristotélica de hacer de Heráclito un físico al igual que los demás presocráticos, con su teoría sobre el ciclo de creación y destrucción del cosmos, y con su concepción del flujo universal. Teofrasto y los estoicos siguen a Aristóteles; sin embargo, el propio Teofrasto, reproducido por Aecio, debe confesar la ausencia de una verdadera cosmogonía en Heráclito.

En cambio, Platón había opuesto la inmutabilidad eterna del cosmos heraclíteo al ciclo de la concepción de Empédocles; y Heráclito, en efecto, no sólo habla siempre de cosmos en el sentido del orden actual, sino que, dice Reinhardt, en su fragmento 30 (Diels) sostiene que este cosmos no ha sido creado ni por dioses ni por hombres, sino que existe siempre (έστί, según Reinhardt, tiene aquí sentido existencial y no copulativo) como fuego que se enciende y se apaga conforme a medidas. Es decir, siempre con equilibrio y límites de cambio que excluyen una conflagración universal, cuya idea quiso introducir Clemente, agregando en el fragmento, a las palabras “este cosmos”, la interpolación: “el mismo de todos” (los anteriores y los sucesivos).

La idea de medida se repite con insistencia en Heráclito. En todo cambio (siempre particular y nunca universal) cada forma “vive la muerte” de otra y viceversa, con equilibrio constante, en el microcosmos y en el macrocosmos igualmente. Siempre identidad de los opuestos, y nunca ciclo o desequilibrio. Tampoco en las alternativas de día y noche, verano e invierno, que Heráclito explica con el juego constante y siempre igual de los vapores claros y oscuros, ora recogidos en la copa, más cercana, del sol, ora (en su ausencia) en las más lejanas de las estrellas, prevaleciendo ya los claros, ya los oscuros.

La exclusión de todo ciclo lleva así a Reinhardt al problema de los grandes años cósmicos, atribuidos por Censorino a Heráclito. Los griegos (dice) no conocieron el gran año cósmico (muy diferente del astronómico) hasta que Diógenes de Babilonia lo introdujo en el estoicismo, trayéndolo de la astrología oriental. Los estoicos quisieron entonces encontrar antecedentes de la conflagración en Hesíodo, Orfeo, Heráclito, etcétera, así como se ve en Plutarco, De defect. oracul., que se opone a la exégesis estoica. Respecto de Heráclito, los estoicos insistían en su teoría de la generación (30 años en que puede cumplirse el ciclo desde el recién nacido hasta el abuelo). Contando la generación como un día, Heráclito formaba así un gran año de 360 generaciones (~10.800 años solares).

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Imagen epistémica, Imagen gnóstica

Fernando Zamora Águila

El diagrama se estructuraba en divisiones dodecádicas basadas en los números 36 y 360, de valor astronómico, y en una división tetrádica correspondiente a las cuatro estaciones del año. Se obtenía una péntada si se agregaba un centro a esta última, que significaba el axis mundi o eje de rotación de la esfera celeste. Consistía en un conjunto de lugares (loci) organizados en círculos concéntricos. En cuanto a su aspecto enciclopédico, incluía contenidos sobre anatomía, psicofisiología, teología simbólica y geografía. Pero más relevantes eran sus representaciones visuales de nociones filosóficas como Nous (νοῦς) o Intelecto, Pronoia (πρωνοια) o Providencia y Prognosis (Πρόγνωση) o Preconocimiento. Todos estos contenidos eran aprendidos y recordados siguiendo la técnica icónica de Posidonio. Según los gnósticos, que reconocían “el poder de la imagen activa para influir en la conducta”, el aprendiz dibujaba mentalmente cuadros que representaban las invisibles realidades morales.

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El Círculo de la Sabiduría

B. L. van Waerden piensa que la noción del Gran Año es e origem babilonio, pero, como advierte D. Unlansey, en The origins of the mithraic mysteries, de ahí no há de inferirse una influencia próximo-oriental en los estoicos, ya que le concepto de Gran Año entró em la tradición griega mucho antes de Zenón. Al pitagórico Filolao (siglo V a.C.) y a Heráclito se les atribuían cálculos sobre la duración del Gran Año, al que también Platón hace referencia en el Timeo. El Gran Año de Heráclito, según Censorino, tiene una duración de 10.800 años solares y el del atrónomo Aristarco, contemporáneo de Zenón, de 2.484. Entre los estoicos los cálculos arrojaban cifras muy diversas. Sólo conocemos gracias a una referencia de Aecio, la de Diógenes de Babilonia, que le asignaba ‘360 veces el Gran Año de Heráclito’. Como Aecio, a diferencia de Censorino, atribuía al Gran Año de Heráclito 18.000 años solares, el de Diógenes duraba 6.480.000.

La velocidad con que se mueven los puntos equinocciales es de 1 grado cada casi 72 años de modo que el polo celeste tardia 2.155 años solares em recorrer un signo, y 25.860, los 360 grados del círculo zodiacal completo.

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Portanto, este é um período quase indefinido de tempo. Esse é um movimento sempiterno, que está sempre voltando, e que é muito mais longo do que o tempo na terra. Deste modo encontramos uma outra palavra para designá-lo; se aqui abaixo a medida é chamada de tempo, acima da lua é chamada de Αἰών, em latim de aevum“. A doutrina das eras se fez famosa em todo pensamento greco-latino, e nós a encontramos até em Santo Tómas, que adotou em sua Suma Teológica, a fala do ‘aevum’ (Αἰών), isto é, a idade.

Uma das conseqüências dessa doutrina é que, se o ano for dividido em quatro estações, o aión também se divide em quatro idades subsidiárias, de diferentes temporalidades, onde temos a chamada Idade de Ouro, Idade de Prata, Idade de Cobre e Idade de Ferro. A idade de ouro é como a primavera da humanidade, seu período é o mais belo e mais longo, seguida pelas outras três até depois de um longo período de tempo onde recomeça o novo florescer.

Nós também temos, entre os hindus, uma concepção social com base nessa doutrina das quatro idades. De acordo com a famosa teoria das castas, dificilmente entendida pelos ocidentais, de fato haveria homens de ouro, homens de prata, cobre, ferro … de acordo com uma certa seleção, que além de ser impossível determinar, daria origem a casta dos Brâmanes (ब्राह्मण), a dos Kshatriya (क्षत्रिय), etc.

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Símbolos da Evolução

Felipe Costa Fernandes

Jung também lembra a concepção da alma como um círculo formado a partir de um ponto. Em Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo, cita a passagem das Enéadas de Plotino:

Sempre que uma alma se conhece, sabe que seu movimento natural não se processa em linha reta, pois sofreu um desvio; mas sabe que descreve um movimento circular em torno de seu princípio interior, em torno de um centro. Mas o centro é aquilo de onde procede o círculo. A alma, portanto, movimentar-se-á em torno de seu centro, isto é, em torno do princípio de onde ela procede. (…) Mas só as almas dos deuses se movimentam em direção a ele, e por isso são deuses, pois tudo o que se acha unido a esse centro é, em verdade, deus, ao passo que o que se acha afastado dele é o homem, o homem sem unidade, o homem animal.

No psiquismo o centro tem uma função transformadora:

(…) o termo [centro] é utilizado para designar fundamentalmente o “centro objetivo” ou lugar da transformação criadora: exterior ao sujeito já constituído, e construído pela atividade psíquica geral. Neste significado, é sinônimo de centro o termo Si mesmo, enquanto ponto mediano do inconsciente e da consciência, e o Eu é ao invés compreendido como o centro da consciência. Os dois centros coincidiriam apenas nos casos de inflação psíquica.

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Os gregos também deificaram e incorporaram o éon. Para eles, éon também era o nome de um deus e de um deus que era corporal. Isto é pelo éon, eles disseram, que o ser supremo exerce sua ação sobre o mundo, e então chamamos de éon os poderes eternos emanados do ser supremo.

Não devemos confundir esse tempo sempiterno com a noção de eternidade, sendo esta a ausência de movimento. Para os gregos, o mundo da eternidade também existe, mas além da esfera das estrelas fixas, onde não há mais movimento e onde os platonistas localizam o que eles chamavam de pradaria das idéias, as idéias eternas. O éon foi, portanto, considerado o intermediário entre o tempo e a eternidade.

Talvez tenha sido essa concepção que deu origem a fórmula da bênção da Igreja Ocidental: “Que ele seja abençoado pelos séculos dos séculos”, sendo os séculos dos séculos os éons, cuja influência, como veremos, flui perpetuamente sobre nossa terra.

Os babilônios se gabavam de ter acumulado uma enorme massa de observações, registradas em arquivos, sobre o curso das estrelas e todos os eventos que eles haviam determinado em um grande ano. É nessas observações que Gustave Brahy5 baseou-se, de acordo com suas próprias palavras, em anunciar eventos muito graves por volta de 19906. Mas ninguém, nem mesmo os caldeus, nunca puderam determinar a duração do ciclo, que fez Cícero dizer, em seu tratado Sobre a natureza dos deuses II, 9:

Essa conversão dos astros ao ponto de partida é muito longa, esta é uma questão difícil, mas nem por isso é menos certa.

5 Gustave Lambert Brahy, célèbre astrologue belge, fondateur de la revue Demain et du Cébesia (Centre belge d’étude scientifique des influences astrales).
6 Il faut reconnaître que la fin du régime soviétique (fin 1989) constitue un ensemble d’événements les plus lourds de conséquences pour l’avenir de l’humanité.

Em efeito, se brincarmos com um caleidoscópio e olharmos as imagens que se sucedem, o cálculo das probabilidades nos permitirá afirmar que, em algum momento, a mesmo imagem já vista será reproduzida. Isso é ainda mais verdadeiro quanto ao curso dos astros, que não é apenas regulamentado pelo acaso, mas por números.

Os antigos egípcios fizeram o horóscopo do mundo (Thema Mundi). Segundo eles, o mundo nasceu no momento da aparição, no Oriente, da estrela Sirius. Sirius é, de acordo com Louis-Claude de Saint Martin, Des rapports de Dieu, des hommes et du monde, a estrela de Pitágoras. Os egípcios chamavam-na de Sôtis e a consagravam à deusa Ísis. Então seria normal o mundo nascer no momento em que a grande deusa dos egípcios, Ísis, estivesse subindo no horizonte. O ascendente do mundo, para os egípcios, portanto, deveria estar a 14 ou 15 graus de Câncer. Com a lua no ascendente, a sendo a lua o planeta de Ísis. O sol na segunda casa em Leão: é quando o sol entra nesse signo, no início de agosto, quando a inundação do Nilo é a mais forte. É o Nilo que, a cada ano, fertiliza a terra santa do Egito: era normal que essa fertilização coincidi-se com o início do mundo. Então seguem-se os outros planetas de acordo com cada domicílio: Mercúrio em Virgem e Saturno no Ocidente em Capricórnio. O mundo foi criado à noite, pois o sol estava na segundo casa, e é natural, caso contrário, o criador não teria dito: “Que haja luz!”.

A partir dessa teoria de que um novo mundo começa de novo sempre que os planetas se encontram na mesma posição, alguns têm criado conceitos bastante extremos como o mito do eterno retorno. Nietzsche, que era helenista, mostrou-se bem interessado. De acordo com essa ideia, chegará um tempo, muito distante, durante o qual nos encontraremos, eu aqui e você lá, eu falando com você e ouvindo você, dentro dessa mesma estrutura, e falando do mesmo assunto. As estrelas reiniciando, tudo terá que começar de novo do mesmo jeito.

Isso deu origem ao que foi chamado de milenarismo, sobre o qual Heráclito também nos falou. Em outro fragmento, ele diz:

A Sibila, que com uma boca delirante, pronuncia suas palavras sem sorrir, sem embelezamento e sem unção, atravessa com sua voz um termo de mil anos.

Ora, o que a Sibila  anuncia perpetuamente? A Idade de Ouro. Como os profetas de Israel se sucederam anunciando o Messias, as muitas Sibilas da Antiguidade têm todas anunciado a Idade de Ouro.

De acordo com essa teoria, a Idade de Ouro deverá vir após um ciclo de mil anos. Mas essa figura também parece simbólica. O Apocalipse também fala de um reinado de Cristo que duraria mil anos. Os famosos reinados de terror do ano mil então nasceram: as pessoas acreditavam, no final do primeiro milênio, que o o fim do mundo havia chegado. E certamente, apesar do nosso conhecimento científico mais avançado, conheceremos os terrores do ano dois mil.

De fato, já encontramos esses terrores do ano mil na Antiguidade, como Tito Lívio relata em sua História de Roma. Enquanto cantava o grande Virgílio, o maior poeta que mundo ocidental jamais produziu, que viveu naturalmente na Itália, berço da arte e da civilização, a Idade de Ouro de Roma teria começado com a destruição da cidade de Troia. Está é de fato a destruição que permitiu ao piedoso Eneas, depois de muitos e naufrágios infortúnios, aproximar-se das costas da Itália e encontrar a cidade de Alba Longa, de onde Roma emergiu.

Segundo a teoria milenarista, o novo milênio deveria então começar novamente com a destruição de uma cidade. Agora de acordo com calendário de Eratóstenes, a cidade de Troia seria destruída em 1184 a.C. Com a aproximação do ano de 184, os romanos começaram a se amedrontar. Eles temiam que os tempos se tornassem particularmente instáveis ​​e que os numerosos adivinhos, que eram especialistas em sua arte, tivessem anunciado que o fórum romano seria coberto de tendas no ano 184. Lembremos da famosa captura de Roma, cerca de duzentos anos antes: os gauleses haviam saqueado a cidade e acampado no Fórum Romano. Pessoas supersticiosas se convenceram a partir de então de que Roma era a nova Troia, que logo seria destruída e que haveria o tumulto gaulês novamente. Agora, o que de fato ocorreu em 184, foi a morte do Grande Pontífice Crasso. E ,de acordo com o costume, os jogos fúnebres foram celebrados após seu enterro, e depois houve um banquete fúnebre no fórum. E, quando ao início do banquete, começou a chover foram armadas as tendas com pressa… As pessoas respiraram, e os supersticiosos se acharam quites?

Isso ilustra a teoria milenarista e mostra que podemos interpretar mal os ensinamentos dos adivinhos, se não o fizermos isso com um espírito absolutamente livre e sem preconceitos.

Outra história relacionada à Idade de Ouro, mas mais interessante, porque alude ao que é chamado gnose: é a da 4ª Bucólica de Virgílio. Muitas pessoas a conhecem.

Ela anuncia o retorno da Idade de Ouro pelo nascimento de uma pequena criança. É assim que os cristãos consideram Virgílio como um de seus profetas, assim como a Sibila. Pense no canto dos mortos do antigo ritual católico, o Dies Irae, onde é feita a alusão ao famoso “teste David cum Sibylla”, ou seja,”David é testemunha disso, com a Sibila”.

Aqui estão as primeiras linhas desta écloga:

Aqui ela está de volta, a última idade cantada pelo profeta de Cumes; a grande ordem dos séculos começa novamente. Aqui também virá a Virgem; aqui também virá o reinado de Saturno. Aqui está um nova geração que desce do céu mais alto. –Todas as gerações vem do céu: isso é algo que os astrólogos conhecem bem! Somente sê digna, oh casta Lucine, – tu és a deusa do parto – favorece o nascimento da criança por quem, para começar, fará desaparecer a raça de ferro e fará subir ao mundo a raça de ouro…

Então, uma nova geração, e uma geração que vem de céu. Para entender o que é essa geração, é preciso ler, ao final do poema, essa passagem que desperta a emoção dos professores, daqueles que fizeram humanidades antigas se lembrarão dela, de quando fizeram a tradução para seus alunos:

Comece, pequena criança, a reconhecer sua mãe com risos … comece, pequena criança: aquele cujos pais não riram, nenhum deus o julgou digno de sua mesa, nem uma deusa de seu leito…

Portanto, esta é a geração dos deuses, e que é definida pelo riso! Nós, os homens, somos concebidos em um gemido e nós também viemos ao mundo em um gemido…

Curiosamente, encontramos um ensinamento idêntico no Gênese de Moisés. Esta é a geração de patriarcas, que já é, no judaísmo, uma geração messiânica. Então, de acordo com o Talmude, Sarah, a esposa de Abraão gerou pelo Espírito Santo. No capítulo XVIII, lemos que Abraão encontrou-se sentado à porta de sua barraca no calor do dia. Ele vê passar três personagens aos quais ele generosamente oferece hospitalidade. Esses três personagens são anjos, mas eles têm a aparência de homens. Abraão oferece a eles que lavem os pés e então façam um bom jantar. No momento de partir, os três homens levantam-se e um deles se dirige a Sarah:

No próximo ano, voltarei, como o tempo da vida, e você estará grávida.

Mas Sarah tinha 99 anos, então ela não tinha mais chance alguma de engravidar. Então, diz o texto hebraico, “ela ri de si mesma”. E o texto é ainda mais preciso – os judeus são sempre muito precisos – e deve-se ler: “E ela ri na barriga” (הבדבה).

(Gênesis, XVIII, 12)

Esta passagem é, além disso, uma daquelas que foram voluntariamente diluída pelos tradutores da Septuaginta, para que não ser entregue à profanação de estranhos os mistérios mais profundos das Escrituras. O texto grego diz com efeito: “E riu para aqueles ao seu redor”. Então havia algo esconder.

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Depois de Heráclito, citemos à memória de Enopide ( Οἰνοπίδης), cujo tratado da astrologia não foi preservado para nós, mas do qual sabemos que ele fez do Zodíaco à Via Láctea. Depois que Phaéton, o filho do Sol, quis liderar o cavalo de seu pai, o sol mudou seu rumo e começou a correr pelo Zodíaco.

Por volta dos séculos V e IV a.C., os pitagóricos nos deixaram tratados completos sobre cosmologia. Um dos mais famosos, Philolaos de Crotone disse que a gnose era o domínio do que havia acima da lua e o que estava sob nossos pés; enquanto a virtude reina por sua parte no espaço que separa a lua da terra. Então havia uma gnose do céu, e uma gnose do que há na terra …

Platão, em um tratado bem conhecido, ao qual, além disso, deu o nome de um famoso pitagórico, o Timeu, também deixou uma cosmologia completa. Platão elenca vários estágios para o universo. Primeiro aborda as esferas planetárias, cada planeta é anexado a uma esfera e cada uma das esferas gira na direção do zodíaco (na direção de sol), na sua própria velocidade, da a esfera da lua até a esfera de Saturno. Acima da esfera de Saturno, havia a esfera de estrelas fixas, que gira em movimento inverso e extremamente lento. Finalmente, acima da esfera fixa, havia a eternidade, onde não há mais movimento e onde estão as ideias. O espaço que separava a terra da lua era o lugar do tempo, o caos, que só geraria seres fracos demais para perpetuar seu ser e sujeitos a ação dos mundos superiores. Este lugar, como dissemos, de geração e corrupção, ao passo que, acima da lua, as estrelas banhavam-se no éter divino.

O éter (Αἰθήρ) era um ar extremamente sutil, misturado ao fogo, era divino: para os gregos, era o próprio Deus. Este éter está animado continuamente por um movimento circular, e é inteligente. É esse éter – que é a alma do mundo, e que os homens chamam Deus – que ativa continuamente as esferas em seu movimento circular. Daí o termo universo, do latim uni-versus, que sempre gira na mesma direção. Para Platão, então esse éter era o próprio Deus e ele até se divertiu fazendo trocadilhos entre éter, αἵθήρ e Deus, θεός.

Temos também o comentário de Virgílio, que celebra em sua Geórgicas II a chegada da primavera:

Então, o Pai Todo-Poderoso, o Éter – portanto o éter é Deus, o Pai – desce por chuvas fecundantes para o seio alegre de seu esposa, a Terra, e unidos neste poderoso abraço ao seu grande corpo, revigora qualquer embrião.

Esse éter é especialmente animado pela necessidade e pelo desejo de se tornar corporal. Quando ele conhece um corpo muito puro, que é de alguma sorte da natureza, une-se a ela e produz luz. Isto é o que aconteceu, dizem os antigos, com as estrelas, que são deuses, filhas do éter que as acendeu e as fez brilhar.

O éter desce assim a este mundo, mas misturando-se ao que Aristóteles chamou de flogisto, isto é, impurezas. O ar aqui na terra é impuro, é flogístico: é isso que dá ao Trovão e relâmpago. O éter, portanto, se mistura com esse ar flogístico e é inspirado pelos homens no nascimento, no momento da primeira inspiração da criança. E é isso que produz o horóscopo, o movimento circular celeste então se encontra dentro do homem. Então este é um homem fermentado – o ar é um fermento, não há fermentação possível sem o ar – por esse ar flogístico misturado ao ar divino. E esse é o destino de o homem, marcado por esse movimento circular, com a psychê (Ψυχή), seu espírito, que vem do céu e é, portanto, aéreo.

Como é – nós já estávamos nos perguntando – os astros sendo bons, sendo deuses, que eles podem ter um má influência como as quadraturas, oposições etc.? Seguindo os Antigos, não são de fato as influências que são malignas, mas nós que somos fracos demais para recebê-las. Exatamente como um paciente débil não poderia receber, sem se prejudicar, os raios do sol. Em si, os raios do sol são bons, mas para alguns doenças pode ser perigoso.

No décimo livro da República, Platão une harmoniosamente os problemas do destino, liberdade de escolha e da sorte. Este é o mito de Er, o Panfílico. As almas que precisam reencarnar podem se revezar na sorte. Elas são introduzidas numa faixa de tempo, onde existem diferentes estatuetas cada uma representando um homem. Então elas escolhem, de acordo com sua sabedoria ou sua loucura. A partir do momento que elas escolhem, nós as fazemos beber a água do rio Amélès (despreocupadas) e elas encarnam. Eles perdem suas memórias e seu destino é, portanto, fixo.

Mas é possível ao homem escapar de seu destino? Platão fornece uma resposta a esta pergunta, todavia, de modo discreto. Ele explica, no Fedro, que as almas, antes de encarnarem, poderiam, mais ou menos, de acordo com sua qualidade, ou de acordo com sua força, contemplar o campo das ideias. Quando elas são incorporadas, elas perdem essa memória, mas mantêm-nas como nostalgia. E de acordo com o destino delas, essa nostalgia pode mais ou menos levá-las ao estudo da filosofia e iniciações sagradas.

Através do estudo da filosofia – de acordo Platão – o homem pode se lembrar de realidades que ele contemplou ou entreviu.

O verdadeiro conhecimento seria, portanto, lembrar o que nós já sabíamos e esquecemos. O que teria o efeito de devolver à mente as asas que lhe permitiriam escapar do labirinto desesperado deste mundo, e adquirir o entusiasmo. A palavra vem do grego ενθουσιασμός, que significa ter em si a respiração de um deus. Estar entusiasmado, adquirir entusiasmo, é ser possuído por um deus. A coisa é curiosa … Quando o homem nasce e que ele inspira pela primeira vez, ele tem um sopro. Entusiasmo é, portanto, um segundo sopro. Seria portanto, um segundo nascimento. Ter o sopro de um deus em si mesmo, é nascer uma segunda vez, e se pode dizer, como um clérigo, ter um novo horóscopo. E assim, continua Platão,

pois se desvia do que é objeto das preocupações dos homens e que ele se aplica ao que é divino, a multidão mostra a ele que ele tem a mente perturbada; mas ele possui um deus e a multidão não sabe disso não.

Platão não nos contou muito mais. Da 7ª carta dirigido a seu amigo o tirano Denys de Siracusa, ele, no entanto, escreve novamente:

Em todos esses problemas, não há escrita que seja minha, e nunca existirá. De fato, não é um conhecimento que, ao exemplo de outros, possa se acumular formulando proposições. Mas é o resultado de uma criação, de um repetido comércio com o que é próprio da matéria desse conhecimento. Resultado de uma existência compartilhada com ele. De repente, como quando a luz da chama cresce, esse conhecimento se produz na mente, e doravante se alimenta.

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A própria mitologia alude a esse conhecimento extraordinário, e em particular com o mito de Prometeu. Prometeu tinha roubado precisamente o fogo do céu, o éter radiante. No Prometeu Acorrentado (248 a 254), no drama que dedicado a ele,

Esquilo encena, em um determinado momento, Prometeu vítima da vingança dos deuses, pregado em sua rocha, diz Corifeu (κορυφαῖος) (chefe do coro):

Prometeu. – Sim! Eu libertei os homens da obsessão da morte.
O Corifeu. – Que remédio você descobriu para este mal?
Prometeu. – Instalei uma esperança cega neles.
O Corifeu. – Que poderoso conforto que você trouxe neste dia para os mortais!
Prometeu. – Eu fiz mais no entanto! Eu trouxe o presente do fogo!
O Corifeu. – O quê! O fogo ardente está hoje entre mãos efêmeras?
Prometeu. “Sim! E com ele aprenderão das artes sem número.

Claro, este não é o fogo da nossa cozinha, mas o fogo do céu, um dos quais dizem os oráculos caldeus:

Quem tocar esse fogo de éter não poderá mais separar de seu coração.

Então é assim que Prometeu, esse grande benfeitor de humanidade, este fundador das santas iniciações, entregou a obsessão da morte aos homens.

*

O Natal está chegando e poderíamos concluir pensando no mistério que ele nos oferece. Os cristãos, que nos fazem lembrar, não inventaram ou trouxerem nada de novo, sem o que o cristianismo não seria a expressão de tradição universal. O mistério do Natal é muito mais antigo do que nos foi ensinado pelos Evangelhos. A prova disso está nesta pequena passagem dos mistérios antigos de Elêusis, onde São Hipólito nos contou em seu Philosophoumena (Φιλοσοφούμενα) A Refutação de todas as Heresias:

Em algum momento, os mistérios mergulhados na escuridão, serão trazidos à luz pelo grande hierofante. Assim, sob muitas luzes, ele gritou em voz alta o grande e secreto mistério de Elêusis: Nossa Senhora gerou um filho santo. Brimo foi pai de Brimone, o que significa: o forte gerou o forte.

Dizem que Nossa Senhora é quem gerou o espírito, aquele acima do céu: aquele nas alturas. O forte é o único que é gerado dessa maneira.

Por isso, os gregos antigos já estavam preparando a vinda do bom pastor e conheciam a manjedoura do Natal que seria em breve encontrada. E podemos dizer que quando encontramos esse bom pastor, isto é, esse fogo do céu corporificado, encontramos aquele que pode nos levar a praticar essas “inúmeras artes”. Porque, uma vez que o homem tenha se regenerado espiritualmente, ele ainda será corporal, uma vez que é corpo e mente. E isso nós traz para a outra parte do conhecimento, que não é mais apenas a gnose do céu, mas que é especialmente a gnose da terra e do que existe na terra. Este é o mistério da alquimia.

Sabemos que os astros do céu têm seus correspondentes na terra e que os metais também têm nomes de deuses: Saturno representa o chumbo, o estanho é de Júpiter, etc. Somente na terra é encontrado um corpo metálico, que é o único no mundo a escapar de toda destruição e corrupção: isso é o ouro. Dai, a alquimia e o mistério daqueles buscadores que acreditavam fazer o ouro. De fato, eles nunca tentaram fazer ouro; eles têm procurado regenerá-lo, o que não é a mesma coisa.

Sabemos, por um decreto do final do século III d.C. talvez do início do século IV, em que o imperador Diocleciano queria fazer destruir todos os livros de alquimia que existiam na época, “para impedir os egípcios de enriquecer”. Felizmente, alguns destes livros escaparam da destruição e ainda existem. Eles estão atualmente na biblioteca da universidade de Leiden, na Holanda. Ainda estamos esperando um filósofo suficientemente informado, não apenas para editá-los e traduzi-los, mas também para comentar sobre eles.

Em conclusão, a astrologia se apresenta como uma ciência da Natureza, neste caso, a Natureza Humana e, portanto, em um certo nível, em comparação com outras ciências tradicionais, das arte, que permitem melhorar precisamente essa natureza e levá-la a um estado de perfeição além do qual não há mais progresso possível.

Isso naturalmente nos levou ao presépio de Natal e para os mistérios de Elêusis. Elêusis é uma palavra grega que significa boa ventura. E é essa boa ventura que eu desejo a você para todos…

Que assim seja!

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