Astrologia Medieval

Anjos Planetários e o Mundo Sublunar

Trithemius, Astrologia e Política nos Séculos XV e XVI

Francisco de Paula Souza de Mendonça Júnior

Doutor (2014) em História e Culturas Políticas pela Universidade Federal de Minas Gerais.
Professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Resumo

Discutiremos as relações entre esoterismo e política na transição do século XV para o século XVI, na Alemanha de Maximiliano I (1459-1519), imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Analisaremos a obra do abade alemão Johannes Trithemius (1462-1512) De septem secunda Deis id est intelligentiis sive spiritibus orbes post deum moventibus (1568), produto dos seus anos finais de vida. Ao analisar tal fonte, investigaremos a relação que o abade fez entre o reino supralunar e o reino sublunar, ou seja, como ele pensava a dinâmica entre ideias esotéricas e práticas políticas, após já carregar a pecha de demonomago há alguns anos. Dessa forma, acreditamos contribuir para ampliar o olhar sobre o complexo cenário das relações políticas no período marcado pela passagem do regimen medieval para a Razão de Estado.

Este artigo se debruçará sobre as relações entre esoterismo2 e política na transição do século XV para o século XVI, na Alemanha de Maximiliano I (1459-1519), imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Dando continuidade a uma reflexão iniciada em nossa dissertação de mestrado e aprofundada em nossa tese de doutoramento, voltamo-nos uma vez mais às obras do abade alemão Johannes Trithemius (1462-1512), mais especificamente à sua De septem secunda Deis id est intelligentiis sive spiritibus orbes post deum moventibus (Sobre as causas segundas ou inteligências, espíritos por meio dos quais Deus move o mundo) (1568), obra resultante dos seus derradeiros anos de vida. Ao analisar tal fonte, investigaremos a relação que o abade fez ao fim da vida entre o reino supralunar e o reino sublunar, em outras palavras, como ele pensava a relação entre ideias esotéricas e práticas políticas, após já carregar a pecha de demonomago há alguns anos. Dessa forma, acreditamos que podemos contribuir para ampliar o olhar sobre o complexo cenário das relações políticas no período marcado pela passagem do regimen animarum3 medieval para a Razão de Estado.

2 Entendemos esoterismo, enquanto categoria acadêmica, a partir da formulação teórica de Antoine Faivre em sua obra clássica O esoterismo, de 1994. Conforme Faivre, o esoterismo surge como campo possível no momento em que as “causas segundas” se emancipam da metafísica, ou seja, quando as ciências da natureza se separam da teologia, por volta do século XII. Esse esoterismo teria seu corpus histórico formado por três “rios” principais, sendo eles a alquimia, a magia e a astrologia, temperadas por uma aritmosofia; encorpados por afluentes, como a cabala cristã, o hermetismo neoalexandrino e a ideia de uma filosofia perennis. Faivre avança afirmando que esse conjunto de práticas, representações e discursos, para dialogarmos com as categorias apresentadas por Chartier, somente seria identificável havendo a presença de quatro “características intrínsecas”, que poderiam – ou não – ser acompanhadas de duas “características secundárias”. As qualidades intrínsecas são: Correspondência (o universo seria completamente interligado por uma rede de correspondências formando um emaranhado de relações simpáticas), Natureza Viva (formada por uma multiplicidade de camadas, a Natureza poderia ser lida e manuseada como um livro, dando-lhe operatividade), Imaginação e Mediações (a primeira corresponderia a um órgão da alma que criaria as segundas, instrumentos necessários para atuar nas relações simpáticas que moveriam a Natureza), Experiência de Transmutação (cooperação entre conhecimento e maginação ativa sobre as redes simpáticas constituintes da Natureza). As secundárias são a Práxis da Concordância (é a busca por estabelecer os pontos comuns entre as diversas tradições esotéricas) e a Transmissão (o conhecimento esotérico só poderia ser transmitido por um mestre a um discípulo, proporcionando a este um segundo nascimento).
3 O Regimen Animarum é descrito por Michel Senellart como um regimen (governo) que não deveria ser encarado em termos de potência, mas de escatologia. Foi, por muito tempo, encarado como um auxiliar menor da missão primordialmente eclesiástica da manutenção da ordem e da disciplina dos corpos. Logo, a ideia de Regimen, no medievo, foi a de governo das almas, de acordo com as normas morais impostas pela Igreja. Regimen tem, então, um sentido polissêmico: espiritual, moral, pedagógico e técnico. Portanto, o Regimen Animarum pode ser entendido como uma espécie de “medicina das almas”, em que se busca curar o doente por meio do exemplo do seu médico – no caso o rei –, bem como por uma ação não violenta que busca controlar e domar a vida afetiva e moral dos homens, a fim de conduzi-los à perfeição espiritual, portanto, aos portões dos céus.

Por se tratar de uma personagem histórica pouco conhecida e a fim de fornecer meios para que nossa proposta fique o mais clara possível, acreditamos que uma breve biografia do abade Trithemius será de grande valia. Em 1462, no vale do rio Mosela, na cidade de Trithenheim, nasceu Johannes Zeller de Heidenberg. Muito jovem, Johannes se viu órfão de pai, circunstância que faria com entrasse em sua vida o seu padrasto, de nome Zell ou Cell, com o qual não teria boa relação. O convívio entre padrasto e enteado foi marcado por conflitos surgidos do desejo de Johannes de instruir-se, o que era visto como investimento inútil por seu padrasto.

Foi graças a um tio paterno, de nome Peter Heidenberg, que Johannes obteve o suporte e os recursos financeiros para buscar pelo conhecimento que tanto ansiava. Assim, ele passou boa parte de sua juventude realizando uma peregrinatio academica, visitando grandes centros difusores de saber na Holanda e na Alemanha, bem como criando laços com grandes figuras do vindouro humanismo alemão, como Conrad Celtis (1459-1508) e Johannes Reuchlin (1455-1522). Em razão de uma das viagens de retorno à cidade natal, Johannes Heidenberg visitou o mosteiro beneditino de St. Martin, na cidade alemã de Sponheim. Quando partiu do mosteiro, foi surpreendido por uma grande nevasca e obrigado a retornar ao mosteiro em busca de abrigo. Considerando aquilo um sinal divino e também muito seduzido por aquele estilo de vida, optou por ficar no mosteiro e adotar o nome de Johannes Trithemius em homenagem à sua cidade natal.

Em menos de um ano no mosteiro, foi eleito abade, indicando-se um dos períodos mais ricos de sua vida. Além de recuperar o mosteiro e se dedicar ao movimento de renovação monástica, Trithemius se entregou febrilmente às tarefas de não apenas restaurar, como também ampliar a biblioteca de St. Martin. Amparado pela Regra de São Bento, o abade investiu vinte e cinco anos de sua vida para transformar tal biblioteca em ponto de referência não apenas em terras alemãs, contando com aproximadamente dois mil livros por volta de 1505. Graças ao seu apreço demasiado pela biblioteca, obrigando os monges a trabalhar pesadamente no scriptorium, e aos seus esforços por reformar tais monges, a insatisfação de seus subalternos foi tamanha que ele teve que abandonar St. Martin e sua biblioteca em 1505. Sob a proteção de Joaquim de Brandenburgo (1484-1535), eleitor-margrave do Palatinado, Trithemius obteve a posição de abade do monastério de St. Jacob, em Würzburg, onde permaneceria até 1516, ano de sua morte.

Trithemius foi uma figura múltipla. Ele não só reuniu em si o exortador da reforma monástica, como também foi uma referência em se tratando de matérias esotéricas. Além de escrever obras como a Steganographie (1621), um método criptográfico para se comunicar em segredo a longa distância por meio de espíritos, ele foi mentor do jovem Cornelius Agrippa von Nettesheim (1486-1535), que submeteu à autoridade de Trithemius a obra De Occulta Philosophia, um dos mais conhecidos tratados de magia da época. Trithemius foi também leitura de cabeceira, literalmente, de John Dee (1527c.1608), célebre mago da corte elisabethana. Somado a esse caldeirão, temos ainda o Trithemius próximo a homens poderosos, como o imperador do Sacro Império Romano-Germânico Maximiliano I, e a boa parte de seus eleitores palatinos, como o já citado Joaquim de Brandenburgo. Uma figura tão complexa atraiu amizades influentes, como a do referido imperador germânico e a do célebre bispo francês Germain de Ganay (?1520), mas também inimizades ferrenhas, como a de Picard Charles Bouelles ou Bovilius (c.1470-c.1530), cuja acusação de demonomagia acompanhou Trithemius além da tumba, através da História.

Neste trabalho, focamos a produção dos anos finais de Trithemius, quando ele já carregava consigo a acusação de demonomagia, mas também os favores de homens poderosos. Apesar de estar separado de sua amada biblioteca de Sponheim, o ano de 1508 foi bem produtivo para o abade. Nesse ano, Trithemius fez uma de suas duas últimas visitas à biblioteca que havia ajudado a construir no monastério de St. Martin. Tal visita aparenta ter sido muito proveitosa, uma vez que, após esse momento, o abade produziu diversas obras, como Antipalus Maleficiorum e De septem secunda Deis id est intelligentiis sive spiritibus orbes post deum moventibus. Enquanto a primeira exortava Joaquim de Brandemburgo a combater a “praga da bruxaria que havia infestado as terras germânicas”, a segunda tinha caráter abertamente esotérico. De septem secunda é um esforço por compreender de que forma o governo dos anjos planetários influenciaria o governo dos homens. Trithemius, provavelmente influenciado por Heptameron, de Pietro d’Abano (c. 1257-1316), acreditava que cada planeta possuía um anjo pelo qual exercia sua influência no universo, sendo que cada governo planetário duraria exatos trezentos e cinquenta e quatro anos e quatro meses, repetindo-se o ciclo após todos os anjos planetários terem governado a criação. Tal ideia já se fazia presente em obras anteriores, como Steganographie e Polygraphia, mas foi em De septem secunda que ele explorou tal ideia ao limite.

Essa obra foi um esforço de recenseamento por parte do abade, no intuito de averiguar como cada um dos governos angélicos que haviam tido lugar até o ano de 1508 tinham influenciado a trajetória humana e, além disso, como tais governos poderiam influenciar os caminhos futuros da humanidade. Assim, cada fase da trajetória humana na terra guardaria características oriundas da influência exercida por cada anjo planetário em seu respectivo momento. Trithemius começou essa síntese por Saturno. Sob o domínio deste astro, exercido por meio de seu anjo ‘Orifiel’, os homens se tornaram agricultores, caçadores e fundadores de cidades, também rudes, silvestres, tristes e simples. Além disso, mantiveram-se por toda a vida incultos e guiados unicamente pelos anseios da carne. Ao fim dos seus trezentos e cinquenta e quatro anos, quatro meses, quatro dias e quatro horas, o governo de Saturno e ‘Orifiel’ foi substituído pelo governo de Vênus e de seu anjo ‘Anael’. Sob essa influência, os homens se tornaram cultivadores e construtores de casas. Também durante esse período, floresceram diversas artes manuais, como a tecelagem e o lanifício. Os homens sob a atuação de ‘Anael’ se tornaram mais submissos à carne e à volúpia e, por isso, resolveram tomar “belas esposas”, com as quais tiveram muitos filhos. Nesse mesmo período, criaram jogos, cantigas, o canto e a cítara, o que mostrava também outra forma de apego à carne, de acordo com Trithemius. O terceiro planeta a governar foi Júpiter, também conhecido como Jove, e seu anjo ‘Zachariel’. Sob essa influência, os homens se tornaram “inquietos de desejo” e mais dedicados à caça. Nesse período, começaram a construir tendas e a se adornar com vestimentas variadas. Durante o reinado de Júpiter, Trithemius afirma que teria sido maior o prejuízo para o reino de Deus, ocorrendo uma maior divisão entre os homens bons e os homens maus, entre aqueles que se voltam para Deus e aqueles que estão presos ao mundo e à carne. A morte de Adão teria ocorrido nesse momento, como marca dessa crise, conectando a história bíblica com a história dos governos dos anjos planetários, além de nos ajudar a dimensionar a proximidade das duas histórias contadas pelo abade, a do mundo e a da humanidade.

O próximo governo planetário de que tratou Trithemius foi o de Mercúrio e seu anjo ‘Raphael’. Este período guardou um momento de virada para a humanidade, uma vez que foi quando a literatura teria surgido. Trithemius afirmou que as primeiras letras teriam sido criadas a partir da observação de plantas, árvores e animais, possibilitando assim que alcançassem sua grande diversidade, além de permitirem que o mundo se “ornasse de mais civilidade”. Patrono dos poetas, Mercúrio, por meio de ‘Raphael’, ainda esconderia em suas fábulas promessas secretas. Essa ideia remete diretamente à concepção de segredo presente no pensamento de Trithemius, em que a comunicação escrita é capaz de ocultar segredos em seu bojo. A criação das letras e da literatura marcaria também o fim do domínio da carne e da volúpia sobre os homens. O abade viveria sobre o governo planetário regido por Marte e seu anjo ‘Samael’ ou, melhor, durante o terceiro período de governo de ‘Samael’. No primeiro, havia ocorrido o Dilúvio, no Anno Mundi de 1656; no segundo, houve a ruína de Tróia; assim surgia no horizonte a sombra da tragédia, porque, conforme Trithemius, “sob o seu governo os homens imitaram a natureza de Marte”, ou seja, deveriam se tornar violentos e belicosos. Apontemos que o abade alemão havia composto, anos antes, uma genealogia ligando os Habsburgos aos troianos. Conforme Trithemius, no ano de 1508, restavam ainda dezessete anos da influência de Marte para afligir o reinado de Maximiliano I; e um dos objetivos de seu De Septem Secunda foi instruir o imperador dos perigos representados pelas influências astrais, numa concepção de que a história é mestra da vida, logo, o passado prepararia para enfrentar o presente e, mesmo, o futuro, por meio de seu exemplo. Assim, permitir-se-ia a Maximiliano I fugir do nefasto destino que ‘Samael’ havia reservado aos seus supostos antepassados troianos.

Esses governos planetários ocorriam pela atuação do spiritus de cada planeta, por meio de seu respectivo anjo. Essa ideia remonta ao hermetismo egípcio, reabilitado na Europa pela tradução que Marsílio Ficino (1433-1499) fez do Corpus Hermeticum, a mando de Cósimo de Médicis (1389-1464). De acordo com tal concepção, o Deus Criador primeiro engendrou os sete planetas, cada um deles dotado de qualidades específicas. A criação do resto do Cosmos foi realizada por tais planetas, agindo suas qualidades específicas sobre os seres inferiores, conforme a vontade do Criador. Assim, todo o Cosmos estaria interligado por relações de simpatia e antipatia, de acordo com o grau de influência que sofreram de cada um desses planetas. A influência planetária seria realizada por uma substância chamada spiritus, um tipo de matéria espiritual que se faria presente por todo o universo, estando este submerso nela. Ainda de acordo com a tradução hermetista, cada planeta teria uma entidade espiritual que, mais do que refletir as qualidades de tal esfera celestial, exerceria sua influência supralunar no mundo sublunar. Tal ente é o daimon, ser que Hermes Trismegisto descreve como nem bom, nem ruim, tendo como único objeto de sua existência servir à vontade soberana do Deus Criador, ao atuar a influência de seu planeta sobre o mundo criado. Como discute Bruce Gordon, durante o Renascimento do século XV, a imagem do anjo cristão é relida de acordo com as influências que retornavam ao Ocidente. O anjo foi reinterpretado à luz dessa redescoberta do hermetismo, tornando-se um anjo daimônico, na medida em que passava a ser entendido como responsável por atuar o spiritus de cada planeta nas complexas relações de simpatia e antipatia que regeriam a criação divina. E, no caso especificamente tratado este estudo, o por vir da aventura humana na Terra.

O que pesquisas anteriores citadas apontaram é que essa concepção de um mundo construído em camadas, entre as quais estariam ocultas frações da mensagem do Criador, influenciou a compreensão de diversos sujeitos acerca da linguagem, estando entre eles o abade Trithemius. Sob a influência da redescoberta dos hieróglifos egípcios, criou-se no Rinascimento a ideia de que a linguagem poderia carregar em seu bojo um significado distinto daquele aparente em sua superfície, tal qual seu congênere do Egito. Essa concepção ficaria mais explícita em cifra ou zipheris, sobre a qual disse Giambattista Della Porta:

“Se percorrermos a maioria dos nossos monumentos, nós talvez formemos alguma conclusão, nós devemos dizer que estes sinais secretos são nada mais que notações por meio das quais nós garantimos o segredo ou a brevidade em transmitir alguma coisa para aqueles que estão familiarizados com nosso método, e àqueles que nós desejamos [que] saibam a matéria em mãos”.

Sendo a cifra compreendida como uma atualização do hieróglifo egípcio, nada mais adequado que fossem criadas e manejadas pelos iniciados nos segredos que regeriam a natureza, a rede simpática que entrelaçava os mundos supralunar e sublunar. Sendo assim, como teriam feito na antiguidade os sacerdotes da religião egípcia, os magi do Renascimento foram os responsáveis, direta ou indiretamente, pela confecção das linguagens cifradas de seu tempo. Conforme Della Porta, os “Magi inventaram e moldaram certos caracteres para salvar seu conhecimento do uso ou da leitura da ralé, como qualquer leitor pode ver por si mesmo em Honório Tebano e outros”. Tem-se assim a concepção de que a linguagem possui uma qualidade oculta – o Segredo –, sendo ela capaz de separar os seres humanos entre sabedores e ignorantes ou, mais adequadamente, entre “aqueles que podem saber” e “aqueles que não podem saber”, construindo uma hierarquia a partir da posse de um dado conjunto de informações. Trithemius teve como uma das suas maiores preocupações criar mecanismos para salvaguardar os Segredos dos seus amigos poderosos daqueles que ele julgava ser “aqueles que não podem saber”. Assim, fez em Steganographie e Polygraphia. Contudo, em De Septem Secunda, ele se entregou a um esforço distinto em relação ao mesmo campo, o âmbito do Segredo. Não pretendia mais cobrir de Sigilo os Segredos que julgava merecedores de tal esforço, mas retirar os véus de Sigilo que cobriam o futuro de Maximiliano I.

O esforço do abade em esmiuçar as relações entre os governos planetários e os governos humanos comtemplava passado, presente e futuro. Partindo claramente da premissa de que a “História é mestra da vida”, Trithemius buscou compreender como a relação simpática entre o mundo supralunar e o mundo sublunar afetou os caminhos políticos da humanidade. Contudo, o abade foi além, uma vez que considerava possível antecipar tendências políticas futuras por meio da correta leitura das influências que atuariam sobre o mundo dos homens, tendo em vista a sucessão correlata dos governos planetários. Dessa forma, ele assumia o risco de ser acusado de heresia, acusação que recaia em quem tentasse predizer o futuro pelo comércio com entidades espirituais. Contravenção grave aos olhos da Igreja, uma vez que o conhecimento do futuro estaria reservado apenas ao próprio Deus.

Considerações Finais

Acerca do terceiro período pelo qual Samael governaria o mundo por meio de sua influência, Trithemius afirmou:

“Marte em primeiro lugar no governo de ‘Samael’ predisse o dilúvio, em seu segundo retorno, a destruição de Tróia: em seu terceiro até o fim do mesmo [período] será encontrado grande carência de Unidade: a partir de assuntos precedentes pode ser julgado o que vai ou deve ter sucesso futuro. Esta terceira Revolução de Marte não será consumada sem Profecia e a instituição de alguma nova Religião, a partir deste ano de Cristo de 1508, aqui ainda permanece até o fim do governo de ‘Samael’ 17 anos em que signos e figuras serão dados, prevendo os inícios do mal. Para no ano de Cristo de 1525, as cruzes eram vistas nas vestes dos homens pelo espaço de dez anos antes, o que já passou mostra seus efeitos: mas daqui a 13 anos sendo justamente convocados, entregarás o teu lugar ao ignorante, tu deves reviver de novo muito maior para mim, depois dos Destinos no terceiro; a menos que seja lícito te obscurecer em uma nuvem”.

“In Samaele Mars primo praedixit diluuium, Troianum secundo excidium in tertio erit circa finem magnum unitatis detrimentum. Ex praecedentibus enim iudicentur futura quae sequntur. Non consumabitur Martis haec tertia Reuolutio sine prophetia, et nouae alicuius institutuinis religionis. Ab hinc anno christianorum 1508, restant anni usque ad finem gubernamenti Samaelis 17, in quibus dabuntur significantes initium malorum figure. Anno enim Christianorum 1525, cruces in uestimentis hominum uisae ante decennium quod praeteriit suum ostendent effectum, sed 13 ab hinc Iure citatus locum dabis nescienti, maior post fata resurges mihi in tertio nisi licet nebula tegas”.

Mais do que o passado e do que o futuro, acreditamos que o grande interesse de Trithemius ao compor tal obra estava no presente. De septem secunda foi dedicado ao próprio imperador Maximiliano I, importante figura do cenário político europeu daquele momento, em cuja corte o abade possuía considerável trânsito. Desde Steganographie, Trithemius buscou ofertar instrumentos pelos quais o imperador e seus príncipes palatinos pudessem, mais do que exercer, assegurar a posse de seu poder. Se em obras como Steganographie e Polygraphia Trithemius buscou instrumentalizar o segredo como ferramenta de ação política, acreditamos que em De septem secunda ele buscou ofertar a Maximiliano I uma forma de ver por meio dos segredos que geririam as ações humanas. Ao construir uma interpretação histórica de como as potências planetárias atuaram, atuam e atuarão sobre os governos humanos, Trithemius buscava oferecer ao imperador a vantagem de poder antever os próximos movimentos de seus adversários, ao saber sob que influência tomariam suas decisões. Para Trithemius, Maximiliano I deveria ter em mãos todas as armas possíveis, uma vez que regeria o seu império sob a égide de ‘Samael’. Os governos de ‘Samael’, o anjo planetário de Marte, foram sinônimos, até então, de transformações absolutas para a humanidade. De tragédias naturais à ruína de impérios, tudo acontecia sob o bater das asas de ‘Samael’. Contudo, se o imperador soubesse de antemão que rumos a humanidade tomaria, nada poderia lhe pegar despreparado. O véu de Segredo que cobria o futuro seria rasgado, enchendo o monarca germânico de poder. O acaso não teria, assim, poder sobre ele.

O abade alemão dedicou boa parte da sua vida a domar algo que considerava fundamental à ação dos homens que ocupavam posição de destaque no palco político. De acordo com o sonho profético que os biógrafos atribuem a vida de Trithemius, que possui moldura de lenda, o abade desde sempre considerava conhecimento uma forma de poder sobre a Fortuna. Buscou por todas as formas saber de tudo que fosse possível saber. Suas técnicas de comunicação secreta, cuja origem está firmemente posta na concepção de Segredo oriunda do esoterismo, ou seja, de uma realidade construída em camadas entre as quais se inseria a mensagem divina, buscavam garantir que esse bem tão precioso – o conhecimento – fosse acessível apenas “àqueles que podem saber”, salvaguardando-os dos perigos oferecidos por “aqueles que não podem saber”. A postura adotada por sujeitos como Trithemius e Giambattista Della Porta intentava criar um espaço de ação política por meio de ações de Sigilo em torno do segredo. Enquanto os véus do ‘Sigilo’ envolvessem o ‘Segredo’, o sujeito criava um espaço em que estava abrigado da volubilidade do humor de quem lhe confiou tais segredos e a partir dos quais poderia negociar com quem desejava esse conhecimento interdito. Estar de posse de informações indisponíveis aos demais colocava esses sujeitos numa posição de salvaguarda em relação aos caprichos da Fortuna. Por esse mesmo motivo, as técnicas de comunicação secreta ofertadas por Trithemius e outros indivíduos eram, via de regra, direcionadas ao princeps, sujeito que tinha profundo interesse em proteger seus segredos dos olhos e ouvidos de seus adversários, na mesma medida em que desejava conhecer aquilo que seus oponentes mantinham oculto. Dessa forma, possuir os véus que lançavam Sigilo sobre o Segredo principesco dava um poder imenso a homens como o abade Trithemius.

Tais comportamentos são incompatíveis com o projeto político medieval do Regimen Animarum, que via no poder um meio – e não um fim em si mesmo – para obter a garantia da salvação espiritual da Cristandade. Essa preocupação em lançar Sigilo sobre aquilo que não se quer publicizado, ou seja, hierarquizar os homens entre “aqueles que podem saber” e “aqueles que não podem saber” surge na transformação do poder de meio para fim em si mesmo, algo que pode e deve ser conquistado e tratado como parte de um patrimônio pessoal. Francesco Guicciardini (1483-1540), em suas obras Del modo di ordinare il governo popolare e Dialogo del regimento di Firenze, foi o primeiro autor a introduzir e discorrer sobre a expressão “Razão de Estado”. Para Guicciardini, a arte de governar um Estado derivaria de maneira considerável da arte de comandar uma casa e da arte do comércio em geral. Tanto a arte do Estado como a do comércio envolveriam uma compreensão acurada dos humores e das paixões dos homens, valendo-se de tal conhecimento para ampliar a riqueza, no caso do comércio, e o poder, no caso do Estado. Guicciardini dizia que tal arte era um talento para fazer as melhores escolhas no momento apropriado, a partir de um conhecimento profundo dos homens. Podemos complementar tal percepção com o conselho de Nicolau Maquiavel de aliar a experiência dos tempos modernos com o conhecimento dos feitos do passado, para se capacitar a atuar na política.

Contudo, em De Septem Secunda, Trithemius propôs algo diferente e mais ousado. Para o abade, não bastava para o bom exercício principesco possuir o conhecimento acerca de seu tempo aliado ao domínio da História: era preciso ser capaz de compreender de que maneira o futuro seria construído. O abade ofereceu a Maximiliano I uma forma de se preparar para o potencialmente terrível governo de ‘Samael’. A Trithemius pouco interessava que o imperador caísse em desgraça, haja vista que gozava das benesses de integrar os círculos imperiais e do palatinado. Portanto, ele possuía grande interesse em municiar Maximiliano I com as ferramentas necessárias para que este sobrevivesse à ação do spiritus de Marte. Se em Steganographie e Polygraphia Trithemius buscou meios de fornecer Sigilo ao Segredo de seus preferidos nas cortes alemãs, agora ele ofertava uma forma de retirar os véus de Sigilo que cobriam o futuro. Ao procurar deslindar as relações de simpatia que guiavam as decisões políticas da Europa, tanto no seu tempo como nos tempos ainda por vir, Trithemius buscou oferecer a virtù necessária para que Maximiliano I e os príncipes palatinos dominassem a Fortuna pelos cabelos, o que garantiria que o abade permaneceria devidamente respaldado por amigos poderosos. Mais uma vez se faria absoluta a máxima que Trithemius apresentou em sua carta em resposta a Cornelius Agrippa: “Ainda eu aconselho que você observe esta regra, que você comunique segredos vulgares para amigos vulgares, mas segredos importantes apenas para amigos importantes. Dê feno ao boi, e açúcar para um papagaio apenas”.

Fontes primárias
DELLA PORTA, Giambattista. De Furtivis Literarum Notis vulgo De Ziferis – Libri III. Neapoli: Apud Ioa Mariam Scotum, 1563.
AGRIPPA VON NETTESHEIM, Heinrich Cornelius. De occulta philosphia, Libri III. Lugduni: apud Godefridum & Marcellu, fratres, 1550.
TRITHEMIUS, Johannes. De septem secunda Deis id est intelligentiis sive spiritibus orbes post deum moventibus. Coloniae: Apud Ioannem Birckmannun, 1568.
TRITHEMIUS, Johannes. Steganographie: Ars per occultam Scripturam animi sui voluntatem absentibus aperiendi certu, 4to, Darmst. 1621.

Ω