Astrologia na Medicina e Psicologia

A Medicina Astrológica

Théophile Perrier

Faculté de Médecine et de Pharmacie de Lyon

Tese apresentada publicamente em 15 de novembro de 1905
Para obtenção do grau de doutor em Medicina

υ

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

φ

Introdução

Ao médico, mais do que a qualquer outro, deve-se aplicar este famoso verso de Terence:

Homo sum, nil humani a me alienum puto.

(Nada do que é humano me é estranho)

Não é a medicina, de fato, a ciência por excelência? Ela acolhe o homem em seu berço e o conduz até o túmulo; nada que toque o organismo humano, o desenvolvimento deste organismo, a evolução física e moral do homem, é estranho a ela. Os fenômenos primordiais da vida, a biologia normal e patológica, ela mesma, a inevitável morte, não é um objeto de estudo para ela?

É com a convicção de que o médico não deve se limitar exclusivamente ao seu papel um tanto mundano de cuidar fisicamente dos enfermos, mas ainda ser um homem de ciência, um erudito, que abordamos este breve estudo da medicina astrológica.

Este título original pode fazer os leigos sorrirem, mas pensamos que nada que interessa ao homem e à humanidade ao longo dos séculos deve ser ignorado pelo médico. No começo, as ciências abstratas reinaram em absoluto: matemática, mecânica, astronomia, etc. A medicina é uma arte empírica que se beneficiou de todas essas ciências. Hoje, graças ao aperfeiçoamento dos métodos de investigação, um vasto campo é aberto diante dela; a fisiologia e a biologia orientam seu curso; a ciência descende da abstração, torna-se concreta. A astronomia estendeu seus raios às principais concepções intelectuais da humanidade: filosofia, religião, história da terra e da raça humana, geologia, física do globo, geografia, medicina. A medicina astrológica é quase tão antiga quanto o próprio homem; sem dúvida teve um tratamento diferenciado na pré-história. A Antiguidade deixou-nos documentos bastante completos, a Idade Média e os tempos modernos não são menos ricos em trabalhos de todos os tipos relativos à medicina e às ciências celestiais; os praticantes mais famosos têm sido seus fortes apoiadores. Naturalmente, os espíritos foram turvados pelas mais tolas superstições, mas seria inadmissível fingir que o consenso geral foi grosseiramente enganado durante tantos séculos. O erro, como já foi dito, jamais é universal.

Neste trabalho, após pesquisar as origens da medicina astrológica, nós nos propomos a estudar sua evolução através dos tempos.

Vamos enfatizar no ensino oficial que foi dado na França nas principais cadeiras, e particularmente em Paris, onde ela foi especialmente honrada do Renascimento ao século XVIII. Buscaremos os motivos que, assim, instigaram os cientistas a acreditar nas influências celestes, na ideia que formaram dela e no objetivo que esperavam alcançar. Finalmente, examinaremos qual é o estado atual da questão; veremos os pontos que podemos manter, os muitos erros que devem ser rejeitados.

Este estudo demandou muito trabalho e tempo; os elementos estavam muito dispersos e tivemos que fazer um esforço de compilação diligente para acumularmos o conjunto de fatos e observações que apresentamos. Orientado pelos conselhos de nosso mestre, Professor Lacassagne, que nos proporcionou ideias veementemente originais de sua vasta erudição, esperamos ter alcançado a meta que nós propusemos. Nossa tarefa ainda é muito imperfeita. A estrutura restrita que contem este estudo não nos permitiu dar todos os desenvolvimentos comportados; vamos apenas tentar destacar os pontos importantes desta questão tão interessante.

Agradeço ao professor Lacassagne pela amável atenção que nos deu em seu laboratório; ele sempre nos recebeu com a maior afabilidade, colocando à nossa disposição suas ricas coleções de livros impressos e manuscritos, pelos quais somos respeitosa e sinceramente gratos.

II

A medicina astrológica sofreu desde o seu início uma evolução lenta e profunda. Livre dos ritos da astrolatria caldaica e assíria, a encontramos na Grécia com Hipócrates, depois em Roma com Galeno. Desta época ainda temos documentos numerosos: dos escritos de Hipócrates  aos doutores de Cós, Aristóteles, Galeno, Plínio, etc.

Hipócrates atribui grande importância ao estado do céu, o que os comentaristas chamaram de Coelorum vis. Ao lado da ira dos deuses, ele coloca a influência do céu como a principal causa de doenças: os astros superiores governam e regem os astros inferiores, entre os quais está a Terra. Existem três causas de doenças: transtornos do humor, traumatismos e a influência do céu. Consequentemente, dependendo se este ou aquele humor vai dominar o organismo, se tal ou tal astro for dominante, aparecerá uma ou outra doença. A astronomia é, portanto, necessária para o médico que deve estudar o estado do céu, do ar, da terra, as intempéries, o nascer e o pôr dos astros, sobretudo de Órion e Arcturus que têm grande influência e produz doenças induzidas pelo calor (canicule) e outras doenças (a frigore) frias. A partir disso temos o medicamento alopático: contra a febre do Sol invocamos um astro frio, a Lua. Ao tempo do empaledecimento das estrelas, percebemos as pústulas e bubões da peste, porque na hora matinal, por causa de seu frescor é peculiar o desmaio.

Contra a hemiplegia que retarda parte do corpo causando danos à vida e à circulação, invocamos o cão celeste, ou seja, Órion (χυνος Ωριωνος) que circunda o espaço, contemplando todos os seres e trazendo-lhes seu calor benéfico. Assim, o espírito humano não deriva em nada de sua própria formação, e seus sonhos, por mais extravagantes, são pouco mais do que os postulados de uma lógica levada ao extremo.

O pai da medicina tinha, como podemos ver, entendido claramente a ação das condições climatéricas sobre a etiologia e a patologia. Ele atribuiu grande importância aos dias pares e ímpares:

Se a febre não deixar o paciente em dias ímpares, disse ele, ela tende a reincidir: o mal que começou seu curso em dias pares nunca falha em reincidir.

Ele também notou a influência do número astrológico 7 na medicina: a febre tifoide tem uma incubação de 14 dias (2X7) e procede por setenários: a pneumonia defervesce no sétimo dia.

Galeno (cap. 11, lib. III, De diebus decretoriis) aceita a influência do Sol nas estações, nos solstícios e os equinócios. O calor vem até nós do Sol, princípio gerador:

Solis accessu cuncta viventia ad generationem excitantur: illius vero abcessu marcescunt et quasi contabescunt.

A Lua também exerce uma ação marcante na Terra; lunações regulam períodos menstruais da mulher:

Menstruorum circuitus in mulieribus moderatur; denique cum sit humiditatis mater, illius vires in intimis ossium aliarumque partium penetralibus persentiuntur; in plenilunio siquidem ossium cavitates medulla impléntur, omnesque corporis humiditates augentur ; extra vero in decretione et declinatione haec omnia fere absumuntur.

A Lua, portanto, opera por sua própria força e por aquela transmitida a ela pelo Sol: essas dois astros principais enviam as radiações de sua energia para os astros secundários, cujo estudo também é de grande interesse para o médico. Daí este silogismo latino:

1° Corpora superiora per vim alterationis, generationis et corruptionis inferiora gubernant;
2° At morbi omnes alterationes sunt, vel corruptiones aut saltem praeviœ dispositiones ad corruptionem vel ad mortem;
3° Quare médiate vel immédiate influent a corporibus superioribus.

Além disso, as doenças veladas vêm dos astros ocultos; outras dependem das estações reguladas pelos astros (febres da primavera, conjuntivite sazonal, etc.), enfim certos astros e, especialmente o Sol, produzem efeitos diretamente prejudiciais (queimaduras solares). O astrobolismo dos clínicos gregos era uma paralisia súbita atribuída à existência de um astro. Dessas noções derivam as leis terapêuticas. Hipócrates defendeu a purga durante a onda de calor: Galeno não sangrava durante a Lua minguante e Celso não administrava nenhum medicamento no equinócio de outono.

No entanto, nem todos os Anciões concederam uma importância semelhante para a ação das causas celestes. Aristóteles (Física e Metafísica) admite apenas uma influência limitada dos astros como causa eficiente, mas não determinante, porque para ele a doença é algo que depende, sobretudo, de predisposições orgânicas e causas específicas. Muitos com ele, de sua época, rejeitaram os exageros dos astrólogos, porque:

O número de estrelas sendo infinito e os movimentos das esferas sendo incomensuráveis, é difícil relacionar a uma causa particular a gênese exata das doenças.

Os astros, na ideia do cientista e do médico, não só teria uma influência benéfica ou prejudicial ao organismo humano; sua ação se estende para todas as partes constituintes do globo que derivaram de suas propriedades.

O mundo, de acordo com concepções antigas, é um animal único do qual todas as partes, seja qual for a distância, estão relacionadas de uma forma necessária.

A unidade está nas leis da natureza e em conexão geral do universo. A primeira apercepção desta unidade remonta ao dia em que os homens estavam cientes da fatal regularidade das revoluções dos astros. Eles buscavam imediatamente ampliar as consequências para todos os fenômenos materiais e até mesmo morais por uma generalização mística que surpreende o filósofo, mas que, no entanto, é importante conhecer se quisermos compreender o desenvolvimento histórico do espírito humano.

Era a ‘corrente de ouro’ que conectava todos os seres, na linguagem dos autores da Idade Média. É certo que o Sol regula as estações do ano pelo fluxo de sua luz e do seu calor e o desenvolvimento da vida vegetal, e é a fonte das energias atuais e latentes da Terra. Atribuíamos outrora uma função análoga, embora mais limitada, aos outros astros, menos poderosos que o Sol, mas cuja marcha está sujeita às leis regulares. A astrologia tinha, em consequência, incluído às suas atribuições tudo o que acontecia na superfície da Terra, mas não se limitava ao mundo exterior. A ação do Sol e dos planetas intervinha nas profundezas sombrias e inacessíveis do globo, e deveria presidir a formação dos minerais e, principalmente, os minerais metálicos. A alquimia, que não devemos negligenciar o estudo, pois dela se originou a química, é então associada à astrologia estabelecendo-se a assimilação entre os metais e os planetas, associação tirada de seu brilho, cor e número. E é, principalmente, nesta forma de química e matemática astronômica que nós vamos encontrar a medicina astrológica em grande parte da Idade Média.

Do ponto de vista matemático, anexamos uma grande importância para os números: é um resquício das antigas doutrinas popularizadas por Pitágoras. O algarismo 7 era sagrado porque correspondia às fases da Lua, isto é, ao número de dias que representam um quarto da revolução deste astro; nós contamos 7 dias durante a semana; existem 7 grandes planetas, 7 cores fundamentais e 7 tons musicais. Os antigos conheciam 7 metais principais, e nos livros hebraicos encontramos o símbolo do candelabro com 7 ramificações. Na cosmogonia caldaica, Bel é a associação dos 7 elementos cósmicos representados pelos planetas; ele é em si o Único, o Mestre e o Primeiro, ele constitui uma unidade abstrata que preside aos 7 elementos e às mil manifestações da vida terrestre.

Lemos em Heródoto que a cidade de Ecbatana, na Pérsia, tinha 7 colunas cada uma pintada de uma cor diferente, e nas muralhas desta cidade destruída, arqueólogos modernos encontraram gravados misteriosos escaravelhos com 7, 14 e 21 pernas, das quais o misterioso significado nos escapa.

Aplicado à vida humana, o número 7 é vital; seus múltiplos são igualmente importantes:

A 7ª hora decide a vida da criança;
Aos 7 meses, aparecem os dentes;
Aos 21 meses, a criança começa a andar;
Aos 7 anos, os primeiros dentes caem;
Aos 14 anos começa a puberdade;
Aos 21, a criança é um homem;
Aos 35, o homem para de crescer;
Aos 42 anos, a força para de aumentar;
Aos 49, perfeição e plenitude de faculdades.
Aos 70 anos (7×10) é o prazo normal de vida.

A esta influência dos números, os médicos associaram aquela dos anos climatéricos e dos anos críticos. Assim, aos 63 anos tem o homem um ano crítico (7×9 = 63); 7 e 9 são dois números ímpares de maior valor. Esta crença nos números, cuja origem está nas antigas concepções astrais, sobreviveram à Idade Média, e a encontramos mesmo após o Renascimento em Cornélio Agrippa.

Durante o longo período medieval, a medicina baseada na astrologia foi dominante. Já babilônios, gregos e árabes alocaram os metais aos planetas. Nos hieróglifos egípcios, o mesmo sinal significa ouro e sol; e nós lemos em Virgílio:

…orbem
Per duodena régit sol aureus astra.

Géorgicas

Na mente dos antigos autores, os metais teriam sido produzidos pela influência dos astros no seio da Terra: daí o poder oculto atribuído a certas pedras. O autor árabe Dimeschqî atrelou a expressão definitiva dessas doutrinas astrológico-químicas e médicas: os 7 metais estão relacionados aos 7 astros brilhantes que se combinam para formar a substância. A alquimia do século XI os designou com seus símbolos e qualificadores gregos.

Ηλιος χρυσος — Sol, ouro.
Σεληνη αργυρος — Lua, prata.
Κρονος φαινων μολιδος — Saturno brilhante, chumbo.
Ζευς  φαεθων ελεκτρον — Júpiter resplandecente, electrum (liga de ouro e prata).
Αρης πυροείς — Marte inflamado, ferro.
♀ Αφροδίτη φοσφορος χαλκος — Vênus luminoso, cobre.
‘Ερμης στλδων χασσιτηρος — Mercúrio reluzente, estanho.

Temos um signo alquímico do século XI, muito curioso, porque resume toda a filosofia dinâmica desses pioneiros da química. Nós designamos isso sob o nome de ‘signo da serpente Ouroboros’. Esta é uma serpente enrolada em um círculo com este axioma central: Εν το παν, “Um é todo”, emblema da unidade da matéria. Esta é, sem dúvida, uma reminiscência da famosa serpente druídica. Muito antes de nossos químicos atuais, eles tinha vislumbrado a unidade da energia, que pode se transformar, mas sempre constante, e que não se perde nem não é criada. “É a mesma água que sobe e desce incessantemente, dizem os Vedas: leva consiga o fogo do céu, e o relâmpago extinto dentro dela”.

Esta alquimia astrológica foi a continuação de doutrinas tão antigas quanto o mundo e preservadas de forma zelosa nas oficinas. Os mistérios mitraícos dos persas, cujo reflexo ainda permanece nos ritos Persas, tinha apenas um objetivo: celebrar o Deus-Sol, fogo e ouro, que cura. E nós encontramos a mesma ideia filosófica e religiosa na Grécia, na fábula de Baco. Ao lado do popular Baco, filho de Júpiter e Sêmele, Nono, em seu Dionisíaca (Διονυσιακά), revela o Dionysos Zagreus dos mistérios báquicos dos seguidores de Orfeu, que nos apresenta todos as características de um grande mito panteísta. Ele nasceu da união de Zeus (Céu) com Perséfone (Terra) considerado em suas alternativas de vida e morte, as estrelas de Híades eram suas enfermeiras, e ele comunicou a elas os eflúvios de sua essência divina. Este Dionysos Χρυσοχωμης (de cabelos dourados) reinou sobre as estações; a hera ‘sempre virens’, emblema da eterna juventude, foi consagrada a ele. Um Baco foi assimilado do Osíris egípcio e do deus solar árabe Urotal. Os Incas do Peru também não tiveram também seu templo do Sol cintilando com ouro; e os Vedas, livros sagrados da Índia, canta ao Sol, o fogo vivificante, o maravilhoso hino de Agni (ऋग्वेद). O festival do fogo, na Bretanha, no solstício de verão, uma festa que foi cristianizada sob o nome dos fogos de São João, não é um resquício do antigo culto solar? E esse ‘tad-tan’ que ainda hoje cantam os bretões sem entender, ou seja, a canção celta em homenagem ao d’heol (Sol) não ecoa os velhos cânticos arianos entoados pelos brâmanes nas encostas do Himalaia?

Penetrado por eflúvios astrais, como âmbar ao atrair para si os corpos ligeiros, e o ímã que sente o ferro e se dirige a ele, os metais e as pedras são igualmente dotados de sentimento. Também que surpresa são essas pedras que caem do céu, esses meteoritos cuja queda ainda causa espanto aos cientistas! A história nos apontou algumas anteriormente famosas, como a pedra de Emesis, a de Pessinonte, que se tornou o objeto de um culto sob o nome de Cibele. Elas desfrutavam do notável poder de curar doenças. Para o magos, elas eram as lágrimas coaguladas das estrelas divinas que choravam pela desgraça do homem. Atualmente novamente, a pedra milagrosa da Caaba, no mesquita de Meca, é o objeto da veneração de crentes fiéis que, de todos os pontos do mundo islâmico, vão buscar no país do Profeta, com a esperança que dá a vida, a água sagrada de Zem-Zem* que cura.

* Meca, a cidade natal de Maomé, possuía uma história interessante, mesmo antes do nascimento do profeta. Fôra construída em torno da fonte de Zem-Zem (o nome é derivado do ruído borbulhante da água), onde Hagar, a mulher abandonada de Abraão teria repousado em companhia de seu filhinho Ismael, para beber água e descansar de suas peregrinações no deserto. Perto da fonte, há uma sagrada pedra negra, um meteorito caído do céu, que os árabes consideravam como mais um sinal de que esse lugar era consagrado aos deuses. Em redor dessa pedra, e próximo à fonte de Zem-Zem, os árabes antigos tinham um templo que denominaram “Caaba” (cubo).

Por esses poucos exemplos, nós vemos o quanto para estudiosos e filósofos da antiguidade, foi importante a ação da esfera celeste em nosso globo sujeitado à sua influência: cada astro representa uma inteligência. Mas o homem estava bem ciente deste império, que ele foi chamado para exercer sobre as forças de natureza que, assim que ele entrou em contato com elas, este fazia sujeitá-las à sua vontade. Ele imaginou que poderia, usando práticas e fórmulas sacramentais específicas, restringir agentes físicos a obedecerem a seus desejos e planos. É por isso que os primeiros astrônomos também eram mágicos; eles estudavam o destino dos homens nos movimentos dos astros, sendo estes deificados por seus encantamentos, eles forçavam o gênio a ouvi-los. Assim como os precursores de Franklin, que sabiam muito bem, deixar o fogo cair do céu sobre o altar. Esta magia teúrgica, então, contribuiu para envolver mais superstições bizarras, as ciências emergentes, e particularmente medicina e alquimia, tão intimamente relacionadas entre si na Idade Média. Os continuadores da Arte Hermética dos estudiosos da escola alexandrina, os alquimistas, por séculos perseguiram a grande obra, buscando a pedra filosofal que daria saúde e vida. Seus esforços não foram em vão, mesmo sua estranha hipótese da transmutação dos metais agora está parcialmente comprovada; a química moderna nos apresentou a isomeria e o estado alotrópico dos corpos. No século XVI, quando o método da ciência experimental marcou seu caminho, a alquimia se perdeu na luz na qual ela se deu. Mas, antes de se tornar uma ciência exata, antes de formular leis precisas, quais erros ela não conheceu! Transportada pelo espírito do sistema à graça de uma imaginação fantástica, cientistas, astrólogos, médicos, alquimistas e filósofos ao mesmo tempo, haviam expressado as ideias mais extraordinárias sobre a constituição dos corpos, seu modo de ação, suas transformações e suas propriedades, que assumimos surgirem das influências astrais, tão poderosas e tão variadas. Sobre essas noções misteriosas acerca da gênese das substâncias minerais foi construída toda uma terapêutica extraída dos relacionamentos que existem entre um tal metal e seu astro dominante do momento, para uma tal pedra ou tal doença.

Vamos ouvir Paracelso nos explicando “a recuperação da saúde pelas operações celestiais”:

Os magos antigos, persas e egípcios disseminaram as virtudes e ações celestiais das pedras de granito e ‘camaïeux’; essas pedras conservam, assim, como a árvore ou a erva que floresce a semente que foi plantada no solo. As virtudes da cornalina, pé de alce, unicórnio, safira, etc., ocorrem devido à influência do céu. Anteriormente, os magos incluíam nesses corpos as setas e raios celestiais: o céu que dá doenças e enfermidades, também dá os remédios.

Daí este conselho eminentemente prático: às doenças de origem celestial, dá-se remédios celestiais.

As estrelas influenciam os metais, pedras e plantas:

Saturno comunica sua virtude a jaspe que mistura e embota os espinhos da carne e para o sangramento.

Júpiter dá ao sábio suas propriedades antiparalíticas; o jacinto, pedra dedicada a este mesmo astro, preserva o relâmpago no homem que o carrega, afasta os maus odores, combate o nascimento de venenos e ar corrompido.

A mirabolans (planta medicinal) têm infinitas propriedades comunicadas especialmente por Mercúrio; elas prolongam a juventude, fortalecem os sentimentos e a memória do homem, confortam o estômago e dá o humor alegre.

A celidônia e a mástique, as quais presidem a estrela nomeada Coração de Leão, têm a virtude de suprimir o humor melancólico.

O topázio, pedra de castidade, recebe sua virtude da estrela Apha da Coroa do Norte.

A ametista expulsa o ‘espírito maligno da loucura’; a aristolochia ou grama serrazina dá uma bela pele, propriedades que são comunicados a eles pelo Coração de Escorpião.

O Sol tem a maior influência sobre muitas das gemas e produtos farmacêuticos e, entre eles: o açafrão, mirra, madeira de aloe, espiguetas, olíbano, o bálsamo, o ouro, o carbúnculo que brilha à noite e protege venenos, a peônia que cura a caducidade, o gengibre usado contra a debilidade e ‘desvio do estomago’, a crisólita que acalma o frenesi e o turvamento das visões, etc.

A prata é o metal lunar; a pedra camaleão é dedicada a esse astro mutável. Sobre essa questão, naquela época, eram admiráveis as ​​virtudes das pedras selenitas da Arábia das quais falam Plínio e Sólon; no corpo dessas pedras se mostra a Lua, que cresce e decresce como o curso do céu. Elas curam todas as doenças e dão a juventude novamente; elas tornam imortal aquele que a possui, mas, apesar de todas as tentativas, ninguém foi capaz de obtê-la.

Todas essas lendas, todas essas fantasmagorias envolveram até sufocar a ciência e o bom senso dos médicos. O famoso Rhazès nós afirma ter feito experiências com uma pedra, que deriva sua virtude da Lua e de Vênus, é sua maravilhosa propriedade adequada para o parto das mulheres que lhe são tocadas. Então os meios terapêuticos eram os mais ricos: cada substância tinha suas propriedades. Feiticeiros curavam e praticavam encantamento: eles tinham a vida e a morte das pessoas submetidas aos seus feitiços. Tudo isso resistiu, em nossa sociedade moderna, como algo das ficções medievais; as senhoras e as damas de agora, como no passado, as viúvas e donzelas sonhadoras das velhas mansões, elas não acrescentam fé nessas lendas graciosas e ingênuas? Para elas as pedras como flores têm sua linguagem: elas não revivem as turquesas esmaecidas? Nos campos de colheitas as pessoas simples atribuem efeitos diferentes às plantas dependendo se são colhidas no momento do plenilúnio ou no primeiro quarto: a simples colheita ao amanhecer, traz com sua ascensão matinal, grande eficácia.

No final da Idade Média, substituindo as perspecivas supersticiosas e ignorantes, surgiu um enxame de ditos médicos muito eruditos, porque eles liam nos astros os destinos do paciente que lhes foi confiado. Na Idade Média era pouco comum médicos verdadeiramente astrólogos; os alquimistas transitavam numa terapia astrológica. Mas na Renascença, como resultado os muitos estudiosos gregos e italianos que vieram para a França, a medicina astrológica se transforma e adquire um desenvolvimento nunca alcançado antes. Enquanto isso víamos o surgimento de geomânticos e médicos estagiritas, tudo sob o nome de Mercúrio. A arte estagírica consistia na combinação dos signos das estrelas e dos signos da mão (quiromancia: χειρ principal; μαντεία, adivinhação). Adrian Sicler, em sua Chiromancie royale et nouvelle nos dá a definição: “Chiromancia est ars, qua ex lineis manuum naturam hominis cognoscimus, e in illo planetarum vires“.

Paracelso, em sua La grand chiurgie, ataca com violência as práticas supersticiosas de geomânticos e estagiritas:

Devemos odiar, disse ele, encantadores e fabricantes de signos, eles deveriam ser banidos da arte, pois é certo que a raiz-forte faz sua ação sem conjuração ou encanto. Mas o verdadeiro médico deve estar atento às virtudes transmitidas pelo céu aos corpos terrenos: tudo o que é perfeito é Deus que criou todas as coisas e sem o qual nada pode ser.

Esta ciência da astrologia, que Paracelso proclamou útil para o médico havia entrado no século XVI no ensino oficial da Faculdade e os mestres mais famosos eram seus apoiadores. Astrólogos italianos combinando com os novos dados da astrologia forense com a antiga arte dos genetlíacos, nós trouxeram a horoscopia. Nisso é o que consiste esse método:

A esfera celeste, pela seção dos diâmetros imaginários vertical e horizontal, com a Terra como centro, apresenta quatro ângulos:

1° O ângulo do Oriente ou horóscopo que significa o início de vida ou qualquer trabalho;
2° O ângulo da Terra ou setentrional;
3° O ângulo meridional ou Coração do Céu;
4 ° O ângulo do Ocidente que significa fim, morte.

Com esses ângulos, cadentes e seus sucedentes, o astrólogo forma figuras variadas nas quais ele deve buscar o destino do indivíduo de quem ele tirou o horóscopo.

Cornélio Aggrippa, médico de Louise de Sabóia, mãe de Francisco I, foi um dos mais ardorosos promotores do novo método. Ele codificou a ciência horoscópica para uso por médicos que, seguindo o exemplo de seu ilustre mestre, tornam-se logo astrólogos experientes. Eles dividem o Céu em doze casas correspondendo aos doze signos do Zodíaco os planetas então conhecidos. Portanto, havia conjunções infelizes e conjunções favoráveis: a grande arte do médico era determiná-las e levando isso em consideração, organizar o tratamento. Então um lesão no braço recebida enquanto a lua estava no signo de Gêmeos era, por isso, muito perigosa. Nas mesmas condições siderais era necessário abster-se de qualquer sangria. Barbeiros, médicos, cirurgiões e boticários tinham o calendário do ano como um Codex: antes de prescrever um medicamento ou desfazer uma operação, eles poderiam, portanto, garantir as situações favoráveis ​​da Lua. Apelado pelo paciente, o médico começava estabelecendo seu diagnóstico, então ele consultava o estado do Céu. Se, por exemplo, em face de uma afecção no seio com a Lua no signo de Câncer, ele não pedia nenhum tratamento até que ela fosse expelida. Já, mesmo antes do Renascimento, os ‘mestres em medicina’ tinham grande fé na ação preponderante dos astros. Durante a terrível praga de 1348 que assolou o mundo, Philippe VI de Valois pediu uma consulta à Faculdade de Paris sobre como lutar contra o flagelo. Doutores, presididos sob a assembleia do reitor, declararam que para encontrar a origem da epidemia era preciso voltar a 1345, porque naquele ano houve uma conjunção de três planetas superiores no signo de Aquário. [Maxima conjuntio trium planetarum superiorum in Aquario]. No entanto, de acordo com os antigos, apenas a conjunção de Saturno e Júpiter é suficiente para causar o despovoamento dos estados. Além disso, durante no ano de 1347, Marte se encontrou no signo de Leão com a cabeça do dragão, Marte, planeta do mal [Mars planeta malivolus, coleram generans alque guerras, fuit in Leone una cum capite Draconis]. Guy de Chauliac, um cirurgião de Lyon, também relata o fato, e para ele não podia haver dúvida: “Não é necessário se surpreender, disse ele, se tal grande conjunção significa uma mortalidade incrível e terrível”.

Dois séculos depois, uma nova peste em 1548. As ideias dos médicos não mudaram. Vamos conversar Benoît Textor:

Verdadeiro é, ele escreve, que a fonte de todos esses signos está nos astros, ou seja, nos corpos celestes, etc., ou quando um cometa se mostra na sua expansão vindo de algum mau lugar do céu, tal recebe a virtude de algum astro maligno.

Assim, mais do que nunca, nos séculos XVI e XVII, a medicina astrológica está na ordem do dia e encontra reivindicações nas maiores mentes. Desta vez ainda temos alguns tratados curiosos sobre a questão, entre outros os de Ranchin e Thomas Rocha, professores da então famosa Faculdade de Montpellier. Rocha escreveu em 1501 e Ranchin em 1627. Eles expuseram em detalhe as mesmas ideias de Paracelso: o homem é um microcosmo no qual ressoa todas as variações do Universo, macrocosmo. Eles reconheceram doenças internas e externas; dividindo-as em três ordens: doenças divinas, celestiais, sublunares ou terrestres. Deixemos eles explicarem as modalidades dessas influências astrais em um latim do qual é supérfluo dar a tradução. É Ranchin falando:

1° Cœlorum tanta est vis, tantaque est nécessitas in mundi sublunaris conservatione et gubernatione, ut superiora inferiora gubernent et regent.
2° Corpora cœlestia tribus modis sublunaria afficiunt : per motum scilicet, per lunam et per influxum. Et non tantum astra per motum et lumen operantur, sedetiam per occultas vires, quas influentias appellant Astrologi.
3° Astrorum vis et potentia in hominis statu et conditione notissimum observantur.
4° Astrorum lumine, motu et influxu hominis status conservatur: vita enim et mors, sanitas et morbus a corporibus cœlestibus influunt.

No entanto, os astros não podem agir de acordo com a vontade humana que é livre, embora às vezes possam perturbar as faculdades inteligentes e afetivas.

Os planetas e os signos zodiacais presidem as diferentes áreas do corpo. Entre os principais planetas:

O Sol preside sobre o cérebro, coração, coxas, medula e olho direito. Mercúrio, a língua, mãos, pernas e nervos. Saturno o sangue, veias, narinas, costas. Vênus, a boca, rins, órgãos genitais. Lua, o estômago e pulmões.

Para o zodíaco, a distribuição é a seguinte:

Áries – cabeça e o rosto.
Touro – pescoço.
Gêmeos – braços e ombros.
Câncer – tórax e estômago.
Leão – coração, fígado, costas.
Virgem – intestinos.
Libra – rins, coxas, nádegas.
Escorpião – genitália interna.
Sagitário – genitália externa.
Capricórnio – joelhos.
Aquário – pernas.
Peixes – pés.

Além disso, os planetas e o zodíaco presidem categorias de doenças específicas para eles:

Saturno dá afetos melancólicos, febre quartã, lepra. Júpiter, amigdalite, pleurisia, febres. Marte, febre reumática, icterícia, insanidade. Sol, palpitações do coração. Mercúrio, defeitos da fala, tontura. Vênus, doenças venéreas e ‘infamiam ex amore‘. Lua, epilepsia, apoplexia, paralisia.

Entre as constelações zodiacais, notemos as seguintes doenças atribuídas à sua influência:

Áries – epilepsia, dor nos dentes e órgãos sensíveis.
Touro – doenças do pescoço e da garganta.
Gêmeos – doenças das mãos.
Câncer – prurido e lepra.
Leão – doença cardíaca.
Virgem – doenças dos órgãos de gestação, etc.

Seria fastidioso continuar por longo tempo essa enumeração. Vemos que essas atribuições, simples visões da mente, estão relacionadas ao nome, a forma e as supostas propriedades dos astros ou constelação considerada. Elas só têm um interesse de curiosidade e mostram o quão longe a loucura de alegoria.

Uma coisa curiosa neste momento é ver como unanimemente os médicos procuram as causas epidemias cósmicas. Muitos acreditavam que a conjunção de Marte, Júpiter e Saturno, que apareceu no ano de 1482, foi a precursora da sífilis.

Jean de Lampérière indica as causas primárias dos flagelos das pestes e pragas, tremores da terra e o mau aspecto dos planetas.

O erudito Guy de la Brosse, médico comum de Luís XIII e criador do Jardin des Plantes, é muito mais explícito:

“As causas da peste são extraídas dos movimentos universais ou particulares das coisas naturais e são chamadas de prognósticos. As primeiras são retiradas do céu segundo suas posições diversas e confluências de estrelas e alguns meteoros; as outras são eventos sublunares. Astrólogos dizem que eclipses, seja do Sol ou da Lua, que ocorrem em triplicidade aérea ou aquosa, principalmente em Escorpião na cauda do Dragão Lunar, observado pelos perversos aspectos de Marte e Saturno, prontamente significam as grandes pragas gerais; como também as conjunções dos planetas superiores, as estrelas heliacais e os cometas. Eles ainda observam as revoluções anuais do Sol, sua entrada nos equinócios e solstícios, dependendo se estão bem ou mal dispostos, eles traçam seus prognósticos, reportando aos seus zênites e aos seus horizontes. E se o ar estiver ameaçado pela peste, eles dizem de qual matriz sortirá o veneno, água ou terra e sobre quais pessoas, homens ou mulheres, jovens ou velhos, crianças pequenas ou adolescentes”.

“Neste ano de 1623, o Sol entra primeiro em Carneiro na nona esfera, Leão no horizonte de Paris, e o final de Carneiro ocupando o zênite. Mercúrio, regente de Virgem, cujos astrólogos dizem ser o asterismo (conjunto de estrelas) influente para Paris, está então no nono espaço do Céu, no aspecto de quadratura com Júpiter, abrigado na décima segunda posição do Céu, em conjunção com Saturno retrógrado; e a Lua, que significa o povo, também esta na quinta casa, igualmente ligada ao Coração de Escorpião, estrela de primeira magnitude, muito inteligente e de natureza venenosa. Não muito longe deles está o malicioso Marte, que em parte rege a sexta casa dedicada às doenças. Esses encontros, a julgar pelos mais sutis astrólogos, ameaçam Paris com doenças letais e contagiosas, como pragas, pleurisia e disenteria. O que confirma a verificação de Medusa encontrada muito perto do zênite, e a segunda conjunção em nosso século de Júpiter e Saturno na triplicidade ígnea de grande esfera, que ocorrerá no dia 19 deste mês de julho de 1623, por volta das sete da manhã, a 6° e 43′ de Leão. A Lua será então apresentada no final do Carneiro com a morte do Dragão que é uma grande ameaça durante o mês de setembro e outubro. A conjunção de Saturno se dará na primeira face de Leão na nona esfera, quando eles ainda estiverem dentro das estrelas de Câncer na oitava esfera, de natureza aquosa. De sorte que as doenças que são significadas por ele serão acompanhadas pela maioria das qualidades frias e úmidas da água; elas trarão ao amanhecer alguns calafrios, e os bubões da peste aparecerão mais na Europa do que em qualquer outro lugar. A Lua colocada dentro das estrelas quentes do Carneiro, vai adicionar um pouco de calor e dar alguns bubões atrás das orelhas. As pessoas mais ameaçadas são jovens de pouca idade, meninas e mulheres, poderão ser colocadas nalgum convento de um ou de outro sexo”.

Du Breil, Doutor Regente da Faculdade, não é menos reconfortante:

A qualidade do ar, diz ele, pode ser corrompida em várias maneiras, como quando eclipses ou cometas aparecem; quando Saturno e Marte, ou apenas Mercúrio, concordam juntos no signo de Virgem e Gêmeos ou de Aquário, não apenas mudam o ar em sua qualidade natural, mas também contaminam com uma certa influência maligna, estranha e diversa.

Ao lado dos convictos da medicina astrológica estão os charlatões, os feiticeiros e os tiradores de horóscopos que sopram nos séculos o vento de sua loucura profética. Nostradamus se torna famoso por sua famosa previsão da morte de Henry II, morto por Montgommery em um torneio. É a bela época da horoscopia; os príncipes honrando os astrólogos a enchê-los de ricos presentes.

No momento do nascimento do Delfim Louis XIII, Dr. Roch de Baillif, senhor da Rivière, desenha seu horóscopo. «E durante a gravidez a rainha perguntou frequentemente quanto observar a Lua, na opinião vulgar de que as fêmeas nascem ao longo de seu ciclo e os machos na Lua Nova». E, de fato, no jornal d’Héroard, o doutor do Delfim, nos diz que o pequeno príncipe nasceu «em 27 de agosto de 1601, na décima quarta hora da lua nova, às dez e meia do meio quarto». Louis XIII recebeu o apelido de Juste porque ele nasceu com a Lua sob o signo de Libra, que, correspondendo ao equinócio, representa simbolicamente a igualdade do dia e da noite:

Libra die somnique pares ubi fecerit horas.

(Vígilio, Géorgicas)

Ainda florescendo sob Luís XIV, a medicina astrológica teve que sofrer as perseguições do poder durante o envenenamento do famoso Brinvilliers. Astrólogos eram suspeitos e não escaparam sem dificuldade dos terríveis julgamentos da Câmara Ardente e das buscas do severo La Reynie, tenente da polícia real. Esses compromissos com o crime esfriou o ardor dos adeptos da medicina astrológica. Além disso, neste momento, o desenvolvimento da ciência desferiu um golpe fatal nas ideias antigas: Galileu, demonstrando a rotação da Terra, destruiu o sistema de Ptolomeu que até Copérnico reinará sem questionamentos: Pascal e Toricelli mostraram a influência que as pressões barométricas em organismos vivos dependem do tempo, lugar, altura, e elucidou o papel das condições climáticas e Newton explicou o movimento das estrelas pela lei da atração universal. Os doutores Malpighi, Boerhaave, Leeuwenhœck e muitos outros, mostraram a importância de assistir, não no mundo exterior, mas no próprio homem, organismo delicado, todos os elementos vivos de uma vida propriamente dita constituída por seu conjunto num todo animado. Abandonamos o exame do Céu para estudar a patologia, dos astros o médico desce às células, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno. E a descoberta das células do sangue, o espermatozoide e óvulo lançam uma nova luz sobre os fenômenos da vida e de fertilização. Então, sob a pressão ativa de filósofos e médicos, o homem tornou-se livre do seio do mundo, livre em sua vontade como em seu pensamento, e aquele véu de fatalidade cósmica que desde o seu nascimento até sua tumba o rodeava como um a túnica de Nessus finalmente foi rasgado! As concepções astrológicas foram jogadas ao lixo e em 1707, Alexandre le François, que apresentou ao corpo docente da faculdade uma tese intitulada: «Est ne aliquodl unae; in corpora humana imperium?» Podemos responder com uma unânime negativa dos médicos.

E está é, de fato, a medicina astrológica. Cirurgiões do século XVIII não mencionam: Bichat e Laënnec a ignoraram.

Raspail também reage primeiro a esse exclusivo descuido e fala sobre a influência dos cometas nas epidemias. Rimos dessas reminiscências de um tempo distante. Ninguém as leva a sério. Foi dado a nosso tempo ter a pergunta certa e tirar a parte da verdade escondida entre as antigas ficções; os séculos mais científicos não são aqueles do florescimento da experiência dos séculos anteriores, mas a ciência sempre se beneficia das observações acumuladas pelas gerações anteriores.

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