Traduções

Giovanni Pico della Mirandola, astrologia e desejo

Mistérios da atração

α

H. Darrel Rutkin

Institute for the Study of the Ancient World, New York University
Studies in History and Philosophy of Biological and Biomedical Sciences 41 (2010)

υ

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

φ

Resumo

Embora em seus últimos anos Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494) rejeitasse veementemente a astrologia, ele usou-a anteriormente de várias maneiras, mas principalmente para fornecer mais evidências para posições para as quais ele havia chegado por outros meios. Um desses primeiros usos aparece em seu comentário sobre o livro de poesia amorosa de seu amigo Girolamo Benivieni, Canzone d’amore, de 1486-1487. Nas passagens discutidas aqui, Pico apresenta uma exaustiva análise da filosofia natural platônica baseada em uma profunda compreensão astrologicamente fundamentada na natureza humana enquanto tenta explicar uma questão perene, a saber, por que uma pessoa é atraída por uma determinada pessoa (ou pessoas), e outra para outras. Colocarei essa discussão sobre os mistérios da atração e do desejo em perspectiva histórica, traçando a relação cambiante de Pico com a astrologia durante o curso de sua curta, mas apaixonada vida, e numa perspectiva historiográfica revisando as opiniões ainda influentes de Frances Yates sobre a contribuição de Pico para o pensamento renascentista e sua relação com Marsilio Ficino.

1. Introdução

Uma das superestrelas do pensamento renascentista (aqui em nossa historiografia), Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494) atraiu muita atenção acadêmica, em sua maior parte voltada para fins profundamente ideológicos que afetariam profundamente nossa compreensão dessa extraordinária pessoa e seu trabalho, e não necessariamente para melhor. Da mesma forma, a astrologia também desempenhou um papel ideologicamente determinado nos seus discursos como veremos. Então, agarrando com precisão a interseção de Pico com a astrologia repleta de dificuldades, poderíamos abordá-la em algumas direções. Usei dois conjuntos direcionais de perguntas para abordar esta complexa problemática, em primeiro lugar, (a) qual é o papel da astrologia no pensamento de Pico, (b) como ele muda ao longo do tempo (relacionado a questões corolárias, (c) a astrologia e a magia e as outras nomeadas “ciências ocultas” e (d) a relação de Pico com Marsílio Ficino [1433-1499]). Em segundo lugar, qual é o impacto real do papel de Pico dentro da história da astrologia, principalmente a influência de seu extenso ataque multifacetado, a Disputationes adversus astrologiam divinatricem (Disputations against divinatory astrology), que foi publicado postumamente em 1496. Nesse artigo gostaria de indicar alguns dos resultados da minha pesquisa, e desmembrar o processo de certos emaranhados historiográficos. Ao fazê-lo, também adicionarei um pouco de cor à forma como entenderemos as visões de Pico sobre a astrologia. A história completa em toda a sua riqueza e complexidade continua a ser contada.

2. Historiografia

O estudo do pensamento de Pico relacionado com a história da ciência e a filosofia em geral, e a astrologia em particular, deve primeiro ser colocado num contexto historiográfico mais amplo. O ensaio seminal The civilization of the Renaissance in Italy,  em que ele criou o Renascimento como uma época cultural, Jacob Burckhardt deu a Giovanni Pico um breve papel, mas significativo. Burckhardt enfatizou duas características particulares do pensamento de Pico: seus pontos de vista sobre a dignidade do homem e suas opiniões sobre astrologia. Embora Burckhardt tratasse os dois assuntos muito brevemente, ele falou, no entanto, com grande autoridade. Depois de fazer a afirmação espantosamente imprecisa de que “diferenças de nascimento – perderam seu significado na Itália” durante o Renascimento como resultado direto da nova visão historicamente importante da humanidade e sua dignidade, Burckhardt dedicou um breve parágrafo à famosa Oratio de Pico sobre este tema, cuja importância ele caracteriza assim: “As mais elevadas concepções sobre esse assunto [humanidade] foram pronunciadas por Pico della Mirandola em seu discurso sobre a dignidade do homem, que pode ser justamente chamado de um dos mais nobres legados daquela grande época”.

Com relação às Disputationes de Pico, Burckhardt tratou o complexo texto de 320 páginas do mesmo modo, num breve parágrafo, em que afirma:

Pico della Mirandola… marcou época no assunto [astrologia] por sua famosa refutação. Sua principal conquista foi estabelecer, no quarto livro, uma doutrina positiva da liberdade da vontade e do governo do universo, que parece causar uma impressão maior nas classes educadas em toda a Itália do que todos os pregadores revivalistas juntos.

Burckhardt volta-se então para as especificidades da influência de Pico: “O primeiro resultado de seu livro [Disputationes] foi que os astrólogos deixaram de publicar suas doutrinas”. Independentemente da profunda imprecisão histórica de tais afirmações, são precisamente essas duas características de interpretação de Burckhardt sobre Pico que lançaram sombras imensas na historiografia.

Ernst Cassirer enfatizou esses mesmos temas (se delongando mais que Burckhardt) em sua influente interpretação do pensamento renascentista no The individual and the cosmos in Renaissance philosophy; que veio a ser sua formulação clássica. Cassirer fez afirmações igualmente exaltadas sobre Pico, mas concentrou-se mais sobre as características científicas e filosóficas do pensamento de Pico do que Burckhardt. Cassirer também enfatizou as Disputationes, argumentando também que ela fez época na história da ciência e da filosofia, especificamente (ou assim ele afirma), ao fornecer uma nova abordagem matemático-física para a ciência e introduzir novas visões fundamentais de princípios próximos (proxima principia) e causa verdadeira (vera causa): “O que Pico está dando aqui parece ser nada mais do que uma teoria filosófica da natureza”. Não só a ideia dominante da Oratio de Pico‘Na Dignidade do Homem ele encontra sua plena e pura expressão neste tratado [Disputationes], e, além disso, com a polêmica de Pico contra a astrologia, estamos em um terreno completamente novo. Com um golpe, ele destrói a esfera da influência da astrologia”.

É impressionante notar que declarações tão contundentes e inequívocas feitas por autoridades reconhecidas são influências que estão alinhadas nos séculos XX e XXI com as visões da cultura renascentista e que se mantêm consideráveis:

Burckhardt: “O primeiro resultado de seu livro [Disputationes] foi que os astrólogos deixaram de publicar suas doutrinas”.

Cassirer: “com a polêmica de Pico contra a astrologia, estamos em um terreno completamente novo. Com um golpe, ele destrói a esfera de influência da astrologia”.

Afirmações tão claramente autorizadas, e historicamente tão profundamente imprecisas! A evidência impressa somente a partir do dois séculos seguintes fornece tanta evidência ao contrário que seria um feito hercúleo de erudição dominar metade disso durante toda uma carreira ativa de estudante. Cassirer, de fato, apresentou evidências compensatórias para modificar a força ousada de sua afirmação duramente assertiva. Vale a pena destacar essa circunstância para mostrar como as principais distorções historiográficas surgem imediatamente com as primeiras declarações sobre o contexto da astrologia no pensamento e na cultura renascentista e a relação de Pico para elas.

Frances Yates propôs uma interpretação mais realista, mas ainda não muito precisa, ao colocar Pico na genealogia da Renascença nos capítulos quatro e cinco de seu seminal Giordano Bruno and the Hermetic tradition (1964). Sua narrativa ainda profundamente influente é construída em torno de dois temas fundamentais: (1) a relação da astrologia com as outras chamadas “ciências ocultas”, especialmente magia natural e cabala; e (2) o relacionamento de Pico com Marsílio Ficino. Em sua opinião, Pico simplesmente acrescentou a cabala à magia natural de Ficino, se baseando na astrologia e se orientando pela medicina. É importante esclarecer absolutamente as principais questões deste núcleo central historiográfico antes de nos voltarmos para o papel da astrologia no pensamento de Pico e seu desenvolvimento (ou não) no decurso da sua curta, mas apaixonada vida. Inicialmente abordarei os pontos de vista de Pico sobre a astrologia em relação às suas opiniões sobre magia e cabala.

Embora ainda exaltando a contribuição de Pico para o pensamento renascentista em termos dele fazer época, Yates estendeu a opinião de Cassirer, que ele era mais significativo nos domínios da ciência e da filosofia. Assim termina o seu influente capítulo sobre Pico:

O profundo significado do Pico della Mirandola na história da humanidade dificilmente pode ser superestimado. Ele foi quem primeiro ousadamente formulou uma nova posição para o homem europeu, o homem como Magus usando tanto a Magia como a Cabala para agir sobre o mundo, para controlar seu destino pela ciência. E em Pico, a ligação orgânica com a religião do surgimento do Magus pode ser estudada em sua fonte.

Yates transforma assim Pico num mago hermético renascentista, numa formulação provocativa e influente. Além disso, ao contrário de Cassirer, Yates não se concentra principalmente nas Disputationes, mas, sim, em suas 900 conclusiones anteriores, e, portanto, no aspecto da magia-cabalista de seu pensamento.

Uma vez que, as opiniões de Yates ainda são amplamente difundidas, é necessário investigá-las mais a fundo. Tem parecido problemático – pelo menos aos historiadores e filósofos da ciência – que Pico pudesse abraçar tanto a magia natural quanto uma forma cristianizada da cabala tão aberta e enérgica (e em plena harmonia com sua filosofia do homem), por um lado, e rejeitar a astrologia (outro ciência oculta e hermética – nesta perspectiva) com grande veemência, por outro. Este problema surge mais incisivamente em Giordano Bruno de Yates, no qual ela apresenta um modelo de duas etapas para a revolução científica. A primeira fase é a fase hermética, onde o homem como mago é remodelado como um protocientista, aquele que, munido da nova visão do homem e de sua dignidade, voltou sua vontade, significativamente, para envolver-se diretamente com o mundo. É neste contexto que Yates evoca o trecho a Pico citado acima. A segunda etapa é a pós-Bruno período de verdadeira ciência físico-matemática, onde toda a superestrutura animista hermética foi despojada, deixando apenas um esqueleto e uma musculatura matemática-mecânica.

A primeira parte da sua reconstrução do ‘magus protocientífico‘ culmina na ativação prometéica de Pico e sua nova relação da vontade do homem com o mundo. Para resolver aqui a aparente contradição no pensamento de Pico, o que é mais relevante é a relação intelectual que Yates constrói entre os pontos de vista de Marsilio Ficino sobre a magia natural e os de Pico. Ela apresenta  pela primeira vez sua análise da magia de Ficino como ele a desenvolveu mais plenamente no terceiro livro do De vita (1489), intitulado De vita coelitus comparanda, com sua filosofia natural astrológico-mágica e seus objetivos psicológico-médicos. Pico então, na visão de Yates, simplesmente acrescentou a cabala à medicina astrológica se baseando na magia natural de Ficino.

O problema interno ao pensamento de Pico surge quando se considera que ele escreveu as obras relevantes para a visão de Yates, as 900 conclusiones, a Oratio De Hominis Dignitate e a Apologia, durante seu período inicial extremamente ativo, 1486-1487. Quando nós então tomamos conhecimento que a última obra de Pico – que ele escreveu nos últimos dois anos de sua vida, 1493-1494 – foi um extenso, multifacetado, ataque intensamente crítico à astrologia, as Disputations against divinatory astrology, surge um problema: será que a visão de Pico mudou radicalmente de uma posição pró-astrológica anterior ao seu contrário, talvez sob a influência notoriamente anti-astrológica de Girolamo Savonarola? Ou melhor, os dois conjuntos de ideias podem ser reconciliados de alguma outra forma que possa preservar uma interpretação unificada do pensamento de Pico?

Seja qual for a opinião que pareça mais provável – Yates escolhe a última – ambas surgem em resposta a um equívoco porque a compreensão das circunstâncias originais é imprecisa. O que quero dizer é que Yates caracterizou as opiniões da magia de Pico se fundamentando numa base textual muito exígua, exclusivamente as 900 conclusiones, um texto composto explicitamente para ser obscuro à maneira dos mistérios antigos. Em sua reconstrução, Yates primeiro estabelece que existe uma núcleo, como na magia de Ficino, com base em alguns dos elementos mágicos e conclusões órficas. Então ela vai mais longe e distingue a magia de Pico como muito mais poderosa, com seus novos motores cabalísticos turboalimentados. Quando os textos usados ​​por Yates para sua reconstrução são examinados de perto, no entanto, descobre-se que ela preencheu os detalhes de sua reconstrução ampliando as declarações enigmáticas de Pico das Conclusiones com um material aparentemente mais desenvolvido semelhante ao De vita  de Ficino. Isso permitiu que ela concluísse: ‘A magia natural de Pico é, portanto, ao que parece, provavelmente igual à magia de Ficino, usando simpatias naturais, mas também imagens e signos mágicos…”.

γ

Esta metodologia pareceu tão inerentemente razoável e plausível que aparentemente nunca foi examinada criticamente. Mas quando esses pressupostos – que se baseiam em um princípio implícito de interpretabilidade mútua entre o pensamento de Ficino e Pico, e que se fundamentam em suposições adicionais sobre o teor dessa relação intelectual – não são abraçados, o que resta na memória de Pico são os esboços do pensamento, ou sugestões para uma visão da magia notavelmente diferente em conteúdo e estilo do que a visão imagética de Ficino. A visão de Pico é totalmente mais austera, e com objetivos cristãos-apologéticos explicitamente pronunciados. Quando se caracteriza a magia de Pico, então, parece correto chamá-la de kabalística, como Yates faz propriamente. Esta característica distintiva realmente dá um tom e uma estrutura diferente da de Ficino, que não tem kabbalah, mas que tem uma grande dose de astrologia e também uma finalidade médica, nenhum dos quais Pico tem. A magia de Pico é muito mais de orientação religiosa. Como mostrei alhures, seja qual for a estrutura mais profunda existente na visão mágica de Pico, dificilmente se chamaria astrológica em qualquer sentido normal, muito menos – e este é o ponto – semelhante a visão de Ficino. De fato, em seus primeiros trabalhos, Pico parece ter tentado reformar a astrologia em suas raízes, substituindo o sefirot cabalístico pelos planetas.

Em vez de um quadro geral de desenvolvimento, onde Pico faz uma importante contribuição ao adicionar a cabala a uma magia natural astrológica estabelecida por Ficino, parece, em vez disso, serem duas magias naturais diferentes, mais propriamente tradições concorrentes que estão se desenvolvendo. Esta conclusão é corroborada quando examinamos outra característica confusa da apresentação de Yates, que apoia sua genealogia, mas é profundamente problemática. No Capítulo Quatro de seu Giordano Bruno, Yates apresenta a visão de Ficino sobre magia natural em sua forma mais desenvolvida, isto é, no De vita, que foi publicado em 1489. No Capítulo Cinco ela apresenta as visões mágico-cabalistas de Pico – que foram todas escritas (e algumas publicadas) em 1486-1487 nas Conclusiones, Oratio e Apologia – como se tivessem sido escritas diretamente em resposta à obra de Ficino, ‘que foi publicada dois anos depois’. Ela usa uma terminologia explícita, embora ela anote alhures as datas apropriadas das obras pertinentes. Uma reconstrução historicamente mais provável seria que o De vita de Ficino teria sido escrito em resposta às opiniões de Pico, talvez, como uma tentativa de explicar, em uma direção muito diferente, o que Pico havia escrito de um modo tão evocativamente enigmático. Poder-se-ia então ler a Disputationes (Bolonha, 1495) de Pico como uma réplica severamente crítica ao De vita de Ficino e, portanto, às características mais fundamentais de seu sistema astrológico-mágico.

Além disso, e num contexto temático ligeiramente diferente, Paola Zambelli tratou alguns dos trabalhos anteriores de Ficino que discutem magia, especialmente (1) seu Libro d’amore (1469), que ele mesmo traduziu para o latim em 1474 e publicado em 1484 (na Editio princeps de sua tradução latina dos Diálogos de Platão) como um comentário sobre o Banquete de Platão, e (2) sua Theologia Platonica (1482). Zambelli apresenta textos que mostram a discussão de Ficino sobre magia profundamente incorporada ao tema do Banquete de Platão, a saber, o Amor. Como ao que parece, o primeiro trabalho aprofundado de Pico, escrito entre 10 Maio de 1486 (quando ele sequestrou Margherita notoriamente) e 10 de novembro de 1486, foi precisamente sobre este assunto, vestido como um comentário sobre Canzone d’amore de seu amigo Girolamo Benivieni. O ‘comentário’ é na verdade um agrupamento de três trabalhos diferentes em andamento, nenhum deles que tivesse sido completado: (1) uma ‘teologia poética’, (2) um ‘comentário sobre o Banquete‘, e (3) um ‘Tratado sobre o amor’. Pesquisas recentes revelaram que a versão original continha uma extensa e acalorada crítica das opiniões de Ficino.

Considerando que as visões de Ficino sobre a magia estão tão profundamente conectadas com suas visões sobre o amor, é um tanto surpreendente que os estudos sobre a magia de Pico e sua relação com a de Ficino não tenham possíveis ramificações investigadas sobre o Commento. Este assunto é ainda mais importante porque o comentário de Pico ao poema de Benivieni foi escrito no mesmo período em que ele estava compondo as 900 conclusiones, e enquanto ele estava mais ativamente engajado no estudo da cabala, que, como Yates mostrou, está intimamente ligado à magia de Pico e é sua contribuição particular. Discutirei uma passagem interessante do Commento de Pico abaixo.

Se um dos nossos objetivos, então, é compreender com precisão a relação entre o pensamento de Pico e o de Ficino, seja qual for essa relação, torna-se metodologicamente imperativo que não pressuponhamos primeiro o teor dessa relação. O que quero dizer é que tem havido uma tendência generalizada entre os acadêmicos para usar passagens da obra de Ficino para interpretar passagens obscuras no Pico, e vice-versa, amplificando a passagem subinterpretada com uma passagem aparentemente semelhante nos escritos um do outro. Se quisermos compreender o pensamento integrado de qualquer um (ou ambos), devemos simplesmente abandonar este princípio de interpretabilidade mútua, cuja base é uma compreensão na relação de Ficino e Pico, onde Ficino é o professor e Pico, o aluno, de tal forma que as suas ideias refletem uma grande semelhança de perspectiva.

Manter uma visão tão direta está se tornando cada vez mais insustentável à luz dos melhores estudos recentes. De fato, a melhor maneira de entender sua complexa relação intelectual é como a de um confronto intelectual altamente competitivo, na maioria das vezes antagônico. Sob essa luz, então, qualquer visão de seu relacionamento que permita o pensamento de um ser interpretado pelo do outro sem uma uma leitura contextual matizada estaria aberta a graves objeções. O que quer que Pico quis dizer nas profundezas de sua misteriosa visão, foi em vários aspectos essenciais notavelmente diferente do que Ficino quis dizer quando usou os mesmos termos, especialmente, magia e astrologia.

Devemos agora abordar o complexo e difícil problema de se o pensamento de Pico se desenvolveu ou não e, em caso afirmativo, como. Giancarlo Zanier fornece um quadro de resultados das diferentes posições. Concentrando-se na evidência astrológica, Zanier o divide em três grupos: o primeiro grupo compreende aqueles estudiosos que defendem a visão de uma evolução no pensamento de Pico, mas discordam de sua avaliação (Thorndike, Di Napoli). Os outros dois grupos apoiam a continuidade do pensamento de Pico, mas chegam a conclusões opostas. O segundo grupo vê nas Disputationes uma defesa da astrologia ficiniana, convencido de que Pico também havia aceitado uma concepção astrológica do mundo em seus primeiros escritos (Walker, Yates). O terceiro grupo, finalmente, convencido de que a Disputationes fornece uma refutação da astrologia, também encontra evidência de tal refutação em seus primeiros trabalhos (Garin). Zanier concentra sua própria análise do tratamento da astrologia nos primeiros trabalhos de Pico como o pano de fundo necessário para seu estudo posterior da astrologia nas Disputationes. Ele conclui (1) que Pico abraça uma visão semiológica da astrologia, a saber, que os céus são sinais e não causas, seguindo as autoridades neoplatônicas, e (2) que a astrologia é idêntica à cabala no pensamento de Pico. Para seu crédito, Zanier afirma clara e explicitamente a dificuldade de interpretar as teses de Pico.

A questão da evolução ou desenvolvimento do pensamento de Pico pode também ser analisada em termos das suas opiniões sobre magia. Farmer enquadra a questão nestes termos, e refine-a de forma interessante e maneiras úteis. Entre outras coisas, ele defende a continuidade do que ele chama de visões cosmológicas mais amplas, ao mesmo tempo que indica profundas transformações em sua aplicação na prática mágica, ou pelo menos em sua expressão. Sua análise se confunde, no entanto, ao identificar as questões cosmológicas, como a natureza do caelum no Pico, com questões metafísico-ontológicas, como nos fundamentos da metafísica proclina.

Embora Farmer considere que a estrutura cosmológica permanece exatamente a mesma, ele considera que há fortes evidências para uma mudança na visão de Pico sobre a magia. Farmer pensa, no entanto, que a retórica explicitamente antimágica das Disputationes é na verdade, um encobrimento para uma visão profundamente pró-mágica contínua, como se encontra nas Conclusiones, que Pico já não se sente à vontade para expressar abertamente. Farmer vai mais longe, alegando repetidamente que os textos publicados na Opera omnia de Pico de 1496 reflete significativamente o sobrinho de Giovanni, a pesada mão editorial de Gianfrancesco Pico. Conspirou assim para suprimir, sob a orientação ideológica de Savonarola, a verdadeira intenção do pensamento ainda profundamente mágico de Giovanni Pico. Embora Farmer apresente evidências intrigantes nessa direção, sua análise, nesta direção, nos deixa querendo uma explicação muito menos complicada. É claro que um certo nível de incerteza sempre permanecerá na interpretação desses textos.

A questão do desenvolvimento (ou não) do pensamento de Pico é complexa e difícil. Embora esse assunto tenha sido formulado até agora em termos de astrologia ou magia como o foco (onde pressupostos sobre a relação entre ambas como foco principal são invariavelmente importados, geralmente inconscientemente), parece heuristicamente mais sensato abordar a questão tanto com a astrologia quanto com a magia como focos interpretativos. Se se historicizar a configuração  particular dos pontos de vista de Pico num momento específico com base em textos coevos, então, ao comparar outros textos com suas opiniões assim estabelecidas, podemos chegar a uma interpretação mais precisa de continuidades e/ou transformações. Os textos de 1486-1487 (Conclusiones, Oratio, Apologia – e o Commento) fornecem a maioria das evidências para seus primeiros trabalhos; as Disputationes (1493-1494), é claro, fornece a evidência primária para suas opiniões posteriores. Também explorei a importante intervenção do Heptaplus (1489). No que se segue, tentarei ampliar nosso entendimento discutindo outras evidências para as primeiras de visões da astrologia de Pico que geralmente não são levadas em conta, a saber, na sua Commento sopra una canzone d’amore de Girolamo Benivieni, e um dos seus primeiros poemas, com o qual começarei.

3. Astrologia e desejo

Pico oferece algumas ideias surpreendentes em um poema antigo, no qual ele representa seu próprio horóscopo natal em dísticos elegíacos. Ele descreve principalmente o governo de cada casa mundana em ordem, da primeira a décima segunda, revelando assim um conhecimento alfabetizado básico astrologia, mas nenhum conhecimento profundo ou especializado. Essas são apenas descrições poéticas, geralmente com uma ressonância mitológica. Embora não há análise astrológica dessas regências de casas, ele revela alguns conhecimentos básicos; por exemplo, que Marte rege Escorpião e que a oitava casa rege a morte. Ele também menciona onde alguns dos planetas estão localizados dentro dessa estrutura de casas, sem, no entanto, discutir seu significado astrológico. Pico também se refere ao Meio do Céu (transformando-o com um floreio humanístico em medio Olympo), que, junto com o signo ascendente ou Ascendente é o ponto mais significativo em um horóscopo. Da mesma forma, não há interpretação do que Câncer ali significa. O que temos então é a descrição poética competente de Pico (sem interpretação) das características mais básicas de seu próprio horóscopo. Felizmente, parecemos possuir a próprio horóscopo, que aparentemente foi elaborado por Girolamo Benivieni, autor dos poemas que Pico interpreta no Commento.

Há também uma passagem significativa anterior no mesmo poema autobiográfico, que parece indicar as próprias opiniões de Pico sobre astrologia. Se o interpretarmos dessa maneira, surge uma imagem surpreendentemente diferente do que se esperaria das interpretações padrões de seu pensamento. A forma como lemos esta passagem em relação às opiniões do próprio Pico, então, poderia desempenhar um papel importante na avaliação das mudanças posteriores de seu pensamento.

Neste poema autobiográfico (ou pelo menos autorreferencial), Pico apresenta uma visão da relação do homem com o mundo que nega explicitamente o livre-arbítrio!

Cogimur, est animo maior vis indita nobis,
Quae negat arbitrio vivere quemque suo.

Somos compelidos, há uma força maior a nós do que a mente,
Que nega a alguém de viver de acordo com sua vontade.

“Somos compelidos”, ele começa; ‘há uma força maior a nós do que a mente (animus), que nega a alguém de viver de acordo com sua vontade’, seu próprio arbítrio. Além do surpreendente sentimento expresso aqui, a terminologia talvez seja ainda mais impressionante. A negação do livre arbítrio (liberum arbitrium), juntamente com um determinismo estrito, são as duas principais características que uma astrologia legítima deve evitar. Stat fati series; stat non mutabilis ordo; stant leges: dificilmente se poderia pedir por uma linguagem mais clara em prosa ou poesia! Pico apresenta aqui uma visão de mundo extremamente fatalista, onde cada pessoa é explicitamente e enfaticamente negada a liberdade da vontade e a sua concomitante liberdade de escolha, e isso pelo suposto avatar da dignidade do homem!

A questão central é, obviamente, como avaliar as opiniões expressas aqui. Devemos tomá-las como uma declaração séria das suas opiniões ponderadas sobre a natureza da vida humana, ou meramente como um exercício do gênero, popular na época, da astrologia? De fato, se nos voltarmos para a primeira seção deste poema astrológico ‘autobiográfico’, podemos determinar seu gênero, que fornecerá a chave para sua interpretação. Este é um poema de amor (uma elegia erótica), um gênero geralmente não conhecido pela veracidade de qualquer tipo. De fato, em tal poesia as convenções de autorrepresentação são muitas vezes profundamente subvertidas. Dada a natureza carnavalesca da poesia erótica, então, faz sentido interpretar o conteúdo de Pico aqui como lúdico, uma inversão de suas próprias crenças acalentadas. Independentemente disso, Pico levanta alguns temas interessantes, que ele explora com maior profundidade ao interpretar a poesia amorosa de seu amigo, a qual nos voltaremos agora.

O outro texto que desejo tratar vem do Commento e equivale a um pequeno discurso sobre as naturezas relativas do amor divino e terreno. Pico aqui explica um dos grandes mistérios da vida humana: o que leva uma pessoa a ser atraída por outra? Sua análise fornece a base para sua interpretação da sexta estrofe da Canzone d’amore de Benivieni. A descrição de Pico é bastante completa, e no processo ele trata o material aparentemente astrológico como os encontrados nos escritos platônicos.

Embora possam surgir problemas de interpretação sobre o que (se houver) dessas opiniões que o próprio Pico adotou, elas certamente fornecem informações interessantes sobre seu conhecimento de astrologia, ou pelo menos de seus fundamentos filosóficos naturais. Como eu mostrei alhures, as passagens analisadas aqui fornecem uma contrapartida platônica a uma análise aristotélica da filosofia natural da astrologia dos fundamentos desenvolvidos pelo menos desde meados do século XIII, como encontrado em Albertus Magnus e outros. Essas passagens também são de interesse porque Pico discute questões relacionadas a influências que ele também discutiu no Heptaplus de 1489 e no Disputationes adversus astrologiam divinatricem, ambas parecem claramente representar seus próprios pontos de vista sobre esses assuntos.

Existem várias passagens astrologicamente relevantes no Livro Três, Capítulo Seis, que trata da psicológica interna a partir da ascensão terrestre à celestial de Vênus, um tema essencialmente platônico. As duas primeiras passagens ocorrem numa discussão que configura a análise da sexta estrofe de Benivieni. A questão levantada interessa a um filósofo do amor, a saber, por que uma determinada pessoa é atraída mais pelo amor de uma pessoa do que pelo amor de outra. Pico afirma que é preciso primeiro saber que:

entre as almas humanas (fra l’anime umane), os platônicos dizem que algumas são da natureza de Saturno, outras [natureza] de Júpiter, e, portanto de outros planetas, e elas pretendem com isso que um alma tenha mais afinidade natural (cogniazione) e semelhança de forma (conformità) com a alma do céu de Saturno (con l’anima del cielo di Saturno) do que com a alma do céu de Júpiter, e a outra [alma] o oposto.

Pico completa o ponto com referência ao Timeu de Platão:

A razão é simplesmente que uma alma é de um tipo de natureza, e outra alma é de outra. Não há outra causa intrínseca que possa ser dada para isso. A causa extrínseca e eficaz (estrinseca ed effettiva causa) dos fenômenos é a mesma que produz as próprias almas, isto é, o criador do mundo (l’opifice del mondo). Platão diz no Timeus  que ao semear sementes (spargendo semina), o criador plantou algumas almas na lua e outras em outros planetas e estrelas, que Platão chama de “os instrumentos do Tempo”.

Aqui Pico estabelece a afirmação dos platônicos de que algumas almas são da natureza de Saturno e outras da natureza de Júpiter, e para isso ele dá uma análise que se baseia em uma interpretação do pensamento de Platão no Timeu. Os platônicos baseiam sua visão no fato de que algumas almas têm mais afinidade com a alma do céu de Júpiter, e outras, da mesma forma, com as almas dos outros planetas. Essa visão dos céus como animado está certamente de acordo com a posição de Pico no Oratio, embora aqui esteja ainda articulado que cada planeta tem sua própria alma. Além disso, a última frase, spargendo semina, é muito semelhante a uma passagem na conclusão mágica 9>5, onde Pico afirma que as virtudes, que foram separadas como semente nos céus e na terra, podem ser reunidas pelo mago: ‘Nulla est virtus in caelo aut in terra seminaliter et separata, quam et actuare et unire magus non possit’. Parece, portanto, haver uma afinidade entre essas visões articuladas mais plenamente e as de Pico expressas nas Conclusiones, mas elas são explicitamente apresentadas no Commento como os pontos de vista dos platônicos.

Note-se ainda que o próprio Pico menciona o seu próximo debate na primeira parte deste capítulo, assim explicitamente indicando a contemporaneidade do Commento com o Oratio e Conclusiones:

E muitos peripatéticos, especialmente os latinos, acreditaram e [atualmente] acreditam que nossa alma, unida ao corpo, não pode ascender a um conhecimento mais perfeito, o que demonstraremos em nosso ‘conselho’ ser profundamente diferente da visão de Aristóteles e praticamente todos os peripatéticos árabes e gregos.

É claro que esse ‘conselho’ nunca se realizou.

Pico apresenta, então, o segundo pré-requisito para interpretar adequadamente o poema de Benivieni. Além de incluir duas passagens explicitamente astrológicas, ele também fornece uma articulação adicional dos fundamentos filosóficos naturais para o primeiro ponto. Vale a pena examinar este texto em cada detalhe. Para deduzir o primeiro ponto, Pico estabeleceu que as almas têm naturezas diferentes por terem sido semeadas nas almas de diferentes planetas. Neste segundo texto, ele descreve como a alma racional, ao descer de sua estrela (ou planeta), forma seu corpo terrestre por meio de um veículo celeste. Devemos examinar o segundo princípio e sua elaboração por duas razões principais: primeiro, fornece uma visão do fundamento filosófico da astrologia platônica; em segundo lugar, algumas das ideias platônicas aqui apresentadas são notavelmente semelhantes às ideias que o Pico apresenta como suas em Disputationes III, 4 e em seguida.

Em segundo lugar, deve-se saber que (a) a alma está conectada diretamente (sem meio) com o veículo celeste (l’anima imediatamente al veiculo celeste), e (b) que o veículo celeste, então, é o meio que liga o corpo terrestre e corruptível (e mediante quello al corpo terreno e corruttibile). Pico desenvolve esse ponto de vista, que ele decalra explicitamente que Benivieni segue. Alguns Platonistas sustentam a opinião:

que a alma racional (l’anima razionale) ao descer de sua estrela (descendendo dalla stella sua) se forma (lei stessa formi, sc. por meio do veículo celeste) no corpo terrestre que (lei, a anima razionale) tem que governar.

Logo, a alma usando o veículo celeste forma o corpo. Para completar esta passagem, Pico afirma diretamente que o poeta fundamenta-se nesses dois princípios que acabamos de articular:

 em imaginar que no veículo da alma que desce (nel veiculo de l’anima che descende, sc. o veicolo celeste) – que foi vivificado por ela (lei, a anima razionale) com a potenzia com o qual forma o corpo terrestre – há uma virtude formativa do corpo corruptível infundida por sua estrela, e de acordo com a sua descendência desta ou daquela estrela, recebe assim uma virtude de formação diferente (virtù diversamente formativa).

A alma, então, semeada em um determinado planeta, forma seu corpo terrestre por meio do veículo celeste, qualquer que seja precisamente. O ponto central aqui, e aquele que fornece os fundamentos filosóficos naturais platônicos da astrologia, é que a virtude formativa é infundida por sua própria estrela, e que cada estrela infunde uma virtude que forma corpos de maneiras diferentes.

Tendo fornecido esta análise, Pico agora oferece exemplos astrologicamente relevantes. O primeiro diz respeito aos fisiognomistas, que leem o caráter da alma a partir de sinais corporais:

De onde os fisiognomistas dizem que tal homem tem uma aparência lunar, outro solar, outro mercurial, outro jovial, outro saturnino, outro marcial, e por sua aparência, eles [os fisiognomistas] julgam a alma daquele ser de uma natureza similar, o que se ajusta bem à opinião do poeta.

A visão dos fisiognomistas, então, dá suporte à análise de Pico. No seu próximo passo, no entanto, a discussão se torna mais interessante:

Mas porque a matéria aqui embaixo nem sempre é obediente ao que se forma e se estampa, portanto, a virtude da alma não pode sempre expressar a aparência que gostaria em um corpo terreno, de onde resulta que pode haver duas pessoas joviais que são diferentes em sua aparência, porque a situação da concepção de uma estaria diferentemente disposta a receber essa figura da alma do que a situação de outra.

Neste exemplo, duas pessoas são de temperamento jovial, isto é (em sua análise anterior), suas almas descendem cada uma de Júpiter, mas, como a matéria de cada indivíduo recebe sua forma de modo diferente, duas pessoas joviais podem ter aparências diferentes.

Pico apresenta aqui uma análise filosófica platônica da geração para explicar as opiniões incorporadas no poema de seu amigo. Esta análise é semelhante em estrutura ao aristotelismo do século XIII: as causas eficientes e materiais respondem coletivamente para diferenças individuais, a causa formal explica as semelhanças estruturais que cada membro de uma espécie compartilha. A causa eficiente para os platônicos – como para os aristotélicos – é diretamente relacionados com os diferentes planetas. Aqui a opifice del mondo, de Platão demiurgo, lança almas diferentes em planetas diferentes, que então informam o fabrico de cada corpo terrestre. A diferença na matéria, então, diferencia ainda mais cada indivíduo, na medida em que a matéria particular de um indivíduo recebe até as mesmas influências planetárias de modo diferente. Reconstruí em detalhes noutros locais o aristotelismo astrológico, por outro lado, a configuração particular de todos os planetas em seus vários signos zodiacais e em suas relações particulares uns com os outros ao nível do nascimento de cada indivíduo (junto com a matéria e o lugar) diferenciam cada indivíduo. Aqui, então, está uma concepção profundamente diferente de como o planetas influenciam os seres humanos individuais. De fato, a maioria dos aristotélicos tendia a remover a alma inteiramente das discussões de influências planetárias, concentrando-se em efeitos planetários sobre os corpos.

Independentemente disso, o próprio Pico não endossou explicitamente nada disso como sua própria opinião; antes, as opiniões expressas aqui são explicitamente as dos platônicos, dos fisiognomistas ou do próprio poeta. Assim, elas podem ou não refletir as próprias opiniões de Pico. Existe parece ser uma coerência, no entanto, com outras de suas opiniões centrais (examinado em outro lugar), o que me leva a concluir provisoriamente que essas reflexões sobre o poema de seu amigo também indicam seu próprio ponto de vista também. De qualquer forma, elas certamente indicam o conhecimento de Pico sobre os argumentos e análises filosóficas platônicas com conotações fortemente astrológicas.

A última passagem astrológica também está no domínio filosófico, em que Pico discute as opiniões dos platônicos sobre a descendência de almas. A análise está diretamente relacionada a um verso da poesia de Benivieni:

Dalla più eccelsa parte
Ch’alberghi el sol …

Desde a parte mais alta
Onde o sol vive …

Ou seja, do signo de Câncer, [entre todos os doze signos do Zodíaco, acima do nosso empíreo mais alto, ou seja, mais elevado], e é a opinião dos platônicos que dizem que a alma desce por Câncer e ascende por Capricórnio; e eu acredito que este é o seu fundamento, porque Câncer é a casa [celestial] da lua, cuja virtude rege especialmente o vegetativo, parte do corpo que dá vida, e Capricórnio é a casa de Saturno, regendo a contemplação, da qual a alma pode sair livremente do corpo.

Sobre essa passagem, Zanier conclui que as referências da teoria astrológica de Pico aqui são ‘piuttosto precisi’, e elas certamente conta-nos algo sobre seu conhecimento de astrologia, incluindo seus fundamentos filosóficos naturais. De fato, seu conhecimento filosófico parece estar em um nível mais avançado do que seu conhecimento da prática astrológica técnica. Infelizmente, não está claro qual esses pontos de vista o próprio Pico endossa.

4. Conclusão

Passarei agora a rever brevemente alguns dos resultados mais significativos da minha ampla investigação sobre os primeiros conhecimentos e pontos de vista de Pico sobre astrologia. Parece claro que ele tinha conhecimento suficientemente adequado da astrologia para ler e escrever poesia com motivos astrológicos. Suas próprias opiniões sobre astrologia, por outro lado, são menos Claro. O conhecimento da astrologia que Pico revela é elementar. Ele parece ter tido uma boa compreensão das regências planetárias, e uma consciência da estrutura básica dos pontos principais de um horóscopo natal, ou seja, o Ascendente e o Meio do Céu. Não há indicação, no entanto, que ele poderia realmente interpretar (quanto mais construir) um horóscopo para além do que suas características mais básicas, ou seja, o que o planetas representam e quais signos governam quais casas mundanas.

Uma área mais interessante de seu conhecimento parece ser uma compreensão dos fundamentos filosóficos naturais platônicos da astrologia, onde o universo é animado (com alma), e onde cada céu planetário tem sua própria alma que de alguma forma condiciona fundamentalmente as almas ali semeadas. Além disso, uma posição sobre como o trabalho dos céus com respeito à geração foi articulado, envolvendo almas, veículos celestes, virtudes formativas e a geração de corpos terrestres. Para antecipar alguns importantes desenvolvimentos, porém, não se fala em spiritus ou lux (como encontramos no Heptaplus), nem, especialmente, do calor celeste (caelestis calor), que ele acrescenta ao spiritus e lux nas Disputationes. Este conhecimento dos fundamentos filosóficos naturais platônicos da astrologia, então, parece muito mais sofisticado do que seu mais elementar conhecimento de prática astrológica.

Pico, no entanto, não enfatiza as características astrológicas por conta própria. Em vez disso, ele usa exemplos e argumentos astrológicos quase que exclusivamente para apoiar posições vindas de outras direções. Com base nas evidências que examinei aqui e em outros lugares, então, eu inicialmente caracterizo Pico como basicamente neutro sobre astrologia – é uma parte do domínio do aprendizado que ele vê como fonte de apoio, talvez ocasionalmente oferecendo uma nova visão em como pensar sobre algo. Não parece, porém, ser uma área de particular interesse, estudo ou ênfase, ao contrário de kabbalah e magia, sobre a qual ele é perfeitamente incandescente com entusiasmo. Essa configuração, no entanto, estava sujeita a alterações sobre a vida de Pico. Nas Disputationes, é claro, Pico ataca explicitamente e com veemência a astrologia, a respeito da qual agora alcançou algum conhecimento especializado; ele também ridiculariza explicitamente os mágicos, cabalistas e os prisci, e desvalorizou completamente a magia, removendo-o do centro de seu foco. Ele também se voltou a uma direção mais aristotélica desde 1491 com De ente et uno, e mais desenvolvido nas Disputationes. Ainda há muito trabalho a ser feito tanto no estudo do pensamento de Pico dentro de seus contextos relevantes e sobre a história da astrologia antes de uma interpretação totalmente satisfatória da relação de Pico com a astrologia que pode ser oferecida.

α

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