Traduções

A Descoberta dos Selos Astrológicos nas cartas à Oldenburg

‘Moedas e Quadrados Mágicos’

by Anna Marie Roos

History of Medicine, Oxford University

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Anexados em uma carta de 1673 a Henry Oldenburg estavam dois desenhos de uma série de selos astrológicos, moedas e amuletos da coleção do matemático de Estrasburgo Julius Reichelt (1637–1719). Como as descrições dos antigos selos (sigils do latin sigillum) medievais são relativamente raras, no começo da modernidade, este artigo irá analisar o papel desses amuletos na medicina medieval e no começo da modernidade, e a lógica por trás de sua perceptível eficácia e o seu significado astrológico e prática cabalística. Vou também demonstrar a mudança de status no fim do século dezessete destes potentes amuletos mágicos de cura que conectam os mistérios dos céus a objetos mantidos em gabinetes de investigação. A percepção evolutiva do propósito dos selos espelha mudanças nas crenças do começo da modernidade e nas influências ocultas dos céus sobre o corpo e o mundo natural, bem como no crescente interesse entre os especialistas em numismática e antiguidades.

Em 11 de junho de 1673, Johannes Gezelius, o Jovem (1647-1718), um jovem teólogo finlandês que sucederia seu pai como bispo de Turku, escreveu uma carta a Henry Oldenburg, secretário da Royal Society. Gezelius incluiu duas folhas com desenhos a bico de pena de moedas e selos astrológicos (figuras 1 e 2). Gezelius tinha visitado a Inglaterra como parte de sua ‘Grand Tour’ desde 1671, e neste ínterim estava servindo como um intermediário para Julius Reichelt, que se tornou professor de matemática na Universidade de Estrasburgo em 1667 e era mais conhecido por seus trabalhos sobre cartografia. Reichelt também foi um colecionador interessado em medalhas, moedas, selos e amuletos, e estava escrevendo um livro sobre seus simbolismos – Exercitatio de amuletis, aeneis figures illustrate – que foi publicado três anos mais tarde, em 1676. O trabalho de Reichelt apresentou uma variedade de xilogravuras para representar seus engenhos cabalísticos, incluindo ilustrações dos próprios selos e moedas anexados em sua epístola a Oldenburg. Reichelt subsequentemente perguntou a Oldenburg se a Royal Society tinha quaisquer selos diferentes dos desenhos que ele incluiu na carta, e pediu particularmente por informações sobre as “moedas mágicas” na linha inferior. Ele também se ofereceu para comunicar qualquer coisa de interesse científico ocorrendo na Alemanha.

A inclinação de Reichelt para colecionar não era inusual, porque muitos dos modernos eruditos se interessavam na moda da numismática. Elias Ashmole (1617-92) juntou mais de 9.000 moedas, e, como Michael Hunter observou, “moedas e medalhas eram os itens mais característicos de todos os itens que o cognoscente cobiçava para seus armários, combinando um raro entusiasmo com uma utilidade genuína e a capacidade de instrução – como determinavam os manuais de etiqueta da época”. Uma coleção fina de moedas, medalhas ou selos era um sinal de superior posição social. Mais pragmaticamente, como observou o erudito Henry Peacham (1546-1634), embora as moedas não fossem baratas, eram mais baratas e portáteis, para o colecionador, do que estátuas. Portanto, estariam ao alcance de alguém, como Reichelt, de uma classe profissional intermediária, e era muito comum para colecionadores como ele, trocar descrições dos desenhos de seus exemplares de livros e manuscritos, e transmitir por cartas seu conhecimento e status social. Por exemplo, Ralph Thoresby (1658-1724), um proeminente antiquário e homem de negócios, correspondia-se regularmente com outros eruditos e membros da Royal Society, como Martin Lister (1639–1712) sobre sua extensa coleção de moedas e antiguidades de seu gabinete de curiosidades. Portanto, não seria incomum Reichelt escrever para a Royal Society na esperança de fazer conexões com os peritos em numismática.

Os desenhos incluídos na carta de Gerzelius indicavam que Reichelt (assim como Ashmole) mostravam uma preferência particular por colecionar selos que tinham quadrados numéricos da cabala. Algumas das medalhas também tinham signos astrológicos ou astronômicos, a fim de obter efeitos por alguma virtude celestial. Ashmole acreditava em sua eficácia como parte de sua ‘profunda visão mágica do mundo’, e Robert Boyle (1627-91) especulou que poderia ser possível descobrir como fazer selos eficazes dos ‘exóticos eflúvios da [região] superior da atmosfera’. Certamente, ele ‘não desencorajaria nenhum homem curioso ou sensato de tentar se satisfazer por meio destes experimentos’ para testar os encantamentos. Isso é ‘porque até uma pequena descoberta em algo dessa natureza pode ser de grande utilidade na investigação da “correspondência”, que, por intervenção do Ar, com a parte superficial do globo terrestre, pode-se ter com as Celestiais Regiões do Universo’.

Outros filósofos naturais, como Reichelt, adotaram uma abordagem totalmente diferente para seus coleta e estudo, demonstrando total antipatia pelo seu uso. A atitude dele não era única. O astrólogo John Gadbury em seu Natura prodigiorum de 1660 incluiu um apêndice sobre o “imposturismo” de alguns que proclamavam a doutrina dos selos e talismãs. O principal problema de Gadbury com a criação dos selos era que ele acreditava que as observações astronômicas não eram precisas o bastante para torná-los eficazes, particularmente porque seus poderes eram governados pela doutrina dos ascendentes, ou seja, a ascensão do planeta na “primeira casa” do zodíaco. Por causa disso era impossível cronometrar o surgimento dos planetas com precisão, logo não se poderia lançar metais astrológicos de modo que eles recebessem as máximas influências planetárias. Reichelt, que tinha sido ‘um aluno de muito sucesso do grande Hevelius ‘, e construiu o primeiro observatório astronômico em Estrasburgo, em 1673, compartilhou o mesmo ponto de vista. Ele colecionou selos por causa de seu interesse e experiência em astronomia, matemática e antiquarianismo, mas depois de um extenso estudo da astrologia e da cabala, ele negou que os selos tivessem qualquer relação de simpatia com os céus. Em seu Exercitatio, ele criticou a astrologia em detalhes, citando as obras de Marsilio Ficino (1433-99) e Pedro de Abano (1250-1316), e concluiu que não havia causa natural em tais selos, e que eles eram, portanto, armadilhas supersticiosas do diabo’. Para Reichelt, selos e amuletos eram curiosidades em voga, bem como ferramentas para compreender o que ele considerava as práticas crédulas dos médicos, astrológicos e magos. Como os retratos de selos medievais, os modernos são relativamente raros, este artigo irá analisar os desenhos de Reichelt em um espírito mais historicamente sensível. Especificamente, analisaremos o papel dessas medalhas de cura e proteção na Idade Média e no início da medicina moderna, a lógica por trás de sua perceptível eficácia, e o seu significado na prática astrológica e cabalística no início dos tempos modernos.

O Contexto dos Selos

De acordo com Weill-Parot, o conceito de ter imagens astrológicas em selos é exclusividade do Ocidente Cristão. No Speculum astronomie, uma obra que se pensava ter sido escrita em meados do século XIII, por Albertus Magnus, o filósofo propôs a criação de um tipo de talismã cujo poder repousava completamente em causas naturais, excluindo formas ilícitas de magia necromântica. Esta “magia natural” incluiu o uso de selos com imagens astrológicas que conteria o poder astral dos planetas. Os escritos de Pico della Mirandola (1463-1494) e a recuperação dos textos herméticos e neoplatônicos no século XV por Marsilio Ficino, em Florença, também contribuiu para a popularidade do uso dos talismãs astrológicos. Estes talismãs incluíam elementos da cabala quando o círculo de Ficino se interessou pelo misticismo judaico, e as conversas do humanista cristão Johann Reuchlin com Pico levaram à sua publicação do De arte cabalistica em 1517, que foi um dos primeiros livros latinos sobre a cabala judaica escrito por um cristão. Reuchlin estava interessado na cabala por um desejo de revigorar a teologia cristã, mas outros escritores desejavam explorar as aplicações mágicas e esotéricas de cabala. Heinrich Cornelius Agrippa (1486–1535), no seu Philosophia occulta siva magia (1531), subsequentemente forneceu instruções para o uso de símbolos hebraicos e a numerologia nos selos mágicos.

A literatura moderna sobre a eficácia médica e protetora dos selos foi de fato bastante vigente, especialmente na Alemanha e menos frequente na Inglaterra. Johannes Trithemius (1462-1516), Abade de Sponheim e Würzberg, criptógrafo e mágico, escreveu no século XVI um trabalho sobre selos que foi republicado ao longo do século XVII. O Mysterium sigillorum de Israel Hiebner foi publicado na Saxônia em 1650 com oito edições subsequentes, e o Curiosus sigilorum scrutator do médico de Jena, Jacob Wolff (Frankfurt, 1692) foi um opus magnum de 400 páginas com um catálogo de doenças que ele percebeu curáveis pelo uso de selos e bolsas de ervas usadas ao redor do pescoço. Na Inglaterra, uma das obras mais abrangentes do final do século XVII foi um tratado de medicina astrológica de 1671 do médico Joseph Blagrave. Reichelt, em seu Exercitatio, forneceu uma descrição cética de todas as curas médicas que se dizia serem efetuadas pelos selos astrológicos e outros amuletos de ervas, recolhidos de tratados médicos em antiquários, como o de Thomas Bartholine (1616-80) e Johann Schröder (1600-64).

Na busca pela cura da doença, a maioria desses dispositivos foi pensado para funcionar pelos princípios das assinaturas de antipatia ou simpatia. A doutrina das assinaturas foi um princípio extra-galênico popularizado por Paracelsus e promovido por Bartholomaeus Carricher, o ‘Kräuterdoktor’ residente da Corte imperial de Maximiliano II no início do século XVII. Subseqüente publicações inglesas, como a do físico inglês Nicolas Culpeper, English physitian enlarged (1653) ele detalha a relação da cura dos selos e das ervas com a astrologia.

Os remédios fitoterápicos de Paracelso, através do sistema de paralelos astrais, seguiam o princípio de que cada órgão, erva e metal estão ligados ao seu próprio planeta, e as doenças podem ser curadas simpaticamente, empregando plantas ou metais concernentes aos planetas causadores da doença. No caso das plantas, cada planta apresenta uma assinatura de sua aplicação médica, usualmente semelhante a parte do corpo ou a enfermidade que ela poderia curar, por exemplo, lentilhas e colza são formas que simpatizam com a cura da varíola, uma doença lunar, porque essas formas são semelhantes com as manchas da Lua (pústulas de varíola). As ervas apropriadas eram empacotadas e usadas sobre o pescoço para efetuar a cura.

Alternativamente, algumas curas para uma doença relacionada a causa mórbida de um determinado planeta podem ser realizadas antipaticamente por uma erva do planeta oposto. Por exemplo, doenças lunares eram considerada por produzir a abundância de humores frios e úmidos, pois a Lua controla as águas das marés. Doenças que produzem catarro e causam espirros, ou aquelas que produzem tumores cheios de fluídos, como a escrófula, eram consideradas governados pela Lua. Essas doenças lunares podiam ser curadas por meio de ervas solares ou tinturas, que eram aquecidas e secas aos raios do sol. Em uma linha semelhante, um empírico inglês do século XVII, Lionel Lockyer, fez ampla divulgação de uma preparação secreta chamada de ‘Pilulae Radiis Solis Extractae’, que pretendia ser um medicamento de ‘natureza solar’, que ‘dissipa essas causas em nossos corpos, que poderiam, não só escurecer o brilho, mas extinguir a luz de nosso Sol Microcósmico’.

Os mesmos princípios de simpatia e antipatia governaram a preparação dos selos astrológicos feitos de metal. O Sol estava astrologicamente e alquimicamente associado ao ouro, então um selo de ouro seria tocado com a impressão do Sol (geralmente quando ele estava no seu ponto mais forte de influência, durante o equinócio vernal) ou por um signo astrológico regido pelo Sol, como Leão. Acreditava-se que o selo solar, por meio da antipatia, protegia contra doenças lunares. O portador estaria protegido da influência maligna dos céus; como Hiebner explicou em the Mysterium Sigillorum, a ‘Influência nociva antipática vai para o metal, nesse tempo o homem é preservado da doença ameaçadora; mas quando a doença já está no corpo, o metal, a extrai gradualmente’.

Os Selos de Reichelt e a Astrologia

Figure 3. Sigillum leonis. (a) On the obverse of the coin we see the Sun in Leo. (b) On the reverse we see the Verchiel angelic symbol, followed by the sign for Regulus, and the cabala symbol for Leo.

Vários dos selos de Reichelt retratados na carta de Gerzelius foram projetados para funcionar por princípios simpáticos. Reichelt notou que os selos 1-4 e 6-8 (figura 1) eram selos do Sol na sua casa astrológica de Leão, um esboço deste selo sobrevive em três moedas no gabinete do Museu Kunsthistorisches de Viena (figura 3). Seu design parecia ter sido influenciado por instruções dadas no tratado médico do pseudo-Arnaldo De sigillis, atribuído a Arnaldo de Vilanova (1240–1311), que foi um professor catalão de medicina em Montpellier. O trabalho de Villanova demonstrou como preparar selos para cada um dos signos do zodíaco, e o selo de Leão ou o sigillum leonis oferece proteção particular contra doenças renais e febres. Os rins eram governados por Leão, nas imagens de zodíacos medievais homens submetidos a flebotomia e com febres são associados ao calor do Sol. Ocasionalmente, em 1301, observou-se que o Papa Bonifácio VIII (1294-1303) usava um selo de ouro sigillum leonis, mantido no corpo por uma cinta ou treliça, para tratar das pedras nos rins.

O reverso dos selos 2, 4 e 6 (figura 1) também exibe o signo do ‘coração do leão’ Cor leonis, que é Regulus, a estrela mais brilhante da constelação de Leão, bem como uma das estrelas mais brilhantes do céu noturno. O símbolo astrológico א foi pensado para retratar a juba do animal, mas também pode ser a cauda do animal, e a principal estrela dentro de sua imagem é Regulus ou seu coração. O símbolo de comprovação para Regulus é ב, e está gravado no reverso dos selos 1, 2 e 7. O símbolo do cor leonis era uma ocorrência cultural comum entre os artistas no início do período moderno. Nowotny notou que o coração de Regulus foi usado por Albrecht Durer no seu retrato do patrício Johann Kleeberger. Isso foi porque ‘Kleeberger nasceu nesta significativa conjunção do Sol com Regulus (Sol em Cor leonis)’, em 15 Agosto, quando o Sol se punha e nascia muito perto de Regulus (figuras 4 e 5).

O poder astral dos selos pode ser ainda mais aprimorado pela incorporação de citações das escrituras e os nomes dos profetas bíblicos. Inscrito nos selos 1, 2, 4 e 6 lê-se uma fórmula apotropaica comum (Vincit Leo de tribu Iuda, radix David) Revelações 5:5, referência ao David bíblico e ao Leão astrológico. Como Skerner observou em seu estudo sobre as bênçãos religiosas e os textos medievais de selos:

numa versão mais longa desta fórmula …ofereço “a cruz do Senhor” como um poderso escudo que desvia os demônios pelos ares… (Ecce crucum demoni, fugit e partes adversae, vincit Leo de tribu juda, radix David, alleluia).

Da mesma forma, alguns dos selos de Reichelt foram inscritos com palavras do Evangelho de João: Verbum caro factum est, fazendo com que os demônios fujam diante do poder da ‘palavra que se fez carne’.

Figure 4. Albrecht Du¨rer’s portrait of patrician Johann Kleeberger (1526). The Regulus symbol is in the upper left.

Figure 5. Close-up of the Regulus symbol in the Kleeberger portrait.

Os Selos de Reichelt e a Cabala

Inscrever os nomes dos anjos nos selos também era considerado eficaz, uma tradição iniciada no século XIII, pela crescente influência dos textos cabalísticos judeus, como o Sefer Yezirah e o Sefer Razi’el. Essas obras foram usadas por astrólogos judeus que serviram como cortesões na Espanha medieval, e mais tarde foram incorporadas às teses cabalística de Pico della Mirandola em 1486. ​​Os textos afirmavam que os “nomes secretos de Deus e dos anjos forneciam os meios pelos quais os poderes eram chamados para os níveis sublunares do cosmos, e por isso, frequentemente usava-se uma angelologia intrincada e desconcertante na magia ritualística. O Sefer Razi’el em seu início dá instruções para invocar os anjos “que mudam de acordo com o mês, dia e hora, e para usá-los para um propósito peculiar, como profecia ou proteção. Pela causa de que uma influência astrológica é ponderada em relação ao tempo, não é difícil ver as duas tradições, astrológica e cabalística, na projeção mágica de selos. Nos selos 1 e 7, está inscrito ‘Verchiel’. Verchiel era invocado como o anjo do mês de julho, o regente do signo de Leão. Do ponto de vista de um matemático como Reichelt, que estudou cabala extensivamente, Verchiel (aqui chamado de Zerachiel) é também regido pelo Sol e concede poderes do intelecto, linguagem, aprendizagem e matemática, que podem fazer parte do poder desses selos. Certamente, os primeiros eruditos modernos estavam interessados ​​em curiosidades que apresentavam a escrita hebraica. Um filactério judeu aparece no catálogo de Nehemiah Grew de 1685 no Repositório da Royal Society, de onde Grew assinalou ‘que os cristãos foram os primeiros a aprender o uso de feitiços’, e Ralph Thoresby possuía um shekel judeu em sua coleção e um selah (סֶלַע‎), junto com quatro “talismãs muito raros e finos”.

Vários dos selos de Reichelt também contêm caracteres geométricos de triângulos, círculos e linhas, que ele entendeu como a representação das “inteligências e demônios” dos planetas com base em associações numéricas, feitas com os corpos celestes, derivadas das regras da cabala. Também há no quadrado mágico uma grade de números inscrita no selo 10 (figura 1) atribuída ao planeta Mercúrio. O uso desses quadrados mágicos e caracteres planetários geométricos nos selos de Reichelt sugerem ser baseados no Livro II da Philosophia occulta siva magia de Agrippa de Nettesheim  (figura 6). Para Agrippa (como para outros filósofos modernos), matemática e magia estavam intimamente conectadas. Na sua doutrina os elementos do corpo mesclam-se em proporções geométricas, e os elementos da alma são combinados numericamente, Agrippa determinou que a derivação geométrica e numérica das figuras possuíam peculiares poderes corporais e espirituais. Agrippa continuou:

É afirmado pelos mágicos que existem certas tabelas de números distribuídas para os sete planetas, que eles chamam de tabelas sagradas dos planetas, dotadas de muitas e grandes virtudes dos Céus, na medida em que representam a divina Ordem Celestial dos números, impressa nos Céus pelas Idéias da mente divina. Somente números e imagens nada podem fazer sobre os mistérios das coisas ocultas, mas ao representar números e figuras estruturados, como eles são governados e conectados às inteligências e numerações divinas, que unem os extremos da matéria e do espírito à vontade da alma elevada, recebem pelo poder celestial do operador, o poder de Deus.

Agrippa posteriormente observou que os selos planetários tinham tradicionalmente impressos no reverso um quadrado de número mágico cabalístico ou Kamea específico para cada planeta. Quadrados mágicos apareceram pela primeira vez em fontes árabes em torno de 900 d.C. e eram figuras numa grade quadrada que somavam o mesmo número para as quatro direções. O número era o total dos valores numerológicos das consonantes de um nome hebraico em particular, porque para cada consonante hebraica estava atribuído um valor numérico na cabala. Como Calder observou, ‘quadrados mágicos que não tinham aparentemente contrapartes na natureza observada eram adotados para manter a relação com as entidades e as verdades existentes em um reino mais elevado do que o sensível’. Para Agrippa, os próprios números se equivalem diretamente na alma, pois os elementos da alma foram mesclados em proporção aritmética.

Figure 6. Magic square for a Mercury Sigil from Agrippa.

Agrippa ordenou os quadrados mágicos dos sete planetas conhecidos até o período do início da era moderna (Saturno, Júpiter, Marte, o Sol, Vênus, Mercúrio e a Lua) na ordem de suas velocidades orbitais. O menor número das unidades usadas para formar um lado de um quadrado mágico de três atribuído ao planeta mais lento, Saturno, progride até sete para a órbita mais rápida da lua. Como Nowotny afirmou, “Três tipos de quadrados mágicos podem ser distinguidos de acordo com o número de unidades de um lado: aquelas que contêm um número ímpar; aqueles com um número par, cujas metades são desiguais; e aqueles que contêm um número par, cujas metades estão equilibradas.

Agrippa produziu a imagem  do quadrado ímpar do número 3 de Saturno seu quadrado natural (um quadrado de números sequenciais numerados da esquerda para a direita) girando 45 graus para à direita e, assim, inserindo números à esquerda nos lados opostos (figura 7). Para outros planetas com quadrados pares, como Júpiter (quadrado do número 4) ou Mercúrio (quadrado do número 8), o quadrado natural foi numerado da direita para a esquerda. O quadrado mágico foi formado para ‘deixar posicionada metade dos numerais do quadrado natural e girar a outra metade em 180 graus’ (figura 8). Na coleção de Reichelt, o selo 10, que é dedicado ao planeta Mercúrio, tem um quadrado mágico para esse planeta gravado em seu reverso de acordo com o método de Agrippa.

Figure 7. Construction of the magic square of Saturn by Agrippa’s method.

Figure 8. Construction of the magic square of Jupiter by the method of Agrippa.

Hebrew alphabet and alphanumeric values in cabala.

As figuras geométricas de várias medalhas de Leão representam Nachiel, o anjo do planeta governante de Leão, o Sol. Em hebraico, Nachiel (נכיאל), inteligência do sol, é representado por ג. De acordo com as outras regras da cabala, o idioma divino é alfa numérico; as letras hebraicas são identificadas com os números de 1 a 22 e cada número relacionado tem um atributo divino (tabela 1). Assim, soletrando o nome de Nachiel, dá a sequência numérica: 30+1+10+20+50=111. A figura geométrica para a inteligência do Sol é formada pela junção dos valores numéricos das letras que formam o nome do anjo Nachiel no quadrado mágico do Sol, as dezenas e centenas frequentemente se expressam nas unidades se o número não estiver no quadrado. Portanto, no caso do quadrado mágico do número 6, quadrado do Sol, o giro começa, conectando-se 3+1+10+20+5, como vemos abaixo na figura gravada nos selos 1 e 2 da coleção de Reichelt (figura 9).

Figure 9. The magic square of the Sun, its planetary angel Nachiel, and figure of the angel. Nachiel ד.

O uso da cabala cristã também é visto no grande amuleto na figura 2, que invoca nomes bíblicos e patrísticos judaicos e, portanto, é escrito em latim e hebraico. Esta relevância para Reichelt foi indicada pela colocação do desenho do frontispício do Exercitatio. O amuleto parece representar um universo concêntrico em fileiras crescentes de divindade do interior para o exterior. Assim como a Terra, considerada mutável e corruptível, no centro do cosmos, rodeada por esferas de crescente perfeição e beleza, o amuleto espelha essa estrutura. No círculo mais interno, vemos a inscrição ‘Abiron, Daton, et Effron‘. Daton e Abiron eram filhos de Eliabe, filho de Phallu, da tribo de Ruben no Antigo Testamento. Eles se rebelaram contra a autoridade de Moisés e Arão, ofendidos porque a tribo rubenita foi privada da liderança que via como seu direito por nascimento, sendo descendente do filho mais velho de Jacob. A Bíblia (Números 6: 1-34) relata que como punição por suas ações contra o escolhido de Deus, Daton e Abiron foram engolidos pela terra e levado para o inferno. Sua inclusão no selo pode ser um lembrete do perigo da humanidade, ou um aviso sobre o poder da ira divina e a necessidade de obedecer autoridade divina ao usar inscrição e encantamento para obter poder mágico, ou mesmo uma maldição de proteção simples. Nos mosteiros cluníacos do início da Idade Média, uma maldição comum se referia Daton e Abiron – ‘Se alguém levanta calúnias, pode incorrer na ira do Deus Todo-Poderoso e estar no inferno com Daton e Abiron‘, e Daton e Abiron eram frequentemente invocados com Judas Iscariotes em algumas das mais potentes maldições medievais.

No próximo círculo estão as diferentes classes de anjos em latim (Serafins, Querubins, Rodas, Tronos, Domínios, Principados, Poderes, Arcanjos e Anjos). Na terceira concentricidade (os nomes em letras maiores) do hebraico podem ser traduzidos como ‘YWWH das Hostes, Deus (Eloha), Deus (Elohim) o Bom, Deus (El), YHWH, Deus (Elohim), YHWH, Eu sou’. Três palavras que são traduzidos como ‘Deus’ são três palavras hebraicas diferentes por divindade, e YHWH é o Tetragrammaton, a transcrição do nome hebraico de Deus que estudiosos especulam, foi pronunciado como ‘Yahweh’. Rabinos proíbem a expressão do Tetragrammaton para evitar a profanação do sagrado nome de Deus, pois era um símbolo comum em papiros e amuletos judeus mágicos. Numa esfera acima, os nomes hebraicos podem ser traduzidos como ‘Senhor, Shaddai (geralmente traduzido como ‘Todo-poderoso’), Deus, Anfitriões (as hostes celestiais de anjos)’. Então, esses círculos representam Deus conforme conceitualizado pela fé judaica. Os nomes hebraicos no círculo mais externo, no entanto, dizem ‘Yeshu (Jesus) nosso Deus, YHWH (Deus) é um’, que é uma interpretação do humanismo cristão de Deuteronômio 6: 4, ‘Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é um’. Este seria o pináculo da santidade para um humanista cristão como Reuchlin, que viu a cabala revigorando a fé cristã; os mistérios da fé judaica e do cristianismo estão unidos neste selo com este hino a Jesus e a Yahweh.

Amuletos contra o mau olhado de Reichelt e as Moedas da Idade do Ferro

Nem todos os objetos retratados na carta de Reichelt eram tecnicamente selos com associações astrológicas ou cabalísticas. Alguns, como os dois objetos em forma de mão na figura 1, eram amuletos simples projetados para proteger o usuário do mau-olhado ou encantamento. Ainda feito na Espanha de jato ou coral na cidade de peregrinação de Santiago de Compostela, o amuleto representa o gesto da mão chamada de ‘luta mão’ ou mano fico, suposto para se parecer com uma figura pendurada. Alguns antropólogos afirmam que, porque ‘figa’ também é um gíria comum para os órgãos genitais femininos, o gesto com a mão no amuleto representa o aspecto sexual do polegar como o falo. Alan Dundes afirmou que em culturas que acreditam no evil eye, a vida pode depender de líquidos, seja a água da vida ou líquidos como os homens, sangue, saliva ou leite. O Evil Eyeist pensava em secar tais fluidos e, portanto, foi escrito por um símbolo de fertilidade ou potência sexual, como a mão direita. Em seu estudo de amuletos, Reichelt notou que bebês e crianças costumam receber esses amuletos para usar porque se pensava que eram particularmente suscetíveis ao poder do mau-olhado. Mais fraco e também mais atraente, acredita-se que é mais provável que os jovens atraiam para si olhares invejosos e masculinos. Na verdade, como Hildburgh observou, retratos do século XVII de crianças das classes nobres retratou-os usando esses amuletos:

o retrato da bebê Infanta de Espanha, Maria Ana de Austria, pintado por Juan Pantoja de la Cruz, no início do século XVII, mostra-a vestindo, para sua proteção, uma gama bastante considerável de objetos, alguns deles – cruzes e pequenos relicários – de inspiração religiosa, outros – incluindo um azeviche de mão de figa colocado em ouro esmaltado.

Não se sabe exatamente quando as mãos apareceram pela primeira vez, mas Hildburgh especulou que, em Espanha, foi antes da conquista pelos mouros no século VII d.C.

Os últimos talismãs que devo analisar na coleção de Reichelt – a última linha de moedas para que ele pediu a ajuda da Royal Society para identificar na figura 1 – antes mesmo da símbolo de mão. Não há registro da Royal Society de que Reichelt tenha recebido uma avaliação satisfatória responder à sua pergunta; isso pode ter sido simplesmente porque a resposta foi perdida, ou Oldenburg não tinha experiência para dar uma resposta. Oldenburg também pode ter sido ambivalente ao discutir a magia e sua eficácia. Um cônego de Sarlat tentou atrair Oldenburg com suas idéias sobre magia e alquimia e no mesmo momento foi informado, de modo empertigado, pelo secretário da Royal Society, a estar limitado à ‘história natural de Périgord‘. De qualquer forma, Reichelt permaneceu intrigado com a origem das moedas com os símbolos estranhos, assumindo apenas que eram “moedas mágicas” de algum tipo. A confusão desses primeiros antiquários modernos não é surpreendente. Como Rosemary Sweet demonstrou, antiquários do início do século XVIII tinha pouco senso de pré-história, a arqueologia estava em sua infância, e as bases sólidas da numismática estavam apenas começando a ser estabelecidas, a classificação correta geralmente era restrita a moedas antigas gregas e romanas. Os desenhos são, na verdade, moedas de ouro de 12 quilates da Idade do Ferro (1000–750 a.C.) da Alemanha, pesando provavelmente entre 5,5 e 7,5 gramas. O número 13 é de um stater (o termo é emprestado de moedas gregas antigas de tamanho semelhante) de Hessen e Rheinland; os números 14 e 15 são de estatistas do sul da Alemanha (Baviera) . Ralph Thoresby considerou notável que ele tinha uma moeda nórdica com símbolos rúnicos em seu coleção, acreditando ser a única “conhecida por estar em algum museu na Europa”, então as moedas de ferro antigas com seus símbolos inescrutáveis ​​teriam representado um quebra-cabeça exótico de fato. Como muitas das moedas da Idade do Ferro tinham motivos de cavalos, os pesquisadores do início do século XVIII acreditava que eles eram fenícios, uma afirmação que não foi refutada até que William Borlase o trabalho numismático sobre o Carn Brea Hoard descoberto na Cornualha na década de 1740. Em meados dos séculos XVIII e XIX, a percepção dos motivos das moedas da Idade do Ferro como símbolos druídicos ou místicos era frequentemente aceita em toda a Europa Ocidental. O interesse crescente nas moedas, como o de Reichelt, por exemplo, foram pensados ​​para retratar o calendário lunar druida, ou o ‘gancho dourado com o qual seus sacerdotes com tanta solenidade cortam o visco divino’.

Embora hoje possamos determinar os períodos de tempo dessas moedas, compreender seus simbolismos ainda é problemático. O Dr. John Sills, um especialista em moedas da Idade do Ferro e celtas, especulou que as curvas cobertas por bolas circulares no anverso das moedas de Reichelt podem representar o torc*, ou os colares ou pulseiras de uma estreita faixa de metal torcida usada por antigos Gauleses e britânicos. A breve representação literal de seu retrato nas moedas e o fato que o torc pode ser considerado a relíquia primitiva Céltica ou Teutônica mais característica da arte torna essa identificação provável.

*Também conhecido como torque, é um grande anel rígido ou pelo menos rígido em metal, feito como uma única peça ou com fios torcidos juntos. A grande maioria é aberta na frente, embora alguns tenham fechos de gancho e argola e algumas travas de encaixe e espiga para fechá-los. Muitos parecem projetados para desgaste quase permanente e seriam difíceis de remover. Os torcs são encontrados no cita, trácio da Ilíria, celta e outras culturas da Idade do Ferro europeia, de cerca do século 8 a.C. ao século 3 d.C. Para os celtas da Idade do Ferro, o torque de ouro parece ter sido um objeto-chave, identificando o usuário como uma pessoa de alto escalão, e muitas das melhores obras da arte celta antiga são torcs. O torc celta desaparece no período de migração, mas durante a Era Viking os colares de metal estilo torc, agora principalmente em prata, voltaram à moda. Os estilos de anel de pescoço torc são encontrados como parte dos estilos de joalheria de várias outras culturas e períodos.

The Key of Solomon the King (Clavicula Salomonis)

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Conclusão

Três anos após este boletim para Oldenburg, Reichelt publicou seu Excercitatio com grande sucesso, e seu trabalho foi mais tarde anexado ao magnum opus de Jacob Wolff, o Curiosus sigilorum scrutator. Embora o interesse em selos tenha persistido entre os eruditos no final dezessete e no início do século dezoito, a atitude de Reichelt em relação à falta de eficácia e a associação com a prática supersticiosa se torna, por fim, predominante em relação ao filósofos naturalistas. Em vez de talismãs mágicos, os selos foram relegados ao estranho reino das curiosidades de interesse. Os leitores que, em busca de respostas nos jornais das cafeterias que apelavam para a sociedade educada, como o Athenian Mercury (1691-97) e o British Apollo (1708-11) continuavam a enviar perguntas sobre medalhas astrológicas como resultado de seu status como objetos de curiosidade. Um leitor do Athenian Mercury em 1691 perguntou: ‘Se a força e as virtudes dos antigos talismãs egípcios e suas outras operações mágicas eram verdadeiras e reais’, e outro leitor do British Apollo questionou se os raios lunares poderiam ficar presos em objetos. As respostas dos editores mostram que eles zombavam da criação de tais encantos, e os editores do Athenian Mercury negam que o façam, e o criador ou usuário ‘acredita que receberá e manterá as influências críticas do [planeta] e seus aspectos de design’ terá efeitos na medicina ou qualquer outra coisa. Em 1693, até mesmo o escritor místico bastante radical William Freke (1662-1744) mostrou seu desapontamento com seus supostos poderes. Ele alegou ‘assim, Telesmes, ou os talismãs também são uma semente da astrologia de tanta força quanto o pó do correio; da minha parte, uma vez fiz um Telesmes de Vênus em prata, mas não encontrei mais efeito no metal do que antes’. De potente amuleto mágico de cura ligado aos mistérios do céus, a um objeto mantido em gabinetes de curiosidades, o uso e o propósito dos selos de Reichelt espelha as mudanças das primeiras crenças modernas nas influências ocultas dos céus sobre o corpo e o mundo natural. A verificação empírica de seus poderes, ou a falta deles, subsumiu seu poder mágico, mas não sua fascinação inerente.

Agradecimentos

Agradeço a Keith Moore, Chefe da Biblioteca e Serviços de Informação da Royal Society, e Professora Lisa Jardine, do Queen Mary, Universidade de Londres, por seu incentivo e assistência. Agradeço também ao Dr. John Sills por seus conselhos especializados sobre as moedas da Idade do Ferro de Reichelt, Dra. Rebecca Lesses, do Ithaca College, por sua ajuda com a tradução do hebraico, e Dr. Adrian Popescu do Fitzwilliam Museum, Cambridge, por sua ajuda com o identificação das moedas de Reichelt. Meu marido Ian gentilmente emprestou sua experiência na criação as ilustrações dos quadrados mágicos. Sou grata ao editor de Notesand Records, bem como aos revisores anônimos por suas sugestões para o aprimoramento deste artigo.

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