Traduções

John Varley e a “Sociedade Antiga”

Adrian Bury

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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John Varley: O Astrólogo

Todos os artistas devem ser videntes de algum tipo. Ao olhar para os mistérios da forma e da cor, da luz e da sombra, ao estudar o milagre da natureza, suas mentes são atraídas para as coisas ocultas. Os nossos melhores paisagistas, no sentido poético de um Turner ou Constable, desenvolvem e estimulam uma percepção além da experiência normal. Sem que esta experiência dependa necessariamente de qualquer crença religiosa. Em alguns casos, como no caso de Blake e Linnell, uma atitude profundamente cristã ainda pode ajudar a estimular suas faculdades em uma determinada direção. Embora Varley tivesse aquelas virtudes que contribuem para uma conduta cristã, ele foi um agnóstico. Ele não tinha crenças, mas uma grande reverência na presença da natureza como uma manifestação de algum poder inescrutável. Varley, desenvolveu gosto pela ciência e pela invenção e adotou a visão de que tudo poderia ser explicado em última instância por uma investigação enérgica e sincera. Devemos lembrar que um gênio da ciência foi declarado na família Varley. Seu pai e tio, Richard e Samuel Varley, tinham mentalidade científica. Seu irmão Cornelius foi um cientista ilustre e esse talento persistiu por todas as gerações posteriores dos Varleys.

John Varley acreditava que a astrologia era um veículo para adquirir maior conhecimento, e ele a estudou com tanto entusiasmo quanto se dedicou à pintura em aquarela. Ele foi bastante convencido da influência das estrelas sobre os seres humanos e, aonde quer que fosse, em qualquer mesa em que se sentasse como convidado, não demorava muito para começar a falar sobre astrologia. Seus bolsos estavam sempre abarrotados de velhos almanaques para que prontamente fizesse o horóscopo para um amigo ou aluno, desde que soubesse a hora exata, a data e o local de nascimento. A adivinhação por um personagem tão fascinante devia ser irresistível para as mulheres e, embora a declaração de Gilchrist de que Varley tinha o hábito de receber honorários como adivinho profissional tenha sido desmentida por autoridades posteriores, ainda podemos imaginar como sua paixão em olhar para o futuro não foi desvantajosa, sendo ele um mestre do desenho. Os Srs. Redgrave afirmam que “Varley era astuto o suficiente para ver e franco o suficiente para reconhecer que sua astrologia era uma das causas de sua popularidade”. “As senhoras vinham até ele para fazerem aulas de desenho”, disse, “e para que pudessem lançar a sua carta natal”.

Esse interesse pelas coisas ocultas, bem como pela arte, trouxe-lhe uma amizade duradoura com William Blake. Quando por volta do ano de 1818 John Linnell apresentou Varley a Blake, essa amizade perdurou até a morte de Blake em 1827.

Tal companhia por si só dispensa toda e qualquer sugestão de que Varley fosse apenas um oportunista em assuntos ocultos. Em 1818, o poeta-pintor morava em South Molton Street, não muito longe de Varley, na Great Titchfield Street. Foi nesta última residência que Blake, em 1820, desenhou os Visionary Heads de personagens famosos e infames. Ouvindo as histórias das aparições de Blake, Varley o incentivou a fazer os esboços delas.

Gilchrist relata que:

“As faculdades visionárias de Blake estavam tão sob controle que, a pedido de um amigo, ele podia invocar diante de seu olhar abstraído qualquer uma das formas e rostos familiares que lhe era pedido. Isso foi durante as horas favoráveis ​​e adequadas da noite; de nove às dez da noite até uma ou duas, ou talvez três ou quatro da manhã; Varley sentado, às vezes cochilava, às vezes acordava. Varley dizia: ‘Desenhe-me Moisés’, ou ‘David’; ou pedia um semelhante a Júlio César, ou Cassibellaunus, ou Eduardo III, ou algum outro grande personagem histórico. Blake respondia: ‘Lá está ele!’ e tomando o papel e o lápis à mão, ele começava a desenhar com a maior vivacidade, como se tivesse um modelo de verdade diante dele.”

John Linnell também tinha muito interesse nesses casos estranhos, e se alguém pudesse estar presente nessas sessões, ficaria impressionado diante destas três personalidades diferentemente inspiradas, unidas, no entanto, pelo amor a arte, a natureza e a verdade, tentando sinceramente sondar o mistério da vida e da morte. Blake com sua testa enorme e olhos brilhantes; Varley, de forma desajeitada, um falador animado e eloquente; Linnell, muito inteligente, criativo e respeitoso, acrescentava aqui e ali um alinhamento à discussão, “abstenho-me de contradizer as histórias de Blake sobre suas visões etc., mas tento torná-las racionais”.

As visões de Blake vinham ao seu chamado. Se o fantasma desaparecesse antes que o esboço fosse concluído, Blake diria: “Não posso continuar – ele se foi”; “Devo esperar até que volte” ou “ele se moveu – a boca se foi”; ou “ele franziu a testa; ele está descontente com meu retrato dele”.

Quando Linnell se mudou para a Fazenda Collins, Hampstead, os três artistas passaram a se encontrar lá, e um quarto teve admitida sua amizade durante o último ano de vida de Blake. Ele era o jovem Samuel Palmer, e A. H. Palmer, seu filho, deixou este registro encantador das visitas de seu pai com Blake à Fazenda de Collins. Samuel Palmer morava em Broad Street, Bloomsbury, na época.

“Felizmente para meu pai”, escreve A.H. Palmer, “Broad Street ficava no caminho de Blake para Hampstead, e eles costumavam ir juntos até a vila. O idoso compositor de Somgs of Innocence era um grande favorito das crianças, que se divertiam com aqueles poemas das coisas e seres espirituais adoráveis ​​que lhe pareciam tão reais e próximos. Portanto, quando os dois amigos chegaram à fazenda, uma alegre tropa saiu ao seu encontro liderada por uma garotinha de cabelos louros de uns seis anos de idade. Até hoje ela se lembra das noites frias de inverno, quando Blake ficava embrulhado em um velho xale que a Sra. Linnell e partia para casa, com o criado de lanterna na mão, iluminando-o através da charneca até a estrada principal.”

O que devemos fazer com essas cabeças visionárias? Elas certamente têm um senso de caráter, individual e coletivamente. Na verdade, como disseram os críticos contemporâneos, eles são típicos da mão e da mente de Blake, conforme visto em sua outra obra. Mas para os céticos, Blake apenas respondia: “Deve estar certo: eu vi assim”. Basta dizer que em Linnell e Varley, Blake teve uma audiência simpática e encorajadora. A explicação de Blake de seus poderes visionários foi que eles eram apenas um grau mais fortes do que aqueles possuídos por todos os homens. Ele havia exercitado e mantido o seu, enquanto outros homens haviam perdido o deles em um “amor por atividades sórdidas, orgulho, vaidade e a injustiça de Mammom”.

Varley, pronto para acreditar em qualquer coisa comumente considerada impossível, seguiu o humor de Blake. Ele não podia ver as visões por si mesmo, mas olhava melancolicamente para o espaço e fazia anotações das pessoas delineadas e os tempos de suas aparições conforme Blake ditava. Por exemplo, ‘Wat Tyler de Blake, a partir de seu espectro, em ato de agressão ao cobrador de impostos, desenhado em 30 de outubro de 1819, 1 h. da manhã’. Em outro desenho, ele inscreveu, ‘O Homem que Construiu as Pirâmides, 18 de outubro de 1819, quinze graus de Câncer no ascendente’. Há no Visionary Head um ‘Ricardo Coração de Leão, extraído de seu espectro -W. Blake, 14 de outubro de 1819, meia-noite e quinze, meia-noite’. Alguns dos retratos são apresentações diretas do rosto natural, outros têm um atributo simbólico. Aquela de Edward III mostra o crânio do monarca inchado em proporções imensas, embora o resto das características sejam naturalistas. Esse exagero sugeria a atitude tirânica do rei. O mais curioso de todas as visões é a conhecida Ghost of a Flea, ou O Fantasma de uma Pulga. A ideia de Blake em relação a este desenho fantástico é a seguinte:

“O espírito visitou a sua (Blake) imaginação numa figura como ele nunca previu num inseto. Como estava ansioso por fazer a investigação mais correta ao meu alcance, da verdade destas visões, ao ouvir esta aparição espiritual de uma pulga, perguntei-lhe se podia desenhar para mim a semelhança do que viu: ele imediatamente disse: “Vejo-o agora diante de mim”. Dei-lhe, portanto, papel e um lápis, com os quais ele desenhou o retrato. Senti-me convencido, pelo seu modo de proceder, de que ele tinha uma imagem real diante de si; pois ele parou, e começou noutra parte do papel, a fazer um desenho separado da boca da pulga, que o espírito tinha aberto, foi impedido de prosseguir com o primeiro esboço até que ele o fechasse. Durante o tempo ocupado a completar o desenho, a pulga disse-lhe que todas as pulgas eram habitadas pelas almas dos homens que por natureza tinham sede de sangue em excesso, e por isso estavam providencialmente confinadas ao tamanho e forma dos insetos; caso contrário, se ele próprio, por exemplo, tivesse o tamanho de um cavalo, despovoaria uma grande parte do país. Acrescentou que, se ao tentar saltar de uma ilha para outra, caísse no mar, poderia nadar, e não se perderia. Posteriormente, esse espírito apareceu a Blake e permitiu-lhe ver toda a sua figura.”

Esses desenhos impressionavam Varley profundamente. Os dois homens, embora diferissem enormemente em sua arte, tinham muito em comum. Mas Varley não conseguiu convencer Blake sobre astrologia. Nem o poeta, pintor mostrou qualquer gosto por ela. “Vossas afortunadas natividades”, dizia ele, “são os piores. Você considera ter nascido em agosto, e ter a atenção e o patrocínio dos reis, ser o melhor de todos; ao passo que a vida dos apóstolos e mártires, dos quais dizem que o mundo não era digno, é considerada por você como a pior, e suas natividades, são de homens a serem enforcados”. Aqui, a ciência obviamente entrou em conflito com a religião. The Visionary Heads, no entanto, deve ter estimulado as pesquisas de Varley no ocultismo, e ele começou a escrever aquele estranho livro, A Treatise on Zodiacal Physiognomy, que foi publicado em 1828 e que continha, com certos desenhos fisionômicos de Linnell, o esboço de Blake do fantasma de uma pulga. Varley também induziu Linnell, um artista artístico muito melhor do que ele, a fazer cópias coloridas dele e cópias semelhantes de Wallace e Edward I.

Antes de considerar o Tratado de Varley, não é sem interesse lembrar que as ciências da astrologia e da fisiognomia estão relacionadas. Como todos sabem, o costume da profecia pelas estrelas data da antiguidade remota. Apesar do uso dela para personagens reais e grandes ocasiões nos tempos antigos, a história da Estrela de Belém é, naturalmente, a mais comovente nas Sagradas Escrituras. Varley acreditava enfaticamente que a astrologia poderia ser usada como uma chave para o futuro, e que a carreira de cada indivíduo e até mesmo sua aparência poderiam ser contabilizadas numa combinação dos planetas com os signos do zodíaco no momento do nascimento da pessoa. Famoso como mestre de desenho, ele se tornou igualmente famoso por fazer horóscopos. Visto que os corpos celestes, na visão de Varley, tinham tal influência na ação humana, era lógico supor que a aparência física fosse igualmente afetada pelos poderes estelares. Esses dois departamentos de investigação realmente andaram de mãos dadas ao longo dos tempos. Os escritores clássicos referem-se ao método fisiognômico de adivinhação do caráter. Descobrimos que Aristóteles foi o primeiro escritor a publicar um tratado no qual vários capítulos são devotados a essa teoria.

Tais ideias especulativas, na medida em que são utilizadas para ganhar dinheiro explorando a credulidade incurável de homens e mulheres, dão origem a abusos, e talvez seja por isso que a fisiognomia e a astrologia caíram em descrédito na Idade Média e em tempos posteriores. Era muito frequentemente empregado como meio de adivinhação e para criar problemas políticos e dinásticos, e leis eram aprovadas para punir o adivinho, notadamente o Ato 39 de Elizabeth c.4. (1597-1598) que ‘declarou’: “toda a pessoa que buscar a adivinhação através do conhecimento da Phisognomie ou ‘Fantasticall Ymaginations’ estará passível a ser despida da cintura para cima e francamente chicoteada até que seu corpo esteja ensanguentado”.

Isso foi modificado no 13 Anne c. 26 (1713), e um pouco mais no 17 George II c. 5, que foi repromulgado pelo Vagrancy Act 1824. Este último ato especifica apenas quiromancia.

Varley não se deixava intimidar por alguma possível intervenção legal ou pelo ridículo do incrédulo. Ele argumentava, demonstrava, provava seus horóscopos e tentava convencer a todos que o ouvissem. Sabemos, pelas palavras de Linnell, que ele era “terrivelmente assertivo, derrubando tudo diante dele pela mera força da loquacidade”.

Era hábito fixo de Varley todas as manhãs de sua vida, depois de se levantar da cama, calcular os trânsitos e as posições do dia, conhecidos pelos astrólogos profissionais como “direções secundárias e trânsitos“. Dessa forma, ele saberia o que aconteceria a ele dia após dia.

A pergunta óbvia a fazer é até que ponto as profecias de Varley se tornaram realidade e aqui temos que admitir que não era raro o artista obter sucesso.

Todas as primeiras autoridades em Varley dão exemplos de profecias que foram verificadas por eventos, mas o relato mais completo das melhores histórias foi publicado na Occult Review, pois sob o título de Algumas Predições Astrológicas do falecido John Varley, por seu neto, John Varley, apresentado por A.P. Sinnett, lemos que o narrador coletou essas histórias de seu pai, Albert Fleetwood Varley (1804-1876) filho do John Varley.

Como será lembrado no capítulo biográfico, os Varleys e os Mulreadys estiveram associados no casamento de Elizabeth Varley com William Mulready.

John Varley Junior, escreve:

“Meu pai, Albert Varley, havia sido nomeado executor de Paul Mulready, o filho mais velho de William Mulready, R.A., e que morreu por volta do ano de 1864. Ele estava examinando papéis e correspondência quando encontrou a seguinte carta. – Aconteceu-me de estar presente e me foi entregue para ler. Consistia em apenas algumas linhas e foi escrito a Paul Mulready por sua mãe. Acho que essas foram as palavras exatas: ‘Meu querido Paul, você agora tem sessenta anos, lembre-se do que seu tio John Varley disse sobre este ano: “Não jogue boxe nem jogue críquete, pois pode se machucar no joelho, o que seria fatal. Se sobreviver a este ano, provavelmente viverá vários anos a mais em circunstâncias confortáveis’.

“Paul Mulready não lutava boxe nem jogava críquete, mas uma tarde ele foi com um amigo ao Kennington Oval para assistir a um treino de críquete. Enquanto conversava com esse amigo, e no momento em que sua atenção foi desviada do jogo, uma bola dirigida de uma distância considerável, atingiu-o no joelho. A lesão, creio eu, não foi muito grave, mas ouvi dizer que o tratamento médico foi muito errado. Lembro-me dele sendo levado em uma cadeira de banho por seu criado, e fez várias visitas a ele em sua casa em South Kensington. Ele estava alegre e acho que naquela época não sofreu muitas dores. Ele era, no entanto, incapaz de andar ou ficar de pé. Mais tarde, ocorreu um inchaço branco e uma operação foi necessária – sua perna foi amputada pelo conhecido cirurgião Holmes Coote. Dois ou três dias depois ele morreu – creio que devido ao choque no sistema; mas, sem este acidente, é muito provável que ele tivesse vivido muitos anos, pois era um homem de grande força física e uma constituição maravilhosa. Seu pai, um Acadêmico Real, morrera algum tempo antes e deixara-lhe uma considerável soma de dinheiro, de modo que, neste particular, a previsão parecia provável de se cumprir.”

Eu encontrei a carta original que está em posse da Sra. Guy Wyndham, uma dos descendentes de Mulready, e a cito aqui com a gentil permissão do proprietário:

11 FITZROY STREET,
FITZROY SQUARE.

Com o pé na cova e os olhos em um mundo melhor, dirijo-me agora a você para lembrá-lo do que seu tio disse sobre seu futuro, em seu sexagésimo ano você sofreria com os médicos e seus assistentes rufiões. Isso eu acho que já passou. Você teve uma febre cerebral por causa do calor intenso e circunstâncias desagradáveis ​​e foi confundido com insanidade. Nesse período, ele disse que você deve tomar cuidado com os advogados patifes que o espoliam e depois o declarem insano e, acima de tudo, você deve evitar jogar críquete ou boxe, pois é provável que receba uma bola ou um golpe que pode ser fatal e isso da mão de um amigo ou quase aliado a você. Agora eu imploro que você evite o boxe até mesmo no esporte. Se você superar os próximos seis meses, poderá ter vinte anos felizes. Seria uma coisa cruel, depois de uma vida de problemas, morrer quando uma perspectiva de conforto está diante de você.

DEUS TE ABENÇOE E FAÇA PROSPERAR, MEU QUERIDO MENINO.
19 DE ABRIL DE 1864.

Albert Varley sempre disse que Paul Mulready nasceu na casa de John Varley e que o horóscopo foi feito na hora do nascimento da criança.

O fato não menos notável sobre a estranha vida de John Varley é que em várias ocasiões ele foi ameaçado de fogo e em três ocasiões foi atacado por touros.

Ele havia comprado ou alugado um hotel, que usava em parte como residência de sua grande família e em parte como estúdio e galeria para suas fotos.

Ele tinha … o hábito de consultar seu próprio horóscopo todas as manhãs e trazer instruções, etc., até o momento. Em uma determinada manhã, meu pai relatou, ele estava evidentemente pouco à vontade e com a mente perturbada e, embora tivesse um encontro marcado, ele não saiu e, por volta das onze da manhã, deu seu relógio a meu pai, dizendo-lhe para tomar para um relojoeiro em Regent Street e defini-lo para o horário de Greenwich. Quando ele voltou com o relógio, meu avô ainda estava subindo e descendo do próprio estúdio, um procedimento que impressionou meu pai como muito incomum, pois meu avô realmente se ressentia a cada minuto que passava longe de seu cavalete. Por fim, ele comentou: “O que será?” e explicou que havia alguns aspectos malignos em seu horóscopo que entrariam em operação alguns minutos para as 12 horas daquele dia. Ele estava tão certo dos efeitos nefastos que não quis sair, temendo algum acidente de rua. Ele disse: “Posso ser atropelado ou uma lousa pode cair na minha cabeça”; que ele não tinha certeza se sua vida ou sua propriedade estavam ameaçadas, mas ele viu que no futuro isso seria repentino. A dificuldade surgiu do fato de que os efeitos do planeta Urano ainda não foram compreendidos pelos astrólogos, e sua agitação aumentou com a aproximação do tempo … Sentando-se, ele disse duas ou três vezes: “Eu me sinto muito bem – não há nada de errado comigo. Eu não vou ter um ataque ou qualquer coisa do tipo”. Em seguida, levantando-se de seu assento, aproximou-se de meu pai, dizendo: “O que será? O tempo passou. Será que eu cometi algum erro em meus cálculos?” Ele pegou um papel e um lápis para examinar as figuras novamente – então, ouviu-se um grito de fogo vindo da rua. Ele rapidamente fez uma anotação em seu livro astrológico quanto aos efeitos de Urano. A casa foi incendiada, todas as suas propriedades foram destruídas.

Alfred T. Story situa esse acidente em Bayswater Hill, mas é mais provável que tenha ocorrido na Titchfield Street 10, onde, de acordo com os Elme’s Annals of the Fine Arts (1817), Varley construiu uma galeria para a exibição de suas obras. A data do incêndio, conforme fornecida por Roget, foi 25 de junho de 1825, e teve origem na fábrica de piano forte de Stoddart nas proximidades. Varley não se perturbou com a calamidade, embora tenha perdido tudo e não tivesse seguro. Na verdade, ele estava bastante satisfeito por ter provado as potencialidades malignas do novo planeta. Para Fielding, que lhe deu os pêsames ao ouvir a notícia e perguntou se o assunto era sério, Varley respondeu: “Não, apenas a casa pegou fogo; eu sabia que algo iria acontecer”. Cinco anos depois, em maio de 1830, um incêndio na loja de um fabricante de molduras envolveu a Rua Titchfield em outro desastre, e Varley mudou-se primeiro para uma casa em Porchester Terrace, onde Linnell havia residido, e daí para 3 Elkin’s Row, Bayswater.

Quem quer que esteja inclinado a duvidar dos poderes de John Varley de prever o futuro, seu filho Albert tinha vários motivos para estar convencido de sua certeza.

Um comprador selecionou em seu estúdio dois desenhos importantes. No dia seguinte, tendo-os embalado com cuidado, colocou-os num portfólio. Os desenhos seriam entregues por Albert ao comprador, que aparentemente morava na vizinhança. Ao chegar na casa, Albert, na presença do comprador dos desenhos, abriu o portfólio e, para sua consternação, constatou que os desenhos haviam desaparecido. Não havia nada de misterioso nisso. A pasta provavelmente estava presa na parte superior, e não nas laterais: qualquer pessoa que a carregasse debaixo do braço poderia facilmente deixar de notar o pacote escorregando por trás. Albert estava apavorado, e nem um pouco ansioso para voltar para casa, sabendo que sua falta de cuidados poderia ter consequências extremamente desagradáveis. Posteriormente, ele disse, que muitas vezes olhou para trás, e que naquele momento de ansiedade e apreensão, viveu uma experiência muito desagradável. Por fim foi preciso seguir em frente e, ao chegar no ateliê, foi perguntado se havia entregue os desenhos. Ele começou a gaguejar alguma coisa, quando foi interrompido. “Não, você não os entregou. Eu estava olhando para o meu mapa do dia, depois que você partiu, e vi que deveria perdê-los. Eu nunca os verei novamente“. “Não foi sua culpa”, disse ele, “mas minha” – e o incidente terminou para o alívio de Albert.

Embora Varley declare em seu livro que, apesar da influência das estrelas o livre arbítrio se mantem, ele não parece ter sido capaz de exercer esse livre arbítrio por si mesmo, embora tenha tentado fazê-lo.

Ele estava visitando uma conhecida mansão de campo e notando em seu horóscopo que em um determinado dia poderia sofrer um ferimento na perna e permaneceu em seu quarto até o anoitecer. Ao cair da noite, ele decidiu que se vestiria para o jantar. Ouvindo como esperava o criado do lado de fora, e prestes a pedir que trouxessem água quente quando, ao abrir a porta, tropeçou em uma lata de água e feriu gravemente a canela.

Um estranho acidente que talvez pudesse ter sido fatal se abateu sobre o próprio Albert Varley. Ele estava jantando com um médico conhecido. Quando estava saindo da casa, o médico recomendou: “Você está com uma gripe forte; eu vou te dar algo que vai aliviar isso”.

No caminho para casa, ele passou por uma farmácia. O homem estava acabando de fechar, mas disse que faria a receita … Como houve alguma dificuldade em achar e escrever um rótulo, Albert Varley disse: “Eu sei o que é, remédio para resfriado. Esqueça o rótulo!” Ao ir para a cama, ele despejou o conteúdo da garrafa em um copo e bebeu. Ele se lembrava de ter cambaleado para a cama e só ficou consciente por volta do meio-dia do dia seguinte, descobrindo-se completamente desamparado. Ele era na época um solteiro que vivia em quartos … fazia muito tempo que não via o pai. Grande, portanto, foi seu espanto quando de repente apareceu com sinais evidentes de ter feito uma viagem apressada. Ao perguntar sobre sua saúde, ele disse: “Eu estava olhando seu horóscopo e encontrei direções que apontavam para sua morte, ou um perigo muito grande hoje, e vim imediatamente para ver o que havia acontecido!” Quando soube do ocorrido, ele mandou buscar comida e administrou estimulantes, e obteve conselho médico o mais rápido possível.

O médico ao ler a receita disse: “Você devia estar morto horas atrás – você tomou cerca de vinte doses em uma”. Uma constituição naturalmente excelente e sua força e juventude o ajudaram, embora ele tivesse uma doença grave … Foi somente com a chegada de meu avô (John Varley) no momento crítico que sua vida foi salva.

Aqui está outro exemplo da clarividência de John Varley. Fazendo um passeio no rio com um grupo de amigos, a artista comentou:

“Não devemos nos separar antes de testemunharmos algo terrível!” Pouco depois, quando estava perto de uma ponte onde estavam sendo feitos alguns reparos, o peso de uma máquina de empilhar se desprendeu e, caindo sobre um dos homens, ele foi morto à vista de todos eles, de uma maneira terrível.

As revelações anteriores são especialmente autenticadas como chegando até nós de Albert Varley, por meio de seu filho. Mas existem outros. No Burlington Fine Arts Catalog, 1871, lemos a seguinte anedota:

Visitando certo dia um conhecido negociante de quadros, ele (Varley) procurou se desfazer de alguns de seus desenhos, que trouxera em portfólio. O negociante recusou, mas apenas para ser repetidamente instado: por fim Varley exclamou: “Vou vender antes de deixar sua casa”, mencionando como base para sua afirmação alguma relação particular que existia entre o planeta sob o qual ele nasceu com um dos outros luminares celestes. O negociante o convidou para o chá, ainda se recusando a comprar; mas quando Varley estava a ponto de sair da casa, um amigo do negociante entrou e, ao ser apresentado ao artista, comprou ali mesmo seus quadros. “Ah”, disse Varley, “eu disse que deveria vender antes de sair de sua casa”.

Algumas das profecias do artista eram tão verdadeiras que às vezes fizeram com que Varley fosse temido. Conta-se uma história que, quando James Ward, o pintor de animais, descobriu que as natividades de seus próprios filhos estavam se revelando certas, ele mandou destruir os horóscopos de Varley como uma prevenção perversa da vontade de Deus e, como tal, essencialmente malignos em si mesmos.

Outro amigo em quem Varley usou sua habilidade foi William Collins. A apreensão foi causada quando foi divulgado que Varley havia profetizado anteriormente o próprio dia em que Collins morreria. O gravador, Scriven, admitiu que certos fatos, conhecidos apenas por ele, foram “adivinhados” por Varlery.

Uma revelação surpreendente diz respeito a uma garota de dezesseis anos. Fazendo seu horóscopo, ele a informou que ela se casaria dentro de alguns anos e teria um filho. Prosseguindo com seu futuro, Varley ficou surpreso ao ler nas estrelas que haveria um segundo casamento antes da morte do primeiro marido. “Ora! O que é isso?”, exclamou. “Tem alguma coisa errada aqui”, mas não disse à menina o que era. Sua vida corria de acordo com o horóscopo. Ela se casou primeiro com um clérigo. Ele a abandonou, e ela não teve notícias dele por cerca de doze anos. Chegou então uma carta da Austrália contendo um saque de dinheiro com o qual a esposa foi instruída a mobiliar uma casa. O clérigo havia se tornado garimpeiro de ouro, fizera fortuna e logo voltaria para casa. Ele não voltou e, depois de mais um lapso de tempo, sabe-se que seu marido estava morto, a “viúva” se casou novamente. No entanto, chegarou a notícia de que o primeiro marido não havia morrido e ainda vivia na Austrália.

Outra dessas “verdades” estranhas é a contada por William Vokins, o negociante, que estava frequentemente em contato com Varley e que abrigou o artista durante seus últimos dias. Varley estava presente na casa de Vokins quando a Sra. Vokins deu à luz um filha. O adivinho artista imediatamente fez o horóscopo da criança e, entregando-o a Vokins, disse: “Cuidado com a criança quando ela tiver quatro anos de idade. Nessa época, ela estará em perigo de sofrer um grave acidente com fogo”. Se os pais poderiam ou não ter salvo a criança desse acidente se tivessem se lembrado da previsão de Varley, quem pode dizer, mas eles se esqueceram do aviso. Aconteceu que a menina, mais ou menos no tempo indicado, foi tão gravemente escaldada que quase perdeu a vida. Como resultado dessa fatalidade, ela ficou cega e surda por vários anos, mas acabou recuperando a visão e a audição parcialmente.

Há uma profecia divertida e verdadeira sobre John Sell Cotman. Em 10 de julho de 1822, Cotman escreveu a Dawson Turner como se segue:

“‘Tive uma recaída violenta com cada sintoma levado ao seu ápice. O sonho de Clarence não foi mais miserável do que minha noite de delírio’. Seu colapso severo durou vários meses quando aconteceu que John Varley veio a Yarmouth para ficar com os Dawson Turners. Ele visitou Cotman e, a princípio, foi recusada a admissão em seu quarto pela empregada, que disse que seu mestre havia recebido os médicos. No entanto, Varley insistiu, e ao entrar na sala viu de relance que seu velho amigo estava sofrendo de depressão mental e não de qualquer doença física. Disse-lhe: ‘Ora, Cotman, você não é tal um tolo a ponto de pensar que você vai morrer! Impossível! Isso não existe! Eu lhe digo que ainda faltam vinte anos para você viver’. A profecia de Varley, baseada, como ele afirmava, em seu conhecimento astrológico, chegou muito perto da verdade, pois Cotman viveu dezenove anos e nove meses depois que a previsão foi feita”.

Nem todo mundo, é claro, estava convencido do dom astrológico de Varley. O Duque de Sussex, presidente da Royal Society, costumava ridicularizar as previsões do artista. “Será que as estrelas podem explicar“, perguntou ele, ”alguns calos nos dedos dos pés?” E o reverendo William Harness declarou que, no que lhe dizia respeito, as previsões de Varley estavam totalmente erradas.

Elizabeth Turner, depois Lady Palgrave, refere-se às crenças do artista-astrólogo na segunda parte de sua carta datada de 5 de outubro de 1822.

“… Eu, no entanto, ainda não mencionei a parte mais estranha do caráter do Sr. Varley, e aquilo que faz com que meros observadores casuais o considerem louco. Com toda sua nobreza de espírito, ele reúne uma simplicidade mais do que infantil, e acredita inteiramente na astrologia, quiromancia, no surgimento de fantasmas e na visão de aparições … e esta parte de seu caráter fica aberta à primeira vista, pois ele se lança imediatamente à astrologia, e não fica feliz até que ele realize sua natividade, mas ele é bastante sensato mentalmente até mesmo neste tópico insano … O Sr. Varley ama e se sobressai em sua conversação, que ele ilustra por meio de comparações práticas e bonitas. Embora muito rápido, ele é sempre inteligível; e por mais assediado, sempre imperturbável de temperamento e inquebrantável de espírito …”.

Gilchrist, em sua Vida de Blake, afirma que ”Varley não era erudito ou profundamente enraizado ou mesmo muito original em sua astrologia, que ele aprendeu de segunda mão”, mas Gilchrist era competente para julgar? O falecido Stanley Redgrove, um especialista nesses assuntos, escreveu na Occult Review: “Se a astrologia é uma ciência verdadeira ou não, é claro, que isso pode ser questionado; mas – além de qualquer disputa Varley foi um mestre nisso”.

Uma vez que a previsão sobre Paul Mulready foi lançada em 1803, com Varley naquela data com 25 anos, isso indica que ele havia começado seus estudos astrológicos cedo na vida. Vinte e cinco anos depois, nós o encontramos visitando John Linnell com um horóscopo oportuno. Há uma carta de Linnell para seu sogro, Samuel Palmer, datada de 23 de novembro de 1838.

Eu vi o Sr. Varley esta manhã, que me trouxe o horóscopo de Hannah, todo desenhado de forma muito curiosa. Ele parece muito interessado no seu bem-estar, e trouxe a natividade para me mostrar, já que Hannah está com vinte e um anos e ele considera que é um período importante. Perguntei a ele se em algum momento ela ficaria indisposta durante o período de sua viagem atual, mas ele não disse nada. Talvez alguém lhe diga antes que ele consulte seus livros, e então ele saberá … Se há alguma coisa errada, é culpa de Marte e Saturno, disse ele. Eu digo, se vier de um cômodo frio e asfixiante, será sua culpa, Sr. P., então preste atenção aos seus, ou lhe farei cócegas e pentearei sua cabeça com um botão, como a Sra. Francis costumava dizer ao marido. Para ser sério; não há, meu caro amigo, nenhum risco a se prevenir.

Palmer e sua jovem esposa, Hannah Linnell, estavam então em Roma. Nessa época, tiveram uma vívida impressão de John Varley, durante o tempo de sua fascinante companhia em Gore House, Kensington, onde Lady Blessington entretinha um círculo de celebridades. Ela conhecera Varley muitos anos antes como um visitante da casa de Lord Blessington na Praça de St. James. Ele discorreu sobre astrologia e magia na biblioteca de Gore House e todos foram infectados com suas crenças, Bulwer e Disraeli mergulharam “na discussão e na experiência”. Varley os conduziu em debates sobre bruxaria e espiritualismo. Eles treinavam a contemplação do cristal “com a ajuda de um famoso cristal dado à sua anfitriã por Nazim Pasha”.

Varley também disse ter ajudado Lord Lytton, o irmão mais novo de Bulwer, nos estudos de ocultismo para seu livro Zanoni. Outra celebridade que ficou sob seu feitiço foi Sir Richard Burton, mas não tão seriamente, se julgarmos pelas considerações de Burton feitas por Lady Burton sobre seu marido.

Varley demosntrou seus dons astrológicos a Ruskin, que escreveu:

“… arrisco contar para o Dr. Acland sobre John Varley, a conversa debatida sobre sua ciência favorita da astrologia, e nós dois rimos disso, ele desafiou qualquer um de nós a dar a ele o lugar e a hora de nosso nascimento, dizendo que, a qualquer um de nós ele poderia provar em dez minutos a veracidade da ciência. Fui capaz de dar os meus dados e, certamente em não mais de dez minutos, ocupado em desenhar o diagrama do céu, ele fixou em minha vida meus três anos de idade, quando eu tinha quatorze, dezoito e vinte e um, como tendo sido especialmente marcantes para mim.

Esses foram os anos em que eu viria pela primeira vez em Paris, em segundo lugar em Londres, quando ficamos na nossa casa de Herne Hill, e, em terceiro lugar, perdi meu casamento por uma garota francesa para quem certos poemas de amor idiotas foram escritos, que meus amigos menos sábios me atormentam agora para reimprimir. Mas os três períodos de crise foram apenas focos no erro geral, má administração e infortúnio de toda a minha educação, precisamente entre aqueles anos de quatorze a vinte e um … A menina sendo uma vez bem casada, e o que era mais importante – eu começando a sentir um pouco como eu tinha sido tolo e perverso, decidi voltar da Itália no Cenis em 1841, e buscar o alento do espírito bruscamente fortalecido pela manhã abrasadora de Lans-le-bourg, esta data foi vital como o início de meu trabalho e educação”.

Escrevendo à Sra. Gisborne em 7 de março de 1822, Mary Shelley parece ter se interessado nos poderes de Varley. “Mas, para falar de previsões e antecedentes, alguns dos mais curiosos de Varley. ‘Terei sorte em maio ou junho de 1815’. Não, foi então que ela (Shelley) organizou sua renda; não havia doença, exceto a saúde al solito, daquele momento. Os dias de 2 e 14 de junho de 1820 não foram particularmente ruins, mas o restante do período será desastroso”.

Varley persistiu em suas crenças recônditas até o fim de sua vida. Albert Varley deixou um registro de uma visita ao leito de morte de seu pai. “Em resposta às esperanças de sua recuperação precoce, ele apontou para seu horóscopo e as direções que havia calculado. Com tais aspectos se aproximando, ele disse: ‘Há pouca esperança’. Sua morte ocorreu logo após esta conversa”.

Vejamos o curioso livro de Varley. Seu título completo é Treatise on Zodiacal Physiognomy, illustrated with engravings of heads and features, accompanied by tables of the time of the rising of the Twelve Signs of the Zodiac, and containing also new and astrological explanations of some remarkable portions of ancient mythological history. O livro, que consiste em sessenta e quatro páginas em oitavo de impressão tipográfica e cinco placas, quatro das quais foram gravadas por Linnell, fazia parte de uma série a ser concluída em quatro partes e foi impresso pelo autor em 10 Great Titchfield Street, Oxford Street. Foi publicado em 1828 e vendido pelos Srs. Longman & Co. a cinco xelins. As outras três partes não se concretizaram.

Abrindo seu prefácio, Varley escreve: “O aparente poder dos vários signos do Zodíaco em criar uma grande diversidade nas características e compleições da raça humana foi há muito estabelecido entre as pessoas questionadoras quanto a operação da lua nas marés , e pode ser apropriadamente denominado um ramo da filosofia natural que proponho denominar Fisiognomia Zodiacal.

Embora a fisiognomia e a astrologia estejam associadas, Varley afirma que a primeira é independente da “previsão judiciária” e pode ser estudada por seus próprios méritos como um ramo da filosofia natural. Ele divide a humanidade em quatro temperamentos “respondendo aos quatro trígonos, trindades ou triplicidades”, que conferem essas diferentes triplicidades. Existe o trígono de fogo – Áries, Leão, Sagitário, sob cujos auspícios nascem as naturezas espirituosas, generosas, magnânimas e principescas. O trígono de terra: Touro, Virgem, Capricórnio, que contém as qualidades cuidadoras, sórdidas e mesquinhas. O trígono de ar: Gêmeos, Libra e Aquário, simbolizando os princípios humanos, harmoniosos e corteses. O trígono de água: Câncer, Escorpião e Peixes, qualidades frias, prolíficas, cautelosas e severas.

A influência desses signos é modificada pela posição dos planetas no momento do nascimento de uma pessoa. Por exemplo, alguém nascido “sob um trígono aquoso ou terrestre pode ser de uma disposição mais elevada e generosa se, ao nascer, vários planetas estiverem nos signos de fogo ou aéreos, e especialmente se estes e seu ascendente estivessem em bom aspecto”.

Varley desenvolve sua teoria com grande engenhosidade, uma teoria derivada e simplificada dos inúmeros livros que o artista deve ter estudado – e ele fornece tabelas e gráficos pelos quais se pode acompanhar e possivelmente provar seu argumento. Uma afirmação interessante é que Sagitário, a casa de Júpiter, sendo o único signo (como eu descobri por minha própria experiência) sob o qual nenhuma pessoa nasce com cabelo preto, olhos e sobrancelhas escuros, com a raríssima exceção de um aparecimento ocasional refletindo o signo de Gêmeos, o que dá olhos e cabelos castanhos claros, e às vezes uma menor clareza da tez. Pessoas nascidas sob Capricórnio são geralmente muito escuras no primeiro grau desse signo, enquanto os sagitarianos mantêm sua tez clara “até o último grau, minutos e segundos do Arqueiro”.

É óbvio, a partir do estudo de seu livro, que Varley refletiu muito, além de sua observação como artista, sobre esse assunto obscuro. Nem precisamos ser astrólogos experientes ou fisiognomistas para concordar com ele que “de longe a porção menos numerosa da sociedade nasce nos signos de fogo e aéreos; o mundo sendo, em sua disposição e hábitos, governado principalmente pelos signos fleumáticos terrestres, melancólicos, saturninos e aquosos, enquanto os príncipes e nobres superiores do mundo e os sublimes e heroicos escritores poéticos, pintores e compositores emanam do trígono de fogo e régio: enquanto sob os signos aéreos humanos e corteses (Gêmeos, Libra e Aquário) são produzidos principalmente os professores e instrutores de música, belas artes e as cerimônias e enfeites da vida e da civilização”.

O livro provavelmente era muito difícil, muito sério e científico para ser popular, pois sendo que  as três partes anunciadas que se seguiriam a primeira nunca foram publicadas, podemos apenas presumir que não foi um sucesso. O público então, como agora, preferia que sua sorte fosse contada, em vez de se dar ao trabalho de aprender como elaborar suas próprias natividades, o que requer considerável concentração e estudo.

Varley devotou muitos anos à “ciência”, e deduz-se de seu livro que ele considerava a previsão mais uma questão de lógica e matemática do que um culto sobrenatural. Na verdade, ele escreve que a astrologia:

“não interfere necessariamente no livre arbítrio: pois toda astrologia nada mais é do que a experiência e observação de coincidências, em que o astrólogo se distingue por um maior grau de conhecimento e pesquisa e um arranjo mais metódico de fatos e correspondência, do que era possuído por nossas tias e avós, que são todas sibilas em seu caminho, e predizem por certas aparições no céu, se é tempo bom ou ruim…”.

O prospecto das partes não publicadas pode ser encontrado na Victoria and Albert Museum Library, encadernado em um volume intitulado Fine Art Panphlets, 1801-1874. E deveria se chamar A List of a Portion of the Classic Fables and Sacred Histories of which an entirely new and Detailed explanation is prepared for publication, from Discoveries founded on the Application of Astrological Knowledge, and on the ancient Theban art of Geomancy, by John Varley’.

Aqui estão alguns dos mistérios que Varley propôs elucidar ou explicar por influências zodiacais: “Por que o sacrifício de Abel foi mais aceitável ao Ser Supremo do que o de Caim”. “A origem zodiacal do Baptismo e a sua referência a um princípio de moralidade”. Por que se diz que o fogo foi inventado ou descoberto pela primeira vez em Delos (Δήλος).

“O estabelecimento do Cristianismo e a abolição da adoração dos deuses pagãos, mostrado particularmente pelo acompanhamento do movimento processional das estrelas fixas; e da maneira pela qual são capazes de influenciar ou indicar os movimentos da humanidade”.

“Uma explicação dos quatro modos reconhecidos pelo apóstolo Paulo, pelos quais Deus, em vários momentos e de várias maneiras falou, ‘ou se revelou’ pelos profetas ou videntes”.

O prospecto, por si só, prova a intensa preocupação de Varley com os mistérios que exerceram o gênio dos poetas, filósofos e religiosos desde o início da história. A astrologia era uma faceta importante da personalidade do artista; e qualquer que seja a opinião de Gilchrist sobre este lado do gênio de Varley, Stanley Redgrove escreveu que o Tratado de Fisiognomia Zodiacal é uma “obra de grande originalidade, sendo uma ‘verdadeira curiosidade da literatura'”.

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