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A Grande Conjunção de 1186

A Grande Conjunção de 1186

Godefroid de Callatay

Université Catholique de Louvain

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

δ

I. Teoria geral das grandes conjunções

O problema das conjunções gerais dos planetas é um dos velhos problemas da humanidade. Em muitas civilizações do Ocidente e do Oriente, há interesse no que é tradicionalmente chamado de doutrina do Grande Ano, geralmente definido como o período de tempo necessário para que todos os planetas retornem em conjunção, ou seja, na mesma longitude celestial.¹ Para os antigos, que não tinham a concepção puramente linear geralmente defendida pelos modernos, deve ter parecido crucial ser capaz de identificar o maior de todos os ciclos que a ciência das estrelas poderia oferecer. Por muito tempo, os homens notaram no céu a recorrência regular de certos fenômenos, em particular o das conjunções ocorrendo entre os sete planetas ou “estrelas errantes” que eles conheciam, a saber, a Lua, o Sol, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. As conjunções do Sol e da Lua, que são a causa dos eclipses, eram obviamente de particular interesse e desde os tempos antigos vimos os gregos tentarem estabelecer ciclos de eclipses cada vez mais precisos. Os de Saturno e Júpiter desempenharam um papel capital na astrologia árabe, que atribuiu a eles todos os tipos de influências mais ou menos positivas ou prejudiciais sobre os eventos da história. Em teoria, no entanto, de longe a conjunção mais importante ainda era aquela que deveria trazer todos os planetas, sem exceção, em alinhamento perfeito com respeito a um determinado ponto na abóbada celestial.

1 Para o estudo geral do tema do Grande Ano no Ocidente e no mundo árabe, tomamos a liberdade de nos referir a nossa obra Annus Platonicus. A Study of World Cycles in Greek, Latin and Arabic Sources, Louvain-la-Neuve, 1996.

Assim, fontes antigas nos dizem, quando esse alinhamento seria tal que uma linha reta pudesse ser feita para passar pelos respectivos centros de todos os planetas, então o Grande Ano, o maior dos ciclos astronômicos, finalmente seria completado e também, portanto, o ciclo mais importante da história humana. Aqui se reúnem, como irmãs gêmeas, astronomia e astrologia. Por um lado, é tentar estabelecer, com base em observações e cálculos, a medida exata do grande ciclo; por outro, é claro, para prever que tipo de influências esse retorno universal poderia exercer sobre o destino do mundo e de seus habitantes.

De Platão, que em seu Timeu oferece o primeiro testemunho certo sobre o Grande Ano, até a Renascença no Ocidente, podemos acompanhar passo a passo a evolução dessa teoria dessa ‘magna quaestio’ como Cícero a chamou. Entre os partidários desta doutrina, existem essencialmente dois grupos: 1) aqueles que, como Platão, Aristóteles e Cícero, estabeleceram entre dois ciclos sucessivos do Grande Ano uma relação de espécie ou gênero, por acreditar que os acontecimentos do novo ciclo iriam de certa forma espelhar os do velho ciclo; 2) aqueles que, como os estoicos e certos astrólogos, quiseram ver entre dois ciclos do Grande Ano, a recorrência perfeita, nos mínimos detalhes, de absolutamente todos os eventos ocorridos no mundo da geração e da corrupção.

O sucesso da doutrina, em uma ou outra de suas formas, foi considerável. No início, foram, por assim dizer, apenas os círculos epicuristas e céticos que encontraram algo a dizer sobre isso, o primeiro porque a hipótese de um retorno cíclico das coisas era incompatível com a opinião de que se baseavam no acaso e na necessidade das coisas, o segundo, mais simplesmente, porque chegaram a negar os próprios méritos de qualquer juízo científico em geral.

Os verdadeiros adversários do Grande Ano, aqueles cuja luta implacável ao longo de quase quinze séculos foi seguida para derrotar a doutrina falha, serão, sobretudo, todos aqueles teólogos para quem a doutrina do retorno cíclico das coisas era totalmente irreconciliável com os elementos mais fundamentais do Cristianismo. De Santo Agostinho a Pico della Mirandola e Francesco Piccolomini, incluindo a maioria dos pensadores da escolástica medieval, os cristãos nunca deixarão de atacar violentamente os partidários do Grande Ano, geralmente repetindo os mesmos argumentos, que se resumem mais ou menos àqueles que Orígenes já desenvolveu em alguns de seus tratados.

Esses argumentos se relacionam com: 1) a improbabilidade matemática de um retorno simultâneo de todas as coisas depois de tantos séculos; 2) na inadequação desse retorno com a necessidade do homem guardar seu livre arbítrio; 3) sobre a incompatibilidade da doutrina dos retornos cíclicos com a singularidade da encarnação de Cristo e sua mensagem de redenção. Se excluirmos alguns resquícios esparsos da teoria entre os pensadores tardios, podemos dizer que o golpe de misericórdia foi dado a ela no século XIV pelo cônego Nicole Oresme, que demonstrou, com base em raciocínio essencialmente matemático, que os movimentos celestes não eram comensuráveis uns com os outros, que ao mesmo tempo destruíam qualquer possibilidade de recorrência perfeita de qualquer ciclo.

uma era de conjunção

II. Séculos XII a XIII: uma era de “conjunção”

Os séculos XII a XIII são uma das grandes épocas do que podemos chamar de conjuncionista. Em todo o caso, é durante estes dois séculos que se pode assistir ao apogeu das contendas que dividiram os partidários e os adversários do Grande Ano. Pois se vemos tantos teólogos se dando ao trabalho de refutar ponto por ponto, até a saciedade, os elementos de tal doutrina, é acima de tudo porque o tempo era particularmente favorável à crença em conjunções planetárias de todos os tipos. O Grande Ano dos antigos havia sido transmitido principalmente pelos grandes comentaristas do final da antiguidade, Jean Philopon, Olympiodorus, Proclus, Calcidius e especialmente Macróbio. Com eles, já, o conceito do Grande Ano tinha sido bastante distorcido na direção mais radical da teoria que geralmente queria conferir os astrólogos a ela. Essa radicalização foi ainda mais acentuada com a transmissão da teoria no Islã, quando astrólogos como Abü Ma’sar – o Albumasar dos latinos – conseguiram integrar esse Annus Platonicus em um vasto sistema de grandes ciclos cujos principais elementos eram derivados da astronomia indiana. É também no Islã, nessa época, que realmente ocorre a grande confusão que permanecerá por muitos séculos entre dois grandes ciclos que, na realidade, têm muito pouco a ver um com o outro: de um lado, o Grande Ano no sentido platônico, marcado pelo retorno da conjunção dos sete planetas e a esfera fixa; por outro lado, a precessão dos equinócios, movimento lento de toda a esfera celeste, movimento cuja descoberta é geralmente atribuída a Hiparco e cuja medição foi estimada, segundo o Almagesto de Ptolomeu, em 36.000 anos.

Nos séculos XII e XIII, quando traduções latinas de obras árabes surgiram no Ocidente, vemos que a doutrina do Grande Ano geralmente não subsiste, exceto na forma muito degradada de uma crença astrológica em um retorno perfeito de todos os astros ao mesmo ponto do céu, a cada 36.000 anos, um retorno que deveria anunciar a chegada de um novo ciclo da história exatamente igual ao anterior. Pode-se dizer com segurança que a grande maioria dos homens desta era deve ter tido uma fé cega nas previsões astrológicas que poderiam ser feitas a eles sobre este novo ciclo da história. Grandes autoridades como Roger Bacon, Robert Grosseteste ou Alberto Magno, porém todos os três campeões do Cristianismo, não hesitaram em conceber a doutrina do Grande Ano num mesmo sentido. Diante desse manifesto entusiasmado por predições e superstições de todos os tipos, é claro que a Igreja teve que reagir com vigor. Em 7 de março de 1277, Étienne Tempier, bispo de Paris, mandou redigir às pressas uma lista de 219 artigos ou proposições condenadas pela Igreja. Foi estabelecido, de acordo com o papado, que a excomunhão seria fornecida para qualquer um que apoiasse qualquer um desses artigos ou uma dessas propostas. O artigo 6 desta carta diz:

Quod redeuntibus corporibus celestibus omnibus in idem punctum, quod fit em XXX sex milibus annorum, redibunt idem effecta, qui sunt modo.

“Que quando todos os corpos celestes retornarem ao mesmo ponto, o que ocorre a cada 36.000 anos, os mesmos efeitos que estão agora em ação retornarão”.

III. A conjunção de 1186

Chegamos à grande conjunção do ano 1186. Pois houve, de fato, uma belíssima conjunção de planetas naquele ano. Lendo as tabelas modernas que, graças ao cálculo retrospectivo, nos falam sobre a posição precisa dos planetas desde tempos imemoriais, parece que a conjunção geral dos planetas do ano 1186 foi uma das mais notáveis, talvez até a mais notável de todos os períodos históricos combinados. Aqui estão as posições planetárias, para a hora arredondada ao grau de longitude do ponto vernal, estabelecida para o meridiano zero e para a data de terça-feira, 16 de setembro de 1186, que é o momento mais forte da conjunção – pelo software Kairos desenvolvido por Raymond Mercier:

Sol – 179°
Lua – 197°
Mercúrio – 189°
Vênus – 184°
Marte – 189°
Júpiter – 181°
Saturno – 185°

Como podemos ver – e sem sequer levar em conta aqui as diferentes latitudes dos planetas – ainda estamos relativamente longe da conjunção perfeita, aquela postulada pela teoria clássica e que permitiria que uma mesma linha reta cruzasse todos os corpos planetários pelo centro. No entanto, para quem está acostumado a olhar para as astros à noite e perceber as distâncias muitas vezes enormes que separam os planetas uns dos outros na abóbada do céu, tal aproximação de corpos planetários em um setor do céu de apenas cerca de vinte graus é certamente algo bastante notável. Deve, entretanto, ser especificado que uma conjunção planetária desse tipo permanece uma questão de cálculo, não de observação direta, pois, por definição, a presença do Sol neste mesmo setor do céu priva irremediavelmente o observador terrestre de qualquer possibilidade de ver as outras astros.

thema mundi

IV. As fontes

Eles são uma verdadeira bagunça. O presente estudo, que não pretende ser outra coisa senão o início de um trabalho mais aprofundado, apenas permite traçar alguns rastros em um campo que permanece, em grande parte, a ser explorado. O que encontramos em muitas fontes é que a conjunção de 1186 havia sido prevista, sete anos antes, por certos astrólogos de Toledo – incluindo um certo Mestre João de Toledo – que havia esclarecido, em uma carta agora perdida, quando e como a conjunção ocorreria e, acima de tudo, que consequências desastrosas esta conjunção acarretaria para o mundo sublunar e para seus habitantes.

Num estudo intitulado Meister Johann von Toledo, Hermann Grauert já havia conseguido reunir um bom número de fontes sobre o notável alinhamento celestial de 1186, bem como os efeitos desastrosos que ele iria gerar segundo os autores da profecia. Um século depois, o estudo das fontes mostra cada vez mais claramente que a profecia que Toledo era conhecida tanto no Oriente como no Ocidente, com uma distribuição surpreendentemente ampla.

Entre as principais fontes do Ocidente cristão está a Flores historiarum, do cronista inglês Roger de Wendover. O autor, que parece ter confundido duas conjunções diferentes -as predições de nossos astrólogos são relatadas como parte do ano de 1229- admite sua admiração pelo discernimento daqueles astrólogos antigos que foram capazes de prever com tanta antecedência a tomada de Jerusalém por Saladino em 1187. Eis como, segundo ele, começou a carta que o ‘astronomi Tholetani’ enviou ao Papa Clemente III:

“A partir do ano atual, que é o ano 1179 da encarnação de Jesus Cristo, haverá em sete anos, se Deus quiser, uma conjunção dos planetas em Libra e na cauda do Dragão (sic), estando o sol então em Libra e na cauda do dragão (sic); este será o sinal notável de uma mudança para coisas que não mudam”.

A carta dos astrólogos continua com os detalhes dos efeitos devastadores que a conjunção deve gerar: terremoto, vento violento escurecendo do ar enchendo-o de venenos, destruição ou assoreamento de cidades inteiras, derramamento de sangue, doenças e caos de mortes. Finalmente, ainda de acordo com o mesmo testemunho, todos esses infortúnios futuros seriam anunciados por um eclipse solar que ocorreria no mesmo ano.

Rigord declara sobre isso em sua Histoire du Roi Philippe Auguste II de France:

“Neste ano [1186], os astrólogos do Oriente e do Ocidente, os judeus, os sarracenos e também os cristãos enviaram por várias partes do mundo cartas, nas quais previam, sem deixar margem para dúvidas, que em setembro haveria uma forte tempestade de ventos, seguida de terremotos, grande mortalidade entre os homens, sedições e distúrbios, bem como levantes entre reinos e toda uma série de outras ameaças do gênero”.

Depois de ter maliciosamente lembrado de que os efeitos anunciados simplesmente não ocorreriam, Rigord voltou-se para o mesmo texto desses escritos, começando, segundo ele, da seguinte maneira:

“Deus sabe e o cálculo mostra que no ano do Senhor 1186 (no ano 582 dos árabes), tanto os planetas superiores quanto os planetas inferiores se reunirão em Libra, em setembro. Um eclipse solar parcial, da cor do fogo, precederá esta conjunção no mesmo ano”.

O resto da carta repete amplamente os mesmos elementos que já foram discutidos na carta relatada por Roger de Wendover.

Muitas fontes latinas mais ou menos contemporâneas, como os Annales de Marbach, na Áustria, também atestam a existência e a circulação de cartas proféticas anunciando a grande conjunção de planetas e prevendo igualmente as mesmas catástrofes para o ano de 1186 da era cristã. O nome do Mestre João de Toledo é o mais frequentemente mencionado.

Sem dúvida, o testemunho mais interessante de todos é fornecido pela Chronica de Roger de Hovedon – ou melhor, Roger de Howden – e, mais especificamente, pela passagem em que o cronista relata o que ele chama de Epístola de um astrólogo chamado William, escrivão do condestável da cidade de Chester³². Para nós, a Chronica de Roger de Howden é de excepcional interesse por especificar, para a famosa conjunção de 16 de setembro de 1186, as posições de todos os planetas, bem como da Cauda do Dragão, da ‘pars fortunae‘ e da ‘pars gwerrae‘. Relatadas na figura de um quadrado astrológico, as posições desses elementos, conforme anunciadas pelo clérigo William para a ‘prima hora‘ de hoje, são as seguintes:

carta

32 ROGER DE HOVEDON, Chronica, W. STUBBS, vol. II, London, 1869: [Epistola Willelmi astrologi de supradictis planetarum conjunctionibus] … Sed eorum coniunctione omissa, de coniunctione omnium planetarum in Libra temporibus nostris per effectus prius incognita, et posteris non cognoscenda : quod alii sub aenigmate protulerunt, nos figuraliter detegamus. Haec autem conjunctio sexta decima die Septembris erit, feria tertia, hora prima, dominas horae Mars, Sole oriente, et planetis in lacis suis, ut subsequitur. Horoscopus Libra, gradus primus. Sol gradus xxx. Virginis. Jupiter gradus ii., minuta iii. Venus gradus iii., minuta xlix. Saturnus gradus viii., minuta vi. Mere uri us gradus iv., minuta 0. Mars gradus ix., minuta xviii. Cauda gradus xviii., minuta iii. Pars gwerrae gradus xv. Luna gradus xvii., minuta viii. Pars fortunae gradus xix.

Pelo que vemos é, que de fato, todas as posições planetárias, com exceção da Cabeça do Dragão ou nó ascendente da órbita lunar -por definição diametralmente oposta ao nó descendente-, estão concentradas em uma porção notavelmente reduzida do céu, entre o 30º grau de Virgem e o 19º grau de Libra.

Também é fácil ver o quão bem esses dados concordam com os valores obtidos pelo cálculo retrospectivo. Comparamos abaixo os valores retirados do texto de Roger de Howden e aqueles retornados para o mesmo dia e para o meridiano de Londres -às 6 da manhã da data civil- graças ao software Kairos de Raymond Mercier.

tabela2

O depoimento da Chronica continua com o enunciado das predições estabelecidas pelo mesmo Willian a partir desses valores. A interpretação dessa apresentação, fortemente imbuída de sofisticação astrológica, nos levaria longe demais. Vale ainda destacar que, ao contrário da maioria dos profetas da desgraça de seu tempo, o clérigo Willian não faz menção a ventos fortes ou outras perturbações climáticas da mesma ordem, mas se limita a prever, de forma mais abstrata e, portanto, mais cautelosa termos, os tempos difíceis para a cristandade. Curiosamente, esse testemunho, que os astrólogos poderiam facilmente ter considerado depois do fato como uma previsão magnífica da captura de Jerusalém em 1187, não parece ter surtido esse efeito. Devemos, sem dúvida, concluir deste silêncio de fontes posteriores o fato de que a l’Epistola de Willian permaneceu relativamente pouco conhecida.

Quanto às fontes anteriores, aquelas que teriam permitido justamente ao clérigo Willian basear suas previsões em dados numéricos, é uma aposta segura que devam ser buscadas em uma ou outra adaptação particular das famosas Tábuas de Toledo. Sabemos que essas tábuas, que foram originalmente estabelecidas por al-Zarqāla ou al-Zarqālï -o Azarquiel ou o Arzachel dos textos latinos- para o meridiano de Toledo e usando o calendário muçulmano, deveriam ter autoridade no Ocidente graças às traduções latinas e adaptações locais de seus cânones até sua substituição dois séculos depois pelas Tábuas Afonsinas. Também sabemos que as Tábuas de al-Zarqāla sofreram pelo menos duas adaptações na Inglaterra durante o século XII, a primeira vez por volta de 1149-1150 por Robert de Chester, para o meridiano de Londres, e uma segunda vez algumas décadas depois por Roger de Hereford, para o meridiano de Hereford.

A atribuição clássica da profecia aos astrônomos de Toledo obviamente torna muito plausível que a fonte seguida por William e reproduzida por Roger de Hovedon fosse uma dessas adaptações locais das Tábuas de al-Zarqāla, especialmente porque as posições planetárias calculadas para 16 de setembro de 1186 nos cânones das Tábuas de Toledanas obviamente também concordam com as indicações de nosso texto. Aqui, em relação aos valores citados anteriormente, encontram-se aqueles dados para o mesmo dia pelos programas “Desvios” (Raymond Mercier) e “Tolln” (Julio Samsó) com base nas Tábuas de Toledo:

tabela3

Nesta fase, não parece que podemos identificar com maior precisão a fonte utilizada pelo escriturário William.

Mencionaremos aqui apenas uma ou outra fonte não latina sobre o tema da grande conjunção, prometendo-nos retornar em breve a uma documentação que, obviamente, merece ser estudada de maneira muito importante, mais sistemática do que tem sido. distante. No que diz respeito ao mundo bizantino, recordaremos especialmente o testemunho preservado por Nicétas Choniatas sobre o grande Manuel Comnenus, que morreu no ano 1180. Menciona as previsões que teriam sido feitas a ele por astrólogos sobre terremotos, conjunções de astros e muito ventos poderosos nos anos vindouros, previsões que teriam decidido o soberano a tomar medidas especiais para proteger no subsolo sua família e algumas de suas propriedades. Não parece haver dúvida de que o texto grego em questão remete diretamente da difusão para o Oriente da enigmática profecia de Toledo. Quanto ao mundo árabe-muçulmano, também parece ter conhecido sua parcela de terríveis previsões em relação à grande conjunção. Em seu estudo sobre o enigmático João de Toledo, H. Grauert já havia conseguido coletar algumas fontes árabes ou persas relatando, para o 582 da Hégira (ou seja, 1186/1187 da era cristã), a conjunção de todos os planetas em Libra e ventos muito violentos que deveriam resultar, de acordo com alguns astrólogos, em perturbar fundamentalmente toda a superfície do globo. Aqui, novamente, um estudo muito mais detalhado dos testemunhos que chegaram até nós deve ser feito, mas já parece que as semelhanças com a profecia de Toledo são muito marcantes para se suspeitar da existência de vários redatores totalmente independentes deles uns aos outros.

A documentação recolhida até à data revela uma série de divergências, por vezes significativas, de uma fonte para outra. Existem também muitas questões que não encontram respostas inteiramente satisfatórias, pelo menos no estado atual de nosso conhecimento. Uma delas, e não menos importante, diz respeito à identidade deste João de Toledo, que em todo o caso parece preferível não confundir com João de Sevilha, filho de David, o célebre homem da ciência e tradutor da primeira metade do século XII. Existem também vários testemunhos relativos à carta profética que mencionam, não deste João de Toledo, mas de outros nomes de astrônomos ou astrólogos sobre os quais é igualmente difícil se pronunciar. Outro problema que espera ser resolvido é determinar o ano exato em que a profecia foi escrita e começou a circular. Por fim, e talvez acima de tudo, só se pode saber muito aproximadamente as intenções e as motivações profundas do(s) autor(es) da profecia. Algumas fontes mencionam, por exemplo, entre as previsões retiradas da grande conjunção de planetas, o anúncio da morte iminente de uma figura importante, mas isso não nos diz muito sobre o contexto histórico em que se situam esses testemunhos, pois o anúncio é mais frequentemente feito na linguagem velada cara aos astrólogos e prognosticadores de todas as épocas.

Em última análise, por permanecer profundamente incompleta, a documentação coletada até o momento sobre a conjunção de 1186 nos diz muito pouco sobre como esse tipo de teoria astronômico-astrológica foi capaz de se espalhar nas várias áreas geográficas e culturais do mundo no século XII de nossa era. A rapidez com que a previsão se espalhou para regiões tão distantes, no entanto, mostra que os contatos ali já foram singularmente próximos e intensos. É preciso acrescentar que, apesar da grande unanimidade de astrólogos ao redor do mundo, o ano de 1186 será que parece ter sido muito mais importante do que qualquer outro?

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