Traduções

Astrologia e Apologética na Idade Média

J. M. da Cruz Pontes

DIDASKALIA XV (1985)

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Por ocasião do 5º Congresso Internacional de Filosofia Medieval realizado em 1972 em Madri-Córdoba-Granada, uma comissão especial presidida por Guy Beaujouan se ocupou da relação entre a ciência e a filosofia na Idade Média. Desde então, nas conferências promovidas pelo SIEPM, os chamados comitê de trabalho se juntaram aos medievalistas cuja pesquisa filosófica é relacionada a ciência. Foi apresentado em Madri um esboço dos temas da literatura científica de sensível  interesse ao historiador da filosofia medieval, nesta ocasião o Sr. Beaujouan destacou quatro segmentos: matemática, alquimia, astronomia e também astrologia.

A luta contra a astrologia e a refutação de seu valor por escritores cristãos no momento durante os apologistas do período patrístico não impediu alguns autores medievais de procurar um argumento para provar não apenas que o nascimento de Cristo foi predito por conjunções astrais, mas também que estas anunciaram a religião cristã.

A Idade Média aceitava que havia uma relação entre o movimentos dos corpos celestes e os eventos da vida terrena. Não era, no entanto, uma crença ingênua ou uma superstição, mas um conceito considerado científico.1

1 L. THORNDIKE, «The True Place of Astrology in the History of Science», Isis, 46 (1955), 273-278.

A visão cristã da natureza como uma criação, coloca por Deus a serviço dos homens, e o simbolismo que buscávamos ver nas coisas, permitia aceitar esse fenômeno celestial, se não como causas necessárias dos eventos terrestres, poderiam ainda ser considerados pelo homem como um sinal desses eventos.

Alguns textos bíblicos, particularmente do Antigo Testamento, autorizam a confirmar a afirmação do relacionamento, senão causal, ao menos simbólico, entre o mundo superior e o mundo inferior; os astros eram uma espécie de linguagem de que Deus se servia para falar com os homens. O Evangelho conta como a visão de uma estrela revelada aos magos o nascimento de Cristo. Já em S. João Crisóstomo, S. Agostinho e S. Grégoire Magno, por exemplo, haviam  advertências aos fiéis contra a interpretação astrológica deste episódio evangélico.

The Fourth Day – The Creation of the World

Com esse risco de reivindicar encontrar nos textos bíblicos  um fundamento para a astrologia, Fílon de Alexandria já se adiantou ao comentar sobre a passagem de Gênesis (1, 14) que descreve a criação dos astros no 4º dia “ut sint in signa et tempora”. De acordo com De opificio mundi secundum Moysem, de Fílon, os astros, apesar de serem causas eficientes de certas mudanças no mundo sublunar, são apenas causas secundárias. Contudo, afirmando que os astros são causas secundárias, não significa que eles não podem nos ajudar a adivinhar o futuro. Fílon comenta como esta passagem citada em Gênesis: “Os astros foram geradas, Deus, diz a si mesmo não apenas para espalhar sua luz sobre o terra, mas ainda para manifestar os sinais de eventos futuros; de fato, por seus amanheceres e entardeceres, por seus eclipses e reaparecimentos que se seguem, por suas ocultações, por outras diversidades de seus movimentos, os homens conjeturam o que vai acontecer, fertilidade ou esterilidade das plantas, nascimento e morte de animais, céu sereno ou nublado, vento calmo ou violento, inundação ou secagem de rios, mar pacífico ou tempestade, as inversões das estações, verões frios como o inverno, invernos quentes e primaveras que parecem outono ou outonos que parecem primavera”. Contra tais elogios da astrologia fundados no texto bíblico, S. Basílio já adverte aos fiéis em sua sexta homilia no Hexaemeron.

Não vamos insistir em enumerar aqui todos os Pais da Igreja que combateram a astrologia depois de S. Basílio. Estamos bem cientes da expressão de Santo Agostinho nas Confissões, onde ele decididamente rejeita astrologia, depois de ter sido um dos seus adeptos: “christiana et vera pietas consequenter repellit et damnat”. Franz Cumont concluiu em 1903 um estudo das influências pagãs sobre os cristãos, escrevendo sobre astrologia que, “enquanto a magia se perpetua durante a Idade Média, a Igreja latina consegue, a longo prazo, destruir essa superstição aprendida. Enquanto, no Império bizantino até imperadores se tornaram seus seguidores, como Leão, o Sábio, ou seus defensores, como Manuel Comneno, ela foi quase ignorada no Ocidente desde o período Franco até o século XII. A Mathesis de Firmicus Maternus é o último tratado teórico sobre o assunto que nos foi mantido, e quase não encontramos nenhum manuscrito carolíngio onde exista a questão da astrologia. Ela só começa a se difundir novamente na Europa apenas sob a influência dos árabes, e desfruta no Renascimento uma moda efêmera devido ao prestígio que ela emprestava a ciência grega e ao grande nome de Ptolomeu.” Quase trinta anos mais tarde, na quarta edição de sua obra magistral sobre religiões orientais e paganismo romano, ele mantém implicitamente a mesma opinião.5 M. Laistner esboçou um quadro da atitude dos escritores eclesiásticos em relação à astrologia, desde a época de Constantino até o final do século IX.6 A posição de alguns autores do período patrístico foi objeto de estudos particulares, como o de Jacques Fontaine sobre S. Isidoro de Sevilha. O autor de Etymologiae condena a astrologia supersticiosa “Quam mathematici sequuntur, qui in stellis auguriantur” (Como os matemáticos que cortejam os augúrios das estrelas).

4 F. CUMONT, «La polémique de l’Ambrosiastei contre les païens», dans Revue d’Histoire de Littérature Religieuse, 8 (1903), 417-440.
5 F. CUMONT, Les religions orientales dans le paganisme romain,4 Paris, 1929.
6 M. L. W. LAISTNER, «The Western Church and Astrology during the Early Middle Ages», dans The Harvard Theological Review, 34 (1941), 251-275.

Marie-Thérèse d’Alverny se ocupou dos problemas que foram criados no século XII entre teólogos e astrólogos, após a introdução, em tradução latina, de obras científicas árabes.8 Mais recentemente, ela dedicou um estudo aos pontos de vista de Abélard nessa área. Ela sinaliza a atitude de um contemporâneo de Abélard que defendeu a astrologia: Raymond de Marselha, autor de Liber Judiciomm, que Marie-Thérèse d’Alverny tem descoberto em vários manuscritos mantidos na Biblioteca Nacional de Paris, Londres e Oxford. Raymond de Marselha cita em apoio à sua defesa da astrologia, a passagem do Gênesis que já vimos usada por Fílon de Alexandria.9

8 M.-TH. D’ALVEKNY, «Astrologues et Théologiens au XII siècle», dans Mélanges offerts à M.-D. Chenu, Maitre en Théologie (Bibliothèque Thomiste, 37), Paris, J. Vrin, 1967, 31-50.
9 M. TH. D’ALVERNY, «Abélard et l’Astrologie», dans Pierre Abêlard-Pierre le Vénérable, Les courants philosophiques, littéraires et artistiques en Occident au milieu du XII.’ siècle (Colloques Internationaux du Centre National de la Recherche Scientifique, n.° 546), Paris, 1975, 611-630.

Entre os cristãos da Idade Média, o uso da astrologia muda com a publicação em latim de uma das obras dos mestres árabes da astrologia, o Introductorium maius de Albumasar. Esta obra foi traduzida duas vezes, primeiro por João de Sevilha, em 1133, depois por Herman da Caríntia em 1140. Albumasar é também o autor de De magnis coniunctionibus, que também foi traduzido para o latim no século XII. No Introductorium maius já há a alusão a uma mãe virgem de uma criança. No primeiro dos oito livros de De magnis coniunctionibus, Albumasar ocupa-o todo com todas as conjunções astrais e sua importância. No segundo livro mostra como eventos humanos, impérios e religiões, dependem dessas conjunções.

Alain de Lille (1128-1202), autor de l’Anticlaudianus, mostra que seu conhecimento sobre Albumasar; ao citar sobre a astrologia:

llic astra, polos, caelum septemque planetas
Consulit Albumasar, terrisque reportât eorum
Consilium, terras armans, firmansque caduca
Contra caelestes iras superumque furorem.

É claro que seu conhecimento de Albumasar provém do Introductorium maius, que ele leu na versão de Herman da Caríntia. Esse conhecimento o leva a considerar Albumasar como um “auctoritas” ao lado de Platão, Aristóteles, Sêneca, Ptolomeu, Cícero, Virgílio.

O objetivo da nossa apresentação não é aprofundar a influência aqui do trabalho de Albumasar no mundo cristão a partir da tradução em latim do Introductorium maius in Astronomiam e do De magnis coniunctionibus. Ele foi objeto de um estudo desenvolvido por Richard Lemay.11 Gostaríamos de destacar a importância de um escrito que é parcialmente inspirada pelas obras de Albumasar e que está em circulação desde o século XIII sob o nome de Ovídio. Este é o poema De Vetula, a que alguns manuscritos dão o subtítulo De mutatione vitae. Como o De Vetula ele é citado no Opus Maius (onde Roger Bacon parece aceitar a atribuição a Ovídio), o poema foi escrito antes de 1266/68.

11 R. LEMAY, Abu Ma’shar and Latin Aristotelianism in the Twelfth Century, Beirut (American University of Beirut), 1962.

Existem 32 manuscritos conhecidos contendo o texto completo de De Vetula. Foram impressos em duas edições incunábulos, em Perugia por P. Pétri e Jo. Nicolai por volta de 1474 e em Colônia em 1479 por J. Koelhoff. No século XIV, o De Vetula foi traduzido para o francês, ou melhor, adaptado por Jean Lefevre. A atribuição a Ovídio já foi questionada no século XIV por Thomas Bradwardine (1349), que escreve em De causa Dei contra Pelagium et de virtude causarum: “si autem testimonium Ovidii illius De Vetula ad auctoritatem vel ad voluptatem acceptare voluerit…”. No seu Epistolae seniles, Petrarca denuncia a inautenticidade atribuída do poema: “Librum, ctiius nomen est De Vetula dant Nasoni; mirum, cui vel cur cuidam in mentem venerit, nisi hoc fortasse lenocinio clari nominis obscuro fama operi quaeratur e, ut vulgo fit, ut gallinis pavonum ova subiiciant”. Em uma obra enciclopédica, Vaticanus, composto em 1424, pelo dominicano Arnauld Gheylhoven de Roterdã fez de Richard de Fournivalle (cerca de 1260) o autor de De Vetula: “quem librum scripsit Ricardus de Furnivalle cancellarius Ambianensis et imposuit Ovidio.” Essa atribuição, que foi qualificada com algumas reservas, geralmente foi aceita após a publicação da versão antiga da adaptação francesa do poema.

Surgiram duas edições críticas recentes de De Vetula quase simultaneamente.

Usando o Introductorium maius e o De magnis conitinctionibus, Richard de Fournival, sob o nome de Ovídio, o faz prever a aparição de diferentes religiões com base na interpretação das conjunções dos astros:

Significare fidem Iovis est et religionem.
Ergo secundum quod complectitur ipse planetis
et fidei species debent diversificari.
Sicque fides sunt sex, sed non nisi quatuor usquc
tempus ad hoc presens latas invenimus esse.

A astrologia é usada para apoiar uma profecia que a religião cristã é uma religião superior a todos aqueles que precedeu.

.. Lex autem Mercurialis
dignior esse fide reputanda videtur eo, quod
eterne vite bona promissura sit, ad que
nemo venire potest nisi religione fideque,
que Iovis in sortem cesserunt significantis,
sicut predictum est, eterne commoda vite.

Richard de Fournival anuncia, sob o nome de Ovídio, que a conjunção de Júpiter com Saturno, que ocorreu no 24º ano do reinado do imperador César Augusto, prevê o nascimento, seis anos depois, de um profeta que será filho de uma virgem:

Dicunt astrorum domini, quod in omnibus annis
viginti iunguntur Iupiter et pater eius,
cumque duodecies in signis triplicitatis
unius iuncti fuerint seu tredecies, ut
accidit interdum, tandem mutatur eorum
ad succedentem coniunctio triplicitatem.
Quarum consuevit conjunctio maxima dici
…………………………………………………………………
Ast alibi que fit mutata triplicitate,
consuevit dici maior coniunctio, sectam
significans mutansque fidem per climata quedam,
et fit post annos quasi quadraginta ducentos.
Una quidem talis felici tempore nuper
Cesaris Augusti fuit anno bis duodeno
a regni novitate sui. Que significavit
post annum sextum nasci debere prophetam
absque maris coitu de virgine.

O autor interpreta, assim, o fato de que, no signo de Virgem o planeta Mercúrio tem mais força do que nos outros signos do Zodíaco. O poema ainda acrescenta o nome do profeta: Puerumque Iesum vocat ipsum/gens quedam (vv. 632-3). Elogia a religião cujo profeta é Jesus e descreve algumas das suas características superiores a todas as outras religiões em um grande número de versos do terceiro canto de De Vetula.

Por intermédio deste poema atribuído a Ovídio, vemos esta apologética cristã baseada na astrologia conhecida através da obra de Albumasar. Para isso, De Vetula elabora o que é encontrado no Introductorium maius e no De magnis conitinctionibus.

A apologética de De Vetula foi usada da mesma maneira por Roger Bacon em Opus Maius, pelo autor do Speculum Astronomiae (cuja atribuição a Alberto, o Grande, continua a despertar discussões), por Jean Quidort ou Jean de Paris em De adventu Christi, que supomos ainda inédito, mas cuja edição já é anunciada.

Um tratado, em língua portuguesa, do final do século XIV ou do início do século XV, o Livro da Corte Enperial, é uma apologética em favor da religião cristã contra os judeus, muçulmanos e pagãos. Ele assume a forma de um diálogo entre a Igreja ativista e os judeus, muçulmanos e pagãos, na presença de o Imperador Celestial, Jesus Cristo. O autor anônimo deste tratado, que é uma originalidade literária, não tem originalidade doutrinária. Em efeito, ele faz pronunciar pela rainha católica, em resposta aos argumentos dos oponentes, textos que identificamos como sendo de Nicolas de Lyre e Raimundo Lúlio, bem como, um parágrafo de Isidoro de Sevilha. Também se lê, traduzido para o português, os versos de De Vetula que se relacionam com a astrologia anunciadora da religião cristã.

A mesma parte do poema De vetula é usada em um tratado escrito em latim por outro autor português do século XV, o franciscano André do Prado. Esta obra é chamada Horologium Fidei e permanece inédita ainda como Cod. Lat. 1068 da Biblioteca do Vaticano. É um diálogo entre o autor e o príncipe português Henrique, o Navegador, sobre os artigos de fé expostos no Credo.

O que queríamos apresentar aqui é apenas um esquema de um estudo a ser desenvolvido posteriormente.

Vimos que a astrologia, que foi abordada pela primeira vez pelos Pais da Igreja, foi usada ​​pela apologética cristã graças a adaptação dos trabalhos de Albumasar em De Vetula, de Richard de Fournival. Da astrologia vista com suspeita pelos Pais da Igreja, passamos assim a um aspecto do que P. Chenu nomeou, em conexão com um sermão de Garnier de Rochefort, de Astrologia praedicabilis.20

20 M.-D. CHENU, «Astrologia Praedicabilis. Les pressentiments de l’économie chrétienne chez les paeïns», dans Archives d’Histoire Doctrinale et Littéraire du Moyeu Âge, 31 (1964), 61-65.

Os humanistas, de Pierre d’Ailly a Pico de la Mirandola, irão refutar a validade da astrologia. Em Portugal também o tratado Contra o juízo dos astrólogos do Frei António de Beja, publicado em Lisboa em 1523, é uma expressão controversa sustentada sobre esse assunto.

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