Traduções

Astrologia Antiga, entre Mitos e Realidades

John Singer Sargent - Phaethon - Boston

Oliver Rimbault

(Centre de Recherche sur l’Imaginaire, Université de Perpignan Via Domitia)

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Tradução:
César Augusto – Astrólogo

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Artigo modificado publicado na Revista Astralis N° 34 (janeiro, fevereiro, março de 1991): “Mitos e realidades das origens da Astrologia”. Acima de tudo, atualizamos as referências e removemos o parágrafos finais da conclusão, que foram dirigidos a astrólogos. Foi a época em que eu mesmo praticava astrologia, por uma questão de experimentação, ao mesmo tempo em que aproveitava, para escrever este artigo, do meu trabalho de mestrado (a tradução comentada do Livro II do Mathesis do astrólogo romano Firmicus Maternus, sob a supervisão de Guy Sabbah e Josèphe-Henriette Abry, apoiadores deste trabalho na Universidade de Lyon II em Outubro de 1990.

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1. A diversidade de teorias e técnicas atuais. Uma pessoa que, hoje em dia, quer aprender e compreender a astrologia, seu sistema, suas possibilidades atraentes, não se excluí ao perigo de imaginar que a astrologia é um sistema unificado e coeso. Esta é a decepção de muitos neófitos! Não há uma, mas muitas astrologias, que não concordam em certos pontos fundamentais: há dois zodíacos, mais de uma dúzia de sistemas de casas e estilos de linguagens astrológicas muito distintas, em suma, concepções muito variadas de astrologia. Algumas mentes preferem não pensar tanto sobre essa diversidade confusa e preferem encontrar numa escola o sistema que melhor lhe convêm. Certo é que vendo o vigente regulamento das diferentes escolas, pode-se supor que encontrarão os resultados satisfatórios que nutrem a fé do astrólogo que cativa seu cliente. Mas vários experimentos mostraram que a credulidade do consultor e a qualidade humana ou psicológica, ou mesmo a intuição ou “mediunidade” do astrólogo, pode ser suficiente para explicar o sucesso do profissional. E essa diversidade é uma grande vantagem: permite (e exige) de cada astrólogo aprendiz que com sua escolha faça algo melhor, uma pesquisa e uma síntese pessoal.

2. Tradicionalistas e modernos. Alguns astrólogos foram, são e serão tentados a buscar a verdade através da história: vemos muitos defendendo a venerável antiguidade de sua arte, então discutindo entre si brandindo a favor de sua escola e contra os argumentos históricos do vizinho. Em suma, na astrologia, também existem “tradicionalistas” e “modernos”, como veremos, desde pelo menos o segundo século de nossa era! E não é fácil ver claramente nestes debates porque as origens da história da astrologia permanecem numa área não muito conhecida por seus seguidores. Por um século, no entanto, a arqueologia, a paleografia e os estudos de um pequeno número de historiadores sérios não deixaram de fornecer novos elementos que, mesmo sem lançar luz sobre tudo, adequaram apropriadamente o pêndulo à hora.

3. Valor da informação histórica precisa e objetiva. Infelizmente, até nossa época recente, essas obras sérias têm sido pouco lidas (especialmente na França, já que muitos estão em alemão ou inglês). Entre os próprios astrólogos muitos pareceriam (e às vezes ainda parecem) não tê-las lido, preferindo vender uma história de uma ideia muito superficial  e mesmo parcial e errônea da astrologia. Isto é especialmente flagrante entre os astrólogos “tradicionalistas”, que mais do que os outros apelam para a História para defender certas técnicas astrológicas. Informações históricas rigorosas, cuidadosas, sérias e regularmente atualizadas são, portanto, sempre necessárias e úteis. Eu não não pretendo dar aqui, em tão poucas linhas, uma síntese completa e suficiente desta informação, mas vou resumir, dentro dos limites da minha competência, alguns pontos da história que tem sido há muito tempo os mais obscurecidos e mais mistificados.

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1. A questão das origens da astrologia

1.1. Astrologias de calendário. A astrologia, em seu sentido mais amplo, floresceu no mundo todo. É encontrada na China, entre maias e astecas, na Índia, no Egito, no Oriente Médio e, claro, no Ocidente. A astrologia chinesa e a dos astecas (assim como a dos egípcios antes da influência babilônica que começou por volta de 500 antes de nossa era) têm grandes diferenças em relação àquela que chamamos de astrologia do Ocidente. Estes são sistemas de calendário, que indicam significados auspiciosos ou prejudiciais e outros presságios para os dias, meses ou anos, ou mesmo para eras muito mais longas do traçado da história universal. Essas astrologias eram, portanto, baseadas apenas no calendário e na observação dos dois luminares (Sol e Lua) que a definem.

1.2. Mesopotâmia, Egito e Índia. O que chamamos de astrologia no Ocidente é uma arte de presságios baseada em posições e interciclos diretamente observados ou calculados pelos astros. Esta astrologia parece tão antiga que astrólogos e cientistas há muito disputam sobre a questão de sua origem no tempo e no espaço. Sob o Império Romano ela foi uma questão de duas tradições: uma egípcia, a outra babilônica e os proponentes de ambos não hesitaram em apresentar números astronômicos para afirmam a alta antiguidade de sua ciência sagrada:

Berosus, que trouxe a astrologia babilônica para a Grécia no século III a.C., afirmava que sua ciência foi baseada em 470.000 ou 490.000 anos de observações.

Epigenes de Bizâncio avnaçou até 720.000 anos atrás, e Simplício (que foi apropriadamente chamado) até 1.440.000 anos!

– Os partidários do Egito responderam com números semelhantes. Além disso, até o século XIX , o Egito embalava a palma da antiguidade no espírito dos  homens sábios.

No século XIX século, a astrologia indiana descoberta pelos ingleses não deixa de despertar o mesmo fascínio, e seus astrólogos afirmam que o berço da ciência das estrelas, é a Índia, e é da Índia que passou para os gregos via Babilônia. Esses astrólogos, portanto, também afirmam que sua tradição, a mais antiga é mais autêntica e verdadeira, B.V. Raman remonta à época de Parashara, por volta de 3000 a.C. É o próprio tipo de referência vaga e inverificável como os astrólogos amam fazer desde a Antiguidade!

Quem está certo? Permanecendo dentro dos limites da história verificável e de acordo com os documentos mais antigos decifrados até agora, seja babilônico, sânscrito ou egípcio, é isso que podemos declarar:

– A astrologia zodiacal não se originou na Índia, mas chegou tarde da Babilônia ao mundo greco-romano, a partir da segunda metade do primeiro milênio a.C. (principalmente através do mundo helenístico, depois através da Pérsia Sassânida ou pelas rotas marítimas romanas nos primeiros séculos de nossa era).

– Os egípcios tinham sua própria tradição astrológica, tão antiga quanto a dos Mesopotâmios, mas ela estava quase inteiramente preocupada com a medição do tempo: eles foram, portanto, os primeiros, ao que parece, a descobrir os 365 dias do ano solar (desde o início do 3º milênio a.C.). Embora haja muitas referências em seus textos ao Sol, Lua, planetas e estrelas, nenhuma delas parece um tratado astronômico como encontrado na Babilônia. Elas vieram com as invasões persas (meados do primeiro milênio), em seguida, com o império de Alexandre (c. 300 a.C.), que introduziu no Egito o Zodíaco e sua astrologia. Para que o Egito helenístico se torna-se em toda a Antiguidade “o campo mais fértil” da astronomia e da astrologia no sentido grego e moderno. Ptolomeu, o representante mais ilustre de ambos, era alexandrino. A única contribuição do antigo Egito para esta astrologia é a dos decanatos.

Em suma, todos os documentos ou a ausência de documentos permitem considerar a Mesopotâmia como berço da astrologia ocidental. É atestado “ainda modestamente, a partir da primeira metade do segundo milênio” o hábito de observar o céu, de modo que essas observações e alguns dos nomes tradicionais de constelações zodiacais datam dos Sumérios (4º milênio), mas no 2º milênio, a extispicina (adivinhação pelas entranhas) ainda era, ao que parece, muito mais importante. A Mari (primeira metade do 2ª milênio), ela até verificou os resultados astrológicos. Foi no primeiro milênio que a astrologia se tornou «o mântico “científico”  mais famoso, mais praticado e o mais popular e difundido» entre os babilônios.

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2. Astrologia babilônica

No desenvolvimento da astrologia babilônica, pode-se facilmente distinguir dois estágios, ou pelo menos um estado inicial e um estado final: de “coletiva” e empírica como era originalmente, para tornar-se tardiamente “individual” e matemática. Paradoxalmente, estamos muito mais bem informados sobre o estado inicial do que sobre a teoria final (a dos horóscopos individuais), sobre os quais quase nada sabemos.

2.1. Astrologia coletiva e empírica. Astrologia do século XXI parece muito com a dos gregos, mas tem pouca relação com suas origens mais distantes. Os primeiros astrólogos observavam todos os fenômenos celestes, meteorológicos e astronômicos, e atribuíam a eles significados gerais, coletivos ou relacionados ao rei: um dos textos mais antigos (primeira metade do 2º milênio) fazem previsões do estado do céu no dia em que o crescente lunar tornava-se visível no início do ano: “Se o céu for escuro, o ano vai ser ruim”; “Se a face do céu está brilhando quando a lua nova aparecer, o ano vai ser bom”; “Se o vento norte soprar na face do céu antes da lua nova, o trigo crescerá em abundância”, etc.

A coleção de presságios Enuma Anu Enlil, provavelmente composta entre 1500 e 900 antes nossa era, continha cerca de 7.000 presságios deste tipo. Encontramos nos textos hititas do décimo terceiro século a.C. um método que descreve aproximadamente o destino de uma criança a partir do mês de seu nascimento. Mas isso obviamente ainda é muito diferente dos horóscopos planetários da época helenística. Nesta fase inicial da astrologia, os signos do Zodíaco não entravam na linha de consideração na observação dos fenômenos celestes e sua interpretação, só porque eles ainda não existiam! Entre a velha e a nova astrologia, houve um estágio intermediário onde os signos do zodíaco apareceram, mas onde não desenhava-se horóscopos individuais (entre 600 e 400 a.C.).

2.2. Astrologia individual e matemática. Esses horóscopos e astrologia no sentido moderno do termo são, portanto, muito menos antigos do que frequentemente supomos ou acreditamos. O Zodíaco com doze constelações não foi criado até por volta do século VI a.C. Anteriormente, as constelações que os sumérios e babilônios viam na eclíptica eram mais numerosas17. Foi também por volta do século VI a.C. (período neobabilônico) que a atenção aos ciclos da Lua e dos planetas se tornou cada vez mais significativa e precisa, logrando êxito por volta de 500 a.C. com as primeiras teorias matemáticas dos movimentos planetários e a elaboração dos primeiros almanaques. Essas teorias e almanaques foram os instrumentos indispensáveis ​​da nova astrologia, desde que apenas a observação, mesmo à noite na Mesopotâmia, não era suficiente para a criação de um mapa natal ou para previsões precisas de fenômenos astronômicos. Lembremo-nos de que o horóscopo mais antigo conhecido foi feito para o ano 410 a.C. Os outros horóscopos cuneiformes são do período selêucida.

17 Ces constellations sont décrites en détail par A. Florisoone dans deux articles de référence: «LES ORIGINES CHALDÉENNES DU ZODIAQUE», dans Ciel et Terre LXVI, Bruxelles, 1950, et «Astres et constellations des Babyloniens», dans Ciel et Terre LXVII, 1951; voir aussi B.L. van der Waerden. Rappelons qu’on appelle écliptique la bande du ciel où circulent, vus de la Terre, le Soleil, la Lune et les planètes (terme grec signifiant «[astres] errants», par opposition aux étoiles «fixes»).

Em suma, a precisão e a antiguidade lendária da astrologia original são muitos pontos de vista míticos, e é notável que esse mito foi formado praticamente ao mesmo tempo que a chamada astrologia clássica ou grega. O zodíaco foi criado bem mais “tarde” como uma ferramenta ‘matemática’ para fazer cálculos e previsões mais precisos. Vamos adicionar, para encurtar a falsa disputa do astrólogos contemporâneos sobre os dois zodíacos, que o zodíaco original, o dos neobabilônicos, era, na mente de seus criadores, e por causa de sua ignorância parcial do fenômeno da precessão, tanto tropical quanto sideral!

Recueil d'Antiquités by Antoine Mongez, 1904.

3. Astrologia helenística e suas correntes

3.1. Origens e fontes. Como na astrologia babilônica, as origens e os primeiros estágios da astrologia grega (ou mais precisamente helenística) são obscuras. No entanto, podemos localizá-las no tempo: como o próprio nome sugere, esta astrologia nasceu com o império de Alexandre, que uniu a Grécia, o Oriente Médio e o Egito de 335 a 323, data da morte do jovem macedônio. O sacerdote babilônico Berosus trouxe “diretamente” a astrologia de seu povo na Grécia por volta de 280 a.C. Mas também e acima de tudo se desenvolveu no Egito dos sucessores de Alexandre, os Ptolomeus (cuja dinastia reinou de 305 a 30 a.C.). Lá, ela permaneceu inicialmente trancada nos templos onde um clero muito estruturado conferiu para ela um caráter muito mais marcante do que foi na Caldéia, uma ciência sagrada e iniciática. Esses sacerdotes escreveram ao mesmo tempo que Berosus (no século III a.C. portanto) os primeiros tratados sobre astrologia ao mesmo tempo que estes primeiros escritos de sua filosofia ou gnose hermética se impregnavam de astrologia. Isso se revelou como uma sabedoria que nós atribuímos à revelação de Hermes-Thot, ou de Nechepso e Petosiris (século II a.C.).

Esses tratados não tardarão a sair dos templos. Eles serão a “Vulgata da astrologia Helenística”, as fontes mais antigas (com a Babyloniaca de Berosus e outros hipotéticos tratados caldeus?) dos astrólogos greco-romanos: Nigidius Figulus foi quem introduziu a astrologia “erudita” em Roma no século I a.C., Serapião de Alexandria que foi, sem dúvida, o aluno de Hiparco, Teukros (período obscuro), Manilius (contemporâneo Imperador Augusto), Doroteu de Sidon no século I d.C., Vettius Valens, Manetho e Ptolomeu no século II, Firmicus Maternus e Paulo de Alexandria no século IV, Retório no século VI, etc.

Não vamos listar aqui os muitos astrólogos antigos ou estudar como sua arte conquistará seus contemporâneos, desde um ‘civis romanus‘ até o Imperador. Tudo isso vai muito além do nosso propósito. Só precisamos fazer duas observações sobre o desenvolvimento da astrologia romana. A primeira é que dois tipos da astrologia aparecem à medida que a arte de ler nas estrelas se espalha, torna-se secular, e se populariza: uma astrologia erudita, é claro, aquela pela qual todos os tratados escritos por compiladores, estudiosos, astrônomos, filósofos, médicos, etc.; derivado desta e sem dúvida também antiga, uma astrologia popular, a dos “caldeus” da rua, que muitas vezes não precisava ser sobrecarregada com grande erudição técnica e teórica. A segunda observação que se pode fazer ao estudar a astrologia do período romano é que também aparecem duas correntes nas quais se pode ver uma dialética permanente para a continuação da astrologia, porque essa dialética corresponde a duas atitudes arquetípicas: uma astrologia ocultista difere cada vez mais de uma astrologia “racional”, com pretensão científica.

3.2. Astrologia ocultista. A astrologia ocultista (mesmo mística) deste período é caracterizada pelo seu tradicionalismo e fatalismo. Ela realmente postulou um criador divino do mundo e destinos. Firmicus Maternus, século IV d.C., é o mais típico representante desta corrente. Ele é o autor de Mathesis, o maior tratado de astrologia em língua latina legada a nós pela Antiguidade, escrito por volta de 337, pouco antes da morte de Constantino. Alguns trechos darão uma ideia melhor de seu estilo e de seu ensinamento:

Para o futuro astrólogo:

“Esforce-se para ter as regras de vida e as disposições prevalecentes dos bons sacerdotes; do sacerdote do Sol, da Lua e de todos os outros deuses [planetários] pois, por eles todas as coisas terrenas são governadas [em outras palavras, o astrólogo] devendo sempre edificar sua alma de tal forma que os testemunhos de todos os homens o reconheçam digno de tais práticas veneráveis ​​[a prática da astrologia].

Não confie os mistérios desta prática sagrada aos desejos inconstantes da alma; dentro da verdade, as mentes dos homens depravados não devem ser iniciadas em práticas divina […]. Seja puro, casto, e se você se separou de todas as atividades ímpias, que geralmente leva a mente à perdição, […] se você se mostra sem falhar e se você tem em mente sua origem divina, aproxime-se deste trabalho e aprenda com os livros o seguinte; para que a divindade transmita sua ciência a você em sua totalidade e que se aproxime de sua alma com sua grandeza profética e misteriosa; para que você alcance a real ciência da divindade e que você se torne capaz de explicar os destinos humanos e desvende o curso da existência não apenas com todo o seu conhecimento livresco, mas também pelos julgamentos pessoais de sua mente; a fim de receber mais da divindade de sua alma do que o ensino livresco”.

Para que todas essas belas palavras não pareçam muito delirantes! Aqui estão alguns trechos da prática do astrólogo em Firmicus Maternus:

“Um mapa natal é medíocre quando contém nas casas principais apenas um planeta localizado em seu domícilio;26 satisfações medianas apoiam aquele que tem dois planetas localizados em seu domicílio nas casas favoráveis ​​do mapa natal; aquele que tem três será extraordinariamente feliz e poderoso. Quem tiver quatro planetas em seu domicílio quase alcançará a felicidade dos deuses. A condição humana não permite que este valor seja ultrapassado. Aquele que não tiver nenhum planeta localizado em seu domicílio será um desconhecido, um homem de baixa extração, e sempre ocupado com atividades miseráveis.

Por mais benevolente que seja o planeta Júpiter, ele sozinho não consegue resistir ao ataque de Marte e Saturno, se eles atacarem com radiação violenta [o aspecto “ruim” em uma linguagem mais astrológica]; na verdade, os homens seriam imortais se, em suas genituras, a beneficência de Júpiter nunca fosse derrotada”.

26 A astrologia atribui a cada planeta (Sol e Lua incluídos) signos onde a força de sua influência é tão grande quanto positiva: o astrólogo chama esses signos de domicílio dessas estrelas (domicilium em latim). Por exemplo, o Sol está em seu domicílio em Leão; Virgem é com o signo de Gêmeos um dos dois domicílios de Mercúrio, etc. As “casas” (domus em latim) são ainda outra coisa: elas designam as divisões da esfera celeste do horizonte e do meridiano para o momento em que o horóscopo traça as várias posições astrais.

Ao longo dos seis livros de seu Mathesis, Firmicus, como um bom compilador, enumera ou bons ou maus “destinos” que reservam cada aspecto, cada posição planetária em cada signo ou em casa, em cada grau do Ascendente, etc., sem nunca dar ao seu aluno a chave para um leitura sintética do mapa astral. Estamos nadando em uma massa de informações confusas, frequentemente contraditórias. De forma igualmente típica, ele apresenta diversas técnicas (as dodecatemorias, casas, lotes, o 90º grau, graus “simbólicos”, etc.) como se cada uma fosse a chave para os “segredos” do mapa natal e do destino individual em sua totalidade.

Em suma, o aprendiz de astrólogo da Antiguidade teve ainda mais dificuldades que seu colega de hoje para entrar nesta floresta virgem no fundo da qual ele esperava encontrar a onisciência divina! Mais uma vez, não vamos nos enganar: a grande maioria das tratados dos chamados “grandes” astrólogos antigos, começando com a Astronomia de Manilius (século I d.C.) são do mesmo estilo.

3.3. Astrologia racional. Uma segunda corrente se opôs completamente a corrente que chamamos de ocultista: é a corrente da astrologia racional, de forma alguma sujeita ao culto da Tradição, herdeira dela, não hesita em renová-la. Ptolomeu é obviamente o grande representante desta corrente, no século II d.C. e talvez não seja o primeiro. Hiparco de Nicéia, seu ilustre predecessor na astronomia (século II a.C.) não só descobriu a precessão dos equinócios, mas parece ter sido muito hábil em astrologia também. Ele reformou alguns pontos, como a melothesia zodiacal e antíscia*. Ele se entregou a isso em nome de uma ideologia mais ou menos platônica ao parentesco da alma humana com as estrelas e com o céu. Ideologia que nós encontrado nos textos herméticos de outro grande estudioso do período helenístico, Eratóstenes de Cirene (século III a.C.). Este espírito universal dirigiu a Biblioteca de Alexandria nos últimos quarenta anos de sua vida, calculou o circunferência terrestre e a obliquidade da eclíptica com precisão surpreendente, e escreveu entre outras obras, uma de Hermes infelizmente perdida.

Antíscia ou Antiscío: O reflexo da posição do planeta no eixo Câncer-Capricórnio. Em outras palavras, antíscios são reflexos, ao longo do eixo vertical do zodíaco natural (a uma distância angular de 45º), ou seja, o ponto médio da posição de um planeta. Por exemplo, o antíscio do 9º de Capricórnio é o 21º de Sagitário; o antíscio do 12º de Libra é o 18º de Peixes; o antíscio do 5º de Áries é o 25º de Virgem.
l'homme astrologique bernard blanchet

L’homme Astrologique – Bernard Blanchet

A diferença ideológica é grande entre estudiosos como Eratóstenes ou Hiparco, que adotaram e desenvolveram certas crenças metafísicas de seu tempo e, Ptolomeu de Alexandria, que majestosamente ignora a doutrina hermética dos decanatos ou talvez mesmo sem entendê-la, como tantas outras técnicas tradicionais mas que considerava “ilógicas” ou “infundadas” porque “antinaturais”. Esta diferença é significativa na distância percorrida pela astrologia entre o século II a.C. e o II século d.C. sob a influência do desenvolvimento da ciência e da reflexão filosófica (em particular Aristóteles). Apócrifa e iniciática que ela era, a astrologia vai se tornando cada vez mais técnica, e é ensinada por autores que se nomeiam entre si e, que às vezes defendem opiniões pessoais ou criticam as de seus predecessores. Sob o Império Romano, a astrologia, portanto, evolui em duas direções que permanecem misturadas em vários graus dependendo dos autores: alguns currículos (a maioria), desenvolve e até mitifica os materiais e o espírito místico e oculto da astrologia hermética. Outros, no entanto, como Ptolomeu e aqueles que irá influenciar (cada vez mais numerosos) tentam sistematizar e “racionalizar” esses materiais confusos. Eles adicionam cada vez mais os processos técnicos apreendidos, não sem excesso.

Ptolomeu não era apenas o que seus herdeiros medievais chamariam de “Príncipe dos Astrólogos”. Ele também foi o último grande estudioso da Antiguidade. Como tal, seu trabalho (especialmente sua astronomia e geografia) terá autoridade sobre os árabes e ocidentais até o Renascimento. Ptolomeu também era um filósofo, e a maioria de suas concepções da astrologia, mesmo que permaneçam dentro dos limites da ciência de seu tempo, são surpreendentemente modernas. Vamos resumir algumas de suas ideias, o que nos permitirá julgar e compreender o que o distingue de um Firmicus.

Desde a introdução do Tetrabiblos, Ptolomeu fez uma distinção clara entre astronomia (cujas previsões são certas) e astrologia (cujas previsões são relativas). Deixando a partir daí, ele procura defender uma posição intermediária entre aqueles que julgam a astrologia muito difícil e incompreensível, e aqueles que julgam desnecessário prever a fatalidade inevitável. Em suma, os adversários da astrologia são ignorantes e o fatalismo a destrói o seu melhor. Esta é uma atitude intelectual inédita sem precedentes em sua época: antes de expor sua doutrina, Ptolomeu não a defende com um determinismo absoluto (como Firmicus faz com os ingênuos argumentos!), mas circunscrevendo “a possibilidade e utilidade de tal método de previsão” (I, 1-2).

Ele primeiro tenta defendê-la: já que é comum e cientificamente reconhecido certas influências dos astros (em particular as do Sol e da Lua) no mundo terrestre, por que as condições climáticas e astrológicas não influenciam o destino humano ‘através’ do temperamento, ‘através’ do corpo? (I, 2-6). Nós também não podemos, disse ele então, condenar a astrologia julgando-a pelos impostores ou incompetentes – que são muitos, enfatiza. A astrologia tem seus limites, que são os de seu praticante, mas também os de seu objeto:

– Qualquer ciência da matéria e do mundo sublunar é conjectural, especialmente aquela que é composta por muitos elementos diferentes (I, 2-7);

– As configurações astrais nunca se repetem de forma perfeitamente idêntica: Ptolomeu portanto, rejeita a astrologia que, como a da Babilônia, extrai seus oráculos do que é já produzido. Qualquer situação de previsão sempre envolve um fator desconhecido e sem precedentes (I, 2-7);

– Por fim, o astrólogo certamente se enganará se não levar em consideração a influência da hereditariedade (“a semente, a raça”), a do ambiente social e cultural (“o país e seus costumes”) e “todos os outros dados acidentais” (I, 2-8 e 9) – Ptolomeu também falará do fator idade, no Livro IV.

Alguns cientistas modernos, induzidos ao erro pelo seu racionalismo e pelo mito do progresso que projetam sobre um sobre estudioso grego como Ptolomeu, julgaram o seu trabalho astrológico “enigmático” e têm-se perguntado seriamente, como Germaine Aujac, se tudo deve ser “levado ao pé da letra” ou melhor “se há uma boa dose de humor nisso”. Ao mesmo tempo, abusado pelo mito oposto (o das verdades perdidas da Antiguidade), alguns astrólogos contemporâneos criticaram Ptolomeu por ter “corrompido” grandemente um tradição original que, de certa forma, só existe em suas mentes. Esses poucos exemplos mostram como ninguém garantiu a sobrevivência e o desenvolvimento de astrologia no Ocidente: primeiro, rejeitando a concepção estoica de tempo (o Eterno Retorno) e o universo (determinismo absoluto), em seguida, ligando a astrologia à doutrina de temperamentos (que dominariam a medicina até o século XVIII século e que prenunciou a psicossomática moderna). A parte em que Ptolomeu reconhece outras influências com um modernidade cheia de bom senso, renovou a astrologia médica e, acima de tudo, lançou as bases da astrologia cristã (conforme definido por Santo Tomás de Aquino) e até mesmo o fundamentos da astrologia psicossomática do século XX!

A título de resumo e conclusão

Com esta rápida apresentação, queríamos mostrar duas coisas. A primeira é que as ideias sobre astrologia são muitas vezes, por sua imprecisão e caráter tradicional, mais ou menos míticas. Por exemplo (citações autênticas): “Astrologia é da antiguidade venerável, mesmo imemorial”, “os astrólogos da antiguidade eram grandes astrólogos para quem os modernos parecem pálidos”, “houve uma tradição autêntica hoje mais ou menos perdida”, “os hindus preservaram esta tradição”, “esta tradição tem uma notável capacidade preditiva perdida por astrólogos que se refugiam na “astro-psicologia”, etc. Esses tipos de erros são encontrados em alguns escritos dos primeiros historiadores da astrologia: Otto Neugebauer (1899-1990) foi, portanto, capaz de criticar as teorias “aberrantes” de uma filosofia cósmica babilônica associada à astronomia muito antiga, que certos historiadores alemães defendiam entre 1900 e 1914.

Foi assim criada uma imagem fantástica, que exerceu (e continua a exercer) uma grande influência na literatura a respeito da Babilônia, por meio do desprezo supremo de toda prova textual, do uso generalizado de traduções desatualizadas, a serviço de cronologia absolutamente preconcebida.

O mesmo autor mostra ao mesmo tempo que não encontramos a menor intenção de mistério, segredo em textos matemáticos ou astronômicos, egípcios e mesopotâmicos. A noção de esoterismo prontamente se presta a mitos e ideias arbitrárias de todos tipos, especialmente para períodos distantes e pouco conhecidos.

A segunda coisa que queríamos demonstrar (se necessário!) é que, se nós postula que a astrologia ainda merece alguma atenção científica (como o afirmam estudiosos autênticos treinados pela universidade, como Jacques Halbronn e Patrice Guinard), no entanto, a História não pode ser um critério de verdade absoluta em matéria de técnica astrológica: a noção de “Tradição” sempre cobriu tradições e às vezes técnicas concorrentes ou contraditórias, às vezes cheias de erros e confusão, e muitas vezes mascarado por uma ideologia que não é mais crível hoje. Além disso, estas tradições foram construídas passo a passo, começando em tempos relativamente recentes. Através, portanto, quando devemos situar “Tradição” se queremos dizer com ela um estado, inicial ou não, onde a astrologia formou um corpus completo e genuinamente “autêntico”?

– Na Babilônia? Portanto, não vai além do século VI a.C. Nós infelizmente não saímos nada da teoria dos astrólogos babilônios. Em qualquer caso, ela ainda não continha muitas das técnicas chamadas tradicionais, como a dos decanatos, a dos quatro humores tão fundamentais na astrologia médica, ou a da Lua simbolizando o feminino (o pecado era para os caldeus uma divindade masculina). Presumivelmente, esta teoria não conseguia compreender a técnica das casas astrológicas. Finalmente, não peçamos aos babilônios para decidir a questão do Zodíaco, já que era para eles (por ignorância) sideral e sazonal!

– A “Tradição” se originou no Egito helenístico? Portanto, remonta o mais tardar ao século III a.C. e especialmente a época de Hiparco (150 a.C.). Se é verdade que o corpus astrológico conhecido não vai além dessas datas, porque alguns astrólogos eles queriam que fosse “terminado” antes de Ptolomeu? Devemos rejeitar, quando somos astrólogos, as inovações que ele fez, na astrologia médica, por exemplo, e aquelas que vieram atrás dele, especialmente dos árabes? É verdade que os indianos emprestaram a astronomia grega adotaram a astrologia helenística antes de conhecerem a influência de Ptolomeu que “aperfeiçoou” o ponto de vista do racionalismo grego.

De um ponto de vista histórico e racional (se for possível abordar racionalmente aqueles que são movidos por sua imaginação), é, portanto, um processo inconsistente aquele que é realizado por defensores da “Tradição” para Ptolomeu. Mas a questão é que ele foi o iniciador ou o bode expiatório de um debate psicologicamente muito interessante e de base antropológica entre defensores da tradição (outro nome para revelação divina, que deve ser mantida ou redescoberta) e defensores da modernidade (outro nome para a razão humana, que não tem medo inovar, mesmo que signifique romper com as verdades mais bem aprendidas que garantem a ordem intelectual e social).

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Bibliographie
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Festugière, André-Jean, La révélation d’Hermès Trismégiste (4 vol), t. I; L’astrologie et les sciences occultes, avec un appendice sur l’Hermétisme Arabe par Louis Massignon; t. II, Le dieu cosmique; t. III, Les doctrines de l’âme suivi de Jamblique, Traité de l’âme, traduction et commentaire; Porphyre, De l’animation de l’embryon ; t. IV, Le dieu inconnu et la gnose, Paris, J. Gabalda, 1950-1953, réimp. en un vol. de la 2e édition, Paris, Les Belles Lettres, 1989, 2006 (nouvelle édition définitive, revue et augmentée, 2014).
Firmicus Maternus, Julius, Mathesis (3 vol.), texte établi et traduit par Pierre Monat, t. I (Livres I et II), t. II (Livres III-V), t. III (Livres VI-VIII), Paris, Les Belles Lettres [CUF], 1992-1997.
– Mathesis [Livre II], présentation, traduction et commentaire par Olivier Rimbault, Mémoire de maîtrise soutenu à l’université Lyon II en octobre 1990, préparé sous la direction de Guy Sabbah et de Josèphe-Henriette Abry.
– L’erreur des religions païennes, texte établi, traduit et commenté par Robert Turcan, Paris, Les Belles Lettres, 1982.
Florisoone, André, «Les origines chaldéennes du zodiaque», dans Ciel et Terre LXVI, Bruxelles, 1950, p. 256-268; – «Astres et constellations des Babyloniens», dans Ciel et Terre LXVII, Bruxelles, 1951, p. 153-169.
Gundel, Wilhelm & Hans Georg, Astrologoumena: Die astrologische Literatur in der Antike und ihre Geschichte, Wiesbaden, Steiner, 1966. Un compte-rendu de cet ouvrage par Robert Turcan en fait un très bon résumé en français : «Littérature astrologique et astrologie littéraire dans l’Antiquité classique», dans Latomus, t. XXVII, avril-juin 1968.
Neugebauer, Otto, Les sciences exactes dans l’Antiquité (1952), traduit de l’américain par Pierre Souffrin, Arles, Actes Sud, 1990.
Parker, Richard A., «Egyptian astronomy, astrology and calendrical reckoning», in Gillespie, Charles Coulston (editor in chief), Dictionary of Scientific Biography (16t. en 8 vol., 1970-1980), t. XV [=Supplement I], New York, Charles Scribner’s sons, 1978, p. 706-727.
Pingree, David, «History of mathematical astronomy in India», in Gillespie, Charles Coulston (editor in chief), Dictionary of Scientific Biography (16t. en 8 vol., 1970-1980), t. XV [=Supplement I], New York, Charles Scribner’s sons, 1978, p. 533-633.
Ptolémée, Tetrabiblos, edited and translated into English by Frank Egleston Robbins, London, Harvard University Press [coll. Loeb], 1940, réimp. 1980.
– Le livre unique de l’astrologie [=Tetrabiblos]: Le Tétrabible de Ptolémée. Astrologie universelle et thèmes individuels, présenté, traduit et commenté par Pascal Charvet, avec la collaboration scientifique de Robert Nadal, Yves Lenoble et Jean-Marie Kowalski, Paris, Nil éditions, 2000.
Turcan, Robert, Les cultes orientaux dans le monde romain, Paris, Les Belles Lettres, 1989.
– Voir aussi Gundel, Wilhelm & Hans Georg. Van der Waerden (Bartel Leendert), «Mathematics and astronomy in Mesopotamia», in Gillespie, Charles Coulston (editor in chief), Dictionary of Scientific Biography (16t. en 8 vol., 1970-1980), XV [= Supplement I], New York, Charles Scribner’s sons, 1978, p. 667-680.

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