Astrologia na Ciência e Filosofia

Entendo por Céu a Ciência e por Céus as Ciências

As Sete Artes Liberais no Convivio (c.1304-1307) de Dante Aliguieri

Ricardo Luiz Silveira da Costa

Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional da ANPOF, Grupo de Trabalho Filosofia na Idade Média no dia 28 de outubro de 2014.
Filosofia Medieval. São Paulo: ANPOF, 2015, p. 333-355 (ISBN 978-85-88072-28-2).

Universidade Federal do Espírito Santo

Dentre todas as bestialidades, é estultíssima, vilíssima e perniciosíssima aquela que crê não haver outra vida depois desta. Caso revolvamos os escritos, tanto dos filósofos como dos outros sábios escritores, veremos que todos concordam que existe em nós uma parte imortal. Isso maximamente parece querer Aristóteles no livro De Anima; isto parece querer cada estoico; isto parece querer Túlio [Cícero], especialmente no livro De Senectute; isto parece querer todo poeta que falou de acordo com a fé dos pagãos; isto quer cada Lei, dos judeus, dos sarracenos, dos tártaros, e quaisquer outros que vivem segundo alguma razão. Caso todos estivessem enganados, seguir-se-ia uma impossibilidade que só o dizê-la seria horrível.

I. A Filosofia tradicional: o Amor, as substâncias separadas e o movimento dos astros

A glória do Senhor, que tudo move / no Universo difunde-se e esplandece / onde mais, onde menos se comprove (La gloria di colui che tutto move / per l’universo penetra, e risplende / in una parte piú e meno altrove). Detalhe de uma iluminura de uma cópia genovesa (séc. XIV) da Divina Comédia de Dante (Norfolk, Holkham Hall, MS. 514), folio 113. Dante ascende à Luz divina pelas mãos de sua amada Beatriz.

Antes de colocar-se como filósofo, o poeta. No mundo da Filosofia tradicional, a Poesia era uma das formas possíveis de se expressar filosoficamente. Por isso, logo no início do Convívio (c. 134-1307), após sugerir ao leitor que a melhor maneira de explicar o conteúdo de sua obra era utilizar as interpretações literal e alegórica (as duas primeiras que o estudo gramatical na Idade Média requeria – as outras duas eram a moral e a anagógica), Dante apresenta uma canção, ‘Voi che ‘ntendendo il terzo ciel movete’. Nela, se dirige às inteligências que movem o terceiro céu de sua Cosmologia (κοσμολογία, literalmente, o estudo da ordem do mundo), com a alma chorosa e o coração magoado, mas palpitante, com a suavidade de sua vida interior. Trata-se de um lamento, uma fratura existencial, um diálogo em que manifesta seu maravilhamento por estar dividido entre a visão de sua nova paixão, uma gentil dama, e a memória de sua amada Beatriz, falecida, que se encontra no céu coroado.

Essas inteligências, substâncias separadas da matéria, são os anjos, impulsionadores da revolução dos céus, do céu de Vênus, o terceiro céu de sua estrutura celeste, céu das almas dos amantes, daqueles apaixonados que conduziram seus afetos de modo ordenado, ainda que pouco temperantes.

Vênus era então um topos mitológico, literário e filosófico muito recorrente entre os escritores e pensadores. Além de deusa olímpica, era (é) um planeta. Consequentemente, era fonte de influência do comportamento humano. Quando um poeta minimamente conhecedor da Filosofia escrevia sobre o Amor, sabia que personificava um acidente do ente, embora em relação a Vênus não tivesse tanta certeza. Seja como for, o ‘leitmotiv’ da descrição dantesca do terceiro céu é o angustiante e íntimo dilema da traição ao amor falecido pela ‘donna gentile’, conflito emocional que poucos são capazes de entender. Por isso, Dante dirige seu apelo ao céu de Vênus. A citação da deusa greco-romana do amor era muito recorrente na Idade Média. Por exemplo, na primeira parte de O Romance da Rosa (c. 1225), uma das obras mais lidas entre os séculos XIII e XV, Vênus é o apetite sexual, força geradora da natureza que poderia ser contemplada filosoficamente.

Por sua vez, a consideração metafísica-filosófica da existência de inteligências a moverem o universo não era nova, nem uma criação cristã. O problema, espinhoso, sempre fora o da origem do movimento. Na obra Do Céu (350 a. C.), Aristóteles (384-322 a.C.) discorrera de modo bastante aprofundado sobre a forma esférica do Céu, a circularidade do movimento celeste e o fato de a atividade imortal de Deus (θεός) ocorrer em um corpo circular – tudo alicerçado no estudo filosófico do movimento.9 Já em sua Metafísica, o Estagirita deduzira, “…com base em pesquisas da ciência matemática mais afim à Filosofia, ou seja, a Astronomia”10 a existência de cinquenta e cinco inteligências a moverem os “movimentos eternos de translação” dos corpos celestes. Não foi difícil aos pensadores medievais retraduzirem as substâncias aristotélicas suprassensíveis e moventes das esferas celestes nos anjos.

9 “A atividade de Deus é imortalidade, ou seja, vida eterna. A consequência necessária é o movimento divino ser eterno. E, visto ser essa a natureza do céu (um corpo divino), por isso a ele é conferido um corpo circular, o qual naturalmente move-se sempre num círculo (…) O CÉU necessariamente possui a forma esférica. Trata-se do mais apropriado à sua substância, além dessa forma ser primária na natureza (…) o movimento circular mais exterior do céu é simples e o mais célere de todos, e o das outras esferas mais lento e composto (considerando-se que cada uma realiza seu próprio movimento circular contrariando o movimento do céu; assim, é razoável que [o astro] que se apresenta como o mais próximo do movimento circular
simples e primário leve mais tempo para percorrer sua própria órbita, enquanto [o astro] situado mais remotamente leva menos tempo”.
Aristóteles. Do Céu.
10 “O Princípio e o primeiro dos seres é imóvel, tanto absolutamente como relativamente, e produz o movimento primeiro, eterno e único. E como é necessário que o que é movido seja movido por algo, e que o Movente primeiro seja essencialmente imóvel, e que o movimento eterno seja produzido por um ser eterno e que o movimento único seja produzido por um ser único (…) há também outros movimentos eternos de translação, ou seja, o dos planetas (…) é necessário que também cada um desses movimentos seja produzido por uma substância imóvel e eterna (…). Portanto, é evidente que deverão existir necessariamente outras substâncias e que deverão ser eternas por sua natureza”.
Aristóteles.Metafísica.

II. Os Céus, o Empíreo e a ordem da hierarquia

Diagrama cosmológico com o cálculo das distâncias na esfera sublunar (as linhas brancas horizontais que cortam a Terra) e dois anjos nas extremidades do mundo sublunar a girar as manivelas e assim impulsionarem o movimento da Lua. Matfré Ermengau de Béziers, Breviari d’Amour, Catalunha (séc. XIV).

Antes de tratar dos anjos que movem os céus, Dante rememora criticamente as considerações de Aristóteles e Ptolomeu (90-168) sobre o número e a posição dos céus. O Estagirita defendeu a existência de oito céus, com o último a conter todos os demais, além das estrelas fixas. Por sua vez, o florentino aceita os argumentos de Ptolomeu, tanto por sua capacidade de observação (com Perspectiva, Aritmética e Geometria) quanto por seu constrangimento pelos princípios da filosofia aplicados ao assunto. Por isso, assim define a ordem dos céus:

1) Lua;
2) Mercúrio;
3) Vênus;
4) Sol;
5) Marte;
6) Júpiter;
7) Saturno;
8) Céu das estrelas;
9) Cristalino – céu diáfano, de vários movimentos,
10) Empíreo (o “céu dos católicos”) – céu de fogo, luminoso, imóvel, céu do Primeiro Motor aristotélico

O acréscimo do ‘Empíreo’ (ἔμπυρος) foi a contribuição da cosmologia cristã à estrutura do mundo clássica ou, em outras palavras, a personificação textual do espaço etéreo da substância suprassensível, imóvel e eterna, movente do universo, cuja substância é o próprio ato: Deus. Por mover como o que é amado, Ele faz o ‘Empíreo’ girar com tanto desejo que sua velocidade é quase incompreensível:

9. E questo è cagione al Primo Mobile per avere velocissimo movimento; chè per lo ferventissimo appetito ch’è in ciascuna parte di quello nono cielo, che è immediato a quello, d’essere congiunta con ciascuna parte di quello divinissimo ciel quieto, in quello si rivolve con tanto desiderio, che la sua velocitade è quasi incomprensibile. 10. E quieto e pacifico è lo luogo di quella somma Deitade che sola [sè] compiutamente vede. Questo loco è di spiriti beati, secondo che la Santa Chiesa vuole, che non può dire menzogna; e Aristotile pare ciò sentire, a chi bene lo ’ntende, nel primo De Caelo et Mundo.
E este é o motivo de ter o Primeiro Motor velocíssimo movimento; que, pelo ferventíssimo apetite que sente cada uma das partes daquele nono céu, que lhe é imediato, de se unir com cada parte daquele diviníssimo céu quieto, nele gira com tanto desejo que a sua velocidade é quase incompreensível. E quieto e pacífico é o lugar daquela suma Divindade que é a única que a si plenamente se contempla. Este lugar é o dos espíritos beatos, consoante quer a Santa Igreja, que não pode mentir; e Aristóteles parece perceber isso, para quem bem o entende, no primeiro livro do De Caelo et Mundo.

Dante considerava o ‘Empíreo’ a própria estrutura do mundo. Mas não se trata de um lugar físico, ressalta, pois foi constituído na Mente Primeva (que os gregos chamavam Protonoè). Lugar etéreo de Deus e dos espíritos beatos (sumamente felizes) Trata-se, quase literalmente, de uma releitura filosófico-literária cristã (com comentários e correções, como vimos) da cosmologia aristotélica/ptolomaica!

A seguir, antes de discorrer sobre o que a gente vulgar nomeia anjos, Dante rememora criticamente as considerações de Aristóteles e Platão (c.428-328 a.C.) sobre o tema, método realizado pelo próprio Aristóteles com seus antecessores (tanto na Metafísica quanto em Do Céu). A leitura que o florentino faz do Estagirita é correta: na Metafísica, Aristóteles defende que as inteligências são tantas quantos os movimentos dos céus (e no Do Céu parece considerar de outro modo); por sua vez, tanto Platão, varão excelentíssimo, quanto outros filósofos, defenderam que há tantas inteligências não só quanto os movimentos dos céus, mas também em relação às espécies das coisas. Platão chamou-as de ‘Ideias’, isto é, formas e naturezas universais.

Ninguém duvida – nem filósofo, nem pagão, nem judeu, nem cristão, nem qualquer seita – que essas inteligências se encontrem cheias de felicidade, a felicidade eterna e suprema (beatitudine). Aristóteles parece que não se opõe a isso, em seu livro X da Ética.16 Por sua vez, a Igreja crê e prega que essas nobilíssimas criaturas, quase inumeráveis, repartem-se em três hierarquias, cada uma com três ordens:

16 A atividade do intelecto, especulativa, é superior em mérito, não visa a fim algum a não ser o que transcenda a si mesma e é auto-suficiente. Por isso, todos os atributos do indivíduo bem-aventurado são vinculados a essa atividade e, portanto, essa é a felicidade humana suprema.
Aristóteles. Ética a Nicômaco.

I.
1) Anjos
2) Arcanjos
3) Tronos

II.
4) Dominações
5) Virtudes
6) Principados

III.
7) Potestades
8) Querubins
9) Serafins

O Pai olha a primeira hierarquia, o Filho a segunda, e o Espírito Santo a terceira, diz Dante.

Essa hierarquia transcendental fora motivo de uma consideração filosófica influentíssima desde o século V, quando o filósofo Pseudo-Dionísio Areopagita escreveu seu Corpus Areopagiticum. A partir de então, esse pensamento, neoplatônico, que privilegiava os conceitos de ordem, de harmonia e de hierarquia (aliás, todos gregos)18, moldou praticamente toda a percepção da realidade, da própria sociedade. O mundo medieval passou a se ver nela refletido. Com o peso dessa tradição filosófica, Dante então afirma que é razoável crer que haja uma analogia entre o número de céus e a hierarquia celeste: os movedores do céu da Lua são os Anjos, os do Mercúrio os Arcanjos, os de Vênus os Tronos, etc.21 Estes, nascidos do amor do Espírito Santo, movimentam o terceiro céu, que é cheio de amor, e fazem com que as almas daqui de baixo sejam amorosamente acesas. Foi por isso que Virgílio (70-19 a.C.) e Ovídio (43 a.C. – 17 d.C.), na Eneida e nas Metamorfoses, respectivamente, testemunharam em suas percepções do Terceiro Céu.

18 Por exemplo, o conceito de hierarquia (ιεραρχία) remonta a Platão – a hierarquia do mundo inteligível, do mundo sensível, e do mundo das ideias – e em Plotino (Enéadas). A harmonia (αρμονία), qualidade de ordem e organização inerente ao cosmos, é um dos conceitos mais tipicamente gregos. De origem pitagórica, ela tem inúmeras passagens nas obras clássicas. Uma bela digressão encontra-se no Fédon. Por fim, a definição de ordem, disposição das partes, está na Metafísica: “Disposição significa o ordenamento das partes de uma coisa: ordenamento segundo o lugar, ou segundo a potência, ou segundo a forma. Impõe-se, com efeito, que exista uma certa posição, como sugere a própria palavra disposição”, Metafísica, Livro Quinto.
21 Como defende Aristóteles: as coisas em ato não são iguais entre si, mas o são por analogia. Por isso, “não é necessário buscar definição de tudo, mas é preciso contentar-se com compreender intuitivamente certas coisas mediante a analogia (…) Nem todas as coisas se dizem em ato do mesmo modo, mas só por analogia”. Aristóteles, Metafísica.

15. E sono questi Troni, che al governo di questo cielo sono dispensati, in numero non grande, de lo quale per li filosofi e per li astrologi diversamente è sentito, secondo che diversamente sentiro de le sue circulazioni; avvenga che tutti siano accordati in questo, che tanti sono quanti movimenti esso fae.
E são estes Tronos, que para o governo deste céu são designados, em número não quantioso, o qual pelos filósofos e pelos astrólogos é diversamente entendido, segundo diversamente entendem dos movimentos dele; inda que todos acordem nisto de que são tantos quantos estes.

Não deixa de ser curioso o fato de que, comparado ao que diz o Areopagita, Dante corporifica, ou melhor, traz o céu de Vênus – com a ordem dos Tronos, respectivamente – para o mundo da carne, das paixões, do amor. Senão vejamos o que diz o filósofo do século V:

O nome dos sublimes e excelsíssimos tronos indica que estão muito acima de qualquer deficiência terrena, como se manifesta por sua ascensão até os cumes. Estão sempre distantes de qualquer baixeza e, como entraram inteiramente na vida eterna da presença daquele que realmente é o Altíssimo e estão livres de toda paixão e cuidados materiais, estão sempre prontos para receber a visita da Deidade, já que são portadores de Deus e estão prontos, como servos, para acolhê-Lo e Seus dons.

IV. O Céu de Vênus e as Sete Artes Liberais

Com os Príncipes do céu estamos neste / giro, neste girar, na sede ardente; / aos quais, um dia, no mundo tu disseste: / – Vós, de quem move o céu terceiro a mente – / e temos tanto amor que pra te o dar / uma parada será conveniente (Noi ci volgiam coi principi celesti / d’un giro e d’un girate e d’una sete, / ai quali tu del mondo già dicesti: / ‘Voi che ‘intendendo il terzo ciel movente’; / e sem sí pien d’amor, che, per piacerti, / non fia men dolce un poco di quiete). Detalhe de uma iluminura de uma cópia genovesa (séc. XIV) da Divina Comédia de Dante. À esquerda, Vênus, coroada, que aponta para cima, está acompanhada pelos signos de Touro e de Libra. Entrementes, à direita, Dante e Beatriz conversam animadamente.

Para se consolar da morte de sua amada Beatriz, Dante pôs-se a ler duas obras: A Consolação da Filosofia, de Boécio (c. 480-525), e Da Amizade, de Cícero (106-43 a.C.) Assim pôde encontrar remédio para suas lágrimas, entre as palavras daqueles autores, na ciência, nos livros, na Filosofia. Do desconsolo o florentino passou a recitar Vós que, pensando, o céu terceiro moveis, e entendeu, graças à Filosofia, os movedores do terceiro céu.

Dante entende por “céu” a ciência e por “céus” as ciências, por sua ordem e por seu número. Elenca Platão, Avicena (c. 980-1037), Algazel (c. 1058-1111), Aristóteles “e outros peripatéticos” para apresentar as semelhanças entre os céus e as ciências. Assim, alegoricamente, os sete primeiros céus correspondem às sete ciências, às sete artes do Trivium e do Quadrivium:

1) Lua – Gramática;
2) Mercúrio – Dialética;
3) Vênus – Retórica;
4) Sol – Aritmética;
5) Marte – Música;
6) Júpiter – Geometria;
7) Saturno – Astrologia.

As Sete Artes Liberais. Livro de registro da biblioteca da Universidade de Tübinger (séc. XV). Da esquerda para a direita: Geometria, Lógica, Aritmética, Gramática, Música, Física (ao invés da Astronomia) e Retórica. Abaixo, as analogias com os céus (repare no Sol sob a Gramática, enquanto para Dante deveria ser a Aritmética) e a Lua sob a Retórica (para Dante, seria Vênus).

O oitavo céu, das estrelas, corresponderia à Física (Ciência Natural), o Cristalino à Ciência Moral e o Empíreo à Teologia. Com as respectivas substâncias separadas a mover as esferas, o sistema alegórico-cosmológico dantesco no Convivio é esse:

1) Lua – Gramática – Anjos;
2) Mercúrio – Dialética – Arcanjos;
3) Vênus – Retórica – Tronos;
4) Sol – Aritmética – Dominações;
5) Marte – Música – Virtudes;
6) Júpiter – Geometria – Principados;
7) Saturno – Astrologia – Potestades;
8) Céu das estrelas – Querubins;
9) Cristalino – Serafins, e
10) Empíreo – Deus e os espíritos beatos.

Para cada Céu, Dante estabelece duas propriedades analógicas com as Artes Liberais. O Trivium está relacionado aos três primeiros céus, mais próximos da Terra. A Lua e a Gramática são semelhantes pela escassa densidade e a variação da luminosidade (os raios da razão não penetram inteiramente na Gramática, e seus vocábulos vêm e vão conforme a luz da Lua); o Mercúrio e a Dialética se relacionam pela pequenez e por sua cobertura. Mercúrio é a menor das estrelas, e a mais velada aos raios solares; como essa pequena estrela, a Dialética é a arte com menor extensão de todas e a mais velada, já que atua com argumentos sofísticos (para Dante, inseguros).

Por sua vez, Vênus e a Retórica compartilham as belas virtudes da clareza e da suavidade:

13. E lo cielo di Venere si può comparare a la Rettorica per due proprietadi: l’una sì è la chiarezza del suo aspetto, che è soavissima a vedere più che altra stella; l’altra sì è la sua apparenza, or da mane or da sera.14. E queste due proprietadi sono ne la Rettorica: chè la Rettorica è soavissima di tutte le altre scienze, però che a ciò principalmente intende; e appare da mane, quando dinanzi al viso de l’uditore lo rettorico parla, appare da sera, cioè retro, quando da lettera, per la parte remota, si parla per lo rettorico.

O céu de Vênus se pode comparar à Retórica por duas propriedades: uma é a de que é tanta a clareza do seu rosto que, mais do que as outras estrelas, é suavíssima de ver; a outra é que aparece ora de manhã ora de tarde. E estas duas propriedades estão na Retórica: pois que a Retórica é suavíssima entre todas as ciências, por isso que a isto principalmente aspira; e aparece de manhã, quando diante do ouvinte fala o retórico, aparecendo de tarde, isto é, por detrás, quando por carta, para a parte remota, se fala para o retórico.

A seguir, o Quadrivium. A Aritmética e o Sol se relacionam porque todas as outras estrelas recebem a luz solar e o olho não pode fitá-lo. Do mesmo modo, da Aritmética todas as artes recebem, de algum modo, relações numéricas, e o olho não pode abarcar o número porque, em si considerado, é infinito, e isso é incompreensível.28

28 Passagem em que Dante mostra sua simpatia pelo Pitagorismo (chega, inclusive, a citar Pitágoras nominalmente, “conforme o que diz Aristóteles no primeiro livro da Física, punha como princípio das coisas naturais o par e o ímpar, concebendo todas as coisas como número”.

Marte e a Música se harmonizam pela bela relação com os demais céus, por Marte estar no meio, no quinto (ou, em termos musicais, por ser a quinta [Dó/Sol], harmonia perfeita) e por queimar as coisas com seu calor. Como ele, a Música é inteiramente relacional, na harmonia das palavras, nos cantos, das notas, e sua melodia incendeia os espíritos humanos (que são como vapores do coração).

Júpiter e a Geometria se coadunam por serem temperados e argênteos. Júpiter se move entre dois céus opostos à sua temperatura, Marte (quente) e Saturno (frio), de acordo com Ptolomeu. Ademais, dentre as estrelas brancas, Júpiter se destaca, pois é quase argênteo. O mesmo ocorre com a Geometria, pois tem o ponto como princípio, e se move entre o ponto e o círculo, entre o princípio e o fim. É alvíssima por não ter mancha de erro: é certíssima. Sua flâmula, a Perspectiva, a comprova.

Por fim, Saturno e a Astrologia. O céu de Saturno tem duas propriedades comparadas à Astrologia: a lentidão dos movimentos pelos doze signos e o fato de superar todos os outros planetas. Segundo Dante, Saturno leva vinte e oito anos para percorrer os doze signos.

Diagrama com os símbolos zodiacais (c. 1335-1350) de OPICINUS DE CANISTRIS (1296-c. 1354). Biblioteca Apostolica Vaticana. Este coloridíssimo e complexo fólio feito pouco após a morte de Dante (e, por isso, um bom exemplo do ambiente intelectual de seu tempo) concatena uma vasta quantidade de informações, muito mais do que qualquer um dos outros desenhos de Opicinus, conhecido padre, escritor, místico e cartógrafo de seu tempo. O Diagrama inclui mais de vinte tipos de conteúdos, incluindo os profetas bíblicos, símbolos do zodíaco, doutores da Igreja, quatro ordens monásticas, os meses e dias, um mapa mundi implícito, a genealogia de Maria, personificações da Igreja, os dons do Espírito Santo, os quatro tipos de exegese bíblica, os quatro Evangelistas, os apóstolos e os nomes das cartas de Paulo, o que exige intensa meditação e exegese. Ele fez uso da tradição medieval de diagramas para investigar as conexões entre o cósmico, o terrestre e o corpóreo.

Como Saturno, a Astrologia requer, como a lentidão do astro, muitos anos para que seja aprendida, tanto pelas demonstrações quanto pela experiência que se exige para um bom juízo astrológico. Ademais, ela é altíssima entre todas as demais artes – e, como diz Aristóteles em seu tratado De Anima, a ciência é elevada pela nobreza de seu objeto. Por isso, a Astrologia, mais do qualquer outra, por estudar o movimento do Céu, é nobre, alta e perfeita, pois trata do que é consequência do princípio, que é perfeitíssimo e reguladíssimo. Consequentemente, não se admite falha nela. Qualquer erro, deve-se atribuir à negligência do astrólogo, não à Astrologia.

Conclusão

Prestes a ascenderem ao Empíreo, Dante e Beatriz (à esquerda) param para contemplar o espetáculo dos planetas, a revolução das sete esferas celestes (de baixo para cima, da Lua até Saturno). Na extrema esquerda, o signo de Gêmeos. A seguir, à direita, o casal se prepara para continuar sua maravilhosa viagem rumo a Deus. Detalhe de uma iluminura de uma cópia genovesa (séc. XIV) da Divina Comédia de Dante.

10. Poi nel quarto verso, dove dice: uno spiritel d’amore, s’intende uno pensiero che nasce del mio studio. Onde è da sapere che per amore, in questa allegoria, sempre s’intende esso studio, lo quale è applicazione de l’animo innamorato de la cosa a quella cosa. (…)
12. Tutto l’altro che segue poi di questa canzone, sofficientemente è per l’altra esposizione manifesto. E così, in fine di questo secondo trattato, dico e affermo che la donna di cu’ io innamorai appresso lo primo amore fu la bellissima e onestissima figlia de lo Imperadore de lo universo, a la quale Pittagora pose nome Filosofia.

Depois, no quarto verso, onde se diz: um espírito de amor, entende-se um pensamento que nasce do meu estudo. De onde é de saber que por amor, nesta alegoria, sempre se entende o estudo, que é a aplicação do ânimo enamorado de uma coisa a essa coisa.
(…)
Tudo o mais que segue depois desta canção é pela outra exposição suficientemente manifesto. E assim, no fim deste segundo tratado, digo e afirmo que a dama de quem me enamorei após o primeiro amor foi a belíssima e honestíssima filha do Imperador do universo, à qual Pitágoras pôs o nome de Filosofia.

Como os antigos, os medievais não renunciaram à Poesia para tratar da Ciência, da Filosofia. Por isso, a alegoria tornou-se a base de interpretação de qualquer texto. A Poesia era identificada com a Sapientia e a Philosofia. Por esse motivo é que Dante define a alegoria e a utiliza para tratar filosoficamente o tema das Artes Liberais nos céus da Astrologia.

As esferas de conhecimento estavam imbricadas, interligadas na concepção totalizante do saber. Essa ordem do mundo pressupunha uma conexão causal dos acontecimentos e fenômenos A Filosofia era, desde a herança greco-romana, transmitida por vários autores como amor à Sabedoria, conhecimento que deveria ser procurado como o fizeram os discípulos de Platão. Dante, nesse sentido, é um dos últimos expoentes da Tradição que, na Idade Média, mesclava Platão e Aristóteles indistintamente, ou melhor, apresentava temas aristotélicos com viés cristianizante, em um pano de fundo platônico-agostiniano. As sete Artes Liberais, filhas da Razão, foram por Dante projetadas nas estrelas porque o Amor que as movia era, para o poeta-filósofo, o mesmo amor serenamente conduzido pela gentilíssima dama chamada Filosofia, jovem “cheia de doçura, ornada de honestidade, admirável por seu saber e gloriosa por sua liberdade”. Por isso era mister considerar o que existia na ordem dos céus e o que existe na das ciências. Afinal, quem quisesse ver a salvação, além de meditar e especular as correlações entre os mundos, deveria fitar os olhos da Filosofia, perscrutá-los, pois assim teria sua alma enamorada e liberta das contradições do instável e perecível mundo supra-lunar.

Fontes
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Trivium e Quadrivium: A Universidade na Europa nos Séculos XI e XII

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