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O Dragão dos Eclipses

Marinus Anthony van der Sluijs

Published by Culture and Cosmos and the Sophia Centre Press, in partnership with the University of Wales Trinity Saint David, in association with the Sophia Centre for the Study of Cosmology in Culture

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Resumo

O conceito astrológico do ‘dragão dos nodos lunares’, responsável pelos eclipses do Sol e da Lua, pode ter sido derivado de uma combinação de ideias vigentes na Antiguidade Tardia relacionadas ao ourobóros ou ‘a serpente que morde a cauda’ – que constitui um anel na escuridão, posicionado na faixa da eclíptica, que circunda ao redor do Sol . Várias imagens mitraicas, astrológicas e alquímicas de dragões celestiais aparecem representando esse aspecto do dragão.

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O dragão dos eclipses como desenvolvimento do simbolismo do ourobóros

Desde o período clássico em diante, os astrônomos têm sido capazes de compreender as causas dos eclipses solares e lunares nos termos dos chamados nódulos lunares, ‘os pontos em que a Lua cruza a eclíptica, no nódulo ascendente (anabibazon) de sul para norte e no nódulo descendente (katabibazon) de norte para sul. Eclipses ocorrem apenas quando o Sol e a Lua estão simultaneamente no mesmo nódulo, ou perto dele (eclipses solares) ou em nódulos diferentes (eclipses lunares)’.1 Curiosamente, os astrólogos indianos, persas e árabes costumam se referir aos nódulos lunares como a ‘cabeça’ e ‘cauda’ de um dragão cósmico, que é conhecido como Gawzar em árabe; os nomes latinos convencionais são caput draconis para a cabeça, nódulo ascendente, e cauda draconis para a cauda, ​​nódulo descendente. Embora essa terminologia tenha sido abundantemente documentada, estudiosos modernos raramente especularam sobre a motivação original para conectar os nódulos lunares com o simbolismo do dragão. Até aqui se argumentou que o dragão dos eclipses seria melhor compreendido como um desenvolvimento teórico de uma série de características – proeminentes na Antiguidade Tardia – no simbolismo do ourobóros ou serpente que morde o rabo.

1 Somente quando a Lua está na (ou muito perto) eclíptica em um dos nódulos, e simultaneamente o Sol está no mesmo ponto da eclíptica ou então no ponto diametralmente oposto, um eclipse ocorre. Se o Sol e a Lua estão em conjunção no mesmo nódulo, o eclipse é solar (a Lua se interpõe na linha de visão entre a Terra e o Sol). Se o Sol e a Lua estão em oposição em nódulos diferentes, o eclipse é Lunar (a terra impede que a luz do Sol alcance a Lua).

Particularmente manifesta na arte e na magia do antigo Egito estão as antigas noções de que o ourobóros personifica a escuridão e que encerra ou devora o deus sol. Nos primeiros séculos da era atual, essas idéias sobreviveram, especialmente, no contexto do gnosticismo. Em um cena escatológica do texto copta Pistis Sophia (século II ou III d.C.), ‘o disco do sol era um grande dragão cuja cauda estava em sua boca’. Enquanto o ourobóros é aqui uma manifestação do deus Sol, suas proporções cósmicas e suas ligações com a escuridão e a região infernal foram preservados em uma enunciação atribuída a Jesus: “As trevas exteriores é um grande dragão cuja cauda está em sua boca, e está fora do mundo inteiro, e circunda o mundo inteiro”.

Além disso, na Antiguidade Tardia, surgiu uma tendência de descrever os ourobóros como uma expressão da faixa elíptica, o “caminho” circular dentro do qual os planetas percorrem os seus ciclos. Como o Sol era considerado o planeta chefe, a afinidade dos ourobóros com a faixa eclíptica geralmente correspondia a uma associação aproximada para o ‘ano’. O comentarista de Virgílio, Maurus Servius (século IV d.C.), referiu-se a ligação dos ourobóros e o ano novo dos Egípcios: ‘Pois de acordo com o Egípcios, o ano foi estabelecido antes da invenção das letras pela imagem de um dragão mordendo a própria cauda, ​​porque ele retorna a si mesmo’. O antigo estudioso egípcio, Horapollo (século V d.C.), acrescentou a isto:

Quando desejam representar o Universo, eles desenham uma serpente devorando sua própria cauda, ​​marcada com escamas variegadas. Pelas escamas, eles sugerem as estrelas no céu. … E como a cada ano ela muda de pele, [representa] a velhice. Mas à medida que cada estação do ano retorna sucessivamente, ela cresce jovem de novo.

Endossando tacitamente a equação etimológica popular de Chronus e Cronus,  seu contemporâneo africano, Martianus Capella (século V d.C.), reduziu o ourobóros a um emblema sustentado na mão direita do deus Saturno e identificando-o com o ano: “Em sua mão direita ele segurava um dragão cuspidor de fogo devorando sua própria cauda – um dragão que acreditava-se ensinar o número dos dias do ano pela grafia de seu próprio nome”. Através do trabalho de Marciano, a associação específica do ourobóros e o ano com Saturno sobreviveram ao longo da Idade Média, como atestado nas obras do teólogo francês Remigius de Auxerre († 908 d.C.), o anônimo terceiro do Mitógrafo do Vaticano (século XII d.C.), e Albericus Philosophus de Londres (século XIII d.C.).

Tendo em mente a terminologia astrológica que envolve a ‘cabeça’ e a ‘cauda’ de um dragão celestial, há certo sentido ao conceber esta criatura em uma forma circular ou pelo menos curva,  como uma adaptação do ourobóros. Na medida em que o eclipse do Sol ou da Lua levam a ‘consumação’ de um astro, surge uma forte ressonância mitológica, ao localizar a cabeça do dragão em um eclipse, logicamente situada no mesmo nódulo do Sol ou da Lua. O posicionamento da cauda do dragão dependeria do tipo de cada eclipse: no caso de um eclipse solar, ela estaria situada no mesmo nódulo, produzindo um ourobóros totalmente circular, enquanto num eclipse lunar exigiria que ela estivesse no nódulo oposto, limitando a parte da faixa elíptica ocupada pelo dragão em um semicírculo. Esta interpretação se vincula ao movimento rotatório da serpente ao redor do cosmos, expresso através do tema da cabeça indo atrás da cauda, como ‘os nódulos não são pontos fixos na eclíptica, mas movem-se lentamente para o oeste, eles são, é claro, sempre diametralmente opostos um ao outro’. O ‘dragão dos nódulos lunares’, portanto, se move com o zodíaco ‘como um símbolo do progresso do Sol e da Lua, ou apenas do Sol e, portanto, da gênese do tempo’.

O dragão dos eclipses no esoterismo ocidental

O dragão dos nódulos lunares é um elemento comum na astronomia medieval árabe e hindu, mas seu significado na tradição esotérica ocidental talvez tenha sido subestimado. Com estes pré-requisitos teóricos – do ourobóros como encarnando a escuridão, circundando o Sol e ocupando um segmento da faixa da eclíptica ao longo do final da Era Imperial – percebe-se que o dragão dos eclipses já estava seguramente concebido antes mesmo desta época. Um zodíaco de estuque no nicho do teto de um Templo de Mitra na ilha de Ponza no Mar Tirreno ostenta “uma cobra enrolada … que enlaça dois ursos no lado norte e cuja cabeça ameaçadora está voltada para o focinho do urso menor”. A cobra ‘ocupa a metade do círculo deitada entre o zodíaco e os ursos no teto do Mitreu de Ponza‘.

Detalhe de um zodíaco de estuque no nicho do teto de um Mitreu em Ponza

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Embora Vermaseren tenha identificado esta forma do draco caelestis como sendo a constelação ‘draco’, o famoso especialista em mitraísmo, Roger Beck, argumentou convincentemente que representa o dragão dos nódulos lunares, entretanto ‘a tradição que posiciona o dragão dos nódulos no semicírculo de Leão a Capricórnio foi definida bem antes da construção do Mitreu de Ponza.  A extensão de 180° do dragão reflete, é claro, o fato de que os nódulos ocupam pontos diametralmente opostos na eclíptica’.

Outro reflexo mitraico do dragão “nodal” pode ser reconhecido na cobra circular que coroa um pedestal de mármore azul encontrado em Roma, no Flaminian Gate, e é dedicado a Inuicto Soli Mithrae, o “Invencível Sol Mitra”. De modo que, ‘a cabeça da serpente tem uma crista irradiada, como é característico das criaturas solares, e na última parte da cauda, ​​pouco antes da boca, pode-se perceber uma espécie de menisco ou figura da Lua’, é razoável inferir que os dois luminares na cabeça e na cauda do dragão – produzindo um eclipse solar em uníssono – estabeleça a ligação dessas extremidades com os nódulos lunares.

Relevo em um pedestal mitraico, encontrado no Portão Flaminiano, em Roma.

Uma suposta variante “caldeia” – aparentemente complementada por um cópia duplicada de si mesmo para completar o círculo – é encontrada em um códice astrológico (século XII d.C.),  afirmando que o pneuma drakontoeidés, a ‘alma de dragão’ do cosmos, leva o nome de Athalía e possui duas cabeças e duas caudas, expressas com um par, se estendendo de Libra a Touro e o outro de Escorpião a Áries, de modo que as duas cabeças também estão contíguas como as duas caudas. O nome Athalía é autêntico, pois corresponde a attalû acadiano, com variantes antalû, antallû, namtallû e nantallû, que significa “eclipse (lunar ou solar)”. Esta palavra foi emprestada ao aramaico como ‘ātaljā e ocorre no que é indiscutivelmente o retrato mais detalhado do “dragão do eclipse” encontrado na literatura astrológica – uma refutação da existência do dragão fornecida pelo escritor sírio Severus Sebokht, bispo de Qennešrê (± 575 –  ± 666 d.C.), e que vale a pena ser citada na íntegra:

… des hommes renommés dans cette science disent que les éclipses et la disparition des astres ont lieu à cause du Dragon (Ataliâ). Pour confirmer leurs paroles, ils dessinent une figure de ce genre, et ils disent que le dragon (Ataliâ) est un corps qui a une figure de dragon: souvent aussi ils l’appellent dragon et serpent. La largeur de son corps est de 24°, et le longueur est de 180 degrés, ce qui fait six signes du zodiaque ou la moitié de la sphère; on voit ainsi dès maintenant que sa tête et sa queue se font vis-à-vis et sont toujours diamétralement opposées. Ce dragon (Ataliâ) marche toujours dans deux signes du zodiaque, sa tête dans l’un et sa queue dans l’autre. Le milieu de son corps est en dehors de toute la couronne des signes du zodiaque, vers le nord, du côté du char, car il est courbé et a la forme d’un demi-cercle, comme un arc … Son mouvement a lieu non comme celui des planètes, de l’Occident à l’Orient, mais comme celui des douze signes, de l’Orient à l’Occident. Il se déplace de 3´11ʺ en un jour et une nuit, de 1°33´ en un mois, et de 19°20´ en un an. Il fait donc une révolution complete en 18 ans, 7 mois et 16 jours. Parce que ce dragon (Ataliâ) est en dessous du soleil et de la lune, chaque fois que la lune est en conjonction avec le soleil dans le signe et le degré où se trouve la tête du Dragon (Ataliâ) ou sa queue, le Dragon (Ataliâ) se tient devant la lune et cache aussi le côté du soleil.

Tradução:

… homens de renome nesta ciência dizem que os eclipses e o desaparecimento dos astros ocorrem por causa de um dragão (Ataliâ). Para confirmar suas palavras, eles desenham uma figura desse tipo, e dizem que o dragão (Ataliâ) é um corpo que se descreve nessa figura: muitas vezes também o chamam de dragão e serpente. A largura de seu corpo é de 24° graus e o comprimento é de 180° graus, o que dá seis signos do zodíaco ou metade da esfera; podemos ver, então, que sua cabeça e sua cauda estão frente a frente e sempre diametralmente opostas. Este dragão (Ataliâ) sempre anda em dois signos do zodíaco, sua cabeça em um e sua cauda no outro. O meio de seu corpo está fora de toda da roda dos signos do zodíaco, para o norte, do lado da carruagem, porque é curvo e tem a forma de um semicírculo, como um arco … Seu movimento se dá como dos planetas, de oeste a leste, mas os doze signos seguem de leste a oeste. Ele se move 3´11ʺ em um dia e uma noite, 1° 33´ em um mês e 19° 20´ em um ano. Ele, portanto, faz uma revolução completa em 18 anos, 7 meses e 16 dias. Porque se este dragão (Ataliâ) está abaixo do Sol e da Lua, sempre que a Lua está em conjunção com o Sol no mesmo signo e grau em que a cabeça do Dragão (Ataliâ) ou da cauda d​​o Dragão está (Ataliâ) ele fica na frente da Lua e também esconde esse lado do Sol.

Além disso, um manuscrito alemão do século XVI discutindo o Astéra melané ou “estrela negra” responsável pelos eclipses apresenta uma ilustração deste dragão lunar, de cor vermelha, em que a cabeça que morde a cauda está situada no centro da criatura.

Illustration in an astrological text, Codex 34

Se os astrólogos medievais conheciam o dragão ‘nodal’, é concebível que os dois dragões semicirculares mordendo a cauda um do outro em um pergaminho alquímico inglês de 1588 d.C. denotam, de forma semelhante, o par de monstros encarregados dos eclipses solares e lunares, especialmente porque o círculo formado por seus corpos é colocado dentro do anel do zodíaco e inclui o lado da conjunção do Sol e da Lua cheia.

Ripley Scrowle, Lubeck, 1588

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