Traduções

Os Nomes dos Signos do Zodíaco

ψ

Na Tradição árabe-turco-persa e Mediterrâneo

Roland Laffitte

Selefa, Paris

Communication délivrée dans le cadre du IIIè colloque international Emprunt linguistique dans l’espace turco-arabo-persan et méditerranéen, organisé par l’ERISM, l’INALCO, avec le concours de l’IFPO, l’Université de Damas et l’AUF, les 18-19 décembre 2005, Centre Rida Saïd, Damas.

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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O fato de evocar os nomes do zodíaco no Centre Ridha Saïd, em Damasco, seria suficiente para justificar a escolha da nomenclatura árabe como ponto de partida para o exame desse surpreendente objeto cultural cuja brilhante prática da astrologia helenística geralmente direciona os olhares para Alexandria. Muitos pensam que os árabes herdaram de seus antecessores gregos os nomes do zodíaco.

Os Zodíacos Árabes

De fato, uma rápida comparação do zodíaco grego com o zodíaco árabe revela notáveis diferenças entre eles. O zodíaco grego é bem conhecido, não seria útil insistir nele neste momento. Quanto ao zodíaco árabe, é bom enfatizar que existem vários.

O primeiro, que merece o qualificador clássico do zodíaco, é praticado continuamente desde sua primeira comprovação no horóscopo de fundação da cidade de Bagdá*, tirado em 30 de junho de 762 por Abū l-Fadl ibn Nawbaht na presença de Māšā’allāh ibn Sāriya e ‘Umar ibn al-Farruhān at-Ṭabarī.1 Certamente, alguns dos nomes podem parecer traduzidos do grego, como لاروث al-tawr, “o Touro“, لاناطرس al-saratān, “o Câncer”, ادسلأ al-asad, “o Leão“, لانازيم al-mīzān, “a Balança“, لابرقع al-‘aqrab,”o Escorpião“, mas outra parte muito mais importante, apresenta nomes totalmente diferentes daqueles que conhecemos entre os gregos. Temos, portanto, لالمح all-hamal, “o Cordeiro macho“, onde o grego atribui Κρίος, “Áries“, ءازوجلا al-ğawzā’, “o Mediano = Elgeuze”, no lugar de Δίδυμοι, “Gêmeos“, اةلبنسل al-sunbula, “a Espiga“, em vez de παρθένος, “a Virgem“, لاقسو al-qaws, “o Arco“, os gregos escrevem Τοξότης, “o Arqueiro“, لايدج al-ğady, “o Cabrito“, para Αἰγόκερως, “os Chifres da cabra“, لادول al-dalw, “o Vaso“, em vez de “Υδροχοεύς“, “o Despejador de água“, e لاتوح al-hūt, “o Peixe” -no singular- quando nos gregos ‘Ιχθύες, ‘os Peixes‘ -no plural-.

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Observação:

* Existem divergências no apontamento da data de fundação da cidade de Bagdá. No artigo de Patrice Guinard a data é 31 de Julho de 762. No artigo de Mariano Aladrén foi creditado ao historiador árabe Zakarīyā ibn Muḥammad al-Qazwīnī  a datação de 24 de Julho de 762. No trabalho de Jaime Salcedo Salcedo a data apontada é 30 de Julho de 762. Outro caso é verificado no estudo de Julio Samsó & Chedli Guesmi, a fundação é creditada ao califado de Abū Ŷa‘far al-Manṣūr com a data 23 de setembro de 763. Entretanto, é curioso notar que em todos os apontamentos divergentes o mapa de fundação é descrito da mesma forma: com Júpiter ascendendo no signo de Sagitário em oposição à Marte. Quanto ao aspecto astrológico da eletividade deste carta de fundação Yuzuru faz uma observação também pertinente.

César Augusto – Astrólogo

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1 Ce fait est rapporté par Amad ibn Ishāq al-Ya‘qūbī dans son Kitāb al-buldān, ap. David Pingree, The Fragments of the Works of Al-Fazârî, et nous connaissons la nomenclature de ce zodiaque par les soins de l’encyclopédiste Abū Rayhān Al-Bīrūnī, qui la mentionne dans son Kitāb ātār al-bāqiyya ‘ani l-qurūn al-hāliya, ca. 1000.

O fato da lista árabe não ser traduzida do grego é confirmado pelo fato dos autores árabes usarem, geralmente para fins documentais os textos astronômicos -para designar as constelações e não os signos zodiacais-, os nomes correspondentes às denominações gregas: assim شبكلا al-kabš,Áries“, para Κρίος, لانامأوت al-tawa’mān,Gêmeos“, para Δίδυμοι, لاءارذع al-‘adrā, “a Virgem“, para Παρθένος, لايمار al-rāmī, “o Arqueiro“, para Τοξότες, ءاملا بكاس, sākib al-mā‘, “o Despejador de Água“, para ‘Υδροχοεύς, e finalmente لاناتكمس al-Samakatān,”os Peixes“, para ‘Ιχθύες. Isso significa que, quando os árabes se beneficiaram das traduções dos textos gregos, a nomenclatura zodiacal já estava perfeitamente estabelecida.

É de fato na poesia pré-islâmica que descobrimos pela primeira vez vestígios de denominações árabes clássicas. Então, podemos ler, em textos datados da segunda parte do século VI, لابرقع قبل qalb al-‘aqrab, “o Coração de Escorpião“, e لإاليلك, “a Coroa“, dois nomes que correspondem a mansões lunares e revela o conhecimento da constelação de Escorpião. Também descobrimos لادول al-dalw, “o Vaso”, que implica aquele que corresponde, entre os árabes, ao Aquário. E também podemos nos encontrar, no início do século VIII, ou seja, antes da fundação de Bagdá, دسلأا ررثن natra(t) al-asad, o nome de outra mansão lunar, que revela a presença do constelação de Leão. Isso prova uma coisa: é que os árabes já praticavam, antes do advento do Islã, uma divisão da eclíptica de acordo com o sistema de mansões lunares -pelo menos de acordo com um esboço do sistema que conhecemos por textos clássicos do início do século X- e que a nomenclatura das mansões supõem a prática de um trajeto pela zona da esfera celestial através de um sistema de figuras zodiacais às vezes diferente das constelações gregas na forma como são denominadas.

Observamos que no período anterior, final do século IV e início do século VI, documentos sudarábicos do Iêmen apresentam um zodíaco cujo parte conhecida até o momento é suficiente para afirmar a significativa divergência do grego. No zodíaco árabe clássico, a Virgem é indicada por šubiltān, “a Espiga“, enquanto nomes não publicados surpreende-nos: haẓyān, “a Flecha“, para Sagitário e asārān, “o Cordão”, para Peixes. Portanto, devemos procurar, na origem dos zodíacos árabes, outas pistas que não sejam do legado helenístico.

Mas primeiro, consideremos os zodíacos que herdaram a nomenclatura Árabe.

Os Zodíacos Iranianos

Mesmo se nos limitarmos à lista pahlavi às listas persas que podemos comparar nesta Tabela, os zodíacos iranianos são muito variados.

Os iranianos herdaram o zodíaco árabe clássico por causa de sua familiaridade com o idioma árabe: então eles praticam os nomes árabes clássicos, naturalmente privado do artigo al, às vezes, sujeito a uma transcrição diferente: 1. ḥamal, 2.روث sawr, 3. ازوج ğwazā, 4. ناطرس saratān, 5. دسأ asad, 6. هلبنس sonbole, 7. نازيم mīzān, 8. برقع, caqrab, 9. قسو qaws, 10. يدج ğady, 11. دول dalw e 12. توح hūt. Mas ao lado desta lista que geralmente encontramos nos tratados astrológicos, encontramos na literatura os nomes árabes traduzidos do grego: assim, نامأوت tawa’mān para Gêmeos, ارذع cadrā para Virgem, يمار rāmī para Sagitário, ou inspirado em traduções do grego como بكاس sākib para Aquário. Também temos o equivalente samake para Peixes.

Ainda mais interessante é outra lista de nomes persas, que deriva de uma antiga lista pahlavi9 em um capítulo cosmológico do Bundahišn, a grande enciclopédia escrita em pahlevi no início da era islâmica, mas que inclui inúmeros dados anteriores a esse período. Na lista persa, em efeito, o Áries pahlavi, warrag, torna-se هرب barra. Para Sagitário, o persa é نامك kamān, “o Arco“, onde em pahlavi lê-se nēmasp, “o Meio Cavalo“. O pahlavi wahīg, “a Cabra“, cede lugar para زب boz, com o mesmo significado, e dōl, “o Vaso“, não tem problemas em se reconhecer no termo árabe دول dalw. Quanto aos outros nomes persas, eles representam uma evolução linguística normal dos termos pahlavi. Assim kāv, “o Touro”, torna-se اگو gāv, dō-pahikar, “as Duas Figuras”, torna-se ركيپ ود do-paykar para Gêmeos, karzang, “o Caranguejo“, evolui para گنچرخ ḫarčang. Para šagr, “o Leão“, encontramos ريش šīr, enquanto hošag, “a Espiga“, cede lugar a وخهش ḫoša, “a Virgem“, tarāzūg, “a Libra“, se transforma em وزارت tarāzū, gazdum, “o Escorpião“, em دژگم každom, e māhīg, “o Peixe“, em ىھام māhī.

9 Enrico E. Rafaelli a récemment édité ce texte en pahlévi et en donne une traduction dans L’Oroscopo del mondo, il tema di nascita del mondo del primo uomo secondo l’astrologia zoroastriana, Milano : Mimesis & Sīmorγ, 2001.

A grande originalidade da nomenclatura do zodíaco persa não é apenas ter três listas concorrentes, árabe, greco-árabe e uma lista própria das línguas iranianas. Também vem do que pode ser chamado, no mesmo documento, de apropriações provenientes indiferentemente de uma ou de outra lista e até do uso de sinônimos para nomes clássicos para cada signo. Vou fornecer dois exemplos para ilustrar meu argumento:

O primeiro é um documento da literatura medieval clássica, um texto de Amīr Hosrow Dehlavī, do qual podemos extrair a seguinte lista: 1. هرب barra, 2. روث tawr, 3. ركيپ ود do-paykar, 4. پاىئ جنپ panğ pāy, 5. ريش šīr, 6. هلبنس sonbole, 7. وزارت tarāzū, 8. برقع, caqrab, 9. قسو qaws, 10. زب boz, 11. دول dalw, e 12. ھامى māhī. Nesta lista composta, cinco signos vêm da nomenclatura árabe clássica e sete têm nomes persas, entre os quais um sinônimo گنچرخ ḫarčang, ou seja, پاىئ جنپ panğ pāy. Em outro texto do mesmo autor, os termos سوق qaws e نامك kamān, “o Arco“, são usados ​​concomitantemente para Sagitário, que comprova a grande liberdade demonstrada pelos autores persas para designar os signos do zodíaco.

O segundo documento é um horóscopo moderno, retirado de um site, onde pode-se ler a seguinte lista: 1. هرب barra, 2. اگو gāv, 3. اھولق ود do-qalūha, 4. گنچرخ harčang, 5. ريش šīr, 6. هلبنس sonbole, 7. وزارت tarāzū, 8. برقع, caqrab, 9. نامك kamān, 10. زب boz, 11. بآ فرظ zaraf āb e 12. ىھام māhī. Percebemos que oito das doze denominações provêm da lista persa nativa: estes são os signos 1, 2, 4, 5, 7, 9, 10 e 12; e dois pertencem à lista herdada de árabes: são os signos 6 e 8; e finalmente duas apropriações apresentam uma originalidade em comparação com as listas que já fornecemos: 3. اھولق ود do-qalūha é sinônimo do persa clásico ركيپ ود do-paykar e بآ فرظ zaraf āb, “o cálice de água”, um nome bem novo para indicar o árabe دول dalū.

Se agora aplicarmos a lista pahlavi à lista do árabe clássico, faremos uma observação bastante surpreendente: vários signos são expressados, de fato, pela descrição de uma figura que se afasta do grego, mas em ressonância ao árabe e ao pahlavi. Isso procede no signo de Áries no árabe لالمح al-hamal e no pahlavi warrag, então o persa هرب barra, expressa “O Cordeiro“, para a Virgem pela qual o pahlavi hōšag – e o persa وخ هش ḫuša – mostra “a Espiga“, de Sagitário, para o qual o árabe لايدج alj-ady e o pahlavi wahīg, no persa زب boz, significa “a Cabra“, e finalmente os Peixes -no plural- para o qual o árabe لاتوح al-ḥūt, assim como o pahlavi māhīg e no persa ىھام māhī, lê-se “o Peixe” -no singular-. Isso nos aponta para a busca de uma origem comum, mas não grega.

Os Zodíacos Turcos

Mas antes de explorar essa pista, vamos considerar os zodíacos turcos derivados, conforme o esperado, das listas em árabe e persa. Existe de fato uma lista turca estável que usa a nomenclatura árabe clássica, lista que também possui o idioma persa: 1. لمح hamel, 2. روث sevr, 3. ازوج cevzā, 4. ناطرس seretān, 5. دسأ esed, 6. هلبنس sünbüle, 7. نازيم mīzān, 8. برقع akrep, 9. قسو kavs, 10. يدج cediy, 11. دول dalv e 12. توح hūt. No entanto, existe em turco e em persa textos onde outros nomes aparecem: alguns são empréstimos dos nomes árabes das constelações gregas, assim: ارذع cazrā, يمار rāmī, بكاس sibib ou لاهكمس semeke; outros são empréstimos do persa: este é o caso de هرب berre, اكو gyāw, ركيپود du-peyker, كنچرخ ḫar-ceng, وخهش ḫūše e, popularmente, ḫoša, وزارت terāzū e, popularmente, terāzi, finalmente ىھام māhi, sem que se pode dizer que essas listas são exaustivas.

O esforço de turquizar a língua, realizado no século XX por Kamal Atatürk, gerou naturalmente uma nova nomenclatura, que é óbvio que atrai, além de alguns empréstimos do persa como Akrep, “o Escorpião”, ou Terazi, “a Libra”, uma herança linguística propriamente turca. Mas é notável as concordâncias específicas que a lista árabe clássica à lista persa herdada de pahlavi encontram. É o caso de Yay, “o Arco“, que traduz o árabe لاقسو al-qaws embora, também o نامك kamān persa, de Oğlak, “o Bode“, usa o árabe يدجلا al-jady, assim como o boz persa زب. É o mesmo para Kova, “o Vaso“, que corresponde ao árabe لادول al-dalw, “a Banheira“, e finalmente Balik, “o Peixe” -no singular-, que corresponde ao árabe لاتوح al-ḫūt e ao persa ىمام māhī.

As Fontes dos Zodíacos Árabe e Pahlavi

Se agora retornarmos ao montante das listas turcas otomanos, ou seja, ao zodíaco árabe clássico e o pahlavi, e nós perguntarmos sobre sua origem comum, que suspeitávamos anteriormente, algumas observações nos fornecem indicações preciosas.

Primeiro de tudo, o nome pahlavi de Aquário, ou seja, dōl, “o Vaso“, que também existe em árabe na forma دول dalw nos fornece aqui um feliz indicador: a palavra é de fato um antigo termo semítico, já presente na antiga Babilônia sob a forma de dālu, “o Vaso“, e é encontrado nos diferentes dialetos aramaicos.

Então, o nome árabe de Câncer, chamado لاناطرس al-saratān, atrai a si sua origem aramaica: a correspondência consonantal regular entre o aramaico sartanā, que indica “o caranguejo”, levando ao árabe لاشناطر al-šaratān, o que prova que não é uma forma árabe original, mas em grande parte um empréstimo do dialeto aramaico.

E se você agora tivesse que encontrar provas de uma conexão existente, dentro mesmo de nosso assunto de estudo, entre o pahlavi e o aramaico, basta mencionar a descoberta relativamente recente de um amuleto datado dos séculos VI/VII portando os signos do zodíaco em siríaco e pertencendo a uma mulher persa de nome Xvar-veh-zād: ele apresenta certa peculiaridade com o nome de Escorpião que existe no termo pahlavi, gazdum, escrito em caracteres siríacos.

Isso nos leva ao exame dos zodíacos aramaicos.

Os Zodíacos Aramaicos

Podemos classificar os zodíacos aramaicos em duas grandes famílias: uma ocidental, a outra oriental.20

 20 Roland Laffitte, «Les Noms sémitiques des signes du zodiaque, de Babylone à Baghdad».

O protótipo do zodíaco ocidental é o de Ḥirbat Qumrān, descoberto em um dos Manuscritos do Mar Morto, que deve datar do final do século I antes da nossa era. Escrito em aramaico literário médio, ele pode muito bem remontar a um período anterior e apresenta a seguinte nomenclatura: 1. dikrā, “Áries”, 2. tōrā “Touro”, 3. tə’ōmayyā, “os Gêmeos”, 4. sartānā, “o Carangueijo”, 5. aryā, “o Leão”, 6. btūltā, “a Virgem”, 7. mōznayyā, “a Balança”, 8. caqrab, “o Escorpião”, 9. qaštā, “o Arco”, 10. gadyā, “o Cabrito”, 11. dōlā, “o Vaso”, e 12. nūnayyā, “os Peixes”. Além do fato de que o zodíaco hebraico parece ter sido em grande parte derivado dele, encontramos essas denominações em Sévère Sebokht (século VII) e em muitas listas siríacas, de Jó de Edessa (século IX) à Bar Hebraeus (século XIII). Aqui estão eles: 1. dekrā, 2. tawrā, 3. tā’mē, 4. sartānā, 5. aryā, 6. btūltā, 7. massātā, 8. ceqarbā, 9. kaššātā, 10. gadyā, 11. dawlā e 12. nūnē. Algumas particularidades ainda precisam ser assinaladas: primeiro, Áries tem um segundo nome: emrā, “o Cordeiro“, igual à Virgem, também chamada šebeltā, “a Espiga”, cujos registros teremos uma explicação em breve. E depois há este curioso kaššātā, que consiste em uma transformação de qaššātā, “o Arqueiro”, pela metátese de consoantes enfáticas.23

23 Um dos argumentos a favor da interpretração de qaštā, “o Arco”, e não qaššātā, “o Arqueiro”, para o nome aramaico אקתש carregado por Sagitário na lista de Ḥirbat Qumrān, é a transcrição grega do nome hebraico – que é, com toda a probabilidade, derivada desse termo -, dada por Epifânio, que escreve inequivocamente keset.

Quanto aos zodíacos orientais, o primeiro conhecido é o que aparece em siríaco em Bardesane d’Edesse, no começo do terceiro século a.C. A lista dele, que foi conhecida por seus discípulos e depois por Sergius de Reš cAynā (século VI), apresenta diferenças notáveis ​​em relação à anterior. Três signos têm nomes que expressam ideias semelhantes: Áries é emrā ḫasen, “o Cordeiro Forte“, então temos em  emrā, “o Cordeiro“, e dikrā, “o Carneiro“, em Sévère Sebokht, Gêmeos é tren salmē, “as Duas Figuras“, e não “os Gêmeos“, a Balança, qenšalmā, “o Flagelo Justo“, em vez de mōznayyā ou massātā “a Balança”, respectivamente em Ḥirbat Qumrān ou em Sévère Sebokht. A Virgem é traduzida por šebeltā, “a Espiga“, enquanto Sagitário é salmā rabbā, “a Grande Figura“, e não kaššātā,”o Arqueiro“. E, enfim, vemos nūnā, “o Peixe“, – portanto, um singular – enquanto os nūnayyā de Ḥirbat Qumrān e o nūnē da lista de Sebokht são um dual e um plural.

Isso nos permite falar dos zodíacos siríacos orientais, é o fato de que peculiaridades como tren salmē, qenšalmā ou salmā rabbā não é encontrado nas listas siríacas ocidentais. A presença de nomes como emrā (ḫasen) ou šebeltā, usados ​​exclusivamente para os signos correspondentes nos textos siríacos orientais, influenciaram por outro lado, como já vimos na lista de Sévère Sebokht, as listas siríacas ocidentais, onde são usados ​​junto com dikrā e btūltā. Acrescentemos a descoberta, em outras listas escritas em siríaco oriental, novos nomes para Balança, como qanyā šalmā com qenšalmā numa forma aglutinada, ou simplesmente qanyā e, para Sagitário, qeštā, “o Arco“. Essas formas originais são encontradas em outro dialeto aramaico, o mandaico, que apresenta a seguinte lista: 1. cumbarā, 2. tawrā, 3. silmyā, 4. sartānā, 5. aryā, 6. šumbiltā, 7. qaynā, 8. arqabā, 9. hityā, 10. gadyā, 11. dawlā e 12. nūnā. Percebemos imediatamente que a cumbara, “o Cordeiro“, corresponde com a designação presente nas listas siríacas orientais, bem como silmyā, “a Figura”, em tren salmē, e šumbiltā, “a Espiga”, e šebeltā, para a Virgem. Também podemos ver que qanyā, colocado para Balança, não é outro senão a metatese de qaynā, “o Flagelo”, que corresponde ao qanyā siríaco (šalmā) e que, ainda como nas listas siríacas orientais, o signo de Peixes é expresso pelo singular nūna. Portanto, é lícito falar em zodíacos aramaicos orientais.

Os Zodíacos Aramaicos Orientais, fontes das listas Árabe e Pahlaviana

O exame dos zodíacos aramaicos lança luz sobre um primeiro ponto: algumas peculiaridades descobertas no zodíaco árabe clássico e no pahlavi responsável pela disseminação da nomenclatura moderna na região árabe-turca-persa, já existiam nos zodíacos aramaicos. Estas são figuras originais nos signos de Virgem, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes.

Em relação ao signo de Virgem, o nome dela na Babilônia é šubultu, “a Espiga“, e esta figura leva essa designação exclusivamente nos zodíacos siríacos orientais com šebeltā e no mandaico com šumbiltā. E é essa maneira de nomear o signo que encontramos de um lado em pahlavi hošag e persa وخهش ḫuša e, por outro lado, em árabe اةلبنسل al-sunbula, e no sombole persa, no turco otomano هلبنس sünbüle e no turco moderno Başak, e também em sudarábico šubiltān e sânscrito Kanyā.

O nome árabe de Sagitário, ou لاقسو al-qaws, que dava ao persa قسو qaws e قسو kavs em turco otomano, traduzido pelo moderno turco Yay, é diretamente relacionado ao qastā aramaico, que também encontramos na lista Ḥirbat Qumrān, que deu o qeset hebraico, que está nas listas siríacas orientais sob o nome de qestā. Note para registro que não é “o Arco“, mas hītya, “a Flecha”, em mandaico e ḫaûyān em sudarábico, que também  expressa esse signo.

Em relação a Capricórnio, por um lado, o árabe لايدج al-jady, e dado o persa دجى ğady e o turco otomano دجى cediy e sua tradução moderna Oğlak, assim como, por outro lado, o pahlavi wahīg e persa boz, conectam tudo em gadyā, “a Cabra”, que é o único nome usado em todas as listas aramaicas.

A figura de Aquário, que aparece como “o Vaso” em todas as listas aramaicas, ou dōla e no aramaico de Ḥirbat Qumrān – daí dəlī em hebraico -, e dawlā nas listas siríacas, encontra-se no pahlavi dōl e também no árabe لادول al-dalw, que deu o persa دول dalw e o turco otomano دول delv, traduzido para o turco moderno por Kova, “o Vaso“.

Quanto a como expressar o último signo do zodíaco por um único peixe, temos em árabe لاتوح al-ḫūt, que deu o persa توح ḫūt e o turco otomano توح hūt, traduzido hoje em Balık, e podemos colocá-lo em relação com o nūnā das listas siríacas orientais e o mandaico, enquanto o aramaico ocidental, enquanto o aramaico de Ḥirbat Qumrān como a lista de Sévère Sebokht fornece a figura familiar de um par de peixes.

Portanto, é claro que as características originais apresentadas pelo zodíaco árabe, do qual derivam alguns dos nomes persas modernos e turco otomano, bem como pelo zodíaco sudarábico, assim como pelo zodíaco pahlavi, está na origem de muitos nomes persas atuais, e devem ser comparados com os dos zodíacos aramaicos orientais, ou seja, as listas siríacas oriental e mandaica. No que diz respeito à língua árabe, a personalidade dos primeiros poetas com os quais são atestadas as primeiras denominações das constelações zodiacais sugere que a rota preferida de penetração dos nomes do zodíaco é Al-Ḥīra, a capital de lakhmide. Quanto ao pahlavi, temos desde que a primeira lista foi atestada no Bundahišn. Certamente, a astronomia sassaniana integrou certos nomes da astronomia helenística, incluídos graças as traduções de obras gregas nos tempos de Ardašīr I e Šāpūr I seu sucessor no século III d.C., mas é óbvio que a tradução dos textos gregos ocorreu em um ambiente que já se operava o zodíaco por apropriações dos nomes da lista grega e não por suas substituições. Se esta lista antiga aclimata as listas semíticas da Pérsia sassaniana? Nós conhece a influência do aramaico na Pérsia – a ele lhe deve a escrita do pahlavi -, mas é difícil datar a época em que as listas foram importadas. Se levarmos em conta que o Império Aquemênida dominou a Mesopotâmia por mais de um século após o nascimento do zodíaco, que está em meados do século V antes de nossa era, podemos supor que as primeiras listas poderiam ser conhecidas na Pérsia por escritos na língua babilônica tardia. Agora voltando para a origem dos próprios nomes aramaicos, é fácil convencer-se de que as apropriações aparecem nesses dois tipos de lista, em quase todos os casos, aos nomes acadianos que estão devidamente confirmados em documentos. Não há necessidade de aprofundar aqui este ponto que é amplamente tratado alhures. No entanto, é difícil estabelecer com certeza qual idioma foi usado para a introdução da lista de zodíaco no Irã.

A questão é ainda mais difícil de decidir quando se trata do zodíaco sânscrito que apresenta, com os zodíacos aramaicos e pahlavianos, uma relação comum.

A Origem dos Zodíacos do Mediterrâneo não-semitas

Shams al-Ma’airf al-Kubra (the Great Sun of Gnoses)-Ahmad ibn ‘Ali al-Buni- Table of associations between letters, the mansions of the moon, the constellations of the standard zodiac, and the seasons.

Como voltamos à Babilônia, pode ser útil concluir este assunto, dando algumas informações sobre a difusão do zodíaco babilônico, fonte de todas as nomenclaturas que acabamos de examinar, em direção ao Mediterrâneo.

Quanto à Grécia, parece que várias apropriações das constelações da eclíptica já existiam antes da introdução do zodíaco. É o caso de Ταῦρος, o “Touro”, atestado por Ferécides de Siro. Nós então temos – mas com todas as reservas -, Κρίος, o “Áries” e Σκορπίος “, o Escorpião “, introduzido, segundo Plínio, por Cleóstrato de Ténedos, por volta de 500 a.C. por exemplo, também pode ser Τοξότες, o “Arqueiro”, ou seja, Sagitário, cerca de 450 a.C. com Demócrito. Os seguintes nomes são da época do nascimento do zodíaco. São assim atestados, por volta de 400 a.C., em Euctêmon: Καρκίνος, o “Caranguejo”, Λέον, o “Leão” e Αἰγόκερως,com chifres de cabra“, isto é, Capricórnio. Outros signos aparecem um pouco mais tarde, por volta de 370-360 a.C., com Eudoxo de Cnido, de acordo com Hiparco: é o caso de Δίδυμοι, os “Gêmeos”, de Παρθένος, a “Virgem”, de Χηλαί, as “Garras”, para Libra, ‘Υδροχοεύς, o “Aquário” e de ‘Ιχθύες, os “Peixes”.

Temos uma pista referente ao Touro. Temos num recorte do livro do século VIII, sob uma figura constelar explícita, a inscrição <rš / šr’>, “a Cabeça do Touro”, e é realmente um prótoma do animal em questão que a figura grega apresenta. Se, como dita a tradição, Ferécides estivesse em contato com Tales de Mileto, do qual Calímaco nos diz que conhecia a constelação de marinheiros fenícios de Άμαξα, a “Carruagem”, ou seja, a Ursa Menor, podemos imaginar que lá temos um caminho possível para a introdução da constelação de Touro na Grécia. Outra pista diz respeito à constelação de Τοξότες, o Arqueiro “, da qual podemos supor que Demócrito trouxe de volta da viagem que ele supostamente fez na Babilônia. Quanto aos outros nomes, chegaram aos gregos por meios não elucidados formalmente.

Algumas apropriações merecem que nos apeguemos a elas especialmente. É o caso de Παρθένος, a “Virgem”, para o sexto signo do zodíaco, que não corresponde ao seu nome babilônico, AB.SÍN = šubultu, a “Espiga”, das listas aramaicas orientais. No entanto, como foi demonstrado em outro âmbito, o aparecimento da figura da Virgem se deve à aclamada imaginação semítica ocidental da da deusa Šala, apresentada explicitamente nos textos babilônicos como patrona da estrela que deu seu nome a essa constelação. Na verdade, ela era vista na Síria como cAtta, paredra de Hadad, cuja contraparte ugarítica, cAnat –ccAttā, é a forma aramaica desse nome – é conhecida como batūlat, a “Virgem”, epíteto que o seguirá quando fundido com o cAtar, ele se tornará ΑταργατῖςcAtar + cAttā -, também qualificado como παρθένος. Isto é, com toda a probabilidade, onde a origem comum deve ter sido encontrada no battultā aramaico, bem como no Παρθένος grego. O nome desta figura poderia muito bem ter sido comunicado em grego, em época tardia, pelo fenício.

Mas também podemos apresentar a hipótese de que Eudoxo, se for a questão, tinha uma lista completa de signos a partir da qual ele tirou os nomes que ainda não eram conhecidos na Grécia. No entanto, em seu tempo, existia de um lado da muitos documentos babilônicos contendo o zodíaco e, por outro lado, o aramaico era a língua oficial e a língua falada do Império Persa, a oeste de Eufrates, então as chances são boas de que essa fosse a lista fosse aramaica. Aqui, um detalhe é interessante: Ptolomeu aponta, em um documento que remonta a 237 a.C., o nome de Ζυγός, o “Flagelo”, para Libra. É curioso notar que esse nome faz eco ao qanyā (šalmā) das listas aramaicas orientais que, de acordo com uma hipótese já discutida, poderiam se relacionar com o GI.IGI da Babilônia = qanū šalmu, “o Flagelo justo“. Isso certamente não nos diz se o empréstimo foi feito através do babilônico ou do aramaico, bem como a qual época o empréstimo poderia pender, em qualquer caso, para um papel desta segunda língua na difusão do nome para a Grécia.

Vamos rapidamente avançar para o zodíaco egípcio. Ele nos deu um nome original para Libra, a saber <ihy>, “o Horizonte”, que é a origem do símbolo Ψ, ainda usado hoje para este signo do zodíaco. Dois outros nomes apresentam uma variante de nomes conhecidos em outros lugares: é <rpyt>, “a Princesa” para Virgem e <mw>, “a Água” para Aquário. Os outros parecem ser indiferentes a tradução do grego como babilônico ou aramaico. Mas a iconografia dos signos do zodíaco é, sem contexto possível, de origem babilônica, como atestado pelos dois zodíacos de Dendera: seis dos doze signos, incluindo Sagitário, correspondem a uma iconografia puramente mesopotâmica, que não é encontrado em nenhuma representação grega conhecida. O empréstimo do zodíaco da Babilônia poderia ter sido feito aqui também sob o domínio Persa dos Lagides, e não é impossível que, em ambos os casos, o aramaico desempenhou seu papel.

Resta examinar o zodíaco latino de onde provêm dos zodíacos das diferentes línguas europeias. Os latinos têm, à primeira vista, a tradução dos nomes gregos, que dão a seguinte lista comum, que encontramos em Cícero na íntegra: Aries, Taurus, Gemini, Cancer, Leo, Virgo, Scorpio, Libra, Sagittarius, Capricornus, Aquarius e Pisces. Mas se olharmos de perto, veremos que, se os nomes gregos conhecidos  para Libra, Chlai, “as Garras”, e Zugo/j, “o Flagelo”, encontramos os nomes latinos Jugum ou Chelae, mas diferem do nome mais comum, a saber Libra, “a Balança”, que expressa o instrumento de medição, mas que não é usado como tal, para o signo do zodíaco entre os gregos. Também encontramos outras denominações que não são as traduções das apropriações gregas do repertório dos documentos que chegaram até nós: Sagitta, “a Flecha”, para Sagitário, ecoa do  aramaico hetyā “a Flecha”42, Cabra “o Bode”, para Capricórnio, bem mais próximo do aramaico gadyā” a Cabra”, que do grego Aigo/kerwj, “Com chifres de cabra”, Urna para Aquário como já encontrado no aramaico dōlā, “o Vaso”.

42 Ainda hoje o símbolo (♐) expressa o signo de Sagitário. Ele nasceu no Egito, mas isso provavelmente é uma herança semítica: já conhecemos o mandaico hityā que pode ser relacionado ao maḫiş  uşşi da Babilônia, literalmente “o Arremessador de flechas”, ou seja, “o Arqueiro”, expressão acadiana que Arthur Ungnad propôs, para o logograma PA.BÍLSAG, a leitura maḫiş  uşşi, literalmente “Quem lança a flecha” e que poderia, portanto, ser sinônimo de qaštu, um termo que define “o arqueiro” – e não apenas “O arco” – “Besprechungkunst und Astrologie in Babylonien”. Adicione que a flecha é o atributo de Ninurta, deus da guerra e da caça, incluindo PA.BÍLSAG é precisamente sua manifestação.

Certamente tais apelações podem aparecer como sinédoques (συνεκδοχή) das figuras de Sagitário, Capricórnio ou Aquário, onde cada uma delas expressaria respectivamente como ‘pars pro toto’ (uma parte para o todo). Contudo, essa maneira de designar está ausente nos textos gregos conhecidos. Por outro lado, os nomes resultantes de fato estão presentes nas listas semíticas contemporâneas dos latinos, onde eles constituem a maneira usual de nomear os signos considerados. Contudo, essas listas deveriam circular nas províncias do leste e, em particular em Alexandria, irrigada continuamente, pelo menos até meados do século II d.C., isto é, na época de Cláudio Ptolomeu, pela contribuição dos astrólogos caldeus e sírios, como evidenciado pela fama de Teukros da Babilônia ou o de Vettius Valens, um alexandrino de origem síria. A presença dessas apropriações sugere, portanto, a hipótese de que os autores latinos fizeram amplo uso, ao lado da Sphaera graecanica, do filósofo Publius Nigidius Figulus, amigo de Cícero, da chamada Sphaera barbarica, cujos ricos materiais eram constantemente renovados por essas contribuições orientais.

Chegando ao final deste ensaio, é possível elaborar a seguinte genealogia: o tronco é formado pelo zodíaco babilônico, que passa a ter diferentes formas a partir das quais se vêm nas listas aramaicas, e nas quais podemos agrupar dois ramos principais: 1. o aramaico ocidentalista que, simultaneamente às listas babilônicas, deu a. os zodíacos grego, egípcio e latino, mas também b. Hebraico e siríaco ocidental; e 2. as listas orientais, que em similitude com as listas babilônicas, são originalmente a. listas do persa médio – pahlavi e corásmica -, de onde vêm alguns nomes persas modernos, bem como e sânscrito, e b., através das listas siríacas e listas orientais e mandarinas, sudarábicas e árabes: que é a última a se nutriu, com os nomes traduzidos do grego, e da rica nomenclatura persa, simultaneamente com as listas de origem nativas, bem como os nomes turcos otomanos que, por sua vez, foram traduzidos para o turco moderno.

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