Traduções

O céu pode dizer: astrólogos como especialistas

O que eles podem nos ensinar sobre finanças contemporâneas

Klaus Oschema

Ruhr-Universität Bochum
Oschema é professor de história medieval na Ruhr University Bochum desde 2017. Ele se concentra na cultura aristocrática da Borgonha, Ciências sociais e políticas na Idade Média, o termo e o conceito “Europa” na Idade Média, a comunicação simbólica e o papel dos astrólogos como especialistas no final da Idade Média.

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Resumo:

Ao agir, ou melhor, ao tomar a decisão de agir, os humanos se confrontam inevitavelmente com um dilema fundamental: as ações tomadas no presente costumam trazer consequências em um futuro imediato ou distante, mas esse futuro é, por definição, desconhecido e incognoscível. E sendo que até o presente é caracterizado por um alto grau de complexidade pode levar ao estabelecimento de um determinado grupo: especialistas ou consultores especializados. Os especialistas são indivíduos com conhecimento específico e que são usados ​​para tomar decisões embasadas ou resolver problemas específicos. Embora muitos autores considerem o desenvolvimento da cultura de especialização como um fenômeno exclusivamente moderno que responde à crescente complexidade da organização da vida social, neste contexto argumento que os astrólogos do final da Idade Média podem ser descritos como ‘especialistas’, e que suas atividades podem ser analisadas proveitosamente como sendo parte de uma ‘cultura especializada’. A fim de apreciar plenamente as características e funcionamento desta cultura, medievalistas têm que confiar em percepções e descobertas derivadas das Ciências Sociais. Enquanto o diálogo interdisciplinar beneficia a pesquisa sobre assuntos medievais, eu argumento que a análise da “cultura especializada” pré-moderna pode (e deve) informar refletir sobre o papel dos especialistas nas sociedades modernas. Com base no desenho de uma comparação entre especialistas financeiros modernos e astrólogos da Idade Média tardia, defendo que a análise destes últimos nos permite entender melhor nossa confiança em especialistas como um ato de fé e não como resultado de uma ‘previsão’ supostamente racional.

I – Prelúdio

A fim de demonstrar o potencial e relevância dos estudos medievais para a sociedade contemporânea, será útil começarmos no presente. Muitas pessoas certamente concordam que após os anos 1989/90 vemos o desenvolvimento de uma mundo complexo em vários níveis. A ordem política anterior, mais ou menos nítida que assistiu um “Ocidente” capitalista confrontar o “Oriente” comunista foi rapidamente transformada em uma multidão profundamente complexa de múltiplas entidades políticas e, às vezes, orientações políticas e filiações pouco claras. O Intercâmbio econômico intensificado em um escala global beneficiou um grande número de consumidores, mas também criou efeitos colaterais problemáticos, como as ‘migrações’ econômicas de grandes corporações que procuram minimizar suas obrigações fiscais ao instalar suas bases de manufatura no local onde eles podem fabricar seus produtos a preços mais baratos (e onde as regulamentações são geralmente menos rígidas). As viagens internacionais se expandiram muito, aumentando a mobilidade das pessoas, mas também distribuindo patógenos de forma mais eficiente (como a “gripe suína” e a “gripe aviária”) e fomentando tensões que podem ser interpretadas, dependendo da perspectiva, como religiosas ou sociais. O rescaldo dos eventos de 11/9/2001 desempenhou um papel decisivo em muitos dos desenvolvimentos políticos e culturais subsequentes, para onde essas dimensões convergiram. Para encurtar a história: o mundo em que vivemos já se tornou terrivelmente complexo e complicado (especialmente porque este “nós” obviamente se refere a realidades radicalmente divergentes, dependendo da chance individual de nascer em um família abastada na Suíça ou numa família pobre em outro lugar!).

A fim de ‘navegar’ neste mundo cada vez mais complicado, a sociedade contemporânea e seus membros contam com um grupo específico: especialistas! Especialistas são pessoas que são reconhecidas por terem percepções mais profundas em sua área particular de especialização do que a pessoa comum e, portanto, devem ser capazes de nos ajudar a entender melhor contextos ou problemas específicos para dominar com sucesso tarefas específicas. Este ‘approach’ não é uma concepção neutra se preocupando exclusivamente em nos fornecer um melhor senso do mundo em que habitamos. Em vez disso, cumpre um papel essencial em funções práticas, permitindo-nos tomar decisões embasadas no presente – e para isso, os especialistas frequentemente oferecem prognósticos sobre o futuro.

Mas a crescente importância dos especialistas também acarreta uma profunda inquietação com a complexidade do mundo moderno e a necessidade de contar com conselhos especializados em uma ampla gama de situações, desde declarações fiscais e planos de pensões até decisões políticas. Este mal-estar origina-se de um sentimento de impotência quando confrontado com as consequências pouco claras das ações individuais, mas também com a experiência das falhas de especialistas que podemos testemunhar na mídia. As sociedades do Ocidente estão, portanto, enfrentando uma situação paradoxal: a dependência cada vez maior de ‘experts’ por um lado e, por outro lado, o desenvolvimento de uma postura “anti-especialista” que sublinha a relevância das pessoas leigas e do “bom senso”. Os posicionamentos dos especialistas são, portanto, frequentemente criticados  imerecidamente, uma vez que supostamente resulta a partir de critérios puramente formais, como a posse de um diploma. Esta atitude condiz com uma postura anti-intelectual adotada no discurso político dos países como França, Suíça ou Hungria e, que provavelmente também contribuiu para a eleição de Donald J. Trump como presidente dos EUA em novembro de 2016.

Deixando de lado a política genuína, um grupo específico de especialistas fornece um exemplo revelador de ações simbólicas que nos convidam a reconsiderar nossa representação de sociedade “moderna” como sendo baseada em princípios como a racionalidade: desde a crise financeira que eclodiu em 2007, vários estudos têm demonstrado que a perícia econômica efetivamente tem valor muito limitado quando se trata de prognósticos de desenvolvimentos futuros, embora este seja o principal interesse dos clientes e leitores de especialistas. Procuramos aconselhamento para decidir de que forma devemos investir o dinheiro que colocamos de lado para uso no futuro (muitas vezes distante), por exemplo, para planos de pensão. Mas se a taxa de sucesso das previsões cair demasiadamente, jogar uma moeda para cima será igualmente eficiente.

Este não é o lugar para apresentar uma longa lista de evidências anedóticas ou sistemáticas para a longa série de previsões financeiras e econômicas fracassadas, embora isso forneceria um material muito divertido. Basta dizer que os gurus ‘experts’ não viram a crise de 2007 chegando – e uma vez que ela chegou, eles não conseguiram reconhecer suas dimensões, quanto mais fornecer explicações e justificativas satisfatórias por seu fracasso.9 Além disso, apesar da aparente decepção neste caso particular, poucos especialistas -para não mencionar toda a sua categoria- sofreram consequências imediatas ou de longo prazo.

9 I would like to thank H. Darrel RUTKIN for pointing out the analogy with the situation in 1524-1525: while a large number of astrologers predicted a great flood that failed to materialize, none of them seems to have foreseen the Peasants’ War of 1525, see Ottavia NICCOLÌ , Prophecy and People in Renaissance Italy, Princeton 1990, and Heike TALKENBERGER, SINTFLUT. PROPHETIE UND ZEITGESCHEHEN IN TEXTEN UND HOLZSCHNITTEN ASTROLOGISCHER FLUGSCHRIFTEN 1488–1528 (Studien und Texte zur Sozialgeschichte der Literatur 26), Tübingen 1990. It is interesting to note that Johannes Carion, who enjoyed the reputation of being an extremely successful astrologer, did not predict a flood for 1524, see Frank Ulrich PRIETZ, Das Mittelalter im Dienst der Reformation: Die ‘Chronica’ Carions und Melanchthons von 1532. Zur Vermittlung mittelalterlicher Geschichtskonzeptionen in die protestantische Historiographie (Veröffentlichungen der Kommission für geschichtliche Landeskunde in Baden-Württemberg. Reihe B: Forschungen 192), Stuttgart 2014, p. 469. On the continuing importance of astrology in the 16th century see, Claudia BROSSEDER, IM BANN DER STERNE. CASPAR PEUCER, PHILIPP MELANCHTHON UND ANDERE WITTENBERGER ASTROLOGEN, Berlin 2004.

γ

Existem, é claro, boas razões para isso, uma vez que o fracasso das previsões não é equivalente à inutilidade da avaliação dos especialistas no presente. Mas a combinação particular de fracasso e prática contínua como alguém que é reconhecido como uma autoridade em prever o futuro, convida o medievalista a ter um olhar mais próximo e comparativo sobre um fenômeno que pertence à sua área de especialização: a ascensão dos astrólogos como especialistas e conselheiros científicos para governantes no séculos XIV e XV. Mesmo que eu não queira colocar os modernos especialistas financeiros e economistas no mesmo nível desses astrólogos10. Eu pretendo argumentar que suas práticas, bem como seus papéis sociais, se assemelham num grau que justifica uma análise comparativa, que por sua vez pode lançar uma nova luz em ambos os sujeitos. E sendo este realmente o caso, conquanto, isso implica num alto grau de relevância dos estudos medievais, uma vez que eles aparentemente podem nos ajudar a compreender melhor o suportar e o funcionamento de nossas próprias sociedades de uma forma bem concreta.

10 Even though the comparison has become increasingly common in recent years, see, for example, for Babylonian diviners and astrologers Stefan M. MAUL, Die Wahrsagekunst im Alten Orient, Munich 2013, and for medieval astrologers Monica AZZOLINI, The Duke and the Stars. Astrology and Politics in Renaissance Milan, Cambridge / MA, London 2013. also Ann GENEVA, Astrology and the Seventeenth Century Mind. William Lilly and the Language of the Stars, Manchester, New York, 1995.

II – A Ciência e seus Representantes – Observações sobre a astrologia medieval tardia

Por uma questão de brevidade, não vou discutir em detalhes se os atrológos¹¹ no final do período medieval podem ou não, de fato, serem adequadamente descritos e entendidos como “especialistas” e como praticantes de uma “ciência”. Pesquisas recentes frequentemente usam a antiga noção;¹² para isso, eles próprios formularam reivindicações correspondentes, distinguindo-se assim de outras variedades de prognosticadores. Além disso, mesmo seus adversários frequentemente categorizam astrologia como “ciência” (scientia) em vez de uma “arte” (ars), e historiadores modernos da ciência há muito reconheceram a importância de astrologia do final da Idade Média e início da modernidade para o desenvolvimento da ciência moderna.14

11 In contrast to modern usage, medieval authors do not systematically distinguish on the terminological level between the notions of “astronomy” and “astrology”, see, for example, Steven VANDEN BROECKE, The Limits of Influence. Pico, Louvain, and the Crisis of Renaissance Astrology (Medieval and Early Modern Science 4), Leiden, Boston 2003; for the factual distinction in university curricula, see John NORTH, Astronomy and Astrology, in: Michael H. S ANK / David C. LINDBERG (eds.), Medieval Science (The Cambridge History of Science 2), Cambridge 2013. See also H. Darrel RUTKIN, Understanding the History of Astrology (and Magic) Accurately: Methodological Reflections on Terminology and Anachronism, in: Philosophical Readings 7(1) (2015), who underlines that “[f]rom Ptolemy on, the disciplinary distinction both conceptually and in practice was well understood”. Since my interest lies in the practice of experts who give advice on the basis of astrological data (in the modern sense), I will consistently call my protagonists “astrologers”.
12 See Darin HAYTON, The Crown and the Cosmos. Astrology and the Politics of Maximilian I, Pittsburgh / PA 2015; Anthony GRAFTON , Cardano’s Cosmos. The Worlds and Works of a Renaissance Astrologer, Cambridge / MA, London 1999.
14 See Brendan DOOLEY, Astrology and Science, in: A Companion to Astrology in the Renaissance (Brill’s Companions to the Christian Tradition 49), Leiden, Boston 2014. Also NORTH, and Edward GRANT, The Foundations of Modern Science in the Middle Ages: Their Religious, Institutional, and Intellectual Contexts, Cambridge 1996.

Além desses argumentos resumidos, a classificação dos astrólogos como especialistas e praticantes de uma ciência podem igualmente ser justificados com observações estruturais, que também legitimam a comparação com os especialistas financeiros modernos. Se considerarmos as práticas intelectuais como sendo “científicas”, que se baseiam (para um contexto específico) em práticas empíricas de dados e analisá-los de acordo com um conjunto de procedimentos metodológicos e quadro teórico específico, os astrólogos medievais certamente se qualificam: seus dados são fornecidos por movimentos celestes, que eles observam diretamente ou reconstroem com a ajuda de tabelas astronômicas e procedimentos matemáticos. Estes dados eram em seguida, organizados em um mapa astrológico que representava graficamente os planetas e suas posições. (O uso de meios gráficos de representação e o registro dos dados empíricos em termos matemáticos e numéricos, contribuiu significativamente para o reconhecimento da astrologia como uma prática “científica”.)

Embora os leitores possam concordar com meu argumento até este ponto, as coisas tornam-se mais problemáticas com a seguinte etapa decisiva: baseado (entre outras) na ideia de uma relação íntima macrocosmo-microcosmo, os astrólogos sustentaram (e mantêm) que os corpos celestes afetam os eventos terrestres.17 Mesmo se (na Idade Média) o mecanismo preciso da relação raramente fosse discutido em detalhes além dos conceitos gerais das teorias dos elementos e dos humores, é como se efeitos somados e amplamente observados e categorizados por uma série de autores adquirisse uma posição de autoridade. Astrólogos do final da Idade Média da Europa Latina foram influenciados por autoridades do passado greco-romano e também por autores árabes, cujas obras foram traduzidas em grande número a partir do século XII. Entre o mais importantes, encontramos autores como Alcabitius, Ptolomeu, Albumasar, Messahalla e Haly Abenragel.18

17 Nicolas CAMPION , Astrology, in: Anne L. C. RUNEHOV / Lluis OVIEDO (eds.), Encyclopedia of Sciences and Religions, Dordrecht, New York 2013; for a sociological analysis of contemporary practices in France see ARNAUD ESQUERRE, Prédire. L’astrologie au XXI e siècle en France, Paris 2013. See also Kocku VON STUCKRAD, Geschichte der Astrologie. Von den Anfängen bis zur Gegenwart, Munich 2003,(“Entwicklungslinien der modernen Astrologie”). I am very grateful to H. Darrel RUTKIN for pointing out that the theoretical foundations for astrological expertise are much more complex than a simple analogy between macrocosm and microcosm; however, I feel that for my present argument, which does not seek to develop a synthetical view of astrological theory, the abbreviated presentation might suffice. For more detailed information see, H. DARREL RUTKIN, Astrology, in: Lorraine DASTON / Katharine PARK (eds.), The Cambridge History of Science, vol. 3: Early Modern Science, Cambridge 2008, and ID., How to Accurately Account for Astrology’s Marginalization in the History of Science and Culture: The Central Importance of an Interpretive Framework, in: Early Science and Medicine 23 (2018), (with further bibliographical references). I would like to thank the author for providing me with a copy of this most recent article.
18 For a quantitative approach see David JUSTE, The Impact of Arabic Sources on European Astrology: Some Facts and Numbers, in: Agostino PARAVICINI BAGLIANI (ed.), The Impact of Arabic Sciences in Europe and Asia (Micrologus 24), Florence 2016. For a more general presentation see Jean-Patrice BOUDET , Entre science et nigromance. Astrologie, divination et magie dans l’occident médiéval, XII e XV siècle, Paris 2006.

Além de sua metodologia científica e seu reconhecimento das autoridades pertinentes, os astrólogos também tiveram que cumprir outros requisitos, a fim de serem reconhecidos como membros qualificados de seu grupo: eles próprios tinham que transmitir seus resultados em uma forma específica, que incluía o uso de um vocabulário aprendido e do idioma estabelecido no discurso científico, o latim (pelo menos até meados do décimo quinto século). Se pudermos aplicar observações modernas sobre a sociologia da especialidade e o reconhecimento do status científico, somos forçados a presumir que a aparência exterior também desempenhou um papel: as vestimentas dos astrólogos e os sinais de seu comércio, como livros ou um astrolábio, certamente não eram sem importância. Esta suposição pode pelo menos indiretamente ser corroborada pela observação da publicação anual do judicium anni, que fazia parte das obrigações dos professores de astrologia da Universidade de Bolonha, no século XV, e que poderia de fato se tornar a ocasião de uma performance pública.22

22 Alexandre TUR, Hora introitus solis in Arietem. Les prédictions astrologiques annuelles latines dans l’Europe du XV e siècle (1405–1484), Paris (unpubl. PhD-thesis, Université d’Orléans) 2018. I am very grateful to the author for kindly providing me with a copy of his work. The fact that the professor of astrology had to publish such a judicium on a yearly basis is attested by the statutes of the University of Bologna from 1405, see briefly Klaus OSCHEMA, Zukunft gegen Patronage? Spätmittelalterliche astrologische Prognostiken und die Kontaktaufnahme mit Mäzenen, in: Bernd BASTERT / Andreas BIHRER / Tino REUVEKAMP – FELBER (eds.), Mäzenaten im Mittelalter aus europäischer Perspektive. Von historischen Akteuren zu literarischen Textkonzepten (Encomia Deutsch 4), Göttingen 2017.

Infelizmente, esta dimensão performativa do papel dos astrólogos como especialistas, cuja voz foi ouvida e quem foi pago por seus conselhos, é notoriamente difícil de analisar, uma vez que a maioria das fontes que contêm informações pertinentes foram escritas por seus adversários. Embora não tenhamos “manuais” detalhados para astrólogos que dessem conselhos sobre como se vestir e se comportar para serem levados a sério, seus oponentes na competição pelo reconhecimento social e discursivo às vezes apresentavam observações bastante astutas. Mesmo que autores como Henry de Langenstein, Nicole Oresme, ou Laurens Pignon na França e Borgonha do final do século XIV e início do século XV  tenham principalmente focado nos problemas lógicos e teológicos da astrologia, eles não ignoraram as oportunidades de denegrir seus adversários, acusando-os de todos os tipos de práticas fraudulentas.25 Ao fazer isso, eles nos deixaram valiosas percepções quase psicológicas, ao mesmo tempo que forneceram importante material sobre a prática dos astrólogos. E isso é verdade, mesmo que a posição polêmica adotada por seus críticos tenham dados difíceis de validar.

25 Most recently on late medieval criticism of astrology Carl Philipp Emanuel NOTHAFT, Vanitas vanitatum et super omnia vanitas: THE ASTRONOMER HEINRICH SELDER AND A NEWLY DISCOVERED FOURTEENTH-CENTURY CRITIQUE OF ASTROLOGY, in: Erudition and the Republic of Letters 1 (2016); see also Klaus OSCHEMA, Unknown or Uncertain? Astrologers, the Church, and the Future in the Late Middle Ages, in: Sibylle BAUMBACH / Lena HENNINGSEN / Klaus OSCHEMA (eds.), The Fascination with Unknown Time, London, New York 2017.

A característica mais proeminente que caracteriza os astrólogos como um grupo, no entanto, é provavelmente a sua qualificação acadêmica: longe de ser praticada em círculos obscuros, a astrologia rapidamente se tornou uma matéria do currículo universitário durante o final da Idade Média. O seu lugar no modelo acadêmico era na Faculdade de Letras, junto ao Quadrivium (aritmética, geometria, música (ou harmonia) e astronomia) que abrangia as disciplinas matemáticas, mas também questões de filosofia natural. Além disso, o conhecimento pertinente desempenhou igualmente um papel importante no estudo da medicina, onde era considerado necessário para a escolha das terapias e para determinar o momento certo de sua aplicação.27 Perto do final da Idade Média, a maioria dos astrólogos costumavam ser empregados nas cortes como fisioterapeutas e dispunham de uma educação universitária ou mesmo de um diploma formal de mestrado de artes ou como médico. A integração da astrologia no ensino acadêmico é em alguns casos atestada pela existência de cargos de ensino pertinentes e referências explícitas nos currículos.29

27 See Anna AKASOY / Charles BURNETT / Ronit YOELI-TLALIM, Astro-Medicine: Astrology and Medicine, East and West (Micrologus’ Library 25), Florence 2008.
29 For Bologna see, Monica AZZOLINI, The Political Uses of Astrology: Predicting the Illness and Death of Princes, Kings and Popes in the Italian Renaissance, in: Studies in History and Philosophy of Biological and Biomedical Sciences 41 (2010).

A astrologia e seus praticantes, portanto, representaram um ambiente bem integrado e amplamente aceito, característica esta esperada na cultura medieval tardia, apesar das controvérsias existentes: podemos encontrar vários astrólogos como conselheiros em contextos cortesãos, e mesmo que seu papel para um público mais amplo em ambientes urbanos e rurais seja menos documentado, alguns indicações mostram que a população em geral também buscou seus conselhos.30 Os assuntos destes conselhos na prática não tinha limites: variavam desde a escolha certa de um parceiro ao momento propício para o casamento (incluindo a primeira relação sexual)31 ou momento certo para começar uma viagem, para começar uma guerra, para lançar as bases de uma cidade e para o tratamento correto para uma doença.

30 See, Sophie PAGE, Richard Trewythian and the Uses of Astrology in Late Medieval England, in: Journal of the Warburg and Courtauld Institutes 64 (2001). One indication for a broad reception is, of course, the early and impressive success of pertinent texts in print.
31 For the example of Frederick III’s marriage with Isabel of Aragón see Daniel Carlo PANGERL, Sterndeutung als naturwissenschaftliche Methode der Politikberatung. Astronomie und Astrologie am Hof Kaiser Friedrichs III. (1440–1493), in: Archiv für Kulturgeschichte 92(2) (2010).

Partindo da ideia de que a previsão permitiria sua preparação, um ‘locus classicus’ do período helenístico, todos poderiam lucrar com as informações pertinentes – principalmente os governantes. Assim, dificilmente nos surpreende que o Pseudo-Aristóteles ‘Secretum Secretorum’ orientava explicitamente o príncipe (neste caso Alexandre, o Grande, que recebeu instruções de seu professor Aristóteles) para não fazer nada sem seguir o conselho de um astrólogo, sempre que possível. Esta passagem não apenas atesta à presença da ideia na literatura de aconselhamento medieval tardia. Isso nos lembra, além disso – que esse conhecimento não foi apenas incorporado explicitamente por escritos astrológicos – por exemplo, cerca de 20% da biblioteca de Rei Carlos V da França – mas também estava embutido em obras mais difundidas e, à primeira vista, imperceptíveis

Claro, astrólogos (que, como vimos, muitas vezes eram médicos em atividade) não foram os únicos conselheiros dos príncipes: na verdade, as críticas às vezes fervorosas e o ridículo que eles encontraram expressa a competição pelos ouvidos dos príncipes, e o ‘mercado urbano’ provavelmente viu rivalidades iguais. Embora alguma inimizade clerical pode ser explicada pelas preocupações científicas e religiosas, pelo menos parte dela resultou da preocupação dos autores em manter seus papéis como conselheiros de autoridades. Outros grupos de conselheiros – nobres, mas também profissionais como advogados – podem igualmente ter ficado ressentidos com a ascensão dos astrólogos a partir do século XIII, mas deixaram menos vestígios de suas preocupações. Enquanto o quadro geral permanecer incompleto, não apenas devido à ambivalência de sua origem, mas também em razão da negligência duradoura na questão da pesquisa moderna, podemos assumir que os astrólogos desempenharam um papel importante na cultura medieval tardia em geral como conselheiros em contextos judiciais em particular.

III – Fazendo a pergunta óbvia: E quanto às previsões que falharam?

Reconhecer a importância dos astrólogos nos ajuda consideravelmente a compreender melhor seu papel na cultura medieval (e de modo geral pré-moderna), mas também levanta numerosas perguntas. Neste breve artigo, vou limitar minha discussão a uma das perguntas mais frequentes – uma pergunta que pode parecer bastante óbvia, mas que pode realmente servir como um excelente exemplo para ilustrar como as investigações sobre esse fenômeno moderno que ressoa e podem ser iluminado mutuamente: E quanto ao fracasso? Embora a crença na astrologia ou no caráter científico da astrologia esteja de fato ainda difundido nas sociedades ocidentais contemporâneas,39 o pensamento moderno “racional” assume que a astrologia não funciona porque não pode (na ausência de efeitos causais das estrelas sobre a Terra). As previsões dos astrólogos estão, portanto, fadadas ao fracasso. Embora a posição “padrão” moderna possa merecer alguma qualificação, na medida em que questões,40 vamos supor que é (e era) de fato impossível desenhar conclusões significativas sobre os eventos na Terra a partir da observação das estrelas. Como consequência, os clientes dos astrólogos deveriam ficar constantemente desapontados, e em face disso, temos que explicar essa confiança contínua na perícia astrológica. Com base nesta questão fundamental, podemos fazer uma série de importantes observações.

39 Nick ALLUM, What Makes Some People Think Astrology Is Scientific?, in: Science Communication 33(3) (2011).
40 PAUL FEYERABEND, Science in a Free Society, London 1978, (“The Strange Case of Astrology”).

Em primeiro lugar, as evidências do fracasso são muito menos abundantes do que se poderia pensar.

Claro, podemos encontrar uma série de passagens principalmente anedóticas em crônicas e textos literários, onde autores críticos se entregam a descrições zombeteiras do fracasso dos astrólogos. Por isso, é com certo deleite que Rolandino de Pádua (†1276), um fervoroso adversário de Ezzelino da Romano, denigre este último como um nobre tirânico perto do imperador Frederico II e digno alvo de uma cruzada papal. De acordo com a Rolandino, Ezzelino consultou não apenas um, mas vários astrólogos antes de ir à guerra com Milão em 1259, a fim de escolher o momento certo para sua empreitada. O resultado da campanha – Ezzelino foi ferido e capturado, morrendo logo após a batalha – sublinha a posição crítica do autor em relação à astrologia. Numerosas outras anedotas tornaram os astrólogos alvo do ridículo. Além disso, alguns adversários das práticas astrológicas descrevem em detalhes a estratégia fraudulenta dos astrólogos antigos que costumavam convencer seu público e obter o favor de potencias clientes. Uma visão particularmente esclarecedora é fornecida por Nicole Oresme, que atuou na corte de Carlos V da França na segunda metade do século XIV. Oresme não apenas explicou, com base em argumentos religiosos e lógicos, por que previsões precisas e individuais sobre o comportamento humano não podiam ser feitas com base na observação astrológica, mas ele efetivamente identificou uma série de truques psicológicos aos quais os astrólogos recorriam. Estes incluíam prognósticos ambivalentes, que estavam abertos a reinterpretações posteriores, bem como ao uso de informações retiradas de fontes não astrológicas, a fim de formular previsões.43 Muito deste material é, no entanto, formulado a partir de uma posição explicitamente hostil e a sua análise deve ser realizada com cautela. Provas para a decepção de clientes que teriam reclamado sobre a falha de prognósticos ou perguntado por explanações, são muito mais escassas.

43 Stefano CAROTI, Nicole Oresme: Quaestio contra divinatores horoscopios, in: Archives d’histoire doctrinale et littéraire au Moyen Âge (1976).

Em segundo lugar, temos, portanto, de distinguir entre os casos em que podemos apenas presumir que os clientes dos astrólogos devem ter tomado ciência de uma ou mais falhas de predições e os outros casos em que essa falha foi realmente explicitada. Em relação à primeira categoria, Monica Azzolini forneceu material revelador em sua magistral análise sobre a confiança dos duques de Milão do século XV no aconselhamento astrológico. De particular interesse é o duque Ludovico “il Moro” (r. 1494-1499), que consultava seu astrólogo, Ambrogio Varesi da Rosate, com frequência. Parece que Ludovico frequentemente acatava aos conselhos de Ambrogio, por exemplo, sobre o momento propício para começar uma viagem, mesmo que isso significasse atrasar a partida e – como observadores zombeteiros comentaram – viajar finalmente sob condições climáticas adversas. Mas algumas das previsões de Ambrogio estavam claramente erradas: ele deu errado datas em suas previsões sobre a chegada dos enviados alemães em 1493 e sobre a morte do Papa Inocêncio VIII em 1492. Mas isso não desencorajou Ludovico de contar com seus conselhos, possivelmente porque o duque tolerava uma certa margem de erro.47 Na verdade, pode-se perguntar se o duque estava realmente ciente dessas falhas em tudo? Como a pesquisa sobre previsões modernas mostrou, seus consumidores geralmente não são muito interessados em avaliar sua validade em retrospecto.

47 For an analogous example concerning a prediction by Paul of Middelburg at the court of Urbino in 1482 see STEPHAN HEILEN, Astrology at the Court of Urbino Under Federico and Guidobaldo da Montefeltro, in: Jean-Patrice BOUDET / Martine OSTORERO / Agostino PARAVICINI BAGLIANI (eds.): De Frédéric II à Rodolphe II. Astrologie, divination et magie dans les cours (XIIIe-XVIIe siècle), Florence 2017.

Um extraordinário exemplo do segundo caso é fornecido pelo caso de “Doctor Erhard Storch”, um cônego da catedral de Chur (na Suíça) no final do século XV. Infelizmente, o material só é conhecido por nós por meio do ‘Diarium’ compilado por um padre contemporâneo e historiador em Basel, Johannes Knebel, mas há poucos motivos para questionar sua autenticidade. Storch é em vários aspectos uma figura interessante, até porque foi o único clérigo em todo o bispado de Chur que tinha doutorado em medicina – uma combinação interessante, uma vez que os clérigos eram geralmente proibidos de praticar a medicina. Ao mesmo tempo, sua educação pode explicar como ele adquiriu o conhecimento astrológico que demonstrou em 1477, quando ele redigiu um prognóstico (provavelmente o chamado ‘judicium anni‘) para o ano seguinte e publicou seu texto anexando-o à porta da catedral. Mas suas previsões não se concretizaram: entre outras coisas, ele havia anunciado a possível morte de – ou pelo menos grande perigo – para uma das “duas grandes luzes Romanas” (duo luminaria magna Romanorum), que só poderia ser entendida como uma alusão ao papa e ao imperador. Ambos sobreviveram ao ano crítico, no entanto, Johannes Hopper, o reitor da igreja catedral, pediu uma explicação – um curso de ação incomum. Storch respondeu com uma carta detalhada que Knebel copiou na sua totalidade. Em vez de apresentar desculpas para seu fracasso, o astrólogo deu uma explicação que equivalia ao princípio “entra lixo, sai lixo”: na ausência de informações exatas sobre o ascendente dos protagonistas, Storch afirmou, suas previsões continham necessariamente uma certa margem de erro, como era frequentemente o caso quando eram feitas perguntas aos astrólogos, pois não eram fornecidos dados suficientemente precisos.55 Mas mesmo apesar deste problema, como ele orgulhosamente sublinhou, algumas de suas previsões tinha de fato se tornado realidade, o que demonstrou o enorme valor e capacidade da ciência que ele praticava. Mais uma vez, esta observação coincide com o que nós sabemos sobre as reações dos especialistas modernos às críticas: eles tendem a insistir em seus validade, tentando reivindicar pelo menos um sucesso parcial, ao invés de admitir falhas que pode desafiar todo o seu modelo.

55 Johannes Knebel (note 50), vol. 2, p. 251: questioni vestre michi heri et nudiustercius proposite, videlicet cur astrologi tam sepe errare videntur, cum dicant rem aliquam tali tempore venturam, que tamen non evenire solet, satisfaciendo dico, quod hoc ideo accidit, quia gradum aliquando ascendentis precisum nativitatis vel intronizacionis ignorant. Cf. for an analogous argument John of Glogovia, Judicium anni 1476, in Munich, Bayerische Staatsbibliothek, Clm 647, fols. 21 r –43 v, here fol. 37 v: statum sanctissimi describere non possum, cum nec eius genitura nec sius intronisacio mihi cognita sit. See also Igor de Russia, Judicium anni 1478, in Munich, Bayerische Staatsbibliothek, Clm 647, fols. 102 r –126 r, here fol. 106 r: Quamquam de statu patris sanctissimi pontifici Sixti quarti judicare sit ambigium admodumque difficile cum sue sanctissime paternitatis nedum nativitas verum etiam intronizatio est incognita.

Finalmente, uma habilidade central de muitos astrólogos consistia em sua capacidade de manobrar nos baixios de expectativas divergentes, em parte apoiando-se nas estratégia que já foram mencionadas: seus clientes obviamente tinham um interesse em receber conselhos tão precisos, detalhados e concretos quanto possível, para agir e decidir de forma adequada. Essa expectativa foi um forte incentivo para astrólogos para fornecer informações adequadas, se quisessem reivindicar relevância. Ao mesmo tempo, no entanto, vários motivos os induziram a permanecer mais superficiais: de uma perspectiva pragmática – e a crítica de Oresme formulou explicitamente esta observação como uma reprovação – prognósticos gerais, ambivalentes ou mesmo obscuros eram mais fáceis de defender após o fato, uma vez que seu autor poderia alegar ter sido certo, seja qual for o resultado. Mas a auto-observação também era aconselhável ​​por outras razões. Um discurso proeminente entre os próprios astrólogos sublinhou as limitações de sua ciência: de acordo com o pseudo-Ptolomeu ‘Centiloquium’, os julgamentos astrológico devem sempre permanecer “universais” (isto é, geral), conselho que se tornou um ‘locus classicus’ na literatura pertinente.59 Além do raciocínio científico que estava por trás dessa ideia, a teologia cristã impôs outras limitações: se indicações individuais poderiam ser previstas, o que implicaria que elas foram predestinadas e que os indivíduos não tinham escolha em suas ações. Sem livre-arbítrio, no entanto, o dogma cristão sobre a culpa e o pecado, que se apoiava na atribuição de responsabilidade, seria profundamente desafiado. Se quisessem evitar conflitos com a igreja, os astrólogos eram assim bem aconselhados a limitar os seus prognósticos aos julgamentos gerais.

59 The Latin text is not yet available in a critical edition. For the relevant passage in Plato of Tivoli’s translation see Jean-Patrice BOUDET, Astrology between Rational Science and Divine Inspiration. The Pseudo-Ptolemy’s Centiloquium, in: Stefano RAPISARDA / Erik NIBLAEUS (eds.), Dialogues Among Books in Medieval Western Magic and Divination (Micrologus’ Library 65), Florence 2014: Astrologus non debet dicere rem specialiter sed universaliter.

Mas o enigma permaneceu, e os astrólogos frequentemente cediam à tentação para se tornarem mais precisos e específicos, pelo menos, a fim de destacar sua capacidade. John Ashenden, por exemplo, um astrólogo do século XIV em Oxford, referiu-se aos seus êxitos anteriores na sua volumosa ‘Summa judicialis de crashibus mundi’ (1347/48, retrabalhado c. 1365), onde ele orgulhosamente afirmou ter previsto corretamente a chegada da Peste Negra na Inglaterra como uma das terríveis consequências da conjunção de Saturno e Júpiter em 1345.61 Possivelmente estimulado por este conquista, Ashenden tornou-se bastante específico em um julgamento sobre a Grande Conjunção de Júpiter e Saturno em 1365, concluindo que o rei da Inglaterra receberia o reino da França. Imediatamente após a superação do enorme sucesso militar inglês contra os franceses em Poitiers (1356) e com Rei João II da França em cativeiro, muitos contemporâneos provavelmente não considerariam esta previsão improvável, mesmo que apenas parcialmente se concretizasse para Henrique V no início do século XV. De uma perspectiva estritamente sistemática, entretanto, formulou um resultado bastante específico, embora Ashenden se abstivesse de descrever ações individuais.

61 John Ashenden, Summa judicialis de accidentibus mundi, Venice 1489, fol. 192 v: Omnes autem isti effectus contigerunt ex illis coniunctionibus magnis predictis sicut ostendebatur in principio huius anni 1345 in his quæ scripsimus in pronosticationibus earumdem coniunctionum.

A fim de se defenderem contra a censura religiosa ou teológica, os astrólogos frequentemente se referem a outro fenômeno que também ajudou na defesa contra acusações de fracasso: especialmente em ‘judicium anni‘, uma espécie de “literatura cotidiana” neste campo, encontramos repetidamente a afirmação de que o autor fez o seu melhor para interpretar os sinais das estrelas de acordo com a tradição e as autoridades astrológicas. Apesar deste esforço, Deus obviamente, sempre pode escolher alterar a sequência de eventos. Este argumento, vem acompanhado da garantia de que nada herético foi pretendido e, na verdade, não abordou o problema do livre-arbítrio humano, mas garantiu o livre-arbítrio da onipotência de Deus. Ao mesmo tempo, forneceu uma defesa eficiente contra a acusação de fracasso – quem culparia o astrólogo se Deus decidisse intervir?

IV – Consequências? Medieval e moderno…

A vasta gama de implicações resultantes desta pequena amostra de observações não pode ser analisada em detalhes aqui, mas essa seleção já fornece material de informação que nos permite avaliar o potencial das abordagens comparativas para a perícia medieval e moderna. Para começar, pode-se sublinhar o que poderia ser chamado o ‘enigma da precisão‘: ao se tratar de previsões, que são inevitavelmente propensas a falharem à medida que os eventos se desenrolam, os diferentes atores sociais se comportam de acordo com interesses profundamente diferentes. Enquanto seus clientes pedem informações detalhadas e precisas, os especialistas têm interesse em deixar uma certa margem de interpretação a fim de poderem defender seus prognósticos mais tarde. Se eles querem permanecer atraentes para seus clientes ou público, no entanto, eles precisam pelo menos evocar a impressão de relevância, por exemplo, fornecendo detalhes e reivindicando um alto grau de certeza. Embora os especialistas modernos confiem principalmente na noção de probabilidade e capacidade de navegar entre indicações precisas e a tentativa de fornecer uma margem de erro, os astrólogos medievais tardios conseguiram um efeito comparável por (a) referir-se à capacidade de Deus de mudar o curso natural dos eventos, (b) pela qualidade deficiente dos dados que receberam para seus cálculos, e (c) pela natureza conjectural das previsões astrológicas (em oposição aos cálculos astronômicos nas quais foram baseados). Ao mesmo tempo, eles enfatizavam incessantemente o fato que praticavam uma ciência que costuma produzir resultados confiáveis. Embora suas técnicas sejam parcialmente diferentes, os especialistas modernos e medievais (principalmente) criam com sucesso a aparência de fornecer uma base segura para a tomada de decisões. Ambos também lucram com os efeitos subjacentes na cognição humana, uma vez que muitas vezes tendemos a atribuir um maior grau de certeza às informações do que seus auditores individuais realmente afirmam.

A crítica da astrologia da Idade Média tardia contém muitos temas que soam familiares quando considerados ao lado do discurso moderno sobre ‘especialistas’. Olhando desta prospectiva, investigações sobre a percepção dos astrólogos como ‘especialistas’ do final do período medieval mostra evidências para precedentes históricos de ‘insights’ sobre o funcionamento da mente do ser humano e sua nebulosa comunicação. Mas eles fazem mais do que isso: se os medievalistas querem entender os mecanismos em jogo nesses contextos de forma adequada, eles têm muito a aprender com as percepções fornecidas pelas Ciências Sociais. Seus resultados realmente nos forçam a reconhecer que o comportamento e as atitudes humanas tem muitas vezes características irracionais: para citar apenas um exemplo, os humanos são facilmente contrariados ao vincular a presença de supostos argumentos, mesmo que estes não se relacionem logicamente ao assunto em questão. Além disso, nossos pensamentos e conclusões são fortemente influenciados por entradas codificadas ou informações secundárias, incidentais e não relacionadas. Em suma, isso implica que nem todo comportamento aparentemente fraudulento é realmente fraudulento, uma vez que (no caso dos astrólogos) tanto os astrólogos quanto seus clientes podem estar igualmente convencidos de que estão empenhados em um esforço sério. Consequentemente, a confiança no aconselhamento astrológico não pode ser interpretada simplesmente como um sinal de superstição e credulidade ingênua; em vez disso, expressa o desejo de agir com base nas melhores informações disponíveis.

Enquanto essas observações modificam consideravelmente nossas ideias sobre um aspecto importante da cultura medieval tardia – defendo a existência de uma “cultura de especialização” neste período – elas também nos convidam a refletir novamente sobre nossas próprias práticas em relação a experiência dos ‘especialistas’. Como os eventos da crise financeira que se agravou em 2007 demonstraram, as informações de um importante grupo de experts era, para dizer o mínimo, de valor limitado. Além disso, muitos destes ‘especialistas’ não sofreram quaisquer consequências negativas sustentadas do seu fracasso – e neste ponto os fenômenos medievais e modernos começam a iluminar-se mutuamente: o fato de que o fracasso não faz uma diferença decisiva pode também ser parcialmente explicado com características que caracterizam o pensamento e a percepção humana, incluindo um certo preconceito de confirmação, a tendência para suprimir dados que entram em conflito com as nossas concepções básicas, e a falta de interesse em avaliar previsões passadas. Um olhar comparativo na experiência medieval e moderna em prognósticos pode nos fazer perceber que ambos confiam fortemente na crença, apesar de suas alegações de caráter científico, que são sublinhadas por sua base empírica, suas abordagens matemáticas e seus elaborados conjuntos de regras para interpretação. Neste sentido, a análise de um fenômeno medieval – por meio de teorias e ‘insights’ das modernas ciências sociais – permite-nos desenvolver novas perspectivas críticas sobre o nosso próprio mundo e o seu funcionamento e sobre a nossa própria descrição – embora errônea -, estabelecida como “racional”.  Parece-me que esta abertura de uma nova perspectiva sobre os fenômenos contemporâneos, que é com base na identificação de traços culturais comuns em um nível estrutural, apresenta um argumento claro para a relevância da pesquisa em estudos medievais.

Mas os ‘insights’ potenciais vão ainda mais longe, porque seria uma visão limitada simplesmente descartar os ‘especialistas’ por falhas e seus serviços como inúteis: mesmo que suas previsões se tornem inevitavelmente erradas, uma vez que o futuro é fundamentalmente imprevisível, eles ajudam muito o indivíduo a melhorar sua visão do respectivo presente, precisamente porque se esforçam para entregar um diagnóstico que seja tão completo quanto possível, a fim de traçar o panorama de desenvolvimentos futuros. Ao fazer isso e, além disso, de forma sistemática, informam seus leitores ou ouvintes sobre coisas que eles devem levar em consideração antes de inventar suas mentes. Este efeito se torna muito claro quando olhamos para os escritos sistemáticos de astrólogos da Idade Média tardia. Reconhecer isso ajuda muito a desenvolver uma nova perspectiva sobre a cultura medieval tardia, uma que é diferente da estabelecida ‘narrativa de superstição’. Ao mesmo tempo, esse ‘insight’, que pode ser formulado em um caminho claro para este período distante, pode abrir nossos olhos para os efeitos que atuam nos dias atuais: aceitando as previsões de valores de ‘especialistas’ financeiros ou econômicos a um ato de crença. Além disso, a configuração do terreno que desenvolvem para produzir uma base para o prognóstico ainda pode fornecer uma visão geral valiosa e importante perspectiva. Então, no final, analisando as características de uma cultura especialista que está distante no tempo realmente nos ajuda a entender melhor o nosso presente de uma forma muito concreta.

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