Astrologia e Astrólogos

A Construção dos Sentidos de Certeza nos Horóscopos

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Leonardo Schwartz Ribeiro

Aluno de graduação em Letras no Instituto de Estudos da Linguagem/UNICAMP. Membro do grupo de pesquisa Linguagem, Enunciação, Discurso (LED).
Revista Linguasagem, São Carlos, v.34, Número Temático, jan./jun. 2020, p. 21-34.

Resumo

A astrologia e os horóscopos apresentam recentemente um crescimento em sua popularização entre os millennials e a geração Z, que, por sua vez, demandam uma reformulação do modo de aproximação e apresentação dos mesmos, que se aproveita da expansão da internet e das redes sociais. O presente artigo busca entender como os horóscopos utilizam a internet e seus recursos para aumentar seu alcance. Além de buscar compreender como os horóscopos, tendo uma base contraditória de certeza, com disputas entre a comunidade científica e os astrólogos sobre sua legitimidade, consegue manter e aumentar sua popularidade e importância em nossa sociedade.

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É possível observar nos enunciados contemporâneos dois modos de dizer facilmente identificados: enunciados que são questionáveis mas são ditos como certezas inquestionáveis e aqueles que colocam em questionamento certezas originadas do campo de conhecimento científico e histórico. Muitos desses enunciados são vistos na internet, que, além de abrigá-los, possibilita uma circulação de amplo espectro.

Podemos destacar os efeitos nocivos das fake news. Elas não são algo totalmente novo. Delmazo e Valente destacam que já no século XVI sugiram os pasquins, na Itália, que se tornaram um meio de difundir notícias desagradáveis, sendo a sua maioria falsas, sobre figuras públicas da época. Também recordam o surgimento dos Carnads, gavetas com notícias falsas que circularam em Paris a partir do século XVII. Na nossa contemporaneidade, as fake news se manifestam em vários meios e são bastante utilizadas para confundir e dispersar o debate público. A certeza é manipulada há muito tempo, mas os “[e]xemplos mais recentes ou mais antigos, como os acima mencionados, diferem-se fundamentalmente do atual contexto pelo potencial de disseminação do ambiente online, que facilita a circulação das notícias falsas”. E é nesse momento que podemos ver a importância da internet.

O aumento do acesso da população à internet auxilia no crescimento desse tipo de enunciado. Esse crescimento do acesso é demonstrado através dos dados da pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), publicada em 2019, com dados obtidos em 2018. A pesquisa, denominada “Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros”, traz dados interessantes, como o grande aumento de domicílios com acesso à internet, que, em 2018, era de 67% da população. A quantidade de usuários de internet no Brasil totaliza 126,9 milhões de pessoas, 70% da população.

Esse imenso crescimento de acesso à internet e a rapidez das trocas de dados trouxeram diversas mudanças, como as já citadas fake news, ou as pós-verdades. Elas favorecem a proliferação de discursos de ódio e a polarização política. Esses conteúdos têm um terreno fértil nas redes sociais, e, de acordo com Baldacci, Buono & Grass, elas se inserem em “um movimento no qual os utilizadores privilegiam conteúdos que confirmam suas visões de mundo”.

Outro fato ligado a este momento em que a internet e as redes sociais constituem de modo determinante as relações do sujeito com a linguagem é o crescente interesse das chamadas gerações Z e millenials pela astrologia e outros assuntos místicos.

Dearo define essas duas gerações de acordo com o seu período de nascimento. Os millennials (também conhecidos como geração Y) são aqueles nascidos entre 1979 e 1995, e Bruel os define como otimistas, trabalhadores e ambiciosos. Mas aponta seus pontos negativos como narcisismo e gastos maiores do que o poupado. Outro ponto interessante dos millennials, diz Gil, é serem adeptos às novas tecnologias e fazerem um uso massivo da internet.

Já a geração Z, os nascidos depois de 1995, são classificados por Bruel como “nativos digitais”, por já terem nascido e crescido em um mundo com uma facilidade de acesso à informação. Eles confiam mais em avaliações online de amigos e influenciadores digitais do que em vendedores de lojas e acessam múltiplas plataformas de informação, principalmente redes sociais.

Mas há alguns pontos em comum entre essas duas gerações, os “pioneiros digitais” e os “nativos digitais”. Ambas apresentam uma forte relação com a internet e alteram a forma como o mercado trabalha. E, de acordo com Dearo, “Ambos os grupos buscam no acesso à cultura a sua principal fonte de educação, inspiração e entretenimento”.

No texto de Dearo, é citado uma pesquisa do Relatório Google Brasil, o “Dossiê Brandlab: the millennial divide”. O autor afirma que essa pesquisa serve para “mostra[r] que marcas precisam tratar os millennials com outros olhos”. Já no texto de Gil, é citada a pesquisa financiada pelo Itaú Unibanco, “Millennials – Unrevealling the habits of generation Y in Brazil”, que “tem como objetivo analisar como diferentes setores serão atingidos pelas mudanças trazidas por essa geração”.

Essas pesquisam mostram o interesse que o mercado apresenta nessas gerações, que hoje já representam 34% da população e 50% da força de trabalho do Brasil, uma vez que os financiadores dessas pesquisas são um banco de investimento e uma empresa de tecnologia, que estão cada vez mais preocupadas em vender seus produtos para as novas gerações.

Na onda desse crescimento vemos o surgimento de novos aplicativos relacionados à astrologia e as adaptações que os horóscopos e astrólogos fizeram nos últimos anos e que serão retomadas ao decorrer do texto.

Universe as Organism by Leigh J. McCloskey

Há hoje uma retomada da popularidade da astrologia e dos horóscopos, a chamada “Nova Era de Aquário”, que faz referência a movimentos que ocorreram nas décadas de 1960 e 1970 quando os jovens, cansados dos conflitos sociais e políticos e da opressão que eles produzem, começaram a se interessar pelo místico, pela liberdade e pela emancipação do pensamento. Essa nova era teve início aproximadamente em 2010, e a escritora de horóscopos da revista Vice Espanha, Andrea Gumes, argumenta que não é uma questão de mais pessoas estarem acreditando em astrologia, mas sim de uma simplificação da forma de abordar leitores nos horóscopos. “Agora a mensagem é mais próxima”.

Essa forma de aproximação mais simples ocorreu graças ao uso da internet. Hoje é comum haver diversas páginas e grupos nas redes sociais com a temática de astrologia, a produção e divulgação de memes astrológicos, páginas especializadas (como o Personare e o Somos Todos Um no Brasil), canais no YouTube e aplicativos de celular. Carmen López destaca a popularidade dos horóscopos, citando os investimentos financeiros que aplicativos com essa temática têm recebido nos últimos anos. Ela dá como exemplo o “Co-Star”, um aplicativo que recebeu cinco milhões de dólares de investimento, que já conta com três milhões de downloads e 400 mil seguidores. Ela também cita a fala de um investidor, David Birnbaum, dizendo que o setor de serviços místicos tem um potencial de 2,1 bilhões de dólares.

Um exemplo brasileiro dessa adaptação dos astrólogos às novas tecnologias é de João Bidu, que já publicou (e ainda publica) revistas sobre o tema, e que hoje é responsável por um dos sites mais conhecidos sobre horóscopos. Além das previsões escritas, ele também grava vídeos com as previsões dos astros. Outro exemplo dessa nova fase da astrologia se dá na figura da Madame Mela, uma figura criada pela portoriquenha Mariele Pabón, em seu Instagram. Ela criou a personagem da astróloga com a intenção de dar conselhos aos seus seguidores. Afirma que a personagem tenta ser mais do que uma astróloga, a criadora quer que ela seja uma amiga. Madame Mela demonstra uma das mudanças que a astrologia está passando atualmente. Há uma ruptura com a visão do astrólogo clássico. Hoje, essa figura do guru astral está ligada a uma maior aproximação. O astrólogo passa a ser uma figura mais próxima e amigável. Assim, as previsões são como espécies de conselhos de amigos sábios.

Essa aproximação do astrólogo é clara em João Bidu. Em seus vídeos para seu canal no YouTube, Bidu se refere aos espectadores como “meu amigo” e “minha amiga”. Sua escrita também é informal e utiliza gírias, que facilitam a identificação com o público: “Sua criatividade chamará atenção no trabalho. A Lua realça seu charme e indica uma fase incrível para as paqueras. Cuidado com as furadas. Na vida a dois, declare o seu amor. Palpites: 92, 29 e 38. Cor: vermelho”

(Capricórnio, 15/10/2019)

Esses pontos parecem justificar, em parte, a popularidade de Bidu como um astrólogo-amigo. Mas há também o exemplo do astrólogo Oscar Quiroga, que apresenta uma escrita mais distante, mas é muito popular nos jornais brasileiros. Quiroga tem uma escrita mais sofisticada, utiliza vocabulário mais culto e formal. Suas previsões costumam levar a uma reflexão sobre as ações pessoais e descrevem de forma mais generalista as situações, sem apresentar conselhos óbvios, como faz Bidu: “Compartilhar o mesmo caminho é uma faca de dois gumes, porque entre os seres humanos sempre surge um estado de competição que atrapalha a partilha e, pelo contrário, torna o caminho uma arena de luta de poder. Isso não.”

(Gêmeos, 02/10/2019)

Eva Sánchez, designer, 29 anos e millenial, vê os horóscopos não como uma ferramenta de ver o futuro, mas como algo que a ajuda a esclarecer seus pensamentos sobre certas coisas. “O que são chamados de conselhos de horóscopo. Quando você escuta seu amigo que lhe dá bons conselhos, mas são tão genéricos que se aplicam a quase todos os problemas do mundo, o que não quer dizer que sejam menos verdadeiros. Dessa forma a pessoa que os recebe os adapta a si mesmo”.

Uma das astrólogas mais conhecidas da Espanha, Esperanza Gracia, faz suas previsões na televisão há mais de 30 anos. Recentemente adentrou o mundo do Twitter, com seu perfil alcançando quase 260 mil seguidores. Ela conta que soube se adaptar e que “atualmente quem mais me fascina, porque têm outra pegada, são os millenials. Precisei até mesmo aprender sua linguagem para poder chegar a eles. Estou muito feliz, sou uma privilegiada”. Há, então, nesse momento, um crescimento do interesse das novas gerações em relação à astrologia e aos horóscopos, e há novos modos de estar na linguagem da astrologia e da previsão por horóscopo. Mesmo com diversas evidências científicas contrárias à astrologia divulgadas ao longo do século XX, a popularidade do horóscopo cresce.

O crescimento do interesse proporcionado pela internet, o investimento em astrologia e as mudanças na linguagem astrológica, indicadas por López, levam ao interesse que move este artigo. Procuro entender como se dá a construção de certezas na linguagem das previsões astrais online, certezas questionadas recorrentemente pela comunidade científica e até mesmo por alguns astrólogos.

Apesar das críticas contra os horóscopos virem mais da comunidade científica ou dos céticos, alguns astrólogos também tecem suas ressalvas. Márcia Ferreira Silva, fundadora e diretora do Centro de Estudos de Astrologia Psicológica (CEAP) critica os horóscopos: “Pra mim, falar só sobre o Sol da pessoa é conversa de cabeleireiro, uma simplificação absurda da Astrologia. O horóscopo dá apenas uns toques pro coletivo. Só o mapa individual completo atinge essa complexidade”. A crítica se dirige especificamente para os horóscopos, e não para outros aspectos da astrologia. E a crítica do horóscopo diário ocorre em contra partida do mapa astral, que seria mais confiável por ser mais complexo.

Amanda Dreher, astróloga e terapeuta holística, afirma que “as previsões astrológicas diárias baseadas no signo solar da pessoa não funciona, porque o signo solar não define o indivíduo e por cada pessoa ter um mapa astral único, que é definido graças a muitas outras características”. Essa outra crítica vai na mesma direção da primeira. Ambas dizem que os horóscopos são rasos e não apresentam um teor de previsão. Para garantir uma previsão adequada, é necessário se aprofundar na astrologia e nos mapas astrais: “Se você quer um norte para sua vida […], com certeza a astrologia pode lhe ajudar. Não com estas previsões generalistas e que são superficiais, mas através da análise do seu mapa natal”. Essas afirmações colocam a certeza dos horóscopos em dúvida, mas não a certeza da astrologia.

A astrologia, segundo Sturckrad, “busca a conexão entre fenômenos celestes e acontecimentos a Terra”. De acordo com esse autor, até pouco tempo a astrologia era indissociável da astronomia. É exatamente essa separação atual que divide as duas visões da astrologia. De um lado, alguns astrólogos defendem a astrologia como ciência: “Quando se falar a seguir em astrologia, deve-se entender em primeira linha aquele ramo interpretativo da ciência dos astros”. Do outro lado, há toda a comunidade científica que, com diversos estudos, desmente a astrologia.

Um exemplo da abominação que os cientistas têm em relação à astrologia foi o manifesto publicado em 1975 na revista The Humanist, “Objections to Astrology” (Objeções à astrologia). O manifesto, sob a autoria de Bart Bok, Lawrence Jerome e Paul Kurtz, foi assinado por 183 cientistas (astrônomos, astrofísicos e cientistas de outras áreas), incluindo 18 ganhadores do prêmio Nobel. O manifesto declara:

Nós, os signatários […], queremos advertir o público contra a aceitação inquestionável das previsões e conselhos dados, em particular e em público, pelos astrólogos. Aqueles que desejam acreditar em astrologia devem perceber que não há fundamento científico para seus princípios.

Nessa declaração, os signatários demonstram sua preocupação em relação à aceitação inquestionável das previsões e conselhos dados pelos astrólogos. E advertem: não existe nenhum fundamento científico para seus princípios.

Entre a declaração de Stuckrad e esse manifesto, podemos observar as certezas em litígio. De um lado, um astrólogo tentando dar um teor científico à astrologia. De outro, cientistas afirmando que não há fundamento para tais afirmações. A comunidade científica se mostra muito produtiva quando o assunto é desmentir a astrologia e os horóscopos. Há, por exemplo, o estudo de 1985 do Dr. Shawn Carlson, publicado na revista Nature. A pesquisa realizou dois testes e demonstrou que astrólogos não conseguiam relacionar mapas astrais com testes de personalidade aleatoriamente selecionados e que as pessoas não conseguiam escolher seus mapas, mesmo detalhando sua personalidade e traços de caráter.

Linda McRobbie destaca dois estudos feitos por cientistas. O de John McGrew e Richard McFall, de 1990, que concluíram que astrólogos não eram melhores em corresponder mapas astrais do que uma distribuição aleatória deles, e de Dr. Geoffrey Dean e Dr. Ivan Kelly, de 2003, que demonstraram, em um grupo de duas mil pessoas que nasceram no mesmo dia e horário, que a teoria de que pessoas nascidas no mesmo horário e sob a mesma posição dos astros teriam traços semelhantes é falsa.

Podemos ver que esses estudos sustentam os argumentos que a comunidade científica mobiliza para desmentir a astrologia: um viés de auto-atribuição, ou seja, o próprio astrólogo inventava os resultados de suas previsões, e a impossibilidade de replicação dos mapas astrais. Mas a comunidade dos astrólogos não se detém pelo esforço dos cientistas e continua dizendo que eles estão equivocados. Para esses astrólogos, a astrologia não é algo empírico, como a física.

Ao dizerem que a astrologia não é empírica como a física, além de estarem equivocados sobre o empirismo dessa ciência, esses astrólogos deslocam a física, uma ciência em grande parte formal, em oposição à astrologia. Essa oposição facilita uma possível crença, pois possibilita que as relações com a astrologia sejam puramente individuais e sentimentais, já que são opostas ao cientificismo da física, tornando assim a negação da astrologia e dos horóscopos, como a comunidade científica tenta fazer, mais difícil.

Shelley von Strunckel, astrólogo responsável pelos horóscopos do The Sunday Times, diz: “As experiências são criadas por pessoas que não têm contexto para isso, mesmo que tentem fazer algo construtivo”. E completa: “Não é algo em que você acredita. É como acreditar no jantar. Os planetas estão lá, os ciclos da natureza estão lá, as luas cheias estão lá, a natureza se relaciona com tudo isso, não é algo em que acreditar”.

Há ainda um caso bem interessante de um astrônomo, o professor de História da Ciência da USP, Amâncio Friaça, que afirma: “A astrologia é como um instrumento para o desenvolvimento da racionalidade e tem um papel muito importante no desenvolvimento do pensamento crítico”. Apesar de Friaça afirmar que a astrologia não é uma ciência – “Para a astrologia fazer sentido, ela teria que oferecer um corpo paradigmático que até hoje ela não conseguiu oferecer” –, sua posição difere dos outros cientistas por atribuir algo positivo à astrologia.

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Interlúdio

A Universidade Virtual e Global

John Tiffin e Lalita Rajasingham

O que faz um paradigma melhor do que o outro? William de Ockham aplicou o princípio da parcimônia. Einstein de maneira similar buscava a simplicidade. O procedimento reconhecido hoje é o de relatar os resultados a uma revista científica e passar pela revisão de pares. Se o artigo for aceito e publicado como uma contribuição ao paradigma existente, ele se torna parte do conhecimento sobre aquele objeto de pesquisa e, assim, uma parte do corpo paradigmático de conhecimento ensinado em um sistema educacional e, portanto, parte da episteme pela qual as pessoas entendem a realidade. Se as conclusões de pesquisa de fato apresentarem fundamentos para uma mudança de paradigma, elas não serão publicadas com facilidade e não serão aceitas prontamente pela comunidade de conhecimento implicada.

Em Busca de uma Coerência Teórica e Conceitual

Luciano Munck, Rafael Borim de Souza, André Luis Silva

O sustaincentrism explora uma dimensão na qual os monismos tecnocêntricos e ecocêntricos devem ser rejeitados em favor de um pluralismo moral. Este paradigma é observado pelos tecnocêntricos como radical, ingênuo e utópico. Mas não radical, modesto e transformativo o suficiente para resolver a crise ecológica aos olhos dos ecocêntricos. Estas considerações são rejeitadas pelos adeptos do paradigma centrado na sustentabilidade, por acreditarem que elas levam a um engessamento epistemológico e teórico, ou seja, a um pragmatismo indesejado. Seus pesquisadores acreditam que este corpo paradigmático transcende e desbanca os demais paradigmas de uma só vez ao negar o que é visto como disfuncional pelo tecnocentrismo e rejeitar a preservação de pólos discursivos alienados proposta pelo ecocentrismo. O sustaincentrism é alicerçado, portanto, na premissa maior de que o desenvolvimento humano, por vias sustentáveis é algo desejável.

Nessas discussões, podemos observar como a base dos horóscopos, a astrologia, é constituída de disputas de certeza. Há a ciência tentando deslegitimá-la e há alguns astrólogos que criticam os horóscopos diários, mas há também astrólogos que defendem tanto a astrologia quanto os horóscopos. Mas apesar dessa base controversa, ainda há pessoas que acompanham essas previsões diárias. Os astrólogos dão algumas explicações.

Para a astróloga Bruna Paludo, a astrologia moderna é mais focada nos signos e se relaciona mais com o que o indivíduo se identifica. A busca das pessoas pela astrologia se dá quando estão passando por um momento de crise ou de transição. Além disso, ela parece dar um sentido à vida em um mundo repleto de informações. Paludo ainda rebate a crítica científica dizendo: “Existem inúmeras coisas no mundo que não são científicas, mas que fazem bem às pessoas. Para mim, a astrologia é arte. E isso não a torna inválida”.

Carmem López tenta justificar essa contínua popularidade dos horóscopos e da astrologia dizendo que o que antes se fazia em segredo hoje se tornou uma espécie de cartão de apresentação e justificativa para certas ações.

Com essa abertura para falar sobre a astrologia, e o crescimento das redes sociais, temos diversos exemplos desses cartões de apresentação e justificativas. Geralmente elas aparecem em forma de memes, comentários ou imagens.

Na figura 1, temos um comentário de Facebook que contradiz a postagem original dizendo que mesmo sendo do signo de aquário, e não de gêmeos, ela pode falar por horas. A popularização do horóscopo e dos signos provocaram esse efeito de juntar várias características que um indivíduo pode ter em uma só signo, criando assim arquétipos definido por C. G. Jung: “O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta” que cada um pode se identificar, e que muitas vezes é usado em apresentações, realmente como um cartão de visita.

Esses arquétipos, que encontram um ótimo subsídio na internet e redes sociais, servem também para o compartilhamento de imagens com a temática astrológica. A segunda figura faz parte de um conjunto de 12 imagens que representam as características de professores de acordo com seus signos. Com a fabricação desses materiais, a sua rápida divulgação e uma crescente popularização dos signos e do horóscopo ajudam a aumentar esse engajamento e a fixar os arquétipos.

Nos dois exemplos retirados de redes sociais, podemos ver como os horóscopos podem ser interpretados como piada ou como algo sério; segundo López, “o componente de entretenimento que torna o horóscopo atrativo é mais do que evidente, mas sua continuidade se sustenta na crença”. Além de ser um forte traço de autoafirmação. Fernando Aguilera de la Garza, especialista em comunicação e branding, diz que os horóscopos utilizam arquétipos universais e relatos interpretativos para que qualquer pessoa possa se identificar. “Nada melhor do que arquétipos para se identificar”. López defende ainda que há uma diminuição no poder de atração das religiões, e que a astrologia está servindo como refúgio para as pessoas com predisposição para acreditar. Ela cita uma pesquisa do Centro de Pesquisas PEW, que diz que 35% dos millenials não tem religião. Grande parte deles está dirigindo sua fé aos astros e ao esoterismo.

Me direcionando ao final do artigo, vou fazer uma breve análise da construção da certeza no corpus de minha monografia, que trata das previsões do astrólogo João Bidu, incluindo todos os signos, retirados de seu site, durante o mês de outubro de 2019.

A análise parte do que Cristiane Dias fala sobre a língua em sua materialidade digital. Para a autora: “a língua em sua materialidade digital é outra”, e por isso devemos dar uma atenção especial a ela. Sobre essa materialidade, a autora afirma:

Partindo do pressuposto de que é o modo como o discurso circula e produz sentido num espaço determinado que o institucionaliza como um espaço de comunicação, entendo que a Internet, com sua linguagem própria, e eu falo aí de uma linguagem que ‘põe em relação sujeitos e sentidos’ (e que transgride o representável sistema da língua), cria um paradigma outro para pensarmos a língua no que diz respeito ao seu movimento histórico, social, cultural.

Podemos, então, começar a pensar “Quais as consequências das formas de leitura de arquivo que se estabelecem com o digital” no caso de João Bidu. Uma das consequências é a facilidade de acesso. A qualquer momento é possível entrar no site de Bidu para ler o seu horóscopo ou os dos outros. O que também aproxima a geração Z e os millennials.

Mas há outra característica importante, que são os hiperlinks. Acessando o site para realizar a leitura do horóscopo, o leitor pode acessar diversos vídeos de Bidu no YouTube, mergulhando cada vez mais no mundo da astrologia, isso é o que Dias chama de “leitura dispersiva”: “a leitura se desloca do fio temporal linear passando a predominar a ordem espacial, na qual se impõe a visualidade”.

A temporalidade dos textos de Bidu não é estável, já que é possível ler somente o horóscopo do dia vigente, e não dos anteriores.

Agora, apresentarei uma pequena análise da linguagem de algumas dessas previsões, tentando demonstrar os modos linguísticos-enunciativos de construção de certeza.

De maneira geral, as previsões podem ser interpretadas como conselhos, pois é comum o uso do imperativo e do uso da segunda pessoa do singular:

DOM – É um bom dia para quem vai estudar ou participar de um concurso. Reserve um tempo para matar a saudade de pessoas queridas e que não vê com frequência. A dois, reforce a parceria e as afinidades. Palpites: 93, 12 e 57. Cor: azul.

(Touro, 06/10/2019)

As temáticas exploradas por Bidu são recorrentes, falam principalmente sobre amor e relacionamentos, trabalho e dinheiro. Essas temáticas aproximam o leitor, pois são temas do cotidiano, principalmente do cotidiano do millennial que inicia sua carreira profissional agora ou iniciou há poucos anos. Ao tratar dessas temáticas, o astrólogo usa períodos curtos, com marcas lexicais e sintáticas bem definidas:

SEG – Controle sua impulsividade ao se relacionar com colegas de trabalho. Confie em sua intuição. Finanças favorecidas. Talvez o universo lhe traga um amor que saiba apreciar suas qualidades. Palpites: 04, 76 e 94. Cor: amarelo.

(Peixes, 16/09/2019)

Após toda essa trajetória pelos horóscopos e pela astrologia, podemos pensar sobre suas formações de certeza tomando algumas falas do filósofo Ludwig Wittgenstein.

Ao tratar da certeza, Wittgenstein afirma que:

Quando alguém diz que uma certa pressuposição não pode ser provada, evidentemente que não quer dizer que não possa ser derivada de outras pressuposições: qualquer pressuposição pode ser derivada de outras. Mas estas podem não ser mais certas do que a já mencionada.

A certeza dos horóscopos parece ser construída com base em pressuposições questionáveis acerca da relação de determinação da posição dos astros no momento do nascimento sobre a vida das pessoas.

Muita da certeza que os leitores de horóscopos têm é construída decorrente de uma observação empírica dos acontecimentos previstos. Ou seja, quando um indivíduo lê que seu dia será ruim e acaba mesmo tendo um dia desagradável, ele atribui como consequência da previsão. E isso vai se somando conforme os dias passam e as previsões acertam. Nesses casos, as previsões que erraram acabam sendo esquecidas. Dessa forma, a certeza dos leitores nos horóscopos acaba aumentando graças a confirmação empírica das previsões.

Wittgenstein também afirma que “O facto de uma pressuposição revelar-se falsa depende, em última instância, daquilo que eu considerar como determinantes dessa pressuposição”. Essa afirmação mostra que por mais que a ciência demonstre por meio de seus métodos que certos pontos dos horóscopos não são acurados ou científicos, nenhum desses pontos é considerado pelos leitores de astrologia como argumentos determinantes para que as previsões astrológicas sejam tomadas como certeza e, como resultado, a certeza não é abalada.

Melt by Leigh J. McCloskey

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Referências

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BRUEL, Georjes J. O que são a geração z e os millennials?
DEARO, Guilherme. Existem dois tipos diferentes de millennials e eles são muito diferentes.
DELMAZO, Caroline; VALENTE, Jonas C. L. Fake News nas redes sociais online: propagação e reações à desinformação em busca de cliques. In: Media & Jornalismo, Lisboa, 2018, nº. 32, Vol. 18, nº. 1, p. 155-169.
DIAS, Cristiane P. Análise do discurso digital: sobre o arquivo e a constituição do corpus. Estudos Linguísticos (São Paulo. 1978), v. 44, p. 972-980, 2015.
_____. Linguagem e tecnologia: uma relação de sentidos. In: PETRI, Verli; DIAS, Cristiane (Org.) Análise de Discurso em perspectiva: teoria, método e análise. Santa Maria: Editora da UFSM, 2013. p. 49-62
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DREHER, Amanda. Previsões Astrológicas Funcionam?
FIORETI, Bruna. Horóscopo funciona? Inferno Astral existe? Essas e outras dúvidas sobre astrologia eliminadas!
GIL, Marisa Adán. Millennials já são maioria da população do país e 50% da força de trabalho.
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução: Maria Luíza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Perrópolis/RJ:Vozes, 2000.
LÓPEZ, Carmen. ‘Loucos do Signo’: como a ansiedade pelo futuro fez com que ‘millenials’ fossem seduzidos pelo horóscopo.
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VICK, Mariana. Por que a astrologia é popular entre millenials e geração Z.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Da certeza. Lisboa: Edições 70. 2000.

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