Astrologia na Medicina e Psicologia

Não há nada novo debaixo do Sol

solis invictus ergo sum

Aspectos da Visão Médico-Astrológica de Manuel Bocarro Francês e Rosales

Sandra Neves Silva

CHAM-FCSH/NOVA-UAC
Cadernos de Estudos Sefarditas, vol. 17, Novembro 2017

Resumo

O presente artigo aborda aspectos da visão médico-astrológica de Manuel Bocarro Francês e Rosales, físico cristão-novo nascido em Lisboa, que se converteu à ortodoxia judaica quando foi viver para Hamburgo. Graduado pelas universidades castelhanas de Alcalá de Henares e Sigüenza, Bocarro é um defensor do galenismo, professando ao mesmo tempo a ideia de que a origem da Medicina remonta a Deus, que a transmitira a Adão já depois da queda deste, para o auxiliar na sua condição miserável. Por outro lado, na sua prática médica, Bocarro concede grande relevância à teoria da influência celeste sobre o corpo humano, pois, como que procurando levar à perfeição a matéria astrológica, propõe que, pelas estrelas, se possa conhecer, entre outras coisas, o temperamento, debilidades físicas e qualidades anímicas admiráveis do indivíduo, bem como a ocasião propícia para a aplicação de tratamentos.

δ

Escrevo um aviso aos adversários da astrologia para que não joguem fora o bebê com a água do banho.
Kepler

α

Tendo vindo ao mundo em Lisboa, cerca de 1588, no seio de uma família de cristãos-novos, Manuel Bocarro Francês e Rosales foi um médico de grande erudição e autor de uma profícua obra escrita, havendo pautado indelevelmente as letras lusitanas seiscentistas, ao publicar o primeiro escrito português que, sob o título de Tratado dos Cometas que Appareceram em Novembro Passado de 1618, expõe a doutrina da corruptibilidade celeste, condenando a cosmologia aristotélica vigente. Bocarro foi também o autor da mais antiga reflexão sobre Alquimia em português saída de um prelo lusitano, composta de vinte oitavas e de uma “Annotaçam Chrysopea” pertencentes ao Anacephaleoses da Monarchia Luzitana (1624), e o criador, no sebastianismo literário, da corrente sebastianista brigantina, ao propugnar, no seu opúsculo Luz Pequena Lunar e Estelífera da Monarquia Lusitana (1626), que D. Sebastião haveria de regressar, não na sua pessoa, e sim num continuador de seu sangue e verdadeiro herdeiro, ligado à Casa de Bragança. Curiosamente, este opúsculo, em que se prognostica que o ceptro lusitano se libertaria do jugo de Espanha, foi prefaciado por Galileo Galilei (1564-1642), que elogia Bocarro como o príncipe dos astrólogos.

Suscitando algumas animosidades em Castela mercê dos seus incitamentos autonomistas, Bocarro, talvez sabendo que contra si chegara ao Santo Ofício de Lisboa uma delação como judaizante feita pelo seu próprio irmão António Bocarro, resolveu deixar Portugal em 1626, encontrando-se já, em Fevereiro desse ano, na cidade de Roma. Passando por França, integrou a “Nação Portuguesa” de Hamburgo, onde, convertendo-se ao Judaísmo, residiu por mais de vinte anos, prosseguindo os seus labores médicos e a sua actividade literária. Em 1653, mudou-se para a região da Toscânia, indo habitar a comunidade de Judeus Portugueses de Livorno, onde se tornou membro da instituição de caridade Hebra de Cazar Orfas, vindo a falecer algures em 1662 ou 1668, ficando os seus restos mortais decerto em terra italiana. Privando ao longo de sua vida com nobres, religiosos e eruditos, Bocarro deu ao mundo um vasto legado escrito que, tocando em assuntos de Matemática, Filosofia, Alquimia, Medicina, Astrologia e Messianismo, foi impresso em grandes cidades europeias como, entre outras, Lisboa, Roma, Hamburgo, Amesterdão e Florença. Vejamos então partes da concepção médica de Bocarro, começando por observar o seu itinerário escolar.

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1. Entre Lisboa e Madrid: percurso escolar e médico

Dotado de um espírito de robusta agudeza, Bocarro trazia a Medicina a correr no sangue, pois seu pai, de nome Fernão Bocarro, se licenciara naquela matéria em Coimbra, tendo-se vertido num respeitado médico que, em 1613, aquando da nomeação do lente de cirurgia da Universidade, fora apontado pelo físico-mor do reino, D. Baltasar de Azeredo, como um dos dois graduados aptos a ocupar a função; porém, Fernão Bocarro acabaria por ser declinado, justificando-se tal decisão por ele pertencer à “Nação Hebrea”, possuir mais de cinquenta anos de idade e “andar tam distrahido” e “embaraçado com rendas e contratações”. Seguindo na esteira de seu pai, Bocarro, depois de estudar no colégio jesuíta de Santo Antão de Lisboa, foi cursar Medicina em Castela, adquirindo o grau de Bacharel na Universidade de Alcalá de Henares e o de Licenciado em Sigüenza, mediante exame, em que foi aprovado com muito aplauso. Encontramo-lo pela primeira vez designado como licenciado em 1617, precisamente na ode e no epigrama latinos que, no ano anterior, apresentou no certame poético que integrou as festas que celebraram a transladação da imagem da Nossa Senhora para a Capela do Sacrário da Catedral de Toledo. Mas desde 1614 e 1615, ou mesmo antes, Bocarro já exercia a actividade clínica em Castela, obtendo licença para a exercer também em Portugal a 25 de Janeiro de 1620, depois de ter sido examinado favoravelmente na teoria e na prática pelo referido físico-mor D. Baltazar de Azeredo; pelo licenciado Francisco Borges de Azevedo, que a 16 de Junho de 1617 se tornara médico da capela real; pelo físico do rei António Lopes, que no ano de 1603 recebeu mercês em virtude de ter vivido na casa de saúde de Lisboa, onde tratou gratuitamente os enfermos da peste durante o tempo do contágio desta; e pelo licenciado Salvador Vaz de Orta, o qual, também devido a ter prestado importantes serviços aquando da epidemia pestífera, auferiu uma tença de vinte mil réis, outorgada a 7 de Março de 1601.

Entre os anos de 1619 e 1624, Bocarro terá obtido o grau de doutor, pois já surge designado como tal na sua obra Anacephaleoses da Monarchia Luzitana, impressa no dito ano de 1624. Diogo Barbosa Machado indica ter recebido Bocarro o referido grau na Universidade de Montpellier, mas não possuímos nenhum indício de uma deslocação do médico português àquela universidade, antes sabemos que, em 1622, esteve na corte de Madrid e que aí foi chamado a visitar Baltazar de Zúñiga, Presidente do Conselho de Estado de Espanha, que havia adoecido com febres terçãs. Bocarro quase decerto fora chamado para tratar da enfermidade de D. Baltazar de Zúñiga, mas acabou por encontrá-lo a recuperar. Ambos, juntamente com um fidalgo napolitano de nome desconhecido, que era “grão Chymico, & Mathematico”, conversaram, nesta e noutra visita, sobre a composição dos céus, a Pedra Filosofal dos alquimistas e a influência estelar nos sucessos gerais do mundo, mencionando Bocarro que, segundo os seus cômputos astrológicos, a derradeira monarquia do mundo se iria erigir em Portugal.

Propondo pois um grandioso destino para o ceptro lusitano, e exercendo o múnus clínico em Portugal e Castela, Bocarro, apesar de ter sido um prolixo autor, não chegou a publicar nenhuma obra sobre Medicina, deixando-nos apenas, por um lado, três poemas panegíricos e um escrito prefacial relacionados com a ciência médica, estampados nas obras de Zacuto Lusitano (1575-1642), e, por outro, algumas considerações sobre Medicina em diversas partes de escritos impressos seus. É justamente a partir da junção de todas estas reflexões que conseguimos aceder a certos matizes da sua visão médica.

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2. Os efeitos do cometa “Palma” na saúde das populações

A primeira alusão à Medicina que encontramos no legado escrito de Bocarro encontra-se no mencionado Tratados dos Cometas…, consistindo precisamente num brevíssimo prognóstico sobre os efeitos do cometa “Palma” na saúde das gentes, sendo estes: “muitas dores, febres, arrebatadas doenças, chagas, pustulas, enfermidades contagiosas”, partos ocultos e “doenças de madres com muitas ventõsidades”. Ao tecer este prognóstico, Bocarro está a espelhar a ideia bem antiga de que o surgimento de cometas se acha associado à eclosão de grandes alterações, ruínas e catástrofes, assim como a reflectir a teoria aristotélico-ptolomaica tomista do influxo celeste sobre o domínio do corpo humano, teoria essa que, ministrada nos cursos de Filosofia Natural no tempo dos estudos de Bocarro, foi muito aprofundada pela escolástica portuguesa de finais do século XVI, especialmente pelos escritos dos “Conimbricenses”. Deste modo, baseando-se no axioma da superioridade da região celeste sob o mundo situado abaixo da Lua, os mestres de Coimbra defendiam, de inigualável forma minuciosa à época, que os céus detinham uma influência universal sobre os seres sublunares, actuando ao nível das quatro qualidades primárias e modificando, por consequência, os quatro elementos principais de que a matéria terrestre se compõe; especificamente, os corpos celestes influíam tanto mediante as qualidades físicas do movimento e da luz, observáveis no proceder, como através do influxo oculto que, apenas surgindo visível ‘a posteriori’, repousa já nas forças ocultas ou ‘influentiæ’, responsáveis, por exemplo, pelo fenómeno do magnetismo, já na ‘causa universal’, que se acha investida da função de assegurar a unidade cósmica; advindo como ‘causa eficiente’ dos seres sublunares, os céus acabavam assim por preservar a harmonia do mundo, afigurando-se como instrumentos da vontade divina, que prima como a verdadeira ‘causa principal’.

Quais ministros de Deus, os astros, porém, apenas exerciam influência ao nível material, actuando directamente nos órgãos e no corpo do homem, e somente de modo indirecto e por acção remota na alma daquele, que goza da livre escolha, a qual assenta nas faculdades imateriais da vontade e da razão; sem influxos siderais a confranger a sua alma, o ser humano desfruta assim de liberdade, dependendo apenas de si as suas escolhas e atitudes, as suas propensões para o mal ou para o bem, as suas inclinações para a perdição ou para a salvação. É pois neste cenário de conciliação entre livre-arbítrio e influxo celeste que se ia aceitando a previsão astrológica, apreciada nos diversos quadrantes da época moderna e repartida, desde o Tetrabiblos de Cláudio Ptolomeu (c. 90 – c. 168), em dois grandes géneros: a astrologia geral que, estando denotada com a natural, observa fenómenos meteorológicos, catástrofes da natureza, colheitas, epidemias, cidades, povos, nações e guerras; e a astrologia particular que, identificada com a judiciária, se detém em prognósticos sobre um indivíduo concreto, especulando sobre o seu temperamento e sucessos futuros a partir da “figura” ou horóscopo. Sujeita a diversas elaborações teóricas por variados autores de diferentes épocas, a previsão estelar, ao longo do tempo, não ficava alheia a uma certa mistura e interpenetração dos dois grandes géneros que a compunham, já que alguns padres e eruditos postulavam que deviam ser incluídas na astrologia natural determinadas áreas da astrologia individual, sobretudo as relacionadas com o temperamento e a constituição do homem.

Seria justamente contra a astrologia judiciária que o Vaticano ia pugnando, condenando-a em bulas, tais como a Cœli et Terræ de Sisto V (1586) e a Inscrutabilis de Urbano VIII (1631). Apesar do ambiente de desaprovação, com alguns religiosos a envolverem-se na polémica anti-astrológica, a astrologia judiciária encontrava-se algo favorecida em Portugal, pois, além de ser tolerada dentro de certos limites pelos mestres de Coimbra, era estimada e ensinada no Colégio de Santo Antão de Lisboa, precisamente na “Aula da Esfera”, onde docentes transmitiam noções sobre a elaboração de horóscopos e juízos astrológicos sobre Medicina; curiosamente, numa apostila de autor desconhecido, chegar-se-ia a conferir à astrologia judiciária o estatuto epistemológico de “ciência mista”, por pertencer tanto à Filosofia tanto à Matemática. O Colégio de Santo Antão de Lisboa constituía, assim, um cenário propício ao estudo da matéria astrológica, devendo ter sido aqui que Bocarro teve o seu primeiro contacto com aquela temática, que tanto iria pautar diversos dos seus escritos.

Retomando o Tratado dos Cometas…, verificamos que, antes de mencionar os propensos efeitos do cometa “Palma” sobre a saúde das gentes, o médico português plasma a doutrina escolástica do influxo celeste sobre o corpo humano, ao mencionar que os céus influem nos órgãos físicos do homem, mas que a vontade e o entendimento deste possuem livre alvedrio. Com efeito, Bocarro começa por afirmar que no ser humano existem “potencias naturais, orgãos corporais, & sentidos” que estão submetidos ao Sol, à Lua, às estrelas e planetas, “que tem proximo poder no ar, & cauzão as mudanças delles”, das quais nascem muitas enfermidades; depois tece a defesa da liberdade da inteligência e da vontade humanas face aos astros, sem contudo deixar de referir que aquelas se podem sujeitar às influências celestes nos sujeitos que “esquecendosse de sua nobreza, & liberdade se fazem seruos dos sentidos, & appetites bestiais”.

Preconizando então a influência dos astros no corpo humano, Bocarro parecia acreditar também na existência de uma Medicina de natureza superior à de Avicena e Galeno, autores dominantes nas universidades. Tal Medicina consistia na famigerada Pedra Filosofal dos alquimistas, que permitiria transmutar os metais vis em ouro puríssimo e alcançar o elixir que cura todas as doenças; na verdade, esta Pedra constituía, aos olhos de Bocarro, uma Medicina, “por oculta virtude”, em tudo plena, como se pode observar na seguinte oitava:

Esta Pedra o rosal he, donde as rosas
Os Philosophos colhem mais fragantes,
Da madre natureza as mais fermosas,
Mais puras, mais perfeitas, & abundantes:
He medicina tal, que as perigosas
Enfirmidades cura, & reluctantes,
(Por oculta virtude em tudo plena)
Melhor do que Galeno, & que Auicena.

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3. Galenismo e transmissão divina da Medicina nos escritos em honra de Zacuto Lusitano

Apesar de parecer acreditar que a medicina de Galeno e Avicena poderia ser transcendida pela plenitude curativa da Pedra Filosofal, Bocarro era um acérrimo propugnador do galenismo ensinado nos meios académicos ibéricos, conforme se constata nos escritos laudatórios que publicou nas obras de Zacuto Lusitano, quando já se achava a viver na comunidade de Judeus Portugueses de Hamburgo, onde se converteu à ortodoxia rabínica, adoptando o nome de Jacob Rosales. Constituem aqueles escritos de Bocarro, precisamente: um poema encomiástico, sem título, publicado no livro III do De Medicorum Principum Historia (Amesterdão, 1637); a Ode Saphicum, impressa no livro IV daquela obra (Amesterdão, 1637); uma composição poética denominada Poculum Poeticum, composta para o livro V da referida obra De Medicorum Principum Historia (Amesterdão, 1639); e o prefácio Armatura Medica: hoc est Modus Addiscendæ Medicinæ, per Zacutinas Historias, earumque Praxin, que abre o segundo volume da Opera Omnia, estampada pela primeira vez em Lyon, no ano de 1643. Nestes escritos, Bocarro deixa derramados extremosos elogios ao desempenho médico do seu amigo Zacuto Lusitano, reputadíssimo físico português que, depois de se instalar em Amesterdão corria o ano de 1625, foi publicando uma profícua obra escrita, a qual, composta de reflexões sobre numerosas patologias, farmácia e casos clínicos invulgares, se acha dominada pelo galenismo académico, se bem que o seu autor aceite que o génio quase divino de André Vesálio (1514-1564) haja aclarado diversas ambiguidades anatómicas expostas por Galeno.

Sumo admirador de Zacuto Lusitano, Bocarro, professando a noção de que a Medicina constitui a um tempo ciência e arte, surge como um defensor dos estudos médicos desenvolvidos nas universidades ibéricas, sendo fiel ao legado dos autores da medicina clássica e árabe, sobretudo Hipócrates, Galeno e Avicena. Na verdade, aos olhos de Bocarro, a Medicina remonta a Deus, pois muita experiência das coisas da vida, se não todas, foram reveladas pelo Altíssimo a Adão e aos antigos sábios, a partir dos quais, numa cadeia de transmissão de pai para filho, a arte da Medicina foi passando a ser codificada por escrito. Ou seja, no princípio, o Omnipotente criou o homem sem mácula, perfeito no conhecimento e sábio na ordem das coisas, mas, devido à amarga queda pelo pecado original, o ser humano ficou subjugado à enfermidade e ao negro langor; compadecendo-se com a miserável fortuna deste, Deus acabou por lhe infundir a arte da Medicina, para que com ela pudesse produzir vida contra a multidão de doenças; esta arte foi então ensinada verbalmente por Adão a seus filhos, sendo certo que, com o decorrer dos anos, a sabedoria chegou aos Caldeus e aos Egípcios e Gregos; todos beberam das doutas ondas deste rio, e assim das lições dos antigos patriarcas, donde a ciência brotou. Tal foi a antiga origem da ciência, donde fluiu a Medicina.

Vendo, pois, a fonte primordial da Medicina nos antigos Hebreus e, primeiramente, em Deus, Bocarro manifesta uma forte resistência às descobertas médicas, ao rejeitar que a Medicina tenha conhecido alguma invenção ou cura nova, defendendo antes que sobre esta tudo foi aprendido dos antigos, convicção que ilustra recorrendo à expressão lapidar “Não há nada de novo debaixo do Sol”. Como bem notou Francisco Moreno-Carvalho, esta expressão, empregue para negar a novidade, constitui uma frase bíblica do livro sapiencial do Eclesiastes, tal como se pode observar: “Aquilo que foi é aquilo que será;/aquilo que foi feito, há-de voltar a fazer-se:/ E nada há de novo debaixo do Sol!/Se de alguma coisa alguém vos diz: «Eis aí algo de novo!»,/ ela já existia nas eras que nos precederam”. Na verdade, este trecho do “argumentário revelado” parece inspirar deveras Bocarro, pois o físico português, em semelhança com o versículo bíblico, e no caso concreto da arte médica, chega a afirmar que, tudo o que possa ser pensado sobre Medicina, já o sabiam Hipócrates e Galeno há muito tempo.

Sentenciando que toda a arte médica fora aprendida dos antigos, Bocarro declara que a voracidade do tempo, no entanto, foi consumindo muitas coisas da Medicina. Mas eis que, em sua época, surge Zacuto Lusitano, homem sábio e excelente doutor, que aperfeiçoa e restaura a ciência médica e suas perplexidades, podendo ser considerado por isso epítome da inovação: com efeito, coligindo-a, emendando-a, refinando-a, Zacuto devolve a alegria e a maravilha à Medicina, desvelando os seus mais obscuros segredos, escondidos em profundos recessos. Capaz de repelir graves enfermidades nunca antes inteiramente compreendidas e explicadas, ele é o mestre que, nada almejando para si próprio, apenas busca ensinar-nos, explanando-nos tantas coisas e mencionando tantas matérias; e, mercê deste seu sublime auxílio, pode dizer-se que a arte médica é, de facto, nova. Assim, na visão de Bocarro, o novo é sobretudo o antigo restaurado, pela incandescente inteligência de Zacuto Lusitano. Note-se que, como vimos, Zacuto era um galenista que reconhecia que Vesálio corrigira muitos erros anatómicos fixados pelo médico de Pérgamo, pelo que, sendo tão admirador da prática e reflexões médicas de Zacuto, é bem provável que Bocarro, no seu galenismo, aceitasse também as emendas de Vesálio, ainda que este não figurasse entre os antigos e sim nos modernos.

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