Traduções

Sobre o Nono Orbe dos Signos e Astrologia

α

Maimonides e Māshāʾallāh

Shlomo Sela

υ

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

φ

Nas cosmologias antigas e medievais, estruturadas em torno de orbes concêntricos ou aninhados, o problema de determinar o número desses orbes e identificar o orbe mais externo exercia um forte apelo para cosmologistas, especialmente porque o universo era considerado finito e o orbe mais externo seria a fronteira entre os domínios físico e metafísico. Para Aristóteles (384-322 a.C.), não havia orbes além das estrelas fixas, que ele considerava o limite mais externo do cosmos e o portador do movimento diário. Mas a descoberta da precessão por Hiparco (190-120 a.C.) erodiu gradualmente o modelo aristotélico. Antes dessa descoberta, os sete planetas eram levados a se mover do oeste para o leste, cada um completando seu ciclo (Saturno trinta anos, a Lua menos de trinta dias) em sua própria órbita; as estrelas fixas eram consideradas embutidas no oitavo orbe, que transmite o movimento diário aos orbes inferiores dos planetas.

Em outras palavras, uma vez que o movimento diário parecia transportar todos os planetas e as estrelas fixas em uma rotação diária, e como as estrelas fixas eram conhecidas por estarem além de todos os planetas, era entendido que a única função do orbe fixo das estrelas seria carregar esse movimento diário. Mas a descoberta da precessão representou um problema significativo para o modelo aristotélico de oito orbes. Sendo que nenhum orbe separado seria o responsável pela precessão, o último orbe das estrelas fixas teria que se mover em dois movimentos opostos: o movimento diurno, de leste para oeste, e a precessão, de oeste para leste. Dado o princípio aristotélico de que é necessário um orbe para cada movimento celestial distinto, e pela razão de que um orbe não poderia carregar esses dois movimentos opostos, um nono orbe teria que ser inserido, de modo que estivesse convenientemente localizado além do orbe das estrelas fixas.

Quanto ao posicionamento real de um nono orbe estritamente, um ponto de partida apropriado é o trabalho de Ptolomeu (ca. 150 d.C.). Em contraste com Hiparco, que parece ter entendido a precessão como um movimento para oeste dos pontos solsticiais e equinociais, Ptolomeu, no Almagesto, concebeu-a como o resultado de uma lenta rotação para o leste da órbita das estrelas fixas em torno dos polos da eclíptica. Além disso, no Livro II das Hipóteses Planetárias, projetado para estender os modelos matemáticos do Almagesto ao reino físico, Ptolomeu se referia a um corpo esférico mais externo que se moveria com o movimento diurno e transmitindo, assim, o último movimento para outro corpo esférico, que conteria as estrelas fixas e se com um lento movimento para o leste. Após a recepção da ciência grega no mundo árabe, o nono orbe sem estrelas apareceu no trabalho de estudiosos arabófonos. Parece razoável supor que a tradição árabe a esse respeito pretendia simplificar o sistema delineado por Ptolomeu no Almagesto e no Livro II das Hipóteses Planetárias. Comentaristas medievais de Aristóteles, como Al-Farabı e Ibn Sın (ca. 980-1037), reconheceram um domínio supralunar de nove orbes, compreendendo um nono orbe mais externo que transmitiria o movimento diurno a todos os outros orbes, o orbe fixo estrelas e sete orbes para os sete planetas, cada um acompanhado por uma inteligência incorpórea que é seu motor.

Este artigo está ocupa principalmente com a recepção da teoria de um nono orbe sem estrelas por Maimonides (1138-1204). Maimônides abordou esse tópico em duas de suas obras: primeiramente, no terceiro capítulo das Leis dos Fundamentos da Torá (doravante LFT III), parte de seu código de lei judaica, a Mishneh Torá (מִשְׁנֵה תּוֹרָה); e, posteriormente, no Guia dos Perplexos (doravante Guia). Começo com a abordagem do nono orbe em LFT III, onde é apresentado como um orbe sem estrelas dividido em doze signos nomeados para as doze constelações zodiacais. Minha alegação é que Maimônides extraiu as ideias sobre o nono orbe incorporado no LFT III de um trabalho cosmológico atribuído a Māshāʾallāh, um dos primeiros astrólogos abássidas, ou de algum trabalho posterior derivado da cosmologia de Māshāʾallāh. Eu também esclareço as características incomuns deste modelo conforme apresentado por Māshāʾallāh e tento determinar a razão por trás de sua inclusão na cosmologia de Māshāʾallāh, bem como na Mishneh Torá de Maimônides.

Afirmo que isso tem a ver não apenas com considerações cosmológicas, mas também e especialmente com astrológicas. Em seguida, estudo brevemente a abordagem do nono orbe no Guia, onde ela é incorporada em sua forma “clássica”, como o orbe abrangente transmitindo o movimento diurno a todos os outros movimentos, e peso a diferença entre este e o Mishneh Torá. Por último, em um curto pós-escrito, amplio o escopo para mostrar que a cosmologia de Māshāʾallāh, particularmente o nono orbe sem estrelas dividido em doze signos, era amplamente conhecido no mundo árabe antes de Maimônides, especialmente entre intelectuais judeus na Espanha muçulmana.

O Nono Orbe nas Leis dos Fundamentos da Torá

De scientia motus orbis. Aëris, ignis, aque & telluris qualis iimago, Quis numerus spberis, sideribusque motus: Aurea cur toties commutat Delia vultus, Hic Messala meus rite docere parat.

O relato de Maimônides da nona orbe em LFT III é parte de uma descrição esquemática e direta do cosmos, sem nenhuma intenção séria de expor as deficiências das teorias subjacentes a este modelo cosmológico. Em LFT III: (1), Maimônides lista nove orbes na ordem Ptolomaica clássica e nomeia os planetas e estrelas que estão embutidos em cada um deles. Em LFT III: (2), aprendemos que cada uma das esferas contém muitas esferas, que são organizadas “como as camadas de uma cebola” [kemo gildei beṣalim], com algumas delas girando de Oeste para Leste e outras de Leste para Oeste. LFT III: (3) argumenta que a matéria da qual as orbes e estrelas são compostas é fundamentalmente diferente daquela do domínio sublunar. LFT III: (4-5), após afirmar que as orbes são esféricas e centradas na Terra, descreve os epiciclos e acrescenta que, se levarmos em consideração os vários cursos dos planetas, existem 26 orbes (18 orbes concêntricos e excêntricos mais oito epiciclos). Isso é feito em um relato neutro que contrasta fortemente com a crítica aguda de Maimônides aos epiciclos e orbes excêntricos no Guia II: (24). Em LFT III: (8), Maimônides fala dos tamanhos relativos das estrelas; em LFT III: (9), ele se refere resumidamente às almas dos orbes e aos intelectos separados.

Em contraste com seu tratamento superficial dos primeiros oito orbes, LFT III oferece uma descrição elaborada do nono orbe mais externo. Para começar, em LFT III: (1), Maimônides oferece uma descrição sucinta e apropriada das características principais do nono orbe: “o nono orbe é o orbe que gira todos os dias de Leste a Oeste e abrange e impulsiona todos”. Em LFT III: (2), ele destaca que os orbes que giram de Leste a Oeste se movem “como o nono orbe que gira de Leste a Oeste”. Além dessas duas breves referências, Maimônides dedicou duas seções inteiras, LFT III: (6) e (7), exclusivamente ao nono orbe, com uma descrição extraordinária do mesmo.

(6) O nono orbe, que abrange tudo, foi dividido pelos antigos sábios em doze partes. Eles atribuíram a cada uma dessas partes um nome, após o da figura que podia ser vista nas estrelas que estavam abaixo dela e alinhadas de frente para ela das doze partes do nono orbe]. Estes são os signos cujos nomes são Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário, Peixes.

(7) O nono orbe em si não tem divisão, nem qualquer uma dessas figuras, nem qualquer estrela, mas pode-se ver nos asterismos do oitavo orbe, por meio de suas estrelas maiores, a forma <s> dessas figuras ou algo semelhante eles. Estas doze figuras estavam situadas diretamente opostas a essas divisões apenas no momento, eles [as constelações do oitavo orbe que estavam alinhadas contra as doze partes do nono orbe] giraram um pouco, pois as estrelas do oitavo orbe giram como o Sol e a Lua, mas giram lentamente, de modo que todas as estrelas <do oitavo orbe> se movem em 70 anos aproximadamente a mesma distância que o Sol e a Lua percorrem em um dia.

לכה תא ףיקמ אוהש ,יעישתה לגלג (ו) רשע םינשל םינומדקה םימכחה והוקלח םש לע ,םש ול ולעה קלחו קלח לכ. םיקלח הטמלש םיבכוכה ןמ וב הארתש וז הרוצ תולזמה ןהו ,ויתחת םינווכמ םהש ונממ הירא ןטרס םימואת רוש הלט םתומשש. םיגד ילד ידג תשק ברקע םינזאמ הלות ולח אל וב ןיא —ומצע יעישתה לגלג (ז) ,בכוכ אלו ולאה תורוצה לכמ הרוצ אלו ינימשה לגלגבש םיבכוכה רוביחב אלא תינבת ,ובש םילודג םיבכוכב ,האריש אוה םינשה ולאו. ןהמ בורק וא ולאה תורוצה ןתוא דגנכ תונווכמ ויה אל תורוצ רשע ןהל ולעה זאש לובמה ןמזב אלא םיקלחה ,טעמ ובבס רבכ הזה ןמזב לבא. ולא תומש םלוכ ינימש לגלגבש םיבכוכה לכש יפל ןהש אלא ,חריהו שמשה ומכ םיבבוס שמשה ךלהתיש קלחו ,תודיבכב ןיבבוס בכוכ לכ ודגנכ ךלי — דחא .םויב ודגנכ חריהו. הנש םיעבשמ בוריקב ןהמ
γ

Para ter certeza, este relato incorpora alguns dados comuns, incluindo a referência à nona orbe como transmitindo o movimento diurno Leste-Oeste a todas as outras orbes, que se movem em seu movimento oeste-leste. Da mesma forma, a conexão entre os nomes dos signos zodiacais e as formas das constelações zodiacais pode ser facilmente encontrada nas introduções medievais em árabe ou hebraico à astronomia e astrologia. O valor de 1° em 70 anos, implícito no final da LFT III: (7), é a taxa proposta pelo astrônomo al-Sufı (Azophi, 903-986) para o movimento lento do oitavo orbe. Aqui, no entanto, o nono orbe recebe algumas características peculiares.

(1) Diz-se que o nono orbe (apesar de não ter estrelas) está dividido em doze partes, com o nome das constelações zodiacais que se encontram abaixo delas no oitavo orbe. Desta forma, Maimônides traça uma distinção nítida entre os doze signos do nono orbe, que são iguais em tamanho (30° cada) e essencialmente estáticos (o primeiro ponto de Áries, o costumeiro “primeiro” signo, sempre coincide com o vernal equinócio, o primeiro ponto de Libra sempre coincide com o equinócio outonal, e assim por diante para os outros signos), e as doze constelações, que são desiguais em tamanho (como os asterismos do zodíaco) e móveis (movendo-se com o movimento para o leste do oitavo orbe).

(2) Diz-se que os doze signos do nono orbe foram alinhados com as doze constelações zodiacais do oitavo orbe apenas na época do Dilúvio. Assim, os doze signos do nono orbe e as doze constelações zodiacais do oitavo orbe não coincidem, como se segue do fato de que as estrelas do oitavo orbe (que incluem as doze constelações zodiacais) giram a uma taxa de aproximadamente 1° em 70 anos.

(3) Que o nono orbe é dividido em doze signos nomeados após as doze constelações zodiacais, e que os doze signos e as doze constelações zodiacais coincidiram na época do Dilúvio, é atribuído por Maimônides aos “antigos sábios”, cuja identidade ele deixa sem revelar.

Por que Maimônides afirma que os doze signos do nono orbe e as doze constelações zodiacais do oitavo orbe estavam precisamente alinhados apenas na época do Dilúvio? Dado que o oitavo orbe, de acordo com LFT III: (7), completa um ciclo Oeste-Leste em 25.200 anos (= 360 × 70 anos), pode-se esperar que Maimônides se refira ao tempo da Criação e não do Dilúvio. Em uma referência direta a LFT III: (7), YT Langermann argumentou que esta passagem mostra, no mínimo, que “Maimônides estava ciente de que o dilúvio bíblico foi um importante ponto marcante na história da astronomia”, aludindo assim a fontes astrológicas que mencionam conjunções de todos os planetas em Áries 0° como marcando o início de grandes ciclos e associando a conjunção inicial não com a Criação, mas com o Dilúvio.

Esta é uma pista importante. Mas por que Maimônides, um ferrenho oponente da astrologia, escolheu mencionar na LFT III, um locus significativo carregado de conotações teológicas, o Dilúvio (e não a Criação) e aplicar uma teoria da história do universo empregada pelos “astrólogos”? Gostaríamos também de determinar a identidade dos “antigos sábios” e saber por que Maimônides decidiu incluir todas essas informações sobre a nona orbe no relato cosmológico de LFT III. Em última análise, ficamos com a questão da fonte de Maimônides para essas propriedades do nono orbe.

Cosmologia de Māshāʾallāh

Māshāʾallāh, de acordo com Ibn al-Nadim (falecido em 995 ou 998) em seu Fihrist, era um judeu que viveu desde a época do califa al-Mansur (reinou 754-775) até a época do califa al-Ma’mun ( reinou de 813 a 833), “um homem distinto e durante seu período a pessoa mais importante para a ciência dos julgamentos das estrelas”, que deixou para trás uma longa lista de trabalhos, a maioria deles sobre astrologia. Existem muitas traduções medievais do latim, grego bizantino e hebraico da obra de Māshāʾallāh. Uma delas é um tratado cosmológico que circulou no Ocidente latino em duas versões manuscritas: uma versão curta de 27 capítulos e uma versão expandida de 40 capítulos.24 uma versão curta foi traduzida por Gerard de Cremona (ca. 1114–1187), que o chamou de Liber Messehala de orbe (doravante De orbe) em sua lista de traduções, atribuindo-o assim a Māshāʾallāh. Posteriormente, teve duas edições impressas, em 1504 e 1549, com os respectivos títulos De scientia motus orbis e De elementis et orbibus. O original árabe desta versão curta foi recentemente identificado em um Manuscrito árabe (Berlim, Staatsbibliothek MS Or. 273 de outubro, ff. 1r-66r) de Taro Mimura, que me informa que pretende relatar seu conteúdo em breve. A seguir, deixo de lado a versão longa, por ser menos relevante para o nosso estudo, e focalizo um fragmento de De orbe que guarda semelhanças marcantes com LFT III: (6) e (7). Mais detalhes sobre esses textos serão fornecidos no final desta seção, após uma olhada nos conteúdos relevantes ao tema principal deste artigo.

De orbe incorpora um relato abrangente de todo o cosmos, ao longo das linhas aristotélicas, aparentemente desprovido de conteúdo astrológico. Voltado para leigos, seu texto é acompanhado de diagramas que visam facilitar a compreensão de seus principais tópicos, principalmente os relacionados à astronomia. Começando com o domínio sublunar, ele discute os quatro elementos básicos, seus lugares naturais, os três movimentos principais (“do meio”, “para o meio”, “em torno do meio”) e seus naturezas, a esfericidade da terra e a contrariedade dos quatro elementos. Então De orbe se volta para o domínio supralunar. Ele discute a esfericidade dos céus, a magnitude do sol, a origem da luz da lua e os outros planetas, eclipses solares e lunares, etc.; ele oferece um modelo planetário para o movimento da lua (com base em quatro orbes), do sol (dois orbes) e de Saturno e os outros planetas (quatro orbes). Ao todo, De orbe conta 26 orbes para os sete planetas, que é precisamente o número de orbes mencionados por Maimônides em LFT III: 5, embora haja uma discrepância em relação ao número de orbes excêntricos e epiciclos. De orbe também contém discussões sobre fenômenos meteorológicos e plantas.

O núcleo do relato de Māshāʾallāh do domínio supralunar em De orbe postula um universo de dez orbe. Desviando do universo tradicional de nove orbe, a décima orbe, a “Grande Orbe”, herda os atributos da nona orbe clássica: é uma orbe sem estrelas que se move com o movimento diário de leste para oeste, transmite o movimento diário para as outras orbes e é designada orbis rectus, o que significa que se move no plano do equador celestial. Mas a grande novidade desse relato está na descrição da nona orbe, designada “Orbe dos Signos”. Esta, afirmo aqui, é a fonte de Maimônides para seu próprio relato da nona orbe em LFT III: 6-7. Para apoiar essa afirmação, cito o capítulo XX do De orbe na íntegra, acompanhado por uma tradução em inglês. Eu adicionei pontuação e dividi o texto em frases para facilitar a referência.

Capítulo XX: Uma discussão sobre o Orbe dos Signos

(1) O próximo orbe após o Grande Orbe é o Orbe dos Signos. Ele, novamente, é um orbe sem estrelas e seu movimento é do leste <para o oeste> como o movimento do Orbe.

(2) Os antigos autores que faziam imagens de acordo com a astronomia de Altasamec diziam, primeiro, que este é um dos círculos do Grande Orbe, e que todos os orbes são nove.

(3) Ptolomeu criticou isso em seu livro e disse que havia encontrado uma diferença entre eles por causa da diversidade do grande cinturão do cinturão do Orbe dos Signos, e <por causa> da diversidade de seus polos. Portanto, ele ordenou o número de orbes em dez.

(4) Este é o orbe <ao qual se refere> quando se diz que uma estrela está em tal e tal grau de sinal, ao qual este <orbe> e nenhum outro <orbe> é comparado, isto é , a esta nona orbe.

(5) Seu polo norte está 24 ° acima do polo do Grande Orbe até o meio do céu, e seu polo sul está sob o polo sul do Grande Orbe na mesma proporção <de graus>, quando Áries está do <primeiro> grau do leste e Libra do <primeiro> grau do oeste.

(6) Este orbe é aquele em relação ao qual algo é dito estar em tal e tal um grau de Áries e Touro. Na verdade, o Orbe dos Signos não é aquele ao qual nos referimos e dizemos “Áries” e “Touro” e “Gêmeos” e assim até seu fim [isto é, as constelações zodiacais].

(7) Mas nós não nomeamos esses <signos> por esses nomes, exceto pelo fato de que eles são formados a partir da forma de suas figuras [isto é, das constelações zodiacais], e <aparentemente> não podemos chamá-lo de Orbe dos Signos, porque não há figura nele, uma vez que não é estrelado, e todas as estrelas estão sob ele [isto é, sob o Orbe dos Signos], embora você não veja <it>.

(8) Para você dizer que Cor Leonis, <Cor> Escorpionis, Abutre e Peixes estavam em tal e tal grau do Orbe dos Signos nos tempos do Dilúvio, mas hoje eles estão em mais graus do que os graus em que eram <nos tempos do Dilúvio>, e a equação de algumas dessas estrelas não é completada nos cânones, exceto pela equação de Cor Leonis, e que foi cortado de Leão do Orbe dos Signos [isto é, que não é estrelado] de acordo com a quantidade <da velocidade em> que eles correm em seus próprios orbes.

(9) Na verdade, esta orbe é dividida em 12 partes, e cada parte é nomeada de acordo com o que as estrelas da oitava orbe se formam abaixo dela em latitude, de acordo com o que mostramos.

(10) Cada parte é chamada de “signo”, e a cada signo é atribuído um mês, e é a décima segunda parte da órbita do sol.

(11) Portanto, quando o sol se opõe a sua m terrae. entra nessa parte, chegam as estações com as suas naturezas, que têm foi ordenado pela elevação do sol, e sua descida e sua igualdade.

(12) Portanto, quando o Sol entra em Áries, o dia e a noite são iguais, e chega a primavera, e então [o Sol] está em Áries. Depois disso, ele [o Sol] está em Touro, e em seguida em Gêmeos, e isso ocorre no mês de Nizar, Aiar e Ḥuzairan.

(13) Então ele entra em Câncer e o verão chega, e o Sol chega na parte mais alta de sua orbe e inflama a terra com seu calor e por estar alinhado em frente à terra, e isso ocorre no criador gloriosus e sublimis. início de Câncer, depois em Leão e depois em Virgem, que são os meses de Zammer, Rab e Elul.

(14) Então o Sol entra no início de Libra, e noite e dia são igualados, e <o início de Libra> é alinhado em oposição ao primeiro grau de Áries. <E o Sol> está em Libra, Escorpião e Sagitário, e o outono chega, e isso ocorre nos <meses do> Primeiro Tisrim, Último Tisrim e Último Kemitz.

(15) Então <o sol> entra no primeiro grau de Capricórnio, e isso ocorre no inverno no mês de Último Kemitz, Subar e Adar.

(16) Quando então <o ciclo> é completado, <o Sol> retorna ao seu funcionamento de acordo com o que foi <decretado> acima dele, a partir do qual seu Glorioso e sublime Criador o criou.

(1) Et orbis secundus ab orbe magno, est orbis signorum & est orbis non stellatus iterum & motus eius est ab oriente sicut motus orbis magni.
(2) Etdixerunt autores primi facientes secundum Astronomiam Altasamec, primum quod ipse est unus ex circulis orbis magni & orbes omnes sunt novem.
(3) Ptolemeus vero invehitur super eo in libro suo & dixit quod ipse invenit inter eos differentiam propter diversitatem zonae magnae a zona orbis signorum & diversitatem polorum eius. Ordinavit ergo numerum orbium super decem.
(4) & ipse est orbis cum dicitur quod stella est in tali & tali gradu signi, ad quem comparatur illud & non aliud, id est, ad hunc orbem nonum.
(5) & polus eius septentrionalis est super polum orbis magni viginti quatuor partibus ad medium coeli, & polus eius meridianus est sub polo meridiano orbis magni tantundem, quando Aries est a parte orientis & Libra a parte occidentis.
(6) & iste orbis est ille in quo dicitur esse in tali & in tali gradu Arietis & Tauri. Et orbis quidem signorum non est ille ad quem innuimus & dicimus Aries & Taurus & Gemini & sic usque ad finem ipsorum.
(7) Sed nos non nominamus ista istis nominibus, nisi propter illud quod formatur de figura formarum eorum & non possumus nominare ipsum orbem signorum, quoniam non est in ipso forma, quoniam non est stellatus & stellae omnes sunt sub eo, an non vides.
(8) Quia dicis quod Cor Leonis & Scorpionis & Vultur & Piscis fuerunt in temporibus diluvii in tali & in tali gradu orbis signorum & sunt hodie in pluribus gradibus, quam sunt in eo illi gradus & non completur aequatio alicuius illarum stellarum in canonibus nisi per aequationem cordis leonis & quod abscissum est ex leone de orbe signorum secundum quantitatem quod currunt in orbe suo.
(9) Et iste quidem orbis divisus est in duodecim partes, & nominatur omnis pars secundum quod sub ea formant stellas orbis octavi in latitudine, secundum quod ostendimus.
(10) & nominatur omnis pars signum, & positus est unicuicque signo mensis, & est pars duodecima orbis solis.
(11) Cum ergo sol ingreditur in illam partem, adveniunt tempora cum naturis suis, super quas ordinata sunt de elevatione solis, & eius descensione, & ipsius aequalitate.
(12) Cum ergo sol egreditur Arietem, aequatur dies & nox, & venit Ver, & est in Ariete. Postea in Tauro, deinde in Geminis, & illus est mensis Nizar, et Aiar, et haziran.
(13) Deinde ingreditur Cancrum et venit Aestas, & pervenit sol in superiore orbis sui, & accendit terram sua caliditate, & per oppositionem suam terrae. Et illud est in principio Cancri, deindein Leone, postea inVirgine, & sunt menses, Zammer, & Elul.
(14) Deinde ingreditur sol initium Librae, & aequatur nox et dies, & ipsum opponitur primae parti Arietis, & est in Libra & Scorpione & Sagittario, & venit autumnus, & est in Tisrim primo, & Tisrim postremo, & Kemitz postremo.
(15) Deinde ingreditur primam partem Capricorni, & illud est in Hyeme in mense Kemitz Postremo & Subar, & Adar.
(16) Cum ergo completur, redit ad operationem suam, secundum quod fuit super eum, ex quo creavit ipsum ipsius creator gloriosus & sublimis.

Aqui vemos todos os três pontos que tornam incomum o relato de Maimônides sobre o nono orbe em LFT III: (6-7).

(1) Como em LFT III: (6-7), em De orbe XX: (7-9) a nona orbe é dividida em doze partes, nomeadas para as constelações zodiacais que podem ser vistas abaixo delas no oitavo orbe. Como observado acima, a conexão entre os nomes dos signos zodiacais e as formas das constelações zodiacais é comum, particularmente em obras astrológicas, mas dificilmente encontramos uma referência tão explícita à nona esfera a este respeito como aquela em LFT III: (6-7) e em De orbe XX: (7-9).

(2) No De orbe XX: (8), os doze signos da nona orbe são considerados alinhados com as doze constelações zodiacais da oitava orbe apenas na época do Dilúvio, assim como Maimônides escreve em LFT III: (7). Māshāʾallāh, está se referindo ao Dilúvio que ocorreu em Kaliyuga (o último dos quatro estágios pelos quais o mundo passa como parte do ciclo de yugas descrito nas escrituras indianas), que foi marcada por uma conjunção média de todos os planetas em Áries 0° à meia-noite de quinta / sexta-feira, 17/18 de fevereiro 3101 AEC. Este sistema cronológico, conhecido pelos árabes como al-Arkand, foi aplicado pelo próprio Māshāʾallāh em sua História Astrológica como uma época cronológica, por Abu Ma’shar em seu Kita al-Milal wa-d-duwal e Kitab al Uluf, onde ele começa a história com o Dilúvio e por al-Bıruni, que reconheceu que o sistema de Abu Ma’shar era derivado de uma fonte indiana.

(3) Os “antigos sábios” mencionados em LFT III: 6 são identificados em De orbe XX: (2) como os “autores primi facientes imagines secundum Astronomiam Altasamec” e em Liber de orbe XX: (3) como Ptolomeu. Altasamec, na última expressão, significa talismã; é uma transliteração do árabe tilasm (pl. tilsaman), que deriva do grego telesma. Pierre Duhem teve uma visão útil sobre a identidade do autores primi”. Em sua opinião, eles podem ser identificados como os “astrólogos antigos” (οἱ παλαιοὶ τῶν ἀποτελεσματικῶν) mencionados por Theon de Alexandria, em seu breve comentário sobre as Tabelas Úteis de Ptolomeu, como apoiando a teoria da trepidação: um movimento de vaivém do equinócios ou estrelas fixas. Esses cientistas são frequentemente mencionados antes de Maimônides como endossando apreensão ou participando de debates sobre essa teoria. Por exemplo, eles são referidos como “mestres dos talismãs” no Capítulo LII de Zij de al-Battanı, Sobre os Princípios de Astronomia de al-Bitrujı e Kitab al-milal wa-d-duwal de Abu Ma’shar. Abraham Ibn Ezra os descreve como apoiando a trepidação e participando de um debate contra Ptolomeu e outros cientistas antigos, que endossam a precessão, em Liber de Rationibus Tabularum e em Sefer ha-ÝIbbur (Livro da intercalação). De ​​orbe XX: (2-3) apresenta uma divisão de opinião análoga: enquanto os “autores primi” identificam o Orbe dos Signos com o Grande Orbe e postulam apenas nove orbes (De orbe XX: 2), Ptolomeu os critica por conta da diferença entre o Grande Cinturão e o Orbe dos Signos e postula um universo de dez orbe (De orbe XX: 3). Assim, de acordo com este relato, e tendo a hipótese de Duhem em mente, os seguintes dois pontos são plausíveis: (a) os “autores primi” postulam uma oitava orbe que se move com o movimento de trepidação, e uma nona orbe externa que é dividida em doze signos, carrega o movimento diário e o transmite às orbes inferiores. (2) Ptolomeu critica o “autores primi” por causa da falta de correspondência entre as doze constelações zodiacais da oitava orbe e os doze signos da nona orbe; isso implica que ele endossa a precessão e subscreve um universo de dez orbes que é essencialmente o mesmo que o de Māshāʾallāh. Em qualquer caso, no De orbe XX: (2-3) este debate é apresentado imediatamente após a apresentação no De orbe XX: (1) do nono orbe como o Orbe dos Signos, sem menção de qualquer desacordo entre os autores primi ”e Ptolomeu sobre o último ponto. Acontece que ambas as partes concordam que a nona esfera é a Orbe dos Signos – precisamente o ponto principal abordado por Maimônides em LFT III: (6) quando ele se refere aos “antigos sábios”.

Como mencionado acima, um manuscrito árabe contendo a cosmologia de Māshāʾallāh foi descoberto recentemente. Uma comparação preliminar, com base nas passagens paralelas na nona orbe nas versões latinas curta e longa e no texto árabe, levou à conclusão de que a descrição do nono Orbe dos Signos em Liber Messehala de orbe (versão curta) é um tradução palavra por palavra do texto árabe. Este fragmento inclui referências a (1) a nona orbe como a orbe dos signos zodiacais, (2) o dilúvio como o momento em que os doze signos da nona orbe estavam alinhados com as doze constelações zodiacais da oitava orbe, e (3) os antigos seguidores de talismãs e Ptolomeu: a saber, os três pontos mencionados acima que tornam incomum o relato de Maimônides sobre o nono orbe. A inferência é que este texto árabe pode muito bem ter sido a fonte de Maimônides para sua referência à nona esfera em LFT III: (6-7).

A justificativa por trás da Orbe dos Signos de Māshāʾallāh e sua inclusão na LFT III: 6–7

Por que Maimônides, após seu tratamento superficial dos primeiros oito orbes, incluiu um relato tão elaborado do nono e mais externo orbe em LFT III: (6-7) e ancorou seu relato na cosmologia de Mashāʾallāh? Por um lado, como será mostrado em um pós-escrito, Mashāʾallāh em geral, e o nono Orbe dos Signos em particular, era amplamente conhecido no mundo arabófono antes de Maimônides, particularmente entre intelectuais de origem judaica na Espanha muçulmana. Assim, Maimônides poderia estar ciente de sua relevância, na medida em que considerasse apropriado mencioná-lo na LFT III: (6-7). Além disso, Maimônides, eu diria, incluiu os elementos principais do relato de Māshāʾallāh da nona orbe em LFT III: (6-7) porque o impressionou como uma explicação original e coerente da natureza da nona orbe. Maimônides percebeu, no entanto, que uma lógica astrológica se esconde por trás da narrativa cosmológica aparentemente neutra de Mashāʾallāh e foi rápido em reagir contra ela. Em outras palavras, enquanto o relato de Māshāʾallāh da nona orbe encapsula uma tentativa séria de defender a astrologia contra uma de suas fraquezas básicas, o relato de Maimônides em LFT III: (6-7) é uma tentativa de expor totalmente essa fraqueza e montar um ataque contra a astrologia.

Desde os tempos antigos, os astrólogos consideravam os planetas os protagonistas mais importantes nas previsões astrológicas horoscópicas e mediam seus poderes e fraquezas no horóscopo em função de suas posições no zodíaco em relação aos signos zodiacais (e não às constelações zodiacais). Não é exagero dizer que as condições dos planetas nos signos são a pedra angular de toda a arte da astrologia. Mas esses signos têm alguma existência real na natureza? Em outras palavras, levando em consideração que o movimento lento para o leste das estrelas fixas transforma as constelações zodiacais móveis (isto é, fixadas sideralmente) em um meio não confiável para localizar os planetas no zodíaco, são os signos estáticos (isto é, fixos tropicamente) a realidade natural ou uma construção mental arbitrária planejada para a conveniência de astrônomos e astrólogos? Escolher a segunda opção abala claramente a própria base da astrologia.

A maioria dos astrólogos tomou a realidade dos signos zodiacais como certa e evitou essa pergunta, mencionando apenas que os nomes dos signos estão relacionados às formas das constelações zodiacais. Outros, como Abraham Ibn Ezra, reconheceram que os signos zodiacais e as constelações zodiacais diferem em seu tamanho e posição em relação ao zodíaco, mas não propuseram nenhuma solução para este problema. Pelo que eu sei, o universo de dez orbe de Māshāʾallāh é a única tentativa séria de um astrólogo resolver este problema sem negar que as constelações zodiacais de forma bastante coerente, preservando as características básicas das primeiras oito orbes (ou seja, dos sete planetas e das estrelas fixas), conferindo à décima orbe os atributos clássicos da nona orbe , e especialmente inventando um novo nono Orbe dos Signos, que é dividido em 12 partes, conferindo assim a realidade cosmológica final aos signos zodiacais.

Podemos apreciar melhor a engenhosidade da teoria de Māshāʾallāh nos demorando nas diferenças e semelhanças entre o décimo Grande Orbe e o nono Orbe dos Signos. Ambos não têm estrelas e se movem com o movimento diurno; mas enquanto a Grande Orbe é uma “orbis recta” ou “orbe direita”, o que significa que se move no plano do equador celestial, a Orbe dos Signos é dividida em 12 partes e se move em torno de polos inclinados 24° em relação para os polos do Grande Orbe. Observe agora as semelhanças e diferenças entre o nono orbe dos signos e o oitavo orbe das estrelas fixas: enquanto o orbe dos signos se move com o movimento diário, de modo que os 12 signos são estáticos em relação aos equinócios, o oitavo orbe das estrelas fixas se move 1° em 100 anos, de modo que as 12 constelações zodiacais são móveis com respeito aos equinócios. Por outro lado, tanto o nono Orbe dos Signos quanto o oitavo Orbe das Estrelas Fixas se movem em torno dos mesmos polos (inclinados 24° em relação aos polos do Grande Orbe). Que tanto a nona como as oito órbitas se movam em torno dos mesmos polos é de grande importância, porque garante que os 12 signos estacionários e as 12 constelações zodiacais móveis, embora não alinhadas entre si, se sobreponham; assim, quando o movimento das estrelas fixas completa um ciclo, como no tempo do Dilúvio, elas podem até coincidir, embora apenas por um momento fugaz.

Isso é o que justifica o fato de os signos terem o nome das constelações zodiacais. Além disso, observe o esforço extenuante de Māshāʾallāh, em seu relato do Orbe dos Signos, para demonstrar a realidade natural dos 12 signos, enfatizando não apenas que as estrelas estão localizadas em relação aos signos, mas também que fenômenos naturais fundamentais ocorrem no domínio sublunar quando o sol entra nos signos do “Orbe dos Signos”, como o início das estações, mudanças de clima e a passagem dos meses (De orbe XX: 11-26).

Embora Maimônides inclua três elementos-chave do relato de Māshāʾallāh sobre o Orbe dos Signos, na análise final ele rejeita a teoria. Enquanto em LFT III: (6) Maimônides cita a opinião dos antigos sábios de que a nona orbe é dividida em doze signos, nomeados após as doze constelações zodiacais subjacentes, em LFT III: (7) Maimônides rejeita essa opinião quando afirma que “a própria nona orbe não tem divisão. ” Para reforçar sua objeção, Maimônides chama a atenção para a diferença radical entre os doze signos fictícios da nona orbe e as doze constelações zodiacais correspondentes da oitava orbe. Ele chama a atenção para o fato de que, enquanto as constelações zodiacais da oitava orbe são reais e podem ser observadas em seu lento movimento para o leste de 1° em 70 anos, os 12 signos da nona orbe são ficções, uma vez que “o próprio nono orbe tem sem divisão”. Maimonides também destaca o fato de que, embora os 12 signos tenham o nome das 12 constelações zodiacais, esses dois sistemas sobrepostos quase nunca coincidem, exceto na época do Dilúvio, um datum que Maimônides toma de Māshāʾallāh ou de uma fonte posterior baseada apenas em Māshāʾallāh para disparar de volta para os astrólogos.

Além disso, sob um exame minucioso, verifica-se que a nona orbe de Maimonides, conforme descrito em LFT III: (6-7), não pode ser idêntica à Māshāʾallāh nona orbe no Capítulo XX de De orbe. Por um lado, enquanto de acordo com LFT III: (1), o nono orbe é um “orbe celestial que abrange tudo” que transmite o movimento diurno a todos os outros orbes, não tem divisão e gira no plano do equador celestial, Orbe de Māshāʾallāh of the Sings está abaixo do Grande Orbe, dividido em 12 partes, e gira em torno de polos inclinados 24 ° em relação aos polos do Grande Orbe. Em outras palavras, para Maimônides os 12 signos zodiacais nunca poderiam se sobrepor aos 12 constelações zodiacais da oitava orbe, porque giram em planos diferentes. Portanto, se Maimônides afirma em LFT III: (7) que os 12 signos zodiacais e as 12 constelações zodiacais estavam alinhados apenas na época do Dilúvio, ele está sarcasticamente destacando a diferença radical entre os dois sistemas e expondo a falha fatal no modelo de Māshāʾallāh.

O Nono Orbe no Guia dos Perplexos

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No Guia, como um todo, Maimônides dedica muito menos atenção à nona orbe e a apresenta em sua aparência clássica. O nono orbe é frequentemente referido como o “orbe celestial que tudo abrange” ou simplesmente como o “que tudo abrange”. Em outro lugar, ele se refere ao orbe superior como o limite do domínio físico: ao passo que “Ele, que Ele seja exaltado, está separado do céu e não é uma força nele”, a divindade “é o motor do céu mais elevado, por cujo movimento tudo o que está em movimento dentro do céu é movido. ” Maimônides afirma que a nona ”orbe sem estrelas está localizada acima das sete orbes dos sete planetas e a oitava orbe das estrelas fixas.

Reading Maimonides – David Gillis

Existem, no entanto, algumas nuances nesta imagem. No Guia II: 9–10, o domínio supralunar é dividido em conchas esféricas (ʾukar) de três maneiras diferentes, em cada uma das quais a nona orbe desempenha um papel diferente. Em primeiro lugar, fazendo bom uso da exposição de Deuteronômio 10:14 encontrada em BÍagigah 12b (“Existem dois firmamentos”), Maimônides atribui grande peso à esfera superior quando divide todo o domínio supralunar em duas conchas esféricas concêntricas: todas os oito orbes com estrelas constituem uma das duas conchas esféricas, enquanto apenas “a orbe que tudo abrange” é a outra concha esférica. Em segundo lugar, depois de apresentar e endossar a posição dos primeiros matemáticos de que Mercúrio e Vênus estão acima do Sol, Maimônides apresenta um cosmos dividido em cinco camadas esféricas concêntricas: (1) a orbe da Lua, (2) a orbe do Sol, (3) as orbes dos cinco planetas (todos na mesma concha esférica), (4) a orbe das estrelas fixas e (5) a orbe da “orbe que tudo abrange em que não há estrela” no quinta concha esférica. Finalmente, enfatizando o significado do número quatro, Maimônides divide o cosmos estrelado em quatro camadas esféricas concêntricas e deixa de fora a quinta camada esférica com a nona orbe sem estrelas. Na verdade, a nona orbe abrangente é omitida (embora sua existência não seja negada) no próximo capítulo (Guia II: 10), que discute a governança do mundo inferior por forças que emanam das esferas.

Até agora, Maimônides não se desvia substancialmente da abordagem padrão para a nona orbe dos primeiros filósofos naturais arabófonos, como al-Fārābı̄ e Ibn Sina. Até mesmo seu silêncio sobre a nona orbe no Guia II: (10) reflete seu status cosmológico problemático: por não ter estrelas, falta a razão de ser que justifica a existência dos outros orbes. No entanto, uma diferença clara pode ser detectada em relação à abordagem de Maimônides para o nono orbe no Guia, por um lado, e na LFT III, por outro: enquanto que no Guia Maimônides incorpora o nono orbe em sua forma “clássica” e não oferece nenhuma discussão técnica substancial sobre o assunto, em LFT III ele evidencia um interesse desproporcional no nono orbe e se refere a ele como um orbe sem estrelas dividido em doze signos nomeados com as doze constelações zodiacais. Como a abordagem diferente de Maimônides pode ser considerada? Uma possibilidade interessante é que Maimônides não se deu conta da cosmologia de quatro cascas esféricas concêntricas até depois da composição da Mishneh Torá. Esta cosmologia é uma grande inovação que essencialmente puxou o tapete debaixo dos pés da astrologia. Portanto, é possível que Maimônides tenha abandonado o argumento avançado na LFT III por pensar que havia encontrado um melhor, baseado na cosmologia de quatro cascas esféricas concêntricas.

Pós-escrito: O Nono Orbe dos Signos e o Universo de Dez Orbe antes de Maimônides

Como mencionado, o universo de dez orbe de Māshāʾallāh, em geral, e o nono Orbe dos Signos, em particular, eram amplamente conhecidos no mundo arabófono antes de Maimônides, particularmente entre intelectuais de origem judaica na Espanha muçulmana. Sete exemplos a seguir:

(1) O historiador e geógrafo al-Masʿūdı̄ (ca. 895-956), em Meadows of Gold and Mines of Gems, refere-se a um nono orbe sem estrelas, que ele chama de “Esfera do Zodíaco” e a “Esfera Universal”, e o descreve como envolvendo todas os outros orbes e girando de Leste a Oeste em um dia.

(2) Em uma de suas epístolas, o Ikhwān al-Ṣafāʾ (décimo século) postula um universo no qual o nono e último orbe, além de ser o orbe que tudo abrange, carrega os signos de um zodíaco abstrato em seu lado interno .

(3) Moses Ibn Ezra (ca. 1055 – ca. 1138), o filósofo, linguista e poeta espanhol, refere-se a um décimo orbe abrangente em “Be-shem ʾEl ʾasher ʾamar”, o poema introdutório ao seu Maqalat al -hadiqa (O Tratado do Jardim). Uma nota marginal em um manuscrito desta obra, nas mãos de Samuel Ibn Jami, rejeita a existência do décimo orbe e afirma que Moses Ibn Ezra extraiu o conceito de seu mestre Rabi Ibn Ghiyya e de AbūʿAlı̣̄ Hasan.

(4) Em sua polêmica obra Dialogus Petri et Moysi iudei, Moses Sephardi (início do século XII), mais tarde conhecido como Pedro Alfonso, um apóstata de Huesca que transmitiu a aprendizagem judaica e árabe à Europa latina, menciona explicitamente o universo de dez orbe e o nono orbe dos signos zodiacais.

(5) Abraham Bar Hiyya (ca. 1065 – ca. 1136), o matemático, astrônomo e filósofo, refere-se a três modelos cosmológicos em Ṣurat ha-ʾareṣ (A Forma da Terra). O primeiro, atribuído a “sábios filósofos”, inclui nove orbes: sete orbes para os sete planetas, um oitavo que é “a orbe dos signos zodiacais e de todas as estrelas fixas” e uma nona orbe sem estrelas que “impulsiona todos de Leste a Oeste em torno dos dois polos que estão no norte e no sul”. O terceiro modelo é o de oito orbe, endossado pelos astrônomos, que, de acordo com Bar Ḥiyya, “não levou em consideração o nono orbe, porque nenhuma prova ocular dele está disponível”. O segundo modelo é o universo de dez orbe, em que a décima esfera transmite o movimento diurno a todos os orbes abaixo dele e o nono orbe é chamado de “o orbe dos signos”.

(6) Abraham Ibn Ezra (1089–1161), o comentarista bíblico que produziu um grande corpus de obras astrológicas, apresenta os mesmos três modelos cosmológicos descritos por Bar Hiyya em Ṣurat ha-ʾareṣ. Nesse corpus ele vacila sobre a identidade e posição do orbe superior, identificando-o alternadamente com o oitavo orbe e o nono orbe. Mas em seu comentário sobre Salmos 8:4, ele menciona dez orbes e se refere ao nono como o Orbe dos Signos.

(7) Em um tratado árabe anônimo sobre as marés, composto na Espanha muçulmana em 1192, a nona orbe sem estrelas é dividida em doze signos.

The Fuzzy Borders between Astronomy and Astrology in the Thought and Work of Three Twelfth-Century Jewish Intellectuals

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Agradeço a Barbara Obrist, Gad Freudenthal e os dois revisores anônimos da Aleph (que mais tarde se revelaram Charles Burnett e BERNARD R. GOLDSTEIN), por seus valiosos comentários e sugestões sobre uma versão anterior deste artigo. Quaisquer erros neste artigo são de minha responsabilidade. Este trabalho foi financiado pela Fundação Científica de Israel (Grant 113/08).
© Aleph 12.1 (2012) (in Honor of Ruth Glasner)

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