Traduções

A Descoberta do Homem Zodiacal Cuneiforme

John Z. Wee

(THE ORIENTAL INSTITUTE OF THE UNIVERSITY OF CHICAGO)

υ

Tradução:
César Augusto – Astrólogo

φ

Resumo

Amplamente representado em escritos e desenhos dos tempos clássicos, medievais e modernos, o ‘Homem Zodiacal’ (Homo signorum) representa uma correlação aproximadamente consistente de nomes zodiacais com partes do corpo humano. Aqui, anuncio a primeira descoberta do ‘Homem Zodiacal’ na escrita cuneiforme e, possivelmente, sua primeira comprovação na história formulada. Este ‘Homem Zodiacal’ pertence a uma tabela astrológica até então incompreendida em uma tabuinha do Museu Britânico (BM 56605), e sua função na tabela ajuda a esclarecer os métodos babilônicos tardios da astrologia médica.

Toby: (…) Eu achava mesmo, pela excelente constituição de tuas pernas, que elas foram concebidas sob o signo da galharda. (…) O que mais podemos fazer, se não cair na farra? Pois então não nascemos nós dois sob o signo de Touro?
Andrew: Touro? Esse é costelas e coração.
Toby: Não, senhor. Esse é pernas e coxas. Agora deixa-me ver tua cabriola. Ha, mais alto. Ha, ha, excelente!

William Shakespeare, Twelfth Night, ACT I, SCENE 3

γ

Sir Toby Belch e Sir Andrew Aguecheek estavam ambos errados, é claro. Como Shakespeare deve ter sabido, Touro era o signo do pescoço. Talvez mais revelador do que a sabedoria astrológica do bardo, no entanto, era a suposição que o público elisabetano compartilhava sua familiaridade com o ‘Homem Zodiacal’ e, portanto, podia rir da piada. OHomem Zodiacal ou Homo signorum (Homem dos Signos) representa a conexão dos nomes zodiacais com regiões do corpo humano, cujas imagens apareceram onipresentemente em calendários, livros de horas devocionais e tratados sobre filosofia, astrologia e medicina durante a Idade Média (fig.1). Médicos medievais, em particular, encontraram um uso diário pragmático para tais conexões entre os céus e a anatomia humana: Tendo observado que a Lua sobre suas cabeças atraía as marés altas, eles teorizaram os perigos da sangria de uma parte do corpo cujo signo zodiacal estivesse ocupado pela Lua, pois isso poderia fazer com que a maré de sangue jorrasse em correntes incontroláveis.

Mesmo com alvorecer da modernidade e o declínio da sangria não superaramos o ‘Homem Zodiacal’ com sua profunda raiz cultural. Sua figura continuou a adornar almanaques como o Poor Richard de Benjamin Franklin, escritos ocultistas de Ebenezer Sibly e outros, e numerosas publicações do The Old Farmer’s Almanac e brochuras astrológicas até o presente dia.

Somos gratos aos medievalistas por suas pesquisas históricas abrangentes sobre o ‘Homem Zodiacal’ na história do mundo ocidental.³ Embora fosse certamente possível para o corpo humano ser dividido e atribuído aos doze nomes zodiacais em uma variedade de maneiras, o emparelhamento das regiões do corpo com seções zodiacais permaneceu, de modo notável, consistente ao longo dos séculos. Na verdade, desvios do padrão podem sugerir o quão inadequado foi o ‘status quo’ na reflexão do corpo médico. Um desenho incomum do século XI d.C. (Paris, Bibl. Nat., MS lat. 7028, f. 154v) e dois manuscritos bizantinos dedicam cinco signos zodiacais (Áries-Leão) à cabeça, em reconhecimento de sua complexidade anatômica e suas partes. Em contraste, o estereotipado ‘Homem Zodiacal’ parece ser o produto de considerações puramente métricas que dissecaram a estrutura humana em seções aproximadamente de medidas iguais, de modo que apenas um signo zodiacal (Áries) lida com a cabeça, enquanto um total extraordinário de quatro zodiacais signos (Sagitário-Peixes) se preocupam com as pernas! Os estudiosos reconheceram que o Homem Zodiacal se desenvolveu ao longo das tradições antigas nas culturas do Oriente Próximo e egípcia que consideravam a terra como um espelho do céus, mas muitos situam sua formulação final do período greco-romano. Ao astrólogo-poeta Marcus Manilius (ca. 10-30 d.C.) é atribuído o primeiro relato do ‘Homem Zodiacal’, descrito na linguagem florescente da jurisprudência do Império Romano:

Ao Carneiro é concedida a cabeça como o Príncipe de todos, e o belo pescoço é dado pelo censo ao Touro. Para os Gêmeos são inscritos os braços unidos aos ombros. O peito é atribuído ao Caranguejo. O reinado sobre ambos os omoplatas o ombros pertence ao Leão. Como sua parte individual, o abdômen inferior cai declina para Virgem. A Balança domina as nádegas, e o Escorpião as delícias da virilha. As coxas concordam com o Centauro. Capricórnio comanda os dois joelhos. O vertedor Homem da Água arbitra a parte inferior das pernas, e os Peixes pronunciam-se nos pés.

(Astronomica II, 453–65 // IV, 701–10)
3. The major work on the subject is by C. W. Clark, The Zodiac Man in Medieval Medical Astrology (PhD diss., University of Colorado, 1979). For more cursory surveys, see H. Bober, The Zodiacal Miniature of the Très Riches Heures of the Duke of Berry: Its Sources and Meaning, Journal of the Warburg and Courtauld Institutes 11 (1948) 1–34; Monika Winiarczyk, “Homo Signorum: Looking to God or Looking to the Stars? The Role of the Body in Medieval Christianity”, in Abraxas Special Issue 1. Charming Intentions: Occultism, Magic and the History of Art, ed. D. Zamani (London: Fulgur, 2013), 42–52. For its medieval context, see Roger French, “Astrology in Medical Practice”, Practical Medicine from Salerno to the Black Death, ed. L. García-Ballester, et al. (Cambridge: Cambridge University Press, 1994), 30–59.

Os relatos em latim de Manilius (§A) e mais tarde Julius Firmicus (§G) são, na verdade, minoria, a maioria dos escritos preservados sobre o ‘Homem Zodiacal’ estão no idioma do grego clássico. Na Tabela 1 (de três partes A–C), eu comparo o vocabulário corporal de uma seleção de fontes antigas que conectam o corpo ao zodíaco, mesmo quando, em em alguns casos (§F1, §N), o sujeito considerado não é um corpo humano, mas um corpo cósmico. Embora minhas traduções para o Inglês na Tabela 1 são necessariamente dependentes do contexto e podem ser interpretativas, uma rápida olhada nos termos do Grego e Latim é suficiente para mostrar que esses autores conceberam o ‘Homem Zodiacal’ de maneiras muito semelhantes. Também incluído (mas sem as marcas com linhas duplas) são registros de ideias gnósticas (§Q, §R) que relacionam sequências corporais que lembram o ‘Homem Zodiacal’, não aos nomes do zodíaco, mas às letras do alfabeto grego. Por agora, evitei propostas de repartir o corpo humano entre as quantidades não-descendentes de planetas ou seres divinos. Também omito nesta fase os casos de melotesia decânica, que mapeiam o corpo no sistema egípcio de trinta e seis decanatos (cada um representando 10° do círculo do zodíaco),  embora esquemas astrológicos detalhados na Carta de Hermes a Asklepios, relatada por Heliodorus (CCAG VIII/4, 239-40), e outros escritos que prometem caminhos frutíferos para comparações em um trabalho futuro.8 Listadas abaixo estão as informações bibliográficas específicas que são fundamentais para a Tabela 1. A ordem e os grupos pelos quais apresento esses autores não constituem qualquer decisão sobre a transmissão do ‘Homem Zodiacal’ na antiguidade, mas pode refletir aproximadamente afinidades nas escolhas do vocabulário do corpo.

((§A) Marcus Manilius (ca. 10–30 CE)
(§A1) Astronomica II, 456–65 (14 CE).
(§A2) Astronomica IV, 704–9 (14 CE).

(§B) Sextus Empiricus (ca. 100–200 CE), Adversus Mathematicos V, 21–22.

(§C) Pseudo-Galen [= ? Imbrasius of Ephesus, 300 BCE–650 CE ?], Prognostica de decubitu ex mathematica scientia.

(§D) Vettius Valens of Antioch (ca. 150–180 CE)
(§D1) Anthologiae II, 37.3 [= 36.3 in Pingree].
(§D2) Anthologiae II, 37.7–19 [= 36.7–19 in Pingree].

(§E) Dorotheus of Sidon (ca. 50–100 CE), Carmen Astrologicum IV, 1.76.

(§F) Hephaestion of Thebes (ca. 420–450 CE)
(§F1) Apotelesmatica I, 1.3, 23, 42, 61, 81, 100, 119, 138, 158, 178, 197, 216.
(§F2) Apotelesmatica II, 13.5.
(§F3) Apotelesmatica III, 31.11.

(§G) Julius Firmicus Maternus (334–ca. 357 CE), Mathesis II, 24.

(§H) Porphyry of Tyre (ca. 260–305 CE), Introduction to Ptolemy’s Tetrabiblos in CCAG V/4, 216–17 (no. 44).

(§I) Paul of Alexandria (ca. 350–400 CE), Eisagogica, A3–B1.

(§J) Excerpt from Teukros of (Egyptian) “Babylon” (ca. 30–100 CE) by Rhetorius (ca. 600–700 CE ?) [Teukros-Rhetorius] CCAG VII, 195–211.

(§K) CCAG V/3, 128–29 [F. 206].

(§L) Scholiast on Aratus, no. 545.

(§M) Excerpt from Olympiodorus by pseudo-Democritus (ca. 200 BCE–250 CE ?) [Olympiodorus-pseudo-Democritus] CAAG II, 101 (ll. 7–8).

(§N) CCAG VI, 83 [F. 31v], ll. 4–8.

(§O) Excerpts from Codex 65 in CCAG V/4, 167
(§O1) ll. 1–4.
(§O2) ll. 6–10 [F. 235v].

(§P) Dialogue of Plato and Petosiris (MS from third century CE) = Greek Papyrus No. 63 in the John Rylands Library, ll. 7–12.

(§Q) Hippolytus of Rome (ca. 200–236 CE), Philosophumena VI, 44.

(§R) Epiphanius of Salamis (ca. 365–403 CE), Panarion XXXIV, 5.5.

γ

8. J. B. Pitra, ed., Analecta sacra et classica spicilegio solesmensi parata, vol. 5.2 (Paris and Rome: 1888), 285–90. In recurring cycles, decans are assigned to κεφαλή (“head”), τράχηλος (“neck”), ὦμος (“shoulder”), χείρ (“hand”), στῆθος + καρδία, etc. (“breast + heart, etc.”), πλευρόν + νῶτων (“side + back”), σπλάγχνα + γαστήρ (“innards + belly”), γλουτός + μόριον (“buttock + ‘member’”), μηρός + γόνυ (“thigh + knee”), πούς (“foot”) in CCAG VIII/4.

A dívida que a astrologia helenística tem com os esquemas zodiacais (e microzodiacais) nos estudos da Babilônia tardia está bem documentada.27 A menção de Empiricus (§B) de “alguns caldeus que atribuíram cada parte do ser humano corpo a um dos signos como simpatizante com ele” (Adversus Mathematicos V, 21.1-4), no entanto, foi entendida como uma referência genérica aos astrólogos, ao invés de uma afirmação das origens da Babilônia. Na verdade, Ptolomeu afirmou que “os que mais avançaram nesta faculdade da arte, os egípcios, combinaram a medicina com a predição astronômica em todos os sentidos” (Tetrabiblos I, 3.18), enquanto o Scholiast on Aratus (§L) também creditou aos “egípcios” (ll. 18, 20) o fundamento lógico de associar os signos zodiacais às partes do corpo. É verdade que vários autores que escreveram sobre o ‘Homem Zodiacal’, como Vettius Valens (§D), Dorotheus de Sidon (§E), Heféstion de Tebas (§F) e Paulo de Alexandria (§I), estavam ligados a centros de estudos na antiga Alexandria e em outras partes do Egito. No entanto, já nos primeiros dois séculos (cerca de 1–200 d.C.), quando nossas fontes clássicas começam, as descrições por Manilius (§A), Empiricus (§B), Vettius Valens (§D), Dorotheus (§E) e talvez Pseudo-Galeno (§C) são notavelmente consistente em seus contornos do ‘Homem Zodiacal’ e seu vocabulário corporal (Tabela 1A), deixando-nos amplamente na obscuridade sobre a maneira pela qual os precursores da ideia (se houver) podem ter surgido. A circulação de conhecimento nos mundos do Mediterrâneo e do Oriente Próximo durante os últimos séculos a.C. tem sido uma empolgante área de pesquisa acadêmica. Da parte dos assiriólogos, importantes contribuições recentes de Mark Geller, Erica Reiner, Nils Heeßel e John Steele, entre outros, tentaram esclarecer o que os antigos mesopotâmios pensavam sobre a influência celestial no corpo humano e as raízes do Oriente Próximo da iatromatemática (medicina astrologia).30 Até agora, no entanto, as propostas relativas à melotesia em contextos cuneiformes não trouxeram evidências suficientemente próximas às formas greco-romanas do ‘Homem Zodiacal’, de modo que possamos, com maior confiança, começar a falar de suas origens.

27. F. Rochberg, In the Path of the Moon: Babylonian Celestial Divination and Its Legacy (Leiden: Brill, 2010), esp. 143–65; J.M. Steele, “Visual Aspects of the Transmission of Babylonian Astronomy and Its Reception into Greek Astronomy,” Annals of Science 68 (2011) 453–65.
30. M. J. Geller, Look to the Stars: Babylonian Medicine, Magic, Astrology and Melothesia, Max-Planck-Institut für Wissenschaſtsgeschichte Preprint 401 (2010); ibid., Melothesia in Babylonia: Medicine, Magic, and Astrology in the Ancient Near East, (Berlin: de Gruyter, 2014); Erica Reiner, Astral Magic in Babylonia, (Philadelphia: American Philosophical Society, 1995); Reiner, “Early Zodiology and Related Matters”, in Wisdom, Gods and Literature: Studies in Assyriology in Honour of W. G. Lambert, ed. A. R. George and I. L. Finkel (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2000); N. P. Heeßel, STEIN, PFLANZE UND HOLZ: EIN NEUER TEXT ZUR ‘MEDIZINISCHEN ASTROLOGIE, (2005); Heeßel, “Astrological Medicine in Babylonia”, in Astro-Medicine: Astrology and Medicine, East and West, ed. A. Akasoy, C. Burnett, and R. Yoeli-Tlalim (Florence: Galluzzo, 2008); JoAnn Scurlock, “Sorcery in the Stars: STT 300, BRM 4.19–20 and the Mandaic Book of the Zodiac,” AfO 51 (2005/2006); L. Brack-Bernsen and J. M. Steele, “Babylonian Mathemagics: Two Mathematical Astronomical-Astrological Texts”, in Studies in the History of the Exact Sciences in Honour of David Pingree, ed. C. Burnett, J. P. Hogendijk, K. Plofker, and M. Yano (Leiden: Brill, 2004); J. M. Steele, ASTRONOMY AND CULTURE IN LATE BABYLONIAN URUK, in Archaeoastronomy and Ethnoastronomy: Building Bridges between Cultures, ed. C. L. N. Ruggles (Cambridge: Cambridge University Press, 2011); Steele, “Real and Constructed Time in Babylonian Astral Medicine”, in Constructions of Time in Antiquity, ed. J. Ben-Dov and L. Doering (forthcoming); Hermann Hunger, “How to Make the Gods Speak: A Late Babylonian Tablet Related to the MicroZodiac”, in Studies Presented to Robert D. Biggs, ed. M. T. Roth, W. Farber, M. W. Stolper, and P. von Bechtolsheim (Chicago: Oriental Institute of the University of Chicago, 2007); J. Z. Wee, “Lugalbanda Under the Night Sky: Scenes of Celestial Healing in Ancient Mesopotamia”, JNES 73 (2014). Several older works, moreover, explore texts and issues relevant to melothesia and astral medicine: M. Leibovici, “Sur l’astrologie médicale Néo-Babylonienne”, JA 244 (1956); O. Neugebauer, “Melothesia and Dodecatemoria”, OrAnt 3 (1959); E. Weidner, Gestirn-Darstellungen auf babylonischen Tontafeln (Wien: Böhlaus, 1967).

γ

Neste artigo, pretendo anunciar a descoberta do ‘Homem Zodiacal’ em um formato cuneiforme grande (~20×15cm) na tabuinha do Museu Britânico (BM 56605), que está entre os primeiros atestados dessa figura na antiguidade. Por “Homem Zodiacal”, não me refiro apenas a qualquer associação de seções zodiacais com partes do corpo humano, mas  ao preciso esquema zodiacal amplamente atestado em escritos clássicos e medievais. Um tratamento completo da função do ‘Homem Zodiacal’ na tabuinha BM 56605 está além do escopo deste artigo preliminar. Em outra publicação futura, sugiro como variáveis ​​de partes do corpo humano doentes no ‘Homem Zodiacal’ podem ter desempenhado um papel ao lado do Calendário de Prescrições, texto que relaciona os signos micro-zodiacais e zodiacais a ingredientes terapêuticos. Por enquanto, porém, desejo para destacar meu uso da expressão “nome zodiacal” (em vez de “signo zodiacal”) ao descrever as relações do ‘Homem Zodiacal’ na tabuinha BM 56605, uma vez que é possível que esses nomes designem um micro-zodíaco ao invés de signos zodiacais.

O anverso da tabuinha BM 56605 consiste em pelo menos trinta e um registros de texto divididos em duas colunas em orientação de retrato. Cada registro contém uma entrada médica que descreve a doença que afeta o doente ou a parte do seu corpo, instruções e ingredientes para terapia e um prognóstico uniformemente otimista: “Ele viverá”. Os doze registros finais formam um grupo distinto com paralelos em outra tabuinha cuneiforme (BM 47755), e suas entradas médicas estão relacionadas com constelações estelares (cada uma para um signo zodiacal diferente) que “tocam” (lapātu) o homem doente e as partes do corpo que o “machucam” (akālu). O par de partes do corpo e constelações aqui não revela um ‘Homem Zodiacal’, e eu questionaria até mesmo a suposição de que essas entradas médicas expressam causa e efeito (“Se a constelação X o toca e a parte do corpo Y, portanto, o machuca,…”) em vez de uma amostra de permutação (“Se acontecer que a constelação X o toque e a parte do corpo Y o machuque,…”). Em qualquer caso, embora o ‘Homem Zodiacal’ apareça em outro lugar na tabuinha, há poucas dúvidas de seu contexto médico e de sua provável função na terapia.

O reverso da tabuinha BM 56605 consiste em uma mesa astrológica na orientação da paisagem com treze colunas e treze filas (fig.2). A coluna mais à direita contém treze linhas retangulares (não quadrados de grade), cada uma lista um nome zodiacal ou o nome de uma constelação de estrelas, uma pedra, um tipo de madeira, uma planta, uma data do calendário, bem como conselhos hemerológicos sobre alimentos ou atividades a evitar. Com exceção das linhas 1 e 2, os quadrados da grade no restante da tabela contêm, cada um, um número cuneiforme de 1 a 12. Os números são escalonados, de modo que o mesmo número é repetido em quadrados que se alinham diagonalmente, como um bispo se moveria em um tabuleiro de xadrez. Acima de cada número está o nome de um animal ou objeto, e a maioria destes normalmente designam constelações estelares em outros textos astrológicos. As identidades de alguns, no entanto, permanecem incertas, porque não parecem ser atestadas em outro lugar como constelações. A linha 1 está muito danificada, mas as partes preservadas deixam poucas dúvidas de que a linha lista os doze nomes zodiacais da Babilônia em sua sequência usual (um nome por coluna). A linha 2 (sombreada na fig.2) combina cada um desses nomes zodiacais com uma região do corpo humano. Quando lido da esquerda para a direita, os termos do corpo nos doze quadrados da grade da linha 2 exibem um arranjo da cabeça aos pés que, tomado como um todo, constitui nosso ‘Homem Zodiacal’. Na fig.3, forneço uma fotografia desta linha.

γ

Já na nota de rodapé de um artigo de 1988, o curador do British Museum Irving Finkel fez uma referência tentadora a tabuinha BM 56605 e sua “misteriosa tabela de significado astrológico”. A tabuinha inteira foi editada, traduzida, e publicado por Nils Heeßel em seu livro sobre Babylonisch-assyrische Diagnostik (2000), e os artigos subsequentes de Heeßel em 2005 e 2008 não alteraram ou melhoraram sua avaliação inicial da tabela astrológica. A interpretação de Heeßel35 é complicada, mas pode ser resumida da seguinte forma: #1) A linha 1 contém os doze signos zodiacais. #2) Os restantes quadrados da grelha na fig.2 cada contém um termo, que pode ou não designar uma constelação de estrelas, e que pode prescrever ingredientes a serem usados ​​para a construção de amuletos profiláticos ou terapêuticos. Exceto nas primeiras duas linhas, um número cuneiforme é escrito imediatamente abaixo de cada termo dentro de seu quadrado de grade. #3) Em qualquer dada coluna, cada um dos números representa uma divisão micro-zodiacal, que resulta da divisão de um signo zodiacal em doze partes iguais. #4) Portanto, é problemático que apenas onze linhas sejam numeradas. Linha 2 (não numerada e sombreada na fig. 2) foi inicialmente omitida por engano e, uma vez que não havia mais espaço na parte inferior da tabuinha, ela foi inserida em seu local atual. De acordo com o entendimento de Heeßel, portanto, a tabela astrológica não possui uma seção específica reservada para a listagem de partes do corpo humano. No que agora parece ser um comentário bastante presciente, no entanto, Geller ponderou que “teoricamente, deve-se eventualmente ser capaz de reconstruir uma tabela ou grade completa mostrando uma tabela de influências zodiacais, quando todos os textos relevantes se tornam conhecidos. A grade incluiria nomes de todas as pedras, plantas, madeira, partes do corpo e doenças influenciadas por signos do zodíaco em particular” e que “esta grade seria bastante semelhante àquela da tabuinha BM 56605”.

35. Heeßel, Babylonisch-assyrische Diagnostik, 112–30, 468–69, pls. 1–2; Heeßel, “Stein, Pflanze und Holz”, 8; “Astrological Medicine in Babylonia”, 11–15.

Como afirmei anteriormente, a tabuinha BM 56605 de fato enumera partes do corpo nos doze quadrados de grade da linha 2 (sombreado na fig.2). Minha interpretação da linha 2 obviamente difere da de Heeßel, e forneci close-up imagens e desenhos (figuras. 4 – 8) onde as diferenças em nossas leituras são mais nítidas. Isso ocorre para as regiões do corpo associadas aos nomes zodiacais Gêmeos, Libra, Escorpião, Sagitário e Capricórnio. Embora Heeßel não forneça traduções para o alemão ou inglês da linha 2, várias de suas leituras cuneiformes, como TI.MUŠEN (“Eagle,” ou seja, Aquila), ALLA.BI (“Caranguejo”, ou seja, Câncer) e talvez GU (“Grande”, ou seja, Aquário) sugerem que ele relacionou pelo menos alguns desses termos para constelações de estrelas. Para ter certeza, deve ter sido difícil interpretar escritos como ŠÀ.BI da mesma maneira. A tabela astrológica, no entanto, inclui também expressões como SAG.DU UR.A, “cabeça de leão (ou seja, Leão)” (col. 5 linha 3), que pode ter lançado dúvidas sobre a “barriga” (ŠÀ. BI, lê-se melhor lìb-bi) ou se outras partes do corpo mencionadas pertencem a um ser humano ou a um animal zodiacal. Na Tabela 2 e nas notas a seguir, proponho minha leitura e explico meu raciocínio para reinterpretar os signos na linha 2.

Notas

Áries: Cunhas não danificadas aqui podem pertencer a qualquer um dos signos cuneiformes semelhantes KA ou SAG. Nossa tabela astrológica pode compartilhar os mesmos títulos de coluna que a tabela incompleta no anverso do Uruk tabuinha SpTU 1:97 (=W 22285), cujos quadrados da grade estão vazios, exceto para a linha superior e a última coluna mais à esquerda. Em ambas as tabelas, a linha 1 lista os doze ‘nomes zodiacais’ (BM 56605) ou os doze meses babilônios que correspondem a esses nomes (SpTU 1:97). Na tabuinha de Uruk SpTU 1:97, o termo BAR (denotando o primeiro mês babilônico “Nisannu” correspondente a Áries) na linha 1 está escrito imediatamente acima do termo SAG (possivelmente significando “cabeça”) na linha 2, sem quaisquer linhas horizontais intermediárias que marcam outro linhas. Embora se possa interpretar BAR e SAG juntos como uma abreviatura de BAR.SAG.SAG (logograma para “Nisannu”), o uso de apenas um único sinal como a abreviatura logográfica para cada um dos outros meses argumenta contra esta interpretação. Também é possível (mas não totalmente explicável) que SAG indique alguns tipo de “começo”, semelhante à expressão SAG.BI na borda esquerda da tabuinha VAT 7851 (anverso) imediatamente sob seu desenho da posição hipsoma da Lua (“exaltação”). Por outro lado, o formato da tabuinha de Uruk pode espelhar a tabuinha BM 56605, cuja linha 1 (nomes zodiacais) e linha 2 (‘Homem Zodiacal’) também estão visualmente destacados das linhas restantes por sua falta de números cuneiformes. Se SAG na tabuinha de Uruk de fato se refere à “cabeça” do ‘Homem Zodiacal’, e fornece suporte adicional para minha leitura ⌈SAG⌉ na tabuinha BM 56605 (rev., Col. 1 linha 2) em Áries, e tem implicações para o atestado de ‘Homem Zodiacal’ em Uruk.

Touro: A “vértebra do pescoço” é ocasionalmente mencionada em textos médicos, mas os traços do signo não apoiam a restauração (na)KIŠIB.GÚ. O que temos aqui pode ser a escrita assindética de duas partes separadas do corpo x GÚ (semelhante ao caso de Gêmeos), talvez ZI(?) GÚ (“garganta (?), pescoço”). Outra leitura possível é IGI. MEŠ (?) GÚ (“face (?), Pescoço”), que corresponderia precisamente ao par de partes do corpo πρόσωπον, τράχηλος (§D1–2) que Vettius Valens atribuiu a Touro.

Gêmeos: Repetidamente, encontramos a mesma preocupação ao especificar “braço” (Á) e “ombro” (MAŠ.SÌL) nas descrições do ‘Homem Zodiacal’ por Manilius (§A), Vettius Valens (§D), Heféstion (§F2–3), Porfírio (§H), Teukros-Rhetorius (§J), entre outros. A escrita assindética em Á MAŠ.SÌL (“braço, ombro”) também é usada na tabela para justapor diferentes nomes de animais: MUŠ GÍR (“cobra, escorpião”) na col. 8 linha 3; KU GU (“peixe, touro”) na col. 1 linha 8; e talvez SA RI (“gato, RI”) na col. 7 linha 5. Esses pares de nomes são não facilmente reconhecível devido à natureza abreviada da escrita, mas cada um deles também aparece individualmente em outra parte da tabela.

Câncer: as extremidades da cauda visíveis de várias cunhas diagonais na metade inferior preservada do quadrado da grade são consistentes com minha restauração GABA.

Leão: Textos médicos definem ŠÀ (libbu, “barriga”) como uma região anatômica discreta, que às vezes é distinta de ŠÀ.MEŠ (qerbū, “entranhas”) e errū (“intestinos”). No entanto, não podemos descartar a possibilidade que lìb-bi (“barriga”) aqui era entendido também como o “coração”, ou seja, a sede da emoção, que parece ser o que Vettius Valens (§D2) e Teukros-Rhetorius (§J) pretendiam ao fazer Leão governar tanto καρδία (“Coração”) e ἀνδρεία (“viril (coragem)”).

Virgem: Em textos médicos, o logograma para qablu (“cintura, quadris, lombos”) é quase sempre escrito MURUB, não GU.MURUB. No entanto, a última escrita aparece em uma entrada médica na frente do mesmo tabuinha: GU.MURUB-šú GU-š [ú] (BM 56605 obv. 63), onde provavelmente significa “sua cintura está dolorida”. Essa entrada, por sua vez, tem um paralelo em outra tabuinha com a escrita MURUB-šú GU-šú (BM 47755, rev. 19).

Libra: a cópia da mão de Heeßel omite uma cunha vertical imediatamente à direita das outras cunhas cuneiformes, talvez porque essa cunha vertical quase não seja visível em sua foto da tabuinha (na fig. 5). A leitura GU é, portanto, improvável, mesmo se alguém se sentir tentado a entendê-la como uma abreviatura para “nádega” (qinnatu, logograma GU.DU), que foi atribuído a Libra por muitos autores, incluindo Manilius (§A), Pseudo-Galeno (§C), Vettius Valens (§D2), Heféstion (§F2–3), Porfírio (§H), Paulo de Alexandria (§I) e Teukros-Rhetorius (§J). Uma motivação óbvia aqui era a adequação de conectar os dois pratos de pesagem da balança (ou seja, Libra) com partes do corpo que vêm aos pares. Contudo, enquanto os ‘nomes zodiacais’ e as constelações de estrelas são frequentemente abreviados nesta tabela e em outros textos astronômicos (por exemplo, GU no lugar de GU.LA “Grande”, ou seja, Aquário), há pouca indicação de que nomes de partes do corpo podem ser abreviados de forma semelhante. A referida cunha vertical também desestimula a leitura ELLAG para “rim” (kalītu), que Firmicus (§G) e Porfírio (§H) atribuíram a Libra, novamente, provavelmente porque os rins vêm em pares. Eu li provisoriamente o signio cuneiforme aqui como HAR (?), especialmente considerando como as cunhas horizontais são inclinadas em um ângulo no cursivo final deste tabuinha. Na Série de Diagnóstico Sa-gig e em textos terapêuticos, HAR.(ME Š) inevitavelmente funciona como o logograma para “pulmões” (hašû). No arranjo da cabeça aos pés aqui, no entanto, HAR (?) parece designar o termo menos preciso e não técnico kabattu (“dentro”), que pode servir como uma expressão abrangente para a complexa anatomia interna localizada abaixo da “cintura” atribuída a Virgem.49

49. Other authors also connect Scorpio to γονίμους τόπους, “fertile places” (§H), as well as natura (§G) or φύσις (§O1), “generative organs”.

Escorpião: As cunhas verticais que Heeßel entendia como ŠÀ.A estão agrupadas de forma muito estreita, deixando muito espaço vazio à sua direita. Isto contradiria a prática de outros quadrados de grade da tabela, onde signos separados são distribuídos mais uniformemente pelo espaço disponível. Aqui, o signo A é provavelmente embutido dentro do signo À para produzir o signo composto PEŠ (ŠÀ×A) (“genitália feminina”). Na medicina babilônica, o corpo masculino é tipicamente utilizado como taquigrafia para o corpo humano genérico, pelo que a menção da genitália feminina para o ‘Homem Zodiacal’ é surpreendente. A atribuição de “genitália e útero” a Escorpião por Empiricus (§B) e Pseudo-Galeno (§C) pode sugerir o possível motivo para incluir condições de gravidez e o nascituro neste esquema astrológico.

Sagitário: O signo que li TUGUL se assemelha muito ao desenho no MZL de Borger (no. 894), mas difere um pouco dos exemplares do Manuel d’épigraphie akkadienne de Labat (no. 561).

Capricórnio: O signo ṣa parece aqui consistir em apenas três (em vez das quatro usuais) cunhas verticais, duas das quais se sobrepõem em grande parte. Considerando que a maioria dos termos nesta tabela astrológica aparecem como (abreviado) formas logográficas, a região do corpo aqui é indicada pelos sinais de sílaba kim-ṣa em vez de DU.GAM, talvez porque a escrita silábica de kimsu (“joelho/canela”) foi a convenção adotada em textos médicos.

Aquário: Em contextos médicos, o logograma ÚR normalmente denota pēmu (traduzido como “coxa” em CAD P, 321; “Oberschenkel” em AHw, 854) ou sūnu (traduzido “colo, virilha” em CAD S, 386; “Schoß, Schenkelbeuge” em AHw, 1059), qualquer um dos quais parece envolver a parte superior da perna. No arranjo da cabeça aos pés aqui, no entanto, esperaríamos que a parte do corpo de Aquário ficasse abaixo dos “joelhos/canelas” indicados por Capricórnio. Além disso, embora cada um dos termos (GU.) MURUB (qablu), TUGUL (gilšu) e ÚR podem incluir o “quadril” ou “coxa”, dependendo do contexto, eles raramente são colocados em contraste um com o outro como eles estão aqui. Podemos, portanto, suspeitar que esses termos assumem nuances ligeiramente diferentes quando usados ​​como rótulos para regiões corporais mutuamente exclusivas. Na verdade, o termo ÚR às vezes pode designar a “perna” como um todo, especialmente como a contraparte de Á (“braço”) em combinações como Á.ÚR (mešrêtu, “membros”). Esse é o significado que eu atribuiria ao ÚR aqui, que inclui a região da perna abaixo dos joelhos. 1 se pergunta se foi pretendido um contraste entre kimsā (“joelhos/canelas”; atribuído a Capricórnio) como a porção óssea da perna versus ÚR (“perna”; atribuída a Aquário) como a porção carnosa da perna. Nós podemos também encontrar uma analogia na forma como o termo grego σκέλος (“perna”) foi usado como um rótulo para o ‘Homem Zodiacal’, às vezes indicando a região da perna atribuída a Aquário (§D2, §J), enquanto outras vezes significa a área da coxa governada por Sagitário (§K).

Peixes: Embora o signo GÌR esteja quase totalmente corroído, certamente havia cunhas cuneiformes à esquerda do número 2, visto que o escriba escreveu de tal forma que as cunhas sempre começam da esquerda de seus quadrados de grade. É reconhecidamente tentador postular uma correlação entre Peixes (nome babilônico: KUN.MEŠ, “Caudas”) e o “cóccix/osso da cauda” humano (GIŠ.KUN ou ÚR.KUN). No entanto, os traços existentes não se assemelham ao signo KUN, e todas as outras indicações apontam para uma sequência do ‘Homem Zodiacal’ que invariavelmente conclui com os “pés”.

γ

É adequado revisitar a Tabela 1 neste ponto, para maravilhar-se com o quão favoravelmente o ‘Homem Zodiacal’ no tabuinha BM 56605 se compara com a figura nos escritos gregos e romanos antigos. As fontes em grande parte concordam em relacionar a cabeça-tórax para Áries-Câncer, os órgãos sexuais para Escorpião e as diferentes partes da perna para Sagitário-Peixes. Onde o cuneiforme torna-se menos previsível (Leão-Libra) também é onde os autores greco-romanos discordam entre si, presumivelmente porque era difícil destilar em termos lexicais individuais a complexa anatomia do meio e parte inferior do tronco atribuída a Leão-Libra. Como observei anteriormente, o ‘Homem Zodiacal’ é um pobre reflexo do corpo médico, e a atenção que dá aos componentes ou regiões do corpo é muitas vezes desproporcional ao seu significado na doença e terapia. Minha observação é válida para o caso da medicina mesopotâmica: sequências da cabeça aos pés na Série de Diagnóstico Sa-gig (mais especificamente, Subsérie II), temas organizacionais de séries de textos terapêuticos e pesquisas do corpo feminino (BAM 212 e 213), todos dedicam a maior parte da descrição a partes do rosto e do torso, com relativamente menos foco nas pernas e pés. Em contraste, a simetria entre o cosmos e o corpo no ‘Homem Zodiacal’ era alcançada projetando as dimensões espaciais e temporais do zodíaco na forma humana meramente externa, com aparentemente pouca consideração pelas funções biológicas de suas partes. O destaque dado às proporções físicas da figura humana é, portanto, digno de nota, se tais ênfases foram nativas do pensamento da Babilônia tardia ou revela influências das culturas helenísticas ou romanas do corpo.

A questão sobre o terminus quo do ‘Homem Zodiacal’ surge inevitavelmente. A tabuinha BM 56605 não inclui data explícita e não nomeia nenhuma pessoa datável, mas foi vagamente descrito como Babilônico tardio (Finkel, Geller) ou Helenístico/Partia primitivo (Heeßel). A tabuinha começa com uma invocação comum no aquemênido acadêmico tardios e nas tabuinhas helenísticas da Babilônia: “Que seja pelo comando dos deuses Bēl e Bēltīya”. Se a tabela incompleta em SpTU 1:97 realmente menciona a “cabeça” (SAG) do ‘Homem Zodiacal’, isso implica que o ‘Homem Zodiacal’ era conhecido também na cidade de Uruk, em um arquivo que data do terceiro ou segundo século AEC. Ainda assim, seria correto questionar o valor da tabuinha SpTU 1:97 como evidência, uma vez que o peso da prova repousa sobre um único signo cuneiforme (SAG) que também poderia ser interpretado de outras maneiras (veja notas sobre Áries).

Os historiadores frequentemente têm notado que a última tabuinha cuneiforme datável é um almanaque da Babilônia que registra eventos astronômicos de 74/75 EC. De seu estudo da Greco-Babilônia e várias fontes clássicas, Geller sugeriu que o cuneiforme poderia ter sobrevivido até o segundo ou mesmo terceiro século EC, mas esta proposta foi recebida com ceticismo. David Brown, em particular, fez um bom caso ligando o fim da tradição da educação cuneiforme em meados do primeiro século AEC ao declínio na qualidade e sofisticação dos textos astronômicos-astrológicos cuneiformes (principalmente almanaques simples e textos da previsão anual), com profissionais competentes articulando cada vez mais seu ofício em grego ou aramaico, a fim de atingir um público mais amplo. Certamente, nos termos cuneiformes que constituem nosso ‘Homem Zodiacal’ (BM 56605), encontramos características não convencionais, como a ortografia incomum GU.MURUB para a “cintura”, o uso de ÚR particularmente para a “perna” inferior e talvez a escolha do termo H AR (?) (kabattu, “dentro”) que era atípico para textos médicos babilônios. Em qualquer caso, nós simplesmente não sabemos o suficiente nesta fase para descartar a possibilidade de que a tabuinha ‘Homem Zodiacal’ pré-datado ou mesmo invocado em relatos do ‘Homem Zodiacal’ por Manilius (ca. 10-30 EC) ou seus contemporâneos. Apesar de reconhecer as grandes realizações da astronomia e astrologia da Babilônia, não se deve tomar como certo que a transmissão das ideias sempre foram unilaterais, ou que influências menos tangíveis nos vibrantes e muitas vezes cosmopolitas séculos finais AEC não poderia ter moldado os esquemas e práticas dos astrólogos babilônios. Nenhuma das incertezas acima, claro, diminui a importância da tabuinha BM 56605 como um artefato da história intelectual, sendo possivelmente o primeiro atestado do ‘Homem Zodiacal’ e definitivamente um testemunho do fluxo de ideias astrológicas entre a cultura cuneiforme e as posteriores.

Na verdade, as semelhanças permanentes nas formas do ‘Homem Zodiacal’ na Tabela 1 não devem nos cegar para a variedade de funções que ele poderia ter realizado. A descrição de Empiricus de como as posições dos planetas benéficos ou malévolos “no hora de nascimento ”foram interpretadas pelo ‘Homem Zodiacal’ (Adversus Mathematicos V, 22), por exemplo, fornece um antigo pedigree às implicações horoscópicas na brincadeira de que a perna dançante de Sir Aguecheek devia sua vivacidade à sua formação “Sob a estrela de um galhardo”. Por outro lado, ambos os usos do ‘Homem Zodiacal’ serviram a propósitos bastante diferentes da prática medieval de consultar a posição zodiacal da Lua antes da sangria, mesmo que as figuras do ‘Homem Zodiacal’ na antiguidade e na Idade Média guarda semelhanças óbvias e compartilha conexões genealógicas. De forma similar, o significado do ‘Homem Zodiacal’ no contexto médico da tabuinha BM 56605 promete lançar luz sobre a lógica da iatromatemática babilônica, revelando significados que poderiam ter se mostrado surpreendentes até mesmo para os autores gregos e romanos. Ao buscar o local de nascimento de uma ideia, podemos acabar descobrindo os caminhos diferentes e maravilhosos que a cultura adotou, internalizando-os e tornando-os seus.

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