Astrologia e Astrólogos

O caso das “reformas” e reformas da astrologia no século XVII

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Hugh Draper’s 1561 astrological map.

Juliana Mesquita Hidalgo Ferreira

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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1 Considerações Iniciais

Este trabalho discute propostas para a astrologia apresentadas durante o século XVII, e analisa criticamente como essas propostas têm sido tratadas pela historiografia.

Não temos aqui a menor pretensão de abordar todas as “reformas da astrologia” do século XVII. Discutiremos alguns casos específicos, escolhidos como exemplos em vista de certas particularidades observadas: divergências entre os comentários produzidos por diferentes trabalhos historiográficos das últimas décadas a respeito dessas propostas de autores do século XVII; contrastes relevantes notados quando esses trabalhos historiográficos são confrontados com o que se pode inferir a partir das obras originais desses autores do século XVII; trabalhos que efetivamente mereciam ser estudados como “reformas da astrologia”, mas que são deixados de lado pela historiografia.

A respeito desse último item, aliás, deve-se ressaltar que enquanto certos trabalhos geralmente nem são mencionados, outros estudados em detalhe como “reformas da astrologia” talvez nem façam jus a essa denominação.

O uso da expressão “reformas da astrologia” requer cautela, visto que muitos autores não a empregavam para se referir aos seus trabalhos. Como era comum a existência de uma profusão de ideias a respeito de um mesmo tópico da astrologia, fica difícil dizer quem tinha a intenção de fazer algo com tal nível de repercussão. Além disso, aqueles que na época tiveram contato com esses trabalhos podem também não tê-los encarado como dessa maneira, isto é, como iniciativas de “reformas da astrologia”. É muito complicado avaliarmos como as ideias desses autores do século XVII foram consideradas pelos seus contemporâneos: se como mais algumas novas ideias em meio a muitas outras que tratavam de questões significativas da astrologia, ou se como se algo de maior importância e tal repercussão que efetivamente merecesse o título de “reforma da astrologia”.

As obras de William Lilly, um dos astrólogos mais influentes do século XVII, ilustram bem essa questão1. Em seus trabalhos, Lilly recorreu a argumentos empíricos para refutar aspectos astrológicos propostos por Johannes Kepler, e se referiu à ideia de John Dee de quantificação das influências astrológicas ao justificar por que a “verticalidade” de um cometa implicava numa influência máxima.

1 William Lilly foi um personagem central do período devido à sua influência tanto política quanto entre seus colegas de profissão. Teve sua vida pessoal e obras profundamente marcadas pelos eventos políticos, econômicos, sociais e religiosos daquela conturbada Inglaterra do século XVII. Foi um dos primeiros a propor a publicação de trabalhos astrológicos em inglês. Sua extensa obra, que cobre toda a segunda metade do século XVII, assim como a autobiografia deixada pelo astrólogo, ilustra bem o contexto da astrologia na época. Lilly produziu intensamente, tendo publicado trabalhos contendo previsões astrológicas e manuais, como o Christian Astrology, que ensinavam a fazer previsões. Manteve vasta legião de admiradores e recebeu estudantes e clientes de lugares tão distantes quanto Nápoles, Madri e Barbados. Seus livros de registros ilustram a prática de consultas que chegavam a duas mil por ano.

Lilly, no entanto, não mencionou tais contribuições desses autores como algo que merecesse uma expressão tão grandiosa quanto “tentativas de reforma da astrologia”. Pareceu se referir a elas como mais algumas em meio a então profusão de métodos, abordagens e interpretações da astrologia. E, nesse sentido, aceitou certas propostas de Dee, rejeitou outras de Kepler, e ponto final. Sem comentá-las como se fizessem parte de algo revolucionário para a sua arte.

Existem, no entanto, trabalhos historiográficos que relacionam especificamente aquelas ideias de Kepler e Dee às quais Lilly fez referências do modo despretensioso, como pertencentes a tentativas de reforma da astrologia produzidas por esses autores. A partir de casos como esse, deve-se questionar, por exemplo, em que medida tais ideias foram realmente apresentadas e recebidas na época como algo que tivessem tal intenção.

Nas discussões promovidas nesse trabalho tentaremos levar em conta essas e outras questões.

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2 As Discordâncias entre os Trabalhos Historiográficos

Existem pouquíssimos trabalhos historiográficos sobre a astrologia do século XVII. E uma simples verificação panorâmica da escassa historiografia sobre as “reformas da astrologia” revela curiosas diferenças.

A historiadora Mary Bowden discutiu na tese Scientific revolution in astrology: the English reformers (1558-1686) várias tentativas de reforma da astrologia. O historiador Patrick Curry também tratou do assunto na obra Prophecy and Power.

É interessante notar que, nesse trabalho, Bowden não procurou frisar que estava discutindo algumas reformas (se é que podemos chamá-las assim), e que a opção por tratar daqueles casos específicos seguia algum critério particular. Assim, se observarmos apenas essa análise podemos ser induzidos a acreditar que a autora abordou todas as reformas da astrologia produzidas no século XVII. O mesmo poderia ser dito a respeito do trabalho de Curry. Pode-se, não sem certa dificuldade, imaginar que Curry teria escolhido tratar de “casos principais” que se encaixavam numa classificação artificial, sugerida por ele mesmo, de tipos de reforma.

Se confrontamos os trabalhos desses dois historiadores notamos alguns pontos dissonantes. Curry parece dar pouca importância a ideias de alguns autores estudados em destaque por Bowden, como Childrey. Já a possíveis tentativas de reforma de outros autores discutidos por Bowden, como Offusius, Robert Fludd e John Dee, por exemplo, Curry nem sequer dá atenção.

Um ponto crítico parece, algumas vezes, estar no cerne de muitas dessas diferenças: a verificação de quem realmente dizia apresentar uma proposta de reforma da astrologia, e quem dizia propor algumas sugestões. Como procuraremos mostrar, por exemplo, uma suposta “reforma da astrologia” de Joshua Childrey foi tratada por Bowden e lembrada de passagem por Curry, mas Childrey, embora realmente apresentasse idéias inovadoras, não se referiu a elas como se pretendesse algo desse tipo. Não parecia se julgar um “reformador” da astrologia, e muito menos considerava que alguém pudesse sê-lo. Em contraposição, vale à pena destacarmos, ainda, que algumas propostas explicitamente delineadas por seus autores como “tentativas de reforma” (como a de Robert Godson) não costumam ser analisadas pela historiografia.

Outra notável divergência entre os trabalhos historiográficos diz respeito à avaliação da contribuição do astrólogo William Lilly.

Mary Bowden não se referiu ao trabalho de Lilly como uma tentativa de reforma. Por outro lado, ela o mencionou, sem explicar no que isso implicava exatamente, como líder reconhecido do que foi visto como uma “ressurreição” da astrologia. A historiadora Ann Geneva, por sua vez, procurou demonstrar, através de diversas cartas da época, que Lilly foi reconhecido como “restaurador da astrologia”, mas não explicou o que os coetâneos queriam dizer exatamente com tal predicação.

Geneva considerou que o trabalho de Lilly marcou, de fato, a primeira vez em que os métodos de cálculo e interpretação da astrologia foram amplamente revelados e disseminados. Aparentemente, as cartas citadas por Geneva deixam transparecer que o termo “restaurador” dizia respeito à importância adquirida pela astrologia em função do prestígio do trabalho de Lilly, após um período de pouca valorização na Inglaterra.7 Não parece haver indicações nessas cartas de que esse termo se devesse especificamente ao fato de ele ter compilado e corrigido regras da astrologia então existentes, mas sim ao seu esforço incessante de popularizá-la.

7 Na Inglaterra medieval havia muitos autores astrológicos de prestígio. Em contraposição, no início do século XVII, não eram muitos os profissionais ingleses dessa área, e os escritos astrológicos em circulação eram, em sua maior parte, de origem estrangeira. A situação só viria a mudar durante o reinado de Elizabeth I, quando o interesse pela astrologia ressurgiu com a renascença matemática.

Já o historiador Bernard Capp é incisivo ao se referir ao Christian Astrology, o manual de astrologia publicado por Lilly em 1647, como uma revitalização e um movimento de reforma da astrologia. Isso porque, segundo Capp, além de ser o primeiro livro compreensível a ensinar a prática e teoria da arte, Lilly se dedicou a corrigir regras que considerava, em sua maior parte, defeituosas.

Na seção seguinte, procuraremos discutir como o próprio astrólogo avaliou sua contribuição à área, e em que medida essa avaliação coincide com o que é dito pelos trabalhos historiográficos.

Outros casos também serão discutidos. Ao comentar as tentativas de reforma, Ann Geneva apontou que os primeiros reformadores, como Francis Bacon e Johannes Kepler, tentaram concentrar seus esforços na astrologia natural numa tentativa de alinhar a astrologia às descobertas científicas da época.

Todavia, como veremos, parece difícil compreender em que medida a proposta de Bacon poderia ser descrita dessa maneira. O mesmo pode ser dito em relação à proposta de Kepler. Como esclarece Bowden, a sugestão de Kepler não estava relacionada às novas ideias e descobertas da astronomia. Ele, por exemplo, considerava irrelevante para a astrologia adotar uma concepção geocêntrica ou heliocêntrica.

3 Alguns Casos Particulares

anno 1577

3.1 Francis Bacon

No início do século XVII, Francis Bacon sugeriu medidas para reformar diversas áreas de conhecimento, incluindo a astronomia e a astrologia.

Ele não propôs que as tradicionais afirmações dos astrólogos a respeito das inclinações particulares dos planetas fossem rejeitadas a priori, sem qualquer exame. Deveriam ser aceitas as compatíveis com razões físicas.

Em contraposição, natividades, eleições e questões horárias foram prontamente rejeitadas pelo autor, que não concebia as influências astrológicas como instantâneas. Deveriam ser abolidos casas e mapas astrológicos.8

8 A natividade era o mapa astrológico para o momento do nascimento de um indivíduo, através do qual os astrólogos faziam previsões a respeito de ocorrências futuras da vida desse indivíduo. Já as chamadas “eleições” eram as escolhas de momentos astrológicos mais favoráveis para a realização de “empreendimentos” como casamentos e viagens de navios, por exemplo, ou mesmo atividades na época muitas vezes consideradas potencialmente arriscadas, como banhos, cortes de unhas e cabelos, etc. A astrologia horária, por sua vez, era usada para resolver questões também bastante variadas. O astrólogo podia, por exemplo, compor um mapa astrológico para o momento em que um paciente produzia certa amostra de urina, e, com base no mapa, prever se ele seria ou não curado da doença que o acometia.

Para Bacon, a experiência mostrava que os solstícios e equinócios, as Luas nova e cheia, e “grandes revoluções” desse tipo tinham uma influência muito sensível sobre corpos naturais. Por outro lado, julgava que disso não se podia concluir que diferenças mais delicadas nas posições das estrelas produziam efeitos. Considerava que as ações dos corpos celestes eram exercidas mais sobre as “grandes massas” do que sobre os indivíduos, tinham longa duração e atingiam grandes espaços. Assim, eram válidas apenas previsões climáticas para períodos longos (anuais, por exemplo) e ficavam descartadas previsões para dias e locais específicos.

Bacon propôs uma série de princípios para analisar a radiação dos corpos celestes. A importância dos aspectos e da posição dos planetas nos signos fundamentar-se-ia na mistura de raios. Um planeta posicionado num determinado signo significava uma conjunção dos raios do planeta com os raios daquelas estrelas fixas.

Outros fatores deveriam ser levados em conta. Cada planeta lançaria seus raios com mais ou menos intensidade, segundo sua direção fosse mais perpendicular ou mais oblíqua em relação a determinada faixa de latitude. A influência de um planeta dependia ainda de sua proximidade em relação à Terra, do seu tipo de movimento (direto, estacionário, retrógrado), distância em relação ao Sol e eclipses.

Dentro dos limites possíveis de confiabilidade, já que só havia inclinações, eram possíveis previsões sobre assuntos variados, relacionados a grandes massas populacionais: dilúvios, secas, terremotos, epidemias, e até mesmo eventos de caráter político e religioso, como guerras e seitas.

Para chegar a essa “astrologia corrigida”, Bacon considerava mais viável trabalhar sobre experiências passadas do que sobre futuras, dados os intervalos de tempo necessários para análise serem grandes. Sugeriu, então, que deveria ser reunida grande quantidade de dados, a fim de possibilitar a comparação de eventos relacionados a “grandes populações” à ocorrência de eventos astrológicos importantes. Julgava que assim seria possível construir modelos de previsão.

A proposta de Francis Bacon para uma “astrologia sana” não incluía baseá-la no sistema copernicano, nem resultava de possíveis pressões externas advindas de novas descobertas da astronomia. Como mencionamos, Bacon rejeitou alguns elementos da astrologia tradicional, mas, ao contrário do que descreve Geneva, ele de modo algum tentou alinhar a astrologia às descobertas científicas da época. Essa não era uma preocupação do filósofo em relação à astrologia.

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3.2 William Lilly

Verificando as obras de William Lilly, pode-se questionar se o astrólogo concordaria com uma das razões apresentadas pelo historiador Bernard Capp para considerá-lo um reformador: a correção de regras supostamente defeituosas.

Durante a sua carreira, Lilly parece ter sido ousado. Propôs novos métodos para interpretar mapas astrológicos e analisar fenômenos celestes, calcular períodos de influência de cometas e conjunções, bem como verificar o planeta dominante numa conjunção. Procurou sistematizar as regras da astrologia judicial, reformulando as regras de outros autores, à luz de sua própria experiência.

Não há, no entanto, indicações de que considerasse suas várias contribuições técnicas uma revolução ou reforma na sua arte. Ao que tudo indica, não propunha tal nível de repercussão para essas ideias.

Por outro lado, a segunda razão, embora não justificada por Capp, parece sim encontrar respaldo nas obras de Lilly. Na carta ao leitor que inicia o Christian Astrology e na sua autobiografia, Lilly deixou transparecer que realmente acreditava ter feito algo revolucionário: seu manual de astrologia. Essa revolução, ao que tudo indica, não estaria relacionada exatamente a novos métodos de cálculos ou interpretações, mas sim a um novo método, revolucionário, capaz de ensinar astrologia de modo rápido e eficaz a qualquer pessoa, de tal maneira que qualquer um pudesse se instruir sem ajuda de mestres.

Se Lilly pudesse ser considerado um reformador da astrologia, é interessante notar que, ao contrário de vários daqueles que Mary Bowden apresenta como reformadores, o astrólogo parecia dar importância a certos elementos como as casas astrológicas, que são amplamente discutidas no Christian Astrology. Além disso, e aparentemente em discordância com esses reformadores, valorizava tanto a astrologia horária quanto a de eleições.

3.3 Joshua Childrey

Em meados do século XVII, Joshua Childrey propôs na obra Indago astrologica que se passasse a utilizar aspectos astrológicos heliocêntricos em vez de geocêntricos.

Para os planetas superiores, isto é, externos ao conjunto Sol-Terra, isso traria mudanças nos aspectos astrológicos no que tangia às suas posições em relação ao zodíaco e momentos de ocorrência. Além disso, havia mudanças qualitativas. O que, por exemplo, era dito anteriormente uma conjunção com o Sol, tornava-se uma oposição em relação à Terra. No caso dos planetas inferiores (Vênus e Mercúrio) havia mudanças somente no tipo de aspecto, mas não na posição e momento de ocorrência.

Podemos dizer que no Indago astrologica, Childrey, tal como Bacon, propôs uma astrologia fundamentada essencialmente em aspectos astrológicos e deu a entender que também não aceitava a tradicional divisão em casas astrológicas. Parecia ver esses e outros elementos (como os signos zodiacais) como subterfúgios criados para “contornar” erros da astrologia tradicional.

Já no ano seguinte, na obra Syzygiasticon instauratum, nota-se que procurou deixar claro que, ao contrário do que haviam pensado a respeito de suas primeiras declarações, não rejeitava o desenho de mapas astrológicos, os signos e a divisão do céu em doze casas, mas sim certas qualidades atribuídas a esses signos (móveis, fixos, etc.) e casas (masculinas, femininas, etc.).

Ao que tudo indica, no entanto, era mesmo notória a diferença entre comentários contidos nessas obras. O que Childrey apresentou como explicações mais claras parecem ser muito mais tentativas de dissimular mudanças de opinião ou mesmo recuo diante de consequências desagradáveis de uma posição mais radical. Além disso, a segunda publicação indica que seu autor havia sido criticado, o que justificaria um possível recuo.

Embora sua astrologia fosse então diferente da proposta por Bacon, o Syzygiasticon instauratum falava explicitamente de empregar os procedimentos delineados pelo filósofo para “o avanço da Filosofia Natural” em prol do “avanço da astrologia”. Julgava necessário examinar as posições dos planetas e outros dados astrológicos relevantes para grande quantidade de fatos significativos e condições climáticas extremas. Acreditava que deveria haver cooperação, pois era impossível um único indivíduo realizar esse trabalho.

Childrey dava preferência ao assunto “previsões climáticas”, considerado por ele a área mais certa e óbvia da astrologia. Acreditava, no entanto, que as alterações propostas podiam repercutir positivamente em várias áreas como a astrologia horária e o estudo das natividades.

No Syzygiasticon instauratum, Joshua Childrey procurou transformar os aspectos astrológicos (conjunções, oposições, etc.) de geocêntricos para heliocêntricos, construiu uma efeméride heliocêntrica, mas fez previsões seguindo normas tradicionais da astrologia. Em vista disso, o trabalho de Childrey poderia, de certo modo, ser considerado incongruente. Utilizando efemérides heliocêntricas e, ao mesmo tempo regras tradicionais para fazer essas previsões, ficava inviável concluir qualquer coisa a respeito da importância dos aspectos heliocêntricos a partir da concordância ou não das previsões com os fatos ocorridos. Não era possível decidir entre uma efeméride heliocêntrica e outra geocêntrica, pois mesmo que as previsões não fossem confirmadas, podia ser a forma de fazer o julgamento e não a opção por determinado tipo de efeméride o motivo do erro.

O fato, no entanto, é que Childrey já de antemão garantia que os aspectos heliocêntricos eram os válidos porque partiam da “verdadeira” concepção de mundo. Isso, para ele, já era motivo para que confiasse nesses aspectos, e a observação ele explicitamente qualificava como evidência menor.

O historiador Keith Thomas foi um dos primeiros a abordar as tentativas de “reforma da astrologia”. Citando o caso de Childrey, Thomas apontou a existência de um esforço determinado de atualizar o assunto na metade do século XVII.

Embora tenha proposto uma astrologia heliocêntrica, a análise dos trabalhos de Childrey mostra o quão inadequado é dizer que ele buscava “atualizar o assunto”. Tal descrição pode induzir à ideia de que ele pretendeu adequar a astrologia à nova astronomia da época. Isto é, como se essa tivesse representado algum tipo de pressão externa à qual era necessário responder. Essa interpretação não exprime de modo adequado a proposta de Childrey.

Boa parte das propostas para a astrologia na época partia da insatisfação com essa área, e não havia sido reflexo de pressões da “nova astronomia”. Essa observação se aplica inclusive às sugestões de Joshua Childrey e William Hunt, que tiveram como base o sistema heliocêntrico.

A respeito dos trabalhos de Joshua Childrey outros pontos interessantes podem ser discutidos. Childrey propôs mudanças de proporções razoavelmente consideráveis para a astrologia, mas, ao apresentá-las em suas obras, não se denominou um “reformador da astrologia”. Ele não se intitulava explicitamente um reformador. Aliás, no prefácio do Britannia Baconica pareceu demonstrar que não tinha a intenção de sê-lo, e nem considerava possível que alguém o fosse. Como expressou nesse prefácio, queria estabelecer fundamentos para a retificação de certas doutrinas da astrologia. A partir disso, esperava que todos os interessados, em cooperação, fizessem o que deveria ser feito.

Assim como Thomas, Mary Bowden, também sem qualquer ressalva sobre essa particularidade de o próprio proponente não intitular assim o seu trabalho, referiu-se a este como uma tentativa de reforma da astrologia. Já Patrick Curry agregou ao título “reforma” a expressão “científica” ao mencionar (de passagem) a proposta de Joshua Childrey, embora não pareça haver evidências de que Childrey tenha se referido ao seu trabalho como uma “reforma científica”.

Ainda segundo Mary Bowden, teria motivado os reformadores o descontentamento com a astrologia praticada na época, e o fato de concordarem com boa parte das críticas apresentadas por Pico della Mirandola no século XV. Bowden procurou mostrar que os reformadores, de modo geral, deixaram de lado casas e mapas astrológicos, e deram, por outro lado, grande importância aos aspectos formados entre os planetas.

Deve-se ressaltar, no entanto, que essas últimas observações a respeito dos “reformadores de modo geral” não poderiam ser aplicadas ao conjunto do que Joshua Childrey produziu sobre o assunto. O primeiro trabalho de Childrey até poderia sugerir que fossem abandonados os horóscopos e julgamentos baseados nas casas astrológicas. Mas, como mencionamos, na prática, os trabalhos desse autor nos anos seguintes mostram que ele não deixou de lado esses elementos da astrologia tradicional para se concentrar apenas nos aspectos astrológicos.

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3.4 John Partridge

No século XVII, o bem-sucedido astrólogo John Partridge considerava que a situação da astrologia era péssima. Como em vários outros casos, também a proposta de Partridge não parecia advir de pressões externas específicas de novas descobertas ou concepções, mas sim do descontentamento do autor com a situação da própria astrologia, que perdia reputação, segundo ele, em virtude de suas incoerências internas, dentre outros problemas.

Partridge se manifestou explicitamente contra o que chamou de “inovações”, mas não comentou especificamente tentativas de transformar a astrologia em função do sistema copernicano. Aliás, ao se dirigir aos leitores do seu trabalho, pareceu fazer questão de deixar claro que não havia importância na escolha do sistema de mundo. Chegou até mesmo a tratar o assunto com ironia, como se fosse algo que não tivesse qualquer implicação no julgamento astrológico.

Mas, se por um lado, o autor deu pouca atenção ao fator “concepção de mundo”, por outro, destacou a necessidade de coerência. As regras adotadas deviam ser coerentes entre si e empregadas de modo idêntico em todas as análises.

Partridge considerava que já havia “uma Verdadeira Astrologia” capaz de corresponder a essas expectativas: a proposta por Ptolomeu.

Na opinião do astrólogo, pouco havia sido apresentado de bom mesmo pelos mais estimados autores de sua época. Essas poucas boas inovações deveriam ser criteriosamente analisadas, testadas e aceitas somente quando se mostrassem convincentes.

Dos escritos de Partridge pode-se inferir o que seriam para ele algumas dessas boas inovações. Ele utilizou, por exemplo, alguns aspectos astrológicos além dos propostos por Ptolomeu, como o “sesquiquadratum” de Kepler, sem contanto se referir ao proponente do aspecto em questão.

É interessante notar, contudo, que algumas vezes John Partridge se mostrava bastante disposto a aceitar exclusivamente o que Ptolomeu havia aceito. Como o próprio título completo do Opus reformatum indicava, sua intenção era mesmo reviver “o verdadeiro e Antigo Método estabelecido paras as nossas Direções pelo Grande Ptolomeu”. Nota-se, aliás, que ao se deparar no trabalho do astrólogo John Gadbury com ideias que julgava não serem de Ptolomeu, Partridge o criticou, entre outros motivos, justamente por empregar o que não provinha daquele autor.

Com elementos extraídos diretamente do Tetrabiblos, Partridge procurou demonstrar como Ptolomeu julgaria o mapa astrológico para o momento do nascimento de Oliver Cromwell. Seus comentários, nesse caso, indicam explicitamente que ele não rejeitava julgamentos com base em casas astrológicas. Na seção anterior, enfatizamos que a generalização de que os reformadores deixaram de lado casas e mapas astrológicos não poderia ser aplicada à proposta de Joshua Childrey. O mesmo comentário também não pode ser estendido às sugestões de Partridge, que deu grande importância às casas e mapas astrológicos, e efetivamente os utilizou na prática, como no caso do julgamento da natividade de Cromwell.

O comentário de Bowden, portanto, não poderia incluir a proposta do astrólogo John Partridge. E deve-se, de fato, pontuar que a historiadora não fez referência em sua tese a uma possível tentativa de reforma liderada por Partridge, que é, aliás, um pouco posterior ao período abordado pela autora. Vale ressaltar, no entanto, que mesmo que a proposta do astrólogo fizesse parte do período contemplado por Bowden, pode-se até sugerir que não havia motivos explícitos no trabalho dele para que fosse mencionado como um reformador.

John Partridge foi um proponente de sugestões para a astrologia. Assim como Childrey, ele não exatamente parece ter se autodenominado um “reformador da astrologia”. Assim, tal qualificação só pode ser estendida a Partridge por inferência a partir do título do livro Opus reformatum, publicado por ele.

Há, no entanto, trabalhos historiográficos que apontam Partridge como um reformador da astrologia sem qualquer ressalva a esse respeito. O historiador Patrick Curry, ao discutir brevemente as tentativas de reforma da astrologia, comentou que a maior parte dos reformadores se dividiu em grupos opostos liderados por John Gadbury e John Partridge, que trabalhavam deliberadamente para realizar um tipo de reforma. O primeiro grupo seguia um programa “científico” ou da filosofia natural, e tentava colocar em prática ideias de Bacon. Já o segundo grupo adotou um programa ptolomaico. Queriam “purificar” a astrologia, livrando-a de tudo o que Ptolomeu não havia estudado.

É interessante notar, assim, que se acompanharmos a descrição de Curry, teriam havido unicamente duas propostas significativas de reformas que eram verdadeiros “programas de pesquisa”. O mesmo não acontece com a descrição de Mary Bowden, que embora aponte a existência de algum tipo de colaboração, não sugere algo organizado, e nem continuidade nas muitas (e não duas) tentativas de reforma.

As sugestões para a astrologia do século XVII que nos dedicamos a analisar (como a de Partridge) não parecem ter tido grande repercussão, nem suscitado discussões efetivas sobre o assunto na época ou deixado seguidores. O próprio Partridge deu a entender que sua iniciativa era isolada, pois não tinha apoio de outras pessoas e só teria recebido ajuda de seu falecido mestre.

A análise de Patrick Curry, em contrapartida, estranhamente parece sugerir a existência de algo como “escolas” de pesquisa ou agrupamentos de pessoas com ideias semelhantes, dotadas de um espírito de reforma. Além disso, existiram propostas para a astrologia no século XVII (como as de Robert Godson e William Hunt) que não parecem se encaixar na divisão proposta pelo historiador. Talvez não tenham sido tão significativas, mas vale à pena nos perguntarmos, por exemplo, até que ponto a de Partridge foi.

3.5 Robert Godson

Em fins do século XVII, Robert Godson publicou o Astrologia reformata. Foi um dos poucos a definir explicitamente sua contribuição como uma reforma da astrologia. Apesar disso, sua proposta raramente é mencionada pela historiografia, e não parece ter sido estudada detalhadamente.

Robert Godson aceitava a astrologia concernente a eventos humanos, tanto para nações quanto para indivíduos particulares. Aceitava a análise não somente de aspectos como também de casas astrológicas. Considerava válidos, portanto, vários elementos da astrologia, na época não raramente vistos com certa ressalva. Contudo, por outro lado, julgava haver na astrologia uma série de problemas: deduções baseadas em meras analogias; regras forjadas sem base experimental; conclusões apressadas a partir de evidências fracas, sem critérios rígidos de verificação; etc.

Godson exaltou as novas descobertas e estudos da astronomia. Esta lhe parecia aperfeiçoada, à exceção de sua parte de prognósticos, a astrologia.

Por essas considerações poder-se-ia supor que ele teria aplicado as novas ideias e descobertas da astronomia à astrologia. Quem sabe, talvez, fazer algo como uma astrologia do ponto de vista heliocêntrico. No entanto, não foi isso o que fez. Para Godson, a astrologia devia empregar o sistema de Ptolomeu como suficiente e verdadeiro.

Sua reforma partiria da insatisfação com as regras da própria astrologia derivadas de falhas metodológicas, circunstâncias às quais atribuía as grandes variações entre profissionais dessa área. Pode-se notar que, para ele, as novas contribuições à astronomia não implicariam na necessidade de mudanças teóricas específicas na astrologia. A contribuição da astronomia não estaria em novos dados ou conclusões, mas sim no método de trabalho.

Godson propôs uma reforma da astrologia, seguindo o “único verdadeiro método de fazer e ganhar experiência”, e insistiu no que chamou de “Prova Experimental e Demonstração”. Sua intenção era estabelecer padrões a partir da análise de grande volume de casos, e da comparação das previsões com os resultados ocorridos. Num discurso, no qual pareciam ressoar com forte intensidade as ideias de Bacon (embora não o tenha citado), referiu-se ao trabalho que vinha desenvolvendo como “experimentação e observação”. Dizia já ter realizado, por vários anos, um “exame experimental dos próprios Céus através da coleta e discussão imparcial e cuidadosa de várias faces celestiais e figuras a respeito de um único e mesmo particular […]”. Como amostra do seu trabalho, apresentou no Astrologia reformata a análise de algumas natividades, escolhendo observar especificamente situações extremas e comuns a muitas pessoas: a morte e o casamento.

4 Considerações Finais

As discordâncias entre os autores que se dedicaram a escrever sobre a história da astrologia do século XVII não devem ser vistas com muita surpresa. O tema em questão é extremamente complexo e seu estudo está apenas começando.

Pode-se dizer, no entanto, que os poucos trabalhos historiográficos a respeito desse assunto não raro parecem se dedicar demais a rotular personagens, dando pouca repercussão ao modo como o próprio século XVII os via e como eles próprios pretendiam ser vistos.

É necessário, em contrapartida, estudar atentamente as fontes no sentido de tentar analisar o que seus autores estavam realmente dizendo, sem divisões anacrônicas e artificiais, e rotulações apressadas do tipo “reformador da astrologia”, que muitas vezes atribuem a pessoas papéis que estas talvez jamais tenham pretendido.

De qualquer forma, tendo ou não essas propostas a intenção de reformar a astrologia, o certo é que não pareciam ter origens em pressões externas a essa área, tais como possíveis repercussões das novas ideias da astronomia. As sugestões pareciam provir do próprio descontentamento desses autores em relação a certos aspectos da astrologia e não eram implicações das novas descobertas ou da adoção de uma cosmologia específica.

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Referências Bibliográficas
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