Astrologia e Astrólogos

A Astrologia Inglesa do Século XVII

…E a então recém-fundada Royal Society

Juliana Mesquita Hidalgo Ferreira

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – FAPESP
A autora agradece à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo pelo apoio a esta pesquisa.

δ

Durante o século XVII, a astrologia se popularizou na Inglaterra e começou a se organizar com a criação da Society of Astrologers of London. Mas, curiosamente, perdeu prestígio no meio acadêmico.

Bastante emblemática desta situação foi a inserção, na crítica de John Melton à astrologia, na época, de dois pequenos poemas de apoio ao autor, sugestivamente escritos por membros de Cambridge e Oxford. Em contraposição, na mesma obra, os astrólogos foram descritos como ignorantes, e quem os consultava era motivo de riso.

Nesse contexto, o presente artigo discute a atitude da então recém-fundada Royal Society em relação à astrologia, e se houve ou não uma manifestação explícita da associação em relação a esse assunto. Discute-se ainda, brevemente, razões para esse comportamento da Royal Society, e em que medida essa atitude refletia as opiniões de Francis Bacon e dos associados da instituição.

1. Francis Bacon e a astrologia

No início do século XVII, Francis Bacon propôs que a astrologia, considerada por ele uma parte da física, fosse reformada por estar gravemente “infectada por superstições”.

Bacon sugeriu princípios para analisar a radiação dos corpos celestes. Estes levavam em conta: a mistura de raios dos planetas, e entre esses e as estrelas fixas; a aproximação e o afastamento do planeta da perpendicular relativa a determinado clima (faixa de latitude); a proximidade do planeta em relação à Terra; o tipo de movimento do planeta, sua distância em relação ao Sol, e a possibilidade de estar ou não eclipsado.

Dentro dos limites possíveis de confiabilidade, já que não havia necessidade fatal e sim inclinações, esta “astrologia sana” possibilitava previsões sobre assuntos variados, todos relacionados a grandes massas populacionais:

[…] dilúvios, seca, calores intensos, geadas, tremores de terra, erupções de fogo, inundações ventos e grandes chuvas […] contágios, epidemias […] guerras, levantes, seitas, transmigrações de pessoas […].

Para chegar a essa “astrologia corrigida”, Bacon recomendou, por exemplo, que fosse verificada a situação do céu em eventos marcantes da história, a fim de construir modelos de previsto.

Francis Bacon era reconhecido pelos fundadores da Royal Society como seu “patrono intelectual”. Como a instituição propunha pôr em prática as ideias de Bacon para diferentes áreas de conhecimento, vale à pena discutirmos sua atitude frente à astrologia e às ideias do filósofo para esta área específica.

2. A Royal Society e a Astrologia

Sabemos que membros da Royal Society se dedicavam à astrologia. Kenelm Digby acreditava em influências astrológicas particulares sobre um indivíduo e chegou a fazer sua própria natividade, conservada no Ashmoleam Museum. Elias Ashmole publicou trabalhos sobre astrologia e alquimia e era amigo pessoal de William Lilly, o astrólogo reconhecido como líder da profissão na época. Ashmole e John Aubrey, ambos membros da Royal Society, coletaram de maneira sistemática mapas astrológicos calculados para o momento do nascimento de pessoas eminentes. Trabalharam ao estilo Baconiano, tentando aperfeiçoar a astrologia através de uma cuidadosa e intensa coleta de dados sobre nascimentos a fim de possibilitar interpretações astrológicas confiáveis. Em 1681, estavam empenhados na preparação de uma coleção de natividades de homens importantes. Este procedimento foi a base para a famosa coleção de biografias de Aubrey, a obra intitulada Brief lives.

Outros associados, como Seth Ward, consideravam lamentável o fato de pessoas tão cultas quanto Ashmole, acreditarem e se dedicarem a esses assuntos. Ward “perdoava” o que eram, para ele, “pequenos deslizes lamentáveis” dos seus companheiros de instituição, e os desafiava a demonstrar a validade da astrologia.

As minutas das reuniões

A obra The history of the Royal Society de Thomas Birch reúne as minutas das reuniões realizadas pela sociedade desde a sua fundação oficial, em 1660, até fins da década de 1680. O que nos interessa aqui não é alguma interpretação dessas minutas que Birch porventura possa ter realizado, mas sim as transcrições em si. Quanto a isso há, sem dúvida, limitações ao uso desse trabalho. Nem todas as minutas das reuniões registradas na época estão transcritas para o trabalho de Birch, mas boa parte delas sim. Houve, então alguma seleção por parte do autor, o que, obviamente pressupõe alguma interpretação. Desse modo, sempre levando em conta as devidas limitações, usaremos essa obra de Birch como fonte de pesquisa para estudarmos as investigações realizadas pelos membros da associação naquele período, buscando, em particular, identificar como a astrologia era tratada.

Essas minutas mostram que eram sugeridos assuntos para investigações. Ao que tudo indica, no entanto, mesmo os notadamente interessados em astrologia não parecem ter tentado colocar o assunto em pauta. Isto é particularmente interessante no que diz respeito à astrometeorologia.

Elias Ashmole colaborou com John Goad em suas pesquisas astrometeorológicas. Bem ao estilo baconiano, Goad e Ashmole, num esforço conjunto, realizaram observações meteorológicas por anos a fio e tentaram relacioná-las a padrões celestes. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, não parecem ter tentado levar os resultados de suas pesquisas à associação.

Isto é bastante curioso se notarmos que um dos assuntos de maior interesse da Royal Society era justamente a meteorologia. Os associados se esforçavam no sentido de realizar observações sistemáticas de condições meteorológicas, criar e aprimorar instrumentos para registrá-las.

Nas minutas não há qualquer alusão a pesquisas sobre possíveis influências celestes terem relação com alterações climáticas na Terra. O mesmo podemos observar no que concerne a outros assuntos tradicionalmente ligados à astrologia.

Verificando tópicos como cometas, planetas, marés, pragas e longevidade humana, nada encontramos a respeito de influências astrológicas. Aliás, não há no índice de assuntos desta obra uma entrada para “astrologia”.

Nas investigações sobre grandes pragas não se nota qualquer intenção de atribuir a doença a possíveis influências astrológicas. Nas discussões sobre marés aparecem hipóteses como centros de gravidade compostos para Terra e Lua, mas nenhuma influência astrológica é cogitada.

Verificando ainda o que diziam sobre planetas, cometas e eclipses, pudemos constatar que nenhum interesse em relação a pesquisar possíveis influências astrológicas é manifestado. Preocupavam-se em aprimorar telescópios e observar as distâncias entre os planetas, suas características, satélites e paralaxes. Propunham hipóteses sobre a natureza dos astros. Os mundos sub e supra lunares pareciam cada vez mais semelhantes diante das novas conclusões.

A linguagem empregada nos registros é puramente descritiva e restrita ao ponto de vista da astronomia. Os pesquisadores estavam fundamentalmente preocupados com aspectos observacionais.

As minutas revelam como outro grande foco de interesse as observações de eclipses e discussões sobre movimentos e natureza dos cometas. É interessante notar que em nenhum caso sugere-se que esses eram presságios divinos e traziam consigo influências astrológicas.

A minuta de um dos encontros nos mostra claramente o interesse dos associados, em contraposição àquilo que não lhes interessava:

O senhor Cluverus trouxe dois trabalhos impressos do senhor Sarotti, impressos na Itália, sobre o cometa. Um deles que estava em latim foi lido, mas consistia em sua maior parte de previsões; após a leitura notou-se que o outro também consistia na mesma coisa e contém muito pouco ou nada de observação considerável.

Apesar do florescimento e popularização da astrologia na Inglaterra, esse ramo de conhecimentos, segundo nos apontam as minutas, não era discutido nas reuniões. Em contraposição, não se encontra nas minutas uma posição oficial explícita em relação à astrologia.

A história oficial

Em busca de informações sobre o tratamento dado à astrologia pela então recém-fundada Royal Society outra fonte material pode nos ser relevante. A obra The History of the Royal Society, de Thomas Sprat, foi concretizada para marcar o estabelecimento da instituição com o aval do Rei Charles II. Este trabalho não deve ser entendido como representativo exclusivamente das ideias do seu autor, mas sim da “instituição Royal Society” que se permitiu representar por ele. Como demonstra a historiadora Margery Purver, a produção desse trabalho foi amplamente supervisionada por comitês internos, de modo que o texto apresentava a atitude oficial da instituição em relação a vários assuntos.

Sabemos, é claro, que nem sempre há unanimidade entre participantes de uma associação em relação aos assuntos. No caso da astrologia e as atitudes dos membros da Royal Society isso é marcante, como se nota no presente artigo pelos casos já comentados de John Aubrey, Elias Ashmole e Seth Ward. O livro de Sprat, portanto, não dava conta dessas diferenças individuais, mas, como veremos, manifestou explicitamente uma atitude oficial da associação em relação à astrologia. Analisando o trabalho de Sprat estamos em busca justamente dessa atitude oficial da Royal Society. Além disso, pode-se especular se certos comentários gerais apresentados pelo autor poderiam ou não ser aplicados à astrologia.

Uma das preocupações explícitas de Sprat era que a linguagem empregada pelos pesquisadores fosse a mais simples, clara e concisa possível, evitando a linguagem rebuscada, segundo ele, desafiadora da razão. Também naquela época o astrólogo William Lilly parecia reagir, tal qual a Royal Society, à utilização de um estilo rebuscado e incompreensível.15

15 Lilly (1647), To the Reader. O astrólogo William Lilly não era membro da Royal Society. Procuramos aqui apenas especular sobre como o astrólogo, considerado líder de sua profissão na época, reagiria a certos comentários presentes no trabalho de Sprat, caso esses fossem dirigidos à astrologia.

Podemos dizer, portanto, que a crítica de Sprat, embora aplicada ao escolasticismo das universidades, muito provavelmente seria estendida pela Royal Society à astrologia.

Sprat recomendava que estudos sobre “a Razão, a Compreensão, os Temperamentos, a Vontade e as Paixões dos Homens” só fossem realizados depois de grande conhecimento da parte física humana.

Se tomarmos por base esses comentários não podemos dizer que a Royal Society rejeitava inteiramente o estudo da astrologia judicial. Esta não só se referia a questões a serem temporariamente deixadas de lado segundo a instituição, como inclinações e temperamentos humanos, como também procurava analisar aspectos físicos como doenças, por exemplo.

Se a astrologia poderia sim ser um meio para investigar esses aspectos físicos, por que então ignorá-la? E mais, por que ignorá-la se a própria Royal Society recomendava que os pesquisadores não deviam se restringir a uma determinada “Arte de Experimentação”, e era imprescindível “nunca ser limitado por Regras”, mas sim “manter-se livre” na investigação?

Mas seria a astrologia um dos caminhos permitidos, se Sprat considerava que as diferenças de opinião nas reuniões eram facilmente administradas porque “não poderiam se basear em Termos de Especulação, ou Opinião, mas somente nos Sentidos”? A astrologia era adaptável a esse tipo de observação?

Como vemos nas obras de Lilly, o astrólogo julgava que suas conclusões eram sim baseadas em exaustivas observações. Além disso, havia ainda aqueles, como Bacon, que se não consideravam que a astrologia correspondia a essa expectativa, achavam que ela poderia ser reformada para fazer frente a essa questão.

Em sua obra, Sprat deixou claro que eram investigados não só temas de consenso, a respeito dos quais restavam poucas dúvidas. Também davam atenção a questões nebulosas e controvérsias envolvidas por concepções fantásticas.

Sendo assim, parece ainda mais relevante a aparente constatação de que a astrologia nem mesmo era assunto em pauta nas reuniões. Não cogitavam nem mesmo a possibilidade de haver na astrologia concepções corretas e incorretas? O assunto não merecia ser estudado a fim de distingui-las?

Se consideravam que a astrologia era assim tão descartável, não valeria à pena tentarem estudá-la a fim de confirmar e fundamentar sua invalidade?

O aparente desprezo por debates sobre a astrologia fica ainda mais intrigante por Thomas Sprat comentar: “Para a Royal Society será sempre quase tão aceitável refutar quanto descobrir […]”.

Para o livro de Sprat foram transcritos alguns trabalhos específicos a respeito de eclipses de satélites de Júpiter e da Lua. Nestes não há alusões a possíveis influências astrológicas. Fundamentalmente, propunham métodos para minimizar dificuldades de observação daqueles fenômenos.

Sinalizava forte preocupação restrita a aspectos observacionais o fato de, sem implicações do tipo “analisar possíveis influências astrológicas”, quererem “um Levantamento, Mapa e Tabelas de todas as Estrelas fixas do Zodíaco, tanto visíveis a olho Nu quanto as que podem ser descobertas com um Telescópio”.

Nas várias passagens concernentes a planetas e ao aperfeiçoamento de instrumentos para pesquisa astronômica não há comentários sobre astrologia. Os focos de atenção são aspectos observacionais do ponto de vista da astronomia.

Na maior parte dos trabalhos mencionados não se nota interesse em investigar possíveis influências astrológicas. Em contrapartida, em alguns poucos há sim comentários que parecem sugerir a intenção de verificar essa possibilidade. Esses dizem respeito exclusivamente a fenômenos físicos, como “a Hipótese de movimento da Lua, e do Mar dependendo dele”.

Há ainda o que parecem ser indagações sobre possíveis influências astrológicas ou ainda referências à medicina humoral, de bases astrológicas:

Q.7. Se aquelas Criaturas [ostras e caranguejos] que estão nessas Partes engordam, em qualquer estação, na Lua cheia, e emagrecem, em qualquer estação, na nova, e se ocorre o contrário nas Índias Orientais?

Ele [o bétele] elimina da Cabeça os Humores fleumáticos que são evacuados quando se cospe […].

A. Há dois Tipos de Árvore Triste; uma é chamada pelos portugueses Triste de Die, o outro Triste de Nocte; a primeira deixa cair suas Flores no nascer, a outra no pôr do Sol; mas nenhuma das duas perde suas Folhas […].

Outro exemplo apresentado por Sprat foi o “Método para se fazer uma História do Clima” de Robert Hooke. Neste sugere-se explicitamente a possibilidade de verificar a ligação entre clima e cometas ou outras aparições nos céus.

Também bastante interessante é a tabela padrão para os registros. Nela constam posições do Sol e da Lua nos signos zodiacais. Hooke, no entanto, deu a entender que o uso de “Figuras e Caracteres dos Signos comumente usados nos Almanaques” era de conveniente praticidade, e que se podia usar indiferentemente os “Dias do Mês, ou o Lugar do Sol”. Nada disse a respeito de essas posições implicarem em alguma influência astrológica, embora, curiosamente, parecesse fazer questão de indicar a fase da Lua para cada dia em questão.

Mesmo se alguns trabalhos pareciam investigar possíveis influências astrológicas, não havia nesses alusão ao termo astrologia ou à expressão “influências astrológicas”. O que quer que estivessem estudando nesses casos, não parecia haver intenção de dizer que o assunto tinha relação com a astrologia.

3. A atitude da Royal Society

Sir John Melton (falecido em 1640), Astrologaster ou a Figurada com rodas; ao invés disso, Acusação aos Astrólogos, Cartomantes e Videntes de 1620 dedicado ao pai do autor, Evan, e contendo versos de John Hancocke. O autor tornou-se Membro do Parlamento por Newcastle-upon-Tyne. A página de título usa um clichê visual familiar do século XVI do Mago/Adepto atrás de uma mesa dando uma performance, enganando o ignorante ao prever o futuro.

Nem sempre o que é proposto por alguém é levado a cabo por aqueles que dizem ser seus seguidores. A relação entre a Royal Society e a astrologia não foi a mesma de Francis Bacon com essa área.

Sabemos que a proposta de Bacon para reformar a astrologia poderia ter sido discutida e tentada pela instituição, caso houvesse dúvidas sobre partes da astrologia e se quisesse diferenciar o que era ou não válido. Mas, embora várias outras idéias de Bacon para o “avanço do conhecimento” tivessem sido colocadas em prática, não parece ter havido, ao menos internamente na Royal Society, qualquer tentativa de reformar a astrologia. A instituição também não se dedicou a refutá-la. Era como se o assunto, por alguma razão não merecesse, não devesse ou não pudesse ser estudado.

Ao que tudo indica, podemos dizer que essa história oficial da instituição, não descarta uma relação entre o céu e os acontecimentos futuros para os homens de maneira geral (e não particular). Isso, no entanto, não podia ser estudado.

Deus podia usar os céus como punições exemplares aos vícios humanos, mas dizer-se capaz de interpretá-las não era prudente.

Porque se diz-se a respeito do ‘Julgamento Final’ que nenhum Homem sabe o momento em que isso irá ocorrer, então podemos afirmar também a respeito desses Julgamentos particulares que não há Homem que compreenda as Circunstâncias, ou Ocasiões em que são Infligidos; eles são uma das mais profundas partes dos Conselhos impenetráveis de Deus. […] todas Aplicações particulares a Homens particulares […] devem ser reprimidas.

Os pesquisadores, por cautela, deviam lidar apenas com as coisas materiais.

Nenhuma filosofia podia atingir a “Parte espiritual e sobrenatural do Cristianismo”, na qual incluía os “decretos de Deus”.

Ao que tudo indica, o modo como Sprat, e portanto a Royal Society, compreendia a natureza da astrologia, levava-o a julgá-la ser um assunto que fugia à compreensão humana.

Como os decretos de Deus eram impossíveis de compreender, deviam ser duras as críticas aos que, pretensiosamente, ousavam se dizer capazes de fazê-lo:

É, de fato, uma Desgraça para a Razão e a Honra da Humanidade que todos os Humoristas fantásticos devam presumir que interpretam todas as Ordens secretas do Céu, e expõem os Momentos, Estações e Destinos dos Impérios, embora ele seja completamente ignorante da mais comum Obra da Natureza que está debaixo do seu Pé. […]. […] nos faz depender de vãs Imagens do seu Poder que são construídas pela nossa Imaginação. […] esta melancolia, esta fragilidade, este humor Astrológico desarma os Corações Humanos, quebra sua Coragem, […].

Parecia haver sim algo escrito nos céus, mas interpretar essas mensagens divinas era uma tarefa impossível para o ser humano. A astrologia no sentido de um ramo de conhecimento não existia. Não passava de uma construção humana fantasiosa. Os céus de fato podiam indicar coisas que se referissem à humanidade, mas essas jamais podiam ser compreendidas.

As explicações de Thomas Sprat poderiam ser compreendidas levando-se em consideração comentários do sociólogo Robert Merton sobre a ética puritana: “Outorga-se à razão um lugar cuidadosamente circunscrito. Deus é “irracional” no sentido de que não pode ser medido pela razão humana”. Esta concepção ressaltada por Merton poderia estar relacionada àquela justificativa apresentada por Sprat, que derivaria assim de um dos aspectos da ética puritana.

Deve-se ressaltar, no entanto, que não havia homogeneidade entre os membros da Royal Society no tocante à religião. Alguns eram puritanos, outros anglicanos (como o próprio Sprat), presbiterianos ou até mesmo católicos. Além disso, a tese de Merton, que relaciona o surgimento da ciência moderna ao puritanismo, foi bastante debatida nas últimas décadas, tendo sido aceita por alguns autores, assim como também amplamente refutada por outros. Como comenta a historiadora Margery Purver, por exemplo: “A suposição de que a Royal Society era uma manifestação da ‘ética Puritana’ é refutada pelo testemunho da própria Sociedade, assim como pela sua conduta na prática”.

Vale notar ainda que o puritanismo não exatamente rejeitava a astrologia. O fato de William Lilly, um dos astrólogos mais influentes do século XVII, ser puritano demonstra que não havia oposição entre puritanismo e astrologia. Além disso, o próprio Lilly deixou explícito que a astrologia na Inglaterra, praticamente esquecida durante o período Elizabetano, havia ressurgido devido aos puritanos do Parlamento durante o período de Guerra Civil. Curiosamente, o período dos puritanos no poder coincidiu com o período de maior prestígio da astrologia.

Como a situação política teria mudado com a Restauração, em 1660, vale à pena nos questionarmos se a rejeição à astrologia se dava exclusivamente por motivos religiosos, ou se motivos políticos se agregavam a esses.

Se tomarmos como base a hipótese do historiador Patrick Curry de que estava em curso um processo de marginalização da astrologia, podemos dizer que a atitude da Royal Society em relação à astrologia muito provavelmente convinha aos interesses dos governantes.

Segundo Curry, como havia florescido durante a Guerra Civil e a República, a astrologia acabou sendo identificada com a revolução que culminou com a morte do Rei. As preocupações das elites governantes teriam levado, então, à volta da censura e a fortes ataques à astrologia. Como parte deste mesmo processo social tornou-se moda rir dos astrólogos. Peças teatrais que ridicularizavam a astrologia surgiram neste período.

Na própria obra de Sprat encontramos passagens que ridicularizam a importância dada às previsões astrológicas, o que sabemos terem sido “armas” identificadas com os puritanos.

Assim, em alguns aspectos, podemos dizer que a atitude da Royal Society correspondia aos interesses dos governantes. É interessante notar, no entanto, que não há indícios de que rejeitavam a astrologia por determinação direta do Rei e dos próximos a ele, embora possamos dizer que havia motivos plausíveis para que estes motivassem tal atitude. O pai de Charles II e o Príncipe Rupert, primo dele, haviam sido atacados nas publicações do astrólogo William Lilly em décadas anteriores. Curiosamente Rupert, aparece na história oficial da Royal Society como um membro bastante ativo na instituição.

No entanto, mesmo tendo o Rei sido aclamado como fundador, e a instituição conseguido o título de Royal Society, esta, em si, manteve-se alheia a uma posição política e religiosa definida. E, ao mesmo tempo, permitia que seus membros professassem livremente crenças religiosas e posições políticas. A sociedade, como instituição, era uma coisa. Seus membros e particularidades eram outra.

Será, então, que aspectos como religião e política no contexto da Royal Society podem nos ajudar a compreender porque era possível que a instituição se comportasse de certa maneira em relação a temas polêmicos, enquanto seus membros em particular se comportavam de maneira diferente? Não havia problema se queriam estudar ou aceitavam a astrologia fora da Royal Society, mesmo que esses assuntos polêmicos, seja lá por quê motivo, não fossem tópicos para discussão?

Sabemos que o afastamento de uma instituição desse tipo de discussões políticas e religiosas era mesmo apregoado por Francis Bacon. Entretanto, o mesmo não se pode dizer em relação à astrologia.

4. Considerações finais

A Royal Society não admitia ter interesse em estudar astrologia e nem parecia empenhada em realizar alguma reforma nesse ramo de conhecimentos, ao contrário de áreas como a medicina em que parecia seguir ensinamentos de Francis Bacon. Também não parecia interessada em refutar a astrologia ou criticar alguns de seus pontos. Por outro lado, questões como a relação entre fases da Lua e o clima ou mesmo a conformação corpórea de animais marinhos aparecem sim em trabalhos apresentados à instituição, ainda que não mencionadas como “influências astrológicas”.

Compreender esta atitude é uma tarefa árdua, e que deve levar em conta a conjugação de diversos fatores numa época de intensa efervescência política, social, religiosa e intelectual. Alguns desses fatores foram aqui brevemente discutidos.

Bibliografia
Bacon, F. (1976), Of the dignity and advancement of learning (1605), em James Spedding (ed.), The works of Francis Bacon, Boston: Taggard and Thompson.
Birch, T. (1968), The history of the Royal Society of London [1756-57], New York: Johnson.
Curry, P. (1989), Prophecy and power: astrology in Early Modern England, Cambridge: Polity.
Ferreira, J. M.H (2005), As influências celestes e a Revolução Científica: a astrologia em debate na Inglaterra do século XVII (Tese de doutoramento em Filosofia), São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Lilly, W. (1985), Christian Astrology [1647], London: Regulus.
Melton, J. (1620), Astrologaster, or the figure-caster, London: Bernard Alsep.
Merton, R. (1938), “Science, technology and society in Seventeenth Century England”, Osiris 4, 360-632.
Purver, M. (1967), The Royal Society: concept and creation, London: Routledge & Kegan Paul.
Sprat, T. (1722), The history of the Royal Society of London [1664], London.
Thomas, K. (1973), Religion and the decline of magic, Harmondsworth: Penguin.
Ward, S. (1654), Vindicae Academiarum, London.

Ω